Autor: livro.fada

  • Capítulo 10 – Bruxa

    O cara da gravadora continuava enrolando. Toda semana ele ligava e inventava alguma coisa. Agora ele queria uma gravação com uma qualidade melhor do que a do nosso notebook. Seguimos então para Socorro, São Paulo, encontrar com o Vitor da Caixa Rolante. É um projeto que grava bandas em espaços abertos, muito bacana! Fazia tempo que nos comunicamos online e ele tinha um estúdio por lá. Queríamos muito gravar Pão de Queijo, Um Ano Sem Amor e, se sobrasse tempo, a música que a gravadora queria.

    Ficamos hospedados em um hotel em troca de um show. Montamos nosso estúdio no quarto porque Bardo gostava de ir para o estúdio com um arranjo pré-gravado. Ficamos ali dentro do quarto do hotel viajando nos sons. Achamos que Pão de Queijo ia ficar linda com uma viola caipira e, estando no interior de São Paulo, não devia ser difícil encontrar. Foi fácil mesmo e logo nossa música tinha um toque especial, uma viola no meio do rock n roll. Realmente ficou lindo.

    Com os arranjos prontos fomos para o estúdio e captamos tudo em uma tarde só. Em alguns dias já enviamos a nossa versão para a gravadora. Eles gostaram e vieram de novo com aquela conversa ruim. Turnê insana de três, cinco shows por semana. Não. Sentei com o Bardo e decidimos que ia ser a última vez que íamos conversar com uma gravadora. Não tem, e nunca vai ter, dinheiro que pague eu não estar com as minhas filhas. São Paulo, 2012, me ensinou a lição.

    Quando eu paro e olho para trás e penso nos momentos em que me senti feliz eu raramente me lembro de um momento em cima do palco. Mesmo os shows grandes, mesmo os com muito público, mesmo os bem pagos. O que eu me lembro é de fogueira, de mato, de chuva, de estar vadia na floresta, em uma trilha rumo à cachoeira e, claro, com as pessoas que eu amo. Cada momento com o Bardo, com as minhas filhas, com os meus amores. É isso que me faz feliz de fato, que me deixa contente. E isso eu já tenho, ninguém compra.

    Foi assim que saímos de Socorro rumo ao infinito. Sem data, sem hora, sem local. Fazia o som na rua ou onde me convidassem só pela grana da comida e da gasolina. Se pegasse um dinheiro bom mesmo, como uns trezentos reais, pegava comida para uma semana e me escondia na cachoeira.

    Foi assim que conhecemos a Dona Zilda.

    Estávamos na casa de um dos nossos amigos milionários. Ele era amigo do dono da maior casa de shows do estado e conseguiu um espaço para tocarmos lá por um cachê razoável. Fomos à tarde conhecer o lugar e fechar com eles. Era um inferno, uma daquelas casas escuras e labirínticas. Ele nos mostrou o palco e disse que íamos tocar depois de uma banda famosa, que nosso show seria às duas horas da manhã.

    – Duas horas da manhã eu quero estar dormindo por pelo menos seis horas. – eu disse. O homem riu nervoso, sem saber se eu fazia piada. Eu não fazia.

    Ele nos mostrou o camarim e a área VIP. Disse que era parte do contrato que estivéssemos nessa área depois das dez horas da noite. Fiquei imaginando o que ele queria que eu ficasse fazendo ali por tantas horas antes do meu show. Eu nem gostava da banda de abertura. Ele então disse que era para levar as minhas filhas. Fingi que não ouvi. Que tipo de imbecil convida crianças para uma balada na madrugada?

    Chegamos na hora combinada e fomos para a área das Very Important Persons – quem quer que fossem. Foi o inferno. Era um monte de gente metida à besta por ter algum dinheiro usando drogas e falando merda. Nos davam copos e mais copos de bebida – vindas sei lá de onde. Bardo fez amizade com o cara do bar e discretamente trocávamos os copos por água com gelo.

    As mãos bobas não se seguravam. Pegavam na minha mão, no meu pulso, na minha cintura. Era como um filme de apocalipse zumbi. Gente nojenta, com seus sorrisos falsos e os olhos vazios, tentando tirar um pedaço de nós. Tentamos sair, mas a moça da porta disse que o nosso pagamento seria feito apenas antes do show, depois da presença na área VIP. Seguramos a onda, dando tapas nas mãos como mosquitos.

    Sério mesmo que era para trazer crianças aqui?

    Finalmente fomos pagos e subimos no palco. O público parecia um monte de carcaças vazias, balançando com a música. Já tinha tanta droga ali que não sei se alguém lembra do nosso show. Por sorte, algum funcionário veio e disse que estava o suficiente antes do tempo combinado. 

    Ali eu entendi que não era o show que tinha sido contratado. Ele pensou que íamos transformar a área VIP em uma casa de swing. Se tivesse me contratado para isso, quem sabe? Mas essa galera com dinheiro entre as orelhas pensa que sabe mais.

    Bardo começou a arrumar as coisas para sairmos dali, mas foi o tempo dele virar de costas e um segurança me pegou pelo braço com força e começou a me puxar. Tentei gritar mas foi inútil.

    Ele me arrastou para uma escada e entramos em um labirinto. Eu pedia que ele me soltasse mas era muito mais forte que eu e não respondia nada. Abriu uma porta e me mandou para dentro. Lá estava o dono da casa de show e a banda famosa. Respirei aliviada, mas ainda não era hora para isso.

    Eles estavam muito alterados, bebendo e cheirando, e o dono da casa começou a fazer sugestões de que eu poderia ser o brinquedo deles naquela noite. Eles começaram a me cercar. Eu sentada no sofá, exausta, sem a menor chance de defesa. Que merda. O vocalista sentou do meu lado, tentou mexer no meu cabelo. Dei um tapa na mão dele. Ele riu alto e tentou de novo. Por dentro, eu morria. Tentava tirar a minha alma dali, preparando meu corpo para fazer algo que eu não queria.

    De repente, a porta abre e o segurança entra à empurrões. Bardo entra na sala e me puxa pela mão. O dono da casa começa a gritar com o segurança, perguntando o que meu marido estava fazendo ali. 

    – Vim buscar o que é meu – Bardo respondeu, me tirando daquele inferno.

    Se essa era a maior casa de shows do estado, então esse é o tipo de ambiente que eu teria que trabalhar se fechasse com a gravadora? Três vezes por semana disso? Melhor me largar na zona da beira da estrada de uma vez!

    Pegamos nosso equipamento, fomos para a casa do nosso “amigo”, pegamos as kids e saímos sem rumo. Paramos na primeira placa que dizia: cachoeira.

    Era uma queda pequena, rasa, muito gostosa. Uma estrada de chão acompanhava a margem e, do outro lado dela, um daqueles botecos antigos que sempre me perguntava como se mantinha em pé em um lugar perdido como aquele. Era domingo e algumas pessoas bebiam cerveja, cedo da manhã.

    Paramos e pedimos por café. O dono do lugar, um mineiro velho com poucos dentes, sorriu e nos apontou os fundos. Entramos e encontramos um fogão à lenha à todo vapor. Uma senhora cuidava de uma série de panelas. Era a Dona Zilda. Pedimos café e ela nos serviu. Perguntou se queríamos pão de queijo. Aceitamos. Ela pegou um tacho, encheu de polvilho e queijo e começou a preparar ali, na nossa frente. Eu nunca tinha visto pão de queijo sendo feito do zero e assistimos como um espetáculo.

    Ficamos de papo com ela. Muito faceira, ela nos contava sobre a cachoeira e como o lugar era movimentado aos finais de semana. Nos convidou para almoçar. Nos deliciarmos em um legítimo almoço: arroz, feijão, galinha caipira no quiabo. Quando pedimos a conta, Dona Zilda se espantou. Não tinha conta nenhuma, era um convite. Segurei um choro. Ter saído tão rápido daquele ambiente hostil de gente asquerosa e supostamente rica para esse lugar de verdadeira riqueza e abundância foi um baque.

    Passamos a tarde na cachoeira. Um tempo atrás ganhamos um daqueles sofás infláveis e Bardo fez dele um bote para as meninas brincarem na corredeira. Foi maravilhoso! No final da tarde, Dona Zilda chamou para o café. Ela comentou que ficava muito triste no domingo à noite porque tinha que voltar para a casa dela na cidade e esperar o próximo final de semana. Bardo e eu nos olhamos, contamos o dinheiro no bolso (ao menos aqueles filhos da puta nos pagaram) e perguntamos:

    – Dona Zilda, quanto ia custar para a senhora ficar conosco nesta semana, cozinhando?

    Ela fez alguma conta doida na cabeça e deu o preço: Duzentos reais. Olhamos incrédulos. Seriam quatorze refeições para quatro pessoas. Não tinha como dar esse preço. Pedimos para ela conferir a conta. Ela sorriu e disse que era isso mesmo e já perguntou o que queríamos para jantar. 

    – Quais as opções? – perguntei.

    – O que você vê ao redor que dá para comer, temos. – ela disse, sorrindo.

    Olhei. Tinha galinha, uma horta com muitas saladas e temperos, alguns pés de mandioca. 

    – Frango com mandioca? – falei meio em tom de pergunta, um pouco incrédula. E foi assim que me tornei cúmplice no pronto assassinato de uma galinha que passava por ali. Ela tirou um pé de mandioca direto da terra, descascou e colocou na panela. As kids assistiam aquilo sem acreditar, nós com os olhos lacrimejando. Ali estava uma pessoa que conhecia o verdadeiro valor da vida.

    Passamos uma semana ali com aquela senhora incrível. Ela nos acordava batendo na janela da Elvira, com o cheiro de café e pão de queijo, exatamente como a música que escrevemos. Encontramos o paraíso, a melhor coisa que a vida poderia oferecer: amor, comida, cachoeira, boa companhia, cachaça (aquela pura da roça) e violão.

    Nada que é bom é pra sempre, então seguimos nosso caminho. Nunca mais soube da Dona Zilda, ela ignorava a internet, mas sei que ela ainda é feliz.

    E só para pontuar: ela era evangélica, muito devota, e não nos perturbou com a religião dela por um minuto sequer. Prova de que você pode guardar a sua para você e ser uma pessoa amável de verdade. Se o paraíso cristão existir mesmo, ela será uma das poucas pessoas por lá.

    ***

    Alguns dias, ou meses, ou quilômetros depois, não sei, subimos uma montanha e fomos parar no portão de um antigo hotel abandonado que uma família maluca tinha comprado para transformar em um centro holístico.

    O lugar tinha uma energia surreal e diversas cachoeiras. Era tão isolado que eu andava nua e despreocupada por lá o dia todo. Ajudamos na colheita do feijão e da mandioca. Bardo estava nas nuvens com a culinária. O marido era um mestre na Tikka Masala – um tempero indiano – e curtimos um cardápio vegano por uns dias. Também tinha muito pinhão e um pomar lotado de goiabas, onde Bardo desaparecia por horas.

    Tudo parecia muito bom e belo por lá, mas esses lugares isolados sempre tem uma maluquice ou outra. A mãe da família era meio que uma líder de seita, bastante militar e colocava ordem em tudo. Fomos indo na onda dela até onde foi possível, mas já estava dando no saco. Quando ela disse que ia ficar fora por três dias para dar um curso de alguma balela espiritual ficamos aliviados.

    Mas foi só o tempo dela virar a esquina e a família correu pedindo socorro. Parecia que a coisa era bem mais seita do que imaginamos e eles queriam só um alívio daquilo enquanto ela estava fora. O marido nos confidenciou que não transava há muito tempo. Que ela tinha até cortado a cebola do cardápio porque, segundo alguma liderança cósmica, a cebola estimulava a libido e sexo era uma coisa suja, baixa e carnal. Ela só queria saber de chá de cogumelo, fumar maconha e meditar.

    E lá estavam elas de novo, as drogas, sendo mais importantes que sexo. Isso me irritou profundamente. Que merda de superioridade é essa que esse povo chapado pensa que tem sobre quem encontra sua iluminação no sexo? Eu não tinha a menor intenção de transar com o cara, mas também precisava de uma desforra. 

    Convidei ele para caminhar nu comigo na cachoeira. O coitado tremia. Ele não era um cara de se jogar fora, de forma alguma, só não tinha batido a química. Ele sentou em uma pedra e eu fiquei me banhando na cachoeira, batendo papo. Primeiro queria ver se ele seria respeitoso, ainda mais subindo as paredes como estava. Ele foi. Nem de pau duro ficou. Devia estar se concentrando muito, pensando em cebolas, talvez. Não, espera, cebolas aumentam a libido!

    Quando percebi que ele estava de acordo com meu espaço, me aproximei e fiz um carinho nas costas dele. O homem desabou. Estava travado, tenso, tudo nele era duro com exceção do pau. Disse no ouvido dele que podia relaxar, que estava tudo bem, e o caralho subiu na hora, extremamente teso. Dava aquelas pulsadas para cima. Ele estava nervoso. 

    Lembrei de mim mesma, anos atrás: Alguma coisa dentro dele devia gritar em desespero, as ideias espirituais da mulher maluca contra as necessidades mais básicas do corpo humano. E isso é algo que eu não desejo para ninguém, apesar de saber que é muito comum.

    Fiz uma massagem nos ombros e fui descendo com os dedos pelo peito dele. Cheguei na barriga e ele deu um gemido esquisito. Olhou para o céu e fechou os olhos, respirando fundo. Desci pela virilha e passei as unhas levemente nas bolas. Estavam extremamente duras.

    E ele gozou.

    Eu já tinha feito muita gente gozar rápido na vida, ainda mais os moleques de vinte e poucos, mas nunca tinha visto um homem daquele tamanho explodir daquele jeito. Segurei o pau dele enquanto jorrava porra pra cima. Litros. Aquela energia toda presa ali, matando ele por dentro.

    Ele mordeu os lábios de uma forma que parecia segurar um choro. E o pau continuou completamente duro na minha mão. Comecei a punhetar devagar, falando no ouvido dele para esquecer todas as merdas espirituais e se concentrar no relaxamento, no prazer, no que ele sentia de verdade. Lambia meu dedos, molhava, passava os dedos devagar na base da cabecinha. Não demorou muito. Mais um minuto ou dois de punheta lenta e ele começou a cuspir porra na água corrente.

    Foi uma experiência interessante. Eu me sentia mais uma bruxa médica do que uma mulher fazendo um ato sexual. Dava pra ver as veias dele pulsando no corpo todo e os ombros relaxando devagar. Não soltei ele. Esperei por alguns minutos e, vendo que a respiração dele acalmou e o pau continuava intenso, comecei de novo.

    Dessa vez ele durou mais. Colocou as mãos para trás, relaxou mesmo e ficou curtindo. Parei de falar. Ficamos ouvindo os pássaros, a água caindo da cachoeira e os gemidos que ele deixava escapar. Eu me sentia bem. Já tinha esquecido que tinha começado aquilo por raiva da bobagem espiritual dela e estava no meu próprio ritual. Era como se eu estivesse de posse das chaves dos grilhões que o seguravam.

    Depois de cinco minutos, percebi que ele podia com um pouco mais, então coloquei na boca. Ele não se aguentou. Soltou um gemido muito alto, quase um grito, como quem sente aquela dor de muito tempo sem prazer. E aí foi rápido. Não deu tempo de dar aquela mamada especial. Senti pulsar forte e tirei da boca. Deixei o leite voar alto e cair na água, aquela energia travada, encruada, indo embora.

    Ele não me tocou. Respeitou meu espaço a cada momento. Me agradeceu e saiu, me deixando ali. Tomei mais um banho de cachoeira, sorrindo sozinha. Senti que tinha feito algo muito bom para alguém, um ato de amor verdadeiro.

    Quando voltei, as kids me contaram que as crianças estavam passando fome. Que tinham que comer carne escondidas na escola porque a mãe não deixava. Que porcaria de religião é essa? Bardo conversou com o marido e ele também sentia falta da proteína animal. Decidimos então matar uma galinha e comer com mandioca. O marido pediu ao Bardo que fizesse o abate fora da cerca da propriedade e que quando ela descobrisse – e ela ia descobrir – que ele assumisse a culpa, já que íamos embora mesmo.

    Assim foi feito. Bardo e eu levamos o bicho para fora da cerca e fomos responsáveis por mais um galo indo para o além. Obrigado por morrer por nós. Depenar foi uma festa. As crianças com a água fervendo, tirando as penas e brincando com elas. Colhemos um pé de mandioca e acendemos o fogão a lenha. Era uma família completamente diferente. Sem regras, sem ordens, sem orações e drogas bizarras. Só curtindo o bom da vida, de verdade: comida, alegria e música.

    O marido me olhava com um olhar que eu via pela primeira vez e não sabia que ia ver muito dali para a frente: um olhar de gratidão. Ele andava leve, cozinhava assobiando, ria com as crianças. Me divertia vendo aquilo e no fundo me perguntava como foi que o sexo virou uma coisa tão difícil na vida das pessoas. É apenas uma necessidade básica como comer ou dormir!

    O cheiro do frango tomou conta do ar. Todos salivavam. Servimos à mesa: mandioca cozida com molho de frango. Um banquete! Caímos de garfo com força e vontade. Bardo e o marido combinavam as próximas refeições, já que ela ia levar dois dias para voltar, mas qual foi nossa surpresa quando ouvimos a voz dela entrando na cozinha como um leão.

    – O que está acontecendo aqui?

    Todo mundo travou. Bardo lembrou do combinado e foi indo na direção dela, assumindo a culpa por ter corrompido a família. Ela xingou de tudo o que podia e disse que ele ia ficar com o karma do galo que tinha assassinado para todo o sempre.

    Karma do galo? O galo devia ser um terrível pecador, eu penso.

    Fomos expulsos e seguimos nossa viagem.

    ***

    Talvez você tenha ficado frustrado por eu não ter tomado toda a porra do marido. Alguma coisa aconteceu comigo, muito aos poucos, depois que o Bardo fez a vasectomia. Saber que eu não ia mais engravidar foi me desinteressando de sêmen. Eu ainda tinha todo o meu tesão e adorava brincar no final, mas não era mais aquela coisa maluca, inexplicável, aquela vontade de me encher de porra o tempo todo.

    Conversando com o Bardo, imaginamos que era uma resposta biológica. Saber que já tinha cumprido meu papel como reprodutora tinha acalmado meus ânimos e agora eu realmente via aquele leitinho mais como uma energia que fluía daqui para ali. E aquela porra, especialmente, era uma energia presa, pesada, carregada, que eu não queria dentro de mim. Essa era minha nova pira espiritual, eu penso.

    E era interessante ver as mulheres que o Bardo transava implorando por leite dentro. Eu podia ver nelas a vontade de ver a barriga crescer, nossa intensa e incrível natureza de reprodução. Uma pena que elas não sabiam que dele não saía mais filhos – e ele aproveitava e curtia.

    ***

    Subimos outra montanha e fomos parar em um antigo quilombo. Fomos muito bem recebidos, fizemos nossa música e nos ofereceram um lugar para estacionar a Elvira na beira de uma cachoeira. Dali, à dez minutos de caminhada, mais outras duas quedas d’água maravilhosas. Era um paraíso! Gastamos tudo o que tínhamos em comida não perecível e encostamos lá, onde perdemos a noção do tempo. 

    A rotina era: acordar com a luz do sol, esperar um pouco para a cachoeira aquecer e tomar o banho da manhã. Deitar na pedra para aquecer o corpo. Fazer uma fogueira e preparar o almoço. Comer e dormir um pouco. Uma trilha e mais um longo banho de cachoeira. Voltar, reacender a brasa e fazer a janta.

    Milho cozido que colhemos pelo mato, tilápia assada que pegamos no rio, feijão que cozinhava lentamente o dia todo. O manual de PANCs – as plantas alimentícias não convencionais – veio a calhar para as saladas. Tinha muita coisa interessante por ali – sempre com o cuidado de não se envenenar! Era só perguntar para o povo se era a planta certa.

    Nos tornamos índios. Aos poucos esquecemos de olhar a hora no relógio e via ela pelo sol. Então esquecemos que dia da semana era, e que dia do mês. Se a comida não tivesse acabado, teríamos esquecido o mês também e ficado ali para sempre, contemplando. Eram horas e horas olhando para a cachoeira. A água correndo. Os pássaros pegando palha para os ninhos e as flores que abriam e fechavam no mesmo dia. Não tinha compromisso, não tinha data e hora marcada, não tinha uma única conta me esperando em trinta dias.

    Os mosquitos, borrachudos e carrapatos foram se tornando parte integrante e já nem incomodavam tanto assim.

    Bardo e eu andávamos pelo mato e, quando o tesão batia, eu empurrava ele contra uma árvore ou pedra e consumava ele ali mesmo. Meu tesão era animal e ele adorava aquilo. Beijava ele com intensidade, esfregava o meu corpo quente de sol no dele. Ajoelhava e chupava com vontade e gosto, ou me deitava em uma pedra, abria as pernas e mandava ele arrancar meu suco com a língua. Fodemos em todas as cachoeiras, em cada cantinho que pude encontrar. Me sentia uma adolescente de novo.

    Apenas uma noite me assustou. Acordei com a bexiga explodindo. Que vontade de fazer xixi! Abri a barraca e, quando fui descer a escada, senti minha pele arrepiar toda. Uma sensação de estar sendo observada. Olhei ao redor e não vi nada, mas a sensação ficou. Minha bexiga esqueceu o que queria fazer e pulei de volta para dentro da barraca. Acordei o Bardo e disse que tinha uma onça lá fora. Ele riu.

    No dia seguinte fui para o povoado e perguntei por lá. Sim, tinha onça parda por ali. Eu sabia!

    Sem comida e sem dinheiro, tivemos que seguir viagem.

    ***

    Fomos convidados por uma universidade para tocar em um evento em uma cidade muito pequena. Depois do show, a moça que nos contratou revelou que o contrato tinha uma segunda intenção: ela era a única poliamor daquele lugar esquecido e queria ao menos conversar com alguém que concordasse com ela.

    Ela nos levou para uma casa muito boa. Jantamos e ficamos batendo papo. Ela contava as enormes dificuldades que tinha para explicar para aqueles brucutus cristãos sobre a possibilidade de se amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Mesmo que eles vivessem pulando a cerca, chifrando, traindo e enganando, para eles isso era impossível.

    Foi uma conversa muito triste e totalmente de acordo com o que vínhamos vivendo até ali. Por mais que Minas Gerais fosse um estado de amor, carinho e receptividade, estavam longe de ser o tipo de amor que estávamos buscando. Todo o sexo vinha com uma proposta de traição, de mentira, ou algum tipo de treta envolvido. Não entrava na minha cabeça o que fazia ser tão complicado.

    Papo vai, papo vem, resolvemos transar para dar uma relaxada daquela conversa deprimente. Começamos aos beijos, tirando a roupa, nos lambendo e nos chupando. Ela era gordinha e tinha os seios fartos e firmes, de um jeito que eu gosto. Fiquei ali mamando ela enquanto o Bardo chupava a bucetinha.

    Bardo colocou ela de quatro, mas o pau não entrou. Eu lambi, cuspi, mas não tinha jeito. Ela simplesmente não cedia. Relaxamos e voltamos a conversar, e ela nos contou das experiências horríveis que tinha tido com os homens dali e que não transava há muitos anos. Eu nunca tinha visto uma buceta encruada daquele jeito. Estava lacrada como uma ostra, nem meu dedo entrava.

    Decidimos, os três, que aquela buceta ia abrir naquela noite. Ficamos nos lambendo, chupando e acariciando. Ela mamava minha buceta e o pau do Bardo com muito gosto e vontade, me fazendo dar squirts fortes e longos. Eu enfiava minha língua na buceta dela, ganhando cada milímetro como uma vitória.

    Já era quase de manhã quando Bardo conseguiu colocar a cabecinha inteira. E ela gozou. Foi uma coisa incrível e assustadora ao mesmo tempo. Ela gozava e chorava, a buceta escorrendo e o rosto dela mudando completamente. A energia encruada saindo e a alegria retornando como um brilho maravilhoso nos olhos.

    Comecei a chupar o clitóris enquanto o Bardo empurrava e tirava a cabecinha com muito carinho. Ela me agarrava pelos cabelos e chorava copiosamente. O sol ia subindo pela janela do quarto e eu ali, olhando bem de pertinho, enquanto cada centímetro do pau do Bardo entrava. Foi muito engraçado como comemoramos quando entrou até o talo!

    Depois de ter perdido a conta dos orgasmos ela finalmente conseguiu sentar e cavalgar. A buceta rosinha dele engolia o pau do Bardo com tanto gosto que eu fui fazer um café e sentei em uma poltrona para assistir. Pediu para ele gozar dentro e ele encheu ela de porra, gemendo gostoso. Ela deitou e desmaiou. Dormiu, roncando alto, o dia todo.

    Mais uma vez, a bruxa médica em ação!

    Fui ter notícias dela novamente anos depois. Tinha tentado casar com uma mulher, deu errado, e casou com um dos brucutus da cidade dela. Acabou nos bloqueando. Espero que esteja feliz.

    ***

    Fomos convidados para tocar em uma festa de swing. Não estávamos animados, nem um pouco. Swing é aquela chatice cheia de regras e fomos mais pelo cachê do que pela diversão. A festa era em uma cidade turística do interior de Minas Gerais e, quando chegamos lá, todo o povo da festa era do Rio de Janeiro e São Paulo.

    Fizemos nosso show, animamos a festa e fomos tentar a sorte na pista. Tinha esse solteiro, um cara lindo. Loiro, olhos azuis, totalmente fora do padrão marido barrigudinho com esposa siliconada que eu estava habituada. E estava sozinho, ninguém queria brincar com ele. Fui indo na direção dele quando a dona da festa me puxou pelo braço e confidenciou: o cara é um cavalo, tem o pau gigante!

    Explicado. Cansei de ver o cara com vinte e cinco centímetros ou mais sobrar na festa. E era o caso dele. Falei para o Bardo e nos aproximamos, mesmo assim. Ele não era só bonito como muito gentil e respeitoso. Subimos para um mezanino onde o povo estava fazendo trocas de casal e comecei a brincar com ele. O volume na calça realmente assustava. Tirei a roupa dele e peguei o monstro na mão. As outras mulheres olhavam com os olhos arregalados para ver o que eu ia fazer, os maridos pareciam derrotados.

    Enquanto Bardo se divertia com as outras esposas, eu virei o centro das atenções. Chupando e lambendo aquele cacete gigante. Estava me divertindo mais com a atenção do que com aquela jeba enorme. Batia ela na minha cara (coisa que eu não costumo fazer) e lambia das bolas até a cabecinha. Quase dava tempo de secar a língua de uma ponta a outra.

    Mandei ele sentar no sofá e colocar uma camisinha. Dava dó. O preservativo extra grande apertava ele todo, parecia um salame. Virei de costas e comecei a sentar. Nesse ponto até o Bardo parou o que estava fazendo para ver. Todo mundo na expectativa se aquilo tudo ia entrar em mim –  e eu também. Fui sentando devagar e senti o cabeção tomar conta da minha buceta toda, empurrando ela para os lados e abrindo espaço. Fui descendo devagar, cuspindo na mão e molhando meu caminho.

    Quando entrou metade, a festa já tinha parado. Umas trinta pessoas estavam sentadas no chão, ao redor, torcendo para cada centímetro que atolava. A largura era o maior problema. Realmente eu sentia aquele cacete quente abrindo o caminho dentro de mim. Eu já não tinha audiência, tinha uma torcida. Conforme ele ia encontrando espaço e entrando cada vez mais, algumas mulheres faziam cara de dor, outras de tesão, outras de admiração. Os homens olhavam, incrédulos: onde tudo aquilo estava indo parar em uma mulher pequena dessas?

    Depois de algumas cuspidas e reboladas, sentei completamente no colo dele. A sala explodiu em um grito como se fosse gol da seleção brasileira. Mas o show não tinha nem começado ainda. Acho que por conta do tesão que aquela turma me deixou eu relaxei completamente. Subi de volta até o cabeção e sentei de novo – de uma vez. Mais um grito. Uma mulher se abanava do meu lado, achei que ela ia desmaiar. Comecei a subir e descer tudo, sentando com vontade. 

    Para ser honesta, a penetração nem estava gostosa. Estava um pouco sofrida e dolorida. Mas valeu o show. Não gozei, mas ele comeu umas quatro mulheres depois de mim. Todo mundo queria andar no brinquedo!

    Mais tarde, já na Elvira, Bardo me comia me contando o ponto de vista dele. Me diverti muito. E ele disse que eu estava mais apertada do que nunca. Que bucetinha forte, essa minha, viu?

    ***

    Meses depois fomos chamados para a mesma festa. Dessa vez fomos animados! Que diversão estaria nos esperando? Que frustração! Os donos da festa descobriram que o povo gastava mais em bebida quando não transava e encheu a festa de pequenos eventos que distraíam todo mundo.

    Droga sobre sexo, de novo.

    Fizemos nosso show, animamos a festa, começamos a bagunça, mas toda hora eles chamavam todo mundo no microfone e empatavam a foda da galera, que nem percebia o que estava acontecendo.

    Não curti ninguém, Bardo comeu uma esposa em uma rapidinha e fomos embora.

    Alguns meses depois nos chamaram de novo. Fomos pelo dinheiro do show. O público da festa tinha mudado completamente. Eram apenas homens idosos com garotas siliconadas (provavelmente de programa) e os velhos sentavam nas cadeiras da pista de dança para disputar quem tinha investido mais silicone na mulher. 

    Fiquei horrorizada. Uma das mulheres se engraçou no Bardo e o velho quis ver ele comendo ela. Enquanto ela mamava o pau dele com a bunda empinada eu cheguei atrás dela e meti a cara na buceta, dando uma chupada gostosa. A bunda dela era de uma consistência estranha, era gelada, mas era o que tinha para aquela noite. 

    De repente, o velho se levanta e vem por trás de mim, com uma lata de cerveja na mão. A barriga chegou primeiro que o pinto. Ele vestiu um preservativo no pau meia bomba e enfiou ele entre minhas nádegas. E brochou ali. Me deu um asco. Ele estava com o pau mole nas minhas coxas e não saía dali. Fiz um sinal para o Bardo e desistimos da brincadeira.

    Estávamos saindo da festa quando ouvimos os anfitriões anunciarem o início de um bingo. Bingo! Sério mesmo? Era o que restava para aquele povo. 

    Nunca mais aceitamos os convites deles.

    ***

    Algumas histórias eu realmente tenho receio de contar. São tão surreais que parecem mentira. E essa aconteceu não só uma, mas três vezes: uma pessoa muito solitária e sem família quis deixar tudo o que tinha para a minha família. 


    Seria incrível e eu seria multimilionária hoje se tivesse aceitado, mas todas elas vinham com um preço que eu não estava disposta a pagar: Bardo e eu casar com a pessoa. Uma delas era uma fazendeira solteira – das muitas que conhecemos – filha única que tinha herdado tudo. 

    E é incrível como Bardo e eu, apesar do amor que temos pelo sexo, não temos maldade. Naquela tarde ela nos convidou para dar um passeio na propriedade. Saímos caminhando pela estrada de chão por quilômetros. Ela nos mostrando o galpão disso e daquilo, o curral, a plantação. 

    Chegamos em uma casa abandonada, cheia de mato. Ela nos disse que aquela casa tinha servido de alguma coisa mas não servia mais. Nos convidou para ver lá dentro. Eu, morrendo de medo que tivessem cobras, escorpiões e outros tipos de peçonhas, me recusei a entrar. Bardo foi até a porta. Ela entrou e ficou insistindo que fôssemos lá ver. Não fui.

    De repente, ela sai correndo. Eu estava certa. Ela encontrou um ninho de marimbondos e eles picaram ela toda. Mesmo assim, ela parecia disposta a levar o plano dela – qualquer que fosse – até o fim. Arrancou toda a roupa e ficou nua, nos mostrando as picadas.

    Penso que aí que mora uma diferença muito grande na nossa maneira de pensar. Não foram poucas as pessoas que criaram situações onde poderíamos abusar delas. Perdemos a conta de quantas vezes as pessoas se jogaram em nós bêbadas ou criaram esse tipo de constrangimento. Quem ama sexo de verdade, não abusa de ninguém. Nós trocamos uma energia justa, é amor de verdade, mesmo que seja uma vez só.

    Ela derreteu quando o Bardo juntou as roupas dela do chão e pediu que ela se vestisse. Podíamos cuidar das picadas em casa. Voltamos quase em silêncio.

    À noite, ela chamou o Bardo no quarto dela. Talvez tenha pensado que homens são mais fracos. Convidou ele para deitar na cama com ela e assistir uma série que ela tinha comentado mais cedo. Ele deitou. Deitou e assistiu a série. De repente, ela levantou da cama, saiu do quarto e bateu a porta. Nem precisei ir lá para ver o que era, os pés dela pesavam em frustração.

    Moça, se você estiver lendo esse livro, saiba que bastava ter pedido. Bardo jamais ia abusar de você.

    Em uma última tentativa, ela entrou no nosso quarto pela manhã e se jogou na cama. Nós dois nus, cheirando a sexo, e ela conversando fiado fazendo de conta que não se importava. Bardo só me deu aquela olhada. Não precisou mais nada. Pegamos nossas coisas e nunca mais voltamos lá.

    Podia ter comido ela? Podia. Mas eu nunca vou entrar em uma relação onde de cara percebo que a pessoa não vai se responsabilizar pela energia dela. Sei que tem gente que ama essa relação de poder, de se sentir uma vítima das próprias vontades. Sei que isso dá muita letra de música. Para mim não serve.

    ***

    Poderia preencher esse capítulo com esse tipo de histórias, mas você já pegou a ideia aqui. Cada dia mais, Bardo e eu percebemos que nossa vida sexual aberta estar empacada era culpa nossa. Nós tínhamos nossa própria versão do “nós contra eles”.

    Se a pessoa não vier no mesmo nível de intenção que eu, não vou. Se ela não se responsabilizar pela própria necessidade, não vou. Se ela precisa de drogas para abrir sua sexualidade, não vou. Se ela inventa desculpas espirituais para fazer sexo ou não (né, povo do tantra), eu não vou. Se ela é casada e tem um acordo monogâmico com alguém, não vou. Se ela aparenta não se cuidar fisicamente, não vou.

    Fora o que nem era escolha minha, como simplesmente não bater a química, o que acontece.

    E assim eu ia eliminando cada pessoa que passava pelo meu caminho antes mesmo que ela tivesse uma chance comigo. Eu podia sentir o cheiro de qualquer uma dessas coisas de longe, e toda a vez que eu tentava superar e quebrar uma dessas regras, me arrependia.

    ***

    Ficamos apenas Bardo e eu por um bom tempo. A vida leve e solta estava simplesmente perfeita e a abertura sexual era uma pequena frustração, só para dizer que eu não era completamente feliz. Continuamos nossa rotina: tocar na rua, pegar dinheiro, sumir no mato. As kids estavam completamente felizes com isso. Eu mesma me pegava com inveja da infância delas: conhecendo o país, aprendendo história e geografia, economia e estatística, português e inglês, vendo o funcionamento da política e da sociedade em primeira mão. Um privilégio que muito playboy nunca sonharia em ter.

    Bardo levou as meninas para o meio do campo. Era uma noite sem lua e sem estrelas e não se podia ver um palmo à frente do nariz. Ele acendeu uma lanterna e colocou sobre a cabeça, apontando para o chão.

    – Essa parte iluminada, meninas, é o que vocês sabem. Esse círculo ao redor é o que vocês não sabem. E tudo o que está além desse círculo é o que vocês não sabem que não sabem. 

    Elas deram um pulo com a informação, surpresas. Como assim não sei que não sei? Ele aumentou o foco da lanterna, diminuindo o círculo.

    – Quando vocês sabem pouco, o círculo do que você não sabe diminui e aí vocês pensam que tem pouca coisa que não sabem. Isso é perigoso. Mas – ele ia diminuindo o foco e aumentando o raio de luz – quanto mais você sabe, mais vai descobrindo que não sabe. Isso é maravilhoso, porque te torna cada dia mais humilde.

    Elas acenavam com a cabeça, mostrando que entenderam.

    – Mas o maior perigo está lá – ele aponta para a escuridão total – em tudo o que você não sabe que não sabe. Quando você sabe que não sabe, tem a escolha de estudar e saber. Mas quando não sabe que não sabe, você só pode ser uma vítima da ignorância.

    Eu confesso que achava essas conversas pesadas demais para duas cabecinhas com menos de quinze anos de idade. Às vezes eu pensava que elas só concordavam para se livrar logo do professor. Eu ainda não tinha visto o poder que aquele conhecimento ia ter no futuro.

    Essas horas eram tão douradas quanto os momentos em que falávamos merda o tempo todo. Dávamos risada, inventávamos jogos bobos, fazíamos fogueira e tocávamos violão.

    Um dos nossos jogos favoritos chama-se “Se eu sou, tu és,” e pode levar horas. Começa com uma pessoa dizendo: – Se eu sou uma vaca, tu és o leite. A outra passa a bola dizendo para a próxima pessoa: – Se eu sou o leite, tu és o chocolate. A ideia é sempre usar uma referência à palavra anterior. Como as palavras podem ter duplo sentido, o jogo vira de assunto o tempo todo e rende risadas e trocadilhos infinitos.  

    ***

    A cada dia eu me isolava mais, e a cada dia eu me tornava mais crítica da vida cotidiana. Ter passado tanto tempo dentro da casa dos fãs me fez questionar ainda mais as coisas.

    Eu já não aceitava mais convites para dormir dentro da casa deles. Preferia a Elvira. Me irritava cada vez mais as pessoas viverem em casas desconfortáveis. Você trabalha o dia todo em um emprego que – provavelmente – não gosta e chega em casa para relaxar com um chuveiro que não tem pressão, que não esquenta, que está entupido e joga um fio de água para cada lado.

    Bardo pegou a mania de chegar na casa das pessoas, desrosquear o chuveiro e limpar com uma agulha. Depois pegava o óleo desengripante e passava nas dobradiças cantantes. Nesse meio tempo eu pegava uma vassoura, um pano e limpava o chão. É surreal como as pessoas conseguem viver em casas sujas, com aquele cheiro de cozinha azeda, quarto de bunda suada ou de esgoto voltando dos ralos.

    E não estou falando de casas pobres, apenas. Vi mansão que era uma porcaria também.

    Fogão que não esquenta. Você não consegue cozinhar um macarrão. Sofá com uma madeira cutucando seu cu enquanto tenta ver uma série em uma internet travando. Cama quebrada, com colchão afundado, sem falar nos erros crassos de engenharia e construção em casas extremamente quentes no verão e frias no inverno.

    E a vizinhança? Nunca vai entrar na minha cabeça ser obrigada a ouvir a música que o vizinho quer ouvir, ou as suas discussões e brigas, ou o cheiro horrível da comida que fazem. Qual o sentido de viver colado em outra família, com um mundo desse tamanho? São milhões de quilômetros sem uma alma viva e um monte de gente empilhada no mesmo lugar.

    Eu entendo as pessoas viver no “nove às cinco” e entendo pagar contas mensais para ter energia elétrica, água potável, esgoto, gás e acesso à internet. Eu não entendo ter uma versão porcaria disso. 

    Mesmo quando não tínhamos quase nada, nossas casas tinham uma boa mobília: sofá, cama, fogão, geladeira, chuveiro, máquina de lavar. Não é uma questão de ostentação, é uma questão de saúde! É desgastante não poder descansar de forma confortável para voltar ao trabalho e isso vai te matar a longo prazo. E é incrível ter mais recursos em uma Kombi do que as pessoas tinham em casa.

    Claro que eu nunca mencionava isso para as pessoas. Pode ser humilhante. Mas nossa intervenção nas casas delas era o suficiente. Algumas pessoas perceberam e nos agradeceram, mas muitas ficaram extremamente ofendidas e nunca mais falaram conosco. 

    – Obrigado, eu não ia voltar para esse chiqueiro que você chama de casa!

    Eu nunca disse isso para ninguém. Nem diria. Eu estaria errada na maioria das vezes.

    Para mim isso acabava sendo mais um “nós contra eles”. Somos pessoas tão diferentes, com gostos e necessidades diferentes, todas empurradas na mesma direção para conquistar as mesmas coisas. Algumas pessoas simplesmente passam batido pela vida. Elas não sabem que não sabem que poderiam ter mais conforto, ou que existem lugares diferentes para se viver.  Elas se habituam ao conflito sem saber que poderiam viver sem ele. Era um privilégio meu saber.

    ***

    Perdemos completamente a noção do tempo. Dois mil e dezenove passou assim, um ano que durou cinco, ou seis meses, não sei. Por mim, tanto fazia, podia ficar para sempre desse jeito livre e descompromissado.

    Mas não existem felizes para sempre, não é? E aos poucos, mesmo livres como éramos, alguma pressão social foi entrando pelas rachaduras. As meninas cresciam, adolesciam, e era inevitável a pressão dos amiguinhos que faziam em cada cidade. Era inevitável a pressão da internet sobre elas. Ter isso e aquilo, participar da moda, ter a blusa da banda do momento. Tudo isso precisava de mais dinheiro e nós não tínhamos a menor intenção de trabalhar por ele.

    Ao mesmo tempo, nós mesmos íamos caindo nas pressões adultas. Aos poucos as perguntas das pessoas iam encontrando espaço e virando preocupações. E se? Sempre tinha um e se. E se eu ficasse doente? E se acidentasse a Elvira? Será que conseguiríamos manter esse estilo de vida quando ficássemos velhos? Não era melhor ter uma reserva de emergência?

    Nos víamos cada dia mais conversando sobre essas coisas e quando percebemos já estávamos trabalhando o dobro. Guardamos dinheiro. Pronto, resolvido. Mas e se precisasse de mais que aquilo? Então trabalhamos mais e guardamos mais. Mas e se outra coisa? Era um ciclo sem fim, uma corrida dos ratos e nos pegamos vivendo o dia de São Nunca muito mais que o hoje.

    Foi em uma tarde, depois de um show em Itaipava, que o Bardo me disse que temos apenas um certo valor guardado. Não era o suficiente. Mas quanto era? Me dei conta que estávamos surtando da mesma maneira que as pessoas que conhecemos e julgamos como surtadas.

    Quanto é o suficiente para se sentir seguro? Dez mil? Cem mil? Um milhão? Será que esse valor existe? Lembro da história do avô de um conhecido: ele juntou dinheiro a vida toda. Já idoso, gastou tudo no hospital, morreu mesmo assim e deixou a família com quase nada. Imprevistos acontecem com qualquer um, e é loteria, não tem como saber quanto vai custar.

    Nossos imprevistos se limitavam à Elvira, um ou outro dentista e ginecologista – que eu pagava particular. Quando você não tem nada, não tem manutenção e quase nenhum susto.

    ***

    Então era isso: as meninas estavam demandando mais coisas e Bardo e eu estávamos reféns da preocupação com o futuro – o que até aqui eu achei inútil.

    Resolvemos então parar em algum lugar por um tempo, quem sabe alugar uma casa. Abri o mapa e tracei uma rota entre todas as cidades que mais fazíamos dinheiro – que apelidamos de caixas eletrônicos – e descobri que o centro do nosso universo financeiro era a cidade de Caxambu, em Minas Gerais. A cidade em si não dava muita coisa, mas em trezentos quilômetros ao redor podíamos fazer uma boa grana em qualquer dia.

    Antes, subimos para Juiz de Fora pegar um dinheiro. Agora havia fiscais na Rua Halfeld e nossa música estava proibida. Um caixa a menos. Já que estávamos ali, decidimos ir até a casa da Natália e trocar uma ideia. Quando chegamos lá ela tinha arrumado um homem super babaca que não nos deixou ficar por lá. Seguimos para Caxambu.

    No caminho vimos uma bruxa na beira da estrada. Uma mulher horrenda, grande, toda de preto, com o vestido rasgado. Ela estava no meio do nada e era tão surreal que perguntei para o Bardo se ele tinha visto ela também. Ele viu. Ainda bem!

    Chegamos ao nosso destino perto do meio dia. Fomos até uma imobiliária ver o preço do aluguel de casinhas na zona rural. Caxambu é uma cidade pequena mas muito legal. Tem uma praça central bonita, muitos bares, um bom supermercado – que tinha nata, e eu não comia faz tempo! – Também tinha um cinema, o que contou bastante!

    Os alugueis ficavam entre seiscentos e oitocentos reais, um valor que era possível para nós, mesmo que eu preferisse gastar isso em comida e me enfiar no mato. Começamos então a procurar algo direto com o dono, já que não tínhamos nada do que uma imobiliária pedia.

    Estávamos conversando com algumas pessoas na rua quando chegou essa fã com a esposa dela. Era um casal de lésbicas. Contamos para ela que íamos morar ali e ela sugeriu que fôssemos até São Thomé das Letras, pois ela estava mudando para lá. Falou bem da cidade, dizendo que não tinha violência e as crianças podiam brincar na praça sem supervisão.

    São Thomé das Letras não era aquela cidade suja, de pedra quente, cheia de gente esquisita que visitamos um tempo atrás? Nem pensar. Ela insistiu. Pediu que ao menos fôssemos passar uns dias na casa dela para conhecer melhor, que tínhamos a impressão errada. Bardo deu de ombros. Por que não? 

    Subimos por Cruzília, pela estrada de chão. De repente, o céu desaba em chuva e a estrada vai se tornando um lamaçal. Derrapando de poça em poça, levamos bastante tempo para chegar lá. Que fim de mundo!

    Chegamos quase à noite. Lembro que uma construção bem esquisita me chamou a atenção logo na chegada. Uma casa de barro cheio de gnomos esculpidos. A placa dizia: Castelo de Eros. Eros é uma coisa boa, talvez eu encontre minha turma por aqui!

    A cidade estava bastante movimentada. Estava acontecendo um congresso de Ufologia. Um monte de gente veio para observar os OVNIs e discutir teorias malucas sobre vidas extraterrestres, mas foram frustrados por dois motivos: a chuva e o exército, que resolveu fechar a montanha para um exercício militar.

    Nossa anfitriã nos dizia que os ufólogos estavam ali porque existia uma espécie de profecia de um falecido velho maluco dizendo que naquele dia uma entidade ia chegar na cidade. Fiquei ouvindo e fazendo de conta que concordava. A única entidade que eu vi chegando fui eu, e não pretendia ficar ali por muito tempo.

    A cidade ainda mantinha a mesma impressão para mim: um monte de pedras, sujeira, calor e lojinhas idênticas vendendo bibelôs para turistas alucinados. A chuva parou e resolvemos ir até a praça tentar umas moedas. Foi bom. Tinha muita gente e ganhamos bem. Quem sabe dá certo?

    Ficamos por alguns dias e fomos embora, prometendo voltar. Tínhamos um show marcado em Socorro, íamos comemorar nossos três anos na estrada e alguns aniversários todos juntos. Uma maluca de São Thomé, que estava indo na mesma direção, pediu carona. Levamos ela.

    No caminho, paramos para visitar nosso amigo Wilson. Ele era gerente de uma pousada que ficamos por um tempo, era gay e adorava o Bardo. Também era vizinho de uma massagista maravilhosa que ficou muito amiga nossa. Quando comentei com ela que ia morar em São Thomé, ela ficou horrorizada, insistindo muito que eu não fosse.

    Percebendo que eu estava decidida, ela me contou que tinha sido escravizada por uma seita na cidade há anos atrás, que teve dois abortos e nunca conseguiu provar para a justiça. O lugar ainda funcionava. Que se eu ia para lá mesmo devia ficar atenta porque a cidade é cheia de perigos. Achei meio exagerado, mas ouvi.

    Quando voltei para a casa, procurei o Bardo para contar a maluquice e encontrei ele ganhando um boquete da maluca. Talvez São Thomé não fosse tão ruim assim. Eros, boquetes aleatórios, estava promissor. À noite, Bardo saiu de fininho do quarto para comer o Wilson e ela pulou para a minha cama. Ficamos nos beijando e nos pegando, de leve e bem gostoso, mas eu percebi que ela não era chegada em mulher. Estava só fazendo charme e esperando o Bardo voltar. Quando ele voltou, ela deu para ele do meu lado. Foi gostoso.

    No dia seguinte seguimos viagem e chegamos em Socorro. O lugar em que costumávamos ficar estava cheio de kombis e Bardo não gostou muito. Ele estava precisando muito dormir e o pessoal era bem barulhento.

    Encostamos ali, mas deixamos a Elvira pronta para sair se não desse certo com o pessoal. Essa turma, por sua vez, manobrou as kombis e trancou nossa saída. Foi de propósito, para ficarmos ali. E eles eram realmente muito legais: um povo de Indaiatuba que gostava de viajar juntos.

    A noite chegou e uma chuva muito forte caiu. A maluca, que ia dormir em uma rede lá fora, teve que dormir na Kombi comigo e o Bardo. Claro que ele não perdoou e comeu ela de novo, dessa vez até o cuzinho rolou.

    Coitado, estava exausto. Duas noites sem dormir direito. Quando tudo ficou em silêncio, chegou um doido lá fora e começou a gritar com todo mundo, dar tapas na kombis e não deixou ninguém dormir. Todo mundo gritava – Cala a boca, Xandão!

    Bardo estava enfurecido. Disse que ia pegar aquele Xandão pela manhã e encher ele de porrada. Ele não é assim, e fiquei preocupada. Fazia um tempo que andava meio nervoso, estressado, xingando. Na manhã seguinte, ele acordou, pulou da Kombi e saiu no meio da galera perguntando quem era o maldito do Xandão.

    De repente aparece esse cara. Peruca rosa, olhos azuis, com um prato cheio de mistos de presunto e ovo na mão. Com um sorriso de orelha a orelha, oferece um misto para o Bardo. 

    – Eu sou o Xandão!

    E nesse dia eles se tornaram amigos.

    A festa foi muito divertida. Tinha esse cara, o Paçoca, que um dia mentiu que era aniversário dele para ganhar uma festa. A turma descobriu e, como punição, decidiram que dali para a frente todos os dias seriam aniversário do Paçoca. Cantavam parabéns para ele de meia em meia hora. Era um sarro. 

    Xandão, com sua peruca rosa, se transformava em Maravilha, uma bichona louca, e perturbava todo mundo ao redor com suas estripulias. Chamava as mulheres de feias e nojentas e ficava mexendo com os homens. Era hilário. Bardo andava com ele de um lado pro outro zoando todo mundo.

    A noite chegou e fizemos um show delicioso para a galera, com direito à nada menos que três Parabéns Pra Você para o Paçoca.

    De repente, meu telefone toca. Era a fã lésbica de São Thomé. Ela começou com um papo estranho de que estava morrendo de tesão em mim e que ia me comer quando eu voltasse. Caralho! Digo, buceta! Lésbica e casada, duas coisas que não eram para mim, com certeza. Entrei na kombi, onde o Bardo macetava a maluca mais uma vez, e contei para ele da ligação. Ele sugeriu que eu experimentasse, já que nunca tinha pego uma lésbica, dessas masculinizadas, na vida. Seria mais uma história para contar. 

    Nos próximos dias ela me ligava repetidamente. Me dizia o que ia fazer comigo quando eu chegasse lá e minha curiosidade foi crescendo. Pediu para eu avisar quando ia chegar para ela mandar a mulher e as crianças para a casa da mãe dela em Cruzília. Não curti a ideia de enganar a esposa dela, mas também era uma garantia que ela não ia se apaixonar por mim e pegar no meu pé depois. Pelo menos foi o que eu pensei.

    Deixamos a maluca no caminho e voltamos para São Thomé das Letras. A fã tinha arrumado um quarto na melhor pousada da cidade para o Bardo e as meninas. Bardo me deixou na casa dela e foi embora me olhando com aquela cara de safado. 

    – Amanhã você me conta como foi.

  • Capítulo 9 – Mimada

    Passamos pela região metropolitana de Belo Horizonte, mas não paramos. Não sou nada fã de capitais e cidades grandes coladas umas às outras. Penso que onde tem gente demais falta abundância. E onde tem escassez tem gente brigando. E onde tem muita gente brigando eu não quero estar.

    Fomos direto para Ouro Preto e entrei em êxtase. É como estar caminhando dentro de uma das pinturas da bíblia que eu amo. Os prédios antigos, as ruas estreitas, os museus, as igrejas, a história no ar. Me senti em um sonho. A parte difícil foi andar com a Kombi naquelas ladeiras. Bardo estava nervoso, com medo da Elvira não subir ou de faltar freio na descida. Um fã da internet (mas não da putaria) veio nos encontrar e nos convidou para dormir perto da casa dele, no pátio de uma igreja. Tomamos um café juntos e fomos para o local. Ele só esqueceu de dizer que a igreja era cercada por um enorme cemitério! Não pude reclamar do barulho, ao menos, era um povo bem silencioso. Naquela noite, descansei em paz debaixo das obras de Aleijadinho!

    No dia seguinte, cruzamos a praça Tiradentes e descemos para o centro, de lá, descemos a ladeira da escadinha. Sobrevivemos! Andamos pelos bairros e subimos de volta para o centro, estacionando bem em frente ao cinema.

    Tinha uma padaria ali que ia servir de base. Banheiro, café, pão e tudo o mais. Logo ali ao lado encontramos uma ponte que tinha bastante movimento e começamos nosso espetáculo. Foi incrível! Dezenas de pessoas pararam para nos ouvir e ganhamos um dinheiro razoável. Do outro lado da rua tinha um restaurante muito fino, daqueles que tocam jazz e tem luzes amarelas. Olhei o cardápio. Parecia uma delícia, mas eu não podia. Disse para mim mesma: um dia vou pagar meu almoço aqui. 

    Um grupo de estudantes nos descobriu por ali e nos convidaram para tocar em uma república.

    Era a famosa festa do doze. É como se fosse o aniversário de todas as repúblicas ao mesmo tempo e algumas delas estavam fazendo sessenta anos! Imagina só quantos estudantes passaram por ali. Tocamos na primeira república. Foi sensacional! Os alunos antigos, alguns bastante idosos, e os alunos novos todos curtindo nosso som. A cartola foi ótima! 

    A república do lado ouviu o barulho e foi lá ver do que se tratava. Logo, estávamos tocando na segunda, na terceira e na quarta delas. Os estudantes espalhavam a notícia e nós dávamos um jeito de aparecer em cada uma delas, nem que fosse só para uma palhinha. Acabamos ficando muito amigos de muitas pessoas, e especialmente de três repúblicas ali. Elas nos ofereceram banho e lugar para cozinhar, o que nos economizou um monte!

    Acabamos ficando por lá durante as festas mesmo quando não estávamos tocando. Conto até hoje a história da “festa da cerveja infinita”: os bichos eram instruídos a não deixar nenhum convidado com o copo vazio, correndo o risco de tomarem um trote caso isso acontecesse. Então os pobres meninos, com a cabeça raspada e vestindo um terno ridículo, andavam com dois litros de cerveja na mão completando os copos de todos os convidados. O que acontecia é que eu bebia um gole e eles já enchiam o copo de novo, então nunca esvaziava! Tive que me esconder para terminar o copo e deixar ele em cima da pia, senão iam me colocar em coma!

    Que coisa gostosa aquela festa! Que energia! Parecia que não tinha fim! Bardo e eu saímos à caça. Não era bem o ambiente que eu gosto para isso, todo mundo bêbado demais, mas era o que tinha e fazia tempo que eu não me divertia. Bardo conseguiu primeiro e fiquei até com inveja da garota, tomando um amasso gostoso no cantinho da lavanderia. Bardo puxou a saia dela para o lado e meteu ali mesmo, discretamente, mas eu percebi.

    Já não tive tanta sorte. Os meninos tinham medo do Bardo então, por mais que eu deixasse claro que queria, eles não iam. Finalmente encontrei alguém disposto e levei para uma sala escura no andar de baixo. Ficamos de amasso, beijos, mão na bunda. Coisa de moleque adolescente. Eu precisava de bem mais que isso, infelizmente. Vi que ele não ia passar daquilo, ou se passasse, ia gozar nas minhas coxas. Empurrei ele e saí. Que merda.

    Fizemos quatorze espetáculos em três dias. Foi de arrancar o couro! No último dia estávamos só o trapo quando uma república nos chamou para uma festa oficial que ia acontecer no hotel. Quase sem energia, fomos, e não nos arrependemos. A festa foi linda, muita comida e bebida e tiramos mais de mil reais na cartola! Pela primeira vez em meses de viagem conseguimos algum dinheiro para viver mais que o próximo dia.

    Saímos de lá extasiados. Estávamos tão cansados que decidimos ficar uns dias na casa da Natália e usar o dinheiro para arrumar a lataria da Elvira que estava cheia de buracos. Ela nos recebeu com aquele sorriso e a mesa farta que a conhecemos. Descansamos, consertamos o carro e paramos para olhar o mapa. Tínhamos conhecido uma parte razoável do “país” Minas Gerais e queríamos seguir para o nordeste dali para a frente. Natália discordou. Nos falou muito mal de lá e disse que não ia dar certo. Óbvio que entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Eu venho do sul, da terra do preconceito, e não ia deixar mais nenhum tomar conta da minha vida. Nordeste, lá vou eu!

    Seguimos pela zona da mata conhecendo mais algumas cidades. Já estávamos quase no Espírito Santo quando paramos para tocar em uma praça e, quando terminamos, percebemos uns mal encarados observando nossa cartola e o equipamento. Usando nosso treinamento de Krav Maga, fomos nos movimentando discretamente e observando. Eles iam nos seguir para o carro. Mudamos de direção e entramos em um posto policial. Os policiais, sem poder fazer nada uma vez que era apenas uma desconfiança nossa, nos escoltaram até a Kombi.

    Entramos no Espírito Santo e começou a chover. Era nosso primeiro verão no sudeste e não sabíamos que essa é a época que mais chove por lá. Fomos indo de cidade em cidade tocando nos pequenos intervalos sem chuva ou até mesmo na garoa, mas o dinheiro estava ficando cada vez mais curto. Conseguimos uma parceria muito legal com um hotel de altíssimo nível em uma península. Tinha até uma praia particular. Nos deram as refeições e um quarto lindo. Mais uma vez nossos números nas redes sociais estavam nos proporcionando algum conforto e isso me chamava a atenção. Tinha uma novidade no Instagram chamada Stories que estava pegando todo mundo, comecei a usar também.

    Mas nem tudo são flores. Alguns dias depois a família dona do lugar nos chamou para jantar com eles. E lá veio o discurso cristão mais uma vez. Sambamos, rebolamos, tentamos sair o melhor possível da situação, mas não teve jeito: na manhã seguinte nos pediram para ir embora. Nunca vai entrar na minha cabeça essa “bondade seletiva.”

    Seguimos em frente pela chuva interminável. Conseguimos tocar um pouco em algumas cidades. Uma loja nos pediu para tocar na frente da vitrine, debaixo da marquise. Foi legal, nos levaram para jantar depois e experimentei a famosa moqueca. E a moqueca é capixaba, viu?

    Alguns dias depois, outra família nos acolheu em uma outra cidade. Nos ofereceram uma casa vazia que eles tinham, com piscina e tudo. Conseguimos descansar e saíamos para tocar em um food park quando parava de chover. A rede de televisão local ficou sabendo da nossa história e foi lá para nos entrevistar, mas preferiu focar no fato das crianças não irem à escola. Bardo mostrou como ele dava aula para elas e todo mundo achou lindo. No dia seguinte a matéria foi ao ar e a família foi lá fazer um churrasco para comemorar. Papo vai, papo vem, religião. Qual o problema com vocês? Fomos embora no mesmo dia.

    O sol resolveu dar as caras quando chegamos em Vila Velha. A praia estava lotada e começamos a tocar na calçada. Um saxofonista apareceu e fizemos uma jam, foi uma delícia! Ganhamos bem e nos acomodamos com a Elvira por ali mesmo, sem ter um lugar para tomar banho. Um senhor de idade se aproximou e perguntou com muita educação se estávamos precisando de alguma coisa. Contamos nossa história e ele nos levou para a casa dele.

    A casa parecia pronta para uma mudança. Muitas caixas espalhadas cheias de objetos. Jantamos juntos e, durante o jantar, o senhor nos contou que seu filho tinha morrido em um acidente de carro nos Estados Unidos e sua esposa, quando soube, suicidou-se. Ele estava sozinho no mundo. Ele começou a encaixotar as coisas da esposa mas não teve força para continuar. Não nos deixou tocar em nada na cozinha. Tudo era dela e lembrava ela. Ficamos muito sentidos por ele e acabamos ficando por lá bastante tempo. Ele ia para a praia pela manhã e bebia até o fim do dia. Passamos todo o tempo que podíamos com ele, como se fosse da família. Mas precisávamos partir. Nunca mais tivemos contato com ele.

    Em algum lugar que nem me lembro, encontramos uma figura interessante. Ele nos deu um bom dinheiro e pediu para conversarmos. Era mais um solitário, mas a história dele era tenebrosa. Ele era um engenheiro de uma famosa empresa, e era o responsável técnico por um desastre ecológico que matou centenas de pessoas. Ele estava ali isolado pela empresa, como em um daqueles programas de proteção às testemunhas que vemos nos filmes. E ele precisava desabafar, contar a história dele para alguém, e escolheu a gente.

    Ele nos contou que por diversas vezes avisou a empresa do que podia acontecer, escreveu memorandos e apelou para os colegas, mas eles não pararam. Então, nada de repente como se pensa, tudo explodiu e a natureza pagou caro por isso. Até hoje ninguém foi responsabilizado, então eu nem imagino o que pode ter acontecido com ele. E até hoje as pessoas ainda sofrem por isso. Mas não ia ser a última vez, não é?

     
    Finalmente chegamos na última cidade do Espírito Santo. Com o sol a pino, conseguimos conhecer algumas das praias mais lindas do Brasil. Quer dizer, (tosse), as mais feias – pelo menos foi o que os capixabas me disseram para falar por aí. Já tinha gente demais indo para lá no verão e eles não queriam que eu fizesse propaganda. Então, bem, não foi de mim que ouviu que o Espírito Santo é um estado lindo de um povo gentil e amável. Não vá lá. Tocamos no centro da cidade e conhecemos um grupo de estudantes. Um menino muito educado nos convidou para almoçar na casa dele. Fomos até lá. A família era muito querida e ficamos torcendo para o assunto não desandar dessa vez. Deu tudo certo. Nos despedimos e prometemos voltar um dia.

    Antes de seguir, Bardo resolveu instalar o inversor de voltagem que ganhamos do fanático maluco de Minas Gerais. Colocou uma segunda bateria, ligada na primeira e agora finalmente tínhamos uma tomada dentro do carro. Você pode ficar surpreso por termos ficado meses sem energia na Elvira, mas não existiam essas tecnologias todas que existem hoje, não se via painel solar em carro e, na verdade, nem sentíamos falta. Raramente usávamos o notebook, Bardo e as kids nem telefone tinham. Era libertador ir dormir com a lua e acordar com o sol, sem streaming até a madrugada e dormir com os olhos embotados de luz de tela.

    Mesmo assim, ficamos tão felizes em ter a tomada que resolvemos ligar a caixa de som e atravessar para a Bahia com o som à todo volume! Faltando poucos quilômetros para a fronteira entre os dois estados, paramos para o costumeiro xixi e a Elvira resolveu não ligar mais. A bateria tinha morrido. Tivemos que empurrar ela, no melhor estilo Miss Sunshine, e entrar correndo no carro andando. Foi só o tempo de pular para dentro e o mundo desabou lá fora. Mônica achou aquilo o máximo e toda hora queria empurrar a Kombi.

    Finalmente cruzamos para o Nordeste. Era oficial. Nossa terceira região do país a ser visitada! A primeira coisa que descobrimos é que o asfalto pode ser pior do que em Minas Gerais. Tinha mais buraco que estrada e era difícil andar. Além disso, cada curva era uma loteria: as pessoas ultrapassavam às cegas e não foram poucas vezes em que fomos parar no acostamento.

    Vi essa cena: um enorme pé de manga, completamente carregado. Ao redor dele, no chão, centenas de frutas e, à sombra da árvore, um homem estava dormindo em uma cadeira. Ao lado da cadeira, uma placa dizia: vendo manga. Não tinha uma banca, nada. Só isso. Bardo e eu nos olhamos. Parecia um retrato do preconceito que se tem com os baianos. Entramos nesse papo e tudo o que queríamos era que o preconceito fosse só o que é: preconceito. Uma mentira idiota que se conta para fazer menos de um povo.

    Rodamos até uma cidade onde um político de Minas Gerais tinha nos prometido nos receber na casa dele. Chegamos e ele não estava. Culpa minha, por acreditar na promessa do político. Ligamos para ele e nos disse para pegar a chave com a vizinha e ficar à vontade por lá. A casa era enorme e ficava na beira do mar. Descansamos e gravamos algumas coisas, já que a cidade era muito pequena e não tinha onde tocar.

    Antes que o dinheiro começasse a mirrar, seguimos adiante. Bardo já conhecia Porto Seguro de uma viagem que fez com a ex e queria muito me mostrar tudo por lá. Chegamos e fomos direto para o centro da cidade tocar na praça. Começamos, mas poucas pessoas pararam para ouvir. De repente um homem se aproxima, joga uma bolinha de papel em mim e grita:

    – Vão embora daqui, gringos branquelos!

    Aquilo doeu muito. Não a bolinha de papel, mas o peso das palavras que vieram com ela. Recolhemos nossas coisas e paramos para observar. Tinha muita gente tentando ganhar dinheiro na rua. Gente vendendo de tudo, guias turísticos abordando as pessoas, parecia desesperador. Para sair daquele clima ruim, Bardo nos levou para ver as praias. Era realmente tudo lindo! Ele me mostrou o resort em que ficou com a ex. Coisa de luxo, que aquela vaca não quis compartilhar comigo. Quem está aqui agora?

    A noite caiu e fomos procurar um lugar para dormir. Fomos de posto de gasolina em posto de gasolina, mas nenhum queria nos deixar ficar. Disseram que os pátios eram alugados por uma companhia de turismo para os carros deles e ninguém mais podia ficar ali. Acabamos encontrando um posto que estava em construção. O guarda quis nos mandar embora, mas encarnei a atriz: eu tenho duas filhas pequenas, e elas estão doentes! – e infelizmente não era atuação. Por alguma razão, as duas estavam com febre. Acabamos ficando longe de qualquer supermercado e o dinheiro que tinha não dava para o restaurante do outro lado da rua.

    Pela primeira – e última – vez na viagem, Bardo teve que pedir comida. Os donos do restaurante eram gaúchos e concordaram em dar comida, mas só para as crianças! Fiquei imaginando se tinha um crucifixo em cima do caixa. Elas comeram, Bardo e eu fomos dormir com fome. Comecei a passar mal e não tinha banheiro ali. Foi um pesadelo.

    Na manhã seguinte a Elvira não quis pegar. Mônica amou ter que empurrar ela de novo. Rodamos até um mecânico e descobrimos que o alternador não dava conta de carregar duas baterias e tinha queimado. Não tínhamos dinheiro para outro. O mecânico então resolveu nos dar um usado que ele tinha por lá. Enquanto instalava a peça, começou a tentar nos converter para a igreja dele. Saí de perto, deixei a bomba para o Bardo. Não sei como ele resolveu, mas conseguimos sair de lá.

    Voltamos até a suicida BR 101. As cidades nos assustavam, não encontrávamos onde parar e muito menos onde tocar. Paramos para comprar comida em um supermercado. O lugar era sujo e escuro e as pessoas nos olhavam esquisito. Estávamos dando nosso máximo para deixar para lá e continuamos super simpáticos, mas nossa história não tinha impacto nenhum aqui, não como no sul e sudeste. Ninguém queria saber de artistas viajantes.

    Olhamos no mapa e decidimos seguir para a maior cidade que tinha. Era Ilhéus. O mapa nos sacaneou e nos colocou em uma estrada de chão assustadora. Para piorar, começou uma tempestade. Bardo parou a Elvira no meio do barro, no meio do nada. Respiramos. Era ali que estávamos e íamos tirar o melhor da situação. Pegamos nossa câmera de ação e começamos a filmar o trajeto. Passamos por uma pequena aldeia, eram menos de dez casas e um bar no meio do absoluto nada, a dezenas de quilômetros de qualquer coisa. Depois de mais um tempo derrapando no barro, passamos por um boi morto na beira da estrada e chegamos em uma encruzilhada.

    Sem o menor sinal de GPS ali, escolhemos na sorte. De repente, Bardo começou a rir. Ele contou para nós a história de Robert Johnson, um guitarrista que encontrou o capeta em uma encruzilhada, fez um pacto e se tornou um astro do blues. Resolvemos fazer nossa versão com o que tínhamos na mão. Uma tiara do Mickey virou chifres e com um pouco de maquiagem transformamos a Moniquinha na capirota. Gravamos as cenas ali e fizemos o clipe de Amorismo. Rimos muito e nos divertimos, sabendo, no fundo, que se pegássemos o lado errado e a gasolina acabasse podíamos muito bem morrer.

    Depois de algumas horas o barro acabou e vimos o asfalto. Paramos em um bar para descansar. Um homem, bêbado e com um olho só, veio nos perguntar se tínhamos vindo daquela direção. Quando confirmamos ele colocou a mão na cabeça e disse que tivemos sorte por estar chovendo. Aparentemente tinha um quilombo por ali que fazia pedágios e uma família branquinha como a nossa teria desaparecido para sempre. Comecei a soluçar. Bardo olhou feio para o homem e tirou ele de perto de mim, me dizendo que era bobagem, que o idiota só queria nos assustar.

    Era quase noite quando chegamos em Ilhéus. Estávamos exaustos mas precisávamos jantar. Fomos até o centro da cidade e conseguimos tocar em um bar. Ganhamos um dinheiro e o jantar. Nos trataram bem. Foi um alívio. Eu não queria aceitar que o nordeste não ia dar certo para nós, não queria aceitar o preconceito e não ia dar o braço a torcer. No dia seguinte tocamos ao lado da estátua de Jorge Amado, que eu li muito na biblioteca do interior de São Paulo. Em Capitães de Areia, quando ele diz “vou botar atrás pra você ficar donzela,” me identifiquei. Se tem no livro, quantas mulheres compartilham da minha história?

    No dia seguinte voltamos lá, mas o pessoal da casa de cultura disse que não podíamos ficar ali. Sim, da casa de cultura, e não ia ser a última vez que isso ia acontecer. Fomos um pouco para baixo na rua e continuamos. O povo de Ilhéus é um amor, nos tratavam bem, nos davam almoço e dinheiro na cartola. E também foi a primeira vez que fomos roubados durante o espetáculo. Um moço passou caminhando, pegou uma nota de cinco reais e saiu como se não fosse nada. Todo mundo viu, ninguém se manifestou. Bardo olhou para mim com uma cara de deixa pra lá. À noite fomos tocar em um bar e o dono do lugar nos deixou ficar na casa dele. Lá tinha um pé de cacau e eu amei ficar chupando a semente. Ali eu descobri o verdadeiro sabor do chocolate!

    E falando em chupar, a última coisa que dava tempo de pensar era em putaria. Estávamos sobrevivendo a cada hora e minha vida sexual se resumia ao Bardo, apenas. Minha última foda decente com outra pessoa tinha sido em Curitiba e ainda me deu um Influenza de presente. No dia seguinte, um casal nos convidou para ficar na casa deles. Fomos. Mesmo com tudo muito legal, eu estava me sentindo armada: a qualquer momento Jesus podia pular no meu pescoço de novo. Mas dessa vez o filho de deus me deixou em paz, quem me pegou foi o nós contra eles. 

    No meio do jantar o marido olha para nós e pergunta:

    – E aí, Lula ou Bolsonaro? – e antes que pudéssemos dizer qualquer coisa ele emendou – se forem dizer que são Bolsonaro já podem sair da minha casa. – Essa me pegou de jeito, eu realmente não esperava. Não era o povo da esquerda que estava entupindo a internet dizendo que o pessoal da direita era boçal? Parece que tinha bastante espaço em ambos os lados para a estupidez. Mesmo não sendo partidária de lado nenhum, me preparei para levantar da mesa, mas Bardo foi mais rápido:

    – Nós somos anarquistas.

    Antigamente, se você quisesse se divertir muito por uma hora ou mais, era só pedir para o Bardo fazer um discurso anárquico. Ele realmente deixava todo mundo de queixo caído. Hoje em dia ele não fala mais no assunto, mas naquele dia deu certo. Mesmo assim, quando a janta terminou, decidimos ir dormir em um posto de gasolina.

    Conseguimos recuperar nosso caixa em Ilhéus e resolvemos seguir para Itacaré, que todo mundo dizia que seria ótimo! Eu tinha restaurado minha fé na Bahia e no nordeste e estava animada para seguir.

    Chegamos cedo e ficamos encantados com a rua principal. Uma bela estrutura, parecia um shopping à céu aberto. Fomos até a praia, com vários quiosques, mas não conseguimos onde tocar, nem mesmo propondo tocar de graça e passar o chapéu. A recepção não foi das melhores. Procuramos um lugar para tomar banho e encontramos um hostel de uma menina de Porto Alegre. Apesar de zero saudades de lá, foi gostoso ouvir o sotaque cantado e percebemos o quanto o nosso tinha mudado! Absorvemos bastante do mineirês!

    O hostel não tinha chuveiro quente, para nosso desespero, mas tinha uma turma muito legal. Eram todos músicos, artistas performáticos e mambembes como nós. Perguntamos para eles como era a rua principal durante a noite e disseram que era bem movimentada. Assim que anoiteceu fomos para lá. Bardo encontrou um amigo, um músico famoso do Rio Grande do Sul que tinha largado tudo e ido tocar em bar por lá depois que, nas palavras dele, se amancebou com uma baiana. Fomos para a rua e começamos a tocar, e foi muito bom. Com a movimentação intensa de turistas, parecia um bom lugar para ficar uma temporada.

    Seca de uma boa putaria, abri o aplicativo de encontros. Conheci um carioca que era dono de uma pousada por ali. Nos encontramos na praia e batemos um papo. Era bonitinho e simpático. Fomos para a pousada dele e não deixei ele enrolar, fomos logo para a ação. Ele tinha uma pegada boa, beijava bem e me levou para a cama. Tirou minha roupa devagar, me acariciando, beijou meu corpo todo e abriu minhas pernas. Caiu de boca com vontade. Chupou e chupou até me deixar latejando! Não aguentava mais, queria pau! Puxei ele mas ele não veio, continuou chupando. Já comecei a me frustrar. Continuei puxando ele, que ainda estava vestido. Arranquei a roupa e aí entendi. Ele tinha um micropênis e estava compensando na língua. Colocou uma camisinha meio bamba e veio, mas eu não senti nada. Ele empurrava, socava, e nada. Fiquei de quatro e mandei colocar no cu, aí senti alguma coisa. Me masturbei com ele comendo meu cuzinho e gozei mais com meus dedos do que com o pau dele. Me vesti e fui embora, possessa! Bardo quis ouvir o que aconteceu e eu não quis frustrar ele, então só contei que tinha dado o cuzinho. Ele me comeu gostoso ouvindo e finalmente gozei com um pau gostoso e duro dentro de mim.

    Que ódio.

    No dia seguinte fomos ao supermercado buscar comida. Outro lugar sujo, escuro, com gente mal encarada. Resolvemos pegar só produtos embalados. O pacote de macarrão tinha carunchos e a calabresa estava com o pacote aberto e fora da geladeira. Não ia dar. Saímos dali e Bardo sugeriu ir à feira orgânica, onde os produtores se preocupam mais com as coisas. Eu nunca vi tanto urubu na vida. Eles brigavam com os cachorros e mordiam a carne seca pendurada nos varais. Peguei um cacho de uva que estava fechado em uma embalagem de plástico e saí de lá.

    Chegamos no hostel e o pessoal estava todo lá. Um rapaz fritava meia cebola e uma banana enorme em uma frigideira. Bardo ficou curioso e perguntou. Era a Banana da Terra. Nunca tinha visto. Ele pediu para experimentar e o pessoal todo olhou torto. Mesmo assim, o rapaz deu um pedacinho. Foi quando nos demos conta: aquela banana e meia cebola era o almoço de todos eles. Fui até a esquina e comprei um cacho inteiro das bananas e voltei lá. Dividimos com eles e isso foi nosso almoço.

    Eles começaram a nos perguntar sobre como vivíamos e se dava certo tocar como fizemos ontem. Falamos a verdade, que era muito difícil e mal dava para sobreviver, mas era uma experiência rica de contato humano, de liberdade e de poder viajar. Quando a noite chegou e fomos para a avenida, todos eles estavam lá, um a cada cinco metros, tomando a avenida toda. Um batia um violão e gritava, outro batia um tambor com um flautista desafinado, um desespero total. Não conseguimos trabalhar. Bardo aproveitou para dar uma aula para as meninas sobre Saturação de Mercado e a Tragédia dos Comuns.

    Na manhã seguinte era véspera de natal e o hostel estava hostil. Disseram que éramos mentirosos, que tentaram fazer e nem dava certo. Eu não sabia o que pensar. Fomos até a praia e tentamos de novo com os bares, sem sucesso. O pior é que não tinha onde comprar comida. Tudo o que conseguimos foi pão e mortadela, embalados, que tinham acabado de chegar no caminhão – o que não era garantia de muita coisa. E essa foi a nossa ceia de natal. Viu no que dá não ser cristão? Deus castiga!

    Com o tempo fomos percebendo essa diferença de qualidade na alimentação. Muitas vezes a mesma marca de macarrão era boa em uma cidade, duvidosa em outra. Talvez fosse a fábrica? Um padrão ia se desenhando. Em cidades muito populosas ou pobres a comida é claramente inferior, o supermercado cheio de coisas duvidosas. Já nas cidades pequenas, onde as pessoas tinham acesso ao ovo caipira, leite fresco, hortaliças e frutas direto da terra, os mesmos produtos tinham mais qualidade. Vai entender.

