O cara da gravadora continuava enrolando. Toda semana ele ligava e inventava alguma coisa. Agora ele queria uma gravação com uma qualidade melhor do que a do nosso notebook. Seguimos então para Socorro, São Paulo, encontrar com o Vitor da Caixa Rolante. É um projeto que grava bandas em espaços abertos, muito bacana! Fazia tempo que nos comunicamos online e ele tinha um estúdio por lá. Queríamos muito gravar Pão de Queijo, Um Ano Sem Amor e, se sobrasse tempo, a música que a gravadora queria.
Ficamos hospedados em um hotel em troca de um show. Montamos nosso estúdio no quarto porque Bardo gostava de ir para o estúdio com um arranjo pré-gravado. Ficamos ali dentro do quarto do hotel viajando nos sons. Achamos que Pão de Queijo ia ficar linda com uma viola caipira e, estando no interior de São Paulo, não devia ser difícil encontrar. Foi fácil mesmo e logo nossa música tinha um toque especial, uma viola no meio do rock n roll. Realmente ficou lindo.
Com os arranjos prontos fomos para o estúdio e captamos tudo em uma tarde só. Em alguns dias já enviamos a nossa versão para a gravadora. Eles gostaram e vieram de novo com aquela conversa ruim. Turnê insana de três, cinco shows por semana. Não. Sentei com o Bardo e decidimos que ia ser a última vez que íamos conversar com uma gravadora. Não tem, e nunca vai ter, dinheiro que pague eu não estar com as minhas filhas. São Paulo, 2012, me ensinou a lição.
Quando eu paro e olho para trás e penso nos momentos em que me senti feliz eu raramente me lembro de um momento em cima do palco. Mesmo os shows grandes, mesmo os com muito público, mesmo os bem pagos. O que eu me lembro é de fogueira, de mato, de chuva, de estar vadia na floresta, em uma trilha rumo à cachoeira e, claro, com as pessoas que eu amo. Cada momento com o Bardo, com as minhas filhas, com os meus amores. É isso que me faz feliz de fato, que me deixa contente. E isso eu já tenho, ninguém compra.
Foi assim que saímos de Socorro rumo ao infinito. Sem data, sem hora, sem local. Fazia o som na rua ou onde me convidassem só pela grana da comida e da gasolina. Se pegasse um dinheiro bom mesmo, como uns trezentos reais, pegava comida para uma semana e me escondia na cachoeira.
Foi assim que conhecemos a Dona Zilda.
Estávamos na casa de um dos nossos amigos milionários. Ele era amigo do dono da maior casa de shows do estado e conseguiu um espaço para tocarmos lá por um cachê razoável. Fomos à tarde conhecer o lugar e fechar com eles. Era um inferno, uma daquelas casas escuras e labirínticas. Ele nos mostrou o palco e disse que íamos tocar depois de uma banda famosa, que nosso show seria às duas horas da manhã.
– Duas horas da manhã eu quero estar dormindo por pelo menos seis horas. – eu disse. O homem riu nervoso, sem saber se eu fazia piada. Eu não fazia.
Ele nos mostrou o camarim e a área VIP. Disse que era parte do contrato que estivéssemos nessa área depois das dez horas da noite. Fiquei imaginando o que ele queria que eu ficasse fazendo ali por tantas horas antes do meu show. Eu nem gostava da banda de abertura. Ele então disse que era para levar as minhas filhas. Fingi que não ouvi. Que tipo de imbecil convida crianças para uma balada na madrugada?
Chegamos na hora combinada e fomos para a área das Very Important Persons – quem quer que fossem. Foi o inferno. Era um monte de gente metida à besta por ter algum dinheiro usando drogas e falando merda. Nos davam copos e mais copos de bebida – vindas sei lá de onde. Bardo fez amizade com o cara do bar e discretamente trocávamos os copos por água com gelo.
As mãos bobas não se seguravam. Pegavam na minha mão, no meu pulso, na minha cintura. Era como um filme de apocalipse zumbi. Gente nojenta, com seus sorrisos falsos e os olhos vazios, tentando tirar um pedaço de nós. Tentamos sair, mas a moça da porta disse que o nosso pagamento seria feito apenas antes do show, depois da presença na área VIP. Seguramos a onda, dando tapas nas mãos como mosquitos.
Sério mesmo que era para trazer crianças aqui?
Finalmente fomos pagos e subimos no palco. O público parecia um monte de carcaças vazias, balançando com a música. Já tinha tanta droga ali que não sei se alguém lembra do nosso show. Por sorte, algum funcionário veio e disse que estava o suficiente antes do tempo combinado.
Ali eu entendi que não era o show que tinha sido contratado. Ele pensou que íamos transformar a área VIP em uma casa de swing. Se tivesse me contratado para isso, quem sabe? Mas essa galera com dinheiro entre as orelhas pensa que sabe mais.
Bardo começou a arrumar as coisas para sairmos dali, mas foi o tempo dele virar de costas e um segurança me pegou pelo braço com força e começou a me puxar. Tentei gritar mas foi inútil.
Ele me arrastou para uma escada e entramos em um labirinto. Eu pedia que ele me soltasse mas era muito mais forte que eu e não respondia nada. Abriu uma porta e me mandou para dentro. Lá estava o dono da casa de show e a banda famosa. Respirei aliviada, mas ainda não era hora para isso.
Eles estavam muito alterados, bebendo e cheirando, e o dono da casa começou a fazer sugestões de que eu poderia ser o brinquedo deles naquela noite. Eles começaram a me cercar. Eu sentada no sofá, exausta, sem a menor chance de defesa. Que merda. O vocalista sentou do meu lado, tentou mexer no meu cabelo. Dei um tapa na mão dele. Ele riu alto e tentou de novo. Por dentro, eu morria. Tentava tirar a minha alma dali, preparando meu corpo para fazer algo que eu não queria.
De repente, a porta abre e o segurança entra à empurrões. Bardo entra na sala e me puxa pela mão. O dono da casa começa a gritar com o segurança, perguntando o que meu marido estava fazendo ali.
– Vim buscar o que é meu – Bardo respondeu, me tirando daquele inferno.
Se essa era a maior casa de shows do estado, então esse é o tipo de ambiente que eu teria que trabalhar se fechasse com a gravadora? Três vezes por semana disso? Melhor me largar na zona da beira da estrada de uma vez!
Pegamos nosso equipamento, fomos para a casa do nosso “amigo”, pegamos as kids e saímos sem rumo. Paramos na primeira placa que dizia: cachoeira.
Era uma queda pequena, rasa, muito gostosa. Uma estrada de chão acompanhava a margem e, do outro lado dela, um daqueles botecos antigos que sempre me perguntava como se mantinha em pé em um lugar perdido como aquele. Era domingo e algumas pessoas bebiam cerveja, cedo da manhã.
Paramos e pedimos por café. O dono do lugar, um mineiro velho com poucos dentes, sorriu e nos apontou os fundos. Entramos e encontramos um fogão à lenha à todo vapor. Uma senhora cuidava de uma série de panelas. Era a Dona Zilda. Pedimos café e ela nos serviu. Perguntou se queríamos pão de queijo. Aceitamos. Ela pegou um tacho, encheu de polvilho e queijo e começou a preparar ali, na nossa frente. Eu nunca tinha visto pão de queijo sendo feito do zero e assistimos como um espetáculo.
Ficamos de papo com ela. Muito faceira, ela nos contava sobre a cachoeira e como o lugar era movimentado aos finais de semana. Nos convidou para almoçar. Nos deliciarmos em um legítimo almoço: arroz, feijão, galinha caipira no quiabo. Quando pedimos a conta, Dona Zilda se espantou. Não tinha conta nenhuma, era um convite. Segurei um choro. Ter saído tão rápido daquele ambiente hostil de gente asquerosa e supostamente rica para esse lugar de verdadeira riqueza e abundância foi um baque.
Passamos a tarde na cachoeira. Um tempo atrás ganhamos um daqueles sofás infláveis e Bardo fez dele um bote para as meninas brincarem na corredeira. Foi maravilhoso! No final da tarde, Dona Zilda chamou para o café. Ela comentou que ficava muito triste no domingo à noite porque tinha que voltar para a casa dela na cidade e esperar o próximo final de semana. Bardo e eu nos olhamos, contamos o dinheiro no bolso (ao menos aqueles filhos da puta nos pagaram) e perguntamos:
– Dona Zilda, quanto ia custar para a senhora ficar conosco nesta semana, cozinhando?
Ela fez alguma conta doida na cabeça e deu o preço: Duzentos reais. Olhamos incrédulos. Seriam quatorze refeições para quatro pessoas. Não tinha como dar esse preço. Pedimos para ela conferir a conta. Ela sorriu e disse que era isso mesmo e já perguntou o que queríamos para jantar.
– Quais as opções? – perguntei.
– O que você vê ao redor que dá para comer, temos. – ela disse, sorrindo.
Olhei. Tinha galinha, uma horta com muitas saladas e temperos, alguns pés de mandioca.
– Frango com mandioca? – falei meio em tom de pergunta, um pouco incrédula. E foi assim que me tornei cúmplice no pronto assassinato de uma galinha que passava por ali. Ela tirou um pé de mandioca direto da terra, descascou e colocou na panela. As kids assistiam aquilo sem acreditar, nós com os olhos lacrimejando. Ali estava uma pessoa que conhecia o verdadeiro valor da vida.
Passamos uma semana ali com aquela senhora incrível. Ela nos acordava batendo na janela da Elvira, com o cheiro de café e pão de queijo, exatamente como a música que escrevemos. Encontramos o paraíso, a melhor coisa que a vida poderia oferecer: amor, comida, cachoeira, boa companhia, cachaça (aquela pura da roça) e violão.
Nada que é bom é pra sempre, então seguimos nosso caminho. Nunca mais soube da Dona Zilda, ela ignorava a internet, mas sei que ela ainda é feliz.
E só para pontuar: ela era evangélica, muito devota, e não nos perturbou com a religião dela por um minuto sequer. Prova de que você pode guardar a sua para você e ser uma pessoa amável de verdade. Se o paraíso cristão existir mesmo, ela será uma das poucas pessoas por lá.
***
Alguns dias, ou meses, ou quilômetros depois, não sei, subimos uma montanha e fomos parar no portão de um antigo hotel abandonado que uma família maluca tinha comprado para transformar em um centro holístico.
O lugar tinha uma energia surreal e diversas cachoeiras. Era tão isolado que eu andava nua e despreocupada por lá o dia todo. Ajudamos na colheita do feijão e da mandioca. Bardo estava nas nuvens com a culinária. O marido era um mestre na Tikka Masala – um tempero indiano – e curtimos um cardápio vegano por uns dias. Também tinha muito pinhão e um pomar lotado de goiabas, onde Bardo desaparecia por horas.
Tudo parecia muito bom e belo por lá, mas esses lugares isolados sempre tem uma maluquice ou outra. A mãe da família era meio que uma líder de seita, bastante militar e colocava ordem em tudo. Fomos indo na onda dela até onde foi possível, mas já estava dando no saco. Quando ela disse que ia ficar fora por três dias para dar um curso de alguma balela espiritual ficamos aliviados.
Mas foi só o tempo dela virar a esquina e a família correu pedindo socorro. Parecia que a coisa era bem mais seita do que imaginamos e eles queriam só um alívio daquilo enquanto ela estava fora. O marido nos confidenciou que não transava há muito tempo. Que ela tinha até cortado a cebola do cardápio porque, segundo alguma liderança cósmica, a cebola estimulava a libido e sexo era uma coisa suja, baixa e carnal. Ela só queria saber de chá de cogumelo, fumar maconha e meditar.
E lá estavam elas de novo, as drogas, sendo mais importantes que sexo. Isso me irritou profundamente. Que merda de superioridade é essa que esse povo chapado pensa que tem sobre quem encontra sua iluminação no sexo? Eu não tinha a menor intenção de transar com o cara, mas também precisava de uma desforra.
Convidei ele para caminhar nu comigo na cachoeira. O coitado tremia. Ele não era um cara de se jogar fora, de forma alguma, só não tinha batido a química. Ele sentou em uma pedra e eu fiquei me banhando na cachoeira, batendo papo. Primeiro queria ver se ele seria respeitoso, ainda mais subindo as paredes como estava. Ele foi. Nem de pau duro ficou. Devia estar se concentrando muito, pensando em cebolas, talvez. Não, espera, cebolas aumentam a libido!
Quando percebi que ele estava de acordo com meu espaço, me aproximei e fiz um carinho nas costas dele. O homem desabou. Estava travado, tenso, tudo nele era duro com exceção do pau. Disse no ouvido dele que podia relaxar, que estava tudo bem, e o caralho subiu na hora, extremamente teso. Dava aquelas pulsadas para cima. Ele estava nervoso.
Lembrei de mim mesma, anos atrás: Alguma coisa dentro dele devia gritar em desespero, as ideias espirituais da mulher maluca contra as necessidades mais básicas do corpo humano. E isso é algo que eu não desejo para ninguém, apesar de saber que é muito comum.