    Na manhã seguinte a mãe da dona do hostel apareceu por lá, furiosa. Tinha voado de Porto Alegre para resgatar a filha. Acontece que nenhum daqueles hóspedes lá estava pagando para se hospedar e tampouco estavam dando algo em troca. Eles tinham tomado o lugar como parasitas, se aproveitando da inocência da menina. A matriarca chegou jogando mochilas na rua, aos berros, mas quando deu de cara com a gente se acalmou. Ela nos chamou para almoçar e, quando contamos nossa história, ela desesperou-se. Disse que era para agradecermos ainda estarmos vivos e que devíamos voltar imediatamente para o sul.

    Já tínhamos o suficiente para que o preconceito virasse conceito até ali e resolvemos ouvir, mas não tínhamos dinheiro para voltar até o Espírito Santo. Decidimos voltar para Ilhéus. Tocamos por mais um dia, enchemos o tanque e metemos o pé na estrada. Eram 600 quilômetros, não dava para fazer de uma vez só. Resolvemos então fazer uma parada em Arraial d’Ajuda.

    O lugar é muito bonito e tem um calçadão de comércios. Paramos ali e tocamos, torcendo para não dar merda. Os comerciantes nos trataram bem e uma pousada nos ofereceu lugar para o banho. Quando a noite chegou, eles nos disseram que a rua ia encher de gringos. Era nossa chance de fazer um caixa. Começamos a tocar mas nos decepcionamos quando começamos a ver as camisetas do Grêmio e do Internacional passando por nós. Ah, esses gringos. Fui até o outro lado do país para tocar na Redenção de novo. Não ganhamos nada.

    Exaustos, estacionamos em uma praça ali perto para dormir. Estávamos arrumando as coisas quando um bando de mal encarados começou a nos cercar de longe. Bardo, com movimentos largos, pegou a faca de dentro do carro, colocou na cintura e ficou parado encarando aquelas pessoas, em um tom de ameaça. Depois de um tempo eles foram embora.

    Na manhã seguinte nos preparamos para ir embora, mas o dono de um restaurante na beira da praia nos pediu para tocar lá. Perfeito. Dinheiro para gasolina e o almoço. Tocamos e almoçamos e eu fui arrumar o carro para viajar enquanto Bardo guardava o equipamento de som. De repente o Rock sai de dentro do carro voando, todo arrepiado e dentes à mostra, de um jeito que eu nunca tinha visto. Ele latia para um homem perto de mim. Eu ia xingar o pobre cachorro quando olhei bem para o sujeito: com a cara derretida de drogas, ele segurava uma faca em cada mão e vinha na minha direção. Enquanto Rock atrasava o passo dele, peguei as crianças e corri para o Bardo. Chamamos o segurança do lugar, mas ele sequer levantou da cadeira. Tinha um homem com duas facas dentro do restaurante e ele não ia fazer nada. Bardo pegou um porrete e resolveu o problema.

    Entramos no carro com raiva. Faltavam 400 quilômetros ainda e Bardo estava disposto a desmaiar dirigindo se preciso. Se você está achando isso pouco, nunca fez essa distância em uma kombi com motor a ar, em uma estrada esburacada com caminhões andando na contramão o tempo todo. Estávamos a quase uma hora rodando quando as meninas começaram a vomitar. Alguma coisa estava errada com o almoço do restaurante – e com todos os outros almoços antes desse – e elas estavam intoxicadas. Bardo disse que nem por decreto ia levar elas em um hospital na Bahia e rodamos com elas passando mal até São Mateus, no Espírito Santo, onde foram bem atendidas.

    Sentamos e choramos. Comemoramos estar vivos. Eu realmente queria muito ter conhecido todo o nordeste e era muito frustrante ter vivido na pele tudo o que as pessoas diziam que acontecia por lá e que eu tinha como preconceito. Quem sabe tento de novo no futuro, com mais dinheiro, melhor equipada, sem depender tanto da boa vontade das pessoas?

    Foram 22 dias e duas horas. Coentro, com certeza, nunca mais.

    ***

    Ainda tinha todo o verão pela frente e fazia sol no Espírito Santo. Muito sol. Tão escaldante que era mais difícil de trabalhar do que na chuva. Mesmo assim, fomos. Uma família nos ofereceu uma casa que tinham na praia e dali visitamos toda a região, trabalhando muito. Conhecemos um diretor de cinema e ele queria filmar um videoclipe nosso. Fizemos o clipe de Empatia, que ficou assustador, com direito a armas de fogo e sangue falso. 

    Passamos nosso reveillon na casa de uma família que nos chamou para tocar. Estava no meio de Unchain my heart quando o pessoal começou a contagem regressiva. Olhei para o Bardo, naquela comunicação de olho, pedindo para que ele parasse. Ele não quis. Entrei o ano de 2018 cantando. Foi bom!

    Fomos tocar em um aniversário. Era um churrasco, não tinha muita gente, mas foi bem divertido. Ainda ganhei um presente do aniversariante! Entramos em um papo gostoso sobre plantas e ele me deu uma bela flor do deserto. Bardo conversava animado com uma moça. Eu gosto de ler o corpo dele enquanto está flertando. O jeito que ele sorri, os toques carinhosos, o olhar fixo no dela. Apontei e perguntei para o aniversariante quem era ela. Era uma menina pela qual o filho dele era apaixonado há muito tempo, mas ela tratava ele como amigo e ele não conseguia passar disso. Uma pena para ele, porque pela expressão dela, o Bardo ia levar embora.

    Ela pediu uma carona para nós na hora de ir. O filho do dono da casa nos acompanhou até o portão. Parecia cena de filme, ele vendo ela caminhar na direção do matadouro. O rapaz ainda segurou ela pelo braço e insistiu que ficasse, mas ela se soltou e entrou no carro. Assim que ela fechou a porta, ele nos olhou com raiva e bateu o portão na nossa cara. Sinto muito, garoto friendzone.

    Ela não esperou virarmos a esquina. Me puxou pro banco de trás e me beijou, já arrancando minha roupa. Bardo dirigiu até a praia e estacionou na areia, juntando-se à festa. Era disso que eu estava precisando, alguém com pegada e vontade de meter. Ela beijava firme, quente, gostoso, e metia dois dedos na minha buceta me fazendo ter vertigens. Bardo socava a bunda dela enquanto ela me chupava, enfiando a língua fundo, bem quente, me fazendo gozar. Dei um squirt na cara dela e aí ela enlouqueceu de vez. Ficou me arrancando orgasmos até eu não ter mais água no corpo. 

    Deitei na cama, acabada, Bardo ainda comendo ela gostoso. Ela colocou ele sentado, ajoelhou e, não sei como ela ainda tinha boca, começou a engolir o pau dele até o talo. E foi aí que ela veio com um pedido divertido: disse que sempre quis chupar um cara com o dedo no cu dele. Bardo topou na hora. Ela molhou o dedo e atolou até o fim. Os olhos dela brilhavam. Ela mamava gemendo e metendo o dedo nele. Bardo explodiu na garganta dela. Os dois deitaram comigo, ela no meio, e apagamos. Acordei com o sol da praia no meu rosto e um gemido abafado dela. Bardo já estava comendo o café da manhã. Ela me puxou e me masturbou até eu gozar enquanto ele melava a bunda dela toda. 

    Que delícia de trepada. Eu estava precisando muito disso.

    Seguimos pelo Espírito Santo tocando em cada uma das praias. O sol machucava mas valia a pena. Era praticamente como tocar em Minas Gerais, porque só tinha mineiro por lá (nem se fala de Guarapari!), mas com aquele visual incrível do litoral. Chegamos no final do estado e resolvemos continuar pelo litoral do Rio de Janeiro. Fomos bem recebidos em Macaé e Rio das Ostras, tocamos na praia e ganhamos bem. Fomos então para Búzios encontrar uma menina que estava viajando o Brasil de Kombi sozinha. Ela planejava subir o nordeste e eu achei de bom tom contar para ela como foi a nossa triste experiência por lá. Ela disse que cada experiência é única e seguiu viagem. Acabou sendo estuprada duas vezes e desistiu de viajar. Que merda.

    Saímos para tocar na rua em Búzios. A cidade é realmente linda, mas tem aquele ar de arapuca de turista. Tocamos uma meia hora e os fiscais chegaram, muito educados, dizendo que a lei municipal não permitia amplificadores de som na rua. Desligamos o som e terminamos o espetáculo acapella. Todos ficaram impressionados e até os fiscais colocaram um dinheiro na cartola.

    Dali seguimos para Cabo Frio, que já conhecíamos. Fomos recebidos por um casal de argentinos que, supostamente, eram nossos fãs porque tinham o relacionamento aberto. E era um casal lindo! Ficamos alguns dias com eles por lá, mas não rolou nada. Em uma noite ela saiu e pediu para levar as kids ao cinema. Deixamos e ficamos só com ele em casa. Talvez esse fosse o plano. Ficamos falando putaria e provocando, mas nada. Bardo resolveu sair de perto, talvez eu me desse bem. Nada também. Ela voltou e ouvimos os dois discutindo no quarto. O que tinha dado errado?

    Fomos tocar na Feira de Artesanato à noite. Lotada de pessoas. Escolhemos uma esquina, conseguimos uma tomada e começamos. Logo tínhamos uma multidão. Um fiscal passou olhando de longe, mas não disse nada. Algum tempo depois, voltou com outro e nos abordaram, grosseiros, mandando desligar tudo pois era proibido. O povo vaiou. Bardo se recusou. Demandou que o fiscal apresentasse a lei que impedia a sua livre expressão. O fiscal não soube o que dizer e foi embora. O povo aplaudiu e continuamos tocando. De repente, dobram a esquina nada menos que vinte fiscais uniformizados e chegam pegando nossas coisas. O povo foi para cima deles e virou uma confusão. Pancadaria. As pessoas conseguiram tomar nosso equipamento de volta e nos escoltaram para fora dali. 

    No dia seguinte fomos até a delegacia de polícia prestar queixa. Fizeram um boletim nas coxas e nunca mais ouvimos falar. Bardo estava estressado, eu estava cansada daquilo. Saímos de casa para espalhar amor, música e orgasmos e encontramos violência, fome e desespero. Talvez o mundo precisasse muito mais de nós do que imaginamos.

    Passamos o aniversário do Bardo em Arraial do Cabo. Tudo o que ele queria de presente era nada em alto mar e foi isso que ele fez. Foi um dia agradável, sem trabalhar, e curtimos muito. Quando fomos entrar no carro, um flanelinha veio cobrar vinte reais por estacionar ali, na rua. Bardo se recusou a pagar e ali eu percebi que ele tinha perdido um parafuso: ameaçou esfaquear o flanelinha. Achei melhor ir embora logo. Sugeri que voltássemos para o sul de Minas Gerais, onde era tudo mais leve.

    Algumas horas depois estávamos em Leopoldina. Bardo foi até a padaria e pediu pão e presunto. O atendente, um senhor de idade, ofereceu três marcas de presunto e perguntou:
    – Qual você quer?

    – Qual é a mais gostosa?  – Bardo rebateu.
    – Uai, o gosto é seu! – o senhor pegou uma fatia de cada marca, enrolou e deu para ele experimentar. 

    Bardo explodiu chorando. Era oficial, os mineiros tinham nos mimado e agora não tínhamos mais culhão para o resto do planeta. Dali seguimos de volta para a casa da Natália, só para ouvir um enorme – eu avisei vocês! Descansamos por um tempo e seguimos pelo sul de Minas Gerais, às vezes voltando para onde já conhecia, às vezes visitando cidades novas. E assim ficamos por muitos meses, no meio do amor, do café e do pão de queijo.

    Criamos uma quase rotina. Acordava no posto de gasolina entre uma cidade e outra, ia até o centro da cidade, tocava, pegava uma grana e, se não conhecesse ninguém interessante, seguia para o próximo posto de gasolina. Juntava dinheiro para muita comida e se enfiava em alguma cachoeira para viver igual índio por duas semanas ou mais. Era uma vida quase perfeita. Por outro lado tinha a infinita guerra contra os carrapatos estrela e a completa ausência de vida sexual além do Bardo.

    ***

    Tocamos em uma cidade grande e seguimos para encontrar um posto para dormir. Um carro preto começou a nos seguir e ficamos preocupados. De repente, uma foto da Elvira, tirada ali naquele momento, chega na DM do Instagram. Paramos o carro para conhecer esse casal maluco que seriam nossos amigos para o resto da vida. Carlos e Nicole. Eles também eram adeptos da putaria e nos levaram para a casa deles. Nos divertimos muito. Passou a ser visita obrigatória toda vez que passávamos por alguma cidade perto. Algum tempo depois fiquei bastante doente e foram eles que nos acolheram por um mês inteiro enquanto eu fazia exames médicos.

    Carlos é um gostoso. Bonito, elegante e ótima companhia. E é louco pelo meu corpo. Adorava ficar andando pela casa de camisola só pra acompanhar os olhares dele. Estar com eles é divertido demais. Bardo e Nicole se provocando o tempo todo, e eu deixando Carlos louquinho. Ele acordava cedo para trabalhar e ela gostava de dormir até mais tarde, então ele sempre me encontrava já passando meu cafezinho na cozinha. Nua. Imagina o desespero do homem, assim, cedo. Acabava que o banho dele sempre demorava uns vinte minutos mais. Ele me comia gostoso contra a pia ou no chuveiro e ia trabalhar leve. E eu ficava mandando nudes meus na cama dele ou vídeos do Bardo comendo a Nicole no meio da tarde enquanto ele trabalhava, só para ele saber o que esperava em casa. Essas são as amizades que queremos!

    Com os nervos pacificados, resolvemos aumentar nosso território e entramos no interior de São Paulo. Parecia outro país. A infraestrutura é muito melhor que a de Minas Gerais, asfalto liso (e com pedágios) e mais dinheiro na cartola. Por outro lado, fiscais perturbando o tempo todo e conversas infinitas sobre dinheiro. Todo mundo que conhecíamos era primo do tio do parente de algum famoso e estava investindo milhões em algum novo grande negócio milionário. Papo chato.

    Foi em uma cidadezinha que esse rapaz nos abordou. Disse que era produtor de um canal grande de televisão e que queria nos levar em um desses shows de domingo e nos dar uma van toda estilizada de presente, mas que para isso teríamos que atuar uma história triste, chorar, dizer que somos uma família pobre que vive na Kombi porque não tem onde morar. E por mais que isso, de um certo ponto de vista, fosse verdade, não era a imagem que eu queria ter por aí. Recusamos e o produtor ficou muito ofendido.

    Eu amo carro, amo estrada e amo motor. Mas me pergunte sobre marcas e modelos de carro e vai ter uma conversa vazia comigo. Fale de preço de carro e nem terá uma conversa. Eu realmente não me ligo nisso. Eu gosto do que o carro proporciona, não de ficar esfregando ele na cara do vizinho. Eu quero o vento no rosto, a estrada e as paisagens passando, eu quero ir daqui até ali, e é só. Aprendi a amar a Kombi porque ela andava devagar, quebrava pouco e tinha peças baratas. Em São Paulo ela era desprezada – o carro de verdureiro – eles diziam, enquanto comiam lasanha congelada.

    A Kombi tem esse charme. É o carro conectado com tudo que tem de bom. É o carro que anda devagar e não causa acidente. É o carro da verdura, da fruta, do ovo, da comida boa. É a nave que junta os amigos e carrega toda a turma para o passeio. E até quando ela quebra e todo mundo tem que empurrar é uma festa! Eu ainda sonho com o engenheiro que vai fazer a Kombi elétrica, um carro que nunca deveria sair de linha.

    ***

    Resolvemos voltar para Minas Gerais. Na internet o povo reclamava que não saíamos mais de lá, mas era só chegar na cidade deles que sumiam. No início pensamos que era a questão do poliamor que fazia com que se escondessem, mas havia sim uma enorme desconexão do online com o mundo real. Na rede o nós contra eles escalava conforme as eleições se aproximavam, mas na rua pouco se falava disso, ao menos onde estávamos circulando. 

    Fizemos alguns shows em comitês políticos. Sempre pagavam bem. Por sermos artistas, todo mundo pensava que éramos de esquerda. Então quando o ambiente era de esquerda, era só sorrir e acenar. Quando o ambiente era de direita, Bardo dava um breve discurso anarquista e tudo ficava bem. O importante nem era ser aliado, bastava não ser o inimigo.

    Em um desses comícios, a esposa de um deputado federal começou a alisar o Bardo na frente das amigas enquanto o corno dava um discurso. Ela ficava dando a entender que estava dando pra ele, e as amigas olhando pra mim buscando confirmação. Levamos numa boa por um tempo, até que o deputado começou a perceber a atitude dela. Bardo cortou ela na hora. Não queria treta com corno, ainda mais um deputado federal. Ela ficou tão puta que nunca mais conseguimos tocar nos dois bares que tocávamos na cidade.

    Achamos melhor não nos envolvermos mais com essa gente. 

    Fazia um tempo que queríamos conhecer Juiz de Fora e fomos para lá. Que arrependimento de não ter ido antes! A Rua Halfeld, um calçadão no centro da cidade, era uma mina de ouro. Parávamos centenas de pessoas para ouvir nosso show e ganhamos muito mais do que em qualquer outro lugar. Era tão bom que valia a pena sair da cidade para dormir no posto e voltar. 

    Depois de quase uma semana por lá, já tínhamos feito alguns amigos. O Marcelo, acupunturista, a dona Zilda que nos ouvia do apartamento dela e o César, um cara gente boa demais que morava ali perto. Naquele dia, um casal nos convidou para jantar e dormir na casa deles. Era mais longe do que o posto de gasolina, mas fomos. Naqueles dias o Instagram ainda me deixava postar fotos seminua e alguns dias antes eu postei uma foto linda, com o rabão para cima, e estava fazendo sucesso.

    Jantamos e ouvimos o papo cristão. Já tinha virado rotina as pessoas tentarem trocar uma boa ação por nossa conversão e eu nem levava mais para o coração. Eu só não entendia o que eles ganhavam com isso. A boa ação foi feita, você ajudou uma família “carente” e vai pro céu. Precisa mesmo me levar junto?

    Na manhã seguinte, a esposa nos pediu para irmos embora às pressas. Resolvi perguntar por que. Ela me mostrou minha foto no Instagram e disse que o marido estava vindo “tirar a limpo” aquilo. Maluco. Fomos embora. No caminho, vimos todos os postos de gasolina com filas enormes. Olhamos o preço, parecia o mesmo. Não era nenhuma promoção. O que estava acontecendo? Seguimos para o centro da cidade. Todo mundo correndo de um lado para outro como loucos. Poucos pararam para nos ouvir.

    Recolhemos nossas coisas e começamos a ouvir o rumor do povo. Parecia que uma greve nacional dos caminhoneiros tinha começado e as coisas iam ficar apocalípticas. Não ia dar para ficar saindo e voltando da cidade sem gasolina, mas o pior era a ameaça de ficar sem comida no mercado.

    Conseguimos dormir uma noite no estacionamento de um edifício no centro, mas no dia seguinte o síndico nos tirou de lá. Foi o César que nos salvou, dizendo que podíamos ficar no apartamento dele pelo tempo que precisasse. Ele tinha dois quartos vagos lá e com o filho estudando em outra cidade estava mesmo muito sozinho. Ser a família presente das pessoas já era nossa especialidade e topamos na hora.

    Os primeiros dias foram mais tensos mas, conforme o abastecimento de comida se provou efetivo, as pessoas se acalmaram e voltamos a tocar na rua. Mônica teve uma de suas crises alérgicas e nenhum táxi tinha gasolina para levar ela ao hospital. Conseguimos um uber que estava rodando no resto do gás e ficou tudo bem. Dez dias depois, tudo voltou ao normal. Abastecemos, agradecemos ao César pela acolhida e maravilhosa companhia e saímos de lá com mais um amigo para a vida toda.

    Seguimos de volta para Ouro Preto. A Copa do Mundo estava chegando e pensamos que ia ser incrível passar essa festa com as repúblicas. Dito e feito. Chegamos lá e fomos recebidos calorosamente. Uma das repúblicas nos ofereceu dois quartos e convidaram para ficar por lá a Copa inteira. Claro que topamos. Então eles disseram:

    – Nós fazemos churrasco em todos os jogos da copa!

    – O que tem de mais nisso? – perguntei – todo mundo faz churrasco em todos os jogos!

    – TODOS os jogos. – Eles disseram, de forma enfática – daqui a pouco começa Rússia e Arábia Saudita!

    Vamos nessa!

    Curtindo o dia todo e trabalhando pouco, resolvemos pegar o app de relacionamento de novo. Bardo conheceu essa mulher e a levou para a república. Que fogo no rabo! Metemos gostoso por horas e ela fez questão de dar o cuzinho. Adoro quando o Bardo fica metendo no rabo enquanto eu chupo a buceta. Sinto as estocadas dele na minha boca enquanto vou bebendo o suco. 

    Alguns dias depois, pegamos um dos estudantes da república. Ele quis beber antes, mas não deixei. Vai na cara e na coragem! Ele estava assustado com a presença do Bardo, nunca tinha feito um ménage, mas depois de um bom boquete ficou com o pau bem duro e me comeu gostoso, de quatro, enquanto eu mamava. Gozei gostoso. Fazia tempo que não gozava em outro pau.

    No dia seguinte fizeram outra festa e umas meninas vieram. Elas eram bem desajeitadas, mas era o que tinha, e Bardo e eu começamos a meter pilha em todo mundo para rolar uma suruba. De repente, o mesmo cara que tinha me comido na noite anterior chega com pó. Ficamos chateados. Sério mesmo que preferem cheirar essa merda do que uma suruba? Qual o problema com essa molecada? Preferiram cheirar. Bardo e eu nos retiramos.

    O Festival de Inverno de Ouro Preto estava acontecendo e, sabendo que estávamos lá, nos colocaram na programação. Tocamos no palco da festa, foi lindo, uma energia altíssima, e no dia seguinte tocamos na rua, no nosso estilo. Nesse dia, pedi para as kids filmar nosso espetáculo. Tinha muita gente, a rua estava fechada para carros e misturada à festa da Copa do Mundo. Estava incrível!

    No dia seguinte peguei uma infecção no ouvido e, de cama, sem nada para fazer, resolvi editar o vídeo cantando The Lion Sleeps Tonight e postei na página do Facebook. Fui dormir. Quando acordei, tinha mais de mil mensagens na caixa de entrada. Olhei para o vídeo: cem mil visualizações. Algumas horas depois eram duzentos e logo quinhentos. No dia seguinte já estava na casa dos três milhões. Pulei de alegria e chamei o Bardo que só torceu o nariz.

    – Grande coisa. Isso aí não dá em nada.

    Ele estava, com toda a razão, desacreditado do online, mas eu tinha outras ideias. Aquela vida de mambembe era perfeita mas não ia durar para sempre. As meninas iam crescer, nós íamos envelhecer e não ia dar mais para seguir assim, sem saber o dia seguinte. Talvez ali fosse o início de uma nova fase.

    Mas ele estava certo. Além dos elogios e das críticas, não recebemos mais do que um monte de convites para ir tocar de graça. Nenhum contrato, nenhuma proposta séria. Agora tínhamos trezentos mil seguidores com trezentas mil opiniões diferentes sobre a gente entupindo nossa caixa de entrada diariamente. Muita gente criticando a falta de escola das kids, nos chamando de irresponsáveis e nos xingando.

    Ao menos nosso canal do Youtube cresceu e agora ganhávamos incríveis quatrocentos reais por mês de streaming. 

    Quinze dias em Ouro Preto! Era carne, pele de frango frita, cerveja e pinga. Entramos em coma. Não dava mais e até que fomos longe demais. Para a tristeza dos nossos amigos estudantes, resolvemos ir para a casa de um casal de amigos em Barbacena para assistir Brasil e México. Eles não bebiam e eram veganos, a companhia perfeita. Um casal de swingers da cidade soube que estávamos por lá e nos convidou para ir ao apartamento deles. Ele era um baixinho sem sal e ela um robocop de silicone, e acabou que ficamos só no papo. 

    Eles nos convidaram para tocar em uma festa de swing que estavam organizando em uma cidade turística ali perto. Topamos. Alguns meses depois, chegamos lá. Pedi a eles que pudessem nos hospedar em algum lugar bem seguro e escondido, e expliquei por quê.

    A internet estava pegando fogo com as eleições e nossos novos fãs nos demandavam tomar posição. Direita ou esquerda? Não o fizemos. Então nos disseram que se você não está conosco, está com eles. Preferi ser inimiga de todo mundo. Que assim seja, afinal, vocês não pagam minhas contas. Foi quando começaram as primeiras ameaças. Nos disseram que se Bolsonaro fosse eleito nós seríamos pegos por algum grupo de extermínio, seja por ser poliamor, por sermos bissexuais, por sermos nômades ou por qualquer motivo que quisessem. Que merda.

    As kids ficaram seguras no porão de uma casa antiga. Escondemos a Elvira e fomos para a festa de swing. Fazia tempo que não ia a uma festa boa assim! Tocamos, animamos todo mundo e caímos na meteção. Estava com tanta saudades que dei uma de Bardo e transei com um monte de gente. Gostei mesmo foi de um gordinho do pau grosso que tinha uma pele gostosa. Sentei ele no sofá, sentei no colo e fiquei ali cavalgando devagarinho enquanto Bardo comia duas ou três mulheres ao meu lado.

    Na manhã seguinte sentamos todos juntos para o café da manhã. O pessoal todo se arrumando rápido para voltar às suas cidades e votar. De repente, me veio a ideia. Em quem esse povo do swing vota? Comecei a perguntar e, pasme ou não, todo mundo ali ia votar no Bolsonaro.

    Me senti uma idiota. Mas é claro! O povo do swing é o cidadão comum, o padre, o policial, o médico, o tabelião e o juiz. E se eles fazem swing, seriam coniventes com o extermínio de outras classes liberais? Meu palpite era que não. E isso dava um peso imenso para o discurso anarquista do Bardo: Brasileiro não precisa de governo, nós fingimos ter um, fingimos obedecer às leis e fazemos o que bem entendemos. Nós nos viramos muito bem sem eles, talvez até melhor. Somos pessoas do bem e olhamos uns para os outros com amor e carinho – basta não haver escassez.

    Essa ideia idiota de esquerda e direita que compramos dos Estados Unidos não funciona aqui. Assim como nunca ia funcionar um Partido Comunista ou um Ditador Fascista. O brasileiro simplesmente não ia obedecer. Sabemos muito bem o que queremos e não precisamos que ninguém nos diga o que fazer! 

    Voltamos para o porão e acompanhamos a contagem dos votos. Deu Bolsonaro. Passou um dia e tudo parecia normal lá fora. Dois dias, três dias e nenhuma notícia de gays pegando fogo. Saímos. O mundo não tinha mudado uma vírgula, assim como não tinha mudado da Dilma para o Temer.

    Eu sei que você pode revirar os olhos agora e dizer que muda sim. Mas eu me refiro à um único ponto de vista: ao da pessoa comum, que está vivendo sua vidinha pacata, totalmente desligada das grandes decisões econômicas. O preço do café sobe, do arroz cai, e é isso. Para essa pessoa o mundo é mundo desde sempre e as grandes políticas nunca vão mudar nada para elas. Essa sou eu e provavelmente você quando parar de ler as notícias.

    Com o fantasma político destruído e tudo em paz, seguimos nosso caminho levando amor e música por aí. Fizemos amigos, celebramos, curtimos a natureza e comemos menos gente do que gostaríamos, sempre.

    ***

    Foi em Lavras Novas, distrito de Ouro Preto, que essa mulher se aproximou. Uma senhora muito elegante, dizendo que tinha um amigo em uma grande gravadora, que enviou um vídeo nosso e que ele ficou muito interessado. Sem fé alguma, passamos nosso contato. Depois de alguns dias o sujeito nos ligou. Disse que um certo cantor brasileiro, desses famosos, queria relançar uma música dele na nossa voz.

    Legal. Montamos nosso estúdio no sítio de um amigo e gravamos a música. Aproveitamos para gravar todas as que queríamos gravar e mandamos fazer um CD para vendermos e ver se dava um pouco mais na cartola. Mandamos fazer mil cópias e vendemos muito mais rápido do que esperávamos. Enquanto isso o cara da gravadora dava notícias uma vez por mês, dizendo que estavam fazendo isso e aquilo e nós acreditando em nada.

    Resolvemos voltar ao estado de São Paulo e tentar de novo. Estávamos mais experientes, mais tranquilos e com mais grana. As meninas estavam maiores e eu estava planejando comprar uma daquelas barracas de teto para termos dois quartos na Elvira e, além do conforto, Bardo e eu podermos transar em algum lugar mais discreto que em pé atrás de uma árvore – não que isso não fosse divertido.

    Os pais do Bardo estavam insistindo muito em ver as kids. Nos encontramos no aeroporto de Guarulhos e eles quiseram levar elas. Elas quiseram ir e achei uma boa ideia, mesmo sabendo que ia levar alguns meses para reeducar elas na volta. Assim, Bardo e eu tínhamos mais liberdade de movimento e orçamento para levantar a grana da barraca.

    Seguimos pelo interior de São Paulo. Sorocaba, Itapetininga, Capão Bonito, Ribeirão Grande. Fomos visitar o Parque Intervales. Haviam várias trilhas mas apenas uma podia ser feita sem o guia – e não tinha nenhum por lá. Entramos no mato e andamos por alguns quilômetros vendo as mais belas paisagens. De repente, vi uma caverna enorme em uma pedra. Bardo me alertou que a única regra da trilha era não sair da trilha, mas eu não ouvi. Fui até a entrada da caverna e olhei para dentro. Ouvi um rugido forte, grave, e disparei. Passei voando as tranças pelo Bardo e sussurrei: corre. Ele ficou me olhando correr na frente dele e começou a correr devagar, sem me passar. Afinal, se fosse uma onça, ia pegar ele primeiro.

    No final da trilha fomos olhar no catálogo e o único animal que havia ali eram antas. Mas na outra parte do parque tinham onças. Bardo riu de mim e eu rebati dizendo que a onça não lia o catálogo, então podia muito bem ser uma! Mesmo assim ele não me deu moleza e ficou rindo de ter corrido de uma anta. Que anta! Voltamos para Ribeirão Grande, tocamos, comemos o famoso rojão e levamos um monte de linguiça no carro, para desespero do Rock.

    De lá seguimos para Itapeva, onde fomos escoltados pela polícia, mas desta vez para ficar acomodados no quartel. Tocamos na festa da cidade e fomos muito bem tratados! Depois Itaberá e Itararé, onde descobrimos mais sobre a história do Brasil. Não foi só o Rio Grande do Sul que bateu de frente com o império. Minas Gerais, São Paulo, Bahia, todos enfrentaram a coroa e tiveram suas batalhas. Fomos conhecer as trincheiras e ficamos felizes de ver um lugar que já foi palco de violência tornar-se um lugar tão lindo. Chegamos em uma festa enorme e, para nossa imensa alegria, estavam assando dezenas de costelas no chão. Que saudades! Tocamos lá e comemos até não poder mais. Conhecemos um povo muito divertido de uma galeteria e prometemos voltar logo.

    Resolvemos ir buscar as kids com a Elvira. Cruzamos o Paraná de uma vez só, de novo. Eu realmente não sei explicar por que nunca paramos por lá. Talvez seja uma missão para o futuro? Paramos em Curitiba para visitar os amigos e seguimos para Joinville, onde eu não via a hora de encontrar meu texano favorito. Sem gripe, dessa vez.

    A primeira coisa que fizemos quando chegamos foi correr para o supermercado. Eu queria cuca, chimia e nata! Estava morrendo de saudades das comidas da minha infância. Mas o que mais me impactou foram as fachadas. Não foi à toa que vi Minas Gerais como uma favela. Cada casa aqui era bem pintada, os jardins floridos e bem cuidados, as ruas bem varridas e tudo cuidado com o mínimo detalhe. Olhei para minhas roupas e me senti diminuída, suja, indesejada. Que contraste!

    Chegamos na casa do Francis no final da tarde e minha buceta estava latejando. Bardo foi visitar a namorada gordinha dele e eu entrei na casa mais braba que a Anta de Ribeirão Grande! Cheguei arrancando a roupa dele e enfiando a cara dele entre minhas pernas. Transamos com força, com vontade e com saudades. Eu de pé com as mãos na parede ouvindo o baque seco da virilha dele batendo com força na minha bunda, a cabeça do pau estocando meu útero. Que saudades de uma comida bem dada daquelas! 

    No dia seguinte eu só queria mais, mas ele me jogou uma bomba: estava de saída para os Estados Unidos para ver uma namorada lá. Fiquei possessa! Ele sabia que eu estava indo lá. Para amenizar, me deu um colar com uma pedrinha preciosa, a chave da casa e do carro dele para que eu usasse pelo tempo que quisesse. Ah, eu vou usar, seu filho da puta!

    Assim que ele se foi, abri o aplicativo de namoro. Em Santa Catarina ele funciona um pouco melhor pra mim, o povo parece mais animado. Transei com uns quatro caras (não ao mesmo tempo, infelizmente) na cama dele. Bardo trouxe algumas namoradas e também fizemos dois ménages. Enquanto isso, tocávamos nas cervejarias da cidade para levantar a grana da barraca de teto e acabei dando sorte: um casal que tinha planejado sair em uma Kombi lendo a bíblia tinha desistido da viagem e estava vendendo a barraca de teto pela metade do preço – e essa grana eu já tinha! Corremos lá e pegamos a barraca. Obrigado por essa, Jesus!

    Alguns dias depois conhecemos um alemão que se ofereceu para fazer um acabamento em madeira na Elvira. Não tinha como pagar, mas ele disse que podíamos ir pagando como fosse possível. Estava indo tudo bem, então decidimos fazer. Ficamos com o carro do Francis para os shows enquanto ele embelezava nossa casinha e fomos viajando as cidades ao redor. O calor estava insuportável naquela região e teve um dia que quase desmaiei. Bardo me jogou no carro e correu para a montanha, me jogando dentro de uma cachoeira. Ficou brincando que eu era a sereia do rio e estava morrendo longe de casa. E era mesmo!

    Com a Elvira pronta, agora com armários de madeira, uma pia e a barraca de teto, seguimos para o Rio Grande do Sul. Fomos visitando todas as praias no caminho. Passamos o Natal na Praia da Armação, tocando em um camping. Nos convidaram para a ceia de Natal coletiva, mas bem na hora da janta sentimos um cheiro podre, horrível! Era o Rock que, por algum motivo, tinha achado interessante rolar sobre um peixe podre na areia. Nos retiramos, pedimos desculpas e passamos a noite esfregando o cachorro, que parecia sem salvação.

    Dali seguimos para a famosa praia naturista do Pinho para o réveillon. Parecia uma ótima ideia passar o final do ano com um monte de gente pelada. Chegamos lá e trocamos nossa estadia por um show, já que eles não tinham nenhuma programação. Ficamos lá por uns dias junto com um pessoal que tinha um blog pago de fotos de naturistas. Bardo achava aquilo meio suspeito e ficou imaginando o que os assinantes faziam enquanto olhavam as fotos, mas quando nos convidaram para fazer algumas fotos para o blog, nós topamos.

    No final da tarde fizemos nosso show. Cantando nua para um público nu, me senti em casa! Foi gostoso e todo mundo curtiu e se divertiu!

    A noite foi meio esquisita. Durante o dia, alguns casais nos convidaram para fazer um swing na madrugada e achamos que era uma ótima ideia. Na hora da virada, todo mundo se vestiu de branco. Não entendi. Preferi ficar nua. Os casais que tinham nos convidado simplesmente nos ignoraram e saíram de perto. Será que eu quebrei o “dress code” ou algo assim? Enquanto uma turma ficou no meio da praia, outra turma foi para um canto escuro e começou uma pegação geral. Bardo animou mas eu não quis ir, não sabia quem estava lá e o que podia acontecer, não me senti segura.


    Fomos então para o outro lado da praia onde um pequeno grupo tocava violão ao redor da fogueira. Eram quatro rapazes e uma moça, que pagava um boquete para um deles. Nos sentamos ali. A moça foi chegando pro lado do Bardo e começou a chupar ele também. Os rapazes começaram a me cercar, mas eu não estava mesmo à vontade. Fiquei na minha. A moça estava animada e Bardo comeu o cuzinho dela, de quatro, ali na areia mesmo. Comecei a me animar, mas um dos rapazes veio com a mão cheia de areia e tocou na minha buceta. Me deu raiva. Pedi pro Bardo para sair dali e fomos dormir. Achei frustrante.

    Dali resolvemos seguir direto para Tramandaí encontrar nosso amigo Lu, que não víamos a muito tempo. Foi uma delícia reencontrar com ele, ganhar aquele abração de urso e colocar o papo em dia. Tínhamos tanto para contar um para o outro!

    Finalmente nos encaminhamos para a colônia alemã. Bardo e eu íamos conversando no caminho. E se nós fôssemos o problema? Se tudo o que tinha dado errado para nós no sul foi porque nós éramos juvenis e inexperientes? Será que agora, viajados e vividos, íamos encarar tudo de outra forma? Era uma premissa a ser testada!

    Chegamos na casa dos pais do Bardo. As meninas pulavam e choravam de alegria. Foram quarenta dias separados e elas não aguentavam mais de saudades. Nos abraçamos, beijamos, cheiramos e curtimos o tempo juntos. Dali fui para a casa dos meus pais. Juro que eu tentei dar um olhar fresco para aquilo tudo, mas só conseguia ver aquela velha e sem graça colônia alemã de sempre. Não suportei ficar um dia inteiro com meus pais e seus pensamentos atrasados. Pegamos as meninas e seguimos em frente.

    Podíamos ter ido logo embora, mas resolvemos subir a serra e ver o que acontecia. Encontramos um casal que era dono de um bar em Nova Petrópolis uns anos atrás e que agora tinha uma pousada por lá. Nos convidaram para ficar. Aproveitamos para tocar no Natal Luz, pelo menos até os fiscais nos expulsarem de lá. Pega mal esses pedintes no meio desse glamour todo, né, arapuca de turista?

    Inclusive sempre recomendei a todo mundo que me perguntava sobre Gramado conhecer tudo ao redor menos lá. A serra gaúcha tem uma gastronomia riquíssima e belas paisagens e tudo o que você encontra em Gramado tem na cidade vizinha por metade do preço. Vai por mim. Nova Petrópolis é uma gema! Se um dia você for ao sul, essa é a lista gastronômica obrigatória em qualquer cidade da serra:

    Churrascaria. Apesar de conseguir encontrar algumas boas pelo país todo, não tem comparação. Carne, carne, carne! Macia, suculenta e em uma quantidade de te botar de quatro.

    Galeteria. Nunca encontrei uma fora do sul. É um buffet de comida italiana: massas, calzones, polenta (que não é angu), saladas e um frango assado com um sabor que só existe lá (mas eu sei fazer em casa).

    Café Colonial. Esse é pra comer rezando, mesmo que não seja cristão. É um banquete de comida alemã com tudo o que se possa imaginar e um monte de coisas que não se encontra em outro lugar do país, como a cuca. E nem vem com esses arremedos que tentam fazer em outros lugares, a cuca alemã é do sul como a moqueca é capixaba! Só tem lá. E a morcela, ou morcilha, que é uma parente do chouriço mas completamente diferente e eu também não encontrei nada parecido em outro lugar do país. Uma das coisas que eu adoro no café colonial é que eles não param de repor a mesa. Se você comeu um pão, eles trazem outro. E quando você já está abrindo o cinto, tentando respirar fundo e rebolando na cadeira para ver se cabe mais um risole a mesa ainda está intacta, como se você tivesse acabado de chegar. Já disse que amo abundância?

    Por fim, o Xis. É o podrão do sul. Um hambúrguer prensado que não tem igual. E nem em Santa Catarina você encontra. Tentamos fazer ele em diversas ocasiões pelo sudeste e nunca conseguimos chegar perto do sabor. Qual será o segredo?

    Voltando de Gramado, chateados, a Kombi decide travar o câmbio. Poxa, Elvira, logo aqui no sul? Perdemos todo o dinheiro que tínhamos guardado com o guincho e o conserto. Era hora de meter o pé. Tentamos voltar tocando de cidade em cidade, mas era exatamente como nos lembramos: ninguém queria dar dinheiro para músico vagabundo, pedinte, morador de rua.

    Para piorar, a estrutura em madeira que o alemão tinha feito estava se desmanchando. Foi tudo muito mal feito, com material reaproveitado. Os pregos caindo. Quem usa prego em um móvel que vai tremer o tempo todo? As meninas se machucavam nas pontas de madeira soltas e ele usou um suporte que não aguentava o peso da barraca de teto, que começou a se soltar toda no caminho.

    Como ainda não estava pago, decidimos voltar lá, mas não sem antes visitar de novo todo o litoral de Santa Catarina, como fizemos dois anos atrás. Não reconhecemos os lugares. A Argentina estava em crise econômica e as praias estavam vazias de turistas. Ninguém nos dava dinheiro, não tinha onde trabalhar. Os amigos que achamos que fizemos não queriam nos receber. Um teve a cara de nos mentir que tinha mudado de cidade. Também fizemos novos amigos, como um casal de mineiros que estava morando na capital das capitais.

    Toda a cidade de Santa Catarina é a capital nacional de alguma coisa. Mas essa cidade não tinha comércio, indústria, agricultura, nem nada de que pudessem se orgulhar. Nem mesmo de ter sido capital do país por um dia porque Dom Pedro dormiu lá uma noite. Então o prefeito pegou as bandeiras de todas as cidades ao redor, colocou na avenida principal e a cidade se tornou a capital das capitais. É ego que chama?

    Estávamos na casa desse casal no dia do aniversário do Bardo. Nós não assistimos nenhum tipo de notícia, mas na casa dos outros não se escolhe o que passa na TV. E lá estava Brumadinho debaixo da lama. De novo, gente? Qual o problema com essas empresas? Bardo chorava sentado no sofá. Tremia. Queria sair dali e dirigir direto para lá, ajudar no que pudesse. Aquele povo amado não merecia uma merda dessas. Demorei para acalmar ele e convencer de que não íamos ajudar em nada. Que era melhor usar nossas redes sociais para pedir ajuda e foi o que fizemos. 

    Com o pouco que fazíamos, seguimos em frente. Chegamos na casa do alemão e ele estava abatido. Estava sem energia elétrica em casa, não tinha pago a conta. Reclamamos da obra e pedimos que ele consertasse. Ele pediu que comprássemos um novo rack porque ele não tinha dinheiro pra isso. Fomos para Joinville, fizemos alguns shows e voltamos com o rack. Quando chegamos, ele tinha sequestrado nossa barraca de teto e disse que só devolvia quando recebesse pelo trabalho. Bardo tentou sua magia, mas não teve jeito: o alemão estava desesperado por dinheiro, e por pouco dinheiro, nesse caso.

    Acabamos voltando lá com a polícia e pegando nossas coisas de volta. Foi um dia muito triste. A escassez fazendo seu trabalho e criando inimizades por pouca coisa. Eu realmente lamento muito.

    Ainda tinha a casa do Francis para usar em Joinville então fomos para lá. Eu amo essa cidade que sempre nos tratou com muito amor e carinho. E cheia de gente gostosa! Tocamos nas choperias, nos bares e nas ruas, sempre com sucesso. Levantamos nosso caixa e seguimos viagem, voltando para Curitiba. Lá fomos recebidos pelo nosso amigo artista novamente e tocamos nos food parks que tinham virado febre na cidade. Mais uma cidade pela qual tenho muito carinho. 

    Mais uma vez, cruzamos o Paraná em uma tarde (perdão!) e voltamos para Itararé. A diferença de tratamento era gritante. O problema do sul não éramos nós, eram eles mesmo. Era a pobreza de alma, a casa bem pintada com um belo jardim, o carro do ano e a mesa vazia de amigos. O contraste total das “favelas” que me apavoraram em Minas Gerais e a riqueza da mesa cheia de amigos, da comida simples e abundante, do carinho, do café e do pão de queijo.

    Sentamos, Bardo, eu e as kids, no gramado das trincheiras de Itararé. Choramos. Será que essas pessoas percebem a desgraça em que vivem? Puxei um papel, um lápis, e escrevi:

    Onde estão seus amigos, Catarina?
    Já se foram outra vez
    A parede bem pintada, o jardim belo e florido
    Perceberam outra vez

    Onde está sua luz, Juliana?
    Apagaram outra vez
    Tua roupa bem cortada, a pele bem hidratada
    Perceberam outra vez

    Abre a porta e deixa o sol entrar

    Deixa o mofo morrer

    Quem quiser pode ver

    Que a mesa tá vazia

    Que deseja companhia

    Que tem mais a oferecer


    Deixa o calor entrar

    Deixa eu te dar um beijo

    O cheiro do amor

    É de café e de pão de queijo


    De volta ao sudeste, respirei fundo. Aqui eu sou bem vinda.

  • Capítulo 8 – Decepção amorosa

    A Kombi, como eu, estava nua. Era só a capa. Consegui dois colchões de solteiro velhos e joguei dentro, com dois lençois e um travesseiro. Da Doblô trouxemos os colchões infláveis – para desespero do Bardo – o fogão de camping e as barracas. Aquela era nossa casa dali em diante e ia ter que servir. Batemos o arranque, partimos. Engatei a primeira e pisei, engatei a segunda, pisei, engatei a terceira e pisei. E ela ficou presa na terceira. Não trocava de marcha mais, no melhor estilo Miss Sunshine. Paramos em um mecânico que entrou debaixo do carro, olhou, saiu e voltou com um martelo. Que carro que se conserta com um martelo? Pá, pá, pum. Pronto, sigam viagem! Não nos cobrou nada.

    Seguimos para Curitiba, alcançando o terceiro estado da nossa turnê. No caminho eu já ia fazendo os contatos com pouca esperança: não espere que um curitibano vá te dar bom dia, muito menos te receber em casa ou ter amigos para chamar para uma festa. No meio da serra a roda dianteira esquerda começa a fazer um assovio e o freio fica duro. Paramos em um mecânico, esperando que voltasse com um martelo, mas não. Voltou com um rolamento e trocou. Trezentos reais. No meio da estrada, em um frio do cacete e sem opções, pagamos. Era muito dinheiro, quase tudo o que tinha no bolso.

    Chegamos na gelada Curitiba. Na internet, muitos fãs, na vida real, não têm ninguém para nos receber. Fomos para o centro fazer algum dinheiro e encontramos a Boca Maldita, uma praça onde acontecem os protestos – parece que os curitibanos têm muito à protestar – e montamos nosso equipamento. Deu bom! Os curitibanos podem ser fechados e frios, mas são um bom público e foram generosos. Com algum dinheiro no bolso pegamos comida e fomos à procura de um camping. Só encontramos um e era na cidade vizinha.

    Seguimos até lá, mas o endereço não existia. Era uma zona rural e apostamos em conseguir algum terreno para ficar aquela noite. Fomos entrando cada vez mais para o interior e paramos em uma bodega. Um lugar escuro, sujo, feio, com um atendente esquisito. Cara de início de filme de terror. Como um bom curitibano, nos atendeu perguntando o que queríamos ali. Não em um tom de o que desejam, mas em um tom agressivo, como se fosse uma ofensa entrar no bar dele.

    Explicamos nossa situação e ele disse que deveríamos ir embora o mais rápido possível. Explicou que ali era uma pequena comunidade cristã e que se nos pegassem vagando por ali iam nos matar. 

    – Matar? – perguntei. Ele só me olhou de volta, grave. 

    Bardo me pegou pelo braço e entramos no carro. 

    – É só um cara maluco, um idiota, tentando nos assustar – ele disse.

    – Ele conseguiu – respondi.

    Seguimos adiante pela estrada e paramos em uma porteira. Era uma fazenda moderna, com um belo jardim. Tocamos um sino. Uma mulher veio correndo lá de dentro, com uma feição preocupada.

    – O que querem aqui? – com aquele mesmo tom do maluco do bar.

    Contei minha história, disse que procurava pelo camping e que já estava escuro para sair dali. Ela olhou ao redor, como que procurando por mais alguém, e disse que ia nos deixar acampar no pátio da igreja, mas que não podíamos sair de lá antes do sol nascer, que ela ia avisar a comunidade que estava tudo bem. Nos levou até a igreja, abriu o salão para usarmos a pia e reforçou que não devíamos fazer barulho, fogueira e nem sair dali em hipótese alguma.

    Dormimos com um olho aberto. Obrigada, comunidade cristã, pela acolhida e, principalmente, por não nos matar.

    Na manhã seguinte um casal da cidade vizinha nos disse que podia nos receber por um dia ou dois. Era bem fora de mão e não tinha onde tocar por perto, então voltamos para a Boca Maldita, apresentamos nosso espetáculo e seguimos para lá no final da tarde. Fomos muito bem recebidos, mas o casal deixou claro que não tinham nenhuma relação com putaria nenhuma, queriam apenas nos ajudar com a nossa música. Por mim, tudo bem. 

    No dia seguinte nos levaram para um bar de rock onde uma banda tocava para um público considerável de motociclistas. No final do show subimos no palco e tocamos algumas músicas. Desci com o chapéu na mão e fui arrecadar um dinheiro enquanto Bardo guardava o equipamento no carro. Quando terminei de passar o chapéu, o vocalista da banda veio e tomou ele da minha mão. Disse que aquele dinheiro era dele, que eles tinham tocado por mais tempo e mereciam mais. Jurei que era uma brincadeira e ri, mas o resto da banda estava me olhando sério. Não entendi se estavam apoiando ele. Bardo chegou no meio da situação. Expliquei para ele e ele riu, estendendo a mão para pegar o chapéu de volta.

    Bardo tinha raspado a cabeça uns dias antes. Ele ficava realmente assustador com o figurino de couro, aquele óculos de espinhos e a cabeça raspada, parecendo um skinhead. O vocalista entregou a cartola e ficou resmungando baixinho. Ué, onde está o metaleiro valentão agora?

    No dia seguinte voltamos para a Boca Maldita. O povo estava adorando nosso som e pagando bem. E estava frio, muito frio! Nosso plano era tocar mais uma vez e seguir para a próxima cidade quando uma moça, baiana, nos viu tocando e nos convidou para ficar no apartamento dela que ficava a uns poucos metros dali. Isso era perfeito! E ela é uma pessoa maravilhosa (que eu espero que leia esse livro!). Nos recebeu muito bem! O apartamento era pequenino, mas aquele coração e energia baianos perdido em Curitiba fazia tudo dar certo.

    Colocamos a Elvira em um estacionamento pago do outro lado da rua e ficamos tocando por muito tempo na Boca Maldita, nas praças ao redor e na Feira do Largo da Ordem aos domingos. O público era bom, a grana era boa e Curitiba é uma cidade ordeira, limpa e organizada. Até hoje é minha capital favorita no Brasil. Com o tempo, fomos pegando o espírito do povo, que realmente é super fechado e tímido a ponto de parecer grosseiro – e às vezes é mesmo – mas que com o tempo vai se abrindo.

    Era aniversário da nossa Baiana e queríamos fazer algo muito legal. Batendo papo descobrimos que ela tinha muita curiosidade de ir à uma casa de swing, mas tinha receio de ir sozinha. Com as más companhias certas, ela convidou um amigo – também baiano – e um outro casal e fomos juntos. A casa era meio esquisita. É normal que muitos casais iniciantes fiquem tímidos nas suas primeiras vezes, mas aquilo parecia um mausoléu. Casais agarrados uns aos outros, morrendo de medo de alguém chegar perto. Ao menos haviam algumas corajosas dançando no pole dance. Bebemos uma garrafa de tequila – entre lambidas de sal e beijos na boca com limão – e subi no pole dance com as esposas. Alta da tequila, me soltei e comecei a gritar e rir alto. As outras mulheres me olhavam estranho. Tentei agarrar e beijar elas, passar a mão, mas não deixavam. Na verdade elas estavam dançando bem desanimadas. Esquisito.

    De repente, Bardo me puxa para fora da pista. O dono da casa tinha chamado ele e dito que eu estava humilhando as meninas da casa. As meninas da casa? Fui entender que eram prostitutas. Já tinha ouvido falar disso em algumas casas de swing, mas ainda não tinha visto. Aborrecida, deixei as meninas da casa em paz, peguei meus amigos e fomos para um quarto escuro. Como presente de aniversário, sentei na cara da nossa anfitriã e deixei ela se deleitar com a língua na minha buceta. Bardo ficou assistindo, já que ela não gostava de homens – pelo menos não na época – e segurando as dezenas de solteiros que pareciam baratas na porta, querendo participar.

    Terminada a brincadeira fomos caminhar pela casa e ver se comíamos alguém, mas o cenário ainda era o mesmo. Nos perdemos dos nossos amigos pelos corredores e encontramos esse casal metendo em pé contra a parede. Empurrei o Bardo nos dois e vi uma cena muito divertida: Bardo chegou, devagarinho, e colocou a mão na bunda da mulher enquanto o marido fodia. O cara gozou na hora. Esse vai dar um ótimo corninho. Pena que isso acabou com a brincadeira e eles fugiram. Cansamos e resolvemos ir embora, mas não conseguimos encontrar o terceiro casal. De repente, um segurança chega nos agarrando e nos tirando da casa. O dono da casa disse que estávamos nos comportando mal e humilhando os clientes. Se seus clientes não transam nem na casa de swing, a culpa é minha?

    Swing em Curitiba, nunca mais. Na verdade, a vida sexual em Curitiba estava complicada, muito mais do que em qualquer outro lugar. Bardo e eu resolvemos então tentar os aplicativos de namoro que estavam em alta no momento. Eu conheci um cara. Ele me levou ouvir jazz, beber vinho e jantar e depois fomos para o motel. Ele meteu muito, gozou três vezes. Eu, nenhuma. Voltei para casa compreendendo muito do vazio que as pessoas relatam sobre essa vida de app de namoro. Para o Bardo foi ainda pior. Saiu com três mulheres. Mesma coisa. Jantar, papo furado, motel e zero conexão. A cada trepada dava menos vontade de seguir em frente.

    Já estávamos há muito tempo no apartamento da nossa baianinha e comecei a pedir por lugar para ficar no microfone. Uma pessoa que morava ali perto nos acolheu. Nos mudamos para a casa dele. Como viveu na cidade a vida toda, acabou nos mostrando outra Curitiba: conhecemos as feiras locais (tem feiras todos os dias) e várias praças bacanas. Deixamos a Boca Maldita e começamos a rodar tocando pela cidade toda. 

    Essa foi uma de muitas vezes até ali que passamos por uma certa situação: a pessoa nos recebe cantando vantagens, dizendo que tem dinheiro, que faz e acontece, mas estava sem comida na geladeira. Acabamos ficando por mais tempo porque dava dó de ir embora sabendo que uma pessoa nem tinha o que comer direito. Antes de ir, compramos comida e abastecemos a casa. Era nossa forma de gratidão. Ao mesmo tempo, era difícil ver a pessoa não fazendo nada por si mesma, passando o dia nas redes sociais fazendo discursos de “nós contra eles.” 

    ***

    Francis, meu texano favorito, estava voltando de uma viagem na Colômbia e ia desembarcar no aeroporto de Curitiba. Oba! Nos encontramos e, depois de algum bom tempo, tive um sexo gostoso e pegado de novo. Teria sido perfeito se ele não tivesse trazido um extra da Colômbia (e não era o que você pensou): ele veio doente de H1N1, mas ainda não tinha os sintomas.

    Foram os piores quinze dias da minha vida. Logo depois, Bardo e as kids também pegaram. Era abril, em Curitiba, frio e úmido até não poder mais e nós quatro tremendo de febre. Em alguns momentos pensei que ia morrer e cheguei a conversar com o Bardo sobre isso. Foi horrível, mas passou.

    ***

    Com a Elvira devidamente documentada (deu muito trabalho!), nos despedimos de Curitiba e olhamos para o horizonte: nenhuma outra cidade do Paraná podia nos receber, mesmo tendo milhares de fãs na internet. Acabamos rodando direto para São Paulo, capital, onde o pessoal do movimento Poliamor nos aguardava. A situação lá era a mesma: a turma que conhecemos em 2012 havia se dividido por questões de nós contra eles. Raça, classe, sexo e política. Eu não sou uma teorista da conspiração, mas estava claro que havia um plano para nos separar a todos, uma ideia de discórdia total que minava qualquer tipo de união possível. Ou era isso ou somos todos nós, você e eu, completos idiotas.

    Sem muito o que fazer por lá no sentido de amar, fomos para os food parks da cidade. Estavam na moda esses pátios cheios de carros de comida pelo dobro do preço, lotados de gente, e nossa música era bem vinda. Fizemos uma boa grana. Durante o dia tocamos na Avenida Paulista, mas o povo não parava para ouvir, todo mundo na correria. Resolvemos então tocar em frente ao Teatro Municipal. 

    Chegamos perto do meio dia e montamos nosso equipamento. Uma loja nos emprestou a energia. Logo estávamos cercados por um público incomum: moradores de rua, prostitutas e alguns trabalhadores que tomaram a decisão corajosa de trocar os quinze minutos de almoço por música. 

    Começamos a ver uma movimentação diferente. Os moradores de rua pediam moedas aos trabalhadores e colocavam na nossa cartola. Segurei um choro. Cantei por muito mais tempo do que costumava cantar. Quando terminamos eles nos cercaram. Foram abraços, lágrimas e agradecimentos por trazermos para fora do teatro o que eles nunca iam poder pagar para entrar e ver. Foi um dos dias mais lindos da turnê!

    ***

    Em uma noite, fomos tocar em um enorme posto de gasolina no Ipiranga. Nos disseram que era um lugar frequentado por muitos motociclistas e que seríamos bem recebidos por lá. Chegamos com nosso som e o lugar estava mesmo lotado. Começamos a tocar e foi um sucesso!

    De repente, começam a chegar dezenas de motos. Todo mundo abriu espaço para eles. Eram os Abutres. Algumas pessoas já tinham nos dito que eles eram perigosos e que devíamos tomar cuidado com eles na estrada. Ficamos preocupados, mas continuamos tocando.

    Eles nos cercaram e curtiram o show. No final, dois homens se aproximaram. Pediram nosso contato e perguntaram sobre nossa música. Bardo começou a contar a história mas foi interrompido:

    – Espera aí, o presidente precisa ouvir isso.

    Logo chegou um outro homem. Bardo contou a história. Esse homem era o presidente nacional dos Abutres e ele disse que, onde quer que fosse no Brasil, se precisássemos de qualquer coisa na estrada poderíamos contar com eles. Disse que seríamos seus protegidos de quatro rodas.

    Enfim, os abutres, um dos motoclubes mais legais que conhecemos na estrada e que virou família. Algumas pessoas podem ter histórias não tão boas sobre eles, mas nós temos!

    Aliás, motoclubes no Brasil são incríveis, de forma geral. Eu não gosto de andar de moto, de forma alguma, mas a organização dos caras é muito legal. E eles fazem o bem por onde passam. Sempre tem eventos beneficentes e são, para os nômades, uma parte da família da estrada. Poderia citar aqui algumas dezenas de motoclubes que nos acolheram no caminho (acho que dava um livro só de histórias de motoclube!) Somos gratos por serem parte da nossa vida!

    Que a chuva lave seus coletes!

    ***

    De São Paulo, onde o movimento Poliamor tinha morrido, só restava o Rio de Janeiro. Colocamos muita fé. Era a cidade do amor, da beleza, da nudez, do carnaval. Se alguma coisa ia acontecer, ia começar por lá mesmo. Ao mesmo tempo, a cada passo para longe do Rio Grande do Sul íamos vendo o nosso movimento virar poeira. Nosso Clube do Amor já não se encontrava mais. Eram desavenças infinitas do nós contra eles. Alguns amigos da estrada viajaram e se encontraram, o que ainda nos dava esperança. Nos sentíamos fracos para lutar contra aquilo tudo.

    Descemos para a Praia Grande mas já era Maio e não encontramos público para tocar. Fomos seguindo pelo litoral paulista pegando chuva todos os dias. O dinheiro começou a minguar. Conseguimos tocar para um pequeno público em Caraguatatuba e recuperar para chegar em Paraty. Chegamos no meio de uma festa religiosa, lotada de público, e conseguimos tocar o final de semana todo. No domingo ao fim da tarde, um restaurante local nos pediu para tocar na rua ali perto deles e nos deu um dinheiro para chamar os turistas ao microfone. Não tinha feito isso ainda, mas parecia bom. Não foi. Os restaurantes ao redor não gostaram muito e chamaram a polícia.

    Tivemos muitas interações com a polícia no caminho e elas sempre foram positivas. Sempre foram muito atenciosos ao ver que lidavam com uma família e sempre animados para conhecer a Elvira. Dessa vez foi diferente. Dois policiais truculentos chegaram, desligaram o som e sugeriram que pagássemos um cafezinho para continuar tocando ali. Não tínhamos como pagar nada, mesmo que quiséssemos, e fomos escoltados pela viatura para fora da cidade. 

    Seguimos. Paramos em Angra dos Reis e tocamos na praça central para um público muito animado! Nos receberam muito bem, nos deram um bom dinheiro e seguimos viagem. Chegamos ao Rio de Janeiro no final da tarde e avisamos o pessoal do movimento Poliamor que estávamos lá. Para nossa absolutamente nenhuma surpresa, ninguém respondeu. Eu ainda tinha outra carta na manga: o pessoal da Rede Globo que conhecemos nos outros programas que fizemos. Apenas uma resposta e, por essa, na boa, eu não esperava: uma produtora nos pediu quinhentos reais para acamparmos na sala da casa dela.

    Fiquei injuriada. Era o fim da linha ali. Nossa missão de espalhar o amor não ia ter nenhum tipo de suporte. Me senti vivendo em um universo paralelo. Uma idiota querendo coisas boas para quem só queria brigar.

    Por outro lado eu estava orgulhosa de ter ido até ali movida pela música. Mesmo que o dinheiro fosse apenas o suficiente para sobreviver, estava vivendo grandes aventuras, viajando, conhecendo lugares e pessoas e experimentando comidas e culturas diferentes.

    Estávamos apontando a linha vermelha quando meu telefone tocou. Um fã, que não era da turma do amor livre, tinha conseguido um show naquela noite e uma garagem para dormirmos no Méier. Voltamos e seguimos para lá. Era um bar de rock, lotado de gente, e fizemos um espetáculo delicioso. Todo mundo se divertiu muito. De lá fomos dormir na garagem do prédio do fã. Na manhã seguinte a irmã do Bardo, que é comissária de vôo, disse que estava com um apartamento em Copacabana e que podia nos receber lá. 

    Estacionar foi um pesadelo. Quando os flanelinhas viram a placa de Curitiba chegaram como moscas. Dissemos que não podíamos pagar nada e eles nos ameaçaram de furar os pneus e arranhar o carro. Acabamos pagando uma fortuna para deixar a Elvira em um estacionamento fechado. Tentamos tocar na praia mas não nos deram espaço. Tocamos na calçada, mas ninguém parou para ouvir. A irmã do Bardo disse que ninguém iria arriscar puxar a carteira para colaborar ali. Uma lástima. Dormimos por lá e fomos embora na manhã seguinte. Na hora de sair do estacionamento, uma BMW nos fechou e arranhamos a Elvira contra um poste. Não adiantou muito pagar para estacionar.

    Adeus, Rio de Janeiro! Mas não sem antes viver um cartão postal: fomos parar no meio de um tiroteio entre policiais e bandidos. Bardo pensou rápido e nos enfiou entre dois ônibus (me desculpem, cariocas, pelo escudo humano) enquanto as crianças se jogavam no chão gritando, desesperadas. Em um instante que o fogo cessou, Bardo arrancou e passou pelos policiais, em uma rua na contramão, e nos tirou da situação. Nessas horas ele tem um sangue frio impressionante!

    Engarrafados na linha vermelha, choramos. Não conseguíamos ver como levar nossa missão adiante. Sugeri que fôssemos para Petrópolis, que eu já conhecia, e que lá decidíssemos o que fazer. Eu tinha ido no verão e não fazia ideia de como podia ser frio na serra do Rio! Estacionamos na Rua do Príncipe (o único lugar na cidade sem os flanelinhas uniformizados) e fomos tocar na Praça Dom Pedro II. Eu amo Petrópolis, com suas casas antigas, museus e o seu ar de história.

    Foi um sucesso. Nos chamaram para tocar na Rua 16 e em um restaurante fino. Quando a noite chegou o frio apertou de verdade e um pessoal do motoclube apareceu para ver se estávamos bem e trazendo cobertores. Isso sim é uma recepção calorosa!

    Ficamos ali por uns dias. Bardo dando aula e treino para as meninas e conversando comigo sobre nossa missão. Realmente não tinha por onde ir. Nos demos conta de que a internet e o mundo real eram completamente desconectados, que as conversas online raramente rendiam ações reais e que estávamos vivendo uma ilusão. Pensamos que, ao menos, o nós contra eles também podia ser uma coisa do online também, que nunca ia chegar na vida real das pessoas, não mais do que já existia.

    A Bauernfest, um equivalente da Oktoberfest em Petrópolis, seria dali duas semanas. Resolvi levar a família para conhecer Arraial do Cabo nesse meio tempo. Queria passar o dia dos namorados com o Bardo lá. Passamos para visitar uns amigos da família do Bardo em Araruama e seguimos, mas o câmbio da Elvira deu problema e acabei passando o dia dos namorados acampada em uma oficina mecânica e jantando miojo.

    Chegamos em Arraial do Cabo com chuva. Estava em uma maré de azar naqueles dias. Acabamos ficando estacionados na beira da praia e arrumando as cortinas da Elvira. Alguns dias depois o sol abriu e pegamos um evento religioso na cidade, o que rendeu bem para a música de rua. Conseguimos curtir as praias. Na segunda-feira um casal muito querido, donos de um barco, nos ofereceu um passeio em troca de publicidade no Facebook. Nossa página tinha trinta mil seguidores e crescia todos os dias. Eu me senti mal em aceitar, sabendo que aqueles seguidores eram pessoas reais e ao mesmo tempo falsas, mas fui mesmo assim. Valeu a pena. Pilotei o barco, entrei na caverna das baleias, Bardo nadou em alto mar no meio das arraias e tubarões (maluco!). Foi um dia delicioso!

    Aquela coisa de trocar audiência online por produtos e serviços me deixou com a orelha em pé. Eu estava começando a usar o Instagram na época e estava adorando. Ele me deixava postar minhas fotos nua e o público dessa rede parecia mais interessado em fotografia e não no nós contra eles que era o Facebook.

    Voltamos para Petrópolis e trabalhamos como doidos por quinze dias de Bauernfest. Fazíamos pelo menos três espetáculos por dia. Bardo, que tinha sido confirmado luterano na adolescência, conseguiu lugar para tomar banho em uma igreja luterana na esquina. As meninas começaram a reclamar muito do treino do Bardo, que era puxado demais. Ele estava impressionado com o filme Capitão Fantástico e deve ter pensado que ia transformar as filhas dele nos super personagens do filme. Tive que pedir para ele pegar leve, o que deixou ele bastante contrariado. Ele aceitou, mas deixou claro que íamos pagar um preço alto por aquilo no futuro.

    ***

    Estávamos fazendo o jantar na Elvira quando um moço que fazia estátua de rua passou por nós (você ainda encontra ele por lá, um anjo branco, Felipe – o Cara da Hipnose!). Parou, fez umas mágicas divertidas e ficamos de papo. Convidamos ele para jantar conosco e ele aceitou. Estávamos em uma conversa muito boa sobre nossa arte de rua quando olhamos para a esquina e vimos Dom Pedro II, em pessoa, vindo na nossa direção.

    Bardo não se conteve. Chamou ele para conversar. Ele falava com um palavreado rebuscado e contava histórias como se fosse o próprio! Nos mostrou a casa do outro lado da rua e disse que ali morava José Bonifácio, seu professor, e que ele não dava moleza nos estudos. Bardo fez uma piada com o nome, dizendo que ele era um professor “bom e fácil.” Dom Pedro não riu e mudou de assunto, deixando um climão. Ele jantou conosco também e, na hora de ir embora, saiu na mesma direção que tinha vindo, como se estivesse mesmo vindo nos visitar.

    Antes dele sair, Bardo pediu o contato, ao que Dom Pedro respondeu:

    – Nosso contato acabou de acontecer aqui, amigo. Se for para nos vermos de novo, nos veremos.

    Ficamos todos em silêncio com aquela fala enquanto ele sumia na esquina. Bardo pegou o telefone do bolso e jogou dentro do porta luvas.

    – Ele tem toda a razão.

    E daquele dia em diante Bardo não usou mais a internet.

    ***

    Dentro da Bauernfest conhecemos um casal muito bacana de uma cervejaria. Quando tudo terminou eles nos convidaram para ficar no sítio deles em Lumiar, um lugar lindo na serra do Rio de Janeiro. Os pais do Bardo vieram nos visitar e pediram para levar as meninas para o sul por uns dias. Elas queriam ir e ia ser bom ficar só os dois por um tempo, dava para trabalhar ainda mais!

    Chegamos na bela Lumiar com uma chuva torrencial. O casal nos recebeu na casa deles e nos deu um quarto. Deitamos e apagamos por três dias. Eles também estavam exaustos da feira e passamos só comendo e dormindo. Recuperados, fomos mexer na Elvira. Aproveitamos que o Rafa tinha uma esmerilhadeira e cortamos a divisória interna do carro (mesmo sob protestos de seguidores que diziam que ia danificar a estrutura, o que nunca aconteceu, né, especialistas da internet?). Com isso ganhamos bastante espaço para as meninas dormirem melhor. Elas cresciam rápido e estávamos tentando entender como íamos viver daquele jeito dali para a frente.

    Tocamos na praça e na cervejaria e nos divertimos muito. O casal emprestou um livro intitulado Sapiens que deixou o Bardo impressionado. E ele era assim. Sempre que se impressionava com alguma coisa nossa vida virava de cabeça para baixo. Foi assim com O Clube da Luta, TROM, com O Capitão Fantástico e com esse livro. Fazia sentido para ele com tudo o que tínhamos vivido e passado e ele resolveu mudar o comportamento em muitas situações dali para frente.

    Trocamos algumas ideias com o casal sobre amor livre, mas não era a vibração deles. Comecei a me sentir sozinha no mundo de novo, como era nos primeiros dias. Talvez o máximo que íamos encontrar era swing e sacanagem mesmo, não uma revolução do amor. Nos despedimos deles, que estavam indo embora para a Nova Zelândia e seguimos o nosso caminho.

    Depois de todo o sul, de São Paulo e Rio de Janeiro, finalmente íamos entrar em Minas Gerais. Era um estado do qual não sabíamos absolutamente nada. O nosso amigo Fufu tinha nos dito que era um lugar incrível e que íamos amar conhecer. Inclusive tínhamos um encontro marcado com ele em Alfenas no mês de Setembro e pretendíamos estar lá.

    Cruzamos uma ponte, mas vimos uma favela ao longe e decidimos não parar ali. Por mais que nossa música fosse para todos, o trauma do Rio de Janeiro ainda estava fresco e não sabíamos como seria a recepção. Decidimos seguir para a próxima cidade.

    Quando chegamos, havia mais uma favela. Era uma entrada secundária da cidade, então seguimos para a principal. Mais uma favela. Talvez as entradas da cidade fossem assim, periferia mesmo. Entramos e seguimos para o que o mapa nos indicava como o centro. A favela não terminava. Chegamos no centro, em uma praça linda, florida, com água, banheiro e wi-fi, mas ainda no meio da favela.

    Descemos do carro. Já era tarde e nosso pernoite ia ter que ser ali mesmo. As pessoas passavam olhando. Fiquei com medo e quis ir embora, mas foi Bardo quem se deu conta do que estava acontecendo: aquilo não era uma favela, era a arquitetura local. Hoje me envergonho de contar isso tudo, mas acho interessante mostrar como nossos olhos podem ser embotados pelo preconceito.

    No dia seguinte acordei e olhei para tudo aquilo de novo. Realmente aquela praça era bonita e bem cuidada demais para ser um lugar ruim. As casas eram simples e as pessoas se vestiam de forma simples. Resolvemos tocar e paramos em frente à uma loja de açaí. Tocamos a primeira música e o pessoal da loja nos ofereceu uma tomada. Tocamos uma segunda música e o povo parou para aplaudir e colaborar na cartola. Tocamos mais uma e ganhamos o almoço. E assim foi.

    No final do show tínhamos uma entrevista na rádio local, açaí de graça à vontade, o almoço e alguns contatos para tocar. Ficamos impressionados com o povo daquela cidade e achamos muito fofo o jeito que eles falavam com a gente, um sotaque macio, comendo metade das palavras (às vezes incompreensíveis).

    Ficamos tocando ali por alguns dias e foi muito bom! Desconhecidos paravam para conversar e ficavam ali por horas, como se não tivessem mais nada para fazer. No final da tarde, uma moça ruiva chegou por lá para bater papo. Ela disse que ia rolar um rock no final de semana e que podíamos tocar lá. Topamos. Lá pelas dez horas da noite um rapaz enorme, vestindo um sobretudo preto, chegou em uma moto. Disse que era o organizador do evento e que podíamos ir dormir no sítio da mãe dele naquela noite. Agradecemos, já estávamos bem acomodados ali, mas ele insistiu. E os mineiros insistem como ninguém.

    Acabamos nos enfiando em uma estrada de chão, no meio da noite, indo para um sítio desconhecido atrás de um motociclista. No caminho, ainda com as experiências de quem viveu muito tempo no sul frescas, fomos desconfiando. Tinha alguma coisa errada.

    Chegamos no sítio. Uma pequena casinha de roça, muito humilde. O rapaz acordou a mãe dele dizendo que tinha visita e que era para acender o fogão à lenha. Imagina! Se eu acordasse minha mãe dizendo isso eu levaria uma vassourada na moleira! A mulher levantou-se sonolenta, nos cumprimentou e acendeu mesmo o fogão. Uma hora depois tínhamos um banquete: arroz, feijão, angu, frango com quiabo, salada e uma rapadura de sobremesa. Insano.

    Mesmo assim estávamos com um olho aberto. Aquilo não era normal. Era gentileza demais e esmola demais, o santo desconfia, certo? Nos deram um quarto muito confortável, com uma cama de casal. Tenho vergonha de contar isso também, mas colocamos uma cadeira escorando a porta, receosos de que fossem nos pegar de madrugada.

    Acordamos com o cantar do galo. Tomamos banho e fomos até a cozinha. O cheiro de café tomava o lugar. Na mesa tinha café coado no pano, pão de queijo, broa de milho, pão de sal, manteiga e doce de leite. Segurei um choro (e segurei outro agora, escrevendo isso). Que gente é essa? Sim, fomos muito bem tratados em muitos outros lugares do Brasil, mas ali tinha um carinho diferente. É uma abundância incomum, uma riqueza misturada com humildade. Isso eu nunca tinha visto. Comecei, aos poucos, a entender a “favela” que eu tinha visto.

    Alimentados, seguimos para outro sítio, na cidade vizinha, onde ia rolar o rock. Chegamos lá e estacionamos nossa Elvira ao lado do palco (uma decisão não muito sábia quando tentamos dormir). A moça ruiva estava por lá e ficou andando com a gente o tempo todo. Acabou que papo vai, papo vem (Bardo não perde uma!) Acabamos os três no banheiro do sítio no meio da festa.

    Foi rápido, intenso e muito gostoso. Nos beijamos e nem nos despimos. Foi saia para um lado, calcinha pro outro, línguas, dedos e um boquete duplo que deixou o Bardo alucinando. Por fim ele escorou ela na pia, de pé, e deu uma enrabada gostosa. Gozamos e voltamos para a festa.

    De repente, começou a chover. Todo mundo correndo para baixo dos telhados, o rock arruinado. A banda seguiu tocando no palco. Corri para a Elvira com a moça e perdemos o Bardo. Aproveitei! Já que o show já era, vamos gozar mais? Dessa vez as roupas se foram completamente e me esbaldei na bucetinha dela. Molhada e gostosa. Ela me agarrava pelos cabelos com força enquanto eu chupava o suco enfiando dois dedos lá no fundo. Ela gozou muito. Depois foi minha vez e ela me lambeu todinha com vontade, me fazendo dar squirts pelo carro todo.

    Ficamos deitadas vendo a chuva lá fora até que terminou. A moça se foi e Bardo chegou. Eu estava louca para contar para ele, mas ele parecia mais empolgado que eu. Me contou que estava no meio da turma quando um rapaz abordou ele, perguntando onde estava a ruiva que andava conosco. Ele respondeu que não fazia ideia e o moço ficou apertando ele para saber se tinham transado. Bardo desconversou e mudou de assunto, eventualmente descobrindo que o rapaz era nada mais, nada menos, que o marido da moça.

    Comer quietinho que diz, né mineirada?

    O rock continuava no dia seguinte e a chuva deu uma trégua durante o dia. A cerveja não parava de chegar e, pelas nossas contas, a Bauernfest já estava ficando para trás. Eram caminhões e caminhões de latas chegando e não parecia ter tanta gente assim para beber aquilo tudo.

    A noite caiu e fizemos nosso espetáculo. Foi lindo, uma das nossas poucas apresentações em cima de um palco. O povo pulou, curtiu, dançou e se emocionou. Foram à loucura quando cantamos The Lion Sleeps Tonight: auimauê, auimauê, todos cantavam juntos e riam!

    Descemos do palco encharcados de suor e fomos para o chuveiro. A ruivinha nos seguiu e se enfiou no banheiro! Bardo perguntou, delicadamente, sobre o marido. Ela desconversou e transamos os três no chuveiro. Foi delicioso, mas eu estava com a pulga atrás da orelha. Eu quero o sexo, amo, adoro. Mas eu não quero fazer parte de traição, de mentira, de enganação. Era exatamente o que eu estava lutando contra. Enfim, aproveitei, mas com um pezinho atrás.