Fiz uma massagem nos ombros e fui descendo com os dedos pelo peito dele. Cheguei na barriga e ele deu um gemido esquisito. Olhou para o céu e fechou os olhos, respirando fundo. Desci pela virilha e passei as unhas levemente nas bolas. Estavam extremamente duras.
E ele gozou.
Eu já tinha feito muita gente gozar rápido na vida, ainda mais os moleques de vinte e poucos, mas nunca tinha visto um homem daquele tamanho explodir daquele jeito. Segurei o pau dele enquanto jorrava porra pra cima. Litros. Aquela energia toda presa ali, matando ele por dentro.
Ele mordeu os lábios de uma forma que parecia segurar um choro. E o pau continuou completamente duro na minha mão. Comecei a punhetar devagar, falando no ouvido dele para esquecer todas as merdas espirituais e se concentrar no relaxamento, no prazer, no que ele sentia de verdade. Lambia meu dedos, molhava, passava os dedos devagar na base da cabecinha. Não demorou muito. Mais um minuto ou dois de punheta lenta e ele começou a cuspir porra na água corrente.
Foi uma experiência interessante. Eu me sentia mais uma bruxa médica do que uma mulher fazendo um ato sexual. Dava pra ver as veias dele pulsando no corpo todo e os ombros relaxando devagar. Não soltei ele. Esperei por alguns minutos e, vendo que a respiração dele acalmou e o pau continuava intenso, comecei de novo.
Dessa vez ele durou mais. Colocou as mãos para trás, relaxou mesmo e ficou curtindo. Parei de falar. Ficamos ouvindo os pássaros, a água caindo da cachoeira e os gemidos que ele deixava escapar. Eu me sentia bem. Já tinha esquecido que tinha começado aquilo por raiva da bobagem espiritual dela e estava no meu próprio ritual. Era como se eu estivesse de posse das chaves dos grilhões que o seguravam.
Depois de cinco minutos, percebi que ele podia com um pouco mais, então coloquei na boca. Ele não se aguentou. Soltou um gemido muito alto, quase um grito, como quem sente aquela dor de muito tempo sem prazer. E aí foi rápido. Não deu tempo de dar aquela mamada especial. Senti pulsar forte e tirei da boca. Deixei o leite voar alto e cair na água, aquela energia travada, encruada, indo embora.
Ele não me tocou. Respeitou meu espaço a cada momento. Me agradeceu e saiu, me deixando ali. Tomei mais um banho de cachoeira, sorrindo sozinha. Senti que tinha feito algo muito bom para alguém, um ato de amor verdadeiro.

Quando voltei, as kids me contaram que as crianças estavam passando fome. Que tinham que comer carne escondidas na escola porque a mãe não deixava. Que porcaria de religião é essa? Bardo conversou com o marido e ele também sentia falta da proteína animal. Decidimos então matar uma galinha e comer com mandioca. O marido pediu ao Bardo que fizesse o abate fora da cerca da propriedade e que quando ela descobrisse – e ela ia descobrir – que ele assumisse a culpa, já que íamos embora mesmo.
Assim foi feito. Bardo e eu levamos o bicho para fora da cerca e fomos responsáveis por mais um galo indo para o além. Obrigado por morrer por nós. Depenar foi uma festa. As crianças com a água fervendo, tirando as penas e brincando com elas. Colhemos um pé de mandioca e acendemos o fogão a lenha. Era uma família completamente diferente. Sem regras, sem ordens, sem orações e drogas bizarras. Só curtindo o bom da vida, de verdade: comida, alegria e música.
O marido me olhava com um olhar que eu via pela primeira vez e não sabia que ia ver muito dali para a frente: um olhar de gratidão. Ele andava leve, cozinhava assobiando, ria com as crianças. Me divertia vendo aquilo e no fundo me perguntava como foi que o sexo virou uma coisa tão difícil na vida das pessoas. É apenas uma necessidade básica como comer ou dormir!
O cheiro do frango tomou conta do ar. Todos salivavam. Servimos à mesa: mandioca cozida com molho de frango. Um banquete! Caímos de garfo com força e vontade. Bardo e o marido combinavam as próximas refeições, já que ela ia levar dois dias para voltar, mas qual foi nossa surpresa quando ouvimos a voz dela entrando na cozinha como um leão.
– O que está acontecendo aqui?
Todo mundo travou. Bardo lembrou do combinado e foi indo na direção dela, assumindo a culpa por ter corrompido a família. Ela xingou de tudo o que podia e disse que ele ia ficar com o karma do galo que tinha assassinado para todo o sempre.
Karma do galo? O galo devia ser um terrível pecador, eu penso.
Fomos expulsos e seguimos nossa viagem.
***
Talvez você tenha ficado frustrado por eu não ter tomado toda a porra do marido. Alguma coisa aconteceu comigo, muito aos poucos, depois que o Bardo fez a vasectomia. Saber que eu não ia mais engravidar foi me desinteressando de sêmen. Eu ainda tinha todo o meu tesão e adorava brincar no final, mas não era mais aquela coisa maluca, inexplicável, aquela vontade de me encher de porra o tempo todo.
Conversando com o Bardo, imaginamos que era uma resposta biológica. Saber que já tinha cumprido meu papel como reprodutora tinha acalmado meus ânimos e agora eu realmente via aquele leitinho mais como uma energia que fluía daqui para ali. E aquela porra, especialmente, era uma energia presa, pesada, carregada, que eu não queria dentro de mim. Essa era minha nova pira espiritual, eu penso.
E era interessante ver as mulheres que o Bardo transava implorando por leite dentro. Eu podia ver nelas a vontade de ver a barriga crescer, nossa intensa e incrível natureza de reprodução. Uma pena que elas não sabiam que dele não saía mais filhos – e ele aproveitava e curtia.
***
Subimos outra montanha e fomos parar em um antigo quilombo. Fomos muito bem recebidos, fizemos nossa música e nos ofereceram um lugar para estacionar a Elvira na beira de uma cachoeira. Dali, à dez minutos de caminhada, mais outras duas quedas d’água maravilhosas. Era um paraíso! Gastamos tudo o que tínhamos em comida não perecível e encostamos lá, onde perdemos a noção do tempo.
A rotina era: acordar com a luz do sol, esperar um pouco para a cachoeira aquecer e tomar o banho da manhã. Deitar na pedra para aquecer o corpo. Fazer uma fogueira e preparar o almoço. Comer e dormir um pouco. Uma trilha e mais um longo banho de cachoeira. Voltar, reacender a brasa e fazer a janta.
Milho cozido que colhemos pelo mato, tilápia assada que pegamos no rio, feijão que cozinhava lentamente o dia todo. O manual de PANCs – as plantas alimentícias não convencionais – veio a calhar para as saladas. Tinha muita coisa interessante por ali – sempre com o cuidado de não se envenenar! Era só perguntar para o povo se era a planta certa.
Nos tornamos índios. Aos poucos esquecemos de olhar a hora no relógio e via ela pelo sol. Então esquecemos que dia da semana era, e que dia do mês. Se a comida não tivesse acabado, teríamos esquecido o mês também e ficado ali para sempre, contemplando. Eram horas e horas olhando para a cachoeira. A água correndo. Os pássaros pegando palha para os ninhos e as flores que abriam e fechavam no mesmo dia. Não tinha compromisso, não tinha data e hora marcada, não tinha uma única conta me esperando em trinta dias.
Os mosquitos, borrachudos e carrapatos foram se tornando parte integrante e já nem incomodavam tanto assim.
Bardo e eu andávamos pelo mato e, quando o tesão batia, eu empurrava ele contra uma árvore ou pedra e consumava ele ali mesmo. Meu tesão era animal e ele adorava aquilo. Beijava ele com intensidade, esfregava o meu corpo quente de sol no dele. Ajoelhava e chupava com vontade e gosto, ou me deitava em uma pedra, abria as pernas e mandava ele arrancar meu suco com a língua. Fodemos em todas as cachoeiras, em cada cantinho que pude encontrar. Me sentia uma adolescente de novo.
Apenas uma noite me assustou. Acordei com a bexiga explodindo. Que vontade de fazer xixi! Abri a barraca e, quando fui descer a escada, senti minha pele arrepiar toda. Uma sensação de estar sendo observada. Olhei ao redor e não vi nada, mas a sensação ficou. Minha bexiga esqueceu o que queria fazer e pulei de volta para dentro da barraca. Acordei o Bardo e disse que tinha uma onça lá fora. Ele riu.
No dia seguinte fui para o povoado e perguntei por lá. Sim, tinha onça parda por ali. Eu sabia!
Sem comida e sem dinheiro, tivemos que seguir viagem.
***
Fomos convidados por uma universidade para tocar em um evento em uma cidade muito pequena. Depois do show, a moça que nos contratou revelou que o contrato tinha uma segunda intenção: ela era a única poliamor daquele lugar esquecido e queria ao menos conversar com alguém que concordasse com ela.
Ela nos levou para uma casa muito boa. Jantamos e ficamos batendo papo. Ela contava as enormes dificuldades que tinha para explicar para aqueles brucutus cristãos sobre a possibilidade de se amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Mesmo que eles vivessem pulando a cerca, chifrando, traindo e enganando, para eles isso era impossível.
Foi uma conversa muito triste e totalmente de acordo com o que vínhamos vivendo até ali. Por mais que Minas Gerais fosse um estado de amor, carinho e receptividade, estavam longe de ser o tipo de amor que estávamos buscando. Todo o sexo vinha com uma proposta de traição, de mentira, ou algum tipo de treta envolvido. Não entrava na minha cabeça o que fazia ser tão complicado.
Papo vai, papo vem, resolvemos transar para dar uma relaxada daquela conversa deprimente. Começamos aos beijos, tirando a roupa, nos lambendo e nos chupando. Ela era gordinha e tinha os seios fartos e firmes, de um jeito que eu gosto. Fiquei ali mamando ela enquanto o Bardo chupava a bucetinha.
Bardo colocou ela de quatro, mas o pau não entrou. Eu lambi, cuspi, mas não tinha jeito. Ela simplesmente não cedia. Relaxamos e voltamos a conversar, e ela nos contou das experiências horríveis que tinha tido com os homens dali e que não transava há muitos anos. Eu nunca tinha visto uma buceta encruada daquele jeito. Estava lacrada como uma ostra, nem meu dedo entrava.
Decidimos, os três, que aquela buceta ia abrir naquela noite. Ficamos nos lambendo, chupando e acariciando. Ela mamava minha buceta e o pau do Bardo com muito gosto e vontade, me fazendo dar squirts fortes e longos. Eu enfiava minha língua na buceta dela, ganhando cada milímetro como uma vitória.
Já era quase de manhã quando Bardo conseguiu colocar a cabecinha inteira. E ela gozou. Foi uma coisa incrível e assustadora ao mesmo tempo. Ela gozava e chorava, a buceta escorrendo e o rosto dela mudando completamente. A energia encruada saindo e a alegria retornando como um brilho maravilhoso nos olhos.
Comecei a chupar o clitóris enquanto o Bardo empurrava e tirava a cabecinha com muito carinho. Ela me agarrava pelos cabelos e chorava copiosamente. O sol ia subindo pela janela do quarto e eu ali, olhando bem de pertinho, enquanto cada centímetro do pau do Bardo entrava. Foi muito engraçado como comemoramos quando entrou até o talo!
Depois de ter perdido a conta dos orgasmos ela finalmente conseguiu sentar e cavalgar. A buceta rosinha dele engolia o pau do Bardo com tanto gosto que eu fui fazer um café e sentei em uma poltrona para assistir. Pediu para ele gozar dentro e ele encheu ela de porra, gemendo gostoso. Ela deitou e desmaiou. Dormiu, roncando alto, o dia todo.
Mais uma vez, a bruxa médica em ação!
Fui ter notícias dela novamente anos depois. Tinha tentado casar com uma mulher, deu errado, e casou com um dos brucutus da cidade dela. Acabou nos bloqueando. Espero que esteja feliz.
***
Fomos convidados para tocar em uma festa de swing. Não estávamos animados, nem um pouco. Swing é aquela chatice cheia de regras e fomos mais pelo cachê do que pela diversão. A festa era em uma cidade turística do interior de Minas Gerais e, quando chegamos lá, todo o povo da festa era do Rio de Janeiro e São Paulo.
Fizemos nosso show, animamos a festa e fomos tentar a sorte na pista. Tinha esse solteiro, um cara lindo. Loiro, olhos azuis, totalmente fora do padrão marido barrigudinho com esposa siliconada que eu estava habituada. E estava sozinho, ninguém queria brincar com ele. Fui indo na direção dele quando a dona da festa me puxou pelo braço e confidenciou: o cara é um cavalo, tem o pau gigante!