    Foi o tempo de sair do banheiro e a chuva caiu. Ainda mais intensa que na noite anterior, e com ela levou a energia elétrica. Agora sim a festa estava arruinada. O povo se enfiou todo debaixo dos toldos espalhados pelo gramado, mas não parou de beber. Ali, na escuridão total, ficamos batendo papo com um monte de gente que não víamos.

    E ali tinha essa mulher muito prazenteira que me encantou, vamos chamar ela de Natália. Ela era jipeira e encontramos muitos gostos em comum. Os amigos dela também eram muito divertidos. Ela nos convidou para passar na casa dela no dia seguinte e tomar um café. Trocamos contato e ela me enviou o endereço.

    No dia seguinte o organizador da festa estava aborrecido. Com a chuva – que é rara nessa época em Minas Gerais – ele não tinha atingido o objetivo financeiro dele. Eu olhava para a pilha surreal de latas de cerveja vazias e, pra mim, a conta dele não fechava. Saímos dali e fomos conhecer a cidade. Uma cidade histórica, cheia de prédios antigos, e meus olhos começaram a trocar o “favela” por barroco.

    Fomos ao museu e andamos pelos trilhos do trem. Aliás, tudo ali era trem e levamos um tempo para entender que isso significava simplesmente qualquer coisa. Me alcança o trem ali? É só usar o trem que dá certo. Deixa esses trem aí, menino! Bardo fez graça com uma placa que dizia: Cuidado: trem. Cuidado com o que? Você pode ser atingido por um meteoro ou uma colher de sopa!

    No final do dia encontramos o organizador da festa, a namorada dela e uns amigos. Entre eles um rapaz muito bonitinho. Nos levaram para um bar. Quando chegamos, Bardo se interessou por uns pedaços de carne no balcão.

    – O que é isso? – ele perguntou aos rapazes.

    – Você não conhece panceta? – eles responderam, embasbacados.

    – Não!

    – Nossa, é hoje! – eles disseram, com um sorriso faceiro no rosto, lambendo os beiços e esfregando as mãos.

    Sentamos à mesa e eles trouxeram a panceta. É uma espécie de bacon, uma receita italiana. Uma tira da barriga do porco que, ao contrário do bacon, é curada e temperada, o que lhe rende um sabor diferente. Frita, é um crime, e implora um copo gelado de cerveja.

    Esse foi o primeiro tombo (de muitos) do Bardo. Sentou-se à mesa e começou a beber com os mineiros. Depois de três cervejas (praticamente o limite dele), um copinho de cachaça. Mais cerveja, mais panceta, mais um copinho de cachaça. Uma coisa levava a outra em um ciclo sem fim. Até que ele foi longe. Saiu da mesa de quatro direto para dentro da Kombi e os mineiros não estavam sequer tontos.

    Fiquei de papinho com o cara bonitinho, mas ele era bem inocente. Não entendeu minhas indiretas e acabou ficando sem nada – e eu também. Meio cabreira, fiquei olhando para a mão dele para ver se tinha uma aliança. Não tinha. Quem sabe em outra oportunidade?

    No dia seguinte Bardo estava um trapo. Limão com bicarbonato e óculos escuros. Fiquei vagando pela cidade, me acostumando com aquele filtro sépia, natural do lugar. No meio da tarde, já melhores, decidimos seguir viagem rumo ao completo desconhecido. Estávamos quase saindo da cidade quando me lembrei do convite da Natália. Falei com Bardo, mas eu mesma argumentei que a mulher estava bêbada, que provavelmente o convite foi da boca para fora. Decidimos não ir. Rodamos mais um pouco e comecei a me sentir mal. E se ela estivesse mesmo esperando? Pedi para voltarmos lá.

    Chegamos na casa dela no final da tarde. E ela estava nos esperando. A mesa estava posta com tudo o que Minas Gerais pode oferecer: queijo, goiabada, pão de queijo, pão sovado, manteiga, geléia, nata, requeijão, broa, biscoito e café, muito café. Era comida para umas dez pessoas, e éramos só três. Imaginei se ela esperava mais gente. 

    Ela vivia sozinha em um pequeno sítio dentro da cidade. Uma casa enorme com um jardim lindo. Comemos e batemos um papo delicioso. Quando deu a noite, nos despedimos e fomos seguindo nosso caminho. Ela fez um ar de quem ia se ofender. Disse que tinha preparado uma canjica para o jantar. Eu nunca tinha comido canjica de porco, mas tinha comido tanto a tarde toda que não aguentava mais. Acabamos ficando.

    Jantamos – empurrando – e estava uma delícia! Agradecemos o jantar e nos dirigimos para a Elvira. Ela, de novo, fez aquele ar de ofendida e nos convidou para dormir ali. Não queríamos abusar e ficamos naquele papo até que a insistência mineira venceu a xucrice gaúcha. Ela nos ofereceu um quarto enorme, com uma cama de casal. Nos trouxe roupas de cama e toalhas de banho. Aceitamos de bom grado e dormimos ali.

    Na manhã seguinte acordamos e não encontramos ela. Já tinha ido trabalhar e nos deixou – dois completos estranhos – dentro da casa dela! A mesa do café estava posta com tudo aquilo de novo. Comemos moderadamente (ainda estávamos pesados da noite anterior) e liguei para ela agradecendo muito e avisando que íamos seguir nosso caminho. Ela disse que não podíamos ir – tinha arrumado um show para nós dois dias depois – e seria ofensivo se não ficássemos.

    Assim, Natália foi nos levando. Fica mais um dia, fica mais um dia (Déjà vu?). A companhia dela realmente era ótima, ficamos muito amigas. Contei para ela sobre minhas aventuras e a nossa missão, mas não era a vibração dela. Ela gostava de nós ali, da música e da conversa. Fomos ao supermercado e compramos mantimentos para repor. Não queríamos abusar da nossa anfitriã.

    Começamos a tocar no calçadão central. Mesma receptividade da cidade anterior. Dinheiro na cartola, almoços, jantares e entrevistas no rádio e no jornal local. Minas Gerais nos surpreendia de uma maneira que não imaginávamos.

    O moço bonito entrou em contato. Disse que tinha um passeio sensacional para fazermos: um biciclotrem! Devia ser uma bicicleta misturada com alguma coisa, imaginei. Qualquer coisa. No fim, era com um trem mesmo! Fomos até os trilhos, conhecemos os trens antigos e andamos nessa bicicleta que andava pelos trilhos. Fui batendo papo com o rapazinho e, mais no tempo dele, dando a entender o que eu queria com ele. Acho que a fiação mineira na cabeça dele estava com dificuldade de me ouvir falar daquele jeito bem na frente do meu marido, mas em algum momento ele finalmente entendeu.

    Fomos para casa e Bardo reclamou que o pé dele estava coçando. Pensou que era uma frieira, passou um remédio e foi dormir. Quando acordou, na manhã seguinte, estava com as pernas todas, até a altura da cintura, cheia de feridas. Era horrendo. Corremos para um médico e ele disse que era sarna. Pobre Bardinho se retorcia de coceira. Compramos os remédios e um sabonete Matacura e ele ficou de cama.

    No dia seguinte liguei para o moço bonito. Ele topou sair para dar um passeio. Veio me buscar no final da tarde – de moto. Eu não ando de moto. Odeio, tenho horror. Andei uma única vez com o Bardo e me senti um parachoque. Não sei como as pessoas tem coragem de subir numa coisa dessas! Fiquei em um impasse. Eu estava com a bucetinha pulsando. Já eram meses desde minha última aventura com outro homem. Não teve jeito: subi na moto e fui. 

    Animada, esperava ir direto para o motel, mas não. Ele me levou para a praça central, onde eu tocava. Caminhamos, conversamos e comemos pipoca. Sentamos em um banco e ele pegou na minha mão. Ali me dei conta: eu estava em um encontro adolescente! Oh, não! Fui levando a conversa para a putaria o mais rápido que pude, mas ele resistia. Se ele não fosse tão bonitinho eu tinha ido embora na hora. Continuei insistindo até que ele pediu para irmos para outro lugar. Agora sim, finalmente o motel!

    Ele pegou uma rua estreita e começou a subir um morro íngreme. Entrei em desespero quando chegamos no pé do Cristo Redentor (quase todas as cidades de Minas Gerais tem uma versão menor dele). Ele falava de família, de casamento e de filhos e eu falava de suruba, putaria e orgasmos. Quando vi que ele não ia ter iniciativa, agarrei ele, joguei contra o calcanhar do Senhor e comecei a beijar.

    Ele beijava bem, era gostoso. Tentei enfiar a mão nas calças dele mas ele não deixou. Estava muito desconfortável ali. Seria a estátua? Acho que o seu deus vê em qualquer outro lugar do mesmo jeito, não é? Subimos na moto. Ele estava ofegante. Agora vai, agora é motel! Não foi. Comecei a ter vertigens quando percebi que me levava de volta para casa. Me lembrei do flautista frouxo. Minha buceta já doía de tesão e nem o Bardo ia poder me salvar hoje, cheio de sarna em casa!

    Chegamos no portão e voei nele. Esse filho da puta ia me fazer gozar ali mesmo. Agarrei-o e encostei em um canto escuro, debaixo das plantas. Passava a mão nele todo e ele foi se encorajando. Pegou na minha bunda. Ah, finalmente! Ficamos naquele agarra adolescente por um tempo. Meu clitóris pulsava, gritando como um alarme de bombas atômicas. Convidei ele para entrar e conhecer a Elvira, mas ele decidiu ir embora. Fiquei furiosa. Ainda teve a audácia de me convidar para jantar com a mãe dele no dia seguinte.

    Entrei em casa me arrastando. Bardo estava na cama, jogando videogame no notebook. Ele olhou para minha feição e arregalou os olhos. Perguntou o que tinha acontecido, se eu tinha sido abusada ou algo assim. Contei para ele como foi e ele ficou muito triste por mim. Até hoje ele diz que nunca tinha visto aquele ar de decepção no meu rosto – nem com o flautista. Sem que ele pudesse me comer, deitei do lado dele e arranquei litros de suco do meu clitóris. Gozei até não poder mais, mas não fiquei satisfeita. Que ódio desse rapaz!

    No dia seguinte, Bardo me chama na cozinha. 

    – O que é isso? –  ele pergunta, tirando uma estrelinha marrom da barriga. Eu nunca tinha visto aquilo. Fizemos uma foto e mandamos para a Natália. Era um carrapato estrela. Começamos a procurar pelo corpo dele e encontramos mais alguns. Não era sarna! Ele estava sendo consumido pelos parasitas aqueles dias todos! Que médico imbecil!

    Removidos os bichos, ele começou a melhorar e alguns dias depois conseguiu voltar a tocar. Eu estava subindo as paredes com aquela castidade forçada. Ele também. Assim que foi possível, transamos uma tarde inteira. Era preciso tirar o atraso! Nem imaginávamos o quanto esses carrapatos seriam nosso pesadelo dali para a frente.

    ***

    Fica mais um dia! E assim as meninas já estavam de volta do passeio dos avós. Eles iam nos retornar elas no aeroporto do Rio de Janeiro, que não era tão longe dali, então Bardo e Natália foram no carro dela – ela aproveitou para visitar os filhos que moravam por lá. Fiquei sozinha em Minas. Em um papo com nossos contatos da estrada, Zé – meu comedor de Floripa – me disse que estaria a trabalho na cidade vizinha. Quais as chances? Eu ia me esbaldar naquela rola gostosa!

    A expectativa cresceu e a decepção foi imensa quando ele disse que tinham realocado ele de cidade, que não íamos nos ver. Eu precisava meter com alguém, mas não conhecia mais ninguém que tivesse me chamado a atenção ali. Liguei para o bonitinho, em um ato de desespero. Ele estava magoado porque eu não quis conhecer a mãe dele. Chamei ele para conhecer a Elvira e ele aceitou. É hoje.

    Não dei tempo para ele entrar no papinho de bom moço. Empurrei ele para dentro da Kombi e já fui arrancando as roupas. Ele lutava. Beijava gostoso, colava o corpo no meu, mas os braços me empurravam e seguravam as calças no lugar. Que filho da puta, desgraçado. Lutei com a força de uma leoa faminta. Eu já estava toda nua, ele ainda de cueca. Esfregava minha buceta na cueca dele, o pau duro como um tijolo, todo molhado, e ele não tirava. Eu não podia passar por aquilo de novo!

    Ele me tocava com delicadeza, sem nenhuma pegada, e eu agarrava ele com força, alisava o pau, tentava tirar a cueca. Ele me beijava e tentava ficar só no arreto. Tentei descer e chupar, ele não deixou. Fiquei de quatro, de costas para ele, rebolando a bucetinha e chamando. Não tinha como resistir a isso. Ele ajoelhou atrás de mim, ainda de cueca, e ficou roçando o pau duro na minha bunda. Eu estava em desespero completo. Mete esse pau, pelo amor do teu deus, seu brocha! Ele não meteu.

    Deitei do lado dele e me masturbei. Ele não ia me fazer gozar? Tudo bem, mas ia me ver gozando. Gemi alto e dei squirts nas pernas dele. Ele se vestiu e foi embora. Idiota! Estava desesperada. Liguei para a ruivinha, mas ela não atendeu. Então liguei para o organizador da festa. Ele não me interessava e tinha namorada, mas tinha um jeito de safado e alguém precisava me comer. Não deixei claro o que eu queria e ele foi com a namorada. Tomamos café juntos e conversamos. Quase propus aos dois um ménage, mas fiquei receosa de como ela ia reagir. Acabei sem nada.

    Anos depois fui saber dela, quando nem estava com ele mais, que ela teria topado. Que azar! Não se deve ter medo de tentar!

    O que leva as pessoas a tratarem sexo, uma coisa tão simples e básica, um prazer tão fácil de dar e receber, com tanta dificuldade? É tanta coisa complicada colocada ao redor! Namoro, casamento, “energias cósmicas” e tudo o mais. Gente, é só tirar a roupa e curtir, nada mais que isso! 

    E não precisa ser vazio. É simples. Basta que as duas (ou mais) pessoas envolvidas realmente queiram o prazer do outro. É o ápice da beleza do dar e receber ao mesmo tempo.

    Por algum motivo, em algum momento, inserimos sentimentos que não pertencem a esse lugar. Complicamos o que era simples e nos transformamos em seres que negam sua natureza. Somos todos extremamente carentes de carinho e, em algum momento, isso virou motivo de vergonha. Sexo não é vergonha nenhuma, é simplesmente a coisa mais linda que existe, é o amor em sua essência física e carnal e não devia ser atrelado a mais nada a não ser a prazer e respeito entre as pessoas.

    Mas não é assim que funciona, não é?

    ***

    Bardo voltou com as kids. Que saudades das minhas meninas! Resolvemos ir embora – sob protestos da Natália e com a promessa de voltarmos logo – já estávamos ali por trinta dias!

    Dali para frente era o absoluto desconhecido. Aquele tom sépia contrastando com as montanhas verdes (eu sempre imaginava encontrar os TeleTubbies correndo por ali) e o pior asfalto que eu já tinha visto. Seguimos de cidadezinha em cidadezinha, acostumando cada vez mais com as casinhas simples, a comida abundante, o povo prazenteiro e bom de copo e o jeitinho mineiro de dar uma puladinha de cerca. 

    Um anjo antes de casar, um demônio depois que casa. 

    Naquela manhã chegamos em mais uma cidadezinha. A igreja no centro, a praça florida, as casinhas ao redor. Já tinha virado um padrão. Tocamos na praça em frente à uma escola, na hora da saída. Foi uma delícia de espetáculo. Um fazendeiro que passava ali nos pagou um almoço no restaurante. Conversando, ele nos convidou para dormir na fazenda dele. Já estávamos bem mais acostumados e perdemos o medo desses convites para ficar no meio do nada.

    Andamos por quase uma hora no meio do mato até chegar lá. Já era noite, não tinha nenhum sinal de telefone. Ele nos convidou para jantar. Era só o anfitrião e a esposa em uma casa de fazenda gigantesca, daquelas de filme de época. O jantar, como sempre, foi maravilhoso. Abrimos um vinho, outro e depois outro. Bardo já estava mais esperto agora e não tentava acompanhar o pique. Em algum momento o homem faz uma voz grave e manda a fatídica pergunta:

    – Qual a religião de vocês?

    Bardo pula com a resposta ensaiada: – preferimos não falar sobre isso.

    O homem ignora a resposta dele e diz: – Nós somos cristãos. E eu acho que todo o mundo deveria aceitar Jesus. Tenho tanta certeza disso que se tiver que derramar sangue, farei!

    Ouvimos aquilo como uma ameaça. Bardo, com suas palavras mágicas, foi desarmando a situação. Não tínhamos como sair dali sem alarde e nem tínhamos mapa para encontrar o caminho. Depois de um tempo, conseguimos mudar de assunto. Não aceitamos dormir dentro de casa – mesmo com a insistência mineira – e dormimos na Elvira, com um olho aberto.

    Tomamos café com eles. O homem parecia diferente, mais tranquilo. Nos deu um inversor de voltagem de presente para que pudéssemos carregar os telefones e o notebook na bateria da Elvira. Agradecemos por tudo e seguimos viagem. No caminho, Bardo foi ensinando uma oração cristã para as meninas. Ele explicou que podia ser útil se fosse necessário mentir que éramos cristãos em alguma situação mais complicada.

    Algumas horas depois, chegamos em Tiradentes. 

    Se você já se perguntou por que uma cidade tão pequena precisa de tantas igrejas, sabe do que estou falando. Um guia turístico local me contou a história, que eu conto para você em poucas, mas perplexas, palavras:

    A Vila de São João Del Rey era colonizada por cristãos, mas não havia uma presença da hierarquia católica lá. Não existiam padres, bispos e essas coisas. Quem cuidava da religiosidade eram irmandades. E essas irmandades – pasmem, irmãos e irmãs – eram segregadas. Eles usavam as igrejas para separar os ricos dos pobres, os brancos dos negros e até mesmo os mestiços – que nem os brancos, nem os negros, queriam por perto. Parece que o nós contra eles é muito mais antigo que a internet.

    Então, somos todos filhos de deus, todos iguais, criados à sua imagem e semelhança, mas cada um no seu quadrado, tá bom? E a cidade mostra como era a pujança econômica da Era do Ouro: Construíam-se igrejas para ver quem tinha o pipi maior que o outro.

    Cristianismo e seus absurdos de lado, fomos tocar na praça. Era o Festival de Jazz e a cidade estava lotada de pessoas de bom gosto (na minha igreja só ia entrar quem gosta de Jazz). Foi realmente incrível, ganhamos uma boa grana e o público amou o espetáculo. Conseguimos um lugar para dormir no campo de futebol da cidade, onde haviam chuveiros quentes. Ainda bem, porque fazia muito frio!

    No dia seguinte tocamos na praça central e percebemos alguns fiscais nos rodeando e cochichando entre eles. Fui ficando nervosa, cutuquei o Bardo. Não demorou para vir o bote. Aparentemente nossa presença ali não era bem quista pela prefeitura ou, como aprendemos em Parati, pelos comerciantes locais que pagavam músicos para manter as pessoas nos seus bares.

    Mas dessa vez não foi fácil para os fiscais. Um enorme grupo de motociclistas estavam assistindo o show e, quando perceberam a intenção dos fiscais, foram para cima deles. Bardo teve que defender o fiscal no microfone para impedir que levasse uma surra. Vai ter show, sim!

    Um restaurante local nos adotou pelo resto do dia. Nos deram as refeições e tocamos por lá pelo dinheiro do chapéu. Os músicos locais nos olhavam tortos, acho que porque ganhamos mais na cartola em quarenta minutos do que eles de cachê em quatro horas. É a vida.

    Festival encerrado, seguimos para as cidades em frente, rumo a Alfenas. Mais café, mais pão de queijo, mais música e estrada. Conhecemos muitas cachoeiras e lugares bonitos, mas não chovia a semanas e os carrapatos estavam nos deixando malucos!

    Chegamos em Três Corações. Cidade do Pelé. Fomos até o centro e tocamos em frente à uma pastelaria. Ganhamos o almoço e um dinheiro e fomos abordados por um pessoal da televisão que queria fazer uma matéria. Legal! Ficamos por ali. Na hora de filmar tinha um hippie tocando flauta – muito mal – bem no nosso ponto. Pedimos a ele se podia nos dar licença por um minuto e ele perguntou se podíamos dar carona para ele até São Thomé das Letras.

    Ah, essa cidade! Desde o sul que todo mundo dizia:

    – Vocês precisam conhecer São Thomé das Letras, é a cara de vocês! – Natália também falou muito de lá, dos festivais de música e do quanto ela ficou extremamente bêbada todas as vezes.

    Topamos dar a carona e ele nos deu licença. Filmamos para o jornal da televisão.

    Quando entramos no carro para ir embora com o hippie um policial se aproximou e pediu para falar com o Bardo em particular. Ele recomendou que não fôssemos para São Thomé, que era um lugar perigoso, cheio de armadilhas e drogas, tomado pelo PCC, que não era lugar para uma família bonita como a nossa.

    Às vezes acho que devia ter ouvido ele. Minha relação com São Thomé é de amor e ódio.

    Dirigimos até lá. Era longe. Muito longe. Subimos a montanha com a Elvira esbaforida. Chegamos em uma cidade toda de pedra. Estava extremamente quente. Entramos em um beco esquisito, o carro mal passava. Deixamos o hippie em uma casa sem portas e sem janelas, apenas cortinas. Pedi um copo d ‘água. Uma moça, claramente drogada, pegou um copo e serviu água da torneira – quente! Agradeci. 

    Saímos do beco e estacionamos perto de uma igreja de pedra. Subimos até a rua principal. Todo o comércio estava fechado. Fomos olhando as vitrines: gnomos, fadas, bruxas, pedras, incensos, roupas indianas e muitos bonequinhos de extraterrestres. 

    – Isso aqui é uma arapuca para turista bobo – Bardo constatou.

    Sem mais nada para ver, fomos embora quarenta minutos depois de chegar. A minha cara? Sério? Escolhi me sentir ofendida por isso dali em diante!

    A cidade seguinte era a famosa Varginha, o lugar que tinha recebido a visita de um extraterrestre uns anos atrás, ou assim se dizia por ali. Era tudo temático: paradas de ônibus com desenhos alienígenas, caixas d’água em forma de OVNI e até um enorme restaurante em forma de nave espacial. 

    Foi a primeira cidade polo que chegamos em Minas e foi incrível. Era muita gente! Tocamos no centro da cidade e arrecadamos muito mais do que o habitual. Deu para dar cortinas novas para a Elvira, roupas de cama e travesseiros novos para a família toda.

    Dormimos em um posto de gasolina dentro da cidade, o que era incomum. Eles foram muito atenciosos e nos deram a chave do banheiro com chuveiro. Cuidei de deixar tudo limpo e organizado, era o mínimo que podia fazer em retorno.

    Alguns dias depois, fomos abordados no posto por um músico local. Ele disse que era nosso seguidor há anos e que ele e a esposa faziam swing. Ele não era atraente mas eu estava precisando de um ar de putaria, nem que fosse um bate papo com alguém menos cristão. Fomos até a casa dele e conhecemos a esposa: baixinha, gordinha e tetuda. Bardo animou e eles se engraçaram um no outro.

    Ficamos de papo enquanto eles enxugavam uma cerveja atrás da outra. Cada vez mais bêbada, a mulher alisava as coxas do Bardo e ele respondia. O cara me olhava, para ver se eu ia animar também, mas eu não bati a energia com a dele, não ia ter jeito. Ela enfiou a mão nas calças do Bardo e começou a punhetar. Vendo que ia só emprestar a esposa, o marido encerrou a brincadeira e nos mandou embora.

    Esse povo do swing.

    Seguimos a estrada. Meu aniversário era no dia seguinte e o único presente que eu queria era estar em uma cachoeira. Chegamos em mais uma cidadezinha e fomos até o centro da cidade. Essa era diferente, não havia uma praça central, não havia um lugar de confluxo de pessoas e, portanto, não havia onde tocar. Paramos em frente à uma lanchonete e tocamos ali mesmo, na esperança de fazer algum dinheiro para o dia (ou ganhar o jantar).

    Não havia quase ninguém na rua, mas começamos mesmo assim. Depois de algumas músicas, uma moça de cabelos loiros, encaracolados, e um senhor de idade entraram na lanchonete e ficaram nos ouvindo. Mônica foi puxar papo com eles e, sem eu saber, contou que eu estava de aniversário e que estávamos em busca de uma cachoeira.

    Quando terminamos de tocar, a moça nos deu vinte e cinco reais (que foi todo o cachê do dia) e disse, em um mineirês carregado, que na rocinha dela tinha um “córguin” e que tinha uma árvore enorme onde podíamos estacionar. Depois de me certificar de que ela não era uma extremista cristã (aprendi a fazer as perguntas certas), seguimos ela pelas estradas de chão por vários quilômetros até a “rocinha” dela. Era uma fazenda de criação de cavalos, daquelas que você não vê o final. Realmente havia uma árvore enorme ali, com muita sombra. Bardo olhou o mato seco e os cavalos e só disse uma palavra:

    – Carrapatos.

    Merda. O lugar era mesmo lindo.

    Ela nos convidou para entrar na casa da fazenda. Uma cozinha gigante com um carro de boi como mesa e liteiras como cadeiras. Um enorme fogão à lenha, desses de restaurante. Incrível. Sentados em cadeiras estavam três bonecos em tamanho humano real, uma coisa meio assustadora. A moça, vamos chamar ela de Rita, nos convidou para jantar. Aqui já estávamos mais vividos com a insistência mineira e nem discutimos. Ficamos.

    Mais tarde o marido dela chegou. Um senhor de idade, muito mais velho que ela, com um ar grave de barão de fazenda. Ele se sentou em silêncio e ficou nos ouvindo conversar. Ela fez um maravilhoso arroz de carreteiro no arado. Comemos de lamber os beiços. Quando chegou a hora de dormir, já estávamos decididos a ir embora – e não ia ter insistência. Nem pensar que íamos dormir com os carrapatos. Ela insistiu, mas pediu que dormíssemos nos quartos da fazenda. Nesse caso, tudo bem!

    Ficamos e no dia seguinte Rita nos levou para ver o “córguin.” Andamos por mais de uma hora pelas estradas da fazenda e entramos em um cafezal.

    – Essa é a parte do meu pai – ela disse.

    Depois de mais alguns quilômetros de pés de café, finalmente chegamos à uma pequena vila. Todas as casas eram da família dela. Eram vários irmãos e irmãs, primos, primas e agregados, todos ali vivendo em torno da fazenda. Fomos conhecer o coronel. Esperava alguém ainda mais grave que o marido dela, mas encontrei um senhor muito gentil. Nos afeiçoamos na hora e ficamos horas tomando café e batendo papo sobre plantas. Ele caminhou comigo pelo jardim, me mostrando as mudas e me explicando sobre chás e curas.

    Ele também me falou sobre a Dona Bárbara, uma bruxa que vivia lá dentro do mato (mais dentro do mato que isso aqui?), na beira de uma cachoeira, e que sabia tudo. Fiquei extremamente curiosa. Eu sempre fui a louca das plantas. Minha avó era uma curandeira famosa nas terras dela e eu cultivava esse dom também.

    ***

    Bardo quase sempre foi cético. Estava sempre estudando alguma religião e, depois da fantasmagórica temporada com o espiritismo, tinha se tornado uma pessoa extremamente científica. Mas nem ele podia explicar as coisas que eu fazia.

    É comum eu explodir vidros. Quando a energia ao meu redor “pesa” sempre tem alguma coisa que se quebra. E não é quebrar de levar uma pancada, quebra sozinha mesmo. Bardo adora assustar as pessoas contando sobre todas as vezes em que viu espelhos, copos, a porta da cristaleira e até a tampa do fogão explodirem sem nenhuma intervenção física.

    Não é uma coisa que eu provoco, mas se eu quiser provocar, sei como: basta pegar um ramo de arruda, um pouco de água e dizer as palavras certas enquanto passo a planta pelas paredes do lugar. Às vezes levam algumas horas, mas eventualmente alguma coisa acaba explodindo ou alguém esbarra em um vaso.

    Eu carrego comigo alguns livros de plantas e benzeduras para referência, mas tenho eles inteiros guardados na minha cabeça. Mesmo cético, Bardo sempre lembra dos meus feitiços quando precisa: eu tiro enxaqueca com a mão, e isso é um poder muito útil quando você ficou oito horas jogando vídeo game e não percebeu que o tempo passou!

    ***

    A tarde estava quase no fim quando fomos até o córrego, mas ele tinha pouca água. Mesmo assim, o dia valeu muito a pena. Voltamos para a fazenda e, quando chegamos lá, tinha uma festa de aniversário surpresa organizada para mim. Mônica e Rita organizaram tudo e nem o Bardo ficou sabendo.

    Tinha doces, salgados e bolo. Um monte de gente que eu não conhecia – os funcionários da fazenda – estavam lá cantando parabéns. Que loucura! Que pessoas são essas? Por que elas fariam uma festa de aniversário surpresa para quem nem conhecem? Essas últimas semanas em Minas Gerais estavam me fazendo rever meu conceito sobre humildade, bondade e verdadeira amizade.

    Bardo ficou muito amigo do marido da Rita, o Adão, e estavam batendo papo sobre cavalos, café e a vida na fazenda. Sem perder a oportunidade de ser professor das meninas, ele aproveitava a conversa para que elas fizessem perguntas – era algo que tinha virado rotina toda vez que encontrávamos alguém que era profissional em alguma área. As kids queriam saber de tudo e Adão estava muito feliz com a curiosidade delas, contando histórias e dividindo suas experiências de fazendeiro.

    Acabamos ficando por lá mais de uma semana. Eles não nos deixavam ir embora. Nos levaram para tocar na cooperativa e nos apresentaram os amigos. Adoravam quando tocamos Juvenar (vem tirar o leite, são seis horas da manhã!) e, claro, o Auimauê, auimauê. Um pouco antes de irmos eles nos confidenciaram que Adão lutava contra um câncer há muitos anos e que o quadro dele estava piorando cada dia mais.

    Finalmente seguimos para Alfenas para encontrar o Fufu. Chegamos em um evento que parecia ter sido feito para quinhentas pessoas, mas eram cinquenta. A quantidade de cerveja era surreal. Era o encontro de trinta anos de formatura de uma turma de dentistas. Sem ter certeza de que iríamos mesmo estar lá, eles contrataram uma banda de rock para tocar os dois dias inteiros. Ainda bem, porque eu não ia tocar dois dias inteiros! 

    Colocamos nossa cartola na frente do palco, no chão, e fizemos nosso som. Colocaram mais ou menos trezentos reais ali. Foi ótimo. Dormimos no estacionamento, comemos e bebemos na festa. Bardo se absteve do álcool, como andava fazendo, pois o fígado dele não dava mais conta da mineirada.

    No dia seguinte, tocamos de novo, dessa vez o chapéu foi mais minguado, mas tudo bem. Estávamos seguros e alimentados ali. De repente, alguém grita que a cerveja acabou. A banda para de tocar e Fufu pega o microfone:

    – Vaquinha para a cerveja!

    Em instantes eles arrecadaram nada mais, nada menos, que quatro mil reais. Logo um caminhão chegava e descia uma carga. Não durou até o final do dia. E eles não pareciam nem tontos. Eu tenho para mim que os mineiros são feitos de algum outro material, ou tem dois fígados, quatro rins e duas bexigas.

    Confesso que fiquei um pouco sentida quando rodei a conta na minha cabeça. Até ali, nós vínhamos tocando por cartolas que raramente passavam de duzentos reais – a média era de setenta reais – e enquanto o som rolava eles gastavam fortunas em álcool. Podiam valorizar um pouquinho mais, né?

    Bardo aproveitou a festa para uma oportunidade única: ali estavam trinta pessoas que tinham se formado na mesma época, com as mesmas oportunidades, e que, trinta anos depois, estavam em situações completamente diferentes. Um deles, que ficou muito nosso amigo, tinha uma mansão e um jato particular. Um outro, que passou a festa toda perturbando as pessoas insistindo que o planeta era plano (uma das maluquices da internet na época), mal tinha o que comer. Alguns tiveram muito sucesso e outros nem mesmo trabalhavam na área mais. As kids entupiram todo mundo de perguntas e aprenderam muito sobre carreira e principalmente sobre sorte, naquele final de semana.

    A cerveja acabou de novo e todo mundo foi embora. Um dos convidados nos ofereceu um sítio ali perto para passarmos a noite. Aceitamos e, novamente, depois de conferir o nível de cristianismo, lá estávamos nós rodando quilômetros de estrada de chão até outra roça. O homem chegou lá, nos deu a chave da fazenda e foi embora. Bardo olhou ao redor. Tudo seco, a casa fechada e suja, e disse só uma palavra:

    – Carrapatos.

    Deixamos a chave debaixo do tapete e fomos embora.

    Continuamos nossa saga, de cidade em cidade, que dali em diante pareciam a cópia da cópia. Uma praça central, uma igreja, um povo carinhoso, café e pão de queijo. Já tínhamos uma rotina. Acordava em um posto de gasolina na rodovia, dirigia até a próxima cidade, encontrava a praça central e fazia música. O povo animava. Auimauê, auimauê. Pegávamos nosso pouco dinheiro e nossos brindes e seguíamos em frente. Não me preocupava muito em postar nada na internet. Estávamos totalmente desiludidos com ela, era um universo paralelo com lugar apenas para tretas e mentiras.

    Sempre que encontrava uma cachoeira, ia até o supermercado mais próximo, pegava alguns não perecíveis (macarrão, sardinha, bacon e calabresa, basicamente) e ficava lá por alguns dias, vivendo como nativa. Eram os melhores dias. Fogueira, comidinha, natureza. A maior parte do tempo não tinha ninguém por perto então eu passava meus dias nua. Quem me dera viver assim para sempre.

    Bardo sempre encontrava frutas e raízes por perto e dava um jeito de estender nossa estadia quando a comida acabava. Às vezes ele encontrava alguma coisa que nunca tinha visto e eu ficava preocupada porque ele colocava tudo o que via na boca para saber se era possível comer, mas até ali tudo tinha dado certo.

    Com nosso último compromisso atendido em Alfenas finalmente éramos bichos completamente livres. Ninguém sabia onde estávamos, não existiam postagens, não tínhamos agenda e não respondíamos a ninguém. Era incrível acordar pela manhã e olhar para o mapa do Brasil colado no teto da Elvira, pensando:

    – Eu não devo nada para ninguém, não tenho trinta dias, não tenho contas para pagar. Sou completamente livre.

    Se eu tivesse o que comer naquele dia, nem precisava ir trabalhar. Era o ápice. Não lembro de termos mais do que trezentos reais no bolso em momento algum nessa época. Tocava, ganhava para a gasolina e comida, uma ou outra corda de guitarra e seguia em frente. A Elvira não tinha nenhum equipamento. Eram dois colchões, um fogareiro, as cortinas e os móveis de madeira que o Rafa fez para nós em Lumiar. 

    Eu estava em forma. Magra, esbelta, bronzeada. Tinha pique e energia o tempo todo. E estava quase feliz. O fato da nossa missão não ter tido sucesso e de já fazer algumas semanas que não conhecia ninguém novo para uma putaria me incomodavam. Bardo também. Ainda assim, era um mundo mágico.

    Passamos por Capitólio, famosa por suas águas, e não encontramos água nenhuma. Já eram cento e vinte dias seguidos sem uma única gota de chuva. Bom para o nosso trabalho, péssimo para todo o resto. Vimos os paredões de barro seco e, sem turistas por lá, seguimos embora.

    Chegamos em uma outra cidade e fomos acolhidos por um motoclube em sua sede. Eles tinham uma chapa de lanchonete e Bardo se esbaldou cozinhando todos os dias, o dia todo, nela. Era como se tivesse um restaurante: o povo motociclista chegava com cerveja (muita cerveja) e ficava ali batendo papo e comendo os petiscos.

    Um dos motociclistas nos chamou em um canto. Ele percebeu o quanto Bardo e eu éramos carinhosos e safados um com o outro o tempo todo e, contando pela idade das nossas filhas, quis saber qual era nosso segredo. Não tinha um segredo para contar. Só somos safados mesmo, penso que é só o que basta.

    Ele nos levou até a casa dele. Uma casa imensa, linda. Dois carros importados na garagem, uma moto incrível. Piscina. Entramos na casa, toda com ar condicionado. A mulher dele, uma gostosa, assistia TV na sala como um zumbi. Ele tentou nos apresentar, mas ela nos ignorou. Entendi a frustração dele: trabalhava como um robô para dar aquilo tudo para ela, mas não tinha a safadeza que nós, mendigos da estrada, tínhamos. É mesmo injusto, eu concordo.

    É mais uma daquelas mentiras que abraçamos e que, apesar de todo mundo saber muito bem que é mentira, seguimos contando e acreditando: casamento não é garantia de sexo e, com certeza, é a morte da safadeza e da putaria. Senti muito por ele, um cara bonito, simpático e bem de vida. 

    Depois de rodar algumas dezenas de cidades fomos parar na mansão do nosso amigo dentista. Vamos chamar ele de Cláudio. A casa era surreal. Um Jaguar e uma moto enorme na garagem. A piscina era gigante e podia ser vista de baixo para cima em um bar no subterrâneo. Ficamos hospedados em quartos luxuosos e Bardo se esbaldou em uma sala de videogame ao lado do bar.

    Ele quase não parava em casa. Nós íamos para o centro da cidade fazer nosso som e voltávamos para a mansão. Cláudio chegava tarde da noite, exausto, comia alguma coisa rápida e ia dormir. Tivemos pouco tempo para conversar. E ele era sozinho, só tinha um cachorro. Quando finalmente pôde sentar conosco, com muitas latas de cerveja, nos contou que vinha de uma família muito pobre e lutou muito para construir aquele lugar, mas nunca encontrou com quem dividir.

    Essa era uma de duas coisas que vivemos dezenas de vezes. Ficamos por mais tempo do que precisávamos nos lugares porque as pessoas tinham muito e eram muito sozinhas e também ficamos em muitos lugares porque as pessoas não tinham nem o que comer e acabamos ficando para ajudar com o quase nada que tínhamos. Eu espero, de coração, que nossa presença tenha sido sempre uma coisa boa por onde passamos.

    Cláudio era um homem bonitão e eu pensei que poderíamos fazer um pelo outro. Bardo convidou ele para sair em um bar e eles foram. Fiquei em casa, planejando pegar os dois quando voltassem. Quando voltaram, eu esperava no quarto dele (um quarto maior que muitas casas em que estive), mas broxei quando vi o Bardo arrastando ele, nocauteado pela cerveja, até a cama.

    Alguns dias depois ele nos convidou para voar no jatinho dele. Bardo não estava bem do estômago e preferiu não ir. Fomos as kids e eu. O jatinho tinha só dois lugares e ele decolou e pousou com cada uma de nós. Eu nunca tinha voado em um avião tão pequeno, e claro que fiquei com medo, mas Cláudio nos passou muita segurança e não fez nada assustador.

    Depois dos vôos, fomos beber uma cerveja (eu bebi uma, ele, várias) e fui dando a entender que podíamos ter alguma coisa a mais. Naquele dia eu comecei a pegar um verdadeiro ranço do jeitinho mineiro de amar. Eu tentando explicar para ele que para o Bardo estava tudo bem se transássemos, ele querendo apresentar a mãe. Eu não ia passar por aquilo de novo, nem pensar!

    Senti muito por ele, era um cara realmente legal (quando estava sóbrio) e podíamos ter namorado. Infelizmente essa chave liga e desliga, esse pensamento binário de casado e solteiro não me serve.

    Resolvemos seguir nosso caminho para a próxima cidade, mas Cláudio nos disse que havia uma oportunidade imperdível se andássemos um pouco mais: em uma cidade chamada Ouro Preto acontecia a Festa do Doze.

    Não era tão longe, valia a pena tentar.

    Ouro Preto, nos aguarde!

  • Capítulo 7 – Horizonte Infinito

    Com minha carteira de motorista recém tirada – um sonho realizado – botei o pé no acelerador. Íamos fazer trezentos quilômetros até a cidade onde nosso guitarrista estudava e também onde nosso primeiro fã de longe morava. Estava empolgada. Tudo o que eu tinha estava no porta malas e as pessoas que me importavam estavam dentro do carro comigo.

    Os amigos ficaram para trás, mas não era para sempre: saímos com a missão de espalhar as ideias de amor livre, encontrar as pessoas que concordam com isso – e que provavelmente sofrem o que sofremos – e criar uma rede de amores pelo país todo. Era uma questão de tempo, alguns anos talvez, até essa turma ser forte e viajarmos pelo mundo todo em busca dos nossos afins.

    Não era uma questão de convencer ninguém. Isso já estava ficando irritante o suficiente na internet e ninguém mais precisava de mais um idiota dizendo que a sua ideia de vida é melhor que a dos outros. O que queríamos era apenas encontrar pessoas com a cabeça já feita para o amor sem as amarras de uma relação a dois.

    Saímos de Porto Alegre. Pegamos a Rodovia do Parque e seguimos, como dizem os catarinenses, reto toda a vida! Eu podia sentir o calor do asfalto no meu rosto, o cheiro da estrada e o melhor de tudo: não fazer ideia do que me esperava no horizonte.

    Claro que eu tinha expectativas. Era uma cidade conhecida, já tínhamos tocado algumas vezes por lá e tínhamos muitos fãs. Depois de algumas horas de uma viagem tranquila, chegamos na casa do nosso anfitrião. A esposa dele era uma gata, mas ele era da turma da permacultura e não da turma do amor livre, então não tinha certeza se ia poder dar umas mordidas nela. A casa era linda e fomos muito bem recebidos, acolhidos e instalados.

    Sentamos à mesa e batemos papo. Bardo e eu sempre tentando puxar a conversa para o amor, mas o baterista e o fã estavam mais interessados em discutir política e a ameaça iminente de um deputado desconhecido que queria ser presidente. Parece que dali não ia sair muita coisa e o baterista me soava cada vez mais como um fardo, alguém que ia atrapalhar muito a missão.

    O fã decidiu, para nossa imensa decepção, fazer o show no bar também. Parecia que as pessoas não estavam muito dispostas a abrir suas casas para estranhos, ainda mais correndo o risco de acontecer uma suruba logo depois. Uma pena. Eu fico honestamente chateada com tantas festas que fui na casa das pessoas onde estava tudo bem beber até vomitar o banheiro todo, cheirar em cima da mesa de centro da sala, ter DRs no meio de todo mundo e até sair no soco. Mas foder? Credo, imagina, que horror! Vai entender esse povo.

    Meio desanimados, fomos para o bar. Para nossa surpresa, centenas de pessoas na porta, esperando! Que loucura! Entramos no prédio e montamos o palco. Passamos o som e nos sentamos à mesa esperando a hora de começar. As portas abriram e ficamos olhando para ver o bar lotado de fãs animados. É hoje! Não era. Ninguém entrou. Parece que aquelas pessoas lá fora não queriam nos ver, ou não queriam pagar dez reais por isso. Nem a namorada do anfitrião foi. Fizemos o show para o fã e dois amigos do guitarrista. Fiquei imaginando a cena toda. Os primeiros shows vazios e, com o tempo, nosso público aumentando até chegarmos a um estádio lotado. Aquilo me animou e cantei como se estivesse naquele estádio. Foi um show foda! Os amigos do guitarrista me cumprimentaram no final dizendo que fazia muito tempo que não viam uma banda com tanta energia por ali.

    Na hora de ir embora o baterista estava tranquilo. Sem público, sem suruba, certo? Voltamos para a casa do fã, largamos o equipamento, peguei o Bardo e saímos. Não ia deixar barato. Não ia fazer um show sem uma putaria depois. Acabamos na casa de um casal que não foi ver nosso show, mas queria a festa.

    Estava em um misto de desejo e fúria. Estava com raiva deles porque não foram ouvir minha música, mas estava feliz porque queriam transar. Eu não imaginava ainda o quanto isso ia se repetir. Coloquei os dois de joelhos na minha frente e mandei ela chupar minha buceta e ele meu cuzinho. Fiquei ali, de pé, curtindo e olhando os dois se divertindo comigo. Bardo estava sentado na cama tomando uma cerveja e batendo uma punheta.

    Me chuparam até eu gozar. Arrastei os dois para a cama e joguei ela para o Bardo. O marido não me interessava muito, então deixei ele só me chupando a noite toda enquanto Bardo virava ela do avesso. Metemos até o sol nascer. Era assim que eu queria, era assim que ia ser.

    Voltamos para a casa do fã e tomamos café da manhã. Ele estava envergonhado pela falta de público no show e eu estava chateada porque nem conseguimos falar sobre as nossas ideias no meio de tanta conversa bosta sobre política. Enfim, não beijei aquela namorada linda dele.

    O baterista estava puto com a minha saída noturna e ficava me puxando para os cantos, onde o Bardo não via, e me aporrinhando. Guardamos tudo no carro e, na hora de fechar o porta malas, o mala conseguiu deixar o dedo para trás. Pronto. Agora eu tinha um baterista sem uma mão.

    Nos despedimos e seguimos para a próxima cidade, onde um casal de fãs do swing nos esperava. Eram amigos de longa data. Nos conhecemos em uma festa deliciosa no litoral, anos atrás, mas ela estava grávida na época e não rolou nada entre nós. Ainda assim, tenho um vídeo daquela festa. Bardo e eu fodendo uma carioca linda que apareceu por lá. Que mulher deliciosa!

    Chegamos e fomos muito bem recebidos e acomodados. Eu podia me acostumar com aquilo. Bardo brincava sobre uma teoria que ele leu uma vez. Ela dizia que se você é uma pessoa agradável e sabe ser discreto, seria um prazer para seus amigos receber você para almoçar uma vez ao ano, talvez ficar para jantar e, por que não, dormir por uma noite. E se você tivesse 365 amigos poderia fazer isso o ano todo sem incomodar ninguém. As pessoas iam até fazer questão que voltasse. Talvez fosse o que ia acontecer conosco dali para a frente.

    Essa cidade, por acaso, também era onde morava a lendária Mariana Cu de Beija-flor e Bardo não perdeu tempo: ligou para ela e foi lá se deliciar naquele cuzinho gostoso. O baterista aproveitou a oportunidade para ficar na minha orelha dizendo que aquela viagem não ia dar certo, que não íamos conseguir sustentar, que o Bardo era um idiota e que ia acabar nos matando. Aí que eu fui entender outra coisa que ia se repetir infinitamente: as pessoas tem uma mania muito ruim de pensar que eu faço o que faço porque o Bardo me convence a fazer. Isso está muito errado em todos os níveis possíveis. O Bardo só anda comigo porque me deixa em paz fazendo tudo o que eu quero fazer. Não só isso, ele ainda apoia qualquer ideia doida que eu tenha. Mas adianta explicar?

    Dessa vez a festa deu certo. Ou quase certo. O nosso anfitrião, sendo um músico, convidou todos os amigos, também músicos, para a casa dele. Logo umas quarenta pessoas estavam por lá. Teve churrasco, cerveja, animação, bem como imaginávamos. Eram quatro bandas e todas elas tocaram o dia todo. Bardo e Fada era a atração principal e ficamos para o final.

    Como ficamos sem os guitarristas e o baterista machucou a mão, tivemos que ser engenhosos. Pegamos as gravações do estúdio e criamos um playback, assim Bardo e eu pudemos tocar só os dois. Ficou bom, mas não era ao vivo. Quando os amigos do anfitrião viram como estávamos fazendo nossa música simplesmente se retiraram. Não ouviram nosso show. Não sei se foi por purismo ou puritanismo, mas foi o que aconteceu. Não fomos ouvidos.

    O mesmo aconteceu com nosso bate papo. Era só mencionar amor livre que os casais se agarravam como se fossem vinhas e saíam correndo. Um grupo de gays, amigos da Mariana, chegou a ser deselegante nos xingando e nos chamando de promíscuos. Os mais corajosos já vinham com a ladainha de DSTs e a famigerada “energia do outro que fica na alma.” Não era ali que encontraríamos algum afeto.

    A esposa do nosso anfitrião era professora na Universidade e nos disse que estava de férias forçadas. Aparentemente os alunos tinham ocupado a instituição em uma espécie de greve. Pensamos que seria interessante passar por lá. Gente revoltada adora uma ideia fora da caixa. Quem sabe encontramos alguém afim?

    Fomos até a Federal e encontramos um monte de alunos acampados por lá. Eles tinham algumas demandas que não estavam sendo atendidas e resolveram se rebelar. O governo parecia não se importar. Não tinha polícia. Sequer algum funcionário. Só os alunos gritando sozinhos uns para os outros. Pedimos aos organizadores se podíamos fazer um bate papo sobre amor livre e acharam o máximo. Bingo! Palestramos sobre nossa relação e sobre como era possível amar e permanecer livre. Fomos bem recebidos e aplaudidos. Não conhecemos ninguém interessado em nós, mas a semente foi plantada e sabe-se lá o que aconteceu com a vida daqueles jovens depois.

    Tentamos ter algum momento gostoso com nosso casal de amigos, mas o baterista empatava todas as oportunidades. Comecei a entender que ele não estava na mesma vibração, que só estava fazendo o que todos fizeram até ali: querendo me separar do Bardo e ficar só comigo. Pobre sonhador.

    Bardo se divertiu com a Mariana mas eu passei batido. Não peguei ninguém. Show lixo e sem suruba. Não desanimei. Próxima cidade, por favor?

    Era a última data marcada: Chapecó, em Santa Catarina, minha cidade natal. Depois disso era sorte. Finalmente íamos sair do Rio Grande do Sul e eu estava extasiada. Por mais que eu tenha feito minha vida ser interessante, aquele lugar para mim era uma âncora, era atrasado, nossas ideias nunca iam florescer lá.

    Partimos. No meio do caminho encontramos uma tirolesa de mais de um quilômetro, que atravessa o Rio Uruguai do Rio Grande do Sul para Santa Catarina. A maior tirolesa do Brasil, eles disseram – o que ia virar uma piada recorrente no futuro. Subimos uma montanha em um jipe e pude ver o outro estado lá de cima. Coloquei os equipamentos e voei! Que maneira maravilhosa de entrar para essa outra fase, para esse outro lugar!

    Fomos recebidos por um casal de amigos de longa data, um casal super rock n roll e liberal que conhecemos na cidadezinha do interior que vivemos anos atrás e que tinha se mudado para lá. Nos acomodamos. Era uma casa simples e muito animada. Eles tinham filhas e a molecada já saiu para se divertir juntas.

    O marido resolveu preparar o jantar. Sentei com o baterista maneta na cozinha e ficamos de papo. De repente, uma batida na parede. Tum. E outra. Tum, tum. E a cadência aumentava. Logo se seguiu um gemido. O marido, sem olhar para o lado, corou. Bardo fodia a mulher dele no banheiro. 

    Eu sentada na cadeira da mesa da cozinha, ele cortando legumes e aquele bumbo na parede, ela gemendo e um clima no ar. O baterista me olhava enfurecido. Ele achava uma falta de respeito do Bardo sair comendo as pessoas assim o tempo todo. Ainda mais a mulher do próximo quando o próximo está próximo. O marido não olhava para mim. Com medo? Com vergonha? Não sei. Só sei que aqueles gemidos estavam me deixando toda molhada e eu precisava fazer alguma coisa.

    Levantei de ímpeto e fui até o banheiro. A porta estava trancada. Será que bato à porta e corto o clima deles? Achei melhor voltar. Entrei na cozinha e ele finalmente olhou para mim. Percebi que estava com medo de me dizer qualquer coisa e se eu não tomasse a iniciativa ele ia morrer ali de pé.

    E eu, cada vez mais, odeio ter que tomar a iniciativa. Mas os gemidos não paravam e a batida na parede ia mudando de lugar. Na minha cabeça Bardo estava fodendo ela em todas as posições possíveis e imagináveis, provavelmente no pelo e ia encher a buceta dela de porra.

    Pedi ao baterista que pegasse uma coisa no carro para mim. Alguma coisa que não estava lá, para que ele demorasse procurando. Me levantei e fui até o marido. Virei ele na pia e lasquei um beijo. Ele veio meio mole, meio que sem vontade. Que merda. Meti um foda-se, me ajoelhei e abri o zíper dele, pensando que se tivesse um pau mole ali eu ia dar um soco no saco.

    Mas não, o pau estava duro, bem duro. Então era só medo de mim mesmo e isso eu cansei de ver nas casas de swing nos anos anteriores. Peguei com a mão, senti dar uma pulsada e ele soltou um gemidinho meio engraçado. Tentei olhar no olho dele mas não encontrei nada. Então meti na boca.

    Tinha dado umas três boas chupadas quando o baterista rompeu na cozinha me xingando de vagabunda, dizendo que Bardo e eu só pensávamos em putaria e que nunca íamos chegar a lugar nenhum assim. Com a gritaria, Bardo saiu do banheiro com a mulher. O cara continuava escorado na pia, zíper aberto e o pau – ainda duro – para fora. Assim que eu gosto, guerreiro.

    O bate boca foi longe, o pau acabou morrendo e a janta foi no maior climão. Bardo, como sempre, na maior parcimônia do mundo, acalmando a galera e colocando tudo no lugar. No dia seguinte os amigos dos nossos anfitriões vieram e fizemos um bom show. 

    Montamos nosso equipamento e dessa vez ninguém achou ruim usarmos o playback. Eles eram fãs de verdade e cantaram Chifres São Coisas da Tua Cabeça a plenos pulmões! Pularam, dançaram e curtiram. Era isso que queríamos ver! Me animei. Saí realizada do nosso palquinho e ficamos bebendo e batendo papo ao redor da fogueira entre umas 12 pessoas.

    Quando me dou conta, cadê o Bardo? A próxima pessoa que procurei foi a esposa. Sumiu também. Já sabia onde procurar. Fui até o banheiro e colei o ouvido na porta. Ela gemia abafado. Dessa vez não quis saber, já estava bêbada e com o tesão reprimido da noite anterior. Meti o pé na porta e peguei ela escorada com as mãos na parede, rabo empinado e Bardo socando sem dó.

    Pau no cu deles que não me chamaram. Fui me ajoelhando na frente dela e metendo a boca na buceta. Bardo, muito cordial, tirou o pau pra me deixar chupar a vontade e meteu no cu. Fiquei lambendo e chupando aquela buceta encharcada tomando bolada no queixo.

    Dei risada, alto. Era assim que eu tinha imaginado viver dali para a frente. Música, putaria, estrada, repete. Ela gozou na minha boca e Bardo gozou no cuzinho dela. Então finalmente chegou minha vez. Os dois me levaram dali para o sofá da sala – onde de vez em quando alguém passava para pegar alguma coisa – e se dedicaram a me arrancar vários orgasmos e squirts.

    Ah, agora sim. Era o que eu precisava para aliviar aquela tensão toda. Eles me dedaram, me chuparam, me foderam. Fiquei esperando que mais alguém passasse por ali e se metesse na confusão, mas não. Pelo menos algumas pessoas se dedicaram a sentar ao redor e assistir, inclusive o marido. Adoro ser observada transando. Gosto de olhar nos olhos do público e passar a mesma energia que passo quando estou cantando.

    Quem foi naquele dia viu dois shows.

    No dia seguinte era aquela ressaca e buceta ardida. Amo. Estava um calor infernal e ficamos bebendo, fazendo churrasco e batendo papo. Começou a chover e curtimos um banho de chuva nus – menos o baterista, que estava de mau humor e com a mão ainda zoada.

    Uma das fãs que estava nos assistindo transar na noite anterior nos convidou para dar uma volta de carro pela cidade. É minha cidade natal, mas fui embora muito criança e não conhecia nada de lá. Vi a estátua do pioneiro e as ruas da cidade, muito bonita!

    Então ela começou a dirigir para fora da cidade, disse que queria mostrar uma coisa. Ah amiga, nove de dez passeios assim eu já sei onde terminam e quando ela embocou no motel eu já estava me masturbando no banco de trás. Ela foi corajosa de nos levar até ali, então Bardo e eu agraciamos ela com a iniciativa: entramos no quarto, jogamos ela na cama e começamos a beijar e arrancar a roupa.

    Comemos ela de todo jeito e passamos muito tempo na nossa posição favorita: Bardo metendo ela de quatro, ela me chupando, eu agarrada nos cabelos dela olhando ele nos olhos. Não vimos o tempo passar. Era madrugada quando voltamos e o baterista estava subindo as paredes. Bardo tinha um dom com ele e logo ele estava calmo de novo, mas com a carinha de cu que ficou na minha memória para sempre.

    Mentira, nem lembro da cara dele.

    Ele foi dormir e o casal nos convidou pra “ver uma coisa” no quarto deles. Aí sim, finalmente, terminei o que tinha começado: chupei o pau do marido. Estávamos cansados de tanto meter com a mulher mas não queríamos decepcionar: Fomos até de manhã comendo os dois.

    No dia seguinte o anfitrião se ofereceu para me tatuar. Nunca tinha feito uma tatuagem antes, mas tinha muita vontade. Não precisei pensar muito no que queria: tatuei o logo da banda no meu pulso. A cartola do Bardo e as asas da Fada. O baterista, claro, não gostou nada. – E se você se separar dele? Como fica essa marca? – respondi que o que não está colado não se separa. Ele ficou injuriado.

    Não tínhamos mais datas marcadas e Bardo estava tentando desenrolar nossa próxima parada. Depois de dormir a manhã toda arrumamos o carro e foi só quando já estávamos rodando que Bardo disse: temos um destino. Uma cidade que nunca mais íamos esquecer.

    Chegamos para sermos recebidos pela Mariana. Não a do cuzinho de beija flor, outra Mariana que ia fazer mais parte da minha vida do que eu gostaria. Muito safada e animada, mas hetero e realmente não faz meu tipo, já chegou mamando o Bardo logo depois de nos acomodarmos.

    O baterista, ainda com a mão enfaixada, conseguiu quebrar o porta malas da Doblô. Achei ótimo porque ele passou dias procurando mecânico, peças e resolvendo esse perrengue. Alguns dias de descanso depois ela convidou os amigos para ver nosso show na casa dela. Parece que algumas pessoas ainda têm vida social!

    Montamos nosso som no canto da sala e tocamos. Foi delicioso. A galera sentada no chão ao nosso redor, bebendo, fumando e rindo. Algumas pessoas muito atraentes me chamaram a atenção. Depois do show estavam todos tão drogados que o bate papo nem rolou. Fiquei só vendo o Bardo tentando organizar a suruba sem sucesso algum.

    Me sentei no sofá. Cansada, suada. Ao meu lado uma mulher muito gostosa com uma tatuagem linda de mandala nas costas conversava com outra gostosa, loira, peitinhos pequenos e durinhos. Santa Catarina é o paraíso. Eu sou suspeita para falar, mas as mulheres mais lindas e fogosas que eu conheci eram todas de lá – incluindo eu mesma.

    Puxei papo com elas, mas elas foram meio escrotas. E eu, que já estava de saco cheio de tomar fora e de gente com medo de sexo mandei as duas a merda ali mesmo. Tudo bem que não gostem do que eu gosto, mas não precisa ser babaca. Me preparei para entrar em um bate boca.

    Mas não. Elas sentiram meu humor e baixaram a bola. Pediram desculpas e começamos a bater papo numa boa. Bardo rolava de um lado para o outro conversando com todo mundo, mas não tinha beijado ninguém ainda e isso era um péssimo sinal. Essa noite não ia longe. Era quase de manhã quando a galera foi embora. Sem suruba. Me contentei em me masturbar assistindo o Bardo fodendo a nossa anfitriã. É o que temos para hoje.

    No dia seguinte, mais um show. Dessa vez em um centro cultural com outras atrações além de nós. Foi muito bom também. Lugar lindo, elegante, lotado de gente bonita. As outras bandas eram muito boas. Terminado o show, sentamos na grama e ficamos batendo papo. Bardo, claro, rodando pelo lugar todo espalhando a palavra, como um pastor da suruba conglomerando fiéis.

    Quando me dou conta, a moça da tatuagem e a amiga loira sentam do meu lado. Conversa vai, conversa vem e eu nem tentando nada, bem desanimada. Queria ter essa vontade infinita do Bardo. Ele estava em uma mesa com umas oito mulheres. Falava e ria alto, chamava a atenção, todo mundo olhando para ele e rindo também.

    E eu ali com as duas, só naquele papo chato de mulherzinha. Fui olhando para o Bardo e me animando. Foda-se, preciso arriscar. Comecei a alisar a perna da loirinha. De início ela deixou, mas dava para ver ela se comunicando com a outra pelo olhar. Se levantou, foi ao banheiro. Fuja, covarde!

    Mas não percebi que na verdade ela estava dando espaço para a amiga. Ela começou a alisar minha coxa. Retribuí. – Vamos pra outro lugar? – ela disse. Caralho, finalmente, vamos! Fiz um sinal para o Bardo e ele tinha tudo sob controle. O baterista me olhou torto. Entrei no carro dela e, sem cerimônia, ela dirigiu direto para o motel.

    Que mulher linda. Quando ela tirou a roupa fiquei hipnotizada por alguns instantes. Eu só queria chupar ela todinha, da boca ao rabo. Ela veio para cima de mim (amo a iniciativa!) me jogou na cama e colou o corpo dela todo no meu. Deliciosa. Derreti toda enquanto ela me beijava, lambia meu pescoço, chupava meus seios, descia pela minha barriga.

    Pegou firme nas minhas coxas e abriu minhas pernas com força. Dei até aquela empinadinha na bunda para oferecer bem minha buceta. Que boca sensacional. Eu não queria sair de lá nunca mais. Não tenho palavras para dizer o quando ela era gostosa, o quanto a língua dela fazia evoluções no meu clitóris e me arrancava arrepios e gemidos profundos.

    Logo dois dedos estavam dentro de mim, a língua tesa contra meu clitóris e eu escorrendo suco pelas coxas, pelas nádegas, molhando o lençol. De repente, um squirt no olho dela! Ela se assustou e parou. – Ah, por favor, não – eu pensei. Mas ela riu e caiu de boca de novo, chupando meu clitóris pra arrancar ainda mais. Foi um festival de chuva. Eu colocava a mão no colchão e formava poças.

    Não tinha mais forças nas pernas, mas precisava experimentar aquela buceta linda. Pulei para cima dela e comecei a lamber ela todinha. Peitos bem firmes, pele macia e quente, toda deliciosa. Que mulher, caralho, que prêmio que eu ganhei. Ela entrelaçou as coxas atrás do meu pescoço e prendeu minha boca no clitóris dela. Ali eu me perdi.

    Saí de lá cambaleando. Ela me deixou em casa, onde o baterista esperava com cara de cu e Bardo socava a anfitriã de quatro no quarto. Sentei em um pufe e fiquei ali assistindo os dois, hipnotizada. Depois de um tempo, Bardo percebeu e, com aquela cara de puto safado, me perguntou como tinha sido. Comecei a contar tudo em detalhes, vendo a menina tirar o pau dele da buceta e pincelar o próprio cuzinho até ele entrar.

    Bardo ficou fascinado e quis conhecer melhor a moça da tatuagem. No dia seguinte convidamos ela pra um café. Nos encontramos em uma padaria, batemos um papo que foi parar no naturismo. Ela comentou que havia um parque muito pouco frequentado ali perto onde ela costumava caminhar nua sozinha e se sentia muito segura. Fomos para lá no carro dela. Chegamos, tiramos a roupa e saímos para andar. O papo foi esquentando rápido. Ela contando das aventuras dela, nós das nossas e quando vimos o Bardo caminhava de bandeira hasteada. Ela não se fez de rogada: pegou no pau dele, ajoelhou e começou a mamar.

    Fiquei beijando o Bardo, ele acariciando meus seios e só curtindo o boquete delicioso. Ela se levantou e ficamos nos beijando a três, coisa que eu adoro. Como estávamos bem no meio da trilha fomos indo para o meio do mato. Chegando nas árvores, ela me empurrou contra uma delas e começou a me beijar com aqueles deliciosos lábios de mel. O gosto do pau do Bardo na boca.

    Bardo veio por trás dela e sem muita cerimônia atolou o pau na buceta. Ficamos os quatro ali, prensados: Bardo nela, ela em mim, eu na árvore. Ela enfiava dois dedos na minha buceta, encharcada, tirava e me fazia chupar. Eu ficava sentindo as empurradas no Bardo naquela bunda perfeita.

    Às vezes eu tenho o que o Freud chama de inveja do pênis: quantas vezes eu quis ser o Bardo só pra sentir o útero dessas gostosas na cabeça do pau. Olhei para o Bardo e disse: eu quero chupar a buceta dela. Ele tirou o pau e ficou atrás dela só acariciando enquanto eu enchia minha boca de novo.

    Eu me sentia bêbada com o suco dela. Queria parar o tempo ali, ficar ali com aquela buceta quente na minha boca para sempre. Bardo começou a pincelar a bunda dela, batendo uma punheta contra as nádegas. Molhei meus dedos e comecei a acariciar o cuzinho dela. Ela me olhou e riu, já tinha entendido meu plano.

    Peguei o pau dele e, sem tirar a buceta da boca, fui encaixando ele no cu dela. Quando ela cedeu para a cabecinha, os três deram um gemido ao mesmo tempo, tão gostoso que quase rimos depois. Bardo atolou no cuzinho e, com o saco indo e vindo no meu rosto, comeu ela gostoso.

    Cada vez que ele chegava no fundo ela soltava mais um pouquinho de suco e eu fui enchendo a boca e bebendo ela em goles sonoros, como tinha feito tantas vezes com porra na minha vida. Era tão surreal que gozei chupando ela. Ela gozou na minha boca e Bardo terminou enchendo o cuzinho dela de porra.

    Fomos embora flutuando. Agora ele entendia o que eu estava sentindo na noite anterior. Intenso! Chegamos na casa da nossa anfitriã e ela não parecia muito satisfeita. Ficou chateada que eu levei o brinquedo dela naquela tarde e o baterista não parecia interessado em brincar com ela.

    Bardo e eu fomos tomar um banho. Estávamos tão alucinados que parecíamos dois adolescentes recém namorados. Ficamos relembrando o que rolou em uma tentativa de dizer um para o outro que aquilo tinha sido verdade. Foi me dando tanto tesão que me virei contra a parede, empinei a bunda e pedi que ele fizesse comigo como fez com ela. Foi uma das vezes na minha vida que dei o cuzinho sem fazer força. Só entrou, meteu, me encheu de porra.

    Eu não tinha mais pernas. Bardo mal andava, coitado.

    Jantamos e sentamos no sofá batendo papo. A anfitriã insistia que tínhamos que contar pra ela o que aconteceu. Eu tinha medo de começar a falar e ficar morrendo de tesão de novo. Eu tinha tomado banho mas o cheiro dela não saía de mim, não tinha pasta de dente que tirasse o gosto dela da minha boca. Bardo começou a contar. Eu ouvia na voz dele um tremor quando falava de cada cena. Minha buceta foi molhando, o pau dele foi ficando duro, a menina começou a alisar ele.

    Logo eu estava me masturbando de novo e ele ganhando um boquete. Ele não parava de contar. Era como se desse para reviver aquilo de novo e de novo.  Mariana enfiava o pau dele na garganta com força, engasgando, como que para fazer ele parar de falar. Mas agora eu queria ouvir. O Bardo, o contador de histórias, me contando de novo – como se fosse um conto de fadas – o que eu tinha vivido.

    Então ele revelou que comeu o cuzinho dela. E acabou contando que comeu o meu no chuveiro depois. Aí a mulher pirou: – ah, vai comer o meu também. E foi nesse dia que o nosso sortudo comeu o cu de três mulheres no mesmo dia.

    Eu estava apaixonada. Já tinha transado com tanta gente na vida mas nunca tinha ficado em um fogo desses por ninguém antes. Que mulher gostosa. Achei que não ia conseguir dormir. E não ia mesmo. O Bardo ainda comia o último cuzinho do dia e eu olhando para o telefone. Será que eu ligo ou vou parecer uma doida? Mandei um emoji. Ela visualizou. Levou um minuto, para mim foi um dia.

    – Oi! – Caralho, falo o que? Levei um minuto, outro dia. Ela continuou.

    – Foi bom né? Não paro de pensar em vocês. – Que alívio. Não estava sozinha no sentimento!

    – Eu também.

    Bardo, ela está vindo me buscar, tudo bem? Tirando o pau do cuzinho depois de gozar gostoso dentro, ele só acena. – Divirta-se!

    Fui até o portão esperar por ela e o baterista veio atrás repetir sua ladainha. Eu não conseguia nem ouvir. Minhas mãos tremiam, eu só queria ver ela de novo. Por sorte não demorou muito para ela dobrar a esquina e, se eu pudesse, teria pulado para dentro do carro sem que ela sequer parasse.

    Tem essa coisa gostosa de transar muitas vezes seguidas com a mesma pessoa. A primeira é estranha, sempre, uma tateando o corpo da outra como que em busca do gemido perfeito. A segunda vez é pegada, arrancando o máximo prazer possível. A terceira já fica mais carinhosa, como ver um filme pela segunda vez. E foi assim. Vimos um filme juntas, comemos uma pizza, batemos papo, nos beijamos demoradamente e transamos com muito carinho.

    O leve roçar das pontas dos dedos procurando pequenos arrepios na pele. Me lembrava de tudo o que a puta da Augusta tinha feito comigo e tentava repetir. Ela arrepiava e suava a cada vez que eu acertava um nervo. Lambi o pescoço dela e desci pelos braços. Lambi a palma da mão e chupei os dedos. Depois ela me jogou na cama de bruços e desceu minhas costas dando leves mordiscadas e, chegando na minha bunda, atolou o rosto entre minhas nádegas fazendo malabarismos com a língua no meu cuzinho.

    Assim ficamos, uma descobrindo o corpo da outra, até o sol nascer.

    Não conseguia dormir, mesmo exausta. Olhava ela nua e suada na cama. O peito arfava, os mamilos subiam e desciam em câmera lenta. Que vontade de lamber. Ela me contava sobre como estava difícil para uma mulher como ela encontrar pessoas legais e compreensivas. Ela tinha uma boa profissão, se bancava, tinha dois trabalhos, carro próprio, uma casa e um sítio, amava foder como uma louca com homens e mulheres mas não encontrava quem a acompanhasse.

    Os homens se sentiam acuados pela iniciativa e pelo poder que ela tinha sobre si mesma. Era apenas sexo casual e, quando ele tentava tomar conta da vida dela ela simplesmente precisava seguir em frente. Me identifiquei. As mulheres antes de nós lutaram tanto por essa liberdade mas penso que nunca imaginaram a solidão que poderia vir com ela. Mesmo assim, vale mais a pena ser livre, com certeza! Com outras mulheres o problema ainda era a aceitação social, da família, o medo de perder o emprego. Ainda vivíamos isso em pleno 2017. 

    Ela foi trabalhar sem dormir e eu voltei para a casa da nossa anfitriã. Bardo estava chateado. Uma das namoradas dele estava puta por ele estar longe e sem previsão para voltar, então ele achou melhor se afastar. Para amar assim, é preciso saber viver as distâncias do espaço e do tempo – e por isso múltiplos amores convém!

    Outra coisa que preocupava é que as pessoas com quem falávamos todos os dias no ambiente online, nas redes sociais, estavam sumindo ao saber que estávamos mesmo indo vê-las. Estávamos sem um próximo destino. O baterista insistia que deixássemos aquela insanidade de lado, que eu voltasse para Porto Alegre com ele e deixasse o Bardo sozinho com suas loucuras. Não tinha o que convencesse ele de que não era o Bardo, era eu. Eu queria aquilo. Eu não pretendia voltar de forma alguma.

    Arrumamos as coisas para ir, mas nossa anfitriã pediu para ficarmos mais uma noite. Ela queria curtir o Bardo um pouco mais. Naquela noite fomos todos para um bar. Bardo sentou-se à mesa com Mariana e os amigos dela, fugindo para um eventual boquete no banheiro. Minha amada não pode vir, então sentei em outra mesa com o baterista e uma menina que queria nos conhecer. Ela era praticante de BDSM pesado. Mostrou algumas fotos dela pendurada em ganchos de açougue em casa, uma loucura! Seria possível sentir algum prazer daquela forma? Era inconcebível para mim, mas eu sei muito bem que cada pessoa é diferente nos seus prazeres e que alguns extremos são mesmo possíveis.

    O baterista tentava encantar ela com os papos ruins da internet. Parecia um mantra de alguns caras, que na época eram taxados de “esquerdomachos” ficar falando asneiras sobre como tratavam bem as mulheres e as deixavam livres, como se estivesse fazendo algum favor. Eu bem sabia que não era bem assim e que ele queria mesmo era uma só para ele. De repente, Bardo se aproximou da nossa mesa. Aquele sorrisão, o ar prazenteiro, e se apresentou para a moça. Acabou convidando ela para voltar para casa conosco e ela topou.

    Chegando lá, entrando na cozinha, Bardo percebeu que a língua da moça era bipartida e cheia de piercings. Ficou maravilhado e disse que estava muito curiosos sobre como era o beijo dela. A moça topou mostrar, sem cerimônia. Ele escorou ela contra a parede e ficou uns dez minutos amassando e beijando, as mãos correndo pelo corpo e a tensão escalando.

    O baterista surtou. Disse que Bardo forçou ela a beijar ele, que aquilo era um abuso, um estupro, e que não podíamos deixar isso assim. Mariana, a menina e eu tentamos explicar para ele que não era isso, mas ele estava resoluto. Bardo, mais uma vez, usou sua magia e acalmou ele. Aquilo quebrou o clima totalmente. A menina foi embora. Bardo dormiu com Mariana e eu com o baterista, sem nenhuma vontade de estar com ele mais.

    Na manhã seguinte arrumamos nossas coisas e saímos completamente sem destino. Paramos na cidade seguinte. Olhei para o Bardo e perguntei qual era o plano. – O plano é não olhar para trás – ele disse. Pegamos o equipamento de som, montamos em uma praça no centro da cidade e começamos a tocar. Só os dois, voz e violão, como nos domingos do  Parque da Redenção. Logo algumas moedas caíram na cartola. Depois algumas notas. Será que daria dinheiro para um hotel para cinco pessoas? Continuamos tocando. Bardo pegou o microfone, contou um resumo da nossa história e perguntou: – Alguém aqui pode nos receber para dormir?

    Insano. Imagina se alguém ia receber uns malucos mambembes dentro de casa! Pois me enganei: um casal se aproximou e disse que podia nos receber. Seguimos o carro deles até uma casa muito bonita, simples, em um bairro. Nos deram um quarto e nos amontoamos por lá. Eles eram pessoas maravilhosas. Ele era narrador de rodeio e ficava fazendo rimas alucinantes e tocando um berrante dentro de casa. Rimos muito. Ela era uma deusa catarinense, loira, olhos azuis, toda gostosa!

    O baterista puxou Bardo para um canto e avisou que não era para comer a mulher, que ia ser uma falta de respeito grande demais com estranhos que nos receberam assim, do nada. Bardo riu, mas concordou.

    Propomos à eles dar uma festa e chamar os amigos. Eles toparam! Acabamos ficando por alguns dias até chegar a sexta feira. Os dois trabalhavam o dia todo então ficávamos sozinhos em casa. Íamos tocar na praça, levantar o caixa. Naquela semana o ex-guitarrista finalmente mandou a masterização do disco. Ficou uma merda. Odiamos. Esse disco ficou guardado em um HD e chamamos ele de disco morto. Ficamos muito tristes pelo trabalho todo despendido por um resultado tão ruim. Teria que refazer tudo, só não sabíamos quando e como.

    A deusa loira chegava meia hora antes dele em casa e ficou muito interessada no nosso papo sobre amor livre. Disse que ia amar viver assim, mas que ele era possessivo demais, homem de tradição antiga, de boiadeiros, que inclusive queria que ela não fosse trabalhar mais. Ficamos em um clima estranho. Eu não queria entrar na casa das pessoas e destruir seus lares, não era essa a minha ideia. Mas parece que isso faria parte de encontrar as pessoas afins. Muitas delas estariam presas em relações infelizes.

    Ela perseguia o Bardo pelos corredores e ele estava louco por ela também, mas como não era uma concordância dos dois achou melhor não comer a mulher. Ele se arrepende disso até hoje, inclusive, mas manteve o respeito. Depois de muita insistência dela, Bardo concordou em mediar uma conversa dos dois para que ela pedisse para abrir a relação. A conversa foi boa, o marido levou com tranquilidade, mas não concordou.

    Na sexta feira fizemos o show para os amigos. Foi muito gostoso e divertido, com o público sentado no chão da sala, os móveis arredados e nosso palco no cantinho. Todo mundo bebeu, dançou, cantou e pulou ao som da nossa música. Fiquei feliz. Podia fazer isso o resto da minha vida. No dia seguinte, ainda sem destino, arrumamos nossas coisas e seguimos adiante para a próxima cidade. Tivemos sorte na primeira, será que teremos novamente?

    Algumas horas depois, na estrada, o marido mandou mensagem dizendo que estavam se separando e agradeceu ao Bardo por mediar a conversa. Terminaram numa boa e ficou tudo bem. Sabe-se lá como eles teriam seguido juntos e infelizes. Nunca mais nos falamos depois, mas soube pelas redes sociais que ela estava casada com um músico, que fazia swing e estava grávida e feliz. Que bom! Eu também não fazia ideia do quanto isso ia se repetir pela frente.

    Era meio dia quando chegamos na cidade seguinte. Fomos direto para o centro da cidade e montamos nosso equipamento na praça. O natal se aproximava e o comércio estava lotado. Começamos a tocar e paramos um público imenso! Ganhamos dinheiro no chapéu e fizemos a mesma estratégia: pedimos para o público presente por um lugar para dormir. Ninguém se ofereceu, mas uma moça nos indicou pedir abrigo em um sítio específico perto dali. Os donos eram pessoas muito legais e sempre faziam eventos por lá.