Explicado. Cansei de ver o cara com vinte e cinco centímetros ou mais sobrar na festa. E era o caso dele. Falei para o Bardo e nos aproximamos, mesmo assim. Ele não era só bonito como muito gentil e respeitoso. Subimos para um mezanino onde o povo estava fazendo trocas de casal e comecei a brincar com ele. O volume na calça realmente assustava. Tirei a roupa dele e peguei o monstro na mão. As outras mulheres olhavam com os olhos arregalados para ver o que eu ia fazer, os maridos pareciam derrotados.
Enquanto Bardo se divertia com as outras esposas, eu virei o centro das atenções. Chupando e lambendo aquele cacete gigante. Estava me divertindo mais com a atenção do que com aquela jeba enorme. Batia ela na minha cara (coisa que eu não costumo fazer) e lambia das bolas até a cabecinha. Quase dava tempo de secar a língua de uma ponta a outra.
Mandei ele sentar no sofá e colocar uma camisinha. Dava dó. O preservativo extra grande apertava ele todo, parecia um salame. Virei de costas e comecei a sentar. Nesse ponto até o Bardo parou o que estava fazendo para ver. Todo mundo na expectativa se aquilo tudo ia entrar em mim – e eu também. Fui sentando devagar e senti o cabeção tomar conta da minha buceta toda, empurrando ela para os lados e abrindo espaço. Fui descendo devagar, cuspindo na mão e molhando meu caminho.
Quando entrou metade, a festa já tinha parado. Umas trinta pessoas estavam sentadas no chão, ao redor, torcendo para cada centímetro que atolava. A largura era o maior problema. Realmente eu sentia aquele cacete quente abrindo o caminho dentro de mim. Eu já não tinha audiência, tinha uma torcida. Conforme ele ia encontrando espaço e entrando cada vez mais, algumas mulheres faziam cara de dor, outras de tesão, outras de admiração. Os homens olhavam, incrédulos: onde tudo aquilo estava indo parar em uma mulher pequena dessas?
Depois de algumas cuspidas e reboladas, sentei completamente no colo dele. A sala explodiu em um grito como se fosse gol da seleção brasileira. Mas o show não tinha nem começado ainda. Acho que por conta do tesão que aquela turma me deixou eu relaxei completamente. Subi de volta até o cabeção e sentei de novo – de uma vez. Mais um grito. Uma mulher se abanava do meu lado, achei que ela ia desmaiar. Comecei a subir e descer tudo, sentando com vontade.
Para ser honesta, a penetração nem estava gostosa. Estava um pouco sofrida e dolorida. Mas valeu o show. Não gozei, mas ele comeu umas quatro mulheres depois de mim. Todo mundo queria andar no brinquedo!
Mais tarde, já na Elvira, Bardo me comia me contando o ponto de vista dele. Me diverti muito. E ele disse que eu estava mais apertada do que nunca. Que bucetinha forte, essa minha, viu?
***
Meses depois fomos chamados para a mesma festa. Dessa vez fomos animados! Que diversão estaria nos esperando? Que frustração! Os donos da festa descobriram que o povo gastava mais em bebida quando não transava e encheu a festa de pequenos eventos que distraíam todo mundo.
Droga sobre sexo, de novo.
Fizemos nosso show, animamos a festa, começamos a bagunça, mas toda hora eles chamavam todo mundo no microfone e empatavam a foda da galera, que nem percebia o que estava acontecendo.
Não curti ninguém, Bardo comeu uma esposa em uma rapidinha e fomos embora.
Alguns meses depois nos chamaram de novo. Fomos pelo dinheiro do show. O público da festa tinha mudado completamente. Eram apenas homens idosos com garotas siliconadas (provavelmente de programa) e os velhos sentavam nas cadeiras da pista de dança para disputar quem tinha investido mais silicone na mulher.
Fiquei horrorizada. Uma das mulheres se engraçou no Bardo e o velho quis ver ele comendo ela. Enquanto ela mamava o pau dele com a bunda empinada eu cheguei atrás dela e meti a cara na buceta, dando uma chupada gostosa. A bunda dela era de uma consistência estranha, era gelada, mas era o que tinha para aquela noite.
De repente, o velho se levanta e vem por trás de mim, com uma lata de cerveja na mão. A barriga chegou primeiro que o pinto. Ele vestiu um preservativo no pau meia bomba e enfiou ele entre minhas nádegas. E brochou ali. Me deu um asco. Ele estava com o pau mole nas minhas coxas e não saía dali. Fiz um sinal para o Bardo e desistimos da brincadeira.
Estávamos saindo da festa quando ouvimos os anfitriões anunciarem o início de um bingo. Bingo! Sério mesmo? Era o que restava para aquele povo.
Nunca mais aceitamos os convites deles.
***
Algumas histórias eu realmente tenho receio de contar. São tão surreais que parecem mentira. E essa aconteceu não só uma, mas três vezes: uma pessoa muito solitária e sem família quis deixar tudo o que tinha para a minha família.
Seria incrível e eu seria multimilionária hoje se tivesse aceitado, mas todas elas vinham com um preço que eu não estava disposta a pagar: Bardo e eu casar com a pessoa. Uma delas era uma fazendeira solteira – das muitas que conhecemos – filha única que tinha herdado tudo.
E é incrível como Bardo e eu, apesar do amor que temos pelo sexo, não temos maldade. Naquela tarde ela nos convidou para dar um passeio na propriedade. Saímos caminhando pela estrada de chão por quilômetros. Ela nos mostrando o galpão disso e daquilo, o curral, a plantação.
Chegamos em uma casa abandonada, cheia de mato. Ela nos disse que aquela casa tinha servido de alguma coisa mas não servia mais. Nos convidou para ver lá dentro. Eu, morrendo de medo que tivessem cobras, escorpiões e outros tipos de peçonhas, me recusei a entrar. Bardo foi até a porta. Ela entrou e ficou insistindo que fôssemos lá ver. Não fui.
De repente, ela sai correndo. Eu estava certa. Ela encontrou um ninho de marimbondos e eles picaram ela toda. Mesmo assim, ela parecia disposta a levar o plano dela – qualquer que fosse – até o fim. Arrancou toda a roupa e ficou nua, nos mostrando as picadas.
Penso que aí que mora uma diferença muito grande na nossa maneira de pensar. Não foram poucas as pessoas que criaram situações onde poderíamos abusar delas. Perdemos a conta de quantas vezes as pessoas se jogaram em nós bêbadas ou criaram esse tipo de constrangimento. Quem ama sexo de verdade, não abusa de ninguém. Nós trocamos uma energia justa, é amor de verdade, mesmo que seja uma vez só.
Ela derreteu quando o Bardo juntou as roupas dela do chão e pediu que ela se vestisse. Podíamos cuidar das picadas em casa. Voltamos quase em silêncio.
À noite, ela chamou o Bardo no quarto dela. Talvez tenha pensado que homens são mais fracos. Convidou ele para deitar na cama com ela e assistir uma série que ela tinha comentado mais cedo. Ele deitou. Deitou e assistiu a série. De repente, ela levantou da cama, saiu do quarto e bateu a porta. Nem precisei ir lá para ver o que era, os pés dela pesavam em frustração.
Moça, se você estiver lendo esse livro, saiba que bastava ter pedido. Bardo jamais ia abusar de você.
Em uma última tentativa, ela entrou no nosso quarto pela manhã e se jogou na cama. Nós dois nus, cheirando a sexo, e ela conversando fiado fazendo de conta que não se importava. Bardo só me deu aquela olhada. Não precisou mais nada. Pegamos nossas coisas e nunca mais voltamos lá.
Podia ter comido ela? Podia. Mas eu nunca vou entrar em uma relação onde de cara percebo que a pessoa não vai se responsabilizar pela energia dela. Sei que tem gente que ama essa relação de poder, de se sentir uma vítima das próprias vontades. Sei que isso dá muita letra de música. Para mim não serve.
***
Poderia preencher esse capítulo com esse tipo de histórias, mas você já pegou a ideia aqui. Cada dia mais, Bardo e eu percebemos que nossa vida sexual aberta estar empacada era culpa nossa. Nós tínhamos nossa própria versão do “nós contra eles”.
Se a pessoa não vier no mesmo nível de intenção que eu, não vou. Se ela não se responsabilizar pela própria necessidade, não vou. Se ela precisa de drogas para abrir sua sexualidade, não vou. Se ela inventa desculpas espirituais para fazer sexo ou não (né, povo do tantra), eu não vou. Se ela é casada e tem um acordo monogâmico com alguém, não vou. Se ela aparenta não se cuidar fisicamente, não vou.
Fora o que nem era escolha minha, como simplesmente não bater a química, o que acontece.
E assim eu ia eliminando cada pessoa que passava pelo meu caminho antes mesmo que ela tivesse uma chance comigo. Eu podia sentir o cheiro de qualquer uma dessas coisas de longe, e toda a vez que eu tentava superar e quebrar uma dessas regras, me arrependia.
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Ficamos apenas Bardo e eu por um bom tempo. A vida leve e solta estava simplesmente perfeita e a abertura sexual era uma pequena frustração, só para dizer que eu não era completamente feliz. Continuamos nossa rotina: tocar na rua, pegar dinheiro, sumir no mato. As kids estavam completamente felizes com isso. Eu mesma me pegava com inveja da infância delas: conhecendo o país, aprendendo história e geografia, economia e estatística, português e inglês, vendo o funcionamento da política e da sociedade em primeira mão. Um privilégio que muito playboy nunca sonharia em ter.
Bardo levou as meninas para o meio do campo. Era uma noite sem lua e sem estrelas e não se podia ver um palmo à frente do nariz. Ele acendeu uma lanterna e colocou sobre a cabeça, apontando para o chão.
– Essa parte iluminada, meninas, é o que vocês sabem. Esse círculo ao redor é o que vocês não sabem. E tudo o que está além desse círculo é o que vocês não sabem que não sabem.
Elas deram um pulo com a informação, surpresas. Como assim não sei que não sei? Ele aumentou o foco da lanterna, diminuindo o círculo.
– Quando vocês sabem pouco, o círculo do que você não sabe diminui e aí vocês pensam que tem pouca coisa que não sabem. Isso é perigoso. Mas – ele ia diminuindo o foco e aumentando o raio de luz – quanto mais você sabe, mais vai descobrindo que não sabe. Isso é maravilhoso, porque te torna cada dia mais humilde.
Elas acenavam com a cabeça, mostrando que entenderam.
– Mas o maior perigo está lá – ele aponta para a escuridão total – em tudo o que você não sabe que não sabe. Quando você sabe que não sabe, tem a escolha de estudar e saber. Mas quando não sabe que não sabe, você só pode ser uma vítima da ignorância.
Eu confesso que achava essas conversas pesadas demais para duas cabecinhas com menos de quinze anos de idade. Às vezes eu pensava que elas só concordavam para se livrar logo do professor. Eu ainda não tinha visto o poder que aquele conhecimento ia ter no futuro.
Essas horas eram tão douradas quanto os momentos em que falávamos merda o tempo todo. Dávamos risada, inventávamos jogos bobos, fazíamos fogueira e tocávamos violão.
Um dos nossos jogos favoritos chama-se “Se eu sou, tu és,” e pode levar horas. Começa com uma pessoa dizendo: – Se eu sou uma vaca, tu és o leite. A outra passa a bola dizendo para a próxima pessoa: – Se eu sou o leite, tu és o chocolate. A ideia é sempre usar uma referência à palavra anterior. Como as palavras podem ter duplo sentido, o jogo vira de assunto o tempo todo e rende risadas e trocadilhos infinitos.
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A cada dia eu me isolava mais, e a cada dia eu me tornava mais crítica da vida cotidiana. Ter passado tanto tempo dentro da casa dos fãs me fez questionar ainda mais as coisas.
Eu já não aceitava mais convites para dormir dentro da casa deles. Preferia a Elvira. Me irritava cada vez mais as pessoas viverem em casas desconfortáveis. Você trabalha o dia todo em um emprego que – provavelmente – não gosta e chega em casa para relaxar com um chuveiro que não tem pressão, que não esquenta, que está entupido e joga um fio de água para cada lado.
Bardo pegou a mania de chegar na casa das pessoas, desrosquear o chuveiro e limpar com uma agulha. Depois pegava o óleo desengripante e passava nas dobradiças cantantes. Nesse meio tempo eu pegava uma vassoura, um pano e limpava o chão. É surreal como as pessoas conseguem viver em casas sujas, com aquele cheiro de cozinha azeda, quarto de bunda suada ou de esgoto voltando dos ralos.
E não estou falando de casas pobres, apenas. Vi mansão que era uma porcaria também.
Fogão que não esquenta. Você não consegue cozinhar um macarrão. Sofá com uma madeira cutucando seu cu enquanto tenta ver uma série em uma internet travando. Cama quebrada, com colchão afundado, sem falar nos erros crassos de engenharia e construção em casas extremamente quentes no verão e frias no inverno.
E a vizinhança? Nunca vai entrar na minha cabeça ser obrigada a ouvir a música que o vizinho quer ouvir, ou as suas discussões e brigas, ou o cheiro horrível da comida que fazem. Qual o sentido de viver colado em outra família, com um mundo desse tamanho? São milhões de quilômetros sem uma alma viva e um monte de gente empilhada no mesmo lugar.