    Chegamos no final da tarde. O lugar era lindo. No pé da montanha e cheio de lagos. Tinha várias cabanas e estava acontecendo um evento de ciclismo. Os donos nos receberam muito bem e nos deram uma cabana para nos acomodarmos. Era uma cabana muito antiga, com aquelas decorações de nona, e as kids resolveram fazer um filme de terror durante a noite. Nos divertimos muito!

    Na manhã seguinte tocamos para os ciclistas e ganhamos mais algum dinheiro. Nesse passo não ficaríamos ricos, mas poderíamos nos manter. O baterista dizia que uma hora não ia dar certo mais e que íamos quebrar longe demais para voltar. Não queria saber. Era uma aventura incrível e eu estava amando cada dia!

    No final da tarde escuto um ronco alto. Era um motor de jipe e saí correndo para fora da cabana. Eu simplesmente amo jipes. Não sei por que. Nunca tive contato com esses carros, não fizeram parte da minha vida em nada, mas eu adoro o som do motor, a potência, a carroceria forte e, claro, poder atolar na lama. Parei na porta para ver ele passar. Não era um, eram dezenas deles, de todos os tipos! Um rapaz quase se jogou do carro quando me viu. Assobiou alto e acenou para mim. Minha calcinha molhou. Vou dar para esse cara hoje, pensei.

    O sítio era mesmo movimentado e o pessoal do ciclismo ainda desmontava seu acampamento quando o povo do jipe chegou. Atrás deles, patrolas e escavadeiras. Criaram uma pista de corrida com obstáculos artificiais. Um poço de lama, subidas que eram quase paredes e tudo o que podia fazer um jipe, ou o motorista dele, tremer na base.

    Bardo logo fez amizade com uma das equipes, a mais próxima da nossa cabana, e juntou-se à festa. Cheguei lá mais tarde e, para minha surpresa, era a equipe do moço bonito. Curtimos um churrasco com eles e, no momento certo, fiz um sinal para o Bardo e tirei o moço de lá.

    Fiz ele me levar passear no jipe. Era noite e a lua estava cheia, estava lindo. Rodamos pelas estradas de chão e paramos em uma porteira de fazenda. Eu estava adorando andar naquele carro e estava morrendo de tesão. Pulei em cima dele e me entreguei aos beijos. Ficamos em um arreto gostoso, ele tinha muita pegada. Aos poucos foi passando as mãos pelos meus seios, descendo para minha bunda e acariciando minha buceta. Baixei minha blusa e enfiei os seios na boca dele. Ele mamou gostoso e demorado e meu vestido estava todo molhado.

    Descemos do carro. Me ajoelhei, abri o zíper da calça dele e vi aquele caralho enorme pular todo teso no meu rosto. Dei uma mamada com muita vontade, lambendo ele todinho e fazendo o moço gemer alto e gostoso. Minha buceta pulsava! Queria meter gostoso em cima do capô quente do carro. Perguntei se ele tinha uma camisinha. Ele não tinha. Eu também não. Não queria arriscar. Entramos no carro e voltamos. Entrei correndo na cabana, abri minha mochila e peguei um preservativo antes que o baterista conseguisse me perguntar o que eu estava fazendo. Pulei de volta no jipe e voamos de volta para a porteira.

    Arrastando o rapaz pela camisa, me deitei no capô, ergui o vestido e abri as pernas. Ele não pensou um segundo sequer e caiu de boca na minha buceta, chupando quente, molhado e gostoso. Que sorte que eu dei! Pedi para ele subir no capô comigo e me foder com gosto. Ele colocou o preservativo e entrou até o talo, quente e forte, e me fodeu ali no que parecia uma cena de filme. A lua cheia nos iluminando, o calor do capô do carro e ele socando forte com aquele pau enorme. Relaxei e curti, gozei muito gostoso.

    Na volta, batendo papo, ele me contou que era casado mas que sempre vivia aventuras como aquela. Ele perguntou se o Bardo era meu marido e se não ia ficar puto com ele. Contei sobre nossa relação e ele achou o máximo, mas disse que para ele não ia servir: era casado há muitos anos com uma advogada e tinha filhos. Ela era careta demais e separar dela ia ser um inferno. Preferia ficar assim mesmo.

    Quando voltamos para o acampamento, todo mundo tinha sumido. Onde estariam? Era quase manhã quando os carros começaram a chegar, trazendo o Bardo com eles. Acontece que os homens ficaram apavorados quando saí com o moço e acharam que o Bardo ia matar o amigo deles quando voltasse. Conversaram com ele tentando amenizar a situação, mas ele falou sobre o amor livre e acabou deixando os caras morrendo de tesão. Antes que aquele acampamento virasse a festa da salsicha, foram todos para a zona e meteram com as putas a noite toda. Que festa!

    O baterista era uma bomba relógio. Na manhã seguinte Bardo acalmou ele de novo, mas ninguém mais estava afim daquela situação. Nem tocando ele estava, não participava das festas, não pegava na suruba e só perturbava. Finalmente ele pediu para voltar para casa. Disse que podíamos ficar com o carro por um tempo até conseguirmos comprar um para nós. Seguimos de volta para Porto Alegre.

    Descemos por uma estrada do interior e paramos em uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, Vacaria. Tentamos tocar na praça, mas sem sucesso. Seguimos até Caxias do Sul, onde supostamente tínhamos muitos fãs, mas não encontramos ninguém e tocar na praça também não deu em nada. Exaustos, seguimos para Porto Alegre.

    Bardo ficou na nossa casa e o baterista e eu seguimos para a colônia naturista. Em dois dias, toda a nossa mobília e tudo o que tinha algum valor foi vendido a preço de banana e arrecadamos quatro mil reais para continuar a viajar. O baterista, com a mão um pouco melhor, começou a arrumar shows ao redor, com alguma esperança de ficarmos. Eu olhava para ele com pena. Queria ter tido uma relação melhor, mas um amor que antagoniza o outro não é amor. Bardo gostava dele como se fosse um irmão, mas ele realmente estava em outra vibração.

    Ainda assim, cumprimos dois shows. Um na colônia naturista e outro na casa de alguns fãs em uma cidade próxima. Os shows na colônia eram divertidos, mas tínhamos que ser muito cuidadosos com nossas conversas por lá porque o povo do naturismo não gosta de passar uma impressão sexual das coisas. E é justo. Naturismo não tem nada a ver com sexo. É a liberdade da nudez, o contato com a natureza, o despudor de estar em convívio social sem malícia. Claro que tinha gente que gostava de amar livre lá e muita gente do swing também, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.

    Já na casa dos fãs fomos com vontade. Já estava com vontade de mais uma putaria. Bardo, pobre, mal conseguia andar. Resolveu se despedir de todas as namoradas naquela semana e estava todo ralado. Fizemos um show delicioso com o baterista de volta ao seu posto, mas a festa descambou para a bebedeira e o sexo ficou para lá. Tampouco queriam ouvir nossas ideias. Fiquei chateada. Para completar, o baterista ficou na minha cabeça a noite toda tentando me convencer a ficar. Ele insistia que o Bardo não era uma pessoa boa e que eu ainda ia me dar muito mal. Penso que se ele não falasse mal do Bardo e me apresentasse outros argumentos eu talvez tivesse ficado, mas não foi assim. Ele acabou bebendo demais, apagou e transei com o Bardo no chuveiro.

    Na manhã seguinte voltamos para a colônia, colocamos tudo no carro e nos despedimos. Ele disse que ia me ver assim que eu estivesse em uma cidade com aeroporto, mas eu sabia que nunca mais ia ver ele de novo. Dei um beijo com gosto de adeus e de alívio. Agora eu tinha mais uma missão: precisava comprar um carro o mais rápido possível e sair daquela situação com ele. Entrei na Doblô e meti o pé na tábua. Queria sair do Rio Grande do Sul no mesmo dia e seguir por Santa Catarina. Voei. No final da tarde estava em Torres, faltando um dia para o natal.

    Tocamos na rua mas não conseguimos lugar para dormir. Fomos para um camping. Armamos nossas barracas e descobri que os colchões infláveis que o baterista e eu compramos eram, na verdade, infantis. Bardo ficou puto. Ele não é um cara fácil de tirar do sério, mas pequenos detalhes como o sono deixam ele bastante irritado. E ele odeia colchão inflável com todas as forças. Infantil, para um homem de um metro e noventa e seis de altura, pior ainda.

    Fizemos uma janta na nossa única panela. Uma wok. Seleta de legumes e carne. Deitamos para dormir, finalmente só os quatro e o nosso cachorro Rock. Não era bem o que queríamos, mas estávamos em paz. Na manhã seguinte seguimos para o outro lado da ponte o quanto antes. O Rio Grande do Sul precisava ficar para trás. Nossa ideia não funcionava por lá.

    Era véspera de Natal e as kids queriam saber o que íamos fazer de especial. Eu olhei para elas e disse: – Nós vamos dormir em uma mansão hoje! – Elas pularam de alegria. Bardo me olhou confuso. Peguei o carro e entrei em um bairro nobre. Famílias reunidas preparando suas ceias. Uma das casas era enorme e a família estava reunida no gramado. Muita gente. Parei o carro, dei o ukulele para o Bardo e pedi que apenas me seguissem no que eu fizesse. Paramos no portão e batemos palmas. Quando um funcionário veio nos atender, pedi que Bardo tocasse a música do Rei Leão (que não é do Rei Leão, mas todo mundo diz que é) e começamos: auimauê auimauê! As kids entraram no coro. A família se aproximou e pude contar a nossa história – omitindo a parte do amor livre.

    Eles nos convidaram para passar o natal com eles. Bardo me olhou com aquele olhar que ele me dá quando está orgulhoso de mim. A casa era gigantesca e a família dona de algum frigorífico no Mato Grosso ou algo assim. Um funcionário que morava na casa disse que a família só vinha para a ceia de natal, todos os anos, e que no resto do tempo ele vivia ali com a família dele fazendo a manutenção. Que vida!

    A ceia foi farta! Tinha todo o tipo de carnes, saladas, frutas, legumes e uma mesa só de sobremesas. A família nos pediu para cantar. Pegamos nosso som e mandamos nosso rock n roll em uma das salas. Todo mundo adorou, ficaram muito animados, pulavam e dançavam. Conforme nosso repertório repetia coisas sobre um certo assunto, porém, o chefe da família foi ficando incomodado e nos pediu para parar. Depois nos chamou em um canto e disse que a família tinha vivido muitas coisas e havia recém se convertido à uma religião evangélica.

    Claro que fui trocar uma ideia com as pessoas. Fiquei curiosa com o que “vivido muitas coisas” significava. Se você quer se divertir um pouco, sente-se com um convertido e peça para que ele lhe conte suas histórias anteriores à igreja. O divertido não são as histórias, que geralmente se resumem à drogas, violência e escapadas gays, mas o brilho no olhar enquanto eles contam sobre isso, o tremor na voz e a animação, seguidos por justificativas e a salvação, claro. Entre um segredo e outro soube que a turma ali gostava demais de uma farinha. Às vezes, só Jesus na causa mesmo. Mas curti os comentários maldosos sobre terem entendido o recado das nossas canções. Não sei se aquela conversão deu muito certo! 

    Nos colocaram para dormir, pasme, na sala de cinema da casa. Era uma sala enorme, com uma tela de cinema de verdade e sofás gigantes. O ar condicionado estava tão gelado que dormimos de cobertor como se fosse o pico do inverno. Descansamos bem. Na manhã seguinte tomamos café da manhã com a família. Nos deram uma boa quantia em dinheiro e seguimos viagem.

    Era verão e a ideia era seguir pelo litoral de Santa Catarina, tocando pelas praias até levantar dinheiro suficiente para um carro. Comecei a procurar por Kombi nos apps de vendas, mas Bardo torceu o nariz. Disse que se era o que eu queria, tudo bem, mas que ele preferia uma camionete mais nova, como uma S10. O patamar de preço era bem outro e eu não fazia ideia se íamos conseguir.

    Passamos por Sombrio e me senti mal. Dia de Natal, a cidade está completamente vazia. Fomos para um posto de saúde e fui muito bem atendida. Chamamos por nossos fãs online mas ninguém respondeu. Sem ter onde tocar e nem onde dormir, teríamos que gastar com camping novamente. Bardo tremeu à possibilidade de dormir em um colchão inflável novamente. Seguimos em frente e chegamos em Araranguá. O nosso fã do primeiro show longe de casa, o da namorada gata, disse que tinha uma casa lá e que estava à nossa disposição. Topamos de bom grado, pegamos a chave e fomos para lá.

    Seguros por um tempo, andamos pelas praias ao redor em busca de trabalho. Acabamos fazendo música pelo dinheiro do chapéu mesmo em Arroio do Silva e no Morro dos Conventos. Chovia bastante e não deu muita coisa mas, sem precisar pagar para dormir, a conta fechava. Faltando pouco para o ano novo decidimos seguir em frente. Agradecemos ao nosso anfitrião e deixamos a casa limpa e organizada como encontramos, mas sem querer, distraída, levei a chave embora. Ele não se chateou e disse que estava tudo bem, que tinha outras cópias. Me senti uma ingrata.

    Seguimos um pouco até Tubarão e não vimos nenhum por lá. Chovia e nem dava para tentar a praça. Seguimos adiante esperando passar pela chuva e conseguimos chegar em Laguna. Mesmo com o tempo emburrado a praia estava lotada. Pegamos o ukulele e fomos para a areia mesmo. Paramos de guarda sol em guarda sol e cantávamos uma música ou duas, pedindo uma colaboração. Para as pessoas que gostavam mais pedíamos um lugar para dormir. Ganhamos um bom dinheiro e finalmente uma moça disse que podíamos ir para o apartamento dela.

    Era perto dali. Chegamos bem na hora que uma chuva muito forte caiu. Ela ligou para uma amiga e disse que estava conosco lá. A amiga veio na hora, com o marido, mais para ver quem a maluca tinha trazido para casa. Nos chamou em um canto e contou que o marido da moça tinha morrido há pouco tempo e que ela estava se sentindo muito sozinha. Que tinha um rapaz rondando ela mas que ninguém queria ele por perto. Treta. Resolvemos não ficar muito tempo. Fizemos um show particular, só para ela, a amiga e o marido, com o ukulele. Foi gostoso retribuir assim.

    Era o último dia do ano e resolvemos seguir. Bardo conhecia um povo da permacultura na Barra de Ibiraquera e resolveu chegar sem avisar para ver no que dava. Deu certo. Fomos muito bem recebidos, mas com a casa cheia eles não tinham um quarto para nos oferecer. Passamos a ceia com eles. Foi simples, gostoso e divertido, apesar de sexualmente nulo. O casal dono da casa era lindo, mas achamos prudente não puxar o assunto. Eles sabiam muito bem quem éramos. Se quisessem algo, sabiam que era só chegar.

    Fomos dormir em um galpão do lado de fora da casa. Era fechado e seguro, guardava algumas ferramentas. Acordei de madrugada com algo caminhando no meu braço. Chamei o Bardo, que pulou e ligou a luz. Estávamos cobertos de pequenos besouros. Rimos muito daquilo e voltamos a dormir. Ainda bem que não era nenhuma barata, escorpião ou aranha!

    ***

    Olhei para o novo ano que vinha: 2017. Eu nunca me senti tão insegura e tão livre ao mesmo tempo. Depois de tudo o que eu tive e tudo o que eu fiz, batalhar por um lugar para dormir diariamente era um desafio que me animava. Até ali tudo tinha ido bem e estávamos com um pouquinho mais de dinheiro do que quando saímos de casa. Que aventura gostosa!

    Seguimos dali para a famosa Praia do Rosa. Tocamos na praia, fizemos uma grana, mas conseguimos levar uma multa por estacionar na contramão em uma ruazinha de areia. Bardo ficou injuriado mas não tinha com quem discutir, só estava o papel por lá. No microfone, pedi por um lugar para dormirmos e uma família muito animada se ofereceu. Fomos parar em uma bela casa com piscina na montanha. Que sorte!

    Contamos nossa história e eles disseram que podíamos ficar por lá o tempo que quiséssemos. Aproveitamos para viajar para todas as praias ao redor, tocar e voltar para dormir lá. Alguns dias depois eles chamaram os amigos para ver nosso show. Antes de começar a tocar ficamos de papo, contando nossas histórias. Uma mulher nos contou que o marido dela tinha viajado o mundo todo de mochila e que um dia cansou, construiu uma casa ali perto e nunca mais falou com ninguém. Nem quis nos ouvir tocar. Fiquei muito curiosa com o que levou ele a fazer isso, mas nem ela sabia.

    Começamos nosso show e, aos poucos, o público foi entendendo do que se tratava. Os homens fecharam a cara e as mulheres ficaram muito animadas. Depois do show me puxaram para um canto e me fizeram dezenas de perguntas. A anfitriã era a mais curiosa. Alguns dias de convívio com a família me fizeram perceber que o nosso anfitrião estava longe de ser um poço de candura. Bardo me observava da mesa dos homens onde se falava sobre qualquer outra coisa, mas com os ouvidos em pé nas risadas safadas das esposas.

    No dia seguinte decidimos ir embora. Nosso anfitrião tinha saído para comprar algumas coisas e resolvemos esperar. Ele chegou irritado e nos confrontando. Perguntou por que não contamos logo o que estávamos fazendo na nossa viagem. Parece que um amigo dele tinha ligado dizendo quem éramos e que todo mundo na cidade dele estava dizendo que eles faziam swing por estarem conosco. A esposa, uma loira linda, cheia de vida, ficou sentada com os ombros baixos em um canto ouvindo ele vociferar. Fiquei com vontade de tirar ela de lá, mas estava além da minha alçada.

    Seguimos para Garopaba. A praia estava lotada, sensacional! Resolvemos levar o equipamento todo para a areia. Bardo foi engenhoso e criou um carrinho para carregarmos tudo. O equipamento era um Roland Cube – um cubo feito para música de rua – a guitarra com a caixa, meu microfone e os cabos. Compramos pilhas e nos lançamos. A estratégia era parar a cada cem metros de praia, fazer um espetáculo de 15 minutos e passar o chapéu. Deu certo! No final do dia conseguimos comprar um aspirador de pó porque o carro estava parecendo um caminhão de areia. Seguimos para a Praia do Siriú. Chegando lá recebi um telefonema do baterista. Ele estava transtornado. Tinha muita esperança de que eu fosse quebrar a cara logo, deixar o Bardo e voltar para ele, mas continuava assistindo as coisas dando certo pelas redes sociais. Foi muito grosseiro, falou horrores do Bardo e ameaçou ir na polícia e dizer que tínhamos roubado o carro. Naquele momento ele terminou de perder qualquer respeito que Bardo e eu tivéssemos por ele.

    Fiquei devastada. Não consegui tocar mais naquele dia e não tínhamos conseguido um lugar para dormir. Sem saber o que fazer, liguei para nossa anfitriã anterior, mesmo com a confusão daquela manhã, e perguntei se era possível dormir lá mais uma noite. Ela disse que não havia problema algum. Chegamos lá tarde da noite, morrendo de fome e completamente exaustos e tristes. O marido nos esperava no portão. Ele esperou que as kids e eu entrássemos na casa e parou o Bardo por lá.

    Nessas horas eu percebo o herói que tenho comigo. Bardo exausto, puto da vida e com fome ouviu pacientemente o homem falar merda e ameaçar ele por meia hora. Ainda foi educado e cordial, acalmando os ânimos. Apagamos. Na madrugada acordamos com uma pancadaria. Bardo correu e se escorou na porta, imaginando que alguém poderia estar invadindo a casa. Era o filho mais velho da família que tinha chegado drogado e carregando um bulldog. Ele e o filho mais novo se estranharam e saíram no soco. Foi um inferno. Gritos e vidro quebrando. Ficamos em silêncio no quarto. Assim que o sol nasceu, saímos discretamente, sem despedir. Fiquei na vontade de tirar aquela mulher de lá.

    Sem nenhum conhecido à frente, seguimos. Tocamos em Garopaba de novo e fizemos mais uma boa grana. À noite, ainda sem ter onde dormir, tocamos em um restaurante no Siriú, o Siriú Norte. O dono e sua família são pessoas maravilhosas e nos ofereceram um lugar para dormir. Passamos muito bem à noite e tocamos no restaurante novamente ao meio dia. Dali tocamos na Gamboa a tarde e seguimos para a Guarda do Embaú, mas não conseguimos tocar. Já havia um músico de rua ocupando o único lugar possível.

    Seguimos estrada. Paramos na Praia do Sonho, mas não havia ninguém lá. Sem mais nada em vista, abri uma live no Facebook e dei um grito: – Alguém em Floripa para nos receber agora mesmo? Recebemos várias mensagens positivas e seguimos até lá. Cruzamos a ponte e chegamos na Ilha. Bardo dirigia e eu conversava com algumas pessoas para descobrir onde íamos dormir. O aniversário da Lavínia era no dia seguinte e eu queria muito ter a sorte de estar em um lugar legal.

    Chegamos no centro da cidade e estacionamos. Um por um, os contatos iam desistindo de nós e começou a me dar um aperto no coração. Finalmente um trisal que fazia conteúdo adulto disse que nos receberia. Fomos parar em uma praia no norte da ilha, na casa da mãe de uma das moças. Não era exatamente uma casa, e sim um galpão de chão batido e cheio de moscas. Que azar. Foi difícil dormir com as moscas pousando na gente o tempo todo. Como aquelas pessoas podiam viver assim?

    No dia seguinte saímos com o trisal. Eles eram bonitos e animamos com a possibilidade de rolar uma putaria gostosa, mas nada. Sexo, para eles, era uma coisa profissional. A relação ali era bastante estranha também. O casal tinha uma diferença de uns dez anos para a outra menina. As duas eram viradas em cirurgia plástica: peito, bunda, boca, nariz, a coisa toda. Ele tinha uma relação dominadora com elas e a mais velha com a mais nova, era uma hierarquia. Nem todo arranjo que não é um casal necessariamente é livre. Achei melhor não andar com eles.

    Seguimos para a praia dos Ingleses e tocamos por lá. Pedimos por um lugar para ficar e foi um rapaz que nos atendeu. Mais uma sorte. Fomos parar em uma mansão em Ratones onde ele vivia sozinho. Era algum tipo de empresário, mas não fizemos muitas perguntas. Chamou um grupo de amigos e fizemos o nosso espetáculo por lá. Adoraram. O bate papo também fluiu bem. Verão, praia, calor, álcool e todo mundo fica mais soltinho para esse tipo de assunto. Me interessei pelo anfitrião mas ele estava apaixonado por uma menina que estava lá e parecia um idiota tentando agradá-la sem sucesso algum.

    No dia seguinte um dos amigos dele nos convidou para um show particular na casa dele. Outra mansão, outro grupo de amigos. Muita sorte. Podia ficar nessa vida por um tempo! O show foi divertido e o bate papo super legal, mas o povo bebeu demais – entre outras substâncias – e as coisas desandaram um pouco. A menina da outra noite estava cansada da conversa ruim do nosso primeiro anfitrião e pediu para o Bardo levar ela embora dali. Aproveitei a oportunidade e, sem os dois por perto, dei uns amassos com ele no banheiro. Infelizmente ele já estava bêbado demais para mais que isso e eu odeio transar com gente bêbada e drogada.

    O amigo dele, vendo os dois saindo do banheiro, veio falar comigo. Ele era bonito mas também já estava entorpecido demais e perdeu qualquer oportunidade ali. Fui para o quarto dormir e esperar o Bardo voltar, imaginando porque ele demorava tanto. Logo ele chegou e, vendo que a festa tinha descambado na farinha, foi dormir comigo. Fiquei esperando ele me contar que comeu a menina, mas nada aconteceu com ele dessa vez. Só deixou a menina em casa mesmo.

    No dia seguinte já queríamos sair de perto daquela turma. Segui conversando com os contatos no Facebook mas foi o Bardo que conseguiu um lugar em uma rede de swing. Saímos da Ilha e fomos parar em um apartamento em São José. O anfitrião era o Zé: era um cara desses estilo surfista, praiano, com uma puta cara de safado. Adorei. Ele nos fez um jantar e me deu uma massagem no pé. A massagem foi subindo as coxas e acabamos indo para o quarto dele. Bardo me deu aquela vantagem de ir primeiro, só pela sacanagem, e quando ele entrou no quarto um tempo depois a massagem já era com a língua no meu clitóris.

    O cara era mesmo muito gostoso e eu estava precisando daquilo depois de tanto stress. Quis dar pra ele a noite toda, mas ele só tinha um preservativo e era tarde da noite para sair e buscar um. Dei pra ele de quatro enquanto mamava o Bardo, gozei gostoso e ele explodiu dentro de mim. Tesão! Depois invertemos. Bardo me fodendo sentada no pau dele e eu mamando o Zé. Em algum momento eu estava de joelhos, pau na boca e levando na buceta quando ele puxou o Bardo pelos cabelos e deu o pau para chupar. Bardo olhou para mim, deu uma risada e caiu de boca. Ficamos os dois ali chupando o cara juntos. Foi delicioso. Eu lambia as bolas enquanto ele engolia o pau até o talo. Bardo me encheu de porra de tanto tesão.

    Na hora de dormir ele jogou um colchão de casal no chão ao lado da cama dele. Bardo foi se ajeitando para deitar, mas eu ainda estava molhada. Avisei que ia dormir na cama com o Zé. Bardo me alertou de que ele usou a única camisinha que tinha. Garanti que não ia rolar nada e ele só me olhou com uma puta cara de safado, dizendo que já esteve no lugar do Zé algumas vezes e que com ele nunca teve perdão.

    Zé voltou do banho e me encontrou na cama dele. Nua, claro. Deitou nu também. Bardo, do chão, ainda me deu uma última olhada e uma risada safada antes de dormir. Apagamos a luz e fechamos os olhos. Virei de bunda para o Zé e tentei dormir, morrendo de tesão, mas não demorou para sentir o pau duro dele roçando nas minhas coxas. Empinei a bunda um pouco. Ele começou a roçar a cabecinha e sentiu que eu estava encharcada. Peguei o pau dele e fiquei roçando, na esperança de gozar só com essa brincadeira. Ficamos assim por um bom tempo, estava quentinho e gostoso. 

    Meu tesão só aumentava e nada do orgasmo aparecer. Fui bolinando meu clitóris com a outra mão e punhetando a cabecinha dele na entrada da buceta. Ele agarrava minhas coxas e não empurrava, respeitando a brincadeira. Sem conseguir gozar, fui perdendo as estribeiras. Pensei em colocar no cuzinho, mas não ia entrar, não era nem o que eu queria. Não aguentava mais. Resolvi colocar só a cabecinha dentro e ficar rebolando. Ficou ainda mais gostoso e quentinho. Os dedos dele já estavam enterrados na minha bunda, quase em desespero. Sabe qual é a maior mentira do mundo, não é? Só a cabecinha! Não consegui mais me segurar e empurrei minha bunda com força contra ele. Sem esperar por aquilo, soltou um gemido alto. Certeza que Bardo ouviu. Virei meu rosto para ele e mandei ele gozar fora, rebolando com vontade e me masturbando. Gozei muito rápido. Senti ele pulsando forte dentro de mim e puxei a bunda para a frente, só a tempo dele melar minhas coxas. Que delícia. Coloquei minha mão para fora da cama, no peito do Bardo, e dormi como um anjo.

    Acordei de manhã com ele roçando o pau duro nas minhas coxas meladas. Tesão instantâneo. Bardo ainda dormia. De repente o colega de apartamento começa a bater na porta com força. – Zé, caralho, roubaram teu carro! – O Zé tinha feito a gentileza de dar a vaga na garagem do prédio para nossa Doblô e deixou o carro dele na rua. Que merda. Bardo levou ele na delegacia para fazer o boletim de ocorrência e acabou ficando de táxi para as coisas que ele tinha que fazer durante o dia. No final da tarde um casal que morava ali perto viu o post que eu tinha feito no Facebook uma semana atrás e nos chamou para o apartamento deles. 

    Por mais que eu quisesse meter mais uma noite toda com o Zé, gostoso para um caralho, resolvi ir para lá. O apartamento era maior e o casal era muito bonito. Eles tinham uma filha pequena que ficou brincando com as nossas. Fumaram maconha o dia todo e eu não curti muito isso. É um saco conversar com esse povo de pensamento lento. À noite, com todo mundo acomodado, começamos um swing na sala. Ele e eu, Bardo e ela. Quando a coisa pegou fogo mesmo e a esposa estava sentando forte no colo do Bardo ele começou a se perder. Já tinha passado mil vezes por aquilo e sugeri que fôssemos para outro quarto. Lá ele se soltou, me colocou de quatro e me fodeu gostoso. Em algum momento ele veio no meu ouvido e começou a dizer como eu era mais gostosa que a mulher dele. Isso era novidade e era ridículo. Perdi o tesão. Dei um jeito de fazer ele gozar logo e fui para a sala, onde Bardo, estranhamente, também já tinha encerrado. Eles nos convidaram para fumar um e ver um filme, mas achamos melhor ir dormir.

    No dia seguinte começamos a procurar como voltar para a Ilha. A Praia dos Ingleses deu um bom dinheiro mas seria muito ruim ir até lá e voltar. O trânsito da ilha é um inferno, ainda mais a ponte. Não conseguimos nada e resolvemos ficar mais um dia ali. Zé nos ligou com uma boa notícia: encontraram o carro dele e ele ia reaver. Ainda bem! Batendo papo com ele fiquei com tesão e pedi para o Bardo me deixar lá naquela noite. Ele ficou com o casal.

    Zé me esperava animado. Estava feliz com o carro de volta e mais feliz ainda com minha visita. Tomamos uma cerveja – estava terrivelmente quente – jantamos e fomos para o quarto. Já entramos aos beijos e amassos, arrancando a roupa. Foi uma daquelas metidas fortes, intensas, beijando o tempo todo e em todas as posições possíveis e imagináveis. E foi no pelo. Eu odeio isso em mim mas, uma vez que eu meto no pelo com alguém, não consigo mais usar camisinha. Ficava com aquela consciência ruim e ao mesmo tempo curtindo demais ele todo duro e quentinho. Ele terminou me comendo em pé contra a parede e melou minhas coxas.

    Acordei com ele já dentro de mim de novo, aquela fodinha gostosa de ladinho que eu adoro. Demoramos ali até a hora do almoço e levei mais uma melada na bunda. Puta tesão. Tomamos um café e Bardo veio me buscar. Eu já estava começando uma lista mental de pessoas que queria juntar em uma suruba. Fiquei imaginando meter com ele e a moça da tatuagem ao mesmo tempo. Imagino que ia ser uma viagem lisérgica!

    Bardo conseguiu hospedagem na casa de um casal de fãs bem na Praia dos Ingleses! Voamos para lá, precisávamos manter o equilíbrio financeiro. Fomos muito bem recebidos, mas o anfitrião chegou se despedindo, dizendo que precisava ir viajar por dois dias e deixou claro para o Bardo que podia tratar bem a esposa dele. Ela era uma negra linda, muito nova, e logo os dois estavam suando no quarto. Fomos para a praia e continuamos nossa estratégia. Tocamos o dia todo pela praia e ganhamos um bom dinheiro. Tudo ia bem e cada vez que o baterista via isso era uma nova mensagem de ódio. Bardo foi mudando com ele, foi deixando de querer amenizar e começou a responder no mesmo tom.

    À noite, Bardo e eu transamos muito gostoso. De ladinho, daquele nosso jeito. Eu contando da trepada com o Zé e ele contando da trepada com a esposa. Explodimos gostoso, juntos, e fiz questão que ele gozasse dentro, imaginando o que eu não podia fazer na minha brincadeira. Já estava apagando quando ouvi uma batidinha de leve na porta. Bardo me deu um beijo e foi. Logo estava ouvindo, de leve, as batidas da cama na parede do outro quarto. Ele amanheceu fodendo ela e veio dormir quando eu já tomava café.

    Voltamos para a praia e nos demos bem de novo. Aquilo estava realmente maravilhoso. Eu estava pegando bastante sol e estava magra e musculosa. Era um exercício muito intenso! Quando voltamos para a casa, o marido tinha voltado mais cedo. Talvez morrendo de tesão com a esposa, metendo a noite toda com outro. Não bateu química entre ele e eu e acabaram indo os três para o quarto. Depois de algumas horas não me aguentei e colei o ouvido na porta, só para ouvir as batidas da pele dele na dela e o maridinho falando aquelas frases gostosas de quem tá amando ver a esposa levando ferro: – Tá gostando, sua puta? Leva pau gostoso nessa bucetinha, vai! Fode ela, comedor! – uma delícia!

    O aniversário do Bardo estava chegando, estávamos fazendo um bom dinheiro na praia dos Ingleses e estávamos felizes. Perguntei para ele o que ele queria ganhar, mas ele sempre pensa em nós dois nessas horas. Me pediu para viajarmos de volta para o interior, para a moça da tatuagem. Era ela o presente. Claro que topei na hora e encaramos trezentos quilômetros até lá.

    O baterista continuava perturbando diariamente, em atitudes cada vez mais desesperadas para me ter de volta. Ele não queria o carro ou qualquer outra coisa, era só mais um imbecil pensando que podia ser meu dono. Sinto muito por ele e todos e todas as outras miseráveis que pensaram assim um dia. Bardo já tinha bloqueado ele e cortado relações e ficava aborrecido quando eu ficava triste com as investidas. Resolveu pregar uma peça. Mariana, nossa anfitriã, estava de aniversário dois dias depois dele. Então ele abriu uma live e disse que estava pegando a estrada e estava indo encontrar uma pessoa. Mas falou em um tom que não dava para saber se era uma coisa boa ou uma ameaça. Quando chegamos no interior ele desceu do carro, no escuro, abriu o porta malas e mostrou uma chave de roda. Dizendo que tinha chegado e estava vendo a pessoa que procurava, em um tom meio sinistro, saiu correndo com a câmera na mão. A ideia era o baterista pensar que ele estava indo acertar as contas, mas ele pegou Mariana de surpresa no bar e deu um beijo nela. Espero mesmo que ele tenha achado que era para ele e se borrado todo. Nunca vou saber.

    Mariana ficou muito feliz com a visita surpresa, mas não gostou muito de saber que queríamos a moça da tatuagem. Bardo levou ela para o quarto para acabar com o descontentamento. Ouvi risadas, eles conversando alto e imaginei se estariam transando. Quando vi, estavam ao vivo no Facebook. E estavam transando! As redes sociais ainda não tinham tantos filtros na época e eles estavam se mostrando só da cintura para cima. Bardo deitado, falando sobre amor livre e ela sentando nele. Hilário! Imagina uma coisa dessas hoje em dia, nas nossas queridas redes “family friendly.”

    Com nossa anfitriã devidamente pacificada e pingando porra, fomos atrás da nossa moça da tatuagem. Ela ficou muito feliz ao nos ver e voamos direto para o motel, sem cerimônias. A saudade já era imensa e Bardo ganhou seu presente de aniversário como merecia. Eu amei! Por mais presentes assim para meu melhor amigo!

    Entramos no motel aos beijos, os três se agarrando como se quisessem se tornar um corpo só. Eu arrancando a roupa dela, ela arrancando as roupas dos dois. Dessa vez Bardo tinha a preferência, então jogamos ele na cama e deliciamos ele com um boquete das duas, bem molhado e demorado, lambendo bem as bolas, o cuzinho, revezando as duas bocas na mamada até ele ter vertigens. Beijei a boca dela, com aquele gosto de pau de quem ficou meia hora mamando. Ela montou no Bardo e começou a sentar com vontade. Fiquei de pé e encaixei minha buceta na boca dela, que bebia meus squirts em sonoros goles, gemendo abafado.

    Dali fomos a todas as posições possíveis e imagináveis. Bardo fez um pedido especial. Queria gozar em todos os buracos dela. Voltamos a mamar juntas e logo ele explodiu na boca dela, que fez questão de engolir tudo e me dar um beijo bem gostoso na boca. Sem perder a compostura, Bardo já colocou ela de quatro e, enquanto ela me chupava de arrancar suco, gozou gostoso e encheu a buceta. Pulei nela e fiquei lambendo a porra da virilha enquanto ele foi tomar um banho.

    Ficamos as duas ali trocando carícias. Já era quase de manhã e imaginei que ele não ia conseguir dar uma terceira, mas ele voltou do chuveiro já de pau duro e subiu na cama faminto sobre nós duas. Nos beijamos e acariciamos e ele virou ela de ladinho, de costas para ele. Fui para a frente dela e fiquei beijando ela na boca, com muito carinho, enquanto ele colocava no cuzinho. Ela gemia baixinho e me agarrava com força. Ele demorou um pouco até que ouvi o gemido e vi a mão dele agarrando a cintura dela com força. Pronto. Todos os buracos preenchidos com porra. Presente especial concedido.

    Ficamos mais um dia para o aniversário da Mariana mas, quando vimos ela preparando a festa, achamos melhor ir. Era uma turma esquisita e a lista de drogas ia além do que já tínhamos presenciado. Cada uma que se divirta como convém, esse tipo de festa não me serve. Fomos até a casa da moça da tatuagem e nos despedimos, com um ar de final de filme. Falamos em nos ver de novo, contei para ela sobre o Zé e que queria transar com os dois ao mesmo tempo. Ela ficou interessada. Nos beijamos demoradamente e pegamos a estrada de volta para Floripa.

    No meio do caminho Bardo recebeu uma mensagem. Em uma cidade ao norte um grupo de pessoas queriam nos ouvir falar sobre o amor livre! Mudamos nossa rota e voamos para lá. Fomos recebidos por um casal muito peculiar. Eles eram – segundo o que nos contaram – alguns dos fundadores da Marcha da Maconha no Brasil e queriam promover todo o tipo de ideia ligada à liberdade. Nos hospedaram no apartamento deles e organizaram uma palestra no museu. Chegamos lá e vimos um grupo considerável de pessoas ávidas por ouvir nossas experiências. Foi lindo. Fizeram muitas perguntas e trocamos contato com todo mundo.

    O casal que nos recebeu tinha uma namoradinha muito mais jovem que eles e ela ficou o tempo todo atrás do Bardo no apartamento enchendo ele de perguntas. Infelizmente as pessoas ainda levam muita coisa ruim para seus relacionamentos e o problema deles era a velha e péssima hierarquia. Essa é a principal razão pela qual muita gente não namora com casais que estão há muito tempo juntos e já tem uma mecânica de um mandar na vida do outro. A menina estava descontente com isso e conversando com o Bardo acabou decidindo por não ficar mais com o casal. Eles ficaram enfurecidos e nos pediram para ir embora.

    Era final da tarde e não tínhamos para onde ir, mas tínhamos o contato de todo mundo na cidade. Fomos tocar em um evento de rua que estava acontecendo, fizemos um bom dinheiro e encontramos a turma toda lá. Entre eles estava o Francis, um texano radicado no Brasil, com um português muito torto, que fez questão de nos levar para a casa dele. Era um sobrado de madeira no meio do mato, perto de várias cachoeiras deliciosas! E ele era um gostosão! Eu tenho – como muitas mulheres – esse tesão em cowboy de cinema e aquele sotaque dele me deixava toda molhada.

    Fomos convidados para tocar em um bar naquela noite e aceitamos. O bar estava lotado, muita gente bonita, e fizemos um espetáculo de arrasar. Terminado o show fomos guardar os equipamentos no carro e uma mulher se aproximou, perguntando se éramos o casal que tinha falado de amor livre na TV. Confirmamos e ela disse que morria de tesão em nós dois. Bardo puxou ela e a beijou. Beijei também. Gostosa! Convidamos ela para ir para um motel. Ela topou na hora. Quem me dera minha vida fosse assim todos os dias!

    Bardo dirigindo e ela e eu no banco de trás aos beijos e amassos. Ela arrancou minha blusa e chupou meus seios suados. Chegamos no motel já nuas e fomos direto para o chuveiro. Bardo colocou ela de pé contra a parede e meteu na buceta sem dó enquanto eu, ajoelhada, chupava o clitóris. Ela gritava e ficava repetindo que não acreditava no que estava acontecendo ali. Fomos para a cama e ela me chupou gostoso enquanto Bardo fodia ela de quatro, forte e rápido. Gozei na boca delas algumas vezes.

    Voltamos para o bar. A moça se despediu, zonza, ainda sem acreditar na foda gostosa que tinha acabado de levar. Nossos novos amigos nos perguntavam onde tínhamos ido e eu só respondia com um sorriso. Francis ficou ao meu redor, batendo papo e competindo com os outros rapazes e Bardo estava conversando com uma moça linda. De repente ele dá uma olhada para o outro lado do bar. Aquele olhar era raro. Ele viu alguma coisa que tomou totalmente a atenção dele e saiu em uma linha reta, passando quase por cima do povo que estava por ali. Continuei no meu papo por ali, sem ver para onde ele foi, e recebi uma mensagem mais tarde: – não me espere.

    Fui embora com o Francis. Estava ainda quente da brincadeira do motel e bem afim de meter com ele. Fomos para a cabana e nos pegamos. Ele era muito forte, definido, todo durinho. Na verdade nem faz muito meu tipo, mas aquele sotaque gringo estava me matando. E que energia! Metemos a noite todinha, pegada forte, sem parar. Ele gozou três vezes e eu perdi a conta dos meus orgasmos. Que delícia!

    No dia seguinte, estávamos organizados para gravar o clipe de Chifres São Coisas da Tua Cabeça. Íamos aproveitar um encontro LGBT que estava acontecendo no museu e promover um beijaço. Levamos conosco um maluco, pintor, que ia nos fazer uma pintura corporal durante o clipe. Uma outra parte seria filmada depois, em uma cachoeira. Todos os nossos novos amigos estavam lá. Bardo chegou de mãos dadas com uma mulher gorda. Foi ela que ele viu na noite anterior? Ele flutuava, parece que a noite foi boa!

    Colocamos uma lona na grama e, com os amigos ao redor, fomos pintados. Depois chamamos os amigos para brincarem com as tintas também. Chamamos a atenção de todos ao redor e convidamos para o beijaço. Ninguém quis vir. LGBT hoje, para mim, significa a liberdade de ter as mesmas relações ruins – com pessoas do mesmo sexo. Talvez o B – meu caso – se salve dessa equação por gostar de ambos os sexos. Nossa turma foi o suficiente e os beijos rolaram mesmo assim, sob olhares julgadores de casais gays.

    Etapa concluída, fomos todos para a cachoeira perto da casa do Francis para lavar a tinta. Foi uma festa! Bardo e a moça gorda aos beijos, mas ele já estava interessado em outra moça, uma vegana, com quem tinha bebido uma cerveja no outro dia e tinha uma bunda sensacional. De lá fomos para a cabana. Francis e eu fomos para o chuveiro e ficamos nos chupando por lá. Sem trancar a porta, fomos surpreendidos por uma das mulheres, que já quis entrar na brincadeira e logo éramos uma turma no quarto. Com apenas um colchão de solteiro no chão, ficamos todos embolados, todo mundo se chupando, uma delícia. Francis me colocou com as pernas abertas e me socava forte, o som da pele na pele ressoando pelo quarto. Bardo ganhava um boquete de duas e me olhava, sorrindo. Era isso que viemos buscar e, se tudo desse certo, íamos conectar essas pessoas com as do interior, com as de Porto Alegre, com as do país inteiro. Amor livre, leve, solto, orgasmos sem fim. Algo muito maior do que ele, do que eu, do que tudo.

    Bardo saiu de lá com quatro mulheres no carro, indo deixar elas em casa e ia passar a noite na casa da vegana. A gordinha estava super tranquila, era uma mulher muito gentil, adorei ela. Fiquei lá com o Francis. Nem nos vestimos para jantar. Comemos alguma coisa rápida e seguimos na nossa maratona metendo a noite toda. Ele era incansável e eu amei!

    Cada movimentação nossa no Facebook chamava a ira do nosso ex-baterista. Ele ligou dizendo que queria a imediata devolução do carro e que se não acontecesse ia fazer uma ocorrência de roubo. Olhei minha conta no banco. Tinha mais ou menos cinco mil reais. Fui para o aplicativo de compra e venda e encontrei uma Kombi 95 por esse valor. Voamos para outra cidade para ver. Era uma Kombi marrom, toda machucada, que entregava empadas na praia. O dono disse que ela era muito boa e que só estava se desfazendo porque a mulher dele, grávida, não gostava do carro e queria outro. Contamos nossa situação e tentamos negociar o preço, mas ele não podia baixar. E eu não podia ficar sem dinheiro. Então ele aceitou pagarmos quatro mil e mais duzentos e cinquenta por semana a partir dali. Fechamos o negócio e saímos de lá com ela.

    Agora tínhamos uma dívida e precisávamos levantar esse dinheiro sem falta alguma. Voltamos para a cidade dos nossos amigos e lá tocamos em todos os bares e calçadas possíveis até pagarmos tudo. A doblô deixamos em um estacionamento pago – escolhi a diária mais cara possível – para que o baterista viesse buscar. Finalmente estava desligada dele e agora conhecia todos os sinais de uma pessoa incapaz de amar livre.

    Eu sei o quanto pode ser difícil para as pessoas desamarrar o amor da relação de poder. Crescemos em famílias hierárquicas, escolas hierárquicas, religiões hierárquicas. Sempre tem o bonzão, o manda-chuva, o sabe tudo, o que todo mundo confia e do outro lado os fracos, os covardes, os que preferem deixar as soluções na mão de alguma autoridade. Nada mais natural do que levar isso também para as relações de amor e amizade. Infelizmente isso dá espaço para que as pessoas tomem conta da vida das outras, medindo e pesando seus atos e transformando o tempo, a atenção e o carinho em valores negociáveis, moeda de troca.

    Conheci muitos casais onde a esposa conseguia o que queria do marido fazendo greve de sexo. Ou o marido conseguia da esposa cortando o cartão de crédito. Outros eram mais sutis, manipulando de uma forma ou outra. Não existia nenhuma relação de respeito livre, mas de poder e hierarquia. Isso pode servir à muita gente, mas não me serve de forma alguma e qualquer pessoa que tente algo parecido comigo só vai ganhar distância.

    Passamos um mês maravilhoso. Eu hospedada na cabana e Bardo indo e vindo entre a cabana, o apartamento da moça gorda e a casa da vegana. Ele estava apaixonado pelas duas e feliz por elas estarem numa boa com o triângulo. Entre um show e outro eu saía com o Francis para pedalar pelas estradas de chão e tomar banho nua nos rios e cachoeiras ao redor. Sempre encontrávamos um cantinho para dar uma chupada ou uma metida gostosa no meio do mato. E eu adorava quando o Bardo estava por lá. Voltava do passeio, passava os dedos na buceta fodida e passava no nariz dele, só de sacanagem. Ele me olhava com aquela cara de safado e me arrastava para algum canto para me dar uma comida rápida. Às vezes Francis nos pegava nessa brincadeira e acabava participando. Tenho um video disso, aliás.

    A Kombi finalmente estava paga e podíamos seguir nosso caminho em busca de novos amores para os nossos amores. Era hora de batizar nossa nova casa: ela vai se chamar Elvira – inspirada no filme dos anos 80 sobre uma mulher livre e incrível! Estou livre e pronta para espalhar o amor pelo mundo todo!

  • Capítulo 6 – Clube do Amor

    – Fica mais um dia –  ela dizia. Aos poucos começamos a buscar nossas roupas, os instrumentos musicais e os brinquedos das meninas. Quando vimos passou um mês. Eu acordava e olhava para o lado. Via o Bardo dormindo tranquilo. Virava a cabeça imaginando que aquilo tudo ia se desfazer diante dos meus olhos, mas ela ainda estava ali. Os seios subindo e descendo com a respiração.

    Passava meus dedos pelo corpo dela e via a pele arrepiando. Ela acordava e sorria. Eu enfiava meus dedos na buceta. Ela gemia. Bardo acordava e metia na minha bunda e isso se tornou um ritual matinal. Todas as manhãs, algumas tardes, todas as noites. Era um ménage permanente.

    Foi em uma dessas fodinhas matinais que eu fui ao banheiro e, quando voltei, Bardo estava pincelando a bucetinha dela no pelo. Ela estava encharcada e gemia alto. Fiquei olhando ela escorrer suco pelas coxas. Bardo só comia ela usando preservativo e aquilo estava deixando ela louca. Ele encaixou a cabecinha e começou a empurrar devagarinho, mas ela saiu e disse que ainda não era hora.

    Ela ficou obcecada com aquilo o dia todo. Falava comigo sem parar, como quem quer se certificar de que estava tudo bem para mim. Garanti para ela que ela podia curtir ele como quisesse, que não era da minha alçada me importar ou não. Ninguém entende isso. Enfim ela se convenceu e, quando a noite chegou, ela quis dar para ele no pelo.

    Saímos para um bar. Bebemos Tequila e dançamos. Bardo fazia sucesso entre os homens que chamavam ele e perguntavam se era algum tipo de milionário ou algo assim. Ele ria, se divertia dançando, beijando as duas e se exibindo para todo mundo. Eu dançava com os olhos fechados. Sentia o cheiro do perfume dela. Na minha cabeça eu via só uma imagem: a buceta dela escorrendo a porra do Bardo.

    Eu queria muito ver aquilo. Estava só curtindo o momento mesmo, tinha passado o dia todo me masturbando mentalmente pra tirar o máximo disso. Dançando, uma paz tomou conta de mim e, de repente, um fogo intenso. Eu não só queria ver ele explodir dentro dela, eu queria ver agora.

    Sem falar nada peguei os dois pela mão e joguei dentro do carro. Voamos para casa. Eu dirigindo e os dois já aos amassos no banco de trás. Ele arrancando a blusa dela e chupando aqueles seios deliciosos. Eu podia sentir o cheiro do pau dele, da buceta dela, dos dois um molhando o outro, tomando conta do carro todo. Pisava fundo, voava pelas ruas. Eu quero ele fodendo ela e eu quero já.

    Entramos em casa. Os dois seminus, se beijando e rindo. Senti uma gota de tesão escorrer na minha perna. Subimos as escadas para o quarto aos tropeços, eu enfiando dois dedos na buceta dela, preparando o caminho para ele. Chegamos na cama nus. A tequila ainda fazia efeito e tudo brilhava. Nos beijamos e nos amassamos e eu fui colocando ela deitada com as pernas bem abertas. Ele se posicionou, de joelhos, de frente pra ela. A buceta encharcada, o pau entumecido. Minhas mãos tremiam, minhas pernas tremiam, meus lábios tremiam. 

    O pau dele a poucos centímetros da buceta dela, pronto para enterrar até o talo no pelo e encher ela de leite. Lambi a buceta dela. Babei toda. Queria ela o mais encharcada possível para que ele escorregasse com delicadeza até a cabeça bater no útero. Chupei o pau dele. Babei todo. Queria ele duro, firme, pra socar ela sentindo o calor de dentro da buceta, sem camisinha para atrapalhar, pelo no pelo até explodir.

    Com os dois devidamente prontos peguei o pau dele e aproximei. A cabecinha tocou na buceta e os dois gemeram. Não saberia dizer qual dos três estava mais excitado com aquilo. Ele entrou. Deslizou para dentro. Cada centímetro que entrava, lentamente, me dava um pequeno orgasmo. Foi escorregando até que bateu no fundo. Ela gozou imediatamente, mas eu esperava por um outro momento.

    Quando ele puxou pra fora eu entrei em nirvana. Eu via o pau dele saindo da buceta dela puxando o suco dela pra fora. Com os dedos dela atolados na minha buceta, gozei. Ele ficou acariciando meus seios enquanto eu me contorcia na cama. Ele tirou o pau dela e ficou esperando. Estávamos nos torturando o dia todo e sabíamos disso. Não me aguentei em ver o caralho dele todo melado da buceta dela, o gosto dela lá dentro, lá no fundo, esperando para ser saboreado até as bolas.

    Chupei. Lambi ele todo. Ela gritava pedindo ele de volta lá dentro mas eu não conseguia tirar da boca. Que sabor era aquele? O gosto do pau dele com o gosto do útero dela. Eu nunca vou esquecer. Como um chiclete, sorvi até perder o sabor e enterrei dentro dela de novo. Mais uma vez ela gozou na primeira metida. 

    Mas agora era a vez dele e, sem dó, ele montou nela e começou a socar. Enfiei um dedo no cuzinho dela enquanto beijava ela na boca. Ela chorava, gemia e gozava uma atrás da outra. Olhei nos olhos do Bardo. Ele estava em transe. Metia e gritava. Acariciei o braço dele devagar para chamar a atenção sem tirar ele do sentimento. Quando ele finalmente fixou nos meus olhos eu falei: me avisa quando for gozar.

    Ele tremeu e eu percebi que girei uma chave. – Agora –  ele disse.

    Pulei para trás dele e coloquei as bolas dentro da minha boca. Ele gritou de prazer e começou a explodir dentro dela. Eu sentia cada pulsação dele na minha língua, como se a porra voasse da minha boca para a buceta dela. Ele tirou o pau de dentro e vi o leite escorrendo para fora. Senti alguma coisa muito animal, como uma relação de poder, como se ela fosse maior que eu por estar com a porra dele ali, dentro dela.

    Voei nele e montei em cima. Não parei até que ele me enchesse também. Cheia de porra e satisfeita, me deitei ao lado dela e fiquei brincando com a porra dele na buceta dela. Agora estamos quites.

    Na manhã seguinte a cabeça girava com a ressaca da Tequila. Bardo tinha saído para velejar com o Lu. Os dois andavam juntos o tempo todo, como uma dupla dinâmica, trocando profundas ideias filosóficas, fazendo churrasco e tocando violão. Eles fundaram uma confraria e se encontravam o tempo todo com outros músicos em uma bagunça gostosa. Aproveitava para cantar, já que não precisava mais trabalhar.

    Não pensava mais em dinheiro. Ela não me deixava pensar. Me levava no shopping e me enchia de roupas. Me fez escolher um carro novo. As meninas ganharam um quarto lindo, roupas e brinquedos. Bardo virou o monstro do porão: ganhou um estúdio de gravação, instrumentos musicais e uma geladeira de cerveja artesanal sendo reabastecida diariamente.

    Eu passava os dias com ela batendo papo. Ela me contava as histórias tristes dos vários casamentos anteriores e se arrependia de não ter nos conhecido antes, lamentava não saber que era possível viver assim. Às vezes, no meio da tarde, ela me levava passear e íamos para um motel, ficar na banheira de hidromassagem e transar só nós duas por horas.

    Fui a bons restaurantes, viajamos para a praia. Estava curtindo muito e me sentindo bem. Não era o meu trabalho que pagava por aquilo e sim minha coragem de viver, minha libido e meu enorme tesão por aquela mulher.

    Bardo e ela se aproximavam cada vez mais. No início ele passava o dia no estúdio e aparecia só para ser usado como nosso brinquedo. Com o tempo ele aparecia para os papos e os motéis do meio da tarde. A amizade deles cresceu e se entendiam muito bem. Achava aquilo ótimo. Nós três juntos era maravilhoso.

    Naquela noite já estávamos metendo por muitas horas, devia ser madrugada. Bardo foi para trás dela, de ladinho, e meteu. Ela deu um pulo. Ficou possuída. Parecia que ele tinha errado o buraco. Não tinha visto ela irritada ainda e não foi uma coisa legal. Ele foi dormir no sofá e ela e eu fomos dormir sem conversar sobre aquilo.

    Bardo se escondeu no porão o dia todo. Fui falando para ela que pode ser muito gostoso levar no cuzinho, que se o cara sabe fazer é bom. Ela me contava sobre como tinha doído quando tentou e como os caras tinham sido brutos com ela. E eu contava de todas as vezes que enchi meu rabo de porra e gozei deliciosamente. Aos poucos ela foi ficando interessada. Uma das coisas que amo no pau do Bardo é que ele é grande o suficiente pra buceta e pequeno o suficiente para o cuzinho.

    Saímos e fomos para a farmácia comprar lubrificante íntimo. Bardo, no porão, achava que estava de castigo e nem imaginava o que eu estava arrumando para ele. Quando a noite chegou ela já estava toda animada. Subimos as duas para a cama e chupei ela até ela gozar na minha boca. Devagarinho, ia passando a língua no cuzinho e soltando. Quando senti que o rabinho dela começou a pulsar, fui colocando o dedo e fazendo ela relaxar. Chupava a buceta e empurrava meu dedo empapado de lubrificante para dentro dela.

    Bardo entrou no quarto e paralisou: ela estava deitada com as pernas arregaçadas, a buceta escorria suco e meu dedo estava todo atolado no cuzinho dela. Dei uma risada solta. Ela viu que ele estava no quarto e quase arrancou meu dedo fora com a apertada que deu no cu. Bardo não perdeu tempo: foi arrancando a roupa e pulou em cima dela. Beijando e apertando os seios enquanto ela relaxava de novo e soltava meu dedo. Com os dois a masturbando, logo o cuzinho estava solto e comecei a socar o dedo de leve. Olhei nos olhos dela e perguntei se estava pronta. – Não sei – ela disse.

    Bardo virou ela de ladinho, dei uma chupada no pau dele e melei de lubrificante. Ele encostou a cabecinha e começou a empurrar. Nunca tinha visto um cuzinho ceder daquela maneira. Parecia outra buceta. O pau dele deslizou fácil até o fundo e quando atolou ela berrou de prazer, gozando e jorrando squirts na minha cara. Bardo comeu o cuzinho dela bem gostoso. Eu estava louca para ver ele gozando dentro dela, o pau pulsando e enchendo o rabinho de porra.

    Os dois deitaram na cama, rindo. Bardo suspirava e sorriu para mim enquanto eu pegava o lubrificante e passava no meu cu. Era minha vez.

    Ela andava comigo pelos cantos, sempre me beijando e me dedando, mas com o Bardo só transava junto comigo. Naquela tarde, Bardo me encontrou no corredor e disse que ela tinha chamado ele para o quarto, sozinho. Ela não tinha comentado nada comigo sobre isso e imaginei que finalmente tinha entendido que não éramos um casal e que podia ter feito isso há tempos.

    Ele subiu as escadas e eu fiquei numa boa tocando piano. De repente, senti um comichão. Me molhei imaginando ele comendo ela sozinho no quarto. Como será que ela ia dar para ele? Bem puta, de quatro, ou bem amorzinho em um papai e mamãe com beijos na boca? Tremi. Quando me dei por conta já estava na porta do quarto, doida para espiar.

    Bardo me conhece tão bem que deixou a porta só encostada. Empurrei bem de leve com o dedo e ela se abriu em uma fresta. Espiei. Ele fodia ela de quatro, bem cadela, gemendo e rebolando. Ele me viu e sorriu – já sabia que eu ia lá espiar. Enfiei a mão na calcinha e fiquei quietinha me masturbando assistindo os dois. Aquilo ia virar um esporte nos próximos dias. Pegava os dois o tempo todo: no banheiro, no chuveiro, na garagem e no porão. Às vezes só espiava até gozar e às vezes não me aguentava e ia para cima dos dois.

    Naquela tarde eles estavam no closet do quarto. Ela de pé escorada em um armário e ele metendo por trás. Fiquei atrás da porta ouvindo os gemidos e a batida da virilha dele na bunda dela. Então ela pediu no cu. De repente, fui tomada de uma luxúria incontrolável. Irrompi para dentro do closet, tirei o Bardo de dentro da buceta e enfiei a língua entre as nádegas. Lambi bem, babei tudo, e mandei ele atolar e socar o rabo dela. Eu gritava para ele socar ela no cu, para encher a puta de porra. Estava descontrolada. Não sei até hoje o que me deu, mas fiz ele levantar ela do chão, metendo forte e gozando nela.

    ***

    Completamos três meses juntos. Entrei no quarto e ela estava com uma cara muito triste, sentada na cama, sozinha. Perguntei o que estava acontecendo e ela disse que nenhuma relação dela ficava boa depois do terceiro mês, que a mãe dela tinha dito que nada dura mais que isso. Disse que ela estava sendo boba e que com a gente ia ser o paraíso para o resto da vida, desde que sempre fôssemos gentis e carinhosos uns com os outros e nunca deixássemos de transar todos os dias.

    Mas não adiantou muito. Ela começou a esfriar, a ficar mais distante de mim. Não mudou com o Bardo. Depois de mais algumas semanas começou a negar sexo para mim. Parecia que não ia muito longe. Começamos a nos desentender e ela deixou de ser gentil e carinhosa comigo. Os mimos ficavam todos para o Bardo e para as crianças. Ela dava a impressão de querer me excluir da equação.

    Por mim, tudo bem. Enquanto estivéssemos ali, seguros e alimentados, eu podia ficar numa boa com meus outros namorados e namoradas. Mas ela pegou no meu pé. Pediu para fecharmos a relação em só nós três. Bardo não viu mal nisso mas eu não estava bem atendida. Fui ficando bastante triste. O sexo com ela, quando acontecia, já não era mais tudo aquilo e depois de mais um tempo até o Bardo começou a sofrer.

    O que acontecia é que íamos para a cama, os três. Era comum metermos as duas e Bardo entrar só com o pau na hora certa. Isso mudou. Agora ela ia para cima dele e fazia questão que ele gozasse dentro dela. Eu ficava naquela sensação esquisita e fazia questão que ele gozasse dentro de mim também. Quando ele terminava de me comer ela já tinha se recuperado e queria mais. E quando ele terminava com ela eu queria mais também. Em algum momento, lá pelas três horas da manhã, Bardo pedia licença, descia as escadas se arrastando e cozinhava um prato de macarrão com bacon e queijo. 

    Nos dias seguintes ele subia a escada com seis latas de energético e algumas barras de cereal. Começou a perder peso, mas não reclamava e cumpria a missão todos os dias. Ela ainda queria o café da manhã e procurava ele no meio da tarde, mas não era mais divertido encontrar os dois fodendo pelos cantos. E eu procurava ele também. 

    Chegou uma hora que ele não aguentou mais e pediu para que abríssemos a relação de novo. Ele podia chamar alguns amigos para ajudar, era demais para ele. Ele já andava se escondendo pela casa durante o dia ou saía de manhã e voltava tarde da noite. E eu sabia para onde ele ia: para nossa casa. E ia lá atrás dele, transar no mato.

    A situação foi ficando insustentável. Ela e eu começamos a bater boca por bobagem quase todos os dias. Bardo, com seu livrinho de Comunicação Não Violenta debaixo do sovaco, tentava mediar mas já não tinha mais jeito. Ela não só não me queria mais, ela queria o Bardo só para ela.

    Quando completamos oito meses resolvi pegar minhas filhas e voltar para casa. Eu sabia que ia voltar para a vida dura de pobreza mas preferia estar assim do que viver brigando. E eu estava seca de vontade de transar com mais alguém. Liguei para o casal gay da festa das tribos e contei como se sentia. Eles deram uma pequena festa na cobertura deles e chamaram os amigos mais queridos.

    Aquele ar de traição da minha adolescência voltou, me senti cheia de tesão, mas nem queria transar mesmo, estava exausta de meter, só queria ver gente nua, beijar na boca, chupar um pau diferente um pouco. Chegamos lá e encontramos um grupo pequeno, cerca de vinte pessoas. Pequeno, sim, perto das centenas de pessoas que eles costumavam chamar para suas festas. Bardo logo se encontrou com uma índia que, até hoje, diz que foi a mulher mais gostosa da vida dele. Se jogaram em um colchão no chão e eu via os olhos dele virando enquanto ela chupava ele. Aquelas chupadas molhadas de meter o pau até a garganta e engasgar. Ele alisava ela, passava as mãos nos cabelos lisos e negros, a pele de índia, quente e gostosa.

    Logo me vi sentada em uma cadeira, nua, me masturbando e assistindo aquele prazer todo no corpo dos dois. Foi muito bom ver o Bardo comendo outra mulher para variar. Sem que eu percebesse, fui cercada pela festa e quando vi mais seis caras estavam batendo punheta ao meu redor enquanto eu me masturbava. Foi uma visão bonita, era o que eu estava precisando.

    Um deles se aproximou de mim e eu, sem perguntar nome ou qualquer cerimônia, coloquei o pau dele na minha boca. Foi como uma bala de caramelo derretendo. Não fazia ideia de como eu estava com saudades de chupar outro caralho. Mamei com vontade, punhetei, lambi as bolas e subi com a língua até a cabeça só pra engolir tudo de novo. Os outros caras ficaram excitados e logo outros paus estavam próximos da minha boca.

    Confesso. Eu tinha nojo de gang bang, achava aquelas mulheres sujas metendo com um monte de desconhecidos ao mesmo tempo. Mas naquele dia eu estava cansada da mesma coisa e com um pouco de raiva daquela mulher que estava me limitando.

    Foda-se.

    Puxei outro cara e comecei a mamar os dois. Logo estava mamando três e comecei a gostar da brincadeira. Fui puxando mais um, mais outro e quando dei por mim estava ajoelhada com seis caralhos na minha cara. Um na boca, um em cada mão e olhando pro próximo que eu queria chupar. Minha boca estava molhada e frenética e eu não sabia quem mamar mais. Bardo continuava fodendo a índia – o marido dela era um dos que eu mamava – e olhava para mim animado com a cena, logo eu, que sempre disse que nunca ia fazer isso.

    Alguém me pegou pela cintura e me colocou de quatro. Senti um pau entrar gostoso na minha buceta que já escorria suco pelas pernas e pingava pelo chão. Continuei mamando dois ou três e eles se revezavam na minha boca e na minha buceta. Vi a tarde ir embora enquanto eles metiam sem que eu olhasse para trás pra ver quem era.

    Dois me chamaram a atenção, apenas. Um foi um pau mais grosso que entrou e eu senti me preencher toda. Quando ele saiu e veio pra minha boca percebi que era um japonês. Não era pra ser pequeno? Outro foi um enfermeiro que tinha um pau delicioso de chupar e quando ele entrou no meu rabo eu gemi muito gostoso. Era noite quando eu saí do transe. Bardo, exausto, abraçado na índia e sentado em um sofá, assistia o espetáculo. Todos meteram minha bucetinha e gozaram gostoso e quando acabou eu senti que ainda tinha fogo.

    Dei uma volta, dei uma beijo no Bardo e na índia, tomei um banho de piscina. Todo mundo bebendo e dançando e minha buceta ainda pegando fogo. Bati o olho na pista e vi o enfermeiro. Peguei ele pela mão e levei de volta pra cama. Ele não acreditava que eu ainda tinha gás. Joguei ele lá e cavalguei, sentei com força naquele caralho gostoso, gemi e banhei ele de squirt. Agora sim, satisfeita, voltei para a pista para dançar e curtir. Me sentia mais leve, tranquila e mais eu mesma.

    Não sentia vontade de voltar para ela mais.

    ***

    Bardo deu uma surtada. Ele encontrou um documentário de quatorze horas que explicava cada aspecto da vida humana e como éramos escravizados por nossas ideias mais queridas. Achei meio teoria da conspiração quando ele me disse mas, assistindo, chorei muito. Nós dois sempre tivemos essa ideia de que algo estava muito errado e esse filme dissecava tudo o que sempre conversamos a respeito.

    Ele começou a se envolver com um pessoal da permacultura que acreditava poder viver uma vida alternativa e, por conta disso, precisava ficar uma semana no meio do mato e a nossa namorada, que ia bancar a loucura, resolveu que ia junto – mas eu não.

    Inicialmente fiquei irritada, mas logo vi uma oportunidade de dar um tempo dela e curtir um pouco uns dias longe. Não queria ficar longe do Bardo, isso nunca tinha acontecido antes, mas talvez fosse bom. Peguei minhas coisas, minhas filhas e voltei para minha casa, mesmo sem ter dinheiro para nada. As avós estavam com saudades das meninas e deixei elas passarem uns dias por lá. Queria pensar na vida, no que eu ia fazer. E claro que sozinha mesmo eu não ia ficar. Sem sexo? Nem pensar.

    Peguei minha lista de contatos e comecei a dar uma olhada. Liguei para meus amigos e marquei uma foda diferente por dia. Porém, uns dias antes, acabei fazendo um show e fiquei interessada no baixista da outra banda. Desmarquei minha primeira foda e chamei ele. Era um cara bonitão, mais velho, voz grave, do jeito que eu gosto. Não demoramos muito no papo e no vinho e fomos aos beijos.

    Sozinha em casa, aproveitei. Joguei um colchão no meio do jardim, deitei nua sob a luz da lua, abri bem minhas pernas e mandei ele mostrar tudo o que podia fazer com a língua. Ele começou me beijando devagar, o corpo dele pressionando o meu, e logo foi descendo pelo meu pescoço, me arrepiando toda. Se demorou nos meus seios e foi descendo pela minha barriga, me beijando.

    Começou a lamber e beijar minha virilha e minhas coxas, devagar e sempre me fazendo arrepiar. Quando ele finalmente chegou lá, minha buceta era só suco. Escorria com gosto e eu sentia cada gota quente descendo pelo meu cuzinho. Ele então foi lambendo ao redor, chupando e mordiscando de leve, explorando cada milímetro de mim com paciência. Eu estava amando aquilo, mas minha buceta já estava pulsando demais, pedindo pau.

    Mesmo assim, deixei ele demorar. Ele enfiava a língua lá dentro e então subia até meu clitóris fazendo movimentos circulares. Uma delícia. Eu gemia alto, sem me preocupar com aquela vizinha que gostava de espiar pela janela. Quando vi que era hora, comecei a alisar o pau dele. Estava um tijolo. E era de um bom tamanho. Não aguentava mais de tesão, queria ele dentro de mim, mas também me deu vontade de dar uma chupada.

    Pulei pra cima dele, arranquei a cueca e coloquei ele logo todo na boca, sem cerimônia. Muito gostoso, como eu tinha imaginado. Minha buceta não aguentava mais e tive que pedir pra ele colocar uma camisinha: era hora de me foder com vontade. Ele me obedeceu e eu voltei a me deitar e abrir as pernas, oferecendo minha buceta encharcada e iluminada pela lua pra ele meter.

    O pau dele escorregou macio e quentinho pra dentro de mim. Caralho, que tesão. Adoro uma chupada demorada e um pau bem duro logo depois. Agarrei ele contra mim e fiquei sentindo ele entrando e saindo da minha buceta. Ele gemia no meu ouvido, eu gemia no dele e ficamos ali, um corpo só, metendo gostoso. Óbvio que lembrei do Bardo, que devia estar comendo aquela idiota em algum lugar e pensando em mim também. Queria que ele estivesse me vendo ali.

    Depois de me comer gostoso por muito tempo naquele papai-e-mamãe ele me colocou de quatro, segurou minha cintura e aí sim começou a me socar. Eu não estava nem aí pra quem ia ouvir: gritava e gemia alto, bem gostoso. Mandava ele me socar, mandava ele foder minha buceta com tesão. O pau dele estava uma delícia dentro de mim dando estocadas no meu útero. Gozei muito. A cama ficou toda molhada de squirt.

    Amei aquela noite. Combinei com ele de repetir no dia seguinte, mas na outra manhã aconteceu uma coisa mágica. Lembra do meu primeiro namoradinho, o pauzudo que comeu meu cuzinho na frente do diretor? Encontrei ele no Facebook e, por acaso, ele estava vindo para Porto Alegre fazer um curso. Ofereci minha casa para ele se hospedar. Desmarquei com o baixista e com a minha foda do segundo dia. Hoje vai ser dia de relembrar.

    É óbvio que eu estava louca pra saber como ele estava, se ainda era aquele moleque que me comia gostoso e, claro, se eu ia aguentar dar meu cuzinho pra ele de novo. Fui buscar ele no aeroporto e levei ele para minha casa. Não conversamos nada de mais no Facebook, foi bem formal, mas eu sabia que ele estava pensando o mesmo que eu.

    Quando ele entrou na sala e largou a mala no sofá eu não esperei o papo começar: pulei nele e dei um beijo na boca. Ele ficou espantado, disse que não esperava por aquilo. Não quis saber: ajoelhei, abri o zíper da calça dele e puxei para fora. Que saudades. Atolei tudo o que eu pude na boca e mamei como quem não mamava a anos. Lambi, chupei e punhetei até ele gozar na minha boca.

    Aí sim, recebi ele e ofereci um café.

    Batemos um papo, contamos sobre nossas vidas, mas eu não estava muito interessada. Eu queria era logo ele comendo minha buceta e já pulei pra cima. Ele estava meio apavorado, meio defensivo, mas eu não liguei. Arranquei a roupa dele, joguei ele no colchão que eu tinha metido na noite anterior – ainda estava úmido de squirt – e subi em cima dele. Ele tentou me parar para colocar uma camisinha. Nem pensar. Uma vez que eu senti no pelo vou querer assim para sempre. Sentei nele quentinho e senti ele me preencher todo, bem gostoso, como eu me lembrava.

    Que delícia. Desmarquei minhas fodas da semana toda e o pobre rapaz não conseguiu fazer todas as aulas do curso. Eu só queria meter o dia todo, a noite toda, aquele pauzão me arrombando o dia todo. O tempo todo eu pensava no Bardo. Ligava pra ele todos os dias contando como estava sendo. Ele comendo ela lá no mato e eu dando pro ex em casa. Divertido! Ele pediu para eu filmar, caso o rapaz fosse embora antes dele voltar. Filmei.

    No quarto ou quinto dia eu estava toda assada. Minha buceta pulsava e eu queria mais. Fiquei olhando para o pau dele e pensando que, se tinha sido difícil dar o cuzinho quando eu estava soltinha, imagina agora depois das duas filhas, apertada como eu estava. Não ia dar conta.

    Então ele começou a enrolar um cigarro. Era maconha. Eu nunca tinha fumado e não tinha o menor interesse em fumar. Enquanto ele fumava eu puxei papo sobre o dia do diretor e rimos muito. Casualmente comentei que não ia conseguir dar o cuzinho para ele mais, que não ia caber. Ele estendeu o braço e, me oferecendo o cigarro, disse que, se eu relaxasse, ia.

    Eu sou a louca dos chás e, bem, é uma erva natural, certo? Qual é a diferença entre fumar e um chá? Sei que só estava dando desculpas esfarrapadas e a vontade de dar meu rabinho para ele era imensa. Só não queria sentir dor. Peguei o cigarro e fumei. Me engasguei e tossi. Ele riu. Tentei de novo e foi fazendo efeito. De repente, tudo estava lento e girava devagar. Ele me colocou na cama de ladinho, lambeu meu cuzinho bem demorado e conseguiu colocar o dedo. A sensação era esquisita, não gosto de não ter controle do meu corpo, mas estava relaxado mesmo.

    Então senti o corpo dele todo colar no meu e o pau dele abrir espaço entre minhas nádegas. Ele encostou a cabeça e começou a empurrar devagar. Como naquele dia no corredor, cada centímetro que entrava era uma vitória. Doía um pouco, mas não o suficiente para estragar a brincadeira. Finalmente senti a virilha dele na minha bunda. Estava tudo lá dentro. Comecei a rir. Viajando, queria que o Bardo visse aquilo. Queria ver a cara do diretor de novo, estarrecido com aquela rola grossa todinha dentro da minha bunda. Fui rebolando gostoso e demoramos ali. Ele encheu meu cuzinho de porra e dormi, sorrindo.

    Bardo já estava louco longe de mim e eu longe dele. Ele me contou que ela estava morrendo de ciúmes dos meus vídeos e estava brigando o tempo todo, então ele resolveu voltar mais cedo. Chegou no final da tarde e me encontrou nuazinha cozinhando para o meu ex, que fumava um e tocava violão na sala. Bardo não quis nem saber: entrou em casa com o pau na mão, me ajoelhou na cozinha e me colocou pra chupar, enquanto cumprimentava o rapaz assustado na sala.

    Mamei, aquela mamada com saudade e vontade. Lambi como se não visse aquele pau uma vida toda. Ele gemia e me dizia como tinha saudades. Logo fiz sinal para o ex e chamei ele pra chupar os dois ao mesmo tempo. Ele veio tímido e eu fiquei imaginando se o Bardo ia se melindrar com aquele pau que era quase o dobro do tamanho do dele. Ele nem ligou, ficou curtindo enquanto minha boca revezava em babar os dois.

    Logo ele me deixou chupando só o ex e empinou minha bucetinha pra cima. Ergui bem a bunda e ofereci. Apesar de estar toda fodida e ardida eu estava doida pra sentir ele dentro de mim de novo. Ele meteu gostoso. Ardeu um pouquinho mas nem liguei. Fiquei chupando e levando na buceta ao mesmo tempo –  eu acho que é uma das coisas mais gostosas do mundo.

    Bardo gozou, encheu minha buceta de porra, mas o ex não. Ele estava um pouco assustado com aquilo, eu acho. Jantamos, conversamos um pouquinho e subimos para o quarto. Fomos pra cama e começamos a brincar. Eu de quatro mamando o Bardo e o ex metendo o pauzão na minha buceta molhada. Não tinha contado para o Bardo ainda que ele tinha comido meu cu. Ele nem ia acreditar, ia querer ver, e fiquei com receio de não aguentar uma segunda vez. Mas fiquei com aquilo na cabeça enquanto os dois me fodiam de todo o jeito, a noite toda, e não me aguentei: sabendo o que ia acontecer, contei pra ele. 

    Bardo me olhou com maldade, olhou para o pau do ex e mandou o que eu já esperava: isso eu quero ver! Sem o cigarro, demorei para relaxar. Primeiro dei o cuzinho para o Bardo enquanto o ex chupava minha buceta, até ficar bem soltinha. Quando senti que dava, me levantei e escorei contra a parede. Contei para o Bardo a história do diretor enquanto o ex entrava bem devagar no meu cu soltinho. Dava pra ver o pau do Bardo pulsando enquanto eu contava a história e o pau entrava, centímetro por centímetro, alargando tudo o que meu cu aguentava.

    Finalmente ele conseguiu atolar e ficou metendo devagar. Colocava tudo, deixava um pouco lá dentro, puxava pra fora até a cabecinha e voltava a empurrar. Eu estava em êxtase. Bardo me pegou pelos cabelos e me beijava enquanto eu gemia. Eu rebolava devagar e aguentei firme até ele encher meu cu de porra. Bardo não deu um segundo: quando ele tirou nem deixou a porra sair, entrou logo atrás e gozou também, me deixando toda melada. Fiquei imaginando se ele sentia o mesmo que eu quando eu via ele gozar em outra.

    Fomos pra cama e fiquei alisando os dois. Estava extasiada e cheia de tesão, mas minha buceta e meu cuzinho já não aguentavam mais nada. Dormimos. Na manhã seguinte a casa estava cheia: convidei todas as minhas fodas que desmarquei na semana e fomos todos brincar juntos. Bom que as mulheres me ajudaram: eu mal conseguia andar de tanto meter.

    A ex estava possuída com o fato de eu ter transado a semana toda enquanto ela estava fora. Não gostou de eu ter ido embora da casa dela, mesmo que ela não me quisesse mais. Bardo revezava as duas casas, passando mais tempo comigo por conta das crianças. Então ela resolveu se mudar para a minha casa. Reformou o matadouro e fez o quarto dela lá. Voltou a pagar as minhas contas e tentou remendar a paz me chamando para dormir sozinha com ela algumas noites.

    Eu não queria mais saber mas Bardo me pediu que desse uma chance, afinal, não era fácil encontrar quem nos entendesse, quem se alinhasse mesmo com a gente. Dei uma chance mas o conflito escalou rápido. Acabamos saindo no tapa, ela e eu, sobre alguma discussão idiota. Aquilo foi o limite para mim. Jurei que depois de livrar do meu pai nunca mais ninguém ia ter o direito de ser agressivo comigo.

    Pedi que ela fosse embora e ela foi. Para comemorar, dei uma festa no matadouro. Chamei os amigos e amigas e fodemos dois dias inteiros para lavar a alma. Foi um dia especial, filmei tudo. Estavam lá o Jéferson (o amigo maratonista do La Luna) e sua esposa, o casal da enfermeira, o Lu e sua esposa, o baixista e outros amigos maravilhosos. Eu não fazia a menor ideia de como ia viver dali para a frente, mas estava feliz. 

    Bardo continuou vendo ela. Pensei que era pela grana mas ele realmente tinha visto algo nela que eu não vi. Ela estava sendo amada, mas queria briga. Ele sempre voltava muito triste de lá. Ela dizia que me queria, ficava com ciúmes dos meus amigos e do fato de eu estar namorando o baixista mas não me tratava bem quando me via. Nunca consegui entender onde ela queria chegar com isso.

    ***

    Bardo estava animado com a ideia da permacultura e das ecovilas e começamos a visitar esses lugares e a entender essa vida alternativa de plantar o que se come, de não gerar lixo e poluição e aproveitar tudo. Aprendi mais sobre compostagem e sobre as ervas medicinais que eu valorizo tanto (minha avó polonesa era benzedeira) e comecei a imaginar que talvez fosse a solução para fugir da insanidade pela qual o mundo caminhava. 

    Conheci um outro cara no grupo de relações livres e ele nos convidou para uma viagem com uma outra galera da permacultura. Topamos a viagem e fomos.

    No meio do mato, aprendendo, acabei me aproximando do cara. Vamos chamar ele de Lucas. Quando fomos dormir descobrimos que não tinha cama para todo mundo e Lucas acabou deitando comigo e com o Bardo em uma cama de casal no chão, no meio da galera, em um albergue coletivo. Bardo e eu ficamos excitados e loucos para aprontar. Quando as luzes apagaram me virei de costas para ele e ficamos metendo bem quietinhos, só para ver se alguém ia perceber. Lucas, grudado em mim, percebeu e perguntou no meu ouvido se estávamos transando. Respondi enfiando a mão na cueca dele e batendo uma punheta até ele melar a cueca de porra.

    No dia seguinte passei o dia todo batendo papo com ele. Não estava afim de nenhum relacionamento mais profundo, mas ele tinha uma cabeça que parecia muito boa, umas ideias muito legais. Parecia com o Bardo em algumas coisas. Acabamos nos beijando e, à noite, na cama de casal, bati a punheta para o Bardo.

    Voltamos para casa e Lucas começou a aparecer por lá todos os dias. Ficava mais na dele quando o Bardo estava em casa e, quando não estava, fazia questão de me comer no matadouro. Era gostoso transar com ele. Tinha o pau pequeno mas eficiente, me lembrava o empresário e era fácil dar o cuzinho para ele.

    Nessa época eu tive um problema sério. Um cisto no ovário. Fiquei muito assustada e claro que passou pelo fundo da minha consciência que deus me punia por ser a puta safada que eu sou. O pensamento foi como veio. Era uma merda como essa mitologia tinha ficado impressa na minha vida. Ainda bem que minhas filhas não iam passar por nada disso, esse é o meu legado para a felicidade delas.

    Por conta do cisto, fui obrigada a tomar um anticoncepcional por um curto espaço de tempo e, já que tinha que tomar, eu não ia deixar barato. Queria usar aquelas semanas com vontade. Bardo e eu estávamos no centro da cidade e acabamos passando pelo apartamento do Lucas. Ele nos recebeu, mas percebi que não gostou muito de ter ido acompanhada. Ele mostrou um vídeo game e me convidou para ir para o quarto. Eu ainda acho incrível como o Bardo fica sereno, curtindo o momento dele, mesmo que eu esteja fodendo de gritar no quarto ao lado. Eu mesma não tenho essa alma toda.

    Começamos a meter e eu disse que ele podia meter sem camisinha. Ele amou a ideia e entrou quentinho na minha buceta. Ficamos ali curtindo por um tempo, mas eu estava incomodada com o Bardo não estar ali comigo. Chamei ele para o quarto. O amigo não gostou muito. Bardo chegou e fiquei mamando ele enquanto o outro me comia de quatro. Quando ele começou a gemer mais alto eu disse que ele podia gozar dentro. Bardo me olhou animado e senti os jatos de porra me preenchendo. Nenhum outro homem além do Bardo tinha gozado na minha buceta até ali – e esse título ainda se mantém apenas para os dois. 

    Quando ele tirou o pau senti a porra escorrendo por um segundo. Bardo pulou em cima de mim e meteu o pau com vontade, empurrando toda a porra de volta para o meu útero e gozando em cima. Eu estava arrepiada com aquilo, era delicioso demais levar porra de dois, um sobre o outro. Fiquei em êxtase!

    Comecei a curtir os dois com frequência – mesmo que Lucas não se mostrasse à vontade com o Bardo. Não queria saber. Eu tinha perdido um pouco o respeito pelas pessoas depois da ex. Me preocupei tanto com ela, amei ela de coração e ela foi má comigo. Então estava mais interessada no meu prazer, por enquanto.

    Lucas vendeu o apartamento e foi morar no matadouro. O baixista não gostou nada daquilo e, no meio de uma festa, resolveu terminar comigo. Aquele dia foi um desastre total. Fiquei muito triste e chorei no colo do Bardo. Foi uma cena que ainda acho estranha, o Bardo me consolando no sofá porque terminaram comigo, Lucas no outro sofá me olhando chateado, mas de certa forma feliz porque eu tinha um namorado a menos. A ex no outro sofá aborrecida com a atenção que o Bardo me dava e meio que comemorando meu namorado a menos também.

    Mais tarde, uma amiga bebeu um bocado demais e, no ânimo, baixou a calça do Bardo no meio da turma e começou a mamar ele. A ex ficou puta, deu um tapa no rosto do Bardo e saiu porta afora para nunca mais voltar. Um pesadelo a menos, obrigada.

    Bardo e eu nos olhamos. Naquele segundo algo se transformou em nós dois. Ele chamou a amiga de volta para o boquete e eu comecei a beijar todo mundo. Para que comer um de cada vez se dá pra comer todo mundo ao mesmo tempo? Naquele dia, eu nem imaginava, nascia o Clube do Amor. Um grupo maravilhoso de amigos liberais que passou a se encontrar todas as semanas para curtir o melhor da vida.

    No início éramos seis, depois sete, depois alguém trouxe mais um casal e quando vimos estávamos fazendo festas para oitenta pessoas. As festas começavam “preto e branco.” Um churrasquinho, cerveja e rock n roll. Aos poucos os caretas iam percebendo uma pegação de leve e indo embora, até que alguém puxava um colchão para o meio do jardim e começava a putaria generalizada.

    Chegou um momento em que a coisa ficou pública mesmo. Bardo colocava eventos abertos no Facebook convidando quem quisesse chegar e era lindo, só vinha gente legal mesmo. Toda a semana tinha brincadeira, sempre com pessoas novas e alguma loucura. 

    Foi numa dessas que o Bardo inventou de dizer que um homem é capaz de transar infinitamente se tiver sempre uma mulher diferente, que se um homem acabou de gozar mas uma mulher diferente estimular ele volta e goza de novo. Duvidamos, claro, e fomos à prova: Bardo e seis mulheres. E ele provou seu ponto, fodendo as seis – eu incluída, claro.

    Na semana seguinte resolvemos aprontar para ele e trouxemos doze mulheres. E ele foi até a oitava. Sabemos, então, por prova científica, que o limite é oito. Quando viu que não ia dar conta chamou um amigo novo que estava por lá e que tinha trazido um chicote de camurça – e acabou distraindo todo mundo com a brincadeira.

    Bardo fazia uma brincadeira aludindo ao Clube da Luta: se é sua primeira vez aqui, você tem que transar! E acabou pegando o nome: Clube do Amor. Eu com certeza não vou me lembrar de todas as fodas e de todo mundo com quem eu transei nos detalhes, perdi a conta de quantos homens e mulheres comemos e nos comeram nesse tempo. 

    Essa época dava um livro de pura putaria por si só, mas eu tenho algumas histórias favoritas.

    Eu estava na cama, extasiada, assistindo a turma metendo na minha frente. Adorava me sentar e ficar bebendo um vinho e olhando aquela pintura grega que se apresentava ali. Bardo, sentado atrás de mim, massageava minhas costas e assistia também. Os dedos dele foram descendo e, cheios de óleo, começaram a acariciar meu cuzinho. Ele sabia que eu não ia dar, mas ficou ali massageando mesmo assim. Depois de um tempo, me deu tesão e uma ideia.

    Fui aconchegando minhas nádegas no pau dele, dando a entender que estava liberando o rabinho. Ele foi colocando devagar e ficamos ali uma meia hora só brincando de botar a cabecinha, até que finalmente relaxei e ele entrou todinho. Abri bem minhas pernas e chamei o Lucas. Eu estava nos últimos dias de anticoncepcional e queria aproveitar. Convidei ele para minha buceta e quando ele entrou eu explodi em um gozo muito intenso. Nunca tinha experimentado uma dupla penetração, um caralho no cu e um na buceta ao mesmo tempo e foi incrível. Ficamos ali metendo gostoso por muito tempo, bem relaxada, e os dois gozaram dentro de mim. Fiquei deitada na cama até o dia nascer, sentindo a porra dos dois escorrendo de dentro, cada um de um buraco, me deleitando.

    Tinha esse guitarrista que tocava com a gente nas casas de swing às vezes. Ele era bem novo e era um gatinho. Chegamos em casa de madrugada depois de um show e ele precisava dormir por lá. Bardo e eu, safados, arrumamos a cama dele do lado da nossa, nos jogamos e começamos a transar na frente dele. Ele ficou congelado, de pé na porta do quarto, assistindo.

    Bardo, safado, perguntava no meu ouvido se eu queria meter com ele. E eu queria. Chamei ele com o dedo. Ele demorou um pouco e veio em passos lentos e pesados. Abri o zíper da calça dele, tirei o pau para fora. Estava mole. Fiquei com pena. Enquanto o Bardo me socava a bunda gostoso eu comecei a mamar ele, na esperança de endurecer, mas nada. Eu normalmente desisto, mas naquele dia ele estava com muita sorte. Puxei ele para a cama, arranquei a roupa e me sentei no pau mole, esfregando minha buceta encharcada como tinha feito com o amigo na casa de swing.

    Deu certo. Aos poucos o pau dele foi endurecendo e, quando a cabecinha encaixou na buceta, coloquei ele todo para dentro. Lá dentro, quentinho e molhado, ele finalmente virou um tijolo. Duro mesmo, pau de moço novo. Olhei para o Bardo e disse que ia dar daquele jeito mesmo. Ele meteu gostoso e gozou nas minhas coxas. No ano seguinte esse moço foi um dos meus favoritos nas festas. Ele adorava filmar, mas os vídeos com ele eu perdi quando ele arrumou uma namorada e apagou todos, infelizmente.

    Ainda assim ele e o Bardo me deram outra experiência fantástica: em outra festa eu sentava gostoso no guitarrista quando o Bardo veio por trás de mim. Imaginei que ele ia meter no meu cu para eu curtir outra dupla penetração, mas de repente senti o pau dele escorregando para dentro da minha buceta. Os dois estavam ali dentro ao mesmo tempo. Era como se fosse um pau enorme mas se movimentando como dois. Uma delícia total, gozei como louca e fiquei ali até não aguentar mais.

    Era divertido fazer esses malabarismos sexuais. Não tão gostoso, mas divertido mesmo. Aproveitei muito essa época para experimentar todo tipo de novidade com meu corpo com homens e mulheres. Gozei muito mesmo e não tenho nenhum arrependimento. Depois de muito experimentar comecei a entender melhor do que eu gostava e o que me satisfazia. Estar na suruba é algo lindo, de uma energia deliciosa, e eu amo esse ambiente de prazer. Às vezes gosto só de pegar um vinho, me sentar em um sofá e ficar assistindo, ouvindo os gemidos, sentindo o cheiro, vendo os peitos arfando e as peles se misturando. Também amo o ménage, seja ele no formato que for. Transar a três é muito gostoso e estimulante!

    ***

    Nossa casa se tornou um ponto de encontro de feministas que se reuniam para discutir políticas, atividades como a Marcha das Vadias e muitas pautas nesse sentido. Eu nunca falava nada, só ouvia. Para mim a ideia de feminismo é a de colaboração entre homens e mulheres, respeitando diferenças e buscando o bem estar de todos. Como diz o ditado: se organizar direitinho, todo mundo transa! E tudo o que eu queria eram homens que me respeitassem antes, durante e depois do sexo, um batalhão de Bardos que me deixassem livre para ser e fazer o que eu quisesse. Para esses homens minhas pernas estarão sempre abertas! Mas essa era a minha ideia, e só minha, pelo jeito que a conversa andava. Com o passar do tempo o discurso foi ficando cada vez mais agressivo e complicado.

    Patriarcado, machismo, sororidade, era todo um novo dicionário a se decorar para entrar na roda de conversa e esclarecer as ideias de amor livre deu lugar a explicar termos cada vez mais complexos e bizarros. Não éramos mais homens e mulheres, éramos um oceano de verbetes que prendiam o comportamento à uma definição e não ajudavam em nada: cis, pan, demi – isso se você tivesse o famigerado lugar de fala, claro. As pautas feministas, de raça, de classe, não eram sobre colaborar como humanos e esquecer essas diferenças. Eram sobre vingança, cobrança de “dívidas históricas” e uma busca por vantagens injustas para o outro lado, como se fosse um “agora é a nossa vez.” Como diz o ditado: o escravo nunca sonha em ser livre, ele sonha em ter um escravo. 

    Bardo começou a se aborrecer com as meninas e as apelidou de feminazis. Aos poucos, os homens começaram a se afastar e o grupo de mulheres ficava cada vez mais assustador, a ponto de andarem com navalhas e escreverem “corto pica” nos muros da cidade. Um dos nossos amigos foi escravizado por um grupo delas em um apartamento e precisou da intervenção da turma para sair de lá. Não vou nem mencionar o absurdo que era ser corrigida por não falar em “termos neutros.”

    O pessoal do LGBT (eram só essas letras) também andava por lá e inocentemente imaginamos que seriam abertos à nossa ideia de amor livre. Que nada. Quem diria que logo eles seriam os mais tradicionais. Ciumentos e possessivos, nos excluíram dos seus espaços e, mesmo fazendo parte do B, não era mais bem vinda. Começamos a desconfiar que esses movimentos não estavam a favor do amor, mas de alguma outra agenda, e nos afastamos. 

    Ficamos felizes quando percebemos que muitas outras pessoas estavam vendo esses movimentos como pouco legítimos, mas nossa esperança também durou pouco. Nossas ideias de amor livre começaram a ser taxadas como, pasme: comunistas. Ficava me perguntando se estava no Brasil ou se tinha sido sugada para a guerra fria nos Estados Unidos. A ideia de acusar as pessoas de comunismo ao menor movimento contra as estruturas tradicionais também evitavam qualquer discussão que levasse ao progresso dos sentimentos e comportamentos. Estávamos presos entre duas filosofias horríveis, vendo nossos amigos divididos, todo mundo errado e ninguém transando. 

    Lucas mergulhou nessas ideias e vinha com conversas cada vez piores. Começou a se tornar ciumento e possessivo, tinha ciúmes e inveja do Bardo e começou a ter ataques violentos e a quebrar coisas dentro de casa. Bardo, que considerava ele um irmão, dedicou longas horas de conversa, mas não adiantou: em um ataque de fúria ele me pegou pelo pescoço e me prensou contra a parede. Mais um homem que me perdia para as ideias idiotas da época. Ele se foi.

    Eu andava muito preocupada com a internet. Cada dia mais as ideias ruins de cada um dos lados cresciam nas redes sociais. Nomes que nunca ouvimos falar se tornaram populares, cada um tentando ser o Adolf Hitler da sua época. Alguns prosperaram, como um deputado do Rio de Janeiro que crescia em cima de falas polêmicas sobre o outro lado e alguns sumiram do mapa, assassinados ou fugindo do país. O que esquecemos de aprender com nosso passado?

    Era um bombardeio. Com o app do facebook para telefone e a popularização da 4G as pessoas passaram a ficar com a cara enfiada naquilo o dia todo, absorvendo mentiras e idiotices. Não havia espaço para falar de amor no meio de tanto ódio. Aos poucos essas ideias ruins foram minando nossa turma. Imbecilidades como dizer que você leva o “karma” das pessoas que transam com você, desinformação sobre DSTs e novos “nós contra eles” todos os dias. Logo uma parte do grupo se dizia de direita e não transava mais com quem se dizia de esquerda. 

    Eu assistia a tudo, incrédula. Pareciam bonecos de marionete.

    Não podíamos ficar calados vendo as relações entre as pessoas se destruir daquela forma. Nós lutando por mais amor e as pessoas lutando por causas que não eram delas e desfazendo amores, amizades e até mesmo laços familiares. A quem serve essa distância? Bardo começou a falar com jornais, revistas e canais de TV e acertou em cheio: conseguimos uma participação no programa Superpop da RedeTV! Bardo fez questão de que fosse ao vivo, para que não pudessem editar nossas falas, e eles toparam.

    Pegamos um vôo para São Paulo e participamos do programa – você pode encontrá-lo na íntegra no Youtube – e conseguimos dar nosso recado. Foi muito bom! Enquanto aguardamos no camarim, Luciana Gimenez e sua colega foram conversar um pouco. Batemos um papo muito legal e elas disseram que estavam surpresas com nosso nível de esclarecimento, que tinham planejado um programa de polêmica e treta mas que iam nos deixar passar essa mensagem da nossa maneira. Fomos muito bem tratados por elas e pela produção. No dia seguinte, aproveitando nossa presença por lá, participamos de um documentário sobre Poliamor – outra palavra que estava nos irritando – e conseguimos contar mais um pouco do nosso estilo de vida.

    Nosso objetivo em publicar essas informações e ter a banda sempre foi só um: mostrar para outras pessoas que existe uma alternativa e que é possível viver fora da monogamia. Nunca tivemos a intenção de mudar a maneira como as pessoas escolhem pensar. Só queremos atrair aqueles e aquelas que já pensam parecido. Mesmo assim, o “nós contra eles” nos alcançava o tempo todo, dificultando a informação. Até mesmo entre o povo do amor livre se criou uma lista de nomes para como cada um via a liberdade: os hierárquicos, os pirâmides, os Ts, os Vs, os paralelos. A liberdade agora tinha que respeitar contratos e ninguém comia mais ninguém.

    Mesmo assim, a exposição foi positiva. Pessoas do Brasil todo entravam em contato pelas redes sociais querendo saber mais e querendo contato direto conosco – que é tudo o que queríamos. Bardo fechava mais datas para a turnê, cada vez mais longe, e estávamos animados.

    Com uma das nossas namoradas gravamos o primeiro episódio do documentário Amores Livres, do João Jardim, e foi incrível! O diretor foi delicado e entendeu nosso ponto de vista perfeitamente, fazendo uma belíssima edição da nossa entrevista. Também conseguimos algumas aparições locais na TV, rádios e uma entrevista na revista Marie Claire: essa foi um lixo completo. Era para ser um diário de quatro pessoas vivendo um amor livre mas foi recortado e distorcido para parecer uma grande e cansativa treta. Odiamos.

    Finalmente, conseguimos contato com a MTV. Eu queria muito estar lá onde ia poder falar de amor e mostrar minha música ao mesmo tempo. Fomos contratados para fazer um reality show chamado Adotada MTV com a Mareu. Ela é um amor de pessoa e mantemos algum contato até hoje, mas o programa não foi tudo o que queríamos. A namorada que gravou o Amores Livres, escolhida para gravar com a gente, arrumou treta a semana toda e isso foi o foco das gravações. O baterista não estava facilitando minha vida naqueles dias também.

    ***

    Nossas viagens pelas ecovilas e cursos de permacultura começaram a se tornar uma grande decepção. O ódio já tinha chegado lá também, assim como tudo tinha sido precificado e virado curso ou “imersões” cada vez mais caras e voltadas à um público de apartamento que só queria mesmo era fugir de um emprego e, ao dar de cara com um lote pra carpir, voltava correndo com o rabo entre as pernas para seu concurso público. 

    O ápice da decepção foi um grupo de 300 pessoas que resolveu se unir para comprar uma terra e começar uma vila do zero. A ideia era linda e ficamos todos muito empolgados. Começamos a conversar sobre como seria. De repente, alguém se levanta e diz:

    – Eu sou cristão e gostaria que houvesse um templo para o meu deus lá. – O pessoal do Hare Krishna concordou, desde que houvesse um templo Hindu também. Mas outros se opuseram alegando que a mitologia era uma das doenças humanas, ideias manipuladoras de opressão. Com isso, a turma se dividiu ao meio e voltamos a nos reunir com os 150 que não queriam religiões por lá. Alguém se levantou e disse: 

    – Eu sou vegano e não vou viver em um lugar onde se abatem animais. – A galera do churrasco foi à loucura e o povo se dividiu ao meio. Outras questões foram levantadas, como o uso de tecnologias, o acesso à internet, leis, governo e responsabilidades. No final ficamos Bardo, eu e mais um casal – que se separou semanas depois.

    Hoje em dia eu tenho maturidade para admirar os nossos governantes. Não é nada fácil organizar uma turma com tantos gostos diferentes em cidades tão grandes em uma democracia, por mais falha que possa ser. Impossível agradar uma pessoa completamente, imagina milhões. Comecei a focar em outra ideia que Bardo viu em um blog: algumas bandas nos EUA e Europa estavam fazendo turnês na casa dos fãs. Para nós a ideia era incrível – ainda mais se pudéssemos tirar uma casquinha desses fãs! Ele começou a lançar a ideia e a começar um financiamento coletivo, chamado Fã VIP Bardo e Fada. Logo os primeiros fãs se inscreveram e uma rota de viagem começou a se formar.

    Chamamos o guitarrista que gravou o Lovebox, o outro guitarrista que eu gostava de transar e um baterista e começamos a gravar um novo disco, o Sarcástica Fábrica de Fantasias. Escrevi a música título e também Amores Livres para abrir o disco. Uma fã enviou a letra de Avuá e adicionamos Petra Joy, do filme pornô e Prisão, do nosso disco de 2009. Bardo escreveu as outras canções.

    Com pouco recurso, gravando em casa e no meio de uma putaria sem fim, acabamos enrolando por um ano e meio a gravação que era para ter sido feita em semanas. Bardo estava namorando nove pessoas ao mesmo tempo e passava mais tempo metendo que tocando. Eu estava namorando a banda toda e alguns amigos e amigas. A verdade é que aquilo estava bom demais, a turma era muito gostosa e nem dava vontade de ir embora. Por outro lado, já não tinha mais dinheiro para nada, vivíamos de poucos shows, alguns eventos em casa e da grana que os namorados nos davam para ajudar a continuar gravando (ou para nos manter por lá infinitamente).

    ***

    A casa em que vivíamos, aliás, era uma boca de fumo. Deixa eu explicar essa história: a casa dava de frente para um beco. No final do beco era o início de uma favela. Onde os moços da entrega trabalhavam? Na porta da minha casa. Comecei a estranhar aquele movimento ali. Carros caros iam e vinham o tempo todo e os meninos entregavam coisas rapidamente e pegavam dinheiro. Um dia, Bardo voltando do supermercado encontrou os moços sentados na frente da porta fumando maconha. Ele fez uma cara de irritado e gritou:

    – Vocês são mesmo uns filhos da puta!

    O rapaz levantou e puxou uma pistola. – O que foi que você disse?

    – Que vocês são filhos da puta! Ficam aí fumando maconha na porta da minha casa e nem oferecem!

    O rapaz desarmou – tanto a pistola quanto o espírito – e caiu na gargalhada.

    – Poxa cara, a gente não sabia que tu fumava não! Pega aqui ó.

    Bardo não fuma, na verdade, mas a partir desse dia ficamos numa boa com os moços. Eles cuidavam da rua, dos carros estacionados durante as festas e de nós quando chegávamos de madrugada com o equipamento de som. Conversando com eles dava para ver o quanto estavam perdidos, sem nenhuma opção na vida, e eu me sentia muito parecida com eles – com exceção dos tênis e telefones deles que eram muito melhores que os meus.

    Os traficantes não se metiam na nossa vida. Eles nunca perguntaram nossos nomes nos três anos que vivemos lá. Mas eles ficavam observando todo aquele movimento de gente e os beijos na boca de chegada e despedida no portão. Foi em um dia que uma namorada nossa chegou para me emprestar o carro. Ela chegou no portão, deu um beijo na boca do Bardo, deu um beijo na minha boca e me deu a chave do carro. Fui embora e ela ficou. Os moços correram para o Bardo perguntar que loucura era aquela e se eu não ia matar ele por beijar outra mulher. Pacientemente ele explicou como funcionava e eles ficaram alucinados com a ideia.

    Alguns dias depois, Bardo voltava do supermercado e eu esperava no portão. O chefe dos traficantes pulou de dentro do beco gritando: – Ô gente boa! – (era como ele chamava o Bardo) – vem aqui para eu te perguntar uma coisa! – De repente, como um dragão rasgando o asfalto, a mulher do traficante sai atrás dele, aponta na cara do Bardo e grita:

    – Com esse aí tu não fala! Esse aí é má influência! – E levou o moço embora pelo colarinho da camiseta. 

    Eu só ia entender isso muitos anos depois em São Thomé, mas usar cocaína é muito mais aceito do que ser livre no amor.

    A violência crescia cada vez mais em Porto Alegre. Quando mudamos para lá era mais tranquilo. O carro da polícia passava pelo beco, coletava alguma coisa e todo mundo trabalhava em paz. Depois de um tempo os sons de tiro foram ficando cada vez mais comuns e cada vez mais próximos. Deitada na cama, escorada na parede, senti um baque nas minhas costas. No dia seguinte fui olhar pelo lado de fora e o tijolo tinha segurado uma bala perdida que podia ter me matado.

    Começamos a treinar Krav Maga com dois oficiais da polícia federal. Eram truculentos e tinham aquele olhar semi vazio de quem já tirou uma vida humana, ou várias. Eles nos contavam histórias sobre uma facção que estava tomando a cidade e que decapitavam os oponentes. Bardo achou que era historinha de terror, até encontrarem uma cabeça na esquina do beco.

    Treinar Krav Maga para mim é uma recomendação. Toda mulher deveria fazer. Aprendi a me defender sem força, com técnica, mas a melhor parte foi aprender a mentalidade que me permitiu nunca precisar usar a parte física: o Krav Maga me ensinou a prever uma situação de risco muito antes dela acontecer e evitar problemas ao invés de ter que sair deles. Hoje estou muito mais atenta e não dou mole para ninguém. Isso ia me ajudar muito nos próximos anos de estrada.

    *** 

    Foi em um domingo à noite, gravando Avuá, que vimos o tempo fechando ao longe sobre o Guaíba. Uma nuvem escura, relampejando, muito pior do que qualquer tempestade que tínhamos visto antes. De repente, a energia elétrica se foi. O vento batia a porta com força e eu, animada, gritei:

    – Piscina!

    A piscina era uma daquela de plástico, redondas, armada lá fora. Todo mundo saiu correndo e pulou na água –  menos eu. Fiquei olhando a banda e uma fã rindo e se divertindo. Um galho caiu da árvore perto deles e ficaram assustados, correndo para dentro de casa. Sem poder gravar, fomos todos para minha cama e ficamos nos chupando por lá. O baterista começou a dar sinais de ciúmes dos guitarristas e foi sentar em um canto fazendo cara de bunda. Não liguei e continuei me divertindo. Bardo começou a reclamar de febre. A fã e eu curamos ele na bucetada, já estava bem pela manhã.

    A tempestade foi horrível. Ficamos dias sem energia elétrica e o parque da cidade foi virado do avesso: árvores centenárias foram arrancadas pela raiz com a força do vento. Vendo aquele cenário caótico resolvemos gravar o clipe de Só Mais Blues e ficou incrível! Ele está disponível no Youtube. Fomos para o parque com outra fã e ela, sem experiência nenhuma, filmou as câmeras móveis. Enquanto fazíamos nosso trabalho, dezenas de homens com motosserras limpavam o lugar e cortavam as árvores. Quando saímos do parque um homem nos abordou, apavorado, perguntando se estávamos lá dentro aquele tempo todo. Explicamos que sim e falamos sobre o videoclipe. Então ele nos disse que aqueles homens com motosserras lá dentro eram presidiários trabalhando na limpeza. Podia ter sido um filme de terror, então, mas foi só engraçado.

    Terminamos de gravar e o guitarrista do Lovebox, ao invés de se juntar a nós na turnê, foi embora para o interior para cursar a universidade. Ele ficou responsável pelas mixagens e masterização e nós começamos a fazer os shows que eram ali por perto antes de pegar a estrada para valer. No primeiro show, uma surpresa: o outro guitarrista nos deixou para ficar com a minha ex. Que reviravolta. Bardo largou o baixo e assumiu o violão e o show que era para ser com duas guitarras ficou meio brocha. Mesmo assim fizemos. Não foi como queríamos. Era para ser na casa de uma fã, no aniversário dela, mas ela decidiu fazer em um bar. Tocamos para ela, os amigos dela e nossos amigos e depois do show, quando queríamos fazer uma suruba com a turma toda, o baterista deu um chilique e foi todo mundo para casa.

    Continuamos. O segundo show também era para ser na casa de uma fã, mas ela também resolveu fazer no bar. Fizemos o show para ela e os dois namorados dela e mais ninguém foi lá nos ver, nem nossa turma. Um desastre. O terceiro show foi na casa de uma fã – apenas para ela, os pais e a irmã. Não era bem o que estávamos imaginando para essa turnê. Sem os guitarristas por perto, o baterista pegava cada vez mais no meu pé como se eu fosse a namorada só dele. Estava me irritando.

    Conversando com os próximos fãs pela internet, Bardo se deu conta de um fato terrível: as pessoas não tinham amigos para convidar para o show nas casas delas. Aquela história de “nós contra eles” estava dividindo tanto as pessoas que já não haviam mais amizades para compartilhar.

    Para piorar, Porto Alegre entrou em caos. A polícia, sem receber seu salário, resolveu não sair do quartel e os traficantes resolveram que era hora de trocar os seus líderes. Foi em uma questão de dois dias que todos os moços que faziam as entregas na nossa porta foram assassinados e o chefe deles (aquele que a esposa odiava o Bardo), infelizmente, eu presenciei. Tocava piano na sala com a porta aberta quando quatro homens entraram no beco e descarregaram as armas nele. Fechei a porta horrorizada e morrendo de medo que tivessem percebido o que eu vi.

    Todos os dias ouvíamos explosões de dinamite nos bancos ao redor, helicópteros com atiradores de elite sobrevoavam nossa casa, tiros de metralhadora e fuzil eram sons comuns. Não dava para ficar ali mais. Bardo então marcou nosso primeiro show em uma cidade distante, o aniversário de um fã que era daquela turma dos 300 (que não eram nem os de Esparta e muito menos os que iam fundar uma vila).

    No dia 16 de novembro de 2016 colocamos o equipamento, as malas e as crianças na Doblô do baterista e pegamos a estrada. Vamos espalhar o amor!

  • Capítulo 5 – Fracassada

    Vendemos a mobília da casa toda e ficamos só com uma mochila de roupas cada um. Com o dinheiro compramos as passagens para o interior de São Paulo. As crianças ficaram com os avós e embarcamos em Porto Alegre. O vôo teve uma segunda etapa em um avião esquisito, daqueles de hélices do lado de fora da asa e apesar de assustador foi tudo bem.

    Chegamos em uma cidade enorme. Quente, muito quente mesmo. E nem era verão. Conhecemos a família do baterista que parecia ter muita grana. O que levou ele a ir morar com a gente no sul e passar fome? Nunca vou saber. Os pais dele tinham acabado de se separar e o pai estava se mudando para uma das casas da família. A mãe ficou com o apartamento e parecia planejar ficar com o Bardo também.

    O irmão dele vivia em uma invasão, acredite. Era um projeto de um pessoal de São Paulo para artistas falidos e picaretas políticos que invadia casas de famílias ricas com o aval de algum dos filhos, uma maracutaia da qual preferimos ficar longe.

    Saímos pela cidade em busca de trabalho. Conseguimos alguns bares e tocamos nos dias seguintes. Mas isso estava longe do que queríamos. Barzinho se faz em qualquer lugar. Nós queríamos evidência e aproveitar as notícias sobre a banda para tocar em palcos maiores, com melhores cachês e alguma notoriedade.

    Bardo estava para cima e para baixo com a mãe recém solteira e ficou fascinado com a estrutura da cidade para moradores de rua. Eles tinham café da manhã, almoço, janta e um lugar para dormir. Tinham até acompanhamento psicológico. Parecia que pagava bem ser ninguém nesse lugar.

    Nos levaram para conhecer um produtor. Ele tinha produzido shows de Milton Nascimento e talvez pudesse nos dar algum norte. O papo do cara era muito esquisito. Parecia o Mestre dos Magos falando em meias palavras e sendo esquivo. Ou esse cara sabia demais ou não sabia nada e eu não ia sair de lá sem descobrir. Fui levando a conversa até que finalmente entendi o que ele queria, ou pensei que entendi. Coloquei a mão na coxa dele, alisei, olhei bem nos olhos dele e perguntei:

    – Quem eu preciso chupar? Porque eu chupo, se precisar.

    Ele ficou injuriado. Desconversou. Eu não sabia que era só a primeira vez que eu ia ter essa conversa e levou muitas delas para eu entender que esses promotores, empresários, produtores e a laia são viciados na relação de poder. Eles não queriam que eu chupasse porque eu sei o que estou fazendo, eles querem o poder de foder uma alma inocente, como o empresário fez com meu cuzinho. Saí de lá sem nada.

    A não ser que o Bardo quisesse herdar metade do dinheiro da família, não havia mais nada a fazer por lá, a cidade não oferecia muito. Finalmente a mãe do baterista disse que tinham um apartamento de um quarto desocupando no centro de São Paulo. Agora sim, algo que preste. O inquilino estava indo embora na semana seguinte e voltamos para a colônia para buscar nosso guitarrista e nos preparar para, finalmente, estar no lugar certo.

    Na volta, mais um passeio no avião esquisito para chegar em um aeroporto lotado de pessoas estressadas: chovia no sul e todos os vôos foram adiados. Nos deram um voucher para comer que dava para comprar duas barras de chocolate. E foi com isso que passamos dezesseis horas esperando. Encontramos a baterista de uma banda de reggae. Bardo abriu a caixa do violão e a moça, munida de um chocalho, nos acompanhou em um espetáculo na sala de embarque. As pessoas gostaram, aliviou o stress. O engraçado era parar a música quando dava uma chamada e voltar ela do ponto que parou. Chegamos no sul acabados e famintos.

    Acabou que liberar o apartamento demorou mais do que o esperado e nosso dinheiro foi indo embora. Estar na casa dos nossos pais era custoso. Eles não estavam interessados em apoiar nossa arte e nos humilhavam nos mandando arrumar um emprego. Cobravam as refeições e não nos davam paz. Eles não precisavam fazer isso, não era uma questão de dinheiro, era uma questão de nos desempoderar dos nossos sonhos.

    Finalmente o apartamento vagou. O guitarrista e o baterista foram para lá e só faltava o Bardo e eu e não tínhamos dinheiro para as passagens. Tocar em bar não ia dar certo com os custos que tínhamos, íamos ficar presos ali. Eu precisava de um caixa rápido.

    Bardo e eu começamos a curtir e fantasiar uma ideia mas eu não queria ir para uma zona e não fazia ideia de como fazer isso acontecer. Foi quando um conhecido me chamou no Facebook e comecei a trocar ideia. Propus a ele que me pagasse para transar e ele topou. Eu estava insegura. Sabia que ia me divertir e que ia fazer uma grana mas tinha alguma coisa me travando ainda. Então eu propus a ele que o Bardo estivesse junto, que fosse um ménage.

    Ele topou. No dia seguinte nos encontramos, os três, em um motel. Antes de mais nada, pedi o dinheiro, que veio em um belo bolo de notas de 100. Dinheiro na mão, calcinha no chão, não é o ditado? Ajoelhei na frente dos dois e comecei a chupar. Minha cabeça girava, estava a mil. Uma parte de mim queria se sentir humilhada por estar fazendo aquilo mas, vendo aqueles dois paus na minha frente eu me sentia muito satisfeita.

    Quem sabe encontrei minha vocação?

    Me entreguei como uma boa puta. Mamava o pau dele com vontade mesmo, descia molhando e subia secando. Lambi as bolas dele e fazia ele gemer enquanto punhetava o Bardo ao lado. Dava pra ver que ele estava gostando de me ver ali e isso me animava ainda mais. O cara me colocou de quatro na cama, colocou uma camisinha e meteu. Entrou quente e gostoso e eu só me imaginando fazendo isso pelo resto da vida.

    Bardo sentou na minha frente e eu fiquei mamando ele enquanto levava na bunda. Estava tão gostoso! Ele meteu sem dó e sem se preocupar muito se eu estava gostando ou gozando, até que gozou bem gostoso.

    Deitamos os três na cama, tomamos uma cerveja e ficamos de papo por um tempo.

    Então ele pediu para que eu deitasse de ladinho, de costas para ele e beijasse o Bardo. Nos abraçamos e começamos a nos beijar com vontade e ele veio por trás de mim e meteu o pau na minha buceta de novo. Ficamos ali os três em um corpo só por muito tempo. Ele comendo minha bunda bem gostoso e devagar e eu masturbando o Bardo e beijando, nos olhando no olho.

    Aquilo foi sensacional, uma delícia. O pau dele era gostoso, encaixou certinho e era bem quente. Sentia a barriga dele batendo na minha bunda e gemia baixinho. Bardo me olhava com um olhar safado. Ele percebeu que eu estava gostando e abria minha bunda para o outro meter bem gostoso até gozar de novo.

    O cliente satisfeito levantou-se e foi embora, deixando Bardo e eu pra curtir um pouco mais sozinhos. Montei em cima dele e ficamos rindo e comentando enquanto eu cavalgava. Gozamos juntos e fomos embora – com dinheiro no bolso.

    Agora estava pronta pra me aventurar sozinha uma vez. Fiquei de papo com alguns caras conhecidos no Facebook pra ver quem seria o próximo. Foi a pessoa que eu menos esperava que topou, mas com uma condição: que o Bardo fosse junto. Melhor para mim. Por mais que eu imaginasse que deveria ir sozinha, ir com ele me deixava mais tranquila e segura. Como a primeira vez foi incrível, logo marcamos o motel e nos encontramos lá.

    Ele era um cara baixinho, gordinho e com o pinto pequeno, mas era bonitinho e muito carinhoso. Ele deitou na cama e me chamou. Bardo sentou na beirada da cama enquanto eu lambia o pau do cliente bem devagar, com muito carinho. Senti que ele não ia aguentar, as bolas dele começaram a pulsar na minha mão e percebi que já vinha leitinho. Dei uma mamada mais forte. Ele deu um gemido alto e puxou meus cabelos para trás, me fazendo parar.

    E foi aí que a coisa ficou louca. Ele puxou o Bardo pelo braço para cima da cama, abriu a calça dele e começou a mamar. Eu olhava para o Bardo me segurando pra não rir e Bardo me olhava surpreso. Ele ficou de quatro na cama e pediu que eu enfiasse o dedo no cuzinho dele. Fazemos ao gosto do cliente!

    Ele mamava o Bardo como se fosse a última mamada da vida dele. Lambia as bolas, gemia e tremia todo. Molhei o dedo com saliva e enterrei no cu dele. Ele gritou. Não sabia se tinha machucado e fiquei apreensiva, mas ele começou a rebolar com meu dedo atolado lá dentro. Comi o cu dele com o dedinho enquanto ele se esbaldou de língua nas bolas do Bardo. Estava só esperando ele pedir. E ele pediu.

    Deitamos os três na cama. Ele no meio. Me colocou de costas pra ele, Bardo atrás dele. Ele colocou o pau na minha buceta. Não senti muita coisa. Mas senti ele tremer inteirinho quando o Bardo atolou o pau no cu dele. Ele me beijava no pescoço, me acariciava os seios com vontade. Senti ele começar a suar. Gemia e rebolava – mais pra trás do que pra frente – e ficava repetindo como estava gostoso.

    Bardo segurou ele pela cintura e começou a socar. Foi aí que eu fiquei de fora de vez, ele rebolava e gritava, suando muito. Sentia a barriga dele batendo na minha bunda mas não sentia o pau na minha buceta. Fiquei ali, de bibelô, até que ele gozou.

    Sem olhar muito na nossa cara, tomou um banho e foi embora. Bardo e eu ficamos sozinhos de novo e nos divertimos muito, transando e comentando como aquilo era novo e diferente. Ficamos felizes em deixar mais um cliente satisfeito!

    Parece que seríamos um “casal de programa” e a ideia nos deixou muito excitados. Começamos a conversar como casal pelo Facebook com algumas pessoas. Já estávamos mais animados e conversando com desconhecidos. Estávamos nos divertindo e a grana estava quase o suficiente, então por quê não?

    E foi assim que fomos parar em um lugar meio bizarro.

    Esse cara tinha um fetiche: queria sentar e assistir dois casais transando ao vivo. Parecia o convite perfeito. Ser paga para transar com o Bardo, onde eu assino? Estávamos sem carro então ele foi nos buscar em um ponto de encontro. Era noite, na região metropolitana de Porto Alegre e ele era um desconhecido.

    Claro que eu estava segura, eu sempre estou. Tenho minhas maneiras de me defender além do homem de dois metros, lutador de muay thay e expert em briga de facas que anda comigo. Chegamos em um motelzinho bem fuleiro na rodovia e lá estava o outro casal esperando.

    Nós imaginamos que se ele estava nos contratando o outro casal deveria ser muito bonito também. Ledo engano. Pensa em um casal feio. Ele era um tiozão sem nenhum atrativo e ela uma baixinha sem sal nem açúcar.

    Mas tudo bem, eles não iam encostar na gente mesmo.

    Entramos os cinco no motel. O contratante sentou em uma cadeira, abriu uma cerveja barata e pediu para começarmos.  Fui para cima do Bardo, arrancamos a roupa e começamos a meter com vontade, nem prestamos atenção no outro casal. Sentei no pau do Bardo e comecei a cavalgar, empinando bem minha bunda para que ele visse o caralho socando minha buceta. Eu poderia fazer isso todos os dias, o dia todo.

    O outro casal veio para perto. Ela de quatro e ele comendo ela. Não era exatamente uma visão bonita então preferi nem olhar. Ficamos fazendo piruetas. Depois de cavalgar levei de quatro, deitada com as pernas bem abertas, fizemos um 69 e tudo o que podíamos imaginar para agradar nosso cliente.

    Em algum momento ele perguntou quanto custaria para fazer uma troca de casais. Meu primeiro pensamento foi: nenhum dinheiro no mundo. Conversamos um pouco e fechamos um valor, mas quando eu olhei para aquele cara pelado minha buceta secou e fechou igual uma ostra. Eu nunca tinha sentido nojo de alguém na vida e foi uma sensação horrível.

    Enfim, não consegui nem encostar no cara. Bardo colocou a mulher de quatro e usou o método violino: virou a cara e meteu a vara. 

    Vendo que eu não ia transar com o cara, que ficou sentado vendo a mulher dele gritar igual uma cadela no pau do Bardo, o cliente me pediu um preço pra chupar ele. Eu já estava morta ali, sem vontade de fazer mais nada, só queria ir embora. Mesmo assim, dei um preço. Ele pagou e eu chupei sem vontade alguma.

    Bardo percebeu que eu não estava curtindo e encerrou a brincadeira. Pegamos nossa grana e fomos embora. Naquele dia eu percebi que o negócio não era pra mim. Se eu passasse por aquilo mais uma vez nunca mais ia ter tesão na vida. Transar com quem você não está afim é mesmo uma porcaria e eu tenho um respeito enorme pelas meninas que toparam essa vida.

    E foi sorte. O dinheiro deu para as passagens aéreas e sobrou um pouco. São Paulo, sua desgraçada, aqui vou eu!

    ***

    O apartamento era um ovo. Um sala, quarto, cozinha e banheiro com cômodos muito pequenos. Ficava no Bexiga, bem no coração da cidade e ao menos era fácil deslocar de lá. O baterista levou um carro, mas não nos deixava usar. Então andamos, Bardo e eu. Caminhávamos cerca de dez quilômetros por dia, mais o metrô, mais ônibus, para chegar em cada casa de show da cidade e apresentar nosso trabalho. Fomos reconhecidos pelas notícias mas elas não abriram porta nenhuma. Ninguém mexe com a igreja católica e sai ileso.

    Finalmente conseguimos um bar para tocar na Vila Madalena. Uma entrada de grana, porque a nossa se foi em poucos dias. Havia um mercado 24 horas perto de casa onde o macarrão custava cinquenta centavos. Era isso e alho. Eu suava alho. O guitarrista e o baterista nos acompanharam em algumas refeições, mas logo saíram para comer no restaurante. Não parecia justo. O baterista sentava no sofá e ficava olhando revistas de carros esportivos, apontando qual ele ia comprar quando a banda explodisse. A única coisa explodindo ali eram nossos nervos.

    Com a experiência da cidade do interior, Bardo foi atrás das estruturas para moradores de rua da cidade e descobriu um universo fascinante em São Paulo: existe toda uma estrutura de hospedagem e alimentação disponível e os moradores de rua de verdade não gostavam dela: eles preferem a liberdade de movimento e horários e os albergues são bem restritos com isso. Então quem usava essas estruturas eram pessoas que tinham chegado na cidade sem nada e queriam começar a vida. No restaurante de comida por um real conhecemos muitas pessoas de terno e gravata que trabalhavam na Avenida Paulista e que viviam nesse sistema.

    Bardo ficava repetindo que se não tivesse filhos faria exatamente aquilo. Era possível viver em São Paulo com menos de cinco reais por dia com moradia, alimentação, atendimento médico e psicológico – fora todas as opções gratuitas de lazer e cultura disponíveis. E essa é uma realidade em muitas cidades do país se você tiver coragem e quiser aproveitar a estrutura do estado para juntar um bom dinheiro. Acho digno. Se está aí, por que não usar?

    O pai do guitarrista nos trouxe um tablet, novidade na época, e conseguimos ver nossas filhas por chamada de vídeo. Cortava meu coração. Eu não queria ficar longe delas, mas também não ia suportar a vida de humilhação na colônia. Eu estava fazendo a coisa certa. Bardo já olhava as placas de emprego comum ao redor do apartamento porque o dinheiro do bar também não dava.

    No pouco tempo livre íamos ao Centro Cultural Vergueiro. Lá nós lemos todas as biografias de bandas que existiam na biblioteca em busca de alguma pista, algo que não estávamos fazendo e que era preciso. Eu posso bater no peito e dizer que fiz tudo ao meu alcance.

    Conhecemos muita gente. Todo mundo era amigo do primo do tio de algum famoso e supostamente podia nos ajudar mas no fim do dia todo mundo queria me comer, ou comer o Bardo, mas nunca da forma que queríamos. Nunca vou entender esse fetiche pelo poder, pela mentira, por fazer as coisas pelas costas ou de uma maneira maliciosa, que tome alguma coisa do outro. Tanta gente que podia ter gozado com a gente e não gozou porque queria manipular, enganar e nos separar. 

    E também conhecemos algumas pessoas legais – pelo menos no início. Um deles foi o Alexandre.  Ele chegou no bar com duas mulheres em uma coleira. Bardo me olhou: esse cara não pode ser normal. Ficamos torcendo para que ele não fosse embora antes do final do show e demos sorte: ele ficou. Terminado o espetáculo sentamos na mesa com ele e, nesse momento, fomos apresentados ao mundo do BDSM.

    BDSM: a sigla para Bondage (amarração com cordas), Dominação e Sadomasoquismo.

    Aprendemos que elas eram escravas sexuais dele e ele era o dominador delas. Logo já estávamos no apartamento dele bebendo um vinho e conhecendo uma infinidade de tipos de cordas, chicotes e humilhações. Eu não curto dor de forma alguma mas me interessei muito pelo bondage. Bardo, que é fissurado no comportamento humano, ficou interessado no prazer encontrado nas relações de poder, de mestre e escravo e nas humilhações. O mestre e suas escravas pegaram suas cordas, tiraram minha roupa e me deram uma experiência nova e única.

    A corda se chama shibari e é macia e gostosa. Elas passaram por debaixo dos meus seios e trançaram pelas minhas costas, me tocando e acariciando o tempo todo com a ponta dos dedos. Me arrepiava toda. A corda corria pela minha pele com um toque aveludado e sensível. Elas foram descendo com o trançado e começaram a fazer um nó de forca. Fiquei curiosa.

    O nó encaixou certinho na minha buceta. A corda subiu pela minha barriga e amarrou com a que tinha passado por debaixo dos seios, voltou para as cordas e terminou em uma alça. Então elas pediram que eu soltasse todo o peso do corpo pra frente, sem medo. Confiei e fui. Gemi alto! A corda se moveu pelo corpo todo ao mesmo tempo, me acariciando em todos os lugares. Cada nozinho ia passando pelo meu clitóris. Tive um squirt e molhei o chão.

    Gozei na hora. As cordas me abraçaram e me deram uma sensação de segurança tão forte e gostosa que eu quase dormi em pé. As meninas me segurando pela alça e eu ali jogada ao prazer. Elas então me colocaram de quatro no chão, amarraram uma bola na minha boca, puxaram a corda da minha buceta pro lado e foi a vez do mestre se divertir um pouco.

    Ele pegou um chicote de camurça, bem leve e praticamente indolor e começou a bater nas minhas nádegas. Amei que ele respeitou meu gosto por dor. Ele foi batendo devagar e criando um estado de dor gostoso, aos poucos, até que a dor se tornou prazer. Comecei a gemer alto e alucinar. Bardo, sentado no sofá na minha frente, me olhava com deleite enquanto ganhava um farto boquete de uma das meninas – ordem do mestre!

    A outra menina pegou o chicote e começou a bater nos meus ombros, devagar, criando aquele mesmo estado de prazer que eu tinha nas nádegas.

    O mestre, por sua vez, colocou o pau quente e grosso inteiro dentro da minha buceta, socando enquanto dava palmadas na minha bunda. Entrei em êxtase total. Rebolava levando bem gostoso, gemendo alto e gozando tanto que nem pude contar. Naquela noite dormimos em uma enorme cama, algo como duas king size de tamanho, com o mestre e suas escravas, metendo devagarinho e gostoso, cheio de arranhadas, tapinhas, mordidas, beliscadas e tudo o que chamasse uma pequena dor.

    Foi delicioso e ficamos felizes de encontrar, finalmente, algumas pessoas que sabiam se divertir.

    Também conhecemos o Vini. Era um gordinho bebendo sozinho na mesa do canto. No final do show nos convidou para sentar com eles e, por razões que só o álcool conhece, nos contou que estava em uma merda. Era milionário mas estava se sentindo miserável. Queria se separar da mulher, largar as empresas, precisava mudar. Foi encontrar logo comigo. Se você é uma das pessoas que já cruzou meu caminho e fez a menor reclamação da vida perto de mim, conhece meu poder.

    Vini se tornou nosso amigo dali para a frente. Se separou, largou as empresas, abriu uma companhia de aluguel de helicópteros e ficou muito feliz. Nos mandava fotos de baladas e festas com mulheres e nos disse que se precisássemos de algo era só pedir. Ele só não conhecia ninguém no show business que pudesse nos ajudar.

    No mesmo bar, algumas semanas depois, conhecemos as meninas do apartamento 13. Eram 3 universitárias muito bonitas que compartilhavam um apartamento em São Paulo. Depois do show nos convidaram para conhecer o lugar. Na primeira noite jogamos uns jogos de tabuleiro, comemos uma pizza e jogamos conversa fora. Bardo e eu já fomos dando umas indiretas e conseguindo algumas respostas positivas.

    Na segunda noite já fomos armados: levamos algumas garrafas de vinho (depois da tequila, vinho é o maior afrodisíaco) e as cordas que o mestre BDSM nos deu. Chegando lá, as meninas estavam jogando Guitar Hero, um jogo de videogame onde você precisa acertar as notas da música no tempo.

    Os meninos da banda se animaram e ficaram jogando, mas Bardo e eu tínhamos outros planos para aquela noite. Começamos com um jantar leve. Comida pesada dá sono e tira o tesão. Depois abrimos as garrafas de vinho e deixamos que elas se entorpecessem, mas não o suficiente para não responder pelos próprios atos.

    Levemente bêbadas, foi só jogar a conversa pro lado do sexo. Contamos sobre o Alexandre e tiramos a corda da bolsa. O interesse foi imediato. Comecei a ensinar elas a passar a corda como as escravas fizeram comigo. Logo estavam se acariciando entre elas, eu tirando uma casquinha e Bardo sabiamente esperando sua hora de jogar.

    O vinho subindo, a pele arrepiando e logo os meninos se viram sozinhos na sala. Levamos as três para o quarto e ficamos nuas para continuar a brincadeira. Bardo foi chegando aos poucos e logo uma delas estava com o pau dele na boca. As outras se animaram e começamos a nos beijar e nos chupar. Elas eram muito bobinhas, não sabiam fazer nada, mas me diverti. Peguei a mais gostosa delas, joguei de pernas abertas na cama e fui com a língua direto no clitóris – para judiar mesmo.

    Ela se contorcia, torcia as coxas e apertava minha cabeça, mas agarrei a bunda dela com as duas mãos de um jeito que ela não podia sair. Chupava como se fosse uma manga madura. Lambia os lábios carnudos, bem rosados e enfiava minha língua lá dentro o máximo que podia.

    Ergui minha bunda e senti uma língua quente entrar em mim, logo em seguida senti uma empurrada. Estávamos em um belíssimo trenzinho. Eu chupando a gostosa, outra menina me chupando e Bardo empurrando ela de quatro enquanto beijava e amassava a outra. É tão bom quando vários corpos se tornam um só.

    Gozei na boca da menina, bem gostoso, dando um squirt na cara dela. Ela riu, nunca tinha visto aquilo. De repente, murros na porta. Os meninos perceberam que estavam de fora e vieram atrás. Não abrimos, deixe os tontos lá fora. Eles bateram tanto que arrombaram a porta. As meninas ficaram furiosas e isso arruinou todo o clima. Idiotas. Nunca tinha visto o Bardo irritado daquele jeito. Ele foi gritando com os dois no carro até em casa. 

    O baterista resolveu receber dois amigos da Alemanha no apartamento e uma namorada fotógrafa que era o dobro do tamanho dele – que já não era dos menores. Já não bastava Bardo e eu comendo mal, caminhando infinitamente, ainda tivemos que dormir no chão. Ao menos aproveitei um pouco a visita: no meio da noite, quando todos dormiam, Bardo e eu pegamos o alemão mais bonitinho e puxamos ele para o banheiro. Ele não falava português e eu não falava alemão, mas sexo é linguagem universal. Ajoelhei, baixei as cuecas dele e mamei enquanto o Bardo comia minha buceta, depois mamei o Bardo enquanto o alemão me comia. Foi gostoso e divertido.

    ***

    Três meses e nada. A mãe do baterista apareceu por lá rodeando o Bardo de novo, mas acho que estava mais interessada em acabar com a brincadeira do filho. Nos deu um prazo para deixar o apartamento. Sem ter para onde ir, o desespero bateu. Voltar para a colônia, nem em pesadelo! Precisava fazer alguma coisa.

    Nesse meio tempo eram comuns nossas visitas ao nosso amigo Garcia, já que a Rua Augusta era pertinho do apartamento. Bardo e eu passamos muitas noites por lá fazendo amizade com as prostitutas e conhecemos muitas mulheres interessantes. Uma delas, que o Bardo era apaixonado, era uma cavalona morena linda. Ela só estava lá nas sextas e sábados e me contava sobre a vida maravilhosa que levava como puta. Sempre muito bem vestida, trabalhava só dois dias na semana e tinha uma vida de luxo. 

    Talvez eu devesse tentar de novo. Conversei com o Bardo e ele, como sempre fez com toda e qualquer ideia doida que eu tive, me apoiou. Fomos juntos para a Maison. Parei na porta, respirei fundo e entrei. Garcia me recebeu com a alegria de sempre, mas dessa vez acrescentou que estava acompanhando nossas redes sociais e que nossas filhas eram lindas, que devíamos trazer elas para São Paulo. 

    Aquele pequeno comentário sobre minha família me arrebentou. A Fada prostituta morreu naquele minuto. Não tive coragem de prosseguir e nunca mais ia tentar nada parecido.

    ***

    Andamos tranquilamente pelo centro de São Paulo, sempre nos cuidando, mas sem medo. Saíamos à noite, voltávamos de madrugada, sempre em segurança. Pelo menos até dar uma volta com alguns paulistas locais que nos colocaram em uma confusão: acabamos sendo assaltados no viaduto Maria Paula e levaram todos os nossos documentos. Foi um inferno. Tivemos que refazer tudo a tempo de pegar nosso vôo de volta para o sul.

    A Fada que sonhava em ser uma grande artista em São Paulo morreu aqui, com a certeza de que fez tudo o que podia ser feito. Talvez só faltasse ser a pessoa certa, no lugar certo, na hora certa. Não foi o que aconteceu.

    Peguei o vôo e voltei para a colônia. Tive uma crise de pânico quando vi aquelas casinhas alemãs de novo, mas a vontade de ver minhas filhas era maior. Quase não as reconheci, tinham crescido demais em três meses e a influência das nossas famílias tinha arruinado a educação que eu tinha dado. Tivemos que começar tudo do zero. Fiquei muito orgulhosa delas porque as avós tentaram de toda forma levar elas para o cristianismo – minha mãe na igreja católica e a mãe do Bardo no espiritismo Kardecista – e elas resistiram bravamente. Não havia espaço para religião na pequena alma delas e senti que fiz um trabalho bem feito: elas não iam sofrer os desesperos que sofri com essas ideias malucas.

    Bardo arrumou um emprego em um açougue e eu em um bazar. Morando de novo com os pais, só queríamos algum dinheiro para sair dali e ir ao menos para Porto Alegre. Eu tinha certeza que nossa sanidade mental não ia suportar aquilo por muito tempo. 

    Estávamos enfurecidos com a vida. Lutamos tanto por nada. Era deprimente.

    ***

    Alguém comentou com o Bardo que estavam começando algumas redes sociais secretas de pessoas liberais e fomos convidados para uma delas. Um novo mundo se abria. De repente centenas de pessoas que pensavam como nós (ao menos era o que pensamos) apareceram.

    Fomos parar em uma lanchonete de esquina na cidade vizinha. De dia, um lugar de família, à noite, as cortinas baixavam e casais se encontravam lá para confraternizar – pelados. Não acreditamos no que estávamos vendo. Todo esse tempo existia um mundo paralelo que não fazíamos ideia. Começamos a bater papo com os casais. Juízes, advogados, policiais, políticos, todas aquelas pessoas que no interior do estado nos chamavam para as festas. Pessoas que você vê na rua, que faz negócios, que são do seu convívio e que você nunca vai imaginar que gostam de uma putaria.

    Começamos a entender por que nossa banda e nosso discurso não ia para a frente: essas pessoas não podiam se expor, não podiam curtir e compartilhar publicamente suas ideias. Elas precisavam de um espaço seguro onde podiam ser elas mesmas. Era mesmo um universo paralelo do cidadão de bem onde ele podia chupar um pau livremente sem se preocupar com o que a sociedade ia dizer sobre isso.

    Da lanchonete nos convidaram para conhecer uma turma muito animada em um posto de gasolina na colônia. Na época era moda fazer festas em postos de gasolina no final de semana e nesta sexta à noite o lugar estava apinhado de gente. O segredo para encontrar a turma certa era pendurar uma calcinha na antena do carro. Chegamos lá e dois rapazes muito divertidos – a diretoria – vieram nos receber.

    Chegamos em um cantinho mais escuro onde os casais se chupavam no meio dos carros, ali, em público mesmo. Uma loucura. Ficamos muito excitados. Todo mundo nos recebeu com alegria. Bardo puxou o violão e cantamos nossas músicas com todos acompanhando animados. A música era boa, realmente, mas ninguém ouviria elas em público.

    De repente, encosta um caminhão baú. Um casal animadíssimo (espero que leiam o livro, amamos vocês!) desce e abre o baú. Lá dentro, alguns colchões pelo chão. Só acreditava vendo. Vendo, não acreditava. O caminhão virou uma casa de swing e a putaria comeu solta!

    Começamos a frequentar o posto de gasolina e a lanchonete. Bardo começou a escrever um espetáculo para apresentar para esse público discreto. Talvez esse nicho fosse nossa chance de fazer nossa música como queríamos. Esqueci os grandes palcos. Queria tocar para aquele povo animado, onde eu não precisava imaginar que estavam todos nus: eles realmente estavam.

    Desenhamos um show lindo, com músicas que falavam discretamente (ou nem tanto) sobre o tema como Sônia, Poligamia, A Maçã, mescladas com as nossas músicas. O ponto alto do show era um momento em que eu tirava um caralho de papel das cuecas do Bardo e colocava fogo. A galera adorava! Largamos os empregos e começamos a tocar em pequenas festas de swing com sucesso.

    Nosso show era fogo! Curtinho, apenas trinta minutos, mas colocava o povo para pular, arrancar a roupa e se animar. Eu chupava o Bardo no palco (que conseguia continuar tocando violão enquanto isso) e às vezes chamava algumas mulheres para interagir comigo e com ele ali, na frente de todo mundo. Nunca tinha imaginado foder em cima de um palco, com tanta gente olhando, e eu estava alucinada com isso. Foi incrível.

    Recebemos um convite épico: tocar na zona da Tia Carmem. Para quem não é de Porto Alegre é apenas a casa de prostitutas mais famosa do estado. O lugar é imenso, vários andares, muitos quartos, poledance, bares e claro, muita mulher gostosa!

    O público começou a chegar e já achamos tudo muito esquisito: um monte de vovozinhos acompanhados de mulheres siliconadas.Fizemos nosso show, dando nosso máximo, mas as pessoas não gostaram muito das nossas ideias sobre amor livre. Para fechar com chave de ouro cantei Pagú, da Elis Regina: “meu peito não é de silicone” e aí descambou mesmo. Não nos chamaram mais para tocar por lá.

    Já que está no inferno, abraça o capeta, diz o ditado. Terminado o show, Bardo e eu fomos conhecer os quartos. Entramos em um que tinha só um casal transando. Ele nu, ela vestida.

    Era um dos poucos homens com menos de 70 anos por lá e resolvemos compartilhar a cama com eles. Nós nos pegando e eles logo ao lado. “Mesmo ambiente” como dizem no swing. Fui puxando ela aos poucos e joguei para o Bardo que já enfiou o pau na boca dela antes que ela percebesse. Fui para cima do cara com vontade, mas ele estava meio defensivo, sem prestar muita atenção em mim, preocupado com a mulher.

    Bardo tentou tirar a roupa dela mas quando tirou o vestido ela estava usando – literalmente – uma armadura por baixo. Eram umas cintas modeladoras e sabe lá o que tinha por baixo daquilo. As vezes é melhor nem saber. De repente eles se levantaram e saíram correndo.

    Sem mais ninguém interessante por ali descemos de volta pro salão. Uma moça perfeita começou a dançar no pole dance. Todo mundo parou pra ver. Alguém comentou que ela era capa da Playboy e devia ser mesmo, era coisa de revista! Ela começa a olhar pro público ao redor dela e apontar com o dedo. Acompanhando o dedinho dela eu olho para as mulheres: pareciam clones de silicone e vestido tubinho. E eu ali, perdida, depois de tirar o figurino do espetáculo, de vestido romântico florido.

    De repente o dedo dela para em mim. Ela me chama e Bardo praticamente me empurra pra ela. Dei dois passos na direção dela e, em um movimento de braço, arranquei o vestido e cheguei nela completamente nua. Ela me olhou apavorada. Peguei ela pela cintura com uma mão e com a outra no seio. Prensei ela contra o pole dance. Ela deve ter me julgado pelo vestido, pensando que eu era uma menina boba por ali.

    Enfiei dois dedos na boca dela e fiz ela chupar meu dedo. O público ao redor uivava e gritava. Assim que meus dedos ficaram bem babados desci pelo corpo dela e atolei na buceta.  Ela tentava sair sem perder o rebolado do espetáculo.  Agarrei ela pela cintura, puxei contra meu corpo e beijei ela na boca. Fodia ela com os dedos e ela foi esquecendo o público e concentrando em mim.

    Quando percebemos a mulherada tinha pirado e invadido o poledance. Eram mais de trinta mulheres e eu não ia deixar essa oportunidade passar. Larguei a Playboy e comecei a pegar a mulherada, uma por uma. Bardo, nada bobo, já estava chupando uma buceta contra a parede. Eu beijava na boca, dava dedada, apertava peitos e bundas, dançava e misturava meu suor com aquelas mulheres todas. Que paraíso!

    Saímos de lá de manhã. Nunca mais voltamos, mas aproveitamos!

    Mesmo com o público não gostando do show, fomos chamados para o La Luna, uma casa de swing no interior do estado. Era uma casa pequena, de dois andares, com quatro quartos e uma pista de dança. Os donos eram dois casais que – pasmem – não eram swingers. Um desperdício porque eram muito bonitinhos!

    As festas do La Luna eram muito divertidas. Era mais ou menos a mesma turma da região que ia e o povo curtia muito nosso show. Ali eu descobri um grande prazer que só posso ter nessas festas: dançar completamente nua na pista com outras pessoas ao redor. Esses ambientes são seguros, ninguém mexe comigo se eu não quiser, então eu me esbaldava dançando, suava, pulava, gritava, curtia para caralho.

    E ali na pista dançando eu sempre encontrava alguém gostoso – ou gostosa – para curtir uma transa. Eu sempre gostei de transar muito. Não confunda com gostar muito de transar. Sempre gostei de ficar longas horas metendo. Se a pessoa me acompanhasse na maratona eu amanhecia, cruzava o dia, anoitecia, virava o final de semana com o mesmo pau me socando em todas as posições possíveis e imagináveis.

    E nessas festas sempre tinha alguém para me acompanhar. Enquanto o Bardo curtia a variedade – ele sempre transava com seis ou oito mulheres diferentes toda noite – eu pegava alguém e demorava metendo.

    Pois foi no La Luna que encontramos esse casal. Bardo e ela se entenderam rapidinho e logo ele estava com as coxas dela nas orelhas. Ele veio todo tremendo, tímido, para o meu lado. Eu nem estava muito afim. Fiquei de quatro do lado do Bardo e empinei a buceta para o moço. Ele ficou ali atrás tentando fazer alguma coisa mas não conseguiu.

    Isso era comum no swing. Os caras viam o Bardo fazendo malabarismos com as esposas deles e não conseguiam me comer. Vi que ele estava com dificuldade e me virei. Peguei o pau dele, não muito grande, e comecei a acariciar. Chamei a atenção dele pra mim, pra olhar nos meus olhos, e chupei ele com um olhar fixo.

    Senti a animação dele crescer dentro da minha boca. Mesmo com a mulher dele gemendo feito doida no pau do Bardo ao lado ele foi ficando bem teso. Puxei ele para mim e ele encaixou no meu corpo. Estava quente. Colocou uma camisinha e escorregou devagarinho para dentro da minha buceta.  Fiquei mantendo a atenção dele nos meus olhos. A mulher gozava do lado e eu estava criando um universo só pra nós dois.

    Ele deitou em cima de mim, atolou o pau na minha buceta e ficamos ali em um papai e mamãe bem carinhoso. Bardo terminou com a mulher dele e foi para a próxima e nós dois ficamos ali. Beijos, carinhos e o pau entrando e saindo macio da minha buceta. Eu gosto assim. Fui pegando muito gosto por essa metida carinhosa, cheia de beijos, de toque, de vontade. Me molha toda. Fomos rolando pela cama. Os casais mudavam o tempo todo ao nosso redor e nós ali em um mundinho só nosso, fodendo gostoso. Gozei gostoso algumas vezes.

    Quando vimos, amanheceu. Bardo já estava comendo a mulher dele de novo quando nos demos conta que passamos tantas horas ali juntos. Trocamos contato. Vamos nos ver de novo?

    Nesse meio tempo os shows continuavam cada vez mais quentes. Começamos a fazer espetáculos temáticos em datas especiais. Na páscoa me vesti de coelhinha e durante o show fui me lambuzando toda de chocolate. No final chamei todas as mulheres para me lamber até eu ficar toda limpinha de novo. Elas me deitaram no palco e caíram de língua com gosto mesmo. Lambiam, chupavam e vinham me beijar com a boca cheia de chocolate. Bardo, que de bobo nunca teve nada, encheu o pau de chocolate e entrou na brincadeira com as meninas.

    Naquela noite conhecemos o primeiro casal gay em uma festa de swing. Eram dois caras super bonitos e muito simpáticos. Fizemos amizade rápido e logo fomos convidados pra tocar na festa deles. Não sabíamos, mas a festa deles era a mais celebrada de todas. Muita gente ia para lá e era conhecida como “a festa de todas as tribos.” Ficamos muito curiosos e recebemos um pedido especial: uma versão personalizada da música Sônia, do Leo Jaime.

    A festa era em uma enorme sauna gay. Dava para se perder lá dentro, cheio de quartos e corredores. Chegamos bem cedo pra montar nosso som e nosso pequeno palco. Em cada porta de quarto tinha uma placa: quarto bi, gang bang, casais, solteiros e solteiras, BDSM e por aí vai. Dentro de cada quarto havia uma plaquinha com as regras daquele lugar e sobre o que podia e o que não podia.

    Fomos nos maquiar e figurinar em um banheiro com portas de saloon. Saindo de lá, Bardo soltou a porta por acidente e ela bateu bem no ossinho do meu cotovelo. Que dor! Uma moça que estava ali era enfermeira e saiu em busca de um emplastro e uma faixa para colocar no meu braço. Resolvido o problema fomos sentar com essa moça e o marido no lobby e ver o povo chegar.

    Era realmente a festa de todas as tribos. Logo começaram a chegar casais, solteiros, solteiras, grupos, o povo do BDSM com suas roupas de couro e o que mais nos fascinou: as trans. Bardo olhava com admiração aquelas mulheres perfeitas: boca, olhos, peito, bunda e o volume nas calças. Uma, em especial, ele fez questão de ir receber. Ela se chamava Lábios de Mel e tinha uma das bocas mais lindas e perfeitas que já vi.

    Todo mundo lá, vamos ao show!

    O espetáculo foi delicioso! Todo mundo cantou e dançou com a gente, tirando uma casquinha nossa no palco. Cantamos a versão de Sônia que pediram – essa música acabou ficando no nosso repertório pra sempre – e nos divertimos muito. Show encerrado, hora da fodelança. Começamos a caminhar pelos quartos e ver o que acontecia em cada um deles.

    Primeiro fomos ao quarto do Gang Bang. A plaquinha dizia: se uma mulher sentar nessa cama ela está dando permissão para qualquer homem no quarto transar com ela. Credo! Nem pensar numa coisa dessas. Sou seletiva. Mesmo assim quis ficar para assistir. 

    Uma mulher daquele tipo cavala chega. Vestida com uma renda de corpo inteiro vem e senta na cama. Os homens começam a se aproximar devagar. Ela puxa um, abre o zíper e começa a mamar. Os outros se animam com a cena e chegam mais perto, alguns já tirando a roupa. Logo tem quatro, oito, dezesseis mãos percorrendo o corpo dela. Eles pegam nos seios, na bunda, nas coxas, enfiam os dedos na buceta.

    Horrível e nojento – eu pensei. Nunca que eu ia fazer uma coisa daquelas.

    Ela perdeu o controle da situação na mão deles, mas não parecia se importar muito. Como zumbis eles viravam ela em todas as posições e se revezavam metendo ela. Um pau na boca e um na buceta o tempo todo e aquelas mãos todas pelo corpo. Colocaram ela de quatro e mais homens entraram no quarto. Quando percebi, tinham organizado uma fila atrás dela. Um comia, gozava, dava lugar para outro, enquanto outros se revezavam na boca.

    Quando parei de contar ela já tinha levado trinta caralhos no rabo. Em algum momento ela cansou. Se levantou sem cerimônia (para o desespero de quem ainda estava na fila) e saiu. Bardo puxou ela pelo braço. Ela estava coberta de suor. Ele deu um abraço nela e expressou profunda admiração pelo que ela tinha acabado de fazer. Ela agradeceu como se aquilo fosse comum para ela e saiu. Que mulher!

    Fomos então para o quarto BDSM. Já sabíamos o que íamos encontrar, mas fomos surpreendidos. Naquele dia conhecemos a Labiata, que seria nossa amiga por muito tempo. Ela já estava em ação quando entramos. Na cama, amarrada e com uma bola presa na boca. Seis homens ao redor queimando velas na pele dela e dando palmadas. Ela já era uma mulher na casa dos 50, toda linda e com uma cara de puta que dava vontade de chupar só de olhar.

    A coisa foi ficando pesada e violenta de uma maneira que nunca tínhamos visto com nossos amigos de São Paulo. Ela foi pedindo mais e eles foram ficando com a mão pesada. Ela foi enforcada, estapeada e eu quase não consegui olhar quando colocaram ela de quatro no chão. Um cara fodia ela com muita força enquanto outro pisava na cabeça dela. Ela babava e virava os olhos como se estivesse em uma convulsão e eu não tinha certeza se era possível gostar daquilo.

    Um casal gordinho muito divertido estava ao nosso lado e ficamos trocando ideia enquanto a cena se desenrolava. Em algum momento o gordinho teve a genial ideia de pegar uma algema de cima da mesa e, de surpresa, fechou ela nos meus pulsos. Entrei em pânico. Comecei a passar mal e queria sair dali. E quem disse que alguém sabia onde estava a chave da maldita algema? Quase arruinei o rolê do quarto. Suava, chorava e precisava muito sair daquilo. Definitivamente essa brincadeira de constrição não é pra mim. 

    Finalmente encontraram o mestre que tinha as chaves e me libertaram. Fiquei muito puta com o gordinho mas acabamos ficando amigos e andando juntos pela festa.

    Encontramos o Jéferson, meu novo amigo de maratonas do La Luna, com sua esposa e logo éramos um animado grupo andando pelos quartos, junto com o casal de gordinhos e o casal da enfermeira.

    Fomos conferir o quarto bi. As trans estavam lá e Bardo estava muito animado com a ideia. Como as mulheres são bi em qualquer lugar na festa, o quarto estava cheio de homens. Entramos – os meninos com a bunda na parede – e começamos a observar. Era o quarto mais escuro de todos, mal dava pra ver, mas logo encontramos um dos anfitriões da festa. Bardo e eu nos ajoelhamos na frente dele e pagamos um boquete bem gostoso, até que uma trans viu o Bardo e se animou.

    Ela ajoelhou na frente dele e começou a mamar. Ficamos assistindo maravilhados: era um negrão enorme travestido, uma cena pra não esquecer. Bardo estava curtindo o boquete mas procurava ao redor e eu já sabia o que ele queria: Lábios de Mel. Não demorou para ele encontrá-la e ir até ela. Chegou pegando e deu um beijo naquela boca enorme. Ela sentou ele em uma poltrona, ajoelhou e começou a chupar. Ele me olhou de um jeito que eu nunca tinha visto. Estava em êxtase. Ela engolia o pau inteiro como se fosse nada, subia de volta puxando aquele fio de saliva, lambia as bolas, vinha com a língua até em cima, dava uma trabalhada na cabeça e engolia tudo de novo.