Eu entendo as pessoas viver no “nove às cinco” e entendo pagar contas mensais para ter energia elétrica, água potável, esgoto, gás e acesso à internet. Eu não entendo ter uma versão porcaria disso.
Mesmo quando não tínhamos quase nada, nossas casas tinham uma boa mobília: sofá, cama, fogão, geladeira, chuveiro, máquina de lavar. Não é uma questão de ostentação, é uma questão de saúde! É desgastante não poder descansar de forma confortável para voltar ao trabalho e isso vai te matar a longo prazo. E é incrível ter mais recursos em uma Kombi do que as pessoas tinham em casa.
Claro que eu nunca mencionava isso para as pessoas. Pode ser humilhante. Mas nossa intervenção nas casas delas era o suficiente. Algumas pessoas perceberam e nos agradeceram, mas muitas ficaram extremamente ofendidas e nunca mais falaram conosco.
– Obrigado, eu não ia voltar para esse chiqueiro que você chama de casa!
Eu nunca disse isso para ninguém. Nem diria. Eu estaria errada na maioria das vezes.
Para mim isso acabava sendo mais um “nós contra eles”. Somos pessoas tão diferentes, com gostos e necessidades diferentes, todas empurradas na mesma direção para conquistar as mesmas coisas. Algumas pessoas simplesmente passam batido pela vida. Elas não sabem que não sabem que poderiam ter mais conforto, ou que existem lugares diferentes para se viver. Elas se habituam ao conflito sem saber que poderiam viver sem ele. Era um privilégio meu saber.
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Perdemos completamente a noção do tempo. Dois mil e dezenove passou assim, um ano que durou cinco, ou seis meses, não sei. Por mim, tanto fazia, podia ficar para sempre desse jeito livre e descompromissado.
Mas não existem felizes para sempre, não é? E aos poucos, mesmo livres como éramos, alguma pressão social foi entrando pelas rachaduras. As meninas cresciam, adolesciam, e era inevitável a pressão dos amiguinhos que faziam em cada cidade. Era inevitável a pressão da internet sobre elas. Ter isso e aquilo, participar da moda, ter a blusa da banda do momento. Tudo isso precisava de mais dinheiro e nós não tínhamos a menor intenção de trabalhar por ele.
Ao mesmo tempo, nós mesmos íamos caindo nas pressões adultas. Aos poucos as perguntas das pessoas iam encontrando espaço e virando preocupações. E se? Sempre tinha um e se. E se eu ficasse doente? E se acidentasse a Elvira? Será que conseguiríamos manter esse estilo de vida quando ficássemos velhos? Não era melhor ter uma reserva de emergência?
Nos víamos cada dia mais conversando sobre essas coisas e quando percebemos já estávamos trabalhando o dobro. Guardamos dinheiro. Pronto, resolvido. Mas e se precisasse de mais que aquilo? Então trabalhamos mais e guardamos mais. Mas e se outra coisa? Era um ciclo sem fim, uma corrida dos ratos e nos pegamos vivendo o dia de São Nunca muito mais que o hoje.
Foi em uma tarde, depois de um show em Itaipava, que o Bardo me disse que temos apenas um certo valor guardado. Não era o suficiente. Mas quanto era? Me dei conta que estávamos surtando da mesma maneira que as pessoas que conhecemos e julgamos como surtadas.
Quanto é o suficiente para se sentir seguro? Dez mil? Cem mil? Um milhão? Será que esse valor existe? Lembro da história do avô de um conhecido: ele juntou dinheiro a vida toda. Já idoso, gastou tudo no hospital, morreu mesmo assim e deixou a família com quase nada. Imprevistos acontecem com qualquer um, e é loteria, não tem como saber quanto vai custar.
Nossos imprevistos se limitavam à Elvira, um ou outro dentista e ginecologista – que eu pagava particular. Quando você não tem nada, não tem manutenção e quase nenhum susto.
***
Então era isso: as meninas estavam demandando mais coisas e Bardo e eu estávamos reféns da preocupação com o futuro – o que até aqui eu achei inútil.
Resolvemos então parar em algum lugar por um tempo, quem sabe alugar uma casa. Abri o mapa e tracei uma rota entre todas as cidades que mais fazíamos dinheiro – que apelidamos de caixas eletrônicos – e descobri que o centro do nosso universo financeiro era a cidade de Caxambu, em Minas Gerais. A cidade em si não dava muita coisa, mas em trezentos quilômetros ao redor podíamos fazer uma boa grana em qualquer dia.
Antes, subimos para Juiz de Fora pegar um dinheiro. Agora havia fiscais na Rua Halfeld e nossa música estava proibida. Um caixa a menos. Já que estávamos ali, decidimos ir até a casa da Natália e trocar uma ideia. Quando chegamos lá ela tinha arrumado um homem super babaca que não nos deixou ficar por lá. Seguimos para Caxambu.
No caminho vimos uma bruxa na beira da estrada. Uma mulher horrenda, grande, toda de preto, com o vestido rasgado. Ela estava no meio do nada e era tão surreal que perguntei para o Bardo se ele tinha visto ela também. Ele viu. Ainda bem!
Chegamos ao nosso destino perto do meio dia. Fomos até uma imobiliária ver o preço do aluguel de casinhas na zona rural. Caxambu é uma cidade pequena mas muito legal. Tem uma praça central bonita, muitos bares, um bom supermercado – que tinha nata, e eu não comia faz tempo! – Também tinha um cinema, o que contou bastante!
Os alugueis ficavam entre seiscentos e oitocentos reais, um valor que era possível para nós, mesmo que eu preferisse gastar isso em comida e me enfiar no mato. Começamos então a procurar algo direto com o dono, já que não tínhamos nada do que uma imobiliária pedia.
Estávamos conversando com algumas pessoas na rua quando chegou essa fã com a esposa dela. Era um casal de lésbicas. Contamos para ela que íamos morar ali e ela sugeriu que fôssemos até São Thomé das Letras, pois ela estava mudando para lá. Falou bem da cidade, dizendo que não tinha violência e as crianças podiam brincar na praça sem supervisão.
São Thomé das Letras não era aquela cidade suja, de pedra quente, cheia de gente esquisita que visitamos um tempo atrás? Nem pensar. Ela insistiu. Pediu que ao menos fôssemos passar uns dias na casa dela para conhecer melhor, que tínhamos a impressão errada. Bardo deu de ombros. Por que não?