    Ele virava os olhos, agarrado nos cabelos dela. Melhor boquete da vida – ele alega até hoje –  e estava lindo de ver. Quando ela percebeu que ele ia gozar, baixou a calcinha. Tinha um pau pequeno e, incrível, estava mole. Puxou o Bardo, ajoelhou na poltrona e mandou ele colocar no cu. A bunda dela era linda. Perfeita. Nenhuma mulher consegue ter uma bunda daquelas! Ele obedeceu sem cerimônia e atolou o pau inteiro no cuzinho. Entrou muito rápido e macio.

    Eu estava amando assistir aquilo tudo. Lábios de Mel me puxou e me abraçou forte – é engraçado porque é uma mulher com força de homem –  e me deu um beijo na boca. Caralho, que lábios de… mel! Fiquei ali beijando ela. Os seios dela nos meus. Aquela boca que era masculina e feminina ao mesmo tempo me deixando confusa. Bardo gozou gostoso na bunda dela e nos sentamos na poltrona. Fiquei assistindo um cara comendo outro de quatro. O gemido dos dois era muito gostoso de ouvir.

    Dali seguimos com nossa turma para os quartos de casais. Fomos para uma cama coletiva e começamos a brincar com nossos amigos. Os maridos vieram todos pra cima de mim e as esposas para o Bardo e nos divertimos muito. A gordinha tinha umas tetas enormes e Bardo adorou ficar brincando com elas e mamando.

    O marido da enfermeira tinha um pau gigantesco, quase não conseguiu entrar em mim. Tive que pedir pro Jeferson e o gordinho darem uma socada primeiro para relaxar. Ele teve que vir com muito jeitinho, de ladinho, pra conseguir encaixar a cabeça, e aí foi empurrando devagar até que entrou tudo. Fazia tempo que eu não brincava com nada daquele tamanho! Do meu lado Bardo revezava as três esposas e ali ficamos até amanhecer. Que delícia de festa!

    Estávamos com uma boa agenda pela frente quando a Boate Kiss pegou fogo. Foi uma desgraça monumental, penso que a maioria das pessoas nunca vai realizar o tamanho do desastre que foi aquilo. Destruiu famílias e muitos negócios ao longo dos anos seguintes. Amigos nossos morreram lá, amigos de amigos, conhecidos e fãs. Além do impacto profundo da perda, todos os nossos shows foram cancelados por conta da nossa performance com o fogo. Muitos dos lugares que íamos tocar foram fechados pelos bombeiros que pararam de fazer vista grossa depois da tragédia.

    A coisa apertou de novo e ainda estávamos presos na casa dos pais, sendo diariamente humilhados e pressionados a ir embora. Cobravam cada refeição e se metiam na educação das meninas. Precisávamos sair de lá de qualquer maneira.

    Uma oportunidade surgiu, vinda do nosso antigo baterista: uma gravadora estava procurando por nós. Será que depois de desistir de tudo é que ia dar certo? Decepção. Eles queriam nos transformar em uma dupla de sertanejo universitário. Para piorar, queriam me separar das minhas filhas: eram nada mais, nada menos, que 28 shows por mês voando pelo Brasil inteiro o tempo todo. Tinha o dinheiro para considerar mas eu não ia cometer esse erro pela segunda vez. Mesmo assim, consideramos.

    Então eles pediram cinquenta mil reais para começarmos. Rimos. Nunca teríamos aquele dinheiro! Lembramos então do Vini e ligamos para ele que disse que pelo que fizemos por ele isso não era nada. Combinamos de nos reunir com ele e a gravadora na semana seguinte mas antes disso o Vini ligou para o Bardo. Eles ficaram por horas no telefone. Vini comentava com o Bardo que nos conhecia bem e que pensava que nossa sanidade mental não ia suportar a rotina da qual ajudamos ele mesmo a fugir. Que não ia valer o dinheiro.

    Ouvimos a experiência dele e desistimos. Podia ser a gente no avião da Marília Mendonça.

    Nesse meio tempo conhecemos muita gente. Entre essas pessoas o casal que era dono do famigerado caminhão-motel do posto de gasolina. Eram uns amores e começaram a nos contratar para as festas que eles davam no interior do estado. Pagavam um pouco melhor e nos davam a viagem e a comida.

    Essas festas foram realmente épicas e dá para escrever um livro inteiro só detalhando o que aconteceu por lá. Bardo, como sempre, curtindo a quantidade. Comia oito, dez, doze mulheres diferentes todas as noites. Já eu sempre escolhia uma pessoa gostosa para foder até amanhecer. Das várias figuras interessantes que se encontravam por lá, uma era uma mulher de 70 anos. Ela tinha tanta plástica que parecia uma menina de 40 e um fogo no rabo que nem um gangbang parecia apagar. Bardo comia ela com gosto. Ela tinha uma bucetinha pequena, apertadinha e muito gostosa de chupar.

    Nessas festas era sempre muito importante usar camisinha, claro, porque tinha muita gente metendo com muita gente. Tinha esse cara, muito gostoso, cabelos encaracolados, com quem eu metia muitas vezes a noite toda. Já eram mais de sete horas da manhã quando eu me encontrei com ele no corredor. Estávamos acabados de tanto meter mas eu ainda tinha fogo. Queria dar para ele pelo menos mais um pouquinho. Joguei ele no sofá e sentei no colo dele, mas nada. Ele estava tão cansado que o pau não subia mais. Minha buceta, por outro lado, estava encharcada e pedindo pau. Fiquei rebolando no colo dele, esfregando no pau dele, molhando ele de suco.

    Devagarinho fui sentindo que ele endurecia e fui ficando ainda mais molhada. Quando ele subiu um pouquinho encaixei a cabecinha na buceta e fiquei pincelando. Minhas pernas arrepiaram e virei meus olhos de tesão sentindo ele bem quentinho no meu clitóris. Ele foi ficando mais duro e eu olhei ao redor: nenhuma camisinha. Não podia arriscar perder aquele pau duro indo buscar uma. Não teve outro jeito: enfiei ele inteiro dentro de mim no pelo mesmo. Ele terminou de endurecer lá dentro, com a cabeça atolada no meu útero. Ele me olhava apavorado: não acreditava que eu tinha feito aquilo. Coloquei o dedo na boca dele, pedindo segredo, e comecei a quicar bem gostoso.

    – Só não goza dentro, tá bom?

    Eu sentava e ele socava. Viramos um corpo só e ali nos demoramos algumas horas. Ele chupava meus seios e eu sentia o pau dele na pele, bem quentinho, socando meu útero. Caralho, que tesão.  Bardo chegou em algum momento e, como sempre gostava de fazer, acariciou meu clitóris enquanto eu metia com outro. Fiquei com medo da reação dele quando percebesse, mas quando viu só me olhou com uma cara de safado.

    – No pelo, hein, putinha?

    Rimos e continuei metendo até que ele voltou me chamando para o almoço. Naquele dia fomos embora de carona com um casal. Ela era uma tetuda muito safada e ele um daqueles caras bem cornos que levavam a mulher para a festa só para assistir ela levando pau. Eram quatro horas de viagem e o corninho estava empolgado com a carona. Sentou no banco do motorista e pediu para que fossemos os três no banco de trás. Foi uma bagunça só. Bardo sentou no meio e começamos a brincadeira chupando ele até não poder mais. Depois fomos revezando no colo dele. O corno vibrava cada vez que ela sentava no pau. Ríamos e gritávamos pra ele tirar o olho do retrovisor e prestar atenção no trânsito. Paramos em um restaurante para comer no final da tarde. Bardo, tadinho, já estava assado, mas o corno não dava paz. Fez ele ir com ela para o banheiro e comer ela de pé contra a pia.

    Chegamos em casa sem pernas.

    ***

    Segundo meus planos, era hora do terceiro filho. Ele ia se chamar Miguel. Mas eu estava insegura. Não tínhamos nada, estávamos pior do que quando a Lavínia chegou. Conversei com o Bardo e depois de muita consideração entendemos que não tínhamos condições físicas, psicológicas e econômicas para engravidar de novo – fora o fato de eu quase ter morrido nas outras duas.

    Eu não ia começar a tomar anticoncepcional, usar um DIU ou qualquer outra coisa. Meu corpo é meu templo e se ele é admirável é por essa relação de respeito que tenho com ele. Sem químicas. 

    Bardo resolveu isso em quarenta minutos: fez uma vasectomia. É uma hipérbole dizer que foram só quarenta. Foram semanas excruciantes de entrevistas com psicólogos e assistentes sociais porque não queriam deixar ele fazer. Existe algum acordo social de que as pessoas precisam ter o maior número de filhos possíveis e tentaram dissuadi-lo de todas as formas. 

    No final, depois de muita insistência e com a premissa de que já tinha duas filhas, liberaram ele. Aí sim foram apenas quarenta minutos, anestesia local, uma beleza – segundo ele. Voltou dirigindo para casa. O osso foi ficar quinze dias sem gozar. Ele me lambia, me chupava, me dava os meus orgasmos mas estava muito de mal humor, subindo as paredes.

    E finalmente eu podia ganhar minha gozada dentro à vontade, sem preocupações. Dali para a frente foi o paraíso!

    ***

    E era o fundo do poço. Sabíamos que dali a coisa só ia descer na vida financeira. Sem a ilusão da fama, dos grandes palcos, precisava seguir em frente de alguma forma. Mas como? Os shows nas casas de swing continuavam pagando uma miséria e, sinceramente, já estava ficando mais do mesmo. Foi em uma festa perto de Porto Alegre que tomamos o balde de água fria: não nos pagaram.

    Sem ter grana nem para ir embora pedimos carona para os gordinhos que estavam com a gente na festa das tribos. Eles nos levaram para casa na colônia e sugeriram que fôssemos morar em Porto Alegre, onde teríamos mais opções de trabalho. Claro que o que eles queriam mesmo era a gente por perto para brincar, o que não era de todo mal.

    Na semana seguinte vieram nos buscar e andamos juntos por toda a capital procurando bares, restaurantes e qualquer lugar que fosse possível tocar. Obviamente eles tinham tudo planejado e o passeio terminou em um motel. Dizer que eram gordinhos é uma forma carinhosa. Eles eram bem alimentados. Não muito nosso tipo mas estavam sendo muito amáveis com a gente e nos ajudando um tanto. Já fizemos sexo por tantas razões antes então, por que não por gratidão?

    Ficamos um tempo os quatro na banheira quente, bebendo e conversando. Mesmo com todos os nossos problemas sempre fomos leves nessas horas e logo estávamos na cama sendo chupados por eles. Bardo e eu amamos isso, quando um casal nos coloca assim, sentados, e nos chupa enquanto só curtimos. Depois de me deixar encharcada ele me colocou de quatro e meteu com vontade. Bardo se divertia – de novo – com os peitões da esposa e deu para ver que o marido ficou um pouco incomodado quando ela pediu pra levar no cuzinho.

    Na semana seguinte lá estavam eles de novo. Agora com uma amiga – também gordinha –  com uma proposta para que eu trabalhasse como corretora de imóveis. Nunca me imaginei fazendo nada que não fosse cantar, mas ela me disse que me dariam estrutura e treinamento e que eu ia ganhar muito bem. Obviamente aquele dia terminou novamente no motel e eu não tinha certeza se a proposta era mesmo para valer ou se a gordinha só tinha ouvido falar da fama do Bardo como comedor de cuzinho, porque ela deu para ele a noite toda, não sobrou nada para ninguém.

    Mas era pra valer e agora eu precisava mesmo morar em Porto Alegre.

    Foi quando Bardo soube de um grupo que se reunia para debater as relações não monogâmicas. Fomos lá para conhecer e ficamos animados. Havia vida intelectual na putaria. Nos encontramos na cidade baixa e batemos um papo muito legal. Aquelas pessoas estavam interessadas em serem livres com suas relações para a sociedade. Era muito mais que putaria, era amor coletivo mesmo. Ficamos extasiados com a ideia, era tudo o que sempre sonhamos.

    De lá fomos para uma casa na zona sul. Mais pessoas. Um bate papo delicioso com cada um contando das suas experiências em tornar suas preferências públicas e como a sociedade batia de volta com força. Ostracismo, demissões, embargos de todos os tipos. Queríamos entender por que o sexo é tão vilipendiado, por que usamos a sexualidade para a publicidade, para vender produtos, e ao mesmo tempo condenamos quem é sexualmente livre e ativo.

    A casa era incrível: construída por um naturista, tinha muros altos, um jardim enorme com um banheiro todo de vidro onde se podia ver as pessoas no banho e uma casa de vidro nos fundos. De lá se via o Rio Guaíba e as montanhas, um belíssimo cenário.

    Comentamos com o dono da casa que precisávamos fugir da colônia e ele disse que precisava de alguém que fizesse a manutenção daquela casa. Nos fez um valor de aluguel muito pequeno e nos deixou morar lá. Conseguimos sair da colônia e ir para a capital, para o meio da vibração da putaria, do swing e das ideias intelectuais de amor livre. De um pesadelo, fomos para um sonho!

    A mudança do pouco que tínhamos foi feita no caminhão baú da putaria. Arrumamos a casa, pintamos e deixamos do nosso jeito. O jardim tinha muitas árvores frutíferas que não estavam dando frutos. O dono da casa era apaixonado pelo nordeste e tinha trazido muitas plantas de lá que drenavam toda a água do solo. Comecei a cuidar fazendo forragem de folhas e compostagem e alguns meses depois tínhamos abacates, caquis e fruta do conde, além das taiobas.

    ***

    Trabalhar estava complicado. A cidade baixa, onde ficavam os bares, estava sendo toda fechada pelos bombeiros e mal tinha espaço para música. As casas de swing estavam passando pelo mesmo problema e até a lanchonete da esquina não estava mais conseguindo fazer os eventos.

    Vivemos com muito pouco. Mal tinha o que comer e depois do terceiro mês já não conseguimos nem pagar o aluguel. Mesmo assim, foi uma época muito feliz. Éramos nós quatro, a família longe sem conseguir se meter e encher o saco. Não matriculamos as crianças na escola. Queríamos recuperar o tempo perdido em São Paulo e alfabetizamos elas em casa. Todos os dias acordávamos cedo, eu preparava um café no jardim e curtia minhas filhotes.

    Estávamos sempre de olho nas oportunidades e encontramos um curso online sobre algo chamado marketing digital. Era sobre como ganhar dinheiro trabalhando em casa, pelo computador, com qualquer produto. Podíamos usar isso para vender nossos shows e espalhar nossas músicas e nossas ideias. O preço do curso era exatamente o valor que tínhamos para o aluguel e a conta de energia e fizemos uma escolha: vamos comprar o curso e ver no que vai dar. Era melhor do que não tentar.

    O curso era uma piada e ao mesmo tempo incrível: o rapaz nos ensinava como tinha nos convencido a comprar o curso. Storytelling, Copywriting, técnicas de persuasão, todo tipo de manipulação da mente humana para vender. Ali vimos o nascimento dessa maracutaia no Brasil e começamos a acompanhar nomes que hoje são famosos nessa pirâmide maluca, com seus sete dígitos em sete dias.

    Na época nos sentimos enganados mas com o avançar das redes sociais fomos entendendo que essas habilidades seriam obrigatórias dali para frente. Ninguém mais consegue resultados sem dominar essas ferramentas. Foi uma sorte ter começado cedo.

    ***

    Começamos a andar muito com o casal de gordinhos da festa das tribos. Eram uns amores de pessoa e ficamos amigos muito rápido. Eles viviam na cidade baixa e ajudaram muito o Bardo quando ele ia para lá bater perna atrás de lugar para tocar. Começamos a nos ver quase todos os dias, nos visitar e eles perceberam que nossa situação não era das melhores. 

    E tinham a amiga que era corretora de imóveis. Ela disse que ser bonita era essencial para o negócio e que se eu tirasse meu CRECI ela poderia me colocar na maior imobiliária da cidade. Fiz um curso meio às pressas e ela me levou lá. Não fazia a menor ideia do que tinha que fazer, mas comecei a levar trufas para vender para o pessoal ou não teria nem o dinheiro do ônibus.

    Todos os dias eu tinha que atravessar um bairro perigoso às cinco horas da manhã para pegar um ônibus na avenida. Aos poucos fui entendendo a função de vender apartamentos na planta para investidores. Era, segundo o que os colegas diziam, o que mais dava dinheiro e muitos deles falavam em ganhar vinte mil reais em um mês – um número completamente surreal para mim.

    Realmente a beleza era uma exigência naquele escritório: era todo mundo lindo. Eu estava amando estar ali no meio daquele povo, ainda mais se pudesse fazer aquela grana também. Finalmente tirei minha habilitação como corretora e pude começar a trabalhar, mas não tinha carro. Meus colegas, muito safados, faziam questão de me dar carona para atender os clientes. Não vendi nada, mas acabei entendendo um pouco mais dessa vida maluca que as pessoas têm.

    Essa insanidade de fazer contas, ter dívidas, correr atrás da máquina o tempo todo para ter coisas e acabar ficando sem tempo para as pessoas que ama e para as atividades que gosta. Aquilo não era – e nunca ia ser – vida para mim por mais dinheiro que se pudesse ganhar.

    Nas caronas ficávamos de papo e eu contava minha história. Alguns se mostravam muito interessados na ideia de amor livre. Papo vai, papo vem, acabei dando uns beijos em uma colega. Muito gostosa, mas ficou só naquilo. Uns dias depois um colega que me dava carona comentou que ela contou para ele e me pediu para contar mais sobre isso.

    – Quer dizer que você é casada mas se quiser me pagar um boquete seu marido fica tranquilo com isso?

    Não quis me demorar muito nos termos. É realmente muito difícil explicar que nunca fui casada. Para a maioria das pessoas é complicado sair do pensamento binário de ou casada ou solteira: existe um universo entre essas duas coisas. Só respondi que sim, já sabendo qual era a próxima pergunta.

    – E você quer me pagar um boquete?

    Eu nem queria, na verdade. Mas ele era um gato e admirei a coragem. Estávamos em uma viela da cidade baixa, era final da tarde e mandei ele encostar o carro ali mesmo. Ele ficou me dedando enquanto eu mamava. Quando ele foi gozar, tirei da boca e ele melou a camisa toda, foi engraçado. Quando cheguei em casa estava animada para contar para o Bardo, sabia que ele ia gostar, mas ele estava com a visita de um casal que conheceu na rede social de swing.

    Eu não sabia ainda mas o Lu, aquele cara sentado no sofá, com uma voz grave e tranquila e um ar de sabedoria seria um dos nossos maiores amigos para a vida toda. Ele nos ensinou a nos organizar como empresa, a cuidar de papelada jurídica e contábil e a desenhar e executar nossos projetos. Ele é um amigo incrível na hora da música, da festa, da putaria e das tretas. Com certeza nossa vida se divide em antes e depois do Lu.

    ***

    Bardo ficava em casa cuidando de tudo. Quando eu chegava sempre tinha alguém por lá, ou do swing, ou do amor livre e eu acabava ganhando uma massagem ou me dando bem de alguma forma. Foi assim no meu aniversário de 29 anos. Cheguei exausta do treinamento e sabia que ele ia aprontar alguma para mim. Estava certa.

    Lá estava ele, Labiata – nossa amiga masoquista, mestre Rick e mais algumas pessoas. Cordas, chicotes, velas e brinquedos espalhados pelo quarto dos fundos. O quarto dos fundos era uma casa que ficava depois do jardim, a casa de vidro que seria batizada como O Matadouro.

    Não teve perdão. Não me deixaram nem tomar um banho. Suada da caminhada me jogaram no tapete, me amarraram e pingaram velas no meu corpo todo. Deixei rolar. Eram muitas mãos me tocando em todas as partes. Carícias leves com os dedos, pegadas fortes, palmadinhas e bons tapas. Labiata sabia que eu gostava da coisa bem leve e foi coordenando a turma pra ninguém me machucar. Logo ela estava com a boca atolada na minha buceta enquanto os outros me lambiam e chupavam os seios, o pescoço e as coxas. Bardo ergueu a bunda dela e começou a meter enquanto ela me chupava e, quando vi, estava com dois paus na minha cara que revezei na chupada. Foram me amarrando toda e quando eu estava completamente indefesa me ergueram no ar e começaram a revezar minha buceta sem piedade. Um entrava e outro saía, entre lambidas e chupadas das meninas. 

    Gozei. Dava jatos de squirt. Labiata se divertia ao meu lado, dando a buceta pro Bardo enquanto alguém pisava na cabeça dela no chão. Pesado, mas ela adorava.

    Satisfeita, avisei os meninos que podia terminar. Me colocaram de joelhos e chupei cada um até o fim. Gozaram meus seios e meu rosto, me cobriram de porra. Fui para o chuveiro de vidro com as mulheres que me deram um banho gostoso e delicado. Minha buceta pulsava, assada. Parabéns para mim.

    No dia seguinte nem queria levantar, mas fui. Precisava mudar minha situação financeira e era o único caminho que eu via. Aquele quilômetro até o ônibus parecia cada dia maior e mais pesado, ainda mais com a buceta ardendo como estava.

    As oportunidades de ganhar o pão de cada dia não paravam de aparecer, mas eu não queria. Era claro que eu queria a grana, queria gastar com um monte de coisas, mas nada parecia ter mais valor do que passar o dia com quem eu amo e fazer novos amigos e amores. Mesmo que para isso tivéssemos que comer só arroz com frango todos os dias de nossas vidas. Eu sabia o que meus amigos e amigas queriam e isso eu tinha pra dar (mas não para vender) de sobra. Meu corpo é nosso, minha buceta era a alma da festa e todo mundo queria dar uma lambida.

    Meus trinta anos se aproximavam e eu comecei a entrar em pânico. A voz dos meus pais dizendo que eu tinha que ter tudo até os trinta ou seria uma fracassada começou a gritar com força. Tinha crises de pânico e mal conseguia me concentrar. Era como se eu estivesse caminhando na direção final, da morte de qualquer sonho futuro que eu pudesse ousar. Eu tentei, dei tudo de mim, mas fracassei e aos trinta anos ia ganhar o prêmio de fracassada definitivo.

    Não ia deixar isso barato. Se fosse para ser uma fracassada eu ia comemorar isso em alto estilo também. Falei com o dono de uma casa de swing que queria dar uma festa lá. Ele topou e disse que todo o dinheiro dos ingressos seria meu. Comecei a ligar para todo mundo que eu conhecia e distribuir convites.

    Fiquei surpresa com a quantidade de confirmações que eu recebia. Desde alunos antigos da escola de música à pessoas que eu jamais imaginaria que iriam à uma casa de swing. No dia da festa estavam todos lá: quinhentas pessoas! Me perguntaram o que eu queria de presente e eu sempre respondia a mesma coisa: miojo. Ganhei mais de 100 pacotes de macarrão instantâneo, sabor galinha caipira (a maioria não acreditou que eu queria isso e me deu outras coisas).

    Subi no palco e olhei todo aquele povo. Dava a impressão de que eu tinha dado impressão. As pessoas vieram mesmo. Todo aquele povo das relações livres, do swing, da música, de toda a minha história, todos ali reunidos. Não parecia algo que uma fracassada realizaria. Bardo e eu cantamos e quando terminamos de cantar descobri que ele tinha aprontado uma surpresa para mim: Labiata subiu ao palco com cordas, velas e um homem de mais de dois metros de altura vestido completamente em couro, com um ziper bem no meio do rosto.

    Me amarraram no poledance e pingaram velas em mim, me acariciaram e me masturbaram com todas aquelas pessoas assistindo. Não sei o que dava mais tesão: os dedos dela atolados na minha buceta ou os olhares atentos, assustados e cheios de tesão do público presente. Quando terminaram comigo, o homem me pegou com uma mão e me colocou nos ombros como se fosse uma pena, mas eu tinha preparado uma surpresa para o Bardo – que também estava nos trinta anos: oito amigas subiram no palco e pagaram um boquete coletivo para ele ao som de Black Number One do Type O Negative – 11 minutos de música e mamada!

    De lá fomos todos para os quartos e eu fiquei na cama coletiva com muita, muita gente mesmo. Todo mundo se pegando, gemidos, suor, saliva, suco de buceta e porra e eu sabia que tinha nascido para aquilo. Muito amor, muito prazer, muita gente sendo feliz sem querer fazer mal à ninguém. Para que mais que isso? Saí de lá realizada e com dinheiro para sobreviver por muitos meses. Larguei a curta carreira de especuladora de negócios imobiliários.

    ***

    Começamos a reunir muitos amigos em casa, mas isso também podia ser enfadonho. Os amigos tinham ciúmes uns dos outros e logo não se davam bem, queriam a gente só pra eles.  O casal do caminhão não gostava dos gordinhos que por sua vez não gostavam do Lu. O pessoal do amor livre não gostava do pessoal do swing, um era alma demais o outro corpo demais e só acabava com ninguém se divertindo.

    Bardo e eu também fomos nos chateando com as pessoas. Com a turma do swing sempre tinha treta. Jogos de ego, ciúmes, traições, casais brigando e se separando no meio da suruba, muita regra e não me toques. A turma do amor livre sempre com muito papo e pouca ação, muita semântica, muitos termos que impediam a comunicação com as pessoas comuns – parecia uma bolha universitária que nunca ia sair dali.

    Nós queríamos leveza. Pessoas que colaborassem com a paz, com o amor e com o prazer sem se preocupar com as idiotices impostas pela sociedade. Aos poucos fomos nos dando conta que as pessoas tinham mais prazer na violência do que no amor. Mesmo no meio da putaria se valorizava a posse e as relações de poder – e não me refiro às prazerosas como o BDSM ou o cuckold.

    Chateados com aquilo fomos fazer o que fazíamos melhor: aumentar o círculo social antes que ele se fechasse ao nosso redor. Começamos a frequentar os bares da Cidade Baixa e da Calçada da Fama e fazer novos amigos e amigas, a maioria deles quadrados ou, como diz o pessoal do swing, preto e branco, ou P&B.

    Foi numa dessas que o casal de gordinhos nos levou como penetras pra uma festa de aniversário e quando entrei lá estava ela. Uma deusa que flutuava pelo salão. Os olhos claros, cabelo preto e liso, uma proporção de seios, cintura e bunda perfeita e uma voz poderosa, de arrepiar. Voz é uma das coisas que mais me deixa com a buceta molhada e a dela era do jeito que eu amo: grave e tranquila.  Aquela voz que você quer que te dê bom dia no pé do ouvido. Mas ela era a esposa do aniversariante, que era um desastre, um cara que eu não pegaria de jeito nenhum.

    Uma pena mesmo.

    Começamos a fazer shows nos bares da cidade e melhorar um pouco nossa condição, mas não durou muito. O incêndio da Boate Kiss tinha deixado os fiscais em polvorosa e os bares estavam fechando um atrás do outro. Em um domingo cedo fomos com um casal de amigos para o Parque da Redenção e lá vimos alguns músicos tocando na rua e passando o chapéu. Por que não tentar? Na semana seguinte voltamos lá com um violão e nenhum equipamento de som. Cantamos e deu certo, tiramos uma grana pra passar a semana. Foi um dia feliz e fizemos um piquenique no lago. Mas as coisas não ficaram mais fáceis. Fazia muito frio no inverno. Chovia. Toda hora algo nos impedia de trabalhar na rua. Conseguimos gravar um CD em casa, fizemos umas cópias e durante a semana saíamos no comércio tentando vender. Deu certo.

    Nesse meio tempo, Bardo descobriu uns pornôs super diferentes: eram diretoras, mulheres, fazendo pornô voltado para o público feminino. Ao invés do costumeiro bate estaca de pau entrando em buceta, boca e cuzinho, elas filmavam as carícias, os toques, os beijos e focavam no orgasmo da mulher. Eram verdadeiras obras de arte e Bardo ficou tão empolgado que escreveu uma música para a diretora alemã Petra Joy. Ela amou e a música foi o tema principal do filme S(he) Comes. Isso nos deu um respiro porque ficamos ganhando royalties em euro por um curto tempo. Infelizmente esse tipo de pornô não emplacou e ela parou de fazer novos filmes.

    ***

    Foi em um terça feira a noite que o convite veio dos gordinhos: a mulher linda da festa de aniversário estava nos convidando pra jantar. Sopa de Capeletti – minha favorita – e não dava pra dizer não para comida naqueles dias.

    Ela veio nos buscar em casa em um daqueles mini coopers. Nunca tinha andado em um carro desses, cheio de tecnologias, foi uma experiência. Chegamos na casa dela, uma mansão de mármore. Linda, enorme. Os gordinhos nos esperavam lá. Ficamos de papo, tomamos a sopa e ela começou a abrir uns vinhos que logo subiram para a cabeça. Ela começou a contar que tinha se separado e que os gordinhos não paravam de falar de nós, que ela estava muito curiosa. Trocamos mais ideias e os olhos dela brilhavam a cada história que contávamos.

    Em algum momento ela se virou pra nós e perguntou, na lata: querem casar comigo? Bardo se encolheu na cadeira, mas logo se recompôs. Parecia uma coisa meio stalker, psicopata, então para aliviar ele foi levando o papo para o lado do sexo. Ela parecia muito afim, mas o plano foi ficando claro: os gordinhos nos colocaram na jogada porque não estavam conseguindo comer ela e pretendiam entrar através de nós.

    Se ela não queria eles antes, continuou não querendo e acabamos indo todos embora de mãos vazias. No domingo fomos tocar na rua e quando chegamos em casa ela nos ligou chamando para a casa dela. Mandou um táxi nos buscar e nos recebeu com guloseimas e muito vinho. A coisa escalou rápido. Logo ela e eu estávamos arrancando a roupa uma da outra no sofá. Ela nunca tinha ficado com uma mulher e estava muito curiosa.

    Bardo, aquele que não é bobo nem nada (eu já disse isso antes?) ficou na dele e deixou ela curtir o momento gay dela. Ela lambeu cada milímetro do meu corpo, chupou meus seios demoradamente e ficou um minuto olhando para a minha buceta como quem toma coragem para chupar.

    Chupou e amou. Não conseguia tirar minhas coxas das orelhas e a língua de dentro de mim. Deu um grito quando eu lavei o rosto dela com um squirt e continuou a chupar por vários orgasmos a fio. No tempo certo, Bardo se levantou calmamente e abriu o zíper da calça. Ele se sentou no sofá. Pau duro como um tijolo.

    Puxei ela e nos ajoelhamos na frente dele. Dei uma lambida daquele jeito que adoro – das bolas até a cabecinha – e ofereci pra ela que não pensou duas vezes e foi com vontade.

    Já tinha percebido que a língua dela era maravilhosa na minha buceta e o olhar do Bardo para mim quando ela atolou o caralho na boca foi de êxtase. Ele também gostou. Ela mamava com fome, com vontade, como quem não colocava um pau na boca há meses. Bardo colocou os braços atrás da cabeça e relaxou, deixando nós duas em um balé de línguas pelo pau duro dele.

    Coloquei ela de pé, de costas pra ele e comecei a beijar aquela boca carnuda e gostosa com gosto de caralho e buceta misturados. Bardo passava a mão na bunda dela de leve, me olhando e admirando, um rabo gostoso, bem redondo, bem firme, uma delícia só. Fui levando ela para o colo dele e ela se sentou bem devagar. Deixou a cabecinha encaixar com leveza, toda molhada, e finalmente soltou e sentou no colo, deixando escorregar tudo para dentro. Ela soltou um gemido muito alto (e meio engraçado). Gozou na entrada, a vadia. Enfiei minha buceta na boca dela de novo enquanto Bardo estocava ela de baixo pra cima, gemendo gostoso. Perdemos a noção do tempo naquela posição deliciosa.

    Bardo colocou ela de joelhos no sofá, montou na buceta e a socou com vontade. Ela chorava de tanto gemer e eu só queria ficar ali naquele momento com eles pra sempre – estava apaixonada. Todo mundo gozou gostoso e nos jogamos no sofá. Ela perguntou o que gostávamos de comer e pedimos uma pizza.

    Fazia de tudo para nos agradar ao máximo. Perguntou se o Bardo gostava de videogames – e ele adora – então abriu uma gaveta cheia deles (herança do ex), ligou a TV e deixou ele curtindo por lá. Enquanto a pizza não chegava ficamos as duas de papo, mas o tesão voltou rápido demais: quando a comida finalmente chegou, Bardo já estava com o pau atolado entre as coxas dela de novo. Tive que ir atender o motoboy de camisola – tadinho dele.

    Metemos por horas e comemos pizza fria. Tudo aquilo parecia um sonho. Aquela mulher linda e fogosa, aquela casa imensa, todo aquele luxo. Pediu para dormirmos lá mas tínhamos nossas responsabilidades. Fez questão de nos levar em casa, bem perto dali. Quando chegamos ela quis descer e conhecer nosso tão famoso matadouro. Mostramos a casa, o jardim, o banheiro de vidro e a casa dos fundos.  O tesão já estava na flor da pele novamente. Ela nos colocou sentados no sofá, um ao lado do outro e nos chupou com leveza e vontade, tomando todo o leite do Bardo antes de ir embora.

    No dia seguinte nós éramos só suspiros. Que metida deliciosa, que mulher gostosa. Só queríamos mais. Mas nos comportamos.  Não ligamos, não procuramos, apenas esperamos. Dois dias depois ela ligou pedindo para irmos para a casa dela almoçar. A família toda. Fomos. Ela esperava com mimos e presentes. Passamos a tarde conversando, tocando piano e cantando, tomando café em uma máquina esquisita que ela tinha lá. Quando a noite caiu fomos nos arrumando para ir embora mas ela não deixou. Convidou para ficarmos para o jantar, quase em um tom de ordem. Ficamos. Jantamos e nos preparamos para ir. Convidou para ficarmos à noite. Passamos a noite e nos deliciamos naquela mulher gostosa mais uma vez.

    Os três na cama pareciam um só. Ficamos sinérgicos tão rápido que parecia que nossos corpos tinham sido feitos como um encaixe. As posições vinham naturalmente. Eu de quatro, Bardo me socando enquanto eu chupava a buceta dela. Ela sentada no pau do Bardo e eu lambendo ele enquanto entrava e saía dela, sentindo o sabor dos dois. Ela e eu em um meia nove, eu de quatro e Bardo socando meu cuzinho enquanto eu explodia em squirts na boca dela.

    Aquilo era o paraíso na terra e eu só queria que durasse pra sempre. Será que dura?

  • Capítulo 4 – Comum

    Eu estava no banho quando ele entrou, já nu e de pau duro. Coloquei as mãos na parede e empinei a bunda sem cerimônia. Ele agarrou minha cintura com firmeza e escorregou o pau fundo na minha buceta. Gozei na hora. Foi uma foda rápida, menos de 10 minutos. Me encheu de porra e saiu.

    Foram milhares como essa. Eram duas ou três por dia. Mas eu tenho a impressão, de alguma forma, que foi exatamente nessa que finalmente engravidei. Senti alguma coisa diferente bater naquele exato momento.

    Algumas semanas depois senti o enjôo. Fiz o exame e, finalmente, foi positivo! Eu ia ser mãe! Comecei a chorar, pulando e abraçando o Bardo. Contei para todo mundo. Nossos pais não gostaram muito da notícia. Agora era oficial: não iam mais nos separar.

    Sentados no nosso sofá-cama olhamos para a salinha. Não ia dar para criar um filho ali, escondidos daquele jeito, sem estrutura nenhuma. Foi aí que começou o pesadelo da vida adulta. Nenhuma imobiliária da cidade queria alugar uma casa comercial no centro da cidade para dois moleques grávidos. Papelada e burocracia. Precisávamos de um contador, de um CNPJ, de comprovantes de renda e de um fiador.

    Mesmo no meio daquela luta, sem ajuda de ninguém, Bardo ainda conseguia sonhar. Ele dizia que não podíamos só viver aquilo ali, que íamos acabar como nossos pais. Então ele começou um projeto social de ensinar música nas escolas e a coisa tomou vulto muito rápido. Em alguns meses eram mais de 400 jovens atendidos à baixo custo pelas escolas públicas da cidade. E acabou que foi ótimo para a escola: ganhamos no volume e na publicidade gratuita que o projeto ganhou nos jornais e revistas locais.

    Finalmente, depois da intervenção de uma tia do Bardo, conseguimos uma casa no coração da cidade, ao lado da parada de ônibus central. A casa tinha espaço para criar nosso bebê, dar aulas, um estúdio de ensaio e até um pequeno auditório com palco iluminado. Bardo chamou os amigos que tinham banda e conseguiu equipar a casa com um pouco de equipamento de cada um.

    A casa era viva. Raramente estava vazia. Deixamos de ir até as escolas e trouxemos os alunos até nós. Os dias eram intensos, cheios de música e minha barriga crescia junto com uma parreira de uvas ao lado de fora. Comprei um vestido marrom soltinho e confortável e Bardo me apelidou de Sabiá: marrom, gordinho, com as pernas finas e cantando.

    Só aquela casa dava um livro. Foram tantas bandas, tantas pessoas, tantas histórias em tão pouco tempo. Alguns vizinhos brigavam por conta do barulho, outros adoravam e vinham participar. 

    Quando Bardo e os amigos dele foram construir o estúdio eles muraram as janelas, colocaram isolamento acústico nas paredes e no teto e, finalmente, foram colocar o carpete. Eu estava cozinhando uma sopa quando comecei a ouvir risadas muito estranhas dos meninos. Desconfiada, fui conferir. Quando abri a porta o cheiro da cola quase me derrubou. Lá dentro eles riam de qualquer coisa, rolando no chão. Tirei eles de lá e dei leite para beberem. Ficaram doidões, os bobos, colando carpete naquela sala fechada.

    A gravidez não foi fácil. Muito enjôo, muita dor e muito hospital. Quase perdi o bebê três vezes. Não gosto nem de lembrar. Comecei a questionar o plano de ter três filhos. Um já era demais. O verão estava chegando, um calor infernal, e eu ali com aquela pança gigante, os pés inchados, me arrastando de um lado para outro.

    Até a música começou a me irritar. Bardo montou um grupo de flautas doces para fazer música medieval. Para mim eram apenas apitos desafinados (acho que eram mesmo) e aquilo me aborrecia infinitamente. Até hoje Bardo toca uma música chamada Cake Polka quando quer me perturbar. Era a pior de todo o repertório.

    ***

    A mãe do Bardo e a minha tentavam cuidar de mim, mas mais atrapalhavam que ajudavam. E elas diziam que eu ia ficar sem tesão durante a gravidez. Sinto muito que tenha sido assim para elas porque eu estava ainda mais fogosa. Procurava o Bardo pelos cantos da casa, puxava ele para dentro do banheiro e fodia o dia todo se deixassem. Também sabia que os dias estavam contados: faltavam poucos meses para não poder mais sentir ele gozando dentro o tempo todo.

    Logo a barriga estava grande demais para a maioria das posições sexuais que eu mais gostava e comecei a meter só de ladinho. E amei. Gostei tanto que essa foda preguiçosa é a minha favorita até hoje. Adoro deitar, erguer a perna e ficar levando, quentinho e gostoso, por horas.

    ***

    Meu cheiro mudou, meu jeito mudou, minha cabeça tinha pensamentos intrusivos o tempo todo. Eu olhava ao redor e tudo estava perfeito. A escola, meu relacionamento, a gravidez – mesmo que complicada – e eu estava insatisfeita. Comecei a repensar tudo, a questionar por que eu estava ali na colônia fazendo aquilo e não de volta à São Paulo vivendo a vida que eu merecia.

    Bardo ficava ouvindo minhas reclamações sem entender enquanto ele também vivia uma crise. Os amigos chamavam ele para as velhas festas, para os rolês, e dava para ver que ele balançava. A vida de solteiro era boa e ele se questionava por que tinha aberto mão daquilo. Eu via ele olhando para as mulheres com aquele olhar de diabrete –  e não fazendo nada.

    Então ele recebia os amigos em casa para jogar vídeo game, RPG e fazer música. Os alunos foram se tornando um grande grupo de amigos também. Fazíamos almoços, jantares, festas e confraternizações.

    ***

    A parreira começou a dar uvas lá fora e a minha barriga chegou ao seu limite. Era um sábado quando eu jogava videogame e senti uma pontada forte. Estava na hora. Bardo, sistemático e organizado, tinha tudo na mão. Fomos para o hospital e internei. A irmã do Bardo era uma das enfermeiras de plantão, o que me deixou muito mais tranquila.

    Mas não foi fácil. Partos nunca o são e eu consegui superar. Lavínia tinha se virado na barriga e, teimosa como é, resolveu que ia nascer de bunda. Quando descobriram já era tarde demais para uma cesária e, sem anestesia nenhuma, o médico precisou cortar minha vagina para que ela conseguisse sair. Chegamos muito perto de morrer.

    No dia 9 de Janeiro de 2005 a Lavínia chegou. Rosa. Ela era toda rosa. Os cabelos, a pele, parecia uma porquinha. A menina que nasceu com a bunda para a lua – que estava crescente – e ia dar mais trabalho do que eu podia imaginar.

    Bardo escreveu uma música para ela. Voltamos para casa com nosso bebê para uma vida completamente nova. A parreira teve que ser podada: atraiu centenas de abelhas e eu sou alérgica.

    O médico me disse que eu tinha que ficar em quarentena. Ainda não podia beber, tinha que evitar certos alimentos e ficar sem sexo. Sem sexo? Quarentena são quarenta dias, certo? NEM PENSAR. Eu estava toda arregaçada, desbeiçada, costurada e minha libido ainda estava nas alturas.

    Enfim, a quarentena durou 12 dias. Lavínia mamou, dormiu e eu olhei para o Bardo – também muito estressado com a ideia – e perguntei: será que não dá pra botar só a cabecinha?

    A foda foi ganhando um centímetro por dia até que voltamos a curtir plenamente de novo. Não tão plenamente, na verdade, porque não podia mais gozar dentro. A ideia de ter outro filho depois daquela experiência horrorosa era inconcebível.

    Bardo voltou ao coito interruptus ou ao clássico: mete sem camisinha mas goza fora. Tomar anticoncepcionais continuava totalmente fora dos meus planos.

    ***

    Fui ficando cada vez mais mal humorada. Tudo continuava lindo e perfeito. Nosso bebê crescia bem, nossa escola ficava famosa, ganhávamos dinheiro e tínhamos muitos amigos. E eu irritada. Brigava por tudo, reclamava de tudo. O pessoal da imobiliária não me aguentava mais.

    Por alguma razão que até hoje não sei explicar, fechamos tudo e fomos embora daquela casa.

    Mudamos para uma casa ainda maior em um bairro mais afastado. Sem poder chegar lá com facilidade, os alunos do projeto pararam de ir e aquilo acabou. Os amigos foram se afastando e aquela casa enorme parecia um mausoléu.

    Bardo sempre tentava me animar ou inventar alguma coisa. Começou a promover os live actions de RPG por lá e a casa enchia uma vez por mês. Tentou abrir um bar no porão mas não deu muito certo. Mas o pior de tudo eram os fantasmas.

    Bem nessa época Bardo já estava cansando da religião. Estava frequentando um centro espírita kardecista que a mãe dele ia e estudando muito. Para ele as contas não batiam. Como toda e qualquer outra religião que ele tinha estudado, tudo parecia mais do mesmo: o inferno virou o umbral, o capeta eram os espíritos obsessores e a vida parecia ainda pior com as explicações pseudo-científicas daqueles livro.

    A casa colaborava para o terror. Barulhos, vozes, vultos que se amplificavam à luz daquelas ideias. Largamos as religiões de lado de uma vez por todas e os barulhos pararam de incomodar.

    Bardo estava tentando compor mas eu achava ele muito ruim. Hoje gosto muito de algumas canções que ele fez na época. Elas falavam muito das nossas angústias. Nós pegamos a vida adulta com uma certa facilidade e aquilo parecia pequeno demais. Penso que minha insatisfação vinha daí. Era tudo muito idiota para mim.

    Logo aquela casa também me irritou. O pai do Bardo estava com um escritório livre no centro da cidade e fomos dar aulas lá. Nos mudamos para um pequeno loft nos fundos do shopping.

    Lavínia crescia muito bem, já ia na creche brincar com os amiguinhos. Ela começou a engordar muito e tive que tirar ela de lá: só davam bolacha com leite para as crianças todos os dias. Então fiquei dando aulas sozinha e Bardo ficou com ela em casa. Nessa época ele comprou uns livros de receita, virou fã da Ana Maria Braga e começou a cozinhar muito bem. Eu voltava animada para casa pensando no que ele poderia ter feito.

    E eu estava inquieta, insatisfeita.

    Alugamos uma sala gigantesca em frente ao shopping e colocamos nossa escola lá. Tinha um palco, fazíamos eventos, Bardo voltou a promover as live actions e jogos de RPG. Os amigos voltaram para perto, tinha gente o dia todo circulando.

    E tinha esse rapaz que tocava com a gente desde o (maldito) grupo de flautistas. Foi uma das poucas pessoas que nunca saiu de perto. Eu vi ele crescer naqueles anos e se tornar um rapaz muito bonito. Começamos a frequentar a casa dele, fazer jantares com os amigos, jogatinas de vídeo game e fomos nos aproximando.

    Naquela tarde fomos contratados para fazer um show na cidade vizinha e, na volta, ele vinha chorando no carro. Estava apaixonado por uma menina e ela só queria ser amiga dele. Estava nos contando que foi dormir na casa dela, todo animado, e ela trouxe um namorado. Ele teve que ouvir os dois transando no quarto ao lado.

    Bardo mexeu no retrovisor e disse para ele que isso só acontecia porque ele era cabaço, virgem, que a hora que tivesse feito sexo o cheiro dele ia mudar e as meninas não iam mais fazer aquilo com ele. Virou pra mim e disse: 

    – Fada, dá uma surra de buceta nesse rapaz pra ele virar homem.

    Me assustei. Nossa vida sexual ia muito bem, mas realmente éramos só nós dois por alguns anos já. Nem ele nem eu estávamos nos envolvendo com mais ninguém. Achei a ideia boa. Todos rimos e ficou um silêncio esquisito. Chegamos em casa e descarregamos os instrumentos. Bardo pegou o carro e disse que tinha que fazer umas coisas e ia demorar pra voltar.

    Entramos em casa. O flautista e eu. Ele fingiu que nada estava acontecendo. Eu imaginando por onde começar mas vendo que tinha perdido o jeito.

    Sentei na cama e fui lentamente tirando a blusa na frente dele. Ele tremeu e se agarrou na mobília. Vai ter um treco, pensei. Continuei puxando a blusa e permiti que meus seios pulassem dela – eu nunca uso roupas íntimas – e o pobre menino quase desmaiou.

    Acho que foi a primeira vez na vida que viu um par de seios.

    – Quer pegar? – perguntei. Ele ficou só me olhando, mudo e travado. Levantei e fui até ele. Ele olhou pro chão, não conseguia olhar pra mim. Peguei a mão dele e coloquei no meu seio.

    A mão dele estava completamente suada. Senti uma gota escorrer pelo meu seio para minha barriga, como uma carícia. Arrepiei. Puxei ele na minha direção e fui para a cama. Sentei e ele ficou de pé na minha frente. Hora do zíper! 

    Levei minhas mãos até a calça dele. Dava pra sentir o jeans tremendo. Achei graça. Fui pegar no zíper, mas ele deu um pulo para trás.

    – Não posso. Não consigo fazer isso com meu amigo! – ele disse e saiu correndo do apartamento. 

    Liguei para o Bardo e contei que, infelizmente, ele podia voltar mais cedo pra casa. Nós transamos com muito fogo naquela noite. Mas eu estava inquieta e insatisfeita. Não sou uma mulher de quase. Essa parte ficou para trás há muito tempo!

    Eu ia comer aquele cara de qualquer jeito. Comecei a provocar ele nos ensaios, nos shows, no camarim. Toda vez que ele ficava sozinho comigo tremia e tentava fugir. Eu agarrava ele e tentava beijar, pegava no pau dele, passava a mão na bunda.

    Mas ele corria.

    Bardo, gênio do crime, percebendo que eu queria muito, armou para mim. Em um domingo marcou um ensaio e saiu meia hora antes, dizendo que precisava resolver algo em outra cidade.

    Era a minha deixa. Ao invés de ir pra cima, inventei que estava triste e que Bardo e eu não estávamos bem. Pedi colo e fiquei “desabafando” enquanto ele passava os dedos nos meus cabelos. Enquanto falava com ele e ele me dava conselhos juvenis eu enfiava os dedos na minha buceta, sem que ele percebesse.

    Aos poucos, o aroma do meu suco foi tomando conta do quarto e senti que o carinho dele foi indo para minhas costas. Fingi um choro, abracei ele… e roubei um beijo. O menininho não sabia nem beijar direito. Isso não diminuiu meu fogo e fui logo arrancando a blusa dele.

    Fomos tirando a roupa entre beijos e amassos e logo eu estava completamente nua e ele de cueca. Tentei puxar, mas ele segurou minha mão. Me jogou na cama e subiu em mim. Agora vai, gostosinho! Continuou me beijando. O peso do corpo dele sobre o meu e as mãos bobas e inexperientes tentando encontrar algo para agarrar.

    Senti o volume do pau na cueca. Ele esfregava contra o meu clitóris, indo e vindo e eu curti, estava gostoso, quase uma siririca de rola. Abri bem as pernas e encaixei a cabeça do pau dele na minha buceta. Ele me beijava e empurrava pra dentro.

    Entrava até onde a cueca permitia e saía todo molhado. Tentei puxar a cueca pro lado e ele não deixou.  Continuamos naquele arreto desgraçado até que eu gozei, aquilo estava me enlouquecendo. Fui pra cima dele e tentei arrancar a cueca de novo, mas perdi a briga. 

    Ele me colocou de bruços e segurou meus braços. Coloquei a cabeça no travesseiro e gemi bem alto. Empinei a bunda pra ele, oferecendo bem minha buceta rosa encharcada. Ele encaixou o pau – ainda com a maldita cueca – e continuou empurrando. Mal passava da cabecinha e meu útero gritava por ele enterrado lá.

    Não aguentei mais. Pulei nele de novo e tentei colocar o pau na boca.

    Agarrei a cueca dele com as duas mãos e consegui revelar o pau. Abri a boca e fui com vontade, mas ele agarrou meus cabelos e não me deixou pegar. Lutei até cansar, mas não teve jeito. Me joguei na cama e fiquei me masturbando, tentando provocar. Ele ficou olhando com o pau na mão. Eu queria muito mentir pra você que essa história termina diferente, mas ele se levantou e repetiu:

    – Não consigo fazer isso com você sendo casada com meu amigo.

    Aquilo me deixou louca. Não louca no sentido de tesão, mas louca mesmo. Eu, mãe de uma menina com quase três anos, empresária, casada, saí para a rua com os amigos do rapaz. Ficava até altas horas da noite na praça, batendo papo e rodeando ele, queria que ele visse que eu era livre, que ter o Bardo ou não era indiferente.

    Bardo ficou em casa, esperando. Cuidava da Lavínia, dava aulas, enquanto eu vivia essa loucura juvenil. Deve ter durado uns vinte dias, talvez um mês. Um dia cansei de ficar no beijinho, percebi que o moleque era um frouxo mesmo e fui para casa. Estava frio e ameaçava chover.

    Entrei no apartamento e Bardo me esperava, pacientemente. Disse para ele que me sentia dividida, que precisava me divertir, que precisava de mais. Ele concordou, mas não havia muita perspectiva de futuro ali. A chuva desabou lá fora e ouvi meu nome entre os trovões. Olhei pela sacada e o rapaz estava lá fora, gritando e chorando.

    Desci e conversamos. Ele disse que ia me comer se eu fosse namorada só dele. Ah, se eu soubesse que esse seria apenas o primeiro de muitos. Mandei à merda.

    ***

    Estava desesperada por vida. Ser mãe e pagar boletos não era vida para mim. Precisava inventar alguma coisa e Bardo veio com a proposta perfeita: pediu para comer meu cuzinho.

    Estava difícil. Eu realmente tinha uma ideia de que o parto ia me arregaçar toda, que ia ficar mais aberta. Mas não. Pelo contrário, minha buceta e meu cuzinho, já apertados, apertaram ainda mais. O pau do Bardo ficou mais parecido com os dos meu ex, dava aquela arrombadinha pra entrar.

    Por trás então, era quase impossível.

    Mas tinha mais uma coisa. Eu nunca tinha contado para o Bardo exatamente como o empresário tinha me comido. Pensei que seria um exercício interessante contar naquela noite. Queria ver como ele ia reagir e com certeza ele ia querer me pegar por trás.

    Sentamos na cama e eu nem sabia por onde começar. Fui contando devagar, dando a entender para ver se ele sacava. Quando ele finalmente entendeu, me olhou apavorado. Primeiro ele ficou preocupado se eu estava bem, se aquilo era algum tipo de trauma. Não era. Eu me diverti muito. Perguntei o que ele pensava.

    – Ora, bem, de certa forma eu morro de inveja. – Ele disse. Também quero brincar disso.

    Substituímos o cuspe pelo KY. Bardo sempre foi muito carinhoso e na nossa posição favorita, de ladinho, ficava mais fácil. Ele encostava a cabecinha e meu cuzinho já travava. Fechava mesmo, lacrava. Aí ele ia passando o creme e empurrando bem devagar. Era uma questão de paciência… eu não via a hora de sentir as bolas dele nas minhas nádegas, mas o cuzinho tinha vida própria.

    Depois de muito rebolar, a ponta da cabecinha entrava, bem quentinha. Ele empurrava devagar e eu empinava tudo o que podia. Aos poucos meu rabinho cedia mais um centímetro.

    A cabecinha passava inteira e aí ficava gostoso. Ia escorregando bem devagar. Cada centímetro, uma vitória, até que finalmente ele vinha no meu ouvido e dizia: atolei tudo. E eu gozava. Um gozo gostoso que só tenho quando levo no cu. Minhas pernas amolecem e minha buceta escorre o suco devagarinho, sem jatos.

    Gozava duas ou três vezes até que meu cuzinho começava a apertar de novo. Por mais que eu quisesse duas horas de foda no meu rabo, tinha que pedir pra ele gozar.

    Se ele ainda não estava pronto eu contava mais alguma história gostosa e fazia ele encher meu cu de porra rapidinho. Ele tirava e eu sentia uma ardência gostosa.

    Bardo voltava uns dias depois e me pedia para contar mais histórias. Fui contando tudo o que passei até ali. Foi estranho no início e depois algo que aprendi a valorizar e amar. Se eu falasse de outro cara para algum dos meus ex, era briga na certa.

    Com o Bardo era diferente. Ele tinha um prazer enorme no meu prazer, no meu orgasmo – ele disse que esse sentimento tem nome: compersão. E se você ama alguém, que diferença faz se o orgasmo dela foi com você ou não? Era um mundo novo se abrindo pra mim.

    Isso foi nos unindo ainda mais. Comecei a repensar se eu queria que ele fosse embora depois de me dar os filhos.

    Foi assim que começamos a curtir o prazer um do outro. Enquanto metíamos, gostoso, de ladinho por horas, ficamos fantasiando outras pessoas ou relembrando nossas outras fodas. Apesar de divertido, ainda era algo reservado. Eu tinha medo de falar de algumas fantasias para ele, ele tinha medo de falar para mim também. Não sabíamos até onde o outro aceitaria nossos prazeres. 

    ***

    A porta da varanda estava aberta e a lua cheia banhava a cama. Lavinia, com 3 anos, dormia no berço no quarto ao lado.

    Fazíamos um amorzinho gostoso, papai e mamãe. Uma lágrima correu do meu olho. Bardo ficou preocupado e quis saber o que aquilo significava. Eu disse que estava pronta para ter a Mônica. Ele me beijou, deixou o peso do corpo dele cair sobre o meu, empurrou o pau bem fundo e encheu meu útero de porra.

    Ah! Que saudades do meu leite quente.

    Queríamos que as meninas tivessem dois anos de diferença e entramos em plena produção. Nossa agenda de foder três vezes ao dia, gozando dentro, estava de volta para minha imensa alegria. E o que eram para ser algumas semanas de sexo se tornaram dois anos.

    Não vou reclamar. Foram dois anos bem do jeitinho que eu gosto. Eu já nem tinha mais meu próprio cheiro. Respirava fundo e sentia o sêmen do Bardo subindo minhas narinas. Chegou um momento em que pensei que não ia mais engravidar. Peguei a chave de fenda e fui desmontar o berço em que a Lavínia já não cabia mais. Senti ânsia e vomitei. Já sabia o que era.

    Dessa vez fiquei com o tesão mais à flor da pele ainda eu só queria meter o dia todo. Pobre do Bardo se escondia pelos cantos do apartamento, mas eu sempre dava um jeito. Acordava ele mamando e já dava uma sentada. Mal passava o café eu já queria mais.

    E assim se foram os meses. Bardo todo ralado, pedindo água, e eu olhando pra ele batendo siririca, pedindo mais. Um dia até minha bucetinha cansou do meu tesão. Acordei com ela toda ardida e ralada. Não tinha como. O clitóris estava inchado e eu não conseguia nem pôr a mão. E meu tesão lá em cima. 

    Não tem jeito, vai ter que ser no cuzinho.

    Mas meu rabinho andava tão apertado, tão difícil. De qualquer maneira eu precisava meter e tinha que dar um jeito. Chamei o Bardo para a cama. Chegou com uma cara de sofrimento só, tadinho. Então expliquei a situação: minha buceta estava ardida então tinha que ser no cu.

    Deu para ver o ânimo dele voltando a todo vapor! Ele foi pegando o KY e vindo para a cama já de pau duro. Ralado, mas duro. Fui ficando de ladinho, daquele nosso jeitinho gostoso, mas de repente me veio um ímpeto: Eu vou ficar de quatro.

    Para mim é quase impossível dar o cu de quatro, fiz isso poucas vezes com sucesso, mas naquela hora eu sabia que ia ser assim. Bardo se assustou mas não fez perguntas. Se é de quatro e no cu, não devemos questionar, certo?

    Ele encaixou a cabecinha no meu rabinho rosa. Minha buceta deu uma pulsada e uma ardida, mas nem liguei. Ele foi, todo com jeito, colocando a cabecinha pra dentro do meu cuzinho, esperando a resistência que já conhecia. Mas que nada. Sem cerimônia alguma meu cu puxou o pau dele todinho pra dentro em uma botada só!

    Começamos a rir, os dois. Que loucura! Que delícia! Meu rabinho apertado todo soltinho e animado. Bardo não perdeu tempo: segurou minha cintura e começou a socar. Gozei na hora. Não conseguia acreditar que estava fácil daquele jeito! Eu mandava ele socar mais. Forte, fundo, rápido, parecia que naquele dia eu tinha duas bucetas.

    Gozei uma atrás da outra. Minha bucetinha ardia e derramava na cama. Bardo começou a gemer.

    – NÃO GOZA AINDA – eu gritei.

    Mas ele não aguentou. Estava gostoso demais. Encheu meu cu de porra. Eu estava em êxtase. Ele tirou e eu melei a cama toda com o leitinho escorrendo das minhas nádegas. No dia seguinte acordei animada. Será que minha buceta já tinha parado de arder? Nem pensar. Ainda estava toda vermelha, pedindo socorro.

    No cuzinho dois dias seguidos eu não vou conseguir. Não aguento. Mas por que não tentar? Fiquei de quatro de novo e tomei mais uma socada deliciosa. No dia seguinte, mais uma vez. Era incrível, podia fazer aquilo para sempre, estava gostoso demais. Bardo lembra com muita saudade do que ele chama, carinhosamente, da “semana do cu.”

    Depois meu corpo voltou ao normal – ou o mais normal que uma grávida pode ser – e isso nunca mais se repetiu. Uma pena.

    ***

    Abandonamos a escola de música e começamos a dar aulas no nosso apartamento mesmo. Menos contas para pagar. Bardo construiu um estúdio e o barulho não era um problema, já que no mesmo prédio viviam a síndica festeira, um guitarrista de heavy metal e um DJ que usava todo o equipamento que tinha para assistir TV. O que mais fazia barulho mesmo era a máquina de lavar da vizinha do lado que dava a impressão de estar no Cabo Canaveral cada vez que centrifugava.

    Montamos algumas bandas com os alunos e era muito divertido. Tinha ensaio a semana toda e em alguns finais de semana íamos para o bar fazer festas Jam, onde várias bandas se revezavam tocando a noite toda. Foi uma época muito boa. Bardo montou uma banda com alguns amigos chamada Nórdicos Sulistas FM (FM era de Fucking Machine e ninguém sabia disso). A banda era muito ruim e eu me recusava a ir nos shows deles, mas eles se divertiam muito.

    Foi uma gravidez de muita noitada. Cantei muitas madrugadas com a Moniquinha na barriga e ela chegou no dia 22 de Fevereiro de 2009 em um parto tão difícil quanto o primeiro, com direito a uma parada respiratória. Ela era linda, cabeluda, com o cabelo bem escuro. 

    Fui para a casa da minha mãe por uns dias, estava muito fraca e com o estúdio em casa não teria descanso. Bardo e Lavínia ficaram em uma festa permanente: comidinha e bagunça sem a maníaca por limpeza em casa.

    Eu estava quase dormindo quando o telefone tocou. Olha o Orkut! – dizia uma amiga minha. Abri a recente rede social e vi uma foto da Lavínia dormindo no sofá da balada cercada de latas de cerveja. Liguei para o Bardo apavorada. Onde estavam? Que maluquice era aquela? Foi apenas uma piada. Bardo foi com a Lavínia para a balada antes dela abrir. Dançaram e pularam até ela dormir, ele fez aquela foto e já estavam em casa.

    Se fosse hoje em dia penso que ele ia preso! Ainda eram bons tempos onde a vigilância moral era bem menor.

    Quando voltei para casa fiquei apavorada. Bardo estava em aula. Lavínia estava coberta de farinha. Tinha latas de cereal e caixas de leite abertas pelo apartamento todo. Todos os pratos e talheres estavam sujos em cima da pia ou ao redor dela. Cheguei de vassoura na mão colocando ordem em tudo. Estava furiosa. 

    Bardo, daquele jeito manso dele, me disse que estava com muitas aulas e deixou a Lavínia com o leite e o cereal na mão caso sentisse fome. Ela deitou e rolou!

    ***

    Tudo ia muito bem. Não tínhamos mais horários para dar aula, as bandas estavam super legais, dinheiro no bolso, duas filhas lindas e saudáveis. E eu, angustiada de novo. Bardo também andava inquieto, jogando muito vídeogame. Com a internet melhorando ele começou a jogar partidas online que se estendiam noite adentro e eu peguei no sono algumas vezes esperando ele vir me dar aquela fodinha sagrada antes de dormir.

    Comecei a reunir algumas amigas em casa para bater papo, comer pipoca e tomar chimarrão como minha mãe costumava fazer. Naquela noite uma delas resolveu ficar até mais tarde e quando me dei conta era quase meia noite. Ela se foi e fui chamar o Bardo para dormir. Quando abri a porta ele estava com o pau na mão e na tela do computador passava um filme pornô.

    Fiquei enfurecida. Quem tem uma mulher como eu e bate punheta vendo filme? Bati a porta e fui para o quarto. Ele não foi atrás de mim. Parecia que as coisas estavam desandando. Na manhã seguinte ele disse que ficou envergonhado, mas que era como ele estava se virando com não estar comendo outras pessoas. À noite, depois de colocar os bebês para dormir, ele me chamou na sala. Queria me mostrar alguns filmes. No início achei aquilo tudo muito idiota. Mulheres entupidas de silicone fingindo que sentiam prazer e gemendo de um jeito esquisito.

    Aos poucos ele foi me mostrando várias categorias e comecei a gostar mais de algumas. Quando chegou no sexo lésbico ficamos um bom tempo nos masturbando e vendo as mulheres se pegando. 

    Aquilo mexia comigo de um jeito esquisito.

    Assim como meu pai, Bardo odiava minhas amigas. Achava elas fofoqueiras e muito metidas na nossa vida. Tinha uma em especial que ele tinha um asco. Ela costumava chegar depois do almoço e pegou o hábito de ficar até meia noite. Ele ficava dando indiretas para que ela fosse, mas ela sempre ficava um pouco mais.

    Foi em uma noite que Bardo colocou as meninas para dormir e foi para nossa cama. Coloquei uma camisola para dar de entender a ela que ia dormir mas ela, ao invés de se mancar e ir para casa, sentou na minha cama e continuou batendo papo. Bardo me olhou com um olhar estranho e virou pra ela.

    – Se está na minha cama é meu. E eu vou comer.

    Ela deu uma risada e ele olhou firme para ela. Pulou e puxou ela pelo braço, jogando na cama. Ela não resistiu. Filha da puta –  eu pensei. Era isso que ela queria esse tempo todo e eu nem percebi. Ele arrancou a roupa dela, abriu as pernas e, sem cerimônia ou camisinha, enterrou o pau todo na buceta dela.

    Ela nem me olhava. Fiquei sentada na cama ao lado dos dois vendo ele socando ela e ela gemendo. Bardo não foi delicado como é comigo. Ele meteu forte mesmo. A virilha dele batia na virilha dela com um som seco. Fiquei imaginando se ele ia gozar dentro. Ela começou a gritar e cobri a boca dela com a mão. Nessa hora ela me olhou e eu senti um arrepio correr meu corpo.

    Me molhei toda. Fiquei com um tesão diferente, esquisito. Me deu vontade de arrancar o Bardo dali e chupar a buceta dela. Não tive coragem. Sentia a vontade mas ao mesmo tempo uma grande culpa, como se aquilo fosse errado. Bardo gemeu alto, tirou o pau de dentro dela e deu aquela leitada farta na barriga e nos seios. Eu olhava para os dois tentando entender o que estava acontecendo comigo. Me sentia estranha.

    Ela foi embora e depois daquele dia não voltou muitas vezes. Bardo evitava ela e nem cumprimentava. Foi uma coisa meio bicho, ficou um clima esquisito. Eu fiquei com aquele sentimento estranho. Cada vez mais queria ver pornô de lésbicas com o Bardo. Precisava entender o que estava acontecendo comigo.

    Meu corpo parecia tão diferente depois da maternidade. Parecia que minhas necessidades eram outras. Me percebi andando pela rua e olhando bundas e peitos com o Bardo. Antes eu pensava que era coisa de mulher, de ficar notando outras mulheres, mas aos poucos eu percebi que – talvez – eu gostasse delas tanto quanto ele.

    Foi em um sábado de manhã que eu estava tomando chimarrão com uma amiga – casada – e minha aluna chegou. Bardo jogava videogame no quarto. Deixei minha amiga na cozinha terminando um mate antes de ir embora e fui para a sala de aula.

    No meio da aula escuto uma batida na parede no andar debaixo – meu quarto. Imaginei que o Bardo estivesse movendo alguma coisa por lá. Depois, mais algumas batidas em sequência. Um gemido feminino. Minha aluna me olhou com uma cara esquisita.

    Bem, podia ser no andar de cima ou no apartamento do lado. De vez em quando mais algumas batidas seguidas, mais algum gemido abafado. Terminei minha aula e desci para a cozinha. O chimarrão estava frio sobre a mesa. A porta do quarto fechada. Senti um arrepio de tesão. Será? Às vezes me passam coisas pela cabeça mas raramente elas acontecem de fato. Desci a escada pé por pé, quietinha. Encostei a orelha na porta – à prova de som. Ainda assim, consegui ouvir uma respiração ofegante. 

    Bardo deve estar vendo pornô sozinho de novo. Abri a porta devagar e meu coração quase saiu pela boca. Minha buceta encharcou na hora. Ele comia minha amiga. Ela ajoelhada com o corpo contra a parede e ele socando a bunda dela em movimentos fortes e lentos. Abri a porta toda e fiquei olhando. Ela se assustou, ficou esperando minha reação. Ele continuou metendo. 

    Quando viu que não ia dar ruim, ela sorriu pra mim e soltou um gemido alto. Que puta tesão. Fiquei olhando o corpo dela suado. Os seios subindo e descendo com os bicos bem pontudos. Bardo dava tapas na bunda dela e quando percebeu que podia fazer barulho começou a socar rápido e forte.

    Eu não conseguia tirar os olhos dela. Toda linda. Tomei coragem e cheguei perto. Com minhas mãos tremendo feito adolescente, toquei nos seios dela. Que macio gostoso. Diferente da pele de um homem. 

    De repente uma buzina de carro encheu o quarto vindo lá da rua.

    – Caralho, meu marido veio me buscar!

    Ela tentou sair, mas Bardo segurou ela pela cintura. 

    – Daqui você só sai cheia de leite.

    Deu mais umas socadas fortes e rápidas e gozou. Sem camisinha, encheu ela toda de porra. Foi hilário ver ela se vestindo rápido e pingando porra nas coxas e no vestido. E eu fiquei morrendo de vontade.

    ***

    Trevas. Eu sou um monstro e vou direto pro inferno. Aquela mulher fogosa se apagou. Eu desejava pessoas do mesmo sexo que eu e isso ia contra tudo o que aprendi como certo.

    Andava pelos cantos, com medo, esperando o minuto em que deus ia me partir ao meio com um raio. Minha buceta pulsava e molhava à menor lembrança das minhas amigas nuas metendo com o Bardo. Como eu queria ter chupado elas inteiras.

    Parecia que todo aquele catolicismo tinha voltado com força total. Eu olhava para mim mesma com nojo. Andava na rua com a cabeça baixa enquanto cada peito e bunda que passava por mim gritava como que ansiando pelo meu toque. Cada gripe que as crianças pegavam, cada coisinha que dava errado, eu via como karma pelos meus desejos.

    Entrei em uma espiral negativa de pensamentos que estavam me matando. E ainda sentia a pele macia do seio da minha amiga na minha mão. Não aguentava mais aquilo. Eu sabia que tudo ia terminar mal. E eu não conseguia falar com o Bardo sobre isso. Eu imaginava que ele ia terminar comigo, que ia ter nojo de mim.

    Me preparei. Organizei as coisas para o divórcio e me organizei para ser uma mãe solteira dali para a frente. Se eu quisesse comer uma mulher teria que abrir mão de tudo. Talvez da minha vida e da redenção da minha alma.

    A carne é tão mais forte que eu.

    Bardo jogava videogame. Eu estava sentada na mesa da cozinha tomando um chá para me acalmar. As meninas brincando no tapete. Estava prestes a arruinar minha vida. E não é assim? Talvez eu fosse viver uma grande aventura solo dali para frente. Acho que me acostumei mal com o Bardo me dando suporte pra tudo. Acho que é hora de ele ir. Levantei, tomei fôlego e caminhei na direção dele.

    – Bardo. Precisamos conversar.

    -Uhm… – ele disse, sem tirar os olhos do jogo.

    Me sentei ao lado dele. Eu suava frio. Tremia. Não estava pronta pra seguir sem ele.

    – Eu gosto de mulheres. Tenho tesão nelas. Quero transar com elas.

    Ele não mudou a feição do rosto. Não tirou os olhos do jogo.

    – Uhm.

    – Como vamos fazer? – Perguntei. – Você quer separar de mim?

    Ainda sem tirar os olhos da tela ele esboçou um leve sorriso e respondeu:

    – Por que raios eu iria me separar de você?

    Me pegou de jeito. Depois do que vivemos até ali eu deveria saber que ele ia responder isso mas eram tantos fantasmas dentro de mim! A educação católica romana, a família, a escola, a igreja, a comunidade e tudo o que nos ensinam que é certo mas que, no fundo, ninguém faz.

    – Porque eu quero transar com mulheres agora.

    – Não vai mais transar comigo, então.

    – Não. Quero dizer. Eu vou sim.

    – Então vai transar com a mulher que quiser. Estarei aqui quando voltar. Se voltar.
    – Mesmo? 

    – Mesmo. – ele sorriu. Eu estava sendo boba e ingênua, nem percebi que ele estava fazendo as contas, não imaginei quantas mulheres eu ia jogar na cama dele dali pra frente.

    Levantei e deixei ele jogando. Sentei de volta na mesa e tomei um chá. Certo. Pelo menos com ele estava certo. Mas deus ainda ia me dar aquele câncer ou algo assim e eu tinha que acertar essa conta depois. Por enquanto eu não tinha feito nada ainda. E pensar não é tão pecado assim se parar pra pensar.

    Agora a questão era outra. Minhas amigas não queriam nada comigo. Elas só queriam dar para o Bardo e conseguiram o que queriam. Com quem eu ia ter minha primeira experiência? Comecei a pensar em tudo o que isso ia implicar na minha vida e, como o Bardo já estava de boas, pensei que talvez a melhor coisa a fazer fosse casar com mais uma mulher.

    Tipo um casal de três. 

    Escolhi uma mulher. Ela era linda, perfeita e solteira. Eu só não sabia se ela gostava de mulher também. Eu podia jogar a carta do Bardo e, enquanto ele comia, eu podia ir entrando aos poucos.

    Mas aí eu faço o que? Não tinha pensado exatamente nisso! Como se come uma mulher? Como se chupa uma buceta? Não. Eu precisava ter alguma experiência antes de ir atrás dela.

    ***

    Entre “quem come de tudo está sempre mastigando” e “meu corpo é um parque de diversões e eu quero andar em todos os brinquedos” não sei qual é a célebre frase do Bardo que mais define a perfeição em ser bissexual.

    Sim, nós temos acesso a tudo. Nós podemos brincar de todas as formas e posições e com cada milímetro do nosso corpo sem medo e sem preocupação. A outra pessoa tem um caralho? Ótimo! Uma buceta, bom também! Tem seios enormes e um caralho? Estamos dentro!

    Mas o caminho até aqui foi, bem, foda. No sentido de difícil mesmo. Aceitar os próprios prazeres neste mundo de falsas moralidades não é fácil. Até que a primeira oportunidade surgiu tudo foram trevas. Tentamos conversar com nossos amigos e amigas sobre o assunto, mas era o mesmo que perguntar se a pessoa queria ir direto para o inferno.

    Aos poucos, de forma velada, todo mundo se afastou de nós. Amigos, parentes, conhecidos, todos queriam distância desse casal “doente.” Perdemos amigos de infância e até as amigas que davam para o Bardo acabaram saindo de perto também.

    Só queríamos dividir nosso prazer e as pessoas nos viam como leprosos.

    A oportunidade acabou vindo (ou indo) de muito longe: um convite para um simpósio de música na capital de São Paulo. Saímos do fim do mundo, pegamos um avião e fomos conhecer outros artistas. Quem sabe, talvez por lá, alguém com a mente mais aberta? Engano nosso. Cada vez que começávamos o assunto com alguém já percebíamos os olhares de desdém e os namoradinhos saindo de perto.

    Seríamos os únicos no mundo?

    Na terceira noite o simpósio terminou em um show na Rua Augusta. O show estava uma chatice e resolvemos sair de lá e dar uma volta. Caminhamos pelos bares, vimos as pessoas, mas não tínhamos mais nem vontade de chegar em ninguém.

    Estamos falando de 2012. Não parece muito tempo atrás, mas termos como poliamor, relacionamento aberto, trisal ou swing não eram nada populares. Foi aí que encontramos esse simpático moço (que é nosso amigo até hoje) e ele nos disse:

     – Boa noite, casal! Conhecer a casa, tomar uma cervejinha? Bucetada na cara sem dó nem piedade. Mais de vinte mulheres na casa, duas virgens! As demais são de libra, aquário e sagitário, mas câncer não! Câncer é doença! Aqui é o Maison, o puteiro maiúsculo da Augusta!

    A piada interna do câncer foi ótima, feita sob medida para mim, mas minha mente focou mesmo na bucetada na cara. Era exatamente o que eu estava procurando e nunca imaginava que estaria assim, anunciado no meio da rua. Entramos. A entrada era sete reais com direito a uma cerveja e uma porção. Onde eu assino?

    As meninas dançavam em um pole dance à meia luz. Minha buceta encharcou na hora. Ia ser ali. Bardo e eu pegamos nossa cerveja e um picadinho (muito suspeito) de presunto e nos sentamos em um sofá. Logo elas nos cercaram e começaram a nos tocar e rebolar no colo. Era o paraíso. Se uma porta para o inferno se abrisse ali mesmo eu não estaria nem aí. Passei a mão na bunda, nos seios, beijei na boca. Quando vi o Bardo ele estava com uma mulher muito pequena no colo. Magrinha, cinturinha fina e uma bunda perfeita. 

    Era ela. Não tive dúvidas.

    Me livrei das outras putas e me joguei com ela. Bardo estava em êxtase. Peguei ela pelo pescoço e beijei. Lábios de mel, língua de veludo. Meu suco escorria pelas coxas. Pedi pra ela nos levar para um quarto. Queria que o Bardo me visse, que participasse de tudo. Acertamos um preço e entramos em um corredor escuro até um quartinho bem pequeno.

    Ela jogou o Bardo na cama e me agarrou com força. Na ponta dos pés, puxou minha nuca e me beijou com vontade. Sua mão passeava pelo meu corpo inteiro como quem sabe que tem pouco tempo pra aproveitar tudo.

    Em meio aos beijos fomos arrancando as roupas uma da outra. Bardo já estava nu na cama. Ela me deitou ao lado dele e começou a beijar meu pescoço. Era muito bom, me dava arrepios.

    Foi descendo pelos meus seios, lambendo e dando leves mordiscadas nos bicos. Eu estava tesa, encharcada, amando tudo aquilo. Ela demorou na brincadeira. Me fazia tremer toda, me apertava e ia com a boca nervosa, mas delicada, de um seio a outro. Bardo foi chegando e começou a chupar um deles enquanto ela chupava o outro.

    Foi aí que a energia bateu, que a lâmpada bi ligou de vez: a energia masculina e feminina no meu corpo ao mesmo tempo. Essa era a melhor sensação que eu ia sentir na vida e ainda é. É um ápice inigualável.

    Enquanto a boca dela se deleitava nos meus seios, entre um beijo na boca do Bardo e outra, seus dedos delicadamente procuravam o prazer pelo meu corpo. Ela me explorou como um bandeirante, subindo e descendo os vales e curvas das minhas coxas. Ela acariciava a parte interna dos meus cotovelos, atrás dos joelhos, meus pés, meu pescoço e quando eu fiquei completamente acesa qualquer lugar que ela tocasse em mim era um quase orgasmo.

    Foi assim que ela foi chegando na minha virilha e quando ela colocou a língua lá eu vi estrelas. Gritava e agarrava os cabelos dela, puxando a boca dela contra a minha buceta, mas ela não vinha. Foi me judiando mesmo, me fazendo escorrer o suco pelas pernas e molhar o colchão.

    Quando eu já estava alucinando ela veio subindo minhas coxas com a língua, fazendo um balé de prazer, lambeu minha virilha, e começou a chupar ao redor, lambendo o suco e me olhando nos olhos. Eu já não sabia mais quem eu era nesse momento.

    Quando ela colocou a língua dentro da minha buceta eu explodi. Só me lembro que tudo brilhava, meu corpo tremia e eu arrepiava como quem tem febre. Vi o Bardo indo para trás dela, toda pequenininha, e batendo com o pau na bundinha.

    – Quer colocar no cu? – Ela perguntou. Ele só sorriu.

    Entramos em um trenzinho delicioso. Ele empurrava o cuzinho dela e eu sentia cada empurrada na língua dela. Cada vez que ela lambia eu gozava. Dava squirts no rosto dela, que ria e continuava me chupando e me arrancando um prazer que eu nunca tinha imaginado que existia.

    Eu pensei que ia desmaiar. E quase desmaiei mesmo quando ela enfiou o dedo na minha buceta, encharcou no meu suco, veio descendo bem devagar e colocou ele no meu cuzinho. Você sabe como ele é apertado, mas aquele dedinho pequeno e encharcado deslizou para dentro de uma vez só. Vi estrelas mais uma vez e gozei alucinando.

    Bardo ria alto olhando nos meus olhos e me vendo gozar enquanto socava o cuzinho dela sem dó. Era lindo ver aquele homem enorme comendo aquela mulher pequeninha de quatro. E ele gozou bem gostoso. Quis chupar ela mas ela não deixou. Mesmo assim saí de lá com a certeza de que amo mulher. 

    Agora eu sabia ser comida por uma mulher. Parece que ia ter que descobrir como comer uma por conta própria. Eu me sentia pronta. Forte, confiante e com cada vez menos medo, menos vergonha e menos culpa. Voltamos para o sul e combinamos de encontrar com a mulher que eu tinha nos meus planos.

    Era uma amiga de muito tempo atrás. Nós trocamos uns beijos quando adolescentes mas tudo muito bobo, nem sabíamos o que estávamos fazendo. Ela tinha ficado impressa na minha pele. Por pouco e inocente que tenha sido eu lembrava do toque da pele e do cheiro dela.

    E ela era muito parecida comigo, o que o Bardo achou muito bom.

    Pegamos o carro e viajamos até ela, no interior do interior do Rio Grande do Sul. Levou um tempo até conseguirmos tirar ela de casa para dar uma volta conosco. Não sei se ela estava se fazendo de boba mas fomos levando a conversa até ficar picante e fui fazendo a proposta para ela.

    Nesse meio tempo, Bardo dirigia na direção de um motel.

    Eu estava com medo que ela ficasse irritada e que acabasse contando pra família toda – o que a essa altura já não seria um problema tão grande – e pior: que não aceitasse casar com a gente. Ela foi levando a proposta numa boa e quando o Bardo entrou com o carro no motel ela só sorriu.

    Logo estávamos nos beijando e arrancando as roupas e eu estava doida para tocar nela.

    Pulei pra cima e fui logo enfiando dois dedos inteiros na buceta enquanto o Bardo já agarrava ela pelos cabelos e fodia a boca, que engasgava e babava todo o pau dele. Foi tudo forte e violento, como um sexo cheio de saudades. Eu fui no instinto, fazendo nela tudo o que a puta tinha feito comigo e tendo novas ideias no caminho.

    Sentei por cima e encaixei minha buceta na dela em uma tesoura, como tinha visto no filme pornô. Que sensação é essa? Uma pena que não tenha palavras para descrever e você – se for homem – nunca poderá saber. Quando a carne macia, quente e rosa da minha buceta molhada encaixou na carne macia, quente e rosa da buceta dela eu gozei na hora.

    Molhei ela toda de squirt, o que lubrificou tudo e deixou o movimento muito gostoso. Nossas coxas roçavam uma na outra e as duas bucetas pareciam uma coisa só. Perdi a noção do tempo ali, gozando junto com ela uma atrás da outra e molhando a cama toda. Bardo foi até o frigobar, abriu um vinho e sentou para assistir o espetáculo. Ela realmente tinha o corpo muito parecido com o meu. Era linda e muito gostosa.

    Fodemos até perder a força das pernas. Quando caímos na cama, Bardo não deixou barato: colocou ela de quatro e começou a socar com vontade. Ela ia ser dele agora e ele tinha todo o direito de encher aquela buceta de porra. Ela me puxou e colocou a boca na minha buceta. Essa ia se tornar a nossa posição à três favorita (inclusive com homens). Ele metendo gostoso na bunda dela e ela enfiando a língua na minha buceta molhada. Bardo gritou e encheu a buceta dela de porra. Ela gozou, eu gozei, os três em um corpo só sentindo prazer.

    Deitamos os três na cama, suados. Era aquilo que queríamos para o resto da vida. 

    Foi o Bardo que “arruinou” tudo. Ele tem essa mania chata – mas muito útil –  de ver as coisas à longo prazo. É nessas que ele se vira para ela e pergunta: 

    – Você pretende ser mãe?

    Quando ela respondeu que sim meu corpo se contorceu. Alguma coisa muito primitiva gritou em mim e eu não aceitei aquilo. Eu não queria o filho de outra mulher perto de mim, muito menos que ele fosse do Bardo. Não ia servir, não ia dar. Até hoje não sei explicar por que me senti assim, mas continuo pensando dessa forma.

    Saímos de lá sem nossa mulher. 

    ***

    Acabou.

    A crise econômica da bolha imobiliária dos Estados Unidos chegou na nossa porta. Tínhamos acabado de reformar todo o apartamento e, do dia para a noite, quase todos os nossos alunos cancelaram as aulas. Nossa lista de espera sumiu.

    Sentamos e ficamos olhando as meninas. Mônica, bebê ainda, rolava na cama. Definitivamente deus estava nos punindo pela nossa luxúria. Quis dizer isso para o Bardo mas não tive coragem. Eu sabia o que ele ia responder. E era mesmo bobagem da minha cabeça.

    Recebemos um aviso do condomínio avisando que haveria uma manutenção severa das caixas de água e que podíamos ficar até dois dias sem abastecimento. No mesmo dia, uma explosão lá embaixo: de todas as caixas de energia do prédio, apenas a nossa queimou e ficamos sem luz.

    Sem água, sem luz, sem internet, sem dinheiro. Estávamos em uma caverna moderna. A luz do poste que ficava bem na altura do apartamento iluminava a cama em amarelo. Bardo dedilhava uma canção sobre aquilo no violão.

    – Vamos morar no mato. Criar galinhas – disse o Bardo – Minha vó tem um pequeno sítio na fronteira com a Argentina. Podemos começar tudo de novo.

    Me enfiar ainda mais longe no fim do mundo não parecia ser a melhor ideia que existe, mas eu também não tinha uma melhor. Contra a vontade da família arrumamos nossas coisas, nos despedimos de quem restava e partimos dali.

    ***

    Nesses anos todos morando juntos, Bardo e eu nos aproximamos de muitas formas. Com o VHS nos seus últimos dias de vida, as locadoras de vídeo faziam promoções insanas e passamos anos alugando “sete filmes por sete dias.” Assistimos quase todos os filmes dos anos 80 e 90 naquela época e fomos desenvolvendo um gosto comum.

    Nos primeiros dias ouvíamos música de fone de ouvido. Eu com minha Laura Pausini, Bardo com seu Marilyn Manson. Aos poucos fomos crescendo no gosto do outro. Mais para o lado do Bardo do que para o meu. Ele me apresentou o Blues, as divas do Jazz, a bossa nova, Elis Regina. Amei aquilo tudo.

    Uns dois anos depois comecei a cantar em uma banda que ele tinha com os amigos. Músicos iam e vinham – o que ia ser uma constante na nossa vida – mas ficávamos nós dois. A Sétimo Céu foi nossa primeira banda, com as músicas que o Bardo escrevia. Era uma banda de piano rock: piano, baixo, bateria e vozes. Tivemos o flautista por um tempo e um saxofonista muito bom uma vez. Até o baixista do Hermeto Paschoal e o dos Replicantes tocaram conosco por um tempo.

    Gravamos algumas músicas em casa mesmo e fizemos nosso primeiro álbum, o Utópico Realista. Muito ruim em termos de gravação e até mesmo musicalmente, mas era um início. Nem temos mais cópias disso.

    ***

    Bardo foi na frente e descobriu que seu avô, muito querido, estava com uma doença definhante que o levaria aos poucos. Ele queria ficar por perto. A avó não quis que ele ficasse no sítio e ele conseguiu a casa de uma tia no mesmo bairro. Fui para lá e Bardo voltou buscar nossa mudança.

    No dia que ele chegou uma tempestade caiu, soltou um fio de energia e Bardo chegou com o caminhão arrancando esse fio e deixando a rua toda sem luz. Descarregamos o caminhão na chuva e no escuro. Um começo irônico.

    Eu me vi no último bairro da cidade. Depois de nós, apenas cinco casas, um cemitério e o fim do mundo. Uma cidade quente, abafada, com um povo esquisito. Bardo me pediu para ficar em casa e descansar enquanto ele dava conta de tudo.

    Rapidamente ele colocou o projeto das escolas em pé e estávamos bem de dinheiro. Aproveitou o sobrenome da família na cidade e conheceu muita gente, abriu portas. Ele também tinha alguns amigos da adolescência, das férias no sítio da vó, e eles nos ajudaram a ficar bem.

    A cidade tinha muitos músicos. Parte por ter um festival de música notório, parte por ter muitas bandas de baile alemão. Tentamos montar nossa banda com essas pessoas mas elas não entendiam nossa musicalidade. Nosso “piano rock” não ia ter espaço ali.

    Foi uma amiga do Bardo que nos apresentou um músico de Porto Alegre que tinha mudado para lá a pouco tempo também. Com ele gravamos o Anjo de Prata, nosso segundo álbum, ainda bem ruim em termos de qualidade de gravação mas muito bom em composições. Fizemos alguns shows na região mas vimos que por ali aquela música não ia para frente de forma alguma. Nossos fãs (tinham um fã clube) eram os alunos do projeto.

    Chegou o verão e, sem as escolas funcionando, ficamos sem renda. Tivemos que pedir dinheiro para a família do Bardo, o que foi uma merda completa. O avô dele definhava e ele se desentendia com a avó, que na opinião dele estava tratando o velhinho muito mal.

    As aulas voltaram e eu não aguentava mais ficar naquele fim de mundo com as meninas. Estava brigando com o Bardo o tempo todo. Passamos o natal e o réveillon mal. Chegamos a conversar algumas vezes sobre separar de vez.

    Bardo tinha contratado uma secretária que andava colada com ele de cima para baixo. Achava um absurdo ele pagar ela sendo que eu podia fazer aquelas tarefas. Eu estava sem fazer nada e aquilo estava me enlouquecendo. Comecei a andar com eles, as crianças à tiracolo, e queria trabalhar também.

    Acabou que mais atrapalhei que ajudei e, com a prefeitura cortando o espaço das aulas, tudo acabou. A banda também não vendia nada e dispensamos o músico. A secretária foi embora e estávamos de novo na estaca zero. Bardo conversou com o pessoal da prefeitura e com alguma influência de amigos ele foi contratado para dar aulas em uma escola e no centro de cultura e eu fui contratada para ser regente do coral infantil.

    Agora estávamos no ápice do nosso desprezo pela vida comum: funcionários públicos. Para amenizar, Bardo aceitou o convite de um pequeno restaurante da cidade para tocar nos sábados ao meio dia. Pagava um cachê e o almoço para mim e as meninas. O povo gostou das músicas esquisitas dele e o restaurante começou a abrir às sextas à noite. Montamos uma banda com baterista, dois guitarristas, Bardo no baixo e eu cantando só para tocar lá. Depois de um tempo a cidade vizinha nos descobriu e nos chamou para tocar lá também. 

    Animamos, mas não sabemos brincar, eu tenho consciência disso. De repente a menina sonhadora com São Paulo quis que a banda crescesse. Arrumamos um carro e Bardo começou a viajar para outras cidades ao redor e fechar mais shows. Um desastre atrás do outro. Não sei o que tínhamos na cabeça de levar rock para cidades de colônia alemã e italiana, onde a maior distorção que existe é um trompete.

    Mesmo assim continuamos. Era aquilo ou enlouquecer de vez dando aulas com um salário fixo que atrasava todo mês. Começamos a nos organizar para gravar um álbum e um videoclipe.

    ***

    Nesse meio tempo buscamos nossos pares. Aprendemos a ser mais discretos nas nossas conversas e íamos fazendo brincadeiras para ver se as pessoas mordiam o assunto. Queríamos pessoas que entendessem a natureza da nossa relação e que pudéssemos curtir um sexo numa boa. Quem sabe a nossa namorada estaria por ali? Aquela cidade tinha mulheres realmente bonitas.

    Mas nada. Começamos a passar, com frequência, pela história do flautista: se quiser transar comigo tem que largar ele. Não julgo. Eu mesma sofri demais com as coisas que eu aprendi a acreditar e a monogamia é tão lei quanto a gravidade na cabeça das pessoas. Se não fosse assim, que ao menos fosse traição então. Traição é uma coisa boa e funcional na cabeça do monogâmico.

    Assim entramos na onda mais bizarra da nossa vida. Na boca miúda a cidade começou a conversar sobre esse casal esquisito com desejos estranhos e os convites começaram a aparecer. Nunca eram para os dois. Sempre para um ou para outro, e sempre na alta sociedade. Grupos de mulheres me chamavam para festas só com mulheres e queriam saber mais, queriam que eu contasse minhas experiências e queriam, claro, experimentar.

    É assim que é, todo mundo sabe disso e só hoje eu entendo que a hipocrisia sempre será necessária para o bom funcionamento social. Aquela líder social que promove os eventos da igreja? Chupei ela. A mãe de família exemplar com o marido influente na indústria? Derramou suco nos meus dedos. Mulheres reprimidas que encontraram em mim uma pequena fuga da dura realidade. Tudo bem, já que o marido – um político promissor no estado, estava chupando o pau do Bardo. Eu era a Nicole Kidman em uma mistura de Dogville e de Olhos bem fechados.

    Por mais que o escondido tenha sua dose de prazer, não era o que eu queria. Eu gosto do simples, honesto, do verdadeiro, do prazer solto de amarras e independente de pressão e ambiente. O puro prazer nervoso do toque da pele na pele. Não me interessa mentir, enganar, cumprimentar um homem no jantar do Rotary sem ele saber que a mão que ele aperta arrancou orgamos da esposa dele.

    Na época eu julgava muito, hoje entendo melhor. A vida não é um morango. Ela vai, aos pouquinhos, no melhor estilo tortura da gota d’água, nos levando por caminhos que nos colocam em situações que não gostaríamos de estar e não temos como sair. Ou em lugares onde o ruim fica confortável o suficiente para temermos pelo pior ainda.

    Para essas pessoas criadas em uma cidade pequena, tradicional, onde todo mundo é de alguma família que precisa manter uma imagem (você é gente de quem?) fica cada dia mais complicado viver o que bem deseja, fica difícil experimentar coisas novas e diferentes sem correr o risco de perder o pouco que tem.

    Essa era nossa dor e Bardo começou a escrever sobre isso. Nosso álbum, Lovebox (esse tem nos serviços de streaming) é recheado de canções sobre nosso sonho de relacionamento ideal com as pessoas. Ele abre com Viver a 3, uma canção sobre como seria perfeito ter um relacionamento ímpar. Ode ao Ciúme fala por si só e Chifres São Coisas da Tua Cabeça é sobre um casal que conhecemos que se traía, os dois sabiam, mas tinham um acordo velado de nunca falar a respeito.

    Também escrevi Momento Único, uma canção de amor. O álbum termina com Calibre 12, uma música sobre zumbis. Sempre tivemos um lado lúdico e adoramos músicas bobas, como as canções de Monty Python.

    ***

    A banda não estava nos acompanhando nos sonhos. Era preciso mais trabalho, mais dedicação, e eles preferiam a segurança dos seus empregos e dos seus relacionamentos. Dispensamos a banda e chamamos outros músicos. Um baterista veio do interior de São Paulo para gravar conosco e o guitarrista era um dos alunos do projeto.

    Começamos a fazer ainda mais shows, ajudamos a criar um festival de rock na cidade e fizemos algumas festas muito boas. Usávamos os bares da cidade e o centro de cultura para promover nossas festas jam e fizemos um bom movimento. Começamos a trazer bandas de cada vez mais longe na esperança de que elas nos levassem para suas cidades também – o que nunca aconteceu.

    Uma das bandas que trouxemos era realmente muito legal. E eram bonitinhos! No final do show as mulheres estavam em alvoroço querendo os meninos. Quando percebi, peguei uma ruivinha que estava de olho há um tempo, mais umas três meninas e convidei todos para continuarmos a festa em um motel. Para meu espanto, aceitaram!

    Fomos em três carros. Nossa banda, a deles, e as mulheres. Para garantir que elas não iam amarelar no caminho, espalhei elas pelos carros. Pegamos um quarto enorme no motel local e fomos todos para a cama. Queria contar uma história melhor aqui, mas só rolaram amassos a noite toda. Bardo e eu beijamos e chupamos os seios da ruivinha e eu dei uns pegas no baterista, mas estavam todos com vergonha e sexo mesmo não rolou. O pior foram os meninos da nossa banda que sentaram em um sofá e sequer participaram.

    Nas semanas seguintes, tentei trazer a ruiva para nossa casa de todo jeito, mas ela correu. Ela era linda e podia ter sido nossa namoradinha. Uma pena mesmo.

    Histórias como essa aconteciam o tempo todo, essa foda meia bomba, essa oportunidade de estar lá e travar, não aproveitar tudo o que podia. Eu fico pensando se hoje essas pessoas amadureceram e se arrependem até os fios do cabelo de não terem aproveitado mais a oportunidade – e se sequer tiveram outra assim depois.

    ***

    O avô do Bardo finalmente definhou até falecer. Aquelas mortes que vem com mais alívio que dor. Eu não suportava mais ver o Bardo sofrendo cada vez que ia visitar o velhinho. Fomos morar com a avó por um tempo e a relação deles se deteriorou ainda mais. Fomos embora e Bardo nunca mais falou com ela.

    Ela se mudou para um bairro e, como dizem muitas mulheres idosas, começou a viver. Se arrumava, ia nos bailes, se juntava com as amigas como minha mãe fazia. No fim, não sei qual foi a história dela com o avô e o que levou ela a segurar tão mal os últimos dois anos de vida ao lado dele. Era um casal antigo, casado nos anos 50, e nunca vou ter ideia do que ela passou ao lado dele tendo sete filhos em uma vida de pobreza na roça. Mesmo que o Bardo tenha razão em querer que o avô fosse melhor tratado, ela nunca me falou uma palavra sobre os motivos dela.

    Para mim, só mais uma razão para ter certeza que o casamento é uma instituição de merda.

    ***

    Chegou mais um final de ano e estávamos em alta. Eventos todo final de semana, convites para festas e jantares e Fada se apresentando com o coral infantil. A prefeitura fez um evento lindo de natal e as crianças cantaram nas janelas. Naquele dia, ganhamos a chave da cidade por nossa colaboração artística na cidade.

    E claro que eu estava inquieta. Se eu concorresse e virasse prefeita daquela cidade eu ainda estaria. Era tudo pequeno demais. As conversas eram pequenas, as ideias eram chatas e parecia haver um campo de força que impedia aquelas pessoas de ir além, de realmente curtir a vida como eu desejava.

    Não aguentava mais churrascos, jantares, bebidas, bares e uma vida social repetitiva e limitada. Não vou cuspir tanto no prato e direi que apreciei algumas coisas: aprendi a beber vinhos finos, champagnes e cervejas artesanais e tive algumas conversas interessantes – pelo menos até alguém colocar o pó na mesa – momento em que eu sempre me retirava.

    Houve uma pessoa que realmente foi muito legal de conhecer e que temos saudades. Um músico de festas italianas com quem viajamos por um tempo tocando pela região. Era uma pessoa pura, de coração bom, dessas realmente raras de encontrar pelo mundo. Além de ótima companhia era um piadista de primeira e ríamos por horas viajando para os shows. Infelizmente ele se foi.

    Gravamos o Lovebox e resolvemos fazer o clipe com a música Se eu não olhar pra você. O clipe foi feito na catedral da cidade e ilustra um casamento inusitado: a noiva, arrastando uma corrente com os pés, tenta chegar ao altar enquanto um ex-namorado, uma ex-namorada, os amigos e a família tentam impedi-la. Na reta final um morto carregando uma coroa de flores a acompanha – pois o casamento é a morte do sexo. Chegando ao altar ela é liberta das correntes e precisa fugir de todo mundo.

    A igreja católica não viu o vídeo com bons olhos. Uma cena específica em que a noiva quase beija a ex-namorada acabou virando polêmica e foi parar em todos os canais de notícia. Sem querer, vivíamos o modelo Marilyn Manson: a igreja católica nos promoveu de graça. Nunca teríamos recursos para toda aquela mídia.

    Depois que visitamos todas as rádios e jornais da região e promovemos o lançamento do clipe, acredito que eles se deram conta do que fizeram. Recebemos uma ameaça de morte. Um membro da igreja nos procurou e nos avisou que estavam preparando uma emboscada para matar minha família.

    A prefeitura encerrou nossos contratos. Os convites para as festas sumiram.

    No mesmo dia, Bardo colocou as meninas e eu em um ônibus de volta para a colônia alemã. Vendeu todas as nossas coisas e veio logo atrás. Se tem uma estaca antes do zero, é exatamente onde estávamos: não só de volta à colônia, mas de volta à casa dos nossos pais.

    Não íamos ficar ali, não tinha como. Nosso baterista voltou para o interior de São Paulo e nos disse que podíamos ir para lá, ele tinha como nos receber por um tempo. Nessa hora fiz a coisa de que mais me arrependo na minha vida: deixei as minhas filhas com as avós e fui em busca de algo maior.

    E era São Paulo, de novo. Aqui vou eu.

  • Capítulo 3 – Bardo

    Derrotada.
    De novo de volta à maldita colônia. Ver aqueles cabelos loiros e olhos azuis me irritavam profundamente. Aquele sotaque horroroso, um português ruim. O frio. Aquele vento minuano cortando meus ossos por dentro.


    Não tinha a menor intenção de ficar ali.


    Chamei meus pais para uma conversa. Se eles queriam ficar, que ficassem. Eu já tinha vivido sozinha lá mesmo e sabia me virar. Pedi as chaves da casa e o dinheiro para a passagem. Minhas malas estavam prontas em cima da cama.


    Não havia mais casa, meu pai me disse. Parece que ele tinha gasto todo nosso dinheiro tentando nos colocar nos palcos e as gravadoras e advogados tomaram tudo dele. Ele pediu dinheiro emprestado ao meu tio e, sem conseguir pagar de volta, perdeu a casa. A verdade era que eu tinha trabalhado e lutado pelo meu sonho por 13 anos e meu pai tinha arruinado tudo. Talvez o empresário tivesse razão.

    Entrei no quarto e fiquei encarando minhas malas. Eram como bigornas em cima da cama, tão pesadas quanto um sonho que virou pesadelo. Eu não conseguia nem chorar mais. Deitei no meio delas e fiquei ali olhando para o teto. Aquele cara com a coroa de espinhos me olhava da parede. Lembrei que deus tem um plano para mim e que deus escreve certo por linhas tortas. Bem tortas, bem tortas, viu? Dormi.

    ***

    Nos dias seguintes eu me senti completamente atordoada. Não tinha mais a menor vontade de cantar. Meu pai começou a fazer seus shows nos bailinhos alemães de novo e eu me recusei a ir. Para que, afinal? Quem estava sustentando a casa era minha mãe com o mercadinho. 

    Passava meus dias andando de um lado para o outro, limpando a casa, cuidando dos meus irmãos. Quando meu pai saía, as amigas da minha mãe apareciam e eu era o assunto principal. Elas não queriam saber como era São Paulo e o que eu tinha vivido lá. Elas queriam saber quando eu ia arrumar um marido e começar a fazer filhos. Meu pai trazia pretendentes. Um alemão mais feio que o outro. Era sempre um “homem bom.” – Tem um terreno ali na rua de cima, ele tem um carro bom, trabalha na fábrica. – Minha mãe me mandava para a igreja. Eu não tinha terminado a crisma e tinha que fazer aulas sobre a bíblia.

    Parecia que era isso, enfim. Casar, ser mãe. Viver aquele mesmo ciclo sem fim daquelas italianas e alemãs ao meu redor. Não parecia nada bom e não parecia ter nada melhor para escolher além daquilo. Comecei a flertar com os meninos da igreja. Havia um que era bem bonitinho e quem sabe ao menos eu teria alguém para me ajudar a aliviar a tensão e a coceira.

    Infelizmente eu já não sentia mais nada com o flerte bobo de menina. Minha inocência já tinha ido embora com os namorados de São Paulo. Eu queria maldade, sacanagem, putaria mesmo e isso era bem escasso por ali. Batia minha siririca imaginando meter com dois homens ao mesmo tempo. Não aqueles homens ali do bairro. Homens mesmo. Me pegando pelos cabelos, fodendo minha boca, metendo na minha buceta e no meu cu ao mesmo tempo. Eu queria ser feita de puta.

    Pedi um trocado para minha mãe e fui para o centro da cidade. Precisava fazer alguma coisa antes que casasse com o alemão do fim da rua. A única experiência que eu tinha além de cantar era a biblioteca e fui direto para lá. Fiquei sabendo de um lugar onde aconteciam cursos de música e pensei que seria interessante conferir. Era um prédio imponente, todo verde e pessoas com diversos instrumentos musicais entravam e saíam dele. Talvez isso vá dar em alguma coisa.

    Entrei e perguntei sobre os cursos. Me falaram sobre todos os instrumentos que eu podia aprender, com exceção do piano – estamos sem professor no momento. Mencionei que era uma pena pois era meu instrumento favorito. A conversa se desenrolou com a minha história e acabou em um convite para ser professora de piano. Eu, professora? Ri. Estava habituada com os músicos de São Paulo, com o povo do chorinho, músicos realmente muito bons. Eu sabia no máximo bater alguns acordes e dedilhar algumas melodias. Sentei ao piano e, rindo, mostrei o que podia fazer. Ficaram impressionados. Parecia que para aquele lugar eu era boa o suficiente.

    E parecia que eu tinha um emprego.

    Só não tinha nenhum aluno ainda. Comecei a passar meus dias na escola de música. Era muito melhor que estar em casa e o centro da cidade tinha um ar mais urbano, menos colônia. Me sentia melhor ali. Alguns dias depois chegou o Fabiano, meu primeiro aluno. Um menino de seus 13 anos de idade e logo na primeira aula eu senti que aquilo ia ser bom. Eu levava jeito.

    Quando ele saiu me deu o dinheiro. Trinta e cinco reais. Eu peguei as notas na mão e olhei ao redor. Pela primeira vez na minha vida eu não estendi meu braço e dei o dinheiro para o meu pai. Era meu, todo meu, e eu ia decidir o que fazer com ele.

    Tomei um sorvete. Três reais. Nesse passo meu dinheiro não ia muito longe.

    Eu precisava me alimentar no centro da cidade e a escola de música oferecia uma cozinha. Fui até o mercado e olhei os preços das coisas. Me lembrei que não sabia cozinhar. Fui até a gôndola das massas e vi aquele pacotinho amarelo que eu tinha visto na televisão muitas vezes mas nunca tinha comido: miojo. Li as instruções. Parece que consigo desenrolar isso.

    Custava menos de um real. Levei para a cozinha da escola, fervi uma panelinha de água e coloquei o macarrão. Contei os três minutos. Escorri e acrescentei o tempero. Sentei na mesa e encarei aquele prato fumegando. Enrolei no garfo e coloquei na boca. Fogos de artifício explodiram na minha cabeça. Que coisa gostosa! Comi tudo com vontade e fiz as contas: se eu tivesse mais um aluno eu poderia pagar as passagens de ônibus e o macarrão para vir todos os dias. Liberdade!

    Comecei a puxar papo com todo mundo que passava ali e divulguei que as aulas de piano estavam de volta. Tinha essa menina muito diferente, bem baixinha, olhos grandes e atentos e o cabelo preto e encaracolado. Se chamava Simoní. Ficamos de papo por um bom tempo e ela me disse que um amigo tocava teclado em uma banda e talvez se interessasse em fazer algumas aulas. Passei o telefone da minha casa para ela.

    Alguns dias depois ele me ligou. Falava alto e animado – italiano, com certeza – e me disse que tinha interesse nas aulas. Ficamos conversando por um bom tempo ao telefone. Me contou que tocava em uma banda cover de Marilyn Manson – nunca ouvi falar – e que precisava melhorar como músico. A conversa descambou para o lado pessoal e ficamos falando das nossas vidas um para o outro em uma energia muito boa. Minha mãe me olhou torto: tempo demais no telefone. Desliguei e esperei por ele.

    Era uma quarta feira, final da tarde, quando ele chegou. Um Ford Ka branco estacionou na entrada e foi meio engraçado quando aquele homem enorme saiu daquele carro pequenino. Pegou um teclado no banco de trás e se aproximou. Só quando ele parou na minha frente eu me dei conta da altura dele. Devia ter mais de dois metros e, pasme, usava saia.

    Os olhos estavam maquiados com lápis preto. O cabelo feminino, com um corte channel. A camisa preta colada no corpo super magro, marcando as costelas, com as mangas longas que se abriam no final. As unhas pintadas de preto. A enorme saia plissada de freira e coturnos do exército. Era uma versão trans da Mortícia Adams. Eu tinha visto alguns rockeiros em São Paulo. Meu pai nunca me deixava chegar perto deles – eles escutam Raul Seixas – me dizia. Eu não sabia quem era esse Raul e esse cara na minha frente era a coisa mais esquisita que eu já tinha visto na vida.

    Ele abriu um sorriso enorme e uma voz de trovão me desejou boa noite. Olhei para o menino da secretaria com um ar de desespero, tentando me comunicar com os olhos avisando que eu não ia dar aula para aquele morcegão. Não teve jeito. Fomos para a sala de aula e comecei a explicar para ele sobre a clave de sol.

    Em algum momento ele se vira para mim e diz: – você é muito bonita, professora. Enfureci. Ergui minha voz e deixei a polonesa sair. Sou sua professora, você é meu aluno e isso aqui é um ambiente de respeito! Saiba seu lugar! Ele baixou a cabeça e olhou para o piano por um tempo. Então se virou para mim e disse: 

    – Ai, amiga, eu só estava te elogiando.

    Me senti horrível. Eu devia ter desconfiado, certo? O cabelo, o lápis de olho, as unhas. Ele era gay. Mas espera aí, ele não disse que tinha uma namorada? Questionei e ele disse que era só de fachada para evitar brigas com a família. Bom, se a família dele não se importava com as roupas, com o que mais ia se importar?

    Terminamos a aula e ele me deu o dinheiro. Estava feita! Agora podia sobreviver. Mais um aluno e podia começar a fazer planos. Eu ia para casa só para dormir. Os finais de semana eram um suplício onde eu tinha que escolher qual o lugar menos pior: a igreja ou o mercadinho. Meu pai estava completamente abatido e saía cada vez menos para trabalhar. Começou a querer ajudar minha mãe e só atrapalhava. Tinha ciúmes dos vendedores, dos clientes que falavam com ela. O ambiente estava cada dia mais insuportável.

    Enquanto não tinha alunos eu andava de imobiliária em imobiliária procurando um lugar para morar no centro da cidade. Ninguém me dava conversa. Ninguém ia alugar um cantinho para uma menina sozinha e sem os papeis que pediam. Comprovante de renda, fiador, nunca tinha ouvido falar dessas coisas.

    O morcegão me convidou para uma bebida depois da aula. Disse que me levava em casa depois. Aceitei – ia economizar uma passagem e ele não era má companhia. Sentamos em um restaurante e ele pediu um vinho. Me lembrei do empresário mas esqueci rapidinho: ele pediu um vinho doce e barato. Pensei em beber aquilo o mais rápido possível e aproveitar a carona, mas ele me surpreendeu com a conversa.

    Conversa sempre foi um inferno para mim. As pessoas sempre falavam das mesmas coisas: seus empregos, o carro e a casa que queriam comprar ou tinham comprado, casar e ter filhos, mal dos outros ou alguma fofoca idiota sobre alguém da TV. O primeiro BBB estava no ar e todo mundo falava disso o tempo todo. Ele começou me contando sobre esse artista, o Marilyn Manson, e como sua vida tinha sido salva pela arte dele.

    Me contou sobre a banda, a Estação das Brumas. A roupa esquisita era o figurino de palco – que ele usava no dia a dia por alguma razão. Me contou sobre os shows intensos, sobre um monte de gente que se vestia assim e gostava de música pesada, os góticos, e sobre uma coisa que me levantou a orelha: surubas.

    Aparentemente essa turma não tinha muito pudor. Eles tinham namorados e namoradas e mesmo assim se juntavam de vez em quando e transavam todos juntos. Isso parecia muito interessante! Perguntei se ele não tinha ciúmes da namorada transando com outros caras e ele disse que não era um sentimento que fazia parte dele e que tinha assistido ela fodendo com outros e outras algumas vezes. Eu me tornava uma poça na cadeira. Era isso que eu queria com meus namorados em São Paulo! Eu só não imaginava a possibilidade.

    Me contou também que não conseguia namorar com ninguém de verdade. Que não tinha certeza se era capaz de amar como as pessoas diziam que era certo. Todos os relacionamentos dele não duravam mais que três meses, pois ele sempre se apaixonava por outra pessoa e, sem poder ficar com as duas, tinha que seguir em frente.

    Aquilo era mais que música para meus ouvidos. Ele me deixou em casa e comentou que já tinha comido minha vizinha em uma dessas festas. Mesmo? Uma dessas alemãs estava em uma suruba? Parecia que eu tinha um mundo para descobrir. Ele saiu dali para ir para a casa da namorada e eu senti uma pontinha de inveja dela. Bati minha siririca imaginando os dois transando.

    Ele comentou comigo que ela era uma prostituta (com ele era de graça) e que tinha seios enormes de silicone. Ela tinha ensinado para ele tudo o que ele sabia na cama e, aparentemente, ele sabia muita coisa que eu não fazia ideia. Fiquei curiosa.

    ***

    Começamos a nos ver com frequência, não só nas aulas. Ele era um universo de coisas que eu nunca tinha ouvido falar. Seu nome era Ricardo mas todos chamavam ele de Bardo, um apelido que ganhou jogando RPG, um jogo de interpretação de personagens que também era novidade para mim. Os bardos são artistas viajantes, caixeiros e diplomatas. Ele ganhou o apelido por ser músico e também ser conhecido por evitar brigas. Realmente era um homem calmo, tranquilo, sempre procurando fazer amizades por onde chegava comigo.

    Me fazia muitas perguntas. Contei para ele toda minha história e ele sempre me respondia me apoiando. No final, me perguntou: o que te impede de ir embora daqui? Bem, como eu explico para ele que uma mulher de 19 anos de idade já está cansada da vida? Falei para ele que tinha que terminar a crisma, que meus pais queriam me casar. Ele torceu o nariz. Se tem duas coisas que eu não precisava era de deus e um casamento.

    Conquistei mais alguns alunos mas uma notícia terrível chegou: a escola de música ia fechar. Algo sobre a prefeitura não ter mais como manter o prédio. Nenhuma novidade para mim, em São Paulo era assim o tempo todo. A cultura é sempre a primeira vítima dos cortes de orçamento. Sentei em uma cadeira e chorei. Uma das alunas, Dona Maria Otília, me viu naquele estado lamentável e me disse que tinha uma pequena sala comercial ali perto que estava fechada e que ela podia alugar se eu precisasse, sem comprovante de renda ou fiador.

    O valor do aluguel era maior do que o que eu ganhava e eu aceitei mesmo assim. Fui até a sala, um pequeno espaço em uma galeria antiga. O elevador parecia que ia direto para o inferno se você apertasse o botão errado. Trouxe meu teclado de casa, consegui duas cadeiras e avisei meus quatro alunos da mudança de endereço. Eu tinha trinta dias para conseguir mais alunos e o dinheiro do aluguel, das passagens e do biscoito água e sal – sem a cozinha o macarrão não era mais uma opção.

    Tomando mais um vinho comentei isso com o Bardo. Ele ficou empolgado. Disse que podia criar panfletos no computador e imprimir na empresa em que trabalhava sem custo algum. Ele tinha o hábito de colar cartazes dos shows pela cidade e disse que podíamos colar cartazes fazendo propaganda das aulas também. Aceitei a ajuda de bom grado e colocamos o plano em prática. Também subi o valor da mensalidade para cinquenta reais e meus alunos acharam justo.

    No dia seguinte estávamos na casa do Bardo fazendo grude de polvilho em uma panela. A casa dele – do outro lado da cidade – era muito maior que a minha. Dois carros na garagem, piscina e os pais dele eram muito cultos e educados. A mãe dele, professora, falava com um português tão correto que quase me fez chorar. Me trataram muito bem e fiquei impressionada.

    Com o grude em um balde, um pincel e cartazes que pareciam uma propaganda de um filme de Bela Lugosi saímos pela cidade colando pelos postes. Ele me avisou que era proibido e que se a polícia nos pegasse tínhamos que largar tudo e correr. Emocionante! Colamos por todo o centro da cidade e, bem na esquina principal, a polícia se aproximou.

    Eu estava concentrada no cartaz e não percebi. Senti ele pegar minha mão, arrancar o pincel, jogar no balde e me puxar pela calçada, caminhando rápido. Os policiais pararam no poste e viram o balde no chão. Começaram a olhar ao redor, procurando os meliantes. Vendo isso, Bardo me olhou e disse: vai na minha. Me encostou contra a parede, me pegou pela cintura e me beijou.

    Derreti na boca dele. Que beijo gostoso, que pegada. Esse cara não pode ser gay, não é possível. Ele ficou me beijando enquanto os policiais passavam devagar com a viatura. O disfarce deu certo mas perdemos o balde. Ele seguiu caminhando como se nada tivesse acontecido. Fomos para o carro e me levou para casa. No dia seguinte eu tinha dois novos alunos.

    Bardo começou a aparecer na salinha no meio da tarde, quando deveria estar no trabalho dele. Ele era TI em uma fábrica de máquinas e começou a inventar desculpas para sair no meio do expediente e me visitar. Sempre imprimia mais panfletos e trazia, até me ajudava a distribuí-los. Em algumas semanas eu tinha alunos o suficiente para pagar o aluguel, comer e o melhor de tudo: comprar um sofá cama para a sala. Agora eu podia dormir ali se quisesse.

    ***

    O dia dos namorados chegou e Bardo me ligou (eu tinha conseguido comprar um telefone). Disse que não queria mais estar com a namorada e perguntou se eu aceitava jantar com ele. Eu não tinha um namorado então, por que não? Aceitei. Durante a tarde o tempo fechou feio e caiu uma tempestade. Ele me buscou na galeria com uma caminhonete da empresa. Quando entrei um buquê enorme de rosas me esperava.

    E eu não esperava o buquê. Realmente o que eu estava vivendo com aquele cara era muito diferente de tudo o que eu tinha passado e eu estava me divertindo muito. Era gostoso, sem compromisso e ele me ouvia e me ajudava o tempo todo. E era tão gostoso ouvir ele contar as histórias dele. Cada vez que ele saía para um show ou um festival eu esperava por um novo pornô. Ele sempre pegava alguém ou acabava em um ménage ou suruba e adorava me dar os detalhes.

    Jantamos e ele me convidou para ir para a casa dele. Aceitei. Quando chegamos lá ele me deu um presente: o CD da Alanis Morissette Acústico MTV. Nunca tinha ouvido falar. Tenho esse CD guardado comigo até hoje. Ele também tinha comprado um presente para ele mesmo. Me disse que foi comprar o meu e não resistiu quando viu que tinha saído o disco novo do Marilyn Manson. Ouvimos uma ou duas músicas da Alanis. Gostei muito! Depois fomos ouvir o Manson. Era pesado demais para mim, agressivo, nunca tinha ouvido nada daquele jeito antes.

    Ouvindo música no quarto dele, a tempestade batendo na janela com força, os relâmpagos lá fora. Em um clima gostoso, ele se aproximou e me beijou. Tão gostoso quanto da primeira vez. Pegada de homem mesmo, tesão. Colei meu corpo no dele e senti o volume nas calças. Um homem daquele tamanho deveria ter alguma coisa enorme me esperando. Deitamos na cama e ele começou a me despir.

    Confesso que fiquei com um pouco de vergonha. Ele me falava o tempo todo dos enormes seios de silicone da namorada e os meus eram tão pequeninos. Pedi para ele desligar a luz. Ele esticou o braço, pegou um saquinho com dados de RPG no chão e arremessou do outro lado do quarto acertando o interruptor em cheio. A luz se apagou e o quarto iluminou rapidamente com um relâmpago que explodiu lá fora. Minha buceta virou uma cachoeira de tesão.

    Arrancamos a roupa um do outro. Estávamos nos beijando intensamente, quase mordendo um ao outro quando ele se lembrou que esqueceu de pegar preservativos e não tinha nenhum. Que assassinato de clima! Ele se levantou e foi pedir um para o pai dele. Achei aquilo muito bizarro! Se eu pedisse um preservativo para o meu pai era morte certa. Fiquei sentada na cama, a buceta encharcada, ouvindo aquela música esquisita e pensando como foi que eu tinha ido parar ali.

    O quarto dele estava cheio de instrumentos musicais, livros e videogames. Era tudo muito diferente da minha realidade. Os CDs tinham nomes que nunca ouvi falar: Aerosmith, Ramones, Cannibal Corpse, Nirvana. Muitos livros com títulos em outros idiomas. Na parede um enorme cartaz com um homem monstruoso em uma versão podre e decadente de Jesus Cristo. As letras góticas diziam: Marilyn Manson.

    Ele entrou no quarto animado me mostrando um preservativo. Apagou a luz e voltamos aos beijos e amassos. Eu não deixava ele tocar meus seios, mesmo que a pegada dele, com uma mão enorme, fosse quente e deliciosa. Ele me deitou na cama e foi descendo e beijando meu corpo. Me arrepiei quando ele beijou minha virilha e entrei em transe quando ele colocou a boca na minha buceta.

    Nenhum namorado tinha me chupado ainda.

    Foi uma das coisas mais gostosas que experimentei até aquele ponto. Era extremamente quente e molhado. Ele tinha a boca macia e a língua fazia evoluções e explorava cada milímetro da minha buceta. Eu torcia minhas pernas e ele segurava minhas coxas com força. Gemi alto. Fiquei com medo que alguém na casa ouvisse mas ele não pareceu se importar.

    Depois de um tempo que pareceu infinito eu senti ele encaixar a boca na minha buceta toda e a ponta da língua entrou bem no ponto da coceira – que agora eu sabia que se chamava clitóris. Explodi na boca dele. Ele lambia e chupava meu ponto G e arrancava jatos de suco. Gozei tantas vezes que perdi a conta.

    Ele subiu meu corpo de volta me lambendo e chupando. Entreguei meus seios e ele chupou os bicos com vontade, elogiando como eram bonitos e gostosos. Subiu pelo meu pescoço e beijou minha boca. Fui tomada por um sabor delicioso: O gosto do meu próprio suco. Eu não fazia ideia que buceta podia ter um gosto tão bom!

    Ele puxou o preservativo e veio para cima de mim. Eu não deixei. Coloquei ele deitado na cama e, no melhor estilo Daenerys Targaryen, fiquei por cima. Estava escuro e eu ainda não tinha visto ou tocado no pau dele. Estava muito curiosa. Será que ia entrar em mim? Já faziam meses que eu não via um caralho e devia estar muito apertada. Peguei na mão e me surpreendi: era menor do que os dos meus antigos namorados (e definitivamente muito maior do que o do empresário).

    Me encaixei em cima dele e sentei. O pau deslizou gostoso para dentro e tocou meu útero. Sabe quando você diz que uma pessoa é seu número? Foi o que senti na hora. Era o tamanho perfeito. Não me deu aquele desconforto, aquela arrombada que os outros me davam. Foi só prazer, foi delicioso e não vou mentir: podia ter durado mais. Ele gozou muito rápido. Na hora não me importei, foi até gostoso ver que ele amou tanto a minha buceta porque ele ia ter que visitar ela com frequência.

    Um tempo depois ele me contou uma coisa e eu vim a ouvir isso de muitas outras pessoas: que minha buceta é muito mais gostosa do que tudo o que ele já tinha experimentado (e vindo do Bardo, acredite, ele experimentou muita, muita coisa mesmo). Disse que é carnuda, quente, sempre encharcada e tem um sabor único. Bom saber…

    ***

    Fiquei com receio de que depois de me comer ele ia vir com alguma chatice mas não. Sem conversa ruim, sem nomes para o relacionamento. Nós fodíamos e era isso. E como fodíamos. Passou a ser todos os dias, duas ou três vezes por dia. Ele estava quase perdendo o emprego e eu perdia uma ou outra aula. Quantas vezes os alunos chegavam e batiam na porta e eu não podia atender porque estava no sofá-cama com a bunda empinada!

    No final de semana eu ia para o quarto do Bardo e saíamos de lá só para comer. Os pais dele estavam enfurecidos e começaram a não me tratar tão bem assim. O quarto cheirava a sexo o tempo todo. O domingo à noite era desesperador, quando eu tinha que ir embora. Muitas vezes eu ia chupando ele no carro até minha casa.

    ***

    Em uma daquelas conversas com as amigas da minha mãe eu reclamei da camisinha. Disse que não gostava, que me deixava ardida e que perdia a graça. É muito mais gostoso no pêlo e todo mundo sabe disso. Uma delas me disse que já que eu não queria tomar o contraceptivo (todas elas tomavam e eram gordas) eu podia contornar isso de vez em quando. Segundo ela era impossível engravidar durante a menstruação e que eu estava liberada para levar porra dentro à vontade durante o fluxo. (Nota: Essa informação está incorreta).

    Comecei a contar os dias para a minha próxima lua. Eu tinha dado umas 10 vezes sem camisinha para os antigos namorados mas nunca deixei gozar dentro e ia ser o Bardo que ia me dar esse prazer pela primeira vez. Deve ter sido a única vez na vida que senti cólica e fiquei feliz – estava vindo!

    Não comentei nada com ele. Não sabia como ele ia se sentir. Entramos no quarto e avisei: estou menstruada. Ele me fuzilou com o olhar, como quem pergunta o que eu tinha ido fazer lá. Perguntei se ele se importava de meter mesmo assim. Ele disse que nunca tinham proposto isso para ele e que não se importava em tentar. Honestamente eu também nunca tinha metido menstruada e ia ser novidade para mim. 

    Começamos os amassos, chupei ele bem gostoso (já que dessa vez ele não ia me chupar, né, vampiro doidão?) e fui sentando em cima dele. Ele alcançou a gaveta das camisinhas e eu segurei a mão dele. Não precisa. Expliquei para ele que não tinha risco de engravidar menstruada. Ele me olhou com uma cara esquisita de quem não estava comprando muito a ideia. Insisti um pouco e ele topou.

    Que delícia quando o pau dele escorregou quentinho para dentro de mim. E realmente transar menstruada é uma sensação um pouco diferente. Tudo muito mais molhado. Metemos gostoso e ele não aguentou muito tempo, não estava acostumado a meter no pêlo. Senti ele começar a pulsar, a gemer, e deixei meu peso todo sobre ele. Esperei e recebi: um jato, dois jatos, três jatos… quatro jatos? Ele não parava de gozar. Me senti toda quentinha e preenchida por dentro e a porra já saía pelos lados da buceta antes mesmo dele tirar de dentro. Quando ele tirou fiquei olhando aquela poça de porra e sangue enorme na barriga dele. Peguei uma camiseta e limpei.

    Que sensação maravilhosa. Até hoje eu não experimentei sensação melhor na vida do que levar uma gozada farta dentro do útero. É o ápice do prazer físico. Gozando ao mesmo tempo então, é surreal. Eu quero mais disso.

    Metemos sem camisinha por dias a fio. Nos dias seguintes eu sentia o cheiro da porra subindo da minha buceta para o meu nariz e cada vez que sentia me molhava toda de novo. Eu estava puro instinto. E uma coisa tinha me deixado curiosa: meus outros namorados gozavam muito menos leite. Eu precisava conferir isso.

    Naquela tarde ele resolveu dar uma passada rápida pela salinha. Puxei ele para o sofá, abri as calças dele e tirei aquele pau gostoso para fora. Não era só gostoso, aliás, era bonito. Hoje posso falar, já vi pau o suficiente na vida, que tem pau feio e pau bonito e o pau do Bardo é lindo. Outras pessoas vieram comentar isso também. E com esse belo pau no meu rosto era hora do teste. Eu ainda não tinha chupado ele até tomar tudo e queria saber.

    Mamei gostoso. Ele agarrado nos meus cabelos e eu dando meu melhor. Lambendo a cabecinha, descendo com a língua até as bolas e subindo de volta. Colocando fundo na boca e chupando rápido e forte. Segurava as bolas dele esperando que elas pulsassem. Logo elas pareciam um coração na minha mão, ele gemeu gostoso e explodiu. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Não consegui segurar a porra na boca, ela vazava pelos cantos e tive que engolir um pouco. Eu estava em êxtase. Era muito leite, muito mais do que qualquer namorado que eu tive antes. Que delícia.

    A surpresa não terminou aí. Ele me levantou, me puxou para perto dele e beijou minha boca. Isso foi realmente incrível. Jamais nenhum namorado meu faria isso e honestamente encontrei poucos homens depois que fariam o mesmo. Ele beijou minha boca cheia de porra. Derreti e gozei com o beijo. Minha buceta virou uma poça e tive que dar uma metida gostosa de pé contra a parede. Ele meteu sem camisinha e gozou nas minhas coxas. Muita porra de novo, escorrendo pelas minhas pernas. Caralho de homem gostoso!

    ***

    Ele não parava de me surpreender. Por um lado, ele tinha um mundo para me mostrar. Eu nunca tinha mexido em um computador antes, então ele me deu um. Me ensinou a usar o editor de texto e de imagens e a criar meus próprios panfletos. Logo eu tinha uma impressora e podia dar aos meus alunos uma experiência melhor com partituras e cifras personalizadas. Tinha até meu próprio papel timbrado!

    Me apresentava filmes, livros e músicas. Conheci Quentin Tarantino, Tim Burton, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e também um monte de cultura pop. Eu realmente cresci em um universo paralelo com meu pai me proibindo de ver e ouvir coisas. Conheci Júlio Verne e Edgar Allan Poe. Ouvi Ozzy Osbourne e me apaixonei completamente (pela fase pós Sabbath). Joguei Playstation. Realmente o mundo tinha muito mais coisas do que a bíblia podia oferecer.

    Assistimos juntos a um filme chamado Assassinos por Natureza. Era sobre um casal que viajava em um conversível matando pessoas. Gostamos tanto desse filme que assistimos ele de novo e de novo. Mickey e Mallory Knox. Nos víamos neles. Não na parte de matar pessoas, mas na parte de se libertar daquela chatice toda e sair viajando por aí, quem sabe morando em um motorhome. Brincamos que nossa casa ia se chamar Borboleta de Metal, como um ser errático que anda por aí lambendo as flores sem destino.

    E ele me surpreendia na cama também. As bolas dele eram enormes. Quando ele me socava com as pernas abertas o saco ficava batendo no meu cu e era uma sensação nova e deliciosa. A ex-namorada dele ensinou tanta coisa que ele parecia uma enciclopédia de posições sexuais. E foi em um desses malabarismos que, em um meia-nove ele enfiou a língua no meu cuzinho. Tremi por inteiro, me arrepiei toda. Ele lambia e chupava e minhas pernas derretiam. Comentei que amei aquilo e ele disse que eu podia fazer o mesmo nele. 

    Nessas horas eu ficava bem confusa. Ainda não tinha certeza se ele era gay. Ele me contava sempre sobre as mulheres que tinha comido aqui e ali e nunca contava sobre os homens. E confesso que foi a coisa mais esquisita que alguém me pediu para fazer, mas fiz. Chupando o pau dele fui fazendo aquela minha escalada gostosa, descendo para as bolas e dali entrei em um novo território. Ergui o saco, lambi por baixo e senti ele arrepiar. Segui em frente com a língua bem molhada e cheguei no cu dele. Que gemida! Com certeza ele sente prazer por aqui! Lambi e chupei com gosto vendo ele trançar as pernas e gemer.

    – Enfia o dedo! – ele disse. Aí eu travei. Como assim? Você quer que eu coma o seu cu? Era isso mesmo. E era bizarro. Olhei aquele cuzinho peludo, molhado e piscando e babei meu dedo indicador. Aqui vamos nós. Entrou fácil até o talo e ele agarrava os cabelos gemendo. Gay, totalmente gay. Ele curtiu por um tempo e de repente tirou meu dedo, me colocou de quatro e me fodeu com uma vontade que ainda não tinha visto. Parece que descobri algum botão mágico.

    ***

    Minha menstruação não veio. Bardo tinha comentado que aquela ideia de gozar dentro não parecia boa, mas não tinha Google na época e ninguém mais para conferir. Não falei nada para ele, não era problema dele. Corri para o laboratório e pedi para fazer um exame de gravidez. Levava dois dias para ficar pronto e eu devo ter tido os dois dias mais longos da minha vida.

    Na minha cabeça ficava imaginando a merda que ia ser. Sem lugar para morar, mal ganhando para sobreviver e com um filho sem pai. Minha família, se não me matasse, ia tentar me casar o mais rápido possível com algum alemão para meter um golpe. Também fiquei tentando pensar em coisas boas. O que seria bom em ser mãe? Eu com certeza faria tudo diferente da minha: minha filha saberia o lado certo do absorvente.

    O exame chegou e eu estava tão nervosa que não consegui abrir. Minha mão tremia. Liguei para o Bardo desesperada. Ele veio correndo. Sentamos juntos no sofá-cama e abrimos o papel. Negativo. Senti alívio por nós dois e, ao mesmo tempo, um pouco de frustração. A ideia que a igreja, minha mãe e as amigas dela colocavam todos os dias na minha cabeça parecia estar ganhando espaço.

    Bardo disse que não ia mais gozar dentro e isso também foi extremamente frustrante.

    ***

    Minha mãe insistia que eu precisava me crismar. Eu já nem ia na missa aos domingos, mas para não dar ainda mais desgosto aceitei. Bardo foi comigo na cerimônia e ficou do lado de fora, ouvindo música satânica no carro em sinal de deboche. O padre falava para os jovens (eu estava atrasada ali) dando lições de vida que eu tinha vontade de explodir rindo. Pobres almas perdidas.

    Voltamos falando mal da igreja no carro com minha madrinha no banco de trás horrorizada. Bardo almoçou na minha casa. Comparado com a família dele, a minha era muito grosseira, inculta e ignorante. Tive que pedir que usasse um figurino mais discreto, o que não impediu os meus pais de agirem como idiotas. Meu pai e meu tio ficaram tentando aterrorizar ele e minha mãe agia como um bicho, pegando as comidas com a mão e colocando no prato dele. Para piorar eu, nervosa, ainda dei um garfo para ele tomar sopa. Bardo, na sua tranquilidade costumeira, já esperava tudo isso e tirou de letra. Ele sempre dizia que família é algo que se escolhe durante a vida, não essa turma com quem nascemos.

    Minha casa era um lugar que eu quase não frequentava mais. Meus pais pareciam não se importar muito tendo meus irmãos para cuidar, meu pai parando de fazer shows e minha mãe desesperada porque ele ficava em casa o dia todo infernizando a existência dela. Dormia algumas noites no sofá-cama. Bardo instalou um chuveiro no banheiro social e eu já tomava banho por lá. Depois consegui comprar um fogareiro e fiz uma mini cozinha onde pude voltar a comer macarrão instantâneo e o “arroz ai”.

    “Arroz ai” foi o nome que demos para essa delícia gastronômica que criamos, Bardo e eu. Nenhum dos dois sabia cozinhar e comer só miojo estava ficando enjoativo. Na época deviam ter uns dois ou três sabores e o meu favorito até hoje é galinha caipira. Nós estávamos descobrindo os animes japoneses e estávamos assistindo um chamado Video Girl Ai. Ai, em japonês, significa amor.

    A receita era simples e efetiva para encher a barriga: arroz com sazon (minha outra descoberta magnífica, parecia o tempero do miojo), uma lata de milho e uma lata de ervilha em conserva. Pronto. Fazia em uma panela grande e comia até dizer chega assistindo anime no computador. Mais tarde descobrimos que o coração de frango era barato (algo em torno de R$ 4 o kilo) e fizemos um upgrade no prato.

    Bardo começou a passar muito tempo comigo mesmo. Mal ia trabalhar. Conversávamos o dia todo enquanto eu não estava em aula. Falávamos sobre como tudo aquilo ao nosso redor parecia tão pequeno e idiota e como não queríamos viver as vidas dos nossos pais. Os amigos dele estavam se afastando, todos tomados por empregos, família, filhos e compromissos chatos que nenhum deles queria cumprir. Os dias de diversão estavam se acabando para todos nós.


    Ele ainda tinha a banda e esses amigos da putaria. Se eu tivesse alguns amigos como esses eu nunca ia precisar casar. Teria sexo à vontade e não via a hora dele me levar para a suruba. Mas a colônia tinha plantado uma ideia na minha cabeça que parecia não querer sair: agora eu queria ser mãe.

    Conversei com o Bardo sobre isso. Ele não queria ter filhos. Convidei ele então para me engravidar e me deixar criar os filhos sozinha. Eu não sei onde estava com a cabeça, era uma ideia extremamente idiota e ainda é, mas eu queria. Ele disse que podia fazer e que não ia me deixar desamparada, que ia ajudar financeiramente numa boa. Então começamos ali mesmo.

    Hoje, quando eu olho para trás, fico pensando que uma grande parte dessa ideia de ser mãe era só eu querendo levar porra dentro da buceta mesmo. É tão gostoso, ainda amo do mesmo jeito. Me lembro nitidamente dele me colocando de pé escorada contra o sofá, eu empinando a bunda, ele batendo com o pau duro na minha nádega como sempre faz antes de meter. Entrou quente e macio e só a ideia de que ele ia gozar dentro já me fez gozar na hora. Escorri squirt pelas coxas. Ele comeu gostoso e o tempo entrou em slow-motion quando ele começou a gemer. Explode, vai… uma, duas, três, quatro, cinco… senti o leite branco preencher o meu útero com calor e depois escorrer pelas pernas, manchando o carpete.

    Se alguém pudesse fazer um filho definitivamente era esse cara.

    Metemos todos os dias duas ou três vezes. Meu corpo tinha um cheiro permanente de porra. Minha buceta estava sempre colada na calcinha. Eu me sentia bem, cheia de energia, dava aulas com gosto e sentia que estava fazendo a coisa certa, algo muito bom.

    ***

    Alguns dias depois, na sexta-feira 13 de fevereiro de 2003, Bardo apareceu na sala. Com um ar diferente e sem as roupas espalhafatosas, me chamou. Caminhamos até a igreja central que estava vazia. Ele me levou até o altar e tirou um par de alianças de prata. 

    – Em meu nome, que sou deus da minha vida, eu nos caso.

    Quando colocamos as alianças ouvimos muitos aplausos. Um grupo de turistas idosas tinha entrado sem percebermos e presenciado a cena. Nos abraçaram e parabenizaram – algo que nossa família não teria feito. Meu pai queria o Bardo morto e a mãe dele me queria pelo menos longe.

    Naquela noite ele fez o último show com a banda e se despediu dos amigos. Algo nele havia mudado severamente. E eu perdi a oportunidade de conhecer a turma da suruba. Logo depois fiquei sabendo que aquela turma tinha se desfeito também, todos absorvidos pela vida adulta.

    Por que ele tinha feito aquilo? Acontece que o Bardo é mesmo uma raridade. Antes de mais nada ele é um safado. Um cafajeste. Ama sexo acima de tudo e passa o rodo mesmo. Odeia trabalhar. Faz de tudo para não precisar correr atrás da máquina. Por outro lado é uma pessoa de imensa responsabilidade afetiva, que se importa com as pessoas ao seu redor e vai contra tudo o que acredita para garantir o bem estar das pessoas que ama. E ele queria garantir que eu me sentisse segura no meu projeto mãe.

    Ele conseguiu ser demitido e ganhar uma grana além do seguro desemprego e usou esse dinheiro para investir nas minhas aulas. Foi aí que descobri outra coisa incrível nele: quando ele quer aprender alguma coisa, não tem nada que o impeça. Em alguns meses ele absorveu toda a teoria musical, treinou no piano e estava dando aulas também. Panfletava o dia todo e colocou anúncios no jornal. Logo nenhum dos dois tinha agenda livre e nossas fodas começaram a ficar para a noite.

    Sem perceber a sutileza da vida, seguíamos exatamente o caminho do nosso desprezo. O dia a dia, a pressão da nossa família, a distância dos amigos, as contas para pagar, a pressão sobre ter um carro, uma casa e uma família foram tomando conta dos nossos dias e nossas horas e nos transformando nos adultos chatos que não queríamos ser.

    Bardo fazia muita força para se manter acordado. Todos os dias ele me lembrava que não era isso que queríamos, que em algum momento teríamos que fazer um desvio. Ele não abria mão de suas longas horas de videogame e em uma sexta a noite depois que o último aluno se foi eu sentei com ele para conhecer um jogo chamado The Sims.

    Nesse jogo você controla um ou mais personagens em uma vida comum: ter um emprego, ganhar dinheiro, construir e mobiliar uma casa e trabalhar até ficar velho e morrer. Não sei porque alguém pensa que isso pode ser divertido, mas esse jogo ficou muito famoso. Jogamos parando só para comer e transar até o domingo à noite, quando nossos personagens finalmente morreram de velhos.

    Saímos para jantar com a irmã do Bardo e o namorado dela e ficamos conversando sobre isso. A vida ia ser só isso? Comprar uma casa e mobiliar, ter filhos e um cachorro e trabalhar até morrer? Parecia tão chato e desinteressante. Estávamos em uma séria crise juvenil olhando para um caminho aterrorizante pela frente.

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  • Capítulo 2 – Pelas Costas

    Em um pesadelo você corre, se debate e nunca sai do lugar. Era o que parecia essa viagem. Eu já podia ver no céu noturno o clarão da capital ao longe quando o empresário disse que teríamos que ir até a cidade dele, alguns kilometros de volta ao sul.

    Paramos, muito contra a minha vontade, em uma das últimas cidades do estado. Conhecemos o escritório do empresário, seus funcionários e sua esposa grávida. Parecia tudo muito bom e legítimo. Ele mostrava fotos impressas dele com artistas famosos e dizia que ia nos colocar nos maiores programas de televisão.

    Logo meu pai e eu estávamos no papo. Ficamos hospeados na casa dele dormindo em uma cama de verdade e fazendo alguns shows ao redor enquanto ele organizava as coisas para seguirmos ao sudeste e encontrar o sucesso e a fama. Nesse meio tempo fiquei sozinha com ele muitas vezes e, com a minha coceira cada dia pior, nem percebi que ele me fisgava.

    Não era exatamente um homem bonito mas se vestia muito bem, falava com eloquencia e usava bons perfumes. Andava em um carro novo, sempre com algum funcionário atendendo seus pedidos. Me levou em bons restaurantes e comprou roupas e figurinos.

    Ele não se insinuava. Ao menos não de uma maneira que eu, boba, podia perceber. Ele não tinha o olhar de diabrete e isso me fazia sentir confortável perto dele o tempo todo. Por outro lado ele também não tinha o olhar de bobo dos meninos. Era outra coisa. A maneira dele me olhar, de falar comigo, de me tratar, tudo isso foi mexendo comigo de uma maneira totalmente nova. Não era aquele fogo rápido que eu sentia o tempo todo e sim algo que foi sendo lentamente construído.

    Naquela noite fui bater minha siririca e me peguei pensando nele.  Imaginei ele me beijando e eu sentindo o volume na calça dele. Como será que ele era sem roupa? Ficava pensando nas imagens da bíblia e escolhendo um esteriótipo. Será que um dia eu teria coragem de ver ele nu? Imaginei o pinto dele encostando na minha perereca. Senti um arrepio e gozei.

    Me senti esquisita. Nunca tinha pensado em um dos meninos enquanto batia a siririca. Alguma coisa mudou em mim naquele momento. Me deu medo. Puxei o rosário e rezei até dormir.

    No dia seguinte encontrei ele sozinho na cozinha fazendo o café da manhã. Fiquei olhando para o chão. Estava completamente envergonhada pelo que tinha feito na noite anterior como se ele soubesse que eu tinha pensado nele daquela forma. Eu tremia e tentava conversar normalmente sem sequer ouvir o que ele dizia. Meu corpo gritava, minha calcinha tornou-se uma poça. Senti o meu cheiro subir até o nariz e fiquei com medo que ele pudesse sentir também. Me levantei da cadeira e tentei sair. Ele segurou meu braço com delicadeza, me levou até ele e me beijou.

    Eu derreti.

    Era tudo o que eu esperava que fosse. Não o beijo de menino e sim o de homem. A boca firme, com a dose perfeita de língua. Os lábios pareciam de veludo e tinham sabor de mel. O braço forte dele me segurava em pé já não tinha nenhuma força nas pernas. Eu podia morrer ali.

    A mão dele começou a passear pelo meu corpo. Passou pelo meu rosto e chegou nos meus seios. Senti um pulsar na minha calcinha e um pouco de suco escorreu pela minha coxa. Ele continuou descendo, pegou na minha bunda e foi vindo para o outro lado. Dentro da minha cabeça havia uma guerra: de um lado todos os meus sentidos se entregando e do outro minha consciência gritando: não, não, não, não!

    Tarde demais. As mãos dele já tinham vencido meu vestido, levado a calcinha pro lado e os dedos estavam perfeitamente encaixados bem onde coçava, como se ele conhecesse meu corpo melhor que eu. Comecei a ver tudo colorido como em uma viagem de ácido. Ele não parava de me beijar e seus dedos me acariciavam lentamente.

    Gozei na mão dele.

    Abracei ele tentando sentir o volume na calça e não encontrei nada. Estranho. Seria coisa de menino? Olhei pra ele por um segundo e ele me devolveu um olhar sereno, confiante, sem dizer nada. Saí da cozinha e me tranquei no quarto. Bati siririca até a hora do almoço.

    ***

    Não foi só eu quem ele ganhou. Meu pai, que não confia em ninguém, passou a deixar ele sozinho comigo por muito tempo. E eu parecia uma viciada. Ficava de olho em quando meu pai e a esposa dele estavam longe e procurava por ele. Queria mais daquele beijo, daquele aperto seguro, daqueles dedos me fazendo escorrer suco pelas pernas.

    Nesse dia ele apareceu com um carro esportivo, desses envenenados, e me levou para uma pista de corrida. Voamos no asfalto, dando cavalos de pau e dirigindo perigosamente. Eu estava apaixonada pela adrenalina. Mais tarde, escorada no carro, ele me beijava, passava a mão no meu corpo e me fazia gozar com os dedos que nunca me penetravam. Ele olhou ao redor, levantou minha blusa e pela primeira vez colocou a boca nos meus seios.

    Derreti e gozei na hora.

    Ele me lambia bem devagar, demorando para chegar nas auréolas e finalmente nos bicos. Ficou ali me chupando e lambendo e eu sentindo o meu suco descer até os joelhos. Comecei a tremer e não me aguentei: levei minha mão até a calça dele tentando sentir o volume. Ele deu um pulo para trás, me pediu calma. Me deu mais um beijo e voltamos para casa.

    Quase desmaiei de tanta siririca. Meu corpo estava pedindo mais alguma coisa que eu não sabia o que era.

    ***

    Eu queria morrer quando meu pai chegou dizendo que antes de irmos para São Paulo de vez precisávamos voltar para a colônia. Que ódio. Que desgraça de viagem que não termina nunca. E o pior: eu ia ficar longe dos meus beijos e gozadas. Peguei minhas coisas fervendo de raiva e entrei na Caravan. Nem um último beijo pude dar.

    Cada kilômetro da viagem de volta parecia um ano. O asfalto era piche líquido agarrando os pneus. A paisagem ia ficando cinza e turva em cada uma daquelas cidades que eu pretendia nunca mais ver. Passei por cada restaurante do caminho pensando que todo aquele esforço tinha sido em vão. Na minha cabeça acusava meu pai de fraco, de covarde. Eu não queria voltar.

    Quando chegamos abracei minha mãe com raiva. Menstruação que chama, não câncer, não é? Nem contei para ela o que passei. Vi meus irmãos bem maiores, já fazia mais de um ano que não os via, crianças mudam rápido. Fui para o meu quarto, deitei na cama e chorei. Fracasso.

    Meu pai falava do empresário, falava de ir para São Paulo e não agia. Começou a tocar ao redor de casa de novo. Maldita colônia. Nos dias seguintes queriam me mandar de volta para a escola. Era o ápice da derrota. Ver aquelas pessoas de novo, conviver com elas. Quis colocar uma faca na mochila e estrebuchar a primeira idiota que viesse me enfrentar. Eu precisava fazer por mim.

    Era impossível dormir porque meu corpo queria os beijos e os dedos dele em mim. Nem minha siririca parecia dar conta mais. Estava triste, deprimida, derrotada. Nada mais fazia sentido. Ia para a missa no domingo muito a contragosto, como se estivesse indo lá só para me verem mais de perto, para me dizer que sabiam o que eu andava fazendo.

    ***

    Acordei com a voz dele. Levantei rápido e ele estava em pé na sala falando com meu pai. Não me esqueceu! Fui muito além das minhas forças para não voar nele e dar um beijo. Depois de acertar os negócios ele me chamou para jantar e meus pais deixaram.

    Eu tremia ao lado dele no carro. Ele sereno como se tivesse me visto ontem. Me levou no restaurante mais legal da cidade e eu mal consegui tocar na comida. Queria outra coisa e sei que ele sabia. Conversamos sobre ir para São Paulo e que ele estava com tudo pronto. Fiquei feliz. Ele estava me levando de volta para casa e eu comecei a entrar em desespero. Ao invés de me beijar me mostrava uma cantora no rádio do carro, super moderno, com CD Player. Laura Pausini. Me falava de como ela cantava em vários idiomas e que eu precisava aprender inglês, espanhol e italiano se eu quisesse ter uma carreira de sucesso como cantora um dia.

    Aquilo não era sertanejo raiz e eu gostava. Era um som gostoso, apaixonado, que mexia comigo. Parecia muito mais legal. Com certeza meu pai nunca ia concordar com aquilo. Eu queria aprender.

    De repente ele encostou o carro. Me puxou e me beijou. Juro que eu gozei só com o beijo. O banco do carro estava encharcado. Tentei levar a mão na calça dele mas ele se esquivou. Me deu um pouco de raiva dele e fui em silêncio para casa, ouvindo a música.

    ***

    Fui com minha mãe ver as amigas dela. Com meu pai em casa ela não se atrevia a receber elas lá. Imagina se meu pai escuta as conversas. Comigo mais velha elas não se importavam tanto em falar sobre sexo. Com a boca cheia de pintos e pererecas davam risada contando histórias dos maridos que não ficavam com o pinto duro e dos homens que tinham que procurar para ficar. Minha mãe não contava nada. Ou não tinha histórias ou não queria que eu ouvisse.

    Em um momento minha orelha ficou em pé.

    – Tomei todo o leitinho – disse uma delas falando sobre chupar um pinto. Como assim, leitinho? Isso eu não tinha ouvido falar nem visto nas figuras da bíblia e era bastante bizarro. Sabia de leite de vaca, de cabra, até de búfalo mas de homem não. Sabe que até faz sentido? Se o pinto é como uma teta de vaca, por que não daria leite?

    Também falavam da vizinha que estava grávida. Que o filho não era do marido e sim do vizinho. Que ela estava “dando” para ele fazia um tempo. Dando era um termo que eu demorei para entender. Quando você diz que uma pessoa dá para a outra e não diz o que ela está dando, é sexo.

    Ainda não foi nesse dia que eu fiz a conexão entre sexo e gravidez.

    ***

    O empresário chegou na minha casa cedo da manhã e tomou café com meus pais. Pude ouvir que tentava convencer meu pai a ir logo. Tomei o café e fui para a escola. Quando voltei para o almoço ele ainda estava lá. Meus pais saíram e me deixaram sozinha com ele. Finalmente! Nos escondemos dentro do banheiro e me beijou. Tive que segurar um choro, meu corpo estava implorando por aquilo por tempo demais. Peguei a mão dele e levei direto para minha perereca.

    – Que bucetinha gostosa. – ele disse. Bucetinha? Essa era nova.

    Apertei ele contra mim para sentir o volume. Não senti. Chega! – Pensei. Fui com a mão com vontade e ele não conseguiu me segurar. Furiosa, abri o zíper da calça e revelei o primeiro pinto que eu veria na vida. Não era exatamente do tamanho que eu esperava, parecia bem menor que os da bíblia. Sem saber muito bem o que fazer, peguei na mão.

    Era quentinho. Duro e macio ao mesmo tempo como tinham me contado. Mexi nele e ele gemeu. Eu sorri. Posso fazer ele gemer também. Ele com os dedos na minha bucetinha gostosa e eu com a mão no pinto dele. Nos beijamos. Será que ele sente assim gostoso como eu sinto também?

    Enquanto beijava ele fiquei pensando em tudo o que eu imaginava nas minhas siriricas e, sem dar tempo para que ele pudesse reagir, me ajoelhei e enfiei na boca. Ele tentou ir para trás mas não conseguiu. Me pediu calma e começou a me dizer como fazer. Cuidado com os dentes – o mais importante. Não pode ter dentes nessa brincadeira.

    Então me disse para imaginar um sorvete e chupar e lamber como se fosse um. Segurando na mão comecei a lamber. Lambia a ponta que era mais escura que a outra parte. Depois lambi mais embaixo até o início e quando ergui vi a coisa mais esquisita do mundo ali. Um saco enrugado. Não tinha prestado atenção nessa parte da bíblia depois vi mesmo que estava lá.

    Ignorei isso e voltei lambendo até em cima colocando ele dentro da minha boca de novo. Ele gemeu e eu gostei de ouvir. Comecei a colocar para dentro e para fora da boca deixando bem molhado só para ouvir ele gemer mais.

    De repente ouvi passos no piso de madeira. Meu pai entrava na casa. Olhei para o empresário apavorada e ele só colocou o indicador na boca, me pedindo silêncio. Depois de mais um pouco de barulho ele se foi. Eu tremia, adrenalina pura.

    Sem tirar a mão do pinto dele, coloquei de volta na boca. Ainda estava quentinho, duro e macio. Voltei a chupar para ouvir ele gemer. Quanto mais rápido e forte eu chupava mais ele tremia e gemia e eu estava me divertindo muito com aquilo. Minha bucetinha pingava no chão.

    Senti o pinto começar a pulsar na minha mão. Ele segurou meus cabelos e começou a gemer bem diferente. Senti minha boca ficar toda molhada e quente com um jato. Mesmo assustada não parei. Senti mais um jato bater no céu da boca. Um gosto forte e ácido tomou conta da minha língua. Mais um jato. Ele olhava para mim totalmente grogue.

    Minha boca estava cheia. Cuspi um poquinho no chão. Um líquido branco. O leite? Ele olhou para mim e sorriu, parecia que aquilo estava certo. Olhei nos olhos dele e abri minha boca para ele ver lá dentro. Estava cheia. Ele sorriu ainda mais. Ainda olhando para ele fechei a boca e engoli. Lembrei da amiga da minha mãe e pensei:

    – Tomei todo o leitinho dele.

    Ele foi embora e eu deitei na minha cama. Fiquei sentindo o gosto na boca e ao mesmo tempo sentindo como se uma poderosa energia estivesse dentro de mim, parte de outra pessoa que me dava forças para continuar qualquer coisa. Eu sentia algo parecido com os beijos e amassos mas aquilo era surreal, incrível, como se aquele líquido dentro de mim fosse um tônico de super poderes.

    ***

    Dormi naquela noite um sono gostoso como há tempos não via. Acordei cantarolando e fui para a porcaria da escola sem ligar para as meninas ainda querendo me bater, para o professor de química pedófilo que regia o coral infantil, para aquelas pobres professoras sem nenhuma visão de mundo ensinando coisas que ninguém nunca ia usar. Na verdade não ligava nem se meu pai ia para São Paulo mais se que eu ganhasse meu leitinho todos os dias.

    Os próximos dias foram difíceis. Não conseguia um minuto sozinha com ele e aquele poder foi desvanescendo. Comecei a dormir mal de novo e ficar triste. Não ia dar para continuar assim. Em um minuto que meu pai foi ao banheiro eu disse ao empresário: – me encontra no shopping amanhã depois da escola.

    Sem pensar nas consequências fugi no final da aula para o ponto de encontro. Ele estava lá. Entrei no carro e pedi para irmos para algum lugar mais discreto. Ele olhou para mim muito sério e perguntou:

    – Você tem certeza que quer fazer isso? Daqui não vai ter volta. – Só respondi que sim com a cabeça. Meu corpo todo tremia e eu precisava de mais daquela energia. Eu queria chupar ele de novo e tomar tudo outra vez.