Subimos por Cruzília, pela estrada de chão. De repente, o céu desaba em chuva e a estrada vai se tornando um lamaçal. Derrapando de poça em poça, levamos bastante tempo para chegar lá. Que fim de mundo!
Chegamos quase à noite. Lembro que uma construção bem esquisita me chamou a atenção logo na chegada. Uma casa de barro cheio de gnomos esculpidos. A placa dizia: Castelo de Eros. Eros é uma coisa boa, talvez eu encontre minha turma por aqui!
A cidade estava bastante movimentada. Estava acontecendo um congresso de Ufologia. Um monte de gente veio para observar os OVNIs e discutir teorias malucas sobre vidas extraterrestres, mas foram frustrados por dois motivos: a chuva e o exército, que resolveu fechar a montanha para um exercício militar.
Nossa anfitriã nos dizia que os ufólogos estavam ali porque existia uma espécie de profecia de um falecido velho maluco dizendo que naquele dia uma entidade ia chegar na cidade. Fiquei ouvindo e fazendo de conta que concordava. A única entidade que eu vi chegando fui eu, e não pretendia ficar ali por muito tempo.
A cidade ainda mantinha a mesma impressão para mim: um monte de pedras, sujeira, calor e lojinhas idênticas vendendo bibelôs para turistas alucinados. A chuva parou e resolvemos ir até a praça tentar umas moedas. Foi bom. Tinha muita gente e ganhamos bem. Quem sabe dá certo?
Ficamos por alguns dias e fomos embora, prometendo voltar. Tínhamos um show marcado em Socorro, íamos comemorar nossos três anos na estrada e alguns aniversários todos juntos. Uma maluca de São Thomé, que estava indo na mesma direção, pediu carona. Levamos ela.
No caminho, paramos para visitar nosso amigo Wilson. Ele era gerente de uma pousada que ficamos por um tempo, era gay e adorava o Bardo. Também era vizinho de uma massagista maravilhosa que ficou muito amiga nossa. Quando comentei com ela que ia morar em São Thomé, ela ficou horrorizada, insistindo muito que eu não fosse.
Percebendo que eu estava decidida, ela me contou que tinha sido escravizada por uma seita na cidade há anos atrás, que teve dois abortos e nunca conseguiu provar para a justiça. O lugar ainda funcionava. Que se eu ia para lá mesmo devia ficar atenta porque a cidade é cheia de perigos. Achei meio exagerado, mas ouvi.
Quando voltei para a casa, procurei o Bardo para contar a maluquice e encontrei ele ganhando um boquete da maluca. Talvez São Thomé não fosse tão ruim assim. Eros, boquetes aleatórios, estava promissor. À noite, Bardo saiu de fininho do quarto para comer o Wilson e ela pulou para a minha cama. Ficamos nos beijando e nos pegando, de leve e bem gostoso, mas eu percebi que ela não era chegada em mulher. Estava só fazendo charme e esperando o Bardo voltar. Quando ele voltou, ela deu para ele do meu lado. Foi gostoso.
No dia seguinte seguimos viagem e chegamos em Socorro. O lugar em que costumávamos ficar estava cheio de kombis e Bardo não gostou muito. Ele estava precisando muito dormir e o pessoal era bem barulhento.
Encostamos ali, mas deixamos a Elvira pronta para sair se não desse certo com o pessoal. Essa turma, por sua vez, manobrou as kombis e trancou nossa saída. Foi de propósito, para ficarmos ali. E eles eram realmente muito legais: um povo de Indaiatuba que gostava de viajar juntos.
A noite chegou e uma chuva muito forte caiu. A maluca, que ia dormir em uma rede lá fora, teve que dormir na Kombi comigo e o Bardo. Claro que ele não perdoou e comeu ela de novo, dessa vez até o cuzinho rolou.
Coitado, estava exausto. Duas noites sem dormir direito. Quando tudo ficou em silêncio, chegou um doido lá fora e começou a gritar com todo mundo, dar tapas na kombis e não deixou ninguém dormir. Todo mundo gritava – Cala a boca, Xandão!
Bardo estava enfurecido. Disse que ia pegar aquele Xandão pela manhã e encher ele de porrada. Ele não é assim, e fiquei preocupada. Fazia um tempo que andava meio nervoso, estressado, xingando. Na manhã seguinte, ele acordou, pulou da Kombi e saiu no meio da galera perguntando quem era o maldito do Xandão.
De repente aparece esse cara. Peruca rosa, olhos azuis, com um prato cheio de mistos de presunto e ovo na mão. Com um sorriso de orelha a orelha, oferece um misto para o Bardo.
– Eu sou o Xandão!
E nesse dia eles se tornaram amigos.
A festa foi muito divertida. Tinha esse cara, o Paçoca, que um dia mentiu que era aniversário dele para ganhar uma festa. A turma descobriu e, como punição, decidiram que dali para a frente todos os dias seriam aniversário do Paçoca. Cantavam parabéns para ele de meia em meia hora. Era um sarro.
Xandão, com sua peruca rosa, se transformava em Maravilha, uma bichona louca, e perturbava todo mundo ao redor com suas estripulias. Chamava as mulheres de feias e nojentas e ficava mexendo com os homens. Era hilário. Bardo andava com ele de um lado pro outro zoando todo mundo.
A noite chegou e fizemos um show delicioso para a galera, com direito à nada menos que três Parabéns Pra Você para o Paçoca.
De repente, meu telefone toca. Era a fã lésbica de São Thomé. Ela começou com um papo estranho de que estava morrendo de tesão em mim e que ia me comer quando eu voltasse. Caralho! Digo, buceta! Lésbica e casada, duas coisas que não eram para mim, com certeza. Entrei na kombi, onde o Bardo macetava a maluca mais uma vez, e contei para ele da ligação. Ele sugeriu que eu experimentasse, já que nunca tinha pego uma lésbica, dessas masculinizadas, na vida. Seria mais uma história para contar.
Nos próximos dias ela me ligava repetidamente. Me dizia o que ia fazer comigo quando eu chegasse lá e minha curiosidade foi crescendo. Pediu para eu avisar quando ia chegar para ela mandar a mulher e as crianças para a casa da mãe dela em Cruzília. Não curti a ideia de enganar a esposa dela, mas também era uma garantia que ela não ia se apaixonar por mim e pegar no meu pé depois. Pelo menos foi o que eu pensei.
Deixamos a maluca no caminho e voltamos para São Thomé das Letras. A fã tinha arrumado um quarto na melhor pousada da cidade para o Bardo e as meninas. Bardo me deixou na casa dela e foi embora me olhando com aquela cara de safado.
– Amanhã você me conta como foi.