    Ele dirigiu até a cidade vizinha e entrou em um motel. Motéis não eram novidade para mim porque eu cansei de dormir neles na beira da estrada quando o carro não dava mais. Eu só não fazia a menor ideia do que acontecia lá dentro.

    Entramos no quarto e fui arrancando minha roupa e a dele aos beijos. Devagar e firmes suas mãos passeavam onde queriam em mim ligando cada nervo. Pegou devagar nos meus seios e eu não pude resistir quando ele puxou minha blusinha para baixo e começou a mamar neles. O hálito quente, a saliva, a língua áspera nos biquinhos. Eu entrava em êxtase e minha buceta tornou-se puro suco.

    Depois de quase me fazer gozar só chupando meus biquinhos foi descendo com a mão e começou a me masturbando por cima da calcinha. Aos poucos foi tirando ela pro lado e foi me estimulando. Minha buceta já escorria nos dedos dele e estava latejando, pedindo e implorando para conhecer a sensação de um pau quente e duro escorregando pra dentro dela.

    Passando a mão pelo corpo dele, desci e peguei no pau. Estava muito duro e eu tremi de nervosa. Comecei a abrir o cinto dele, abrir o zíper, baixei a cueca e finalmente senti aquela pele quentinha na minha mão. Comecei a punhetar ouvindo o gemido no meu ouvido sentir me lamber o pescoço e me masturbando sem parar.

    Me pegando pelos cabelos me colocou de joelhos na frente dele e mandou colocar na boca. Olhei para aquele pau gostoso bem na frente do meu rosto. Era tudo o que eu queria. Abri minha boca, peguei com a mão e aproximei. Senti um cheiro suave e atraente e que também ia amar pro resto da vida.

    Coloquei ele na minha boca e vi estrelas. Que sensação gostosa daquela pele macia e dura ao mesmo tempo na minha língua. Ele falava putaria mandando eu mamar, para babar bastante, deixando bem molhado.

    Me pediu para lamber bem a cabecinha e depois lamber ele todo. Depois puxou ele pra cima e me deu as bolas que tinham uma textura gostosa e um sabor delicioso, todo raspadinho, sem pelos. Lambi por muito tempo e depois voltei a mamar o pau.

    Querendo o leitinho e comecei a chupar rápido e forte em movimentos repetidos. Ele segurou meus cabelos e começou a foder minha boca. Mesmo engasgando um pouquinho eu estava amando aquilo tudo. Segurava as bolas dele enquanto ele colocava o pau inteiro lá dentro.

    Foi quando senti elas pulsarem muito forte, ele gemeu bem alto e minha boca começou a se encher com o leitinho delicioso. Olhei bem nos olhos dele, abri a boca para mostrar ela cheia e engoli tudo em um sonoro gole. Ele sorriu de novo, parecia gostar muito de quando eu fazia aquilo.

    Soltando meus cabelos me deu um beijo no rosto e sentou em um sofá, respirando forte. Eu ainda estava recém começando, cheia de tesão. Fui até o sofá e fiquei alisando. Ele gemia quando eu encostava no pau. Então peguei a mão dele, coloquei na minha buceta e fiquei gemendo em pé enquanto ele me masturbava. Gozei muito gostoso ali e não queria parar. Sabia que tinha mais alguma coisa só não sabia bem o que era. Foi quando tudo ficou diferente. Eu era muito inexperiente. Nunca tinha visto um filme pornô e mesmo o que minhas amigas tinham me dito não era o suficiente pra saber.

    Sem sequer ficar de pau mole ele descansou um pouco e me colocou de joelhos no sofá, de costas pra ele. Eu me assustei um pouco e disse pra ele que eu nunca tinha feito. Ele me acariciou e, segurando o pau bem na minha bunda perguntou se eu tinha certeza que queria fazer. Sentindo a cabecinha quente e pulsando entre minhas nádegas não tinha outra resposta para dar.

    Ele começou a me masturbar ainda mais forte com os dedos e eu senti a ponta fazer caminho entre as bandas. Sem tirar o dedo da minha buceta, senti que entrava apertado, devagar, como se meu corpo dificultasse o que eu queria.

    Eu tremia e suava, comecei a sentir uma vertigem e tudo ficou colorido diante de mim. O corpo dele colado no meu enquanto aquele calor entre minhas pernas passava uma energia forte e gostosa até que finalmente senti meu corpo ceder e a energia dele toda dentro de mim. Gozei. Minha buceta explodiu em um violento jato contra o sofá, molhando tudo.

    Senti a virilha dele colar na minha bunda. Lento e carinhoso ele tirou quase tudo e empurrou de novo. Era muito apertado, um pouco doloroso e desconfortavel e ao mesmo tempo muito quente e agradável. Escorei meus cotovelos no sofá, empinei bem e esqueci do mundo ali enquanto ele entrava e saía.

    Depois de meter por muito tempo começou a gemer alto e uma ideia que não tinha me vindo a cabeça ainda me atacou: ele vai colocar o leite dentro de mim? Aquilo me deixou tão excitada que minha buceta começou a esguichar sem parar no sofá criando poças ao redor dos meus joelhos. Entrei em um orgasmo initerrupto até que ele gemeu ainda mais alto e, me segurando bem firme, enterrou o pau inteiro e começou a tremer.

    Senti o primeiro jato bater fundo, depois outro e mais um. Foi a melhor sensação que eu tive na vida até aquele momento. Estava com a minha bucetinha cheia de leitinho.

    Me virei, dei um beijo nele e me arrastei até a cama sem sentir minhas pernas. Ele veio e deitou atrás de mim, encaixado. Aquela energia dentro de mim parecia pulsar, uma força incrível e eu sentia vontade de me levantar dali e enfrentar o mundo que fosse. Me sentia pronta para qualquer guerra.

    Fiquei ali curtindo o momento. O calor dele nas minhas costas e o leite dele escorrendo de dentro de mim. Não pensei no meu pai me arrebentando de porrada a hora que eu chegasse em casa ou minha mãe ligando para a polícia porque eu não voltei da escola. Levei minha mão até minha buceta para pegar o leitinho que escorria mas não achei nada. Deslizei meu dedo para dentro mas estava tão apertado quanto da primeira vez que tentei e meu dedo não entrou.

    O pau dele era mais grosso que meu dedo mas não estranhei, talvez fosse assim mesmo, talvez não fosse lugar para dedo. Passei o dedo nas minhas coxas e encontrei o leitinho ali, deslizando de mim para o colchão.

    Senti o pau dele duro na minha bunda de novo e empinei. Ele me segurou pela cintura e senti aquela pressão forte entre as minhas nádegas. O calor tomou conta de mim tão gostoso quanto antes. Fiquei ali deitadinha de lado, quietinha, enquanto ele empurrava para dentro e puxava para fora de mim. Os dedos dele sempre na minha coceira, sempre me acariciando e arrancando o suco que escorria pelas minhas coxas e molhava o colchão.

    Perdi a noção do tempo ali. Meu corpo estava entorpecido de prazer sentindo aquele calor e energia gostosos tomando conta. Ele começou a gemer daquele jeito que avisava que o leitinho estava vindo e empurrei minha bunda contra ele com força. Senti o jato me preenchendo novamente por uma, duas, três vezes. Gozei de novo. Desmaiei.

    Acordei com o barulho do chuveiro. Me recomendou que não lavasse meu cabelo pois não ia secar a tempo. Entramos no carro e me levou em casa. Quando cheguei meus pais me esperavam na porta vermelhos de raiva. Não gritaram comigo porque eu estava com ele e não tinha como avisar. Fui direto pro meu quarto e, acredite, bati uma siririca.

    ***

    Como assim foi embora? – Perguntei para o meu pai. Estava nos esperando em uma cidade ao lado de São Paulo para lançarmos nossa carreira lá. Shows marcados, entrevistas em rádios e TV, estúdios de gravação e tudo o mais. Comecei a arrumar minhas malas e meu pai não. Como assim não? – batia o pé no chão e chorava. Meu pai tinha muita coisa para resolver ali antes de sair assim, do nada.

    Fui para a escola enfurecida. Sentada na frente, nerd, tirando notas altas, só mais uma razão para ser odiada. As professoras me tinham como exemplar e eu pensei que valia a pena tentar um truque. Escrevi um bilhete dizendo que precisava de uma transferência pois ia mudar para São Paulo. Escrevi SÃO PAULO em letras garrafais para dar mais ênfase e teria colocado dois Pês se fosse possível. Assinei e levei na direção.

    Me deram a transferência sem questionamentos.

    Cheguei em casa, arrumei as malas, o equipamento de som e coloquei tudo na porta. Quando meu pai chegou mostrei o documento e comecei a colocar as coisas no carro. Normalmente eu teria levado uns bons tapas pela insolência porém, quando vi, ele arrumava as malas dele. Minha mãe bateu o pé e brigou dizendo que não confiava no empresário. Meu sangue ferveu e tive que segurar a língua.

    Abracei minha mãe, meus irmãos e minha irmã recém nascida e entrei no carro. Agora vai!

    ***

    Dessa vez sem paradas. Enchemos o tanque e pé na tábua. A Caravan voava pelas rodovias federais em direção a São Paulo. Eu olhava de novo para cada restaurante e lembrava de cada beijo, cada amasso, cada mão na bunda, tudo aquilo que me preparou para o dia em que eu finalmente gozei com o pau de um homem dentro de mim. Eu pensava na cidade grande e nos palcos em que eu ia subir. Pensava em conhecer os grandes artistas e ser uma também. Tudo ia ser realizar em breve. Todos os meus sonhos.

    Dirigimos a noite toda e chegamos pela manhã. Não era São Paulo ainda, era uma cidade satétile e era muito maior do que qualquer lugar que eu já havia visto na vida. Trânsito, ônibus enormes e calçadas lotadas de pessoas. Vi as lojas e restaurantes que eu via na televisão. Será que eu ia ver alguém famoso?

    Atravessamos aquilo tudo e fomos indo para uma outra cidade menor logo depois. Fui me decepcionando ao ver a mesma coisa que eu já conhecia. Passamos por ali e fomos para um lugar ainda menor, parecia uma colônia.

    Por favor, não.

    Depois de alguma estrada de chão finalmente chegamos em um sítio. Era um lugar enorme. Tinha uma casa grande de fazenda, uma piscina e um lago. Muros enormes cercavam todo o lugar. O empresário estava lá me esperando e assim que pude fugi com ele para um canto, beijei ele com vontade e ergui meu vestido. Ele me virou contra a parede, cuspiu na mão, molhou o pau e pressionou ele contra minha bunda. Senti um desconforto que logo cedeu e ele foi rápido dessa vez, gozando sem gemer e deixando minhas coxas escorrendo leitinho.

    Fui conhecer meu quarto, organizar minhas coisas e logo ele me chamou para sair. Me levou para um shopping imenso, absurdamente maior do que aquelas lojinhas da colônia. Me deu um vestido brilhante azul e um par de sapatos incríveis com um salto fino e alto. Eu parecia uma princesa andando pela loja. Esse era meu novo figurino para os shows.

    No dia seguinte já tocamos e não era o que eu esperava. Um palco pequeno, poucas pessoas, não mais do que eu estava habituada a fazer no restaurante. Reclamei. Ele pediu paciência e disse que até chegarmos aos grandes palcos levava tempo. O importante é que estava no lugar certo. Aquele vestido e aquele salto definitivamente não combinavam com aquele lugar.

    Escondida do meu pai eu também ouvia Laura Pausini e decorava as letras. Durante os shows cantava o sertanejo me imaginando cantando Strani Amori ou La Solitudine com milhares de pessoas à minha frente erguendo isqueiros e gritando: Vanessa! Vanessa! Eu só não sabia como ia dizer para o meu pai que queria cantar essas músicas. Ele tinha uma opinião muito sólida sobre outros estilos.

    Alguns dias depois um caminhão de mudanças chegou no sítio. Nele, minha mãe e meus irmãos. Não podia estar mais feliz, foi muito rápido! Eu imaginava que eles só viriam quando eu fosse famosa e ter eles ali assim era muito bom. Meu irmão começou a fazer aulas de violão no conservatório perto dali e estava promissor.

    O empresário corria para lá e para cá. Nos levou nas rádios, nos canais de televisão menores e até no Mosh, o maior e mais famoso estúdio onde todos os grandes artistas gravaram. Lá conheci algumas pessoas famosas, entre elas a Rosana que cantava O Amor e o Poder. Ela chorava em um corredor e eu quis me aproximar mas um funcionário me olhou e disse que ela era muito dramática. Nunca esqueci do rosto dela ali.

    Gravamos um álbum e começamos a viajar nas cidades ao redor ainda tocando em shows pequenos e médios. Cantamos em rodeios e festas de igreja católica. Tudo aquilo, dizia o empresário, ia nos levar aos grandes palcos mais cedo ou mais tarde.

    ***

    Aquelas semanas foram como um sonho. Cantando com aquela roupa linda e aqueles sapatos em palcos cada dia maiores. Conhecendo famosos, gravando em um grande estúdio e dando entrevistas. Quando chegava no sítio sempre dava um jeito de fugir para o jardim, para o banheiro, para algum quarto desocupado com ele e me encher de leitinho. Ele gostava de me colocar ajoelhada no sofá, contra a parede, de quatro, sempre empurrando minha bunda e com os dedos me arrancando suco. Se não tinha muito tempo eu chupava e tomava tudo antes que alguém chegasse.

    Comecei a ir para a escola. Era na cidade pequena ao lado e tinha que pegar um ônibus. Eu estava morrendo de medo do que ia acontecer. Com minha fama crescendo na região com certeza iam me matar dessa vez. Mas não – Essa é a Vanessa, ela é uma cantora muito talentosa – disse a professora. Meu corpo travou e esperei os olhos de inveja e raiva. Recebi sorrisos e meus colegas brigavam para ver quem ia sentar perto de mim. Elogiaram minha beleza, meu cabelo e pediram para me ouvir cantar. Que lugar é esse? Isso é incrível!

    Logo estava andando para todo lado com um grupo enorme de amigos. Entre esses amigos dois meninos bobos ficavam fazendo graça para chamar minha atenção. Eu olhava para eles e ria, pensando no beijo babado e com dentes que eles me dariam se pudessem e que nem imaginavam do que eu já brincava.

    Um deles era completamente idiota mas o outro era bonitinho e tocava violão. Me apresentou o Legião Urbana. Senti uma coceirinha e talvez ele tivesse chance. Eu estava completamente feliz e realizada. O que mais uma garota como eu poderia querer?

    ***

    Funcionários entravam e saíam do sítio o tempo todo. Caixas de CDs, cartazes, faixas e materiais de divulgação para todos os lados. Minha mãe enfurecida com o empresário que estava usando ela de funcionária obrigando ela a lavar e passar suas roupas finas. Eu ensaiava. Sertanejo com meu pai e Laura Pausini quando podia.

    Sempre que saíamos juntos, o empresário e eu, ele falava sobre como eu poderia ser muito mais famosa se cantasse músicas internacionais. Me apresentou Sarah Brightman, Celine Dion, Cher e outras cantoras de renome. Era um universo completamente novo e incrível. As músicas eram vivas e emocionantes acompanhadas de orquestras, guitarras e instrumentos eletrônicos. Eu estava apaixonada.

    Me sentia dividida. Cantar essas músicas incríveis significava me desligar do meu pai. O empresário me dizia que ele estava ficando velho e cansado e que em alguns poucos anos ninguém mais ia escutar música sertaneja.

    Com o passar das semanas fui percebendo que ele ia perdendo a paciência com aquilo. Ele queria investir em mim, era a coisa certa a se fazer. Não no meu pai. Aos poucos fui percebendo o olhar dele se tornando aquele olhar de diabrete que eu odiava nos homens. Hoje penso que ele tinha mais fé em eu estar perdidamente apaixonada por ele quando na verdade eu nunca estive.

    Adorava como ele pressionava minha bunda e me enchia de leite me fazendo gozar com os dedos. Gostava dos passeios e dos inúmeros presentes. Gostava também de olhar para os meninos na escola e ainda batia siriricas imaginando os cantores famosos que eu gostava.

    Naquela noite o show foi uma porcaria. O lugar era feio, mal arrumado. Meu vestido gritava que eu estava longe do lugar certo e o sapato machucava meu pé. Cantamos em um palco na altura do chão com o público sentado em mesas ao redor. O empresário parecia alterado. Brigava com os funcionários, xingava os garçons. Olhava para mim com um olhar pior do que diabrete: os olhos grandes, as pupilas dilatadas e falava cuspindo. Me lembrou aquele homem que me atacou no banheiro.

    O show terminou, os funcionários recolheram o som preferi ir com meu pai para a Caravan. O empresário me pegou pelo braço e me colocou no outro carro. Em um dia normal eu iria chupando o pau dele até o sítio. Naquele dia ele estava muito irritado. Insistia dramaticamente que eu precisava decidir minha vida. Precisava deixar meu pai, ficar com ele e me tornar a grande cantora que estava destinada a ser. Fiquei assustada e parei de responder.

    Isso deixou ele ainda mais irritado. Aquela elegância toda, o jeito calmo de falar e levar as situações desapareceu completamente. Fechando a mão deu um soco no pára-brisa que se quebrou. Enfurecido – olha o que você me fez fazer – acelerou o carro e fez sinal para que o outro carro parasse. Desceu, foi até a janela da Caravan e deu um soco no rosto o meu pai, que desmaiou. Senti todo o sangue sair do meu corpo e comecei a tremer apavorada. Ele voltou até o carro e se jogou em cima de mim.

    – Isso termina agora.

    Abriu o porta luvas e pegou uma arma. Começou a caminhar de volta até a Caravan. O tempo ao meu redor parecia em câmera lenta. Ele abriu a porta do carro e apontou a arma para o meu pai. Sem perceber, eu descia do carro e caminhava na direção dele, a ponta do salto fino enterrando no barro. Olhei para o rosto do meu pai que parecia uma bola, todo inchado. A boca sangrava. O empresário puxou o cão do revólver e meu pai olhava nos meus olhos.

    Foram anos cantando juntos. Nesses anos todos quantas longas conversas tivemos durante as músicas só com o olhar. Contávamos piadas, ríamos de alguém e avisávamos do perigo. Em milésimos de segundos meu pai me arrancou do transe em que eu estava. Acordei e me vi naquela cena horrível.

    Fui até a porta do carro e empurrei ela contra o empresário. Ele se desequilibrou e empurrou a porta de volta, me derrubando no chão. Me olhou furioso – você não entende. Meu vestido estava coberto de barro. Vi meu sapato no chão, todo sujo, a ponta fina reluzia contra o farol aceso do carro. Em um ímpeto me levantei, peguei o sapato e enterrei o salto na testa dele que cambaleou. Empurrei ele contra a beira da estrada onde caiu na valeta.

    Meu pai me olhou de novo. Corri para dentro da Caravan e arrancamos. Eu matei ele, pensei. Pisando fundo e deslizando no barro chegamos de volta ao sítio e trancamos o portão. Meu pai pegou o revólver no quarto e sentou na varanda com minha mãe. Ninguém dormiu naquela noite.

    ***

    Os funcionários não apareceram no dia seguinte e em nenhum dia mais. Algumas semanas depois vimos na televisão uma quadrilha de bandidos que tinha sido presa. Era ele, a esposa grávida e os funcionários. Entre os policiais que prendiam ele estava um dos funcionários que andava comigo o tempo todo. Era um policial disfarçado? Com quem eu estava envolvida?

    Com o dinheiro que fizemos com os shows meu pai conseguiu comprar uma casa ali perto e nos mudamos para lá. Fomos atrás dos contratantes e conseguimos manter nossa agenda de shows em lugares pequenos, rodeios e igrejas. O sonho da estrela musical ficou distante novamente.

    Continuei frequentando a escola e andando com a turma de amigos. Tudo ali era tão melhor que na colônia. Conheci novos estilos de música e comecei a ler outros livros que não eram a bíblia. Gostei tanto de ler que consegui um emprego de meio período na biblioteca onde podia ficar em silêncio e cercada de livros.

    Um dos meninos bobos ia sempre lá me ver. Ele era bonitinho mesmo e eu voltei a me divertir com aqueles flertes bobos como se nunca tivesse vivido mais do que aquilo. Ficávamos de papo na escola e depois da aula e no domingo depois da igreja. Foi em um desses domingos pela manhã que saímos para caminhar em um parque ao redor de uma lagoa. Ele me disse que aquele lugar ficava lindo a noite, com a lua banhando as águas. Combinei que um dia iria fugir com ele até ali. Nos beijamos. Um beijo doce de menino, sem aquela energia de homem, mesmo assim muito gostoso.

    Minha mãe não aguentava mais aquele lugar. Ela gostava da vida na colônia entre os alemães e italianos e nossos vizinhos ali eram muito diferentes disso. Paulistas, nordestinos, mineiros, um povo animado e festeiro que tomava a rua com suas músicas estranhas e comidas com cheiro esquisito. Meu pai tentou segurar mas não teve jeito: lá se foi o caminhão de mudanças de volta para o sul. Eu? NEM PENSAR. Fiquei para trás, sozinha. Ninguém nunca mais ia me fazer voltar para aquele inferno. Continuei minha vida indo para a escola e trabalhando na biblioteca esperando meu pai voltar para continuar a cantar.

    Sem meus pais por perto ficou fácil fugir para o parque à noite. Nos encontramos atrás das árvores. A lua realmente estava linda refletindo no lago. Nos beijamos de novo e meu corpo estava tremendo, pedindo, implorando há semanas por um leitinho onde quer que fosse. Não sentia falta do empresário, nem pensava nele mais, sentia falta daquela sensação gostosa.

    Confesso que estava preocupada dele perceber o quanto eu era experiente e não teve jeito, não consegui disfarçar. Prensei ele contra a árvore e abri o zíper da calça. Ele tremeu e me olhou assustado. Talvez dessa vez quem estava com o olhar de diabrete era eu. Me ajoelhei e baixei a cueca.

    Opa.

    Aquilo eu também não tinha visto na bíblia. Era um pinto, definitivamente, porém muito, muito maior do que o do empresário. Era tão grosso que minha mão mal fechava e tão comprido que quando tentei colocar na boca ele mal coube. Eu não imaginava que pudesse ser desse tamanho.

    Chupei. Ele tremia todo, as bolas pulsavam intesamente. Era muito mais gostoso de chupar ele grande assim, que divertido! Não cabia na boca então eu lambia ele pelos lados e por baixo até o saco e voltava. Bati ele no meu rosto. Dei risada. Continuei chupando com vontade e um pensamento me veio a cabeça: será que isso cabe em mim?

    Molhei imediatamente. Me levantei e beijei ele de novo. Ele estava estático, sem reação. Escorei minhas mãos na árvore como estava habituada a fazer e virei a bunda para ele. – Vai. – Ele me fez um carinho de leve nas costas e passou a mão nas minhas nádegas. Fiquei esperando aquela coisa enorme vir até mim. Esperei mais um pouco. Me virei e ele estava parado ainda.

    – O que foi? Vem! – fiz sinal apontando minha buceta.

    Sem falar nada ele me pegou e me virou para ele. Me beijou de novo, demorado. Com muito carinho foi me deitando na grama e se deitou em cima de mim. Me beijou de novo. Aquilo estava gostoso e o pau dele roçando na minha coxa estava me deixando louca.

    De repente ele parou e levou a mão até o bolso da calça. Pegou um chiclete e abriu. Não era um chiclete, era um plástico redondo que eu nunca tinha visto. Pegou aquilo e colocou no pau como se estivesse ensacando o membro. Com medo de parecer uma idiota não perguntei. Ele voltou a me beijar e abriu minhas pernas. Entreguei sem resistência.

    Toda molhada, ele me beijando e acariciando meus seios, finalmente encostou o pau na minha coceira. Dei um pulo. Isso era novo para mim também. O empresário só colocava o dedo ali e sempre vinha pela bunda. Abracei ele e fiquei esperando para ver o que ele ia fazer. Senti o plástico encaixar um pouco mais para baixo e ele empurrou.

    Senti um desconforto enorme e muito diferente do que eu sentia com o outro. Senti meu corpo resistir e um pouco de dor. Depois de algum tempo relaxei e finalmente senti a virilha dele na minha. Isso também é novo. Estava muito apertado e completamente diferente. Seria o tamanho? Ele não demorou muito para começar a gemer daquele jeitinho e me encher de leite.

    Ou não?

    Não senti o jato quente dentro de mim. Ele puxou para fora e vi o plástico cheio do líquido branco. Que porcaria é essa? Levei a mão até minha buceta e ela estava completamente diferente, toda aberta e com um pouquinho de sangue. Fiquei completamente confusa.

    Precisava perguntar. E se ele me achasse uma idiota? Me cobrindo com o vestido enquanto ele tirava o plástico do pau perguntei: por que não me deu o leitinho? Ele me olhou assustado. Devo ter falado uma grande besteira. Ele relaxou e riu. Disse que me respeitava e não queria me engravidar.

    No dia seguinte lá estava eu na biblioteca procurando pelos livros. Depois de algumas horas de pesquisa descobri que o leitinho se chamava sêmen e que quando entrava no útero pela vagina fazia a mulher engravidar pelo encontro dos espermatozóides com os óvulos – olha quem sabe todas as palavras!

    A camisinha, aquele plástico fedido e que me separava do leitinho impedia que eu ficasse grávida. Se é assim, como não fiquei grávida do empresário? Foi só em casa, olhando meu corpo em um espelho no chão que entendi:

    Ele estava fodendo meu cu.

    Foi assim que eu descobri que tinha acabado de perder a virgindade. Todos aqueles meses eu fui uma putinha virgem, chupando e dando o cuzinho. Estava explicado porque ele sempre me virava de costas na hora do sexo.

    ***

    Meio sem sentido algum minha vidinha continuou ali naquela cidadezinha minúscula a poucos kilômetros da imensa São Paulo. A escola me aborrecia infinitamente. Nada de bom para aprender lá. Tirava 10 em tudo e perturbava as professoras com perguntas que elas sabiam a resposta mas não queriam responder.

    Onde vamos usar isso? Bhaskara, capitanias hereditárias, mitocôndrias? Elas se limitavam a dizer que ia cair no vestibular. Vestibular era uma prova que todo mundo queria fazer quanto terminava a escola para, pasmem: voltar para a escola. E aí depois de mais alguns anos daquele inferno sem sentindo você finalmente teria um pedaço de papel dizendo que você podia trabalhar em uma profissão e ser bem pago por ela. Esse papel podia até dizer e toda vez que as professoras entravam em greve ou eu via os pais dos meus amigos coçando a testa em uma mesa cheia de boletos eu me perguntava se aquilo era mesmo verdade. Me parecia outra estupidez. Se eu não fizesse ia trabalhar com um salário menor e se fizesse ia trabalhar com um salário maior.

    Em uma cidade perto dali havia uma faculdade de música e conheci uma turma de lá. Aproveitando que meu pai estava longe me encontrava com eles para cantar chorinho. Músicos incríveis. Todos quebrados fazendo música em bar. Eu não ia fazer vestibular. Eu ia ser uma grande cantora nos grandes palcos da grande São Paulo.

    Um dia meu pai apareceu de volta. Vendeu a nossa casinha e disse que íamos mudar para a cidade grande do lado. Finalmente uma boa notícia! Eu tinha algumas semanas até que ele resolvesse as coisas e estava decidida a dar um fim naquela história de escola de uma vez por todas. Procurando e conversando aqui e ali descobri que podia fazer um supletivo. Era como fazer o que me faltava de escola em poucas semanas, exatamente o que eu precisava. Fui até lá, me matriculei e fiz todas as provas. Passei e peguei meu papel idiota. Adeus!

    Mas antes precisava me despedir dos meus amigos e do meu amigo favorito na escola. Esse rapazinho sofreu na minha mão. Eu queria todo dia e toda hora e não tínhamos um lugar privado para estar. Na minha casa nem pensar. Meu pai não podia nem saber que eu tinha um namorado então imagina saber que eu fazia tudo o que fazia! Na casa dele também não. Os pais eram super caretas e não nos deixavam ficar sozinhos no quarto. Isso nunca foi um problema pra mim. Sempre tive que me esconder pra bater siririca e o que se faz escondida sozinha se faz escondida com mais alguém.

    Então era onde fosse possível. No parque atrás das moitas, no banheiro do bar, atrás da igreja no domingo e em um corredor escondido na escola. Combinamos de chegar mais cedo naquele dia pra curtirmos um pouco juntos com aquele tesão das 6 horas da manhã.

    Era cedo demais, não tinha nenhuma farmácia aberta e não tínhamos a camisinha. O tesão subindo as paredes. Nós dois no corredor apertadinho. As mãos dele passeando no meu corpo todo e eu punhetando aquele pau enorme com vontade. Minha buceta era puro suco. Não aguentava mais, estava perdendo a lucidez, quando uma ideia maluca passou pela minha cabeça.

    Será que eu aguento isso no meu cu?

    O empresário tinha o pau pequeno (hoje sei que era bem pequeno mesmo) então era gostoso levar atrás. Mas e essa tromba aí? Como vai ser? O tesão foi tomando minha mente e perdi tudo quando ele ajoelhou e começou a chupar minha buceta com dois dedos dentro dela. Quando perdemos a cabeça pro tesão fazemos cada coisa!

    Antes que eu perdesse a razão de vez e metesse sem camisinha virei de costas, coloquei as mãos na parede e falei: – Põe no meu cu. Vai logo antes que eu me arrependa. – Queria contar que ele meteu tudo logo, mas seria mentira. Ele travou. Ficou me olhando apavorado. Pau na mão. Vi que ele não ia tomar a iniciativa. Me ajoelhei na frente dele, dei uma mamada bem rápida e babada e voltei pra minha posição contra a parede. Dei uma cuspida na mão e passei a saliva no cuzinho. Olhei bem nos olhos dele e falei com firmeza: – mete logo no meu cu! – Ele voltou do que parecia um transe: – Ah, uhm, sim, eu vou meter…

    Encostou a cabecinha e empurrou. Caralho de ideia que fui ter. A cabecinha que era menor deslizou, mas logo depois entalou. Grosso demais. Nesse ponto, minha buceta já escorria molho pelas pernas e eu sabia que não tinha volta. Ou entrava tudo ou eu brochava ali mesmo.

    E eu nunca brocho.

    Eu empurrava a bunda pra trás e ele empurrava o pau contra mim. Entrou mais um centímetro, mas não passava dali. Eu entrei em uma espécie de fúria. Virou uma questão de tesão e honra ele atolar aquilo em mim. Eu falava entre os dentes:
    – Empurra, vai, atola caralho!
    – Ai… eu não quero te machucar – ele dizia, todo se tremendo.

    Comecei a rebolar. Minha buceta pulsava e juro que se ela pudesse gritar gritava! Meu cuzinho foi relaxando e ele foi ficando corajoso. Foi empurrando. Cada centímetro que entrava era uma vitória. Ele cuspia o tempo todo e depois de um tempo entrou o suficiente pra puxar pra fora e começou a movimentar. E eu em um misto de prazer e dor que é impossível descrever.

    Sim, estava me arrombando. Era grosso demais e eu estava em um fogo que se fosse o dobro eu levava igual. Finalmente eu senti a virilha dele na minha bunda. Comecei a rir. Desculpe. Eu achei aquilo muito divertido. Imaginar que aquela tromba enorme tinha entrado naquele buraquinho tão pequeno e apertado me deixou extasiada. Vi que ele começou a tremer, ia gozar. Fazia uns meses que eu não tomava um leitinho no cu e fiquei animada. Empinei bem a bunda e esperei a porra que eu conquistei bravamente. Foi quando ouvimos uma voz grave, quase um trovão, ecoando no corredor:

    VANESSA!

    Era o diretor. Pegou a gente no ato. Eu estava em êxtase e com tanto tesão que não sei o que me deu. Segurei o meu amigo pelo braço, olhei bem nos olhos do diretor e disse: – Não tira sem gozar primeiro!

    Eu não tinha ido até ali para nada. Não ia arrombar meu cuzinho apertado daquele jeito e não levar meu leitinho. O diretor gagejou alguma coisa, arregalou os olhos e travou. O amigo me olhou apavorado. Todo mundo travado, aquele pau enorme atolado no meu cu me machucando. – Fode – eu disse. O pobre começou a meter observado pelo diretor que ficou parado ali olhando. – Enche meu cu de porra logo, anda!

    Eu não sei como ele conseguiu, sério mesmo. Vamos dar um prêmio para esse rapaz pelo desempenho sob pressão pois ele gozou mesmo e encheu meu cuzinho de leite como eu queria. Curti cada jato quente do jeito que eu me lembrava – apenas menos doloroso. Tirei logo aquele monstro do meu rabo, baixei a saia e ergui a calcinha bem devagar, encarando o diretor furiosa.

    Passei caminhando por ele estarrecido. Deixei o amigo para trás. Andei confiante até o banheiro, sentei no vaso, porra escorrendo do meu cu e desmanchei. Tremia toda. O que eu tinha acabado de fazer? O diretor ia chamar meu pai, eu estava literalmente morta.

    ***

    Não pude deixar de ficar pensando no diretor enquanto escrevia esse livro. Não me aguentei. Lembrei o nome da escola, liguei pra lá e perguntei quem era o diretor naquele ano. Me deram o nome. Procurei por ele nas redes sociais e encontrei só no Facebook. Deve estar idoso, claro. Entrei em contato e perguntei se ele lembrava de mim. O que se seguiu não é sexy, me perdoe, mas eu preciso te contar. Depois de uma longa conversa, ele me disse:

    “Quando eu vi a força da sua atitude naquele momento eu soube que não estava falando com qualquer aluna. Fui para casa e conversei com minha esposa e ela me disse que qualquer atitude minha poderia matar uma alma que veio destinada a grandes coisas. Eu lembro do seu pai. Sabia que se ele soubesse disso poderia acabar com sua luz para sempre. Então me calei. Muitos anos depois eu te vi na televisão defendendo ideias de amor que jamais poderia imaginar. Naquele dia eu soube que fiz a coisa certa.”

    Depois de mais alguma conversa deixei ele bem a vontade e, claro, a coisa descambou.

    “Quando ele tirou que eu percebi que estava mesmo no cu. Isso também me deixou apavorado. Já tinha visto o pau dele no vestiário do futebol. Aquele menino era dotado demais. Sabia que o apelido dele era Aleijado? Risos”

    Enfim ele admitiu que bateu algumas lembrando daquele dia, se imaginando no lugar do moleque. Está perdoado, diretor. Ninguém é de ferro. E obrigado por não ter me fodido do jeito ruim.

    ***

    Sabendo que eu estava de mudança meu amigo me ligou no dia do meu aniversário dizendo que não podia mais me ver, que não queria se amarrar, que precisava curtir a vida e estudar para um dia pensar em relacionamento. E quem raios tinha dito alguma coisa a respeito? Cada homem que passava por mim parecia mais esquisito com essa necessidade bizarra de ter alguém loucamente apaixonado, fazendo idiotices. Mesmo assim fiquei injuriada. Uma mulher como eu não se dispensa assim. Ele havia de me pagar um dia, eu só não sabia como.

    Mudei para uma casa enorme em uma cidade enorme. Minha mãe voltou com meus irmãos e voltei a cantar com meu pai. Sem a porcaria da escola para me impedir podia viajar e lutar pelo meu sonho novamente. Nossa agenda de shows era insana. Fazíamos todos os restaurantes da região com jornadas de mais de oito horas por dia. Não era incomum eu desmaiar no final e acordar em casa. Era assim que tinha que ser. Em algum momento alguém de São Paulo ia nos ver ali e tudo ia acontecer como deveria.

    No meio de toda essa loucura eu ainda conseguia trabalhar na biblioteca do centro de cultura, fazia eventos para idosos e, claro, arrumei um namorado. Ele era bonito e um imbecil completo. Incapaz de falar sobre qualquer outra coisa que não fosse o carro dele, o emprego, casamento e filhos. E era dotado. Não tanto quanto o outro mas ainda assim enorme. Eu imaginava se talvez o empresário é que era realmente tão pequeno.

    Com meu pouco tempo livre transamos muito no carro. Ele carregava muitas camisinhas no porta luvas e eu acabei acostumando com aquela porcaria. Conversando com as amigas que fazia ouvi muitas histórias sobre pílulas anticoncepcionais e como as mulheres ficavam gordas e esquisitas por causa daquilo. Para mim não ia servir. Dar o cuzinho era quase impossível então só me restava o leitinho na boca de vez em quando.

    Nosso lugar favorito era o topo de um morro que era uma espécie de motel a céu aberto. Ali, dentro do carro, pude ver pela primeira vez na vida outro casal transando e a sensação foi surreal. Ele queria meter e eu não conseguia parar de assistir. Era uma energia tão gostosa e eu não conseguia entender minha atração. Ele ficou bem irritado, começou uma discussão sobre eu estar querendo o outro cara e fomos embora sem transar. Idiota.

    Acabei conhecendo outro homem naquela semana e, claro, era dotado também. Já estava quase certa que a pessoa que pintava as gravuras da bíblia economizava tinta. Era outro bonito e idiota. Mesmas conversas, mesmos objetivos. Ele tinha uma banda e ficava me perturbando para largar meu pai e cantar com ele, o que me lembrava do empresário e me irritava muito. O sexo era bom.

    O outro me ligou umas semanas depois pedindo desculpa. Chorou no telefone, disse que estava arrependido e sentia minha falta. Pediu que eu voltasse para ele. Voltar para onde, se eu nunca fui? Que mania dessas pessoas de me querer para elas. Coisa horrorosa. Combinamos e ele me levou para o morro. Transou comigo como se fosse a última vez. Foi gostoso.

    Infelizmente para ele eu não estava disposta a parar de transar com o novo namorado. Então mantive os dois. Com minha agenda de shows insana era muito fácil mentir que estava cantando enquanto estava metendo. Aquilo começou a me dar um tesão maior ainda. Quanto mais eu metia com um mais queria meter com o outro.

    Minha inocência tinha ficado muito para trás. Comecei a testar o quanto eles eram espertos. Chupava um, tomava todo o leitinho e depois beijava o outro. Dava o cuzinho – quando conseguia – enchia de porra e ia pro outro. Eles não percebiam. Quem não percebe a porra de outro homem na sua mulher?

    Não amava nenhum dos dois. Amor era uma coisa estranha. Cresci cantando aquelas canções de dor e sofrimento e para mim parecia uma coisa feita para as pessoas consumirem como livros e filmes. A ideia de ficar com uma pessoa só, de estar completamente apaixonada e ficar fazendo idiotices por isso me passava longe. Na igreja o padre insistia nisso quando ele mesmo nem mulher tinha. Um grande engodo. Com o tempo nem o sexo deles tinha mais graça. O pau dotado me machucava e eu nem podia transar todos os dias. Continuei pela adrenalina.

    O primeiro costumava me emprestar o carro dele. Eu dizia que precisava ir para outra cidade, ginecologista, coisas de menina. Passei e peguei o segundo na saída do trabalho e levei para o morro onde transava com o primeiro. Quando ele perguntou de quem era o carro, desconversei. Disse que meu pai estava testando pra comprar.

    E eu precisava testar também.

    Parei o carro e pulei em cima dele. As mãos dele correram meu corpo e um beijo quente se intercalava com ele arrancando minha blusa. Chupou meus seios com vontade enquanto eu esfregava minha buceta fervendo no pau dele, duro sobre as calças. Aquele dia eu queria mais. Queria que alguém visse. Eu queria ser pega. Abri a porta e puxei ele para fora do carro. Ele olhava ao redor, assustado, com medo de ter mais gente por ali.

    Não quis saber. Ajoelhei e abri as calças dele. Eu amo quando abro o zíper e o pau pula duro no meu rosto. Mamei. Mamei com muito gosto e vontade. Estava extremamente excitada chupando sabendo que alguém podia estar assistindo e ainda mais que alguém podia reconhecer o carro e contar o que viu.

    Eu fiquei tão empolgada que, sem perceber, estava com as bolas dele no meu queixo. Era algo fácil com o empresário e impossível com eles, engolindo o pau enorme dele inteiro, engasgando. Escorei no carro, empinei a bunda e mandei meter na buceta sem camisinha. Eu estava encharcada e gemia, louca para que alguém ouvisse. Ele estava nervoso e até meia bomba, mas eu não estava nem transando com ele mais, já estava em uma adrenalina só minha. Foi fantástico. Eu não sabia o que tinha em mim e gozei várias vezes gritando gostoso.

    Mandei ele tirar antes de gozar. Fiz ele melar minha bunda toda e me sentei nua no banco do motorista. Queria deixar uma marca. Queria que um sentisse o cheiro da porra do outro e é claro que eu não podia chifrar só um deles com tanto estilo. Fiquei por dias pensando no que fazer e tive uma ideia quase suicida.

    O primeiro foi me buscar em casa. O banco do carro dele ainda cheirava a porra, eu podia sentir, o que me deixou encharcada. Ele disse que queria ir pra um motel. Eu disse que queria algo mais ousado. Fiz ele dar umas voltas pela cidade como se fosse aleatório. Entramos em uma certa rua e eu indiquei uma árvore grande.

    – Pare ali – comandei.

    Era final da tarde, quase escurecendo. Ele parou o carro e eu já abri o zíper da calça dele. – Aqui não, alguém vai ver! – ele estava apavorado e eu ignorei o medo dele. Puxei pra fora aquele pauzão e caí de boca. Ele olhava pra fora o tempo todo tentando curtir meu boquete molhado enquanto as pessoas passavam pela rua. Mamei e lambi. Dava cuspidas nele e mamava de novo. Ele segurava meus cabelos pra baixo para que ninguém visse.

    Assim como o outro ele não conseguiu ficar com o pau completamente duro. Não estava nem aí. Ergui a cabeça e dei um beijão na boca dele. Olhei pela janela para ver a casa do segundo bem na nossa frente. Eu sabia que ele estava em casa. Montei no colo dele, puxei a calcinha pro lado e sentei no pau meia bomba. Ele ainda tentou me empurrar morrendo de medo. Sentei e atolei tudo na minha buceta.

    Eu estava escorrendo litros de suco. Tesão puro. Enquanto o pau dele entumescia dentro de mim, sem camisinha, eu olhava para a porta da casa do outro esperando que ele aparecesse. – Me avisa quando for gozar, quero que mele minhas coxas. – Eu estava em êxtase total. A cada sentada que eu dava eu esperava que a porta abrisse.

    Eu queria ser pega.

    Ele começou a gemer alto e se perdeu no meu suco. – Eu vou gozar! – Ergui a bunda o suficiente para que ele melasse minha buceta e minhas coxas. Sentei de volta no banco do carona. Eu amei a sensação, mas estava um pouco frustrada. Abri a porta do carro. Ele me segurou pelo braço perguntando onde eu ia. Enrolei, falei que ia ver uma vovozinha que morava ali perto – uma desculpa bem esfarrapada pra deixar a pulga atrás da orelha mesmo. Ele fez que acreditou, eu sorri e dei um beijo bem quente e apaixonado.

    Desci do carro e fui caminhando devagar. Ele se foi. Voltei até a casa do segundo. Bati na porta. Ele ficou feliz com a surpresa. Disse que só estava de passagem por ali e só queria dar um beijo. Dei um beijo ainda mais quente e apaixonado. Enquanto beijava ele eu passava minha mão na porra do outro nas minhas coxas e depois passava a mão no rosto dele. Eu tremia nos braços dele, aquela energia que eu sentia era a coisa mais incrível que eu já tinha experimentado, ia muito além de tudo o que eu pudesse imaginar. Fui pra casa e me masturbei até não poder mais.

    Aquilo foi bom. Eu só tinha a impressão de que podia ser muito mais. Meu tesão nos dois acabou completamente.

    ***

    Uma semana depois minha tia faleceu. Entramos no carro e voltamos para o sul para ver a família. Na hora de voltar do enterro passamos na nossa antiga casa na colônia e nossa mudança estava de volta lá. Não podia ser. Não era possível. Meus pais armaram para mim.

    Meu sonho estava arruinado.

    Ou continue lendo o livro

  • Capítulo 1 – Gênese

    Como todo mundo eu cresci sem nenhuma educação sexual. Por um lado sou grata por ter tido uma jornada deliciosa de descoberta, por outro lado sou grata pela sorte de não ter sido abusada no processo e por outro lado (quantos lados isso pode ter?) eu condeno meus pais, o padre, meus professores, minha família e todo mundo que estava ao meu redor enquanto eu crescia.

    ***

    Uma nota séria sobre sexo e crianças: não combina. Não preciso nem ir pro campo moral para discutir isso: a medicina nos prova que precisamos deixar o corpo humano se desenvolver até a maioridade para se reproduzir. Podemos sentir tesão antes disso? Claro que sim e isso deve ser acompanhado de uma jornada solitária de descoberta do próprio corpo, apoiada por informação suficiente e uma rede de proteção das pessoas ao redor.

    Isso me leva a outra nota mais séria ainda: para mim, todo o tesão e todos os fetiches devem ser respeitados. O estado de espírito que entramos durante o tesão é uma coisa magnífica, da mais alta ordem física e espiritual e deve ser tratado com a devida honra e admiração. Fica aqui o limite que eu gostaria que todo mundo concordasse: que todo o tesão aconteça entre humanos com plenas falcudades mentais e idade biológica adequada.

    Dito isso, sei que não posso evitar que esse capítulo desperte o tesão de adultos em uma adolescente e isso não deve me impedir de dividir essa parte da história com você. Meu maior desejo com isso é que esse relato possa ajudar outros e outras adolescentes sem educação sexual e adultos que estejam educando outras pessoas a ter um pouco mais de clareza e prazer na sua jornada, além de evitar qualquer abuso.

    ***

    Aos seis anos de idade tive que operar meu apêndice. Foi horrível. Tenho memórias do desespero no rosto da minha mãe, da ambulância, do hospital. Da enfermeira me pegando na janela porque eu pensei, por algum momento, que poderia sair voando dali.

    Meu longo e belo cabelo ruivo teve que ser cortado curtinho e fiquei parecendo um menino. Recuperada, fui brincar com eles na rua soltando pipa. Correndo no sol, todos ficamos com calor. Os meninos tiraram a camiseta e continuaram a correr. Tirei também, bem mais fresquinho!

    Minha mãe me viu correndo sem camisa com os meninos e veio correndo desesperada. Levei uma surra. Não fez o menor sentido pra mim. Estava calor, tirei a camiseta!

    – Não pode, é menina.

    No dia seguinte fui brincar de novo e, sem ela ver, tirei a camiseta. Entre as crianças, nada de especial. De cabelo curto e corpo de criança eu era só mais um moleque sem camisa correndo atrás da pipa. A maldade está nos olhos de quem vê.

    Ali, muito jovem pra entender, já me veio um questionamento que me acompanharia para a vida: qual o problema com a nudez?

    ***

    Foi mais ou menos nessa época que meu pai chegou em casa de mais uma turnê. Ele passava tanto tempo fora que às vezes eu não reconhecia ele e chamava minha mãe pensando que algum vendedor de Barsa ou Testemunha de Jeová estava batendo no portão. Dessa vez ele tinha me deixado uma tarefa: que eu ouvisse algumas fitas K7 e tentasse cantar.

    Um tesouro. As gargantas de ouro do Brasil todas ali comigo. Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Milionário e José Rico e por aí vai. Eu passava meus dias ouvindo as fitas, decorando as letras e tentando imitar as duas vozes dos cantores.

    Quando ele voltou eu estava pronta. Parada na sala com uma colher de pau na mão como se fosse um microfone. Ele parou na porta. Estava abatido, cansado de uma maneira que eu só ia compreender anos depois. Abri a boca e comecei a cantar. Nas primeiras notas pude ver seus olhos opacos ganhando brilho, um sorriso abrindo caminho à força no seu rosto. Ele estava abismado com o que via e ouvia. Já o olhar da minha mãe tinha um ar de desespero, como se ela previsse o que vinha pela frente.

    Uma semana depois eu me apresentava em cima de uma mesa de refeitório na Sadia de Chapecó. O olhar incrédulo do meu pai se espalhava para todos os rostos. Aquela coisinha ruiva de 6 anos abrindo a garganta como se fosse um pássaro e deixando todo mundo maravilhado. Dali, para cima de um caminhão e em um palco para milhares de pessoas.

    Quando percebi passei meus 7, 8, 9 anos de idade na estrada. Estudava em envelopes amarelos que minha mãe buscava e levava para a escola. Eram os incríveis anos 80 e se podia muito mais do que se pode hoje – nunca vou saber se para o bem ou para o mal. Eu cantei em bailes que viravam a noite com pessoas fumando e bebendo ao meu redor, cantei nas ruas em festas populares, cantei na igreja e na zona.

    Aos 10 anos de idade já tinha estrada nas costas e nos anos seguintes voltava cada vez menos para casa, morando dentro de uma Caravan 82 com meu pai, de cidade em cidade alegrando as pessoas com a minha voz cada vez mais poderosa. Já sabia dirigir e atirar e tinha passado por muitas aventuras.

    Em uma delas meu pai e eu procurávamos um lugar seguro para dormir depois de um show na madrugada. Eu estava escorada na janela, tentando me manter acordada e conversando para manter meu pai acordado. Da completa escuridão na nossa frente dois faróis redondos de acenderam, parados na estrada.

    Um Opala. Meu pai conseguiu desviar, acelerou e começaram a nos perseguir. A Caravan voava na estrada e o Opala atrás, tentando alcançar. Ouvimos tiros. Chegamos a uma interseção e nela vários outros carros nos aguardavam. Não tivemos opção senão parar.

    Vários homens desceram dos carros e o motorista do Opala parou do nosso lado. Arma em punho, pediu para meu pai descer. Deixa eu te contar sobre meu pai: um homem lindo, ruivo com os cabelos de juba e completamente maluco. Ele me olhou e disse: abaixa a cabeça.

    Arrancando o carro nos jogou contra os carros estacionados, fazendo espaço e fugindo. Ouvi muitos tiros. Eles ainda tentaram perseguir mas nenhum dos carros deles fez vez à nossa Caravan. Só mais um dia nas estradas do sul.

    ***

    Vários anos depois, arrepios pelo corpo todo. Não sabia o que aquilo significava e já tinha medo o suficiente dos adultos para saber que não era possível perguntar. Piorava: eu nem sabia quais eram as perguntas certas. Era gostoso e assustador ao mesmo tempo. Seria uma doença? Será que mais alguém sentia aquilo?

    Como é da natureza humana fui direto cutucar na ferida. E dessa foi diferente de um arranhão, de um corte, de arrancar uma casquinha. Dessa vez colocar os dedos onde estava coçando foi uma experiência surreal.

    Foi como ligar um botão que nunca mais se desligou. Se eu estava sozinha, sem nenhum adulto assustador por perto, meus dedos estavam lá. Não tinha a menor ideia do que estava fazendo, não entendia o que era aquele líquido que jorrava cada vez mais longe quando minhas pernas tremiam e meus olhos viravam. Eu não sabia que estava chegando ao orgasmo.

    Eu sabia que tinha que me esconder. Quando os adultos ao meu redor conversavam eu percebia que as vezes ficavam diferentes. Eu via eles trocando olhares miúdos, ficando vermelhos, dando risadas envergonhadas e agindo de forma muito esquisita. Alguém me via prestando atenção e dava tapas nos outros para que mudassem de assunto. Pareciam diabretes conversando sobre um plano maligno.

    As dúvidas e se esconder dos adultos eu estava tirando de letra. O verdadeiro problema começou em um domingo de manhã, na igreja. Minha família é católica, italiana e a missa era sagrada. Naquele dia o padre falava para as crianças e adolescentes que deus estava vendo tudo o que fazíamos. Ele sabia de tudo, estava em todos os lugares e não só estava vendo mas também estava anotando em um caderninho que seria lido no dia do juízo final.

    Senti minha cabeça girar e perdi o chão. Eu já estava condenada. Comecei a me deprimir, não queria mais viajar nem cantar. Deitava na cama com aquela coceira chamando meus dedos e mordia as unhas. Um homem pregado em uma cruz na parede do meu quarto, a cabeça se esvaindo em sangue, me olhava de cima pra baixo só esperando eu ceder para fazer mais uma anotação no meu nome.

    Corri para o único lugar que eu sabia que podia me salvar. Em cima de uma mesa reservada só para isso na casa, ao lado de um revólver sempre carregado, estava um livro. Grande, pesado, com a capa preta e as páginas em belas folhas de bordas douradas. Se tinha uma resposta para o que eu sentia, ela estava ali. Com esforço peguei o livro e corri pro meu quarto. Sentei na cama e abri.

    Na dúvida, leia a bíblia, o padre disse também. Eram muitas páginas, então resolvi começar do início. Era uma história sobre deus criando coisas e eu não estava entendendo muito bem. Precisei pegar um dicionário, não sabia o que a palavra firmamento significava. Depois vieram os peixes e as aves e deus disse a eles que fossem férteis. Parti de novo para o dicionário.

    1. Biologia. Capaz de reproduzir-se.
    2. que possui alta capacidade repodutiva, fecundo.

    Como assim, reproduzir-se? Bíblia de lado, dicionário na mão, seguimos na descoberta.

    1. exibir, mostrar novamente.
    2. produzir de novo.

    Não entendi nada. O dicionário não estava ajudando. Voltei para a bíblia, onde deus fez os outros animais e fez os homens para reinar sobre tudo o que ele fez, inclusive mandando o homem ser fértil e reproduzir também. Segundo o dicionário, deus queria que o homem exibisse tudo o que ele criou. Deve ser por isso que inventamos o zoológico.

    Isso não respondia nada sobre minha coceira. Segui em frente. Horas se passaram. Da bíblia para o dicionário, do dicionário para a bíblia e finalmente encontrei alguma coisa interessante: uma ilustração. Era uma pintura linda, dessas da antiguidade, e algo imediatamente me chamou a atenção: as pessoas estavam nuas e tinha algo muito errado com os homens, uma coisa que saía deles bem ali na parte que me dava a coceira.

    Deixei o dicionário de lado e segui folheando as páginas e admirando as ilustrações. Já estava apertando os olhos para enxergar na escuridão do fim da tarde quando me deparei com Daniel na cova dos leões. Aquele homem nu, prostrado, e os leões ao seu redor. Aquela imagem imprimiu na minha mente com tanta força que nunca mais me esqueci.

    Devolvi o livro ao seu lugar e fui jantar em silêncio. Ao invés de respostas tinha ainda mais perguntas e não podia perguntar aos meus pais. Quase não consegui dormir, atormentada pela coceira e pelos leões que iam devorar aquele homem.

    Nos meses seguintes continuei lendo o livro todos os dias. Meus pais estavam orgulhosos e comentavam com o padre e as pessoas sobre meu grande interesse no livro de deus. Em algum momento eu desisti de ler e comecei a passar as tardes admirando as imagens. Me identificava com as mulheres que eram na sua maioria ruivas e tinham aquele desenho de ventre igual o meu.

    Percebi que todos os homens tinham aquela coisa entre as pernas. E que nas pinturas as pessoas estavam o tempo todo tocando umas nas outras. Era diferente do que eu estava acostumada a ver ali naquela colônia alemã e italiana em que vivia. Pessoas sempre vestidas e que mal se abraçavam. Talvez por isso o padre precisava insistir tanto no domingo que as pessoas olhassem mais a bíblia.

    ***

    Meus pais brigavam muito. Levei um tempo para entender que minha mãe, agora com mais dois filhos, queria a família toda em casa. Meu pai argumentava que precisava ganhar dinheiro mas ela já tinha construído um pequeno mercado que pagava as contas. Brigaram ainda mais. No fim ele saiu para uma turnê e me deixou em casa.

    Voltei a frequentar a escola onde me sentia um peixe completamente fora d’água. Eu já tinha visto tanto mundo, passado por tanta coisa que todo mundo ali parecia completamente retardado. Até mesmo as professoras me pareciam bobas e sem experiência de vida.

    Ficava na minha, tirava 10 em tudo e apanhava todos os dias na saída. Eu era bonita demais, elas diziam. Já os meninos não tinham a mesma opinião. Me chamavam de barata branca, de tábua, de alemoa aguada. Minhas colegas tinham seios protuberantes e bundas enormes e eu toda pequenina e magrinha. Ninguém se interessava em mim.

    Na hora do recreio eu passava bastante tempo sozinha olhando as meninas beijando os meninos pelos corredores. Aquilo não me despertava nada e eu não via graça nenhuma. Depois da aula, algumas delas iam para uma construção abandonada atrás da escola com os meninos. O que elas faziam lá eu não sabia, mas deus estava vendo.

    Um dia uma menina se aproximou de mim. Mais tímida que eu, ficamos amigas. Pensando na bíblia, eu encostava nela o tempo todo. Fazia carinho, penteava o cabelo, maquiava e fazia as unhas. Logo mais uma amiga chegou e passávamos nosso tempo nessa atividade de cuidar umas das outras. As esquisitas.

    Finalmente, em uma festa da escola, um menino me beijou. Foi a coisa mais nojenta. Ele babou em mim e batemos os dentes. Definitivamente aquilo não era pra mim. Minhas amigas não gostaram do que eu fiz, ficaram muito magoadas. Me mandaram uma cartinha, naqueles antigos papéis de carta ilustrados, me dizendo que não seriam mais minhas amigas.

    ***

    Sem muito o que fazer, sem poder viajar e cantar, sem amigas e cansada do livro que não respondia nada, ficava sentada ouvindo minha mãe conversar com as amigas. Com meu pai fora de casa, não reconhecia minha mãe, era outra pessoa. Bebia e fumava com as amigas e falava sobre assuntos fora da minha compreensão.

    Entre frases em italiano, alemão e polonês fui captando alguma coisa. Elas falavam muito sobre os homens e aquela coisa no meio das pernas deles. Parece que ela era mole e pequena, ou brocha, mas quando recebia algum tipo de carinho ficava dura e macia ao mesmo tempo. O tom de voz delas sempre mudava e elas falavam mais baixo, com aquele olhar, sobre isso.

    Entendi que essa coisa dos homens encaixava bem no lugar da coceira e, aparentemente, era feita para coçar mesmo. Depois descobri que não era só onde iam meus dedos, pelo lado de fora, mas mais fundo. Me escondi no quarto e, coberta para o homem da cruz não anotar no caderninho, coloquei o dedo para dentro. Doeu, não quis mais tentar.

    Elas chamavam a coisa do homem de pinto, apesar da completa falta de semelhança. Não tem penas, bico, patas, não faz barulho nenhum e não come milho. E uma delas disse que colocou o pinto de um homem na boca. Eca. Elas riram, parecia ser uma coisa boa.

    O nome da coisa das mulheres era perereca. Nunca vi uma que fosse rosinha, mas de fato estava sempre molhada. Uma delas disse que um homem colocou a boca na perereca dela e que ela gostou muito. Eca de novo. Que gente esquisita.

    Depois de um tempo meu pai voltou de viagem e minhas amigas resolveram fazer as pazes. Elas foram me visitar e quando meu pai viu como estávamos sendo carinhosas umas com as outras as expulsou de casa aos berros. Não entendi nada.

    Minha mãe não recebeu mais as amigas.

    Meu pai estava eufórico. Conseguiu uma entrevista em um canal da televisão local e quis me levar com ele. Quando cheguei na emissora parecia que estava em casa. Tinha brincado tanto de ser uma apresentadora de programa que dei a entrevista com naturalidade e cantei.

    No dia seguinte trinta meninas me esperavam na escola. Fui espancada. Bonita demais e aparece na TV. Quando cheguei em casa meu pai arrumava as malas para outra turnê. Arrumei as minhas também. Nunca mais coloco meus pés nessa cidade.

    O êxodo.

    Colocamos o equipamento no carro e abracei minha mãe. Só pensava em levar ela e meus irmãos para qualquer lugar melhor que aquela colônia de gente ignorante. Peguei a estrada com sangue nos olhos e não deixei meu pai parar em nenhuma cidade que conhecíamos no caminho. Só paramos em um posto de gasolina distante na rodovia.

    Eram mais de 1.100 km entre o lugar que eu estava e a grande capital que queria chegar. Enquanto minha ideia era encher o tanque e fazer tudo isso em um dia meu pai queria conhecer o caminho e ir trabalhando e ganhando dinheiro até lá.

    Os caminhoneiros eram os nossos maiores fãs pois cantávamos o melhor do sertanejo raiz e algumas músicas mais atuais e famosas. Nosso modo de operação naquele momento era chegar em algum restaurante na beira da estrada e pedir para cantar em troca do almoço. Conseguindo isso era fácil vender fitas K7 e os primeiros CDs para esse público distinto.

    Era a minha estratégia para nos mantermos na rodovia e não entrar nas colônias alemãs. Precisava mostrar para o meu pai que existia muito mais mundo que aquilo mesmo que nem eu soubesse se isso era mesmo verdade.

    Eu precisava ver no mundo real o que eu via na televisão. São Paulo e suas enormes cidades com os grandes palcos onde se apresentavam os artistas que eu admirava. Eu queria conhecer a Sandy que tinha a minha idade e era muito famosa. Será que um dia eu poderia cantar com ela?

    Cantamos no restaurante. Estava lotado. As pessoas chegavam, comiam, nos ouviam cantar, compravam uma k7 e iam embora. Chegava mais gente. Quando me dei por conta já estava cantando por mais de quatro horas seguidas. Meu pai sorria de orelha a orelha vendo a caixa de fitas e CDs se esvaziando e o bolso cheio de dinheiro.

    De vez em quando eu fazia um intervalo e passava de mesa em mesa vendendo. Todo mundo elogiava minha voz e minha beleza. Eu fazia questão de dizer que estava tentando chegar em São Paulo e as pessoas compravam alguma coisa ou simplesmente me davam dinheiro para me ajudar a realizar meu sonho.

    Um homem me chamou para perto dele e, no meu ouvido, disse: vamos lá no meu caminhão fazer um sexo que eu te dou bastante dinheiro. Eu tremi. Me deu um arrepio na espinha e minha calcinha molhou toda. Ele segurava meu braço com aquele olhar de diabrete. Logo um alerta acendeu na minha cabeça, aquilo ali estava muito errado. Me soltei e corri de volta para o palco.

    Peguei o microfone e falei: aquele moço ali me ofereceu dinheiro para eu ir ao caminhão dele. Um por um os caminhoneiros foram se levantando e indo na direção do homem. Ele foi expulso do restaurante e do posto de gasolina.

    Eu não iria com ele para o caminhão, nem naquele dia e nem hoje, só não vou mentir que não fiquei molhada com a proposta dele. Foi a primeira vez que um homem, não um menino, olhou para mim com aquele olhar de diabrete e eu me vi desejada. Alguma coisa mudou em mim naquele exato momento. Olhando para o público, podia ver os olhares de desejo para mim, agora uma quase mulher.

    Quase desmaiei de tanto cantar. O almoço e a janta tornaram-se um evento só. Exausta, comi e fui para a Caravan dormir em uma cama improvisada. Meu pai ficou guardando o equipamento e, enquanto ele não vinha, me masturbei pensando naqueles desejos. Dormi. Um sono difícil, conturbado, cheio de pesadelos. Não é fácil dormir no carro.

    Na manhã seguinte acordei toda molhada. Um cheiro muito forte. Meu pai já tinha saído então coloquei a mão na calcinha. Estava ensopada. Quando tirei a mão e fui ver era sangue.

    Me sentei rápido, segurando um grito. O que era aquilo? Me lembrei de duas coisas na hora e nenhuma delas era um pensamento bom: primeiro o padre me dizendo que deus estava vendo tudo e depois minha mãe falando com as amigas sobre câncer.

    As duas ideias se juntaram em uma. Me masturbei, deus me deu câncer e eu vou morrer. Entrei em completo desespero. Não conseguia respirar. Eu ia sangrar e ia pro inferno onde ia queimar no mármore porque não conseguia segurar meus dedos e a minha coceira. Aquele homem no restaurante era o diabo e eu caí em tentação. Estava condenada.

    Saí tropeçando. Meu pai conversava com o frentista do posto. Me escondi dele e fui me esgueirando pelas paredes me segurando para não desmaiar. Eu não queria morrer ali daquele jeito. Entrei no banheiro, tirei minha roupa e fui pro chuveiro. Tomei um banho vendo o sangue escorrer sem parar de dentro de mim. Minhas mãos tremiam, minhas pernas também. Me escorei na parede e chorei.

    Uma mulher entrou no banheiro e me ouviu. Bateu na porta. Me assustei e tentei segurar o choro. Ela perguntou se estava tudo bem e eu não me aguentei, comecei a chorar e soluçar ainda mais. A moça espiou por debaixo da porta, eu ali escorada na parede, a água batendo e as pernas sangrando.

    – Quer ajuda, mocinha? – Ela disse.

    Fiquei só chorando e soluçando. Não queria que ela chamasse meu pai. Ele ia me bater e eu ia pro inferno de vez. Desistindo, ela deixou uma pequena embalagem debaixo da porta e saiu.

    Depois de um tempo parei de sangrar. Desliguei o chuveiro, um pouco mais calma, e peguei o pacote. Eu já tinha visto aquilo no mercadinho da minha mãe mas nunca soube o que era e nunca tive curiosidade de perguntar. Agora estava curiosa. Abri e um pano em um formato parecido com uma calcinha apareceu. Li: absorvente higiênico.

    Tinha uma cola e eu imaginei que pudesse ser uma espécie de band-aid para colocar na perereca com câncer. Colei na minha pele e me vesti de novo. No espelho meu rosto parecia uma batata vermelha e eu ainda soluçava um pouco.

    Entrei no carro e esperei meu pai. Ele entrou e me ofereceu uma coxinha, sem perceber meu rosto inchado. Pegamos a estrada e fui comendo. Coxinha é o pão do viajante, e eu amo. Tem até uma piada.

    A menina chega para a mãe e pergunta:
    – Mãe, por que o nome da minha prima é Rosa?
    – Porque a sua tia gosta muito de rosas. – responde a mãe.
    – E o meu nome é por que?
    – Você faz muitas perguntas, Coxiane de Catupirelen!

    Existe uma outra versão da piada em que o nome da menina é Roliane.

    Escorei o rosto no vidro. Não existe coisa mais gostosa no mundo do que ficar vendo a paisagem passar. Fiquei pensando por muito tempo e finalmente encontrei uma pergunta que podia fazer para o meu pai.

    – Quanto tempo leva para morrer de câncer?

    Ele me olhou assustado. Que pergunta para se fazer assim, do nada! Então começou a me contar um monte de histórias de parentes, vizinhos, e conhecidos. Alguns tinham vivido poucas semanas, outros tinham vivido por 15 anos. Eles definhavam na cama e alguns tentavam tratar e perdiam todo o cabelo e acabavam morrendo mesmo assim. Eram metade dos anos 90 e os tratamentos de câncer ainda eram muito precários.

    A cada história que ele contava eu engolia um choro. Não sei como consegui. Que arrependimento de ter perguntado. Quando chegamos no próximo restaurante eu tinha uma bolha na garganta e estava prestes a explodir. Ele desceu do carro, pegou o violão e entrou no restaurante. Me sentei na calçada e chorei. Eu ia sangrar por algumas semanas, talvez 15 anos, perder todo meu cabelo e depois ia morrer. E tudo isso por causa de uma coceira na perereca.

    Falando nisso, aquela cola estava me incomodando, puxando meus pentelhos. Estava muito desconfortável mas eu não podia mexer para o sangue não escapar e meu pai ver que tenho câncer. Eu nem sabia se ele ia ficar triste ou se ele ia saber que eu mexi na perereca e me matar ele mesmo. Tive uma ideia.

    Peguei a embalagem e saí caminhando pelo posto. Encontrei uma mulher e perguntei se ela tinha um desses para me dar, já que não tinha mercadinho ali. Consegui na primeira. Depois fui entender que existe um pacto silencioso entre todas as mulheres do mundo: nunca se nega um absorvente para ninguém. Até hoje eu carrego um extra na bolsa, mesmo quando não estou nos dias.

    Agradeci quase chorando e guardei comigo. Ela só fez um sinal com a cabeça como alguém que não fez mais que sua obrigação. Meu pai já havia voltado e estava pegando o equipamento. Respirei fundo e me preparei para mais algumas horas de música.

    Logo estava no palco. Restaurante lotado e aquela mesma rotina: cantar, fazer um intervalo, vender as fitas, pegar o dinheiro. Quem canta seus males espanta, diz o ditado, e logo eu tinha esquecido do sangue, do câncer e do band-aid arrancando meus pentelhos. Minha atenção já tinha se voltado aos olhares de desejo de novo. Senti me molhar.

    O olhar dos homens me assustava. Era uma energia que eu sentia não estar pronta para lidar. Foi um garçom, rapaz novo, que acabou captando meu olhar. Ele passava por mim me olhando não com aquele olhar de diabrete, mas um olhar encantado e apaixonado.

    Depois de longas horas de trabalho finalmente pude comer e sair dali de volta para o carro. O rapaz saiu para a porta do restaurante e eu fiquei olhando para ele. Ele olhava de volta para mim. Eu mexia no cabelo, ele fazia de conta que não estava me olhando. Ficamos assim, como dois idiotas, por muito tempo. Honestamente eu não fazia a menor ideia do que fazer se ele chegasse perto e pelo jeito ele também não. Finalmente ele pegou uma carona e foi embora.

    Foi meu primeiro flerte e eu estava toda molhada. Senti a coceira e meus dedos tremeram. Foi quando a realidade me deu um soco no estômago. O câncer! Tentei correr para o banheiro mas no primeiro pulo o absorvente arrancou meus pentelhos. Segurei um grito de dor e me agachei. Pior que bater com o dedinho na quina. Me recuperei e saí me arrastando.

    Entrei na cabine de banho, tirei a saia, a calcinha e tentei puxar o band-aid. Colado. Terrivelmente colado. Comecei a chorar de novo. Depois de um tempo, tive uma ideia. Me lembrei que quando usava curativo no machucado e molhava ele saía sozinho. Liguei o chuveiro e coloquei a perereca debaixo d’água. Levou um bom tempo e a água quente finalmente começou a soltar a cola. Ainda com muito esforço e perdendo muitos pentelhos no processo, saiu.

    Conferi o sangue. Ainda estava lá. Peguei o outro absorvente e olhei para a cola. Minha virilha estava toda vermelha, com metade dos pentelhos. E se eu colar na calcinha, será que funciona?

    Tentei dormir, mas não consegui. O choro veio de novo mas não podia acordar meu pai. Pensei que devia engolir o choro de vez e aceitar que eu tinha errado, que tinha pecado e que meu destino de condenada era certo. Peguei o terço que carregava no porta luvas e comecei a rezar Ave Marias. Rezei até adormecer.

    Nos dias seguintes tentei me concentrar melhor e parar de pensar na coceira, mesmo que ela não me deixasse dormir. Quando estava livre, rezava sem parar mas enquanto cantava sentia aquele fogo dentro de mim. Chegava no carro e rezava até dormir. Alguns dias depois parei de sangrar.

    Mais um dia, mais um posto, outro restaurante e a mesma rotina. Tivemos que encomendar mais fitas e CDs – foram 18 mil cópias no total, todas vendidas de mão em mão. Em cada restaurante uma paquera. Os moços não tinham coragem de falar comigo e eu não tinha coragem de falar com eles e assim foi por algumas semanas.

    Eu estava sentada em cima do carro quando esse moço chegou perto. O olhar dele era menos bobo que os dos outros. Puxou assunto, nem lembro o que, e em alguns minutos estava na sombra de uma árvore, onde meu pai não podia ver, beijando. O beijo dele não era muito bom, só era definitivamente melhor que aquele da escola. Menos saliva e sem dentes batendo.

    Esse eu considero meu primeiro beijo para valer. Apertava o corpo dele contra o meu. As mãos dele no meio das minhas costas, bem comportadas. Me molhei toda. Um pensamento intrusivo tentava me dominar dizendo que aquilo era muito errado, eu não conseguia concordar. Estava muito gostoso.

    Meu pai voltou e eu saí correndo. Fui pro carro e fiquei olhando para o teto com borboletas no estômago. Como é gostoso beijar alguém e a sensação de ser querida. Com menos culpa no coração puxei o terço e dormi com as repetições de Ave Maria. Mais uma noite de sono conturbada.

    Na manhã seguinte, sangue. Já estava tão triste que não tinha mais espaço para desespero. Ninguém escapa da ira divina. Me levantei sem que meu pai percebesse, me arrastei pro banheiro e tomei um banho demorado. Além do sangue dessa vez sentia uma dor lancinante. Na minha cabeça diabretes espetavam minha barriga com pequenos tridentes.

    Talvez eu não vá durar muito.

    Sentei na pia só de calcinha e esperei alguma mulher entrar. A infeliz que abriu a porta parecia pior que eu, pálida, se arrastando. Ela me olhou, esboçou um sorriso e foi lavar o rosto. Abriu a bolsa e começou a tirar tudo de dentro, desesperada. Vi batom, alicate de unha, carteira e, finalmente, absorvente higiênico! O que ela procurava veio logo depois: uma cartela de comprimidos. Ela tirou um com as mãos tremendo e engoliu bebendo água da torneira com as mãos.

    Ela se olhou no espelho e respirou fundo. Virou para mim e disse:

    – Cólica é foda, né?
    – Você também tá com câncer? – Respondi.

    A boca dela se tornou uma linha e ela travou o olhar em mim. Me olhou de cima abaixo. Eu quis agarrar aquele segundo de atenção dela com todas as minhas forças, mas um choro veio lá do fundo e eu explodi. Devo ter dito algo mais ou menos assim:

    – Eu cocei a minha (fungada) perereca e deus (soluço) me deu câncer e (tosse) agora tá saindo sangue (outra fungada) e tá doendo e eu ainda quero (outra tosse) coçar minha perereca e (outro soluço) eu vou pro inferno e (choro).

    Ela foi se desmanchando enquanto eu falava. Pegou a embalagem de absorventes e chegou perto de mim, vendo minha calcinha forrada de papel higiênico. Sem falar nada, me ajudou a colocar o absorvente (a cola realmente fica no tecido e não na pele) e me deu um dos comprimidos dela. Quando eu finalmente parei de soluçar, ela me disse:

    – Você não está com câncer. Você está menstruada. É a primeira vez? – respondi que não. Ela perguntou se minha mãe estava por perto e comecei a chorar de novo. Deu vontade de voltar pra casa. Ela me disse para sempre carregar os absorventes e os comprimidos comigo e me deixou os que estavam com ela. Me deu um abraço e saiu, ainda se arrastando de dor.

    Devidamente equipada, voltei para o carro. Meu pai me esperava com café e coxinha. Partimos para o próximo lugar. Comi minha coxinha, tomei meu café, abri a janela e coloquei meu rosto no vento. Eu não tenho câncer!

    ***

    Eu sou uma exibicionista. Amo ser vista. No palco, na rua e na sua tela. E ao mesmo tempo eu sou tímida. Não tinha coragem de chegar perto dos moços, das minhas paqueras. Segui de restaurante em restaurante com meus flertes bobos, com os olhares inocentes.

    Foram só algumas menstruações depois que outro rapaz finalmente teve coragem de chegar perto e conversar. Eu já tinha até esquecido de como tinha sido da última vez. Me escondendo do meu pai fomos para os fundos e nos beijamos. Esse já era um pouco melhor – ou será que eu estava aprendendo?

    Em um lugar mais escondido e confortável, a mão dele foi escorregando do meio das minhas costas para a minha bunda. Arrepiei e me molhei toda. Também me assustei. Puxei a mão dele de volta pra cima. Mais uns beijos, mais uma tentativa de mão boba. Ficamos nesse vai e vem por um tempo até que me senti confortável e deixei. Ele segurou minha nádega firme, deu uma apertada. Soltei um gemido e ele riu.

    Foi então que senti um volume na coxa dele contra a minha. Foi como se todas aquelas imagens da bíblia passassem na minha cabeça em um segundo. Empurrei ele e saí correndo pro carro. Sozinha e segura, me masturbei.

    ***

    A viagem estava muito devagar. Era como se São Paulo fosse no fim do mundo ou como se não existisse. Uma terra mágica da televisão, Oz, Nárnia, A Terra Média. Já fazia quase um ano que íamos de cidade em cidade, de restaurante em restaurante.

    Eu tentava ser feliz ali, no durante. Mais uma cidade, mais uma paquera. Aos poucos fui me acostumando com a mão na bunda, com o volume deles na minha virilha. Esses eram os moços, os meninos bobos. Eu sabia que os homens faziam muito mais que isso e minha curiosidade só crescia.

    Ainda assim eles me assustavam. Naquele dia eu cantava com muito ânimo. Um homem me olhava da mesa mais perto do palco. Ele era bonito e eu olhava de volta. Os olhos de diabrete criando imaginações na cabeça dele e na minha.

    No intervalo fui ao banheiro. Quando lavava minhas mãos ele entrou e veio na minha direção. Os olhos faiscavam e ele abria a calça. Fiquei paralizada. Ele chegou em mim e levou a mão na minha cintura, mas antes que pudesse me pegar ouvi o engatilhar do revólver. Meu pai estava na porta, arma em punho, perguntando se o homem estava precisando de alguma coisa.

    Ele foi embora e eu fiquei com medo de verdade. Também percebi que meu pai observava bem mais do que eu imaginava. Eu definitivamente não estava pronta para um homem.

    ***

    Faltava muito pouco. Mais alguns restaurantes e eu poderia ver as grandes luzes de uma cidade de verdade, bem longe das colônias alemãs.

    Foi em um desses postos de gasolina no caminho que encontramos um empresário. Ele ficou apaixonado pela nossa voz e nosso talento e se ofereceu para nos ajudar. Chegar em São Paulo sem conhecer nada nem ninguém poderia ser muito perigoso para dois colonos (colono, no sul, é o equivalente ao jeca do sudeste). Seria muito melhor chegar com alguém que já sabia o caminho e ia abrir todas as portas.

    São Paulo, aqui vou eu!

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