Capítulo 4 – Comum

Eu estava no banho quando ele entrou, já nu e de pau duro. Coloquei as mãos na parede e empinei a bunda sem cerimônia. Ele agarrou minha cintura com firmeza e escorregou o pau fundo na minha buceta. Gozei na hora. Foi uma foda rápida, menos de 10 minutos. Me encheu de porra e saiu.

Foram milhares como essa. Eram duas ou três por dia. Mas eu tenho a impressão, de alguma forma, que foi exatamente nessa que finalmente engravidei. Senti alguma coisa diferente bater naquele exato momento.

Algumas semanas depois senti o enjôo. Fiz o exame e, finalmente, foi positivo! Eu ia ser mãe! Comecei a chorar, pulando e abraçando o Bardo. Contei para todo mundo. Nossos pais não gostaram muito da notícia. Agora era oficial: não iam mais nos separar.

Sentados no nosso sofá-cama olhamos para a salinha. Não ia dar para criar um filho ali, escondidos daquele jeito, sem estrutura nenhuma. Foi aí que começou o pesadelo da vida adulta. Nenhuma imobiliária da cidade queria alugar uma casa comercial no centro da cidade para dois moleques grávidos. Papelada e burocracia. Precisávamos de um contador, de um CNPJ, de comprovantes de renda e de um fiador.

Mesmo no meio daquela luta, sem ajuda de ninguém, Bardo ainda conseguia sonhar. Ele dizia que não podíamos só viver aquilo ali, que íamos acabar como nossos pais. Então ele começou um projeto social de ensinar música nas escolas e a coisa tomou vulto muito rápido. Em alguns meses eram mais de 400 jovens atendidos à baixo custo pelas escolas públicas da cidade. E acabou que foi ótimo para a escola: ganhamos no volume e na publicidade gratuita que o projeto ganhou nos jornais e revistas locais.

Finalmente, depois da intervenção de uma tia do Bardo, conseguimos uma casa no coração da cidade, ao lado da parada de ônibus central. A casa tinha espaço para criar nosso bebê, dar aulas, um estúdio de ensaio e até um pequeno auditório com palco iluminado. Bardo chamou os amigos que tinham banda e conseguiu equipar a casa com um pouco de equipamento de cada um.

A casa era viva. Raramente estava vazia. Deixamos de ir até as escolas e trouxemos os alunos até nós. Os dias eram intensos, cheios de música e minha barriga crescia junto com uma parreira de uvas ao lado de fora. Comprei um vestido marrom soltinho e confortável e Bardo me apelidou de Sabiá: marrom, gordinho, com as pernas finas e cantando.

Só aquela casa dava um livro. Foram tantas bandas, tantas pessoas, tantas histórias em tão pouco tempo. Alguns vizinhos brigavam por conta do barulho, outros adoravam e vinham participar. 

Quando Bardo e os amigos dele foram construir o estúdio eles muraram as janelas, colocaram isolamento acústico nas paredes e no teto e, finalmente, foram colocar o carpete. Eu estava cozinhando uma sopa quando comecei a ouvir risadas muito estranhas dos meninos. Desconfiada, fui conferir. Quando abri a porta o cheiro da cola quase me derrubou. Lá dentro eles riam de qualquer coisa, rolando no chão. Tirei eles de lá e dei leite para beberem. Ficaram doidões, os bobos, colando carpete naquela sala fechada.

A gravidez não foi fácil. Muito enjôo, muita dor e muito hospital. Quase perdi o bebê três vezes. Não gosto nem de lembrar. Comecei a questionar o plano de ter três filhos. Um já era demais. O verão estava chegando, um calor infernal, e eu ali com aquela pança gigante, os pés inchados, me arrastando de um lado para outro.

Até a música começou a me irritar. Bardo montou um grupo de flautas doces para fazer música medieval. Para mim eram apenas apitos desafinados (acho que eram mesmo) e aquilo me aborrecia infinitamente. Até hoje Bardo toca uma música chamada Cake Polka quando quer me perturbar. Era a pior de todo o repertório.

***

A mãe do Bardo e a minha tentavam cuidar de mim, mas mais atrapalhavam que ajudavam. E elas diziam que eu ia ficar sem tesão durante a gravidez. Sinto muito que tenha sido assim para elas porque eu estava ainda mais fogosa. Procurava o Bardo pelos cantos da casa, puxava ele para dentro do banheiro e fodia o dia todo se deixassem. Também sabia que os dias estavam contados: faltavam poucos meses para não poder mais sentir ele gozando dentro o tempo todo.

Logo a barriga estava grande demais para a maioria das posições sexuais que eu mais gostava e comecei a meter só de ladinho. E amei. Gostei tanto que essa foda preguiçosa é a minha favorita até hoje. Adoro deitar, erguer a perna e ficar levando, quentinho e gostoso, por horas.

***

Meu cheiro mudou, meu jeito mudou, minha cabeça tinha pensamentos intrusivos o tempo todo. Eu olhava ao redor e tudo estava perfeito. A escola, meu relacionamento, a gravidez – mesmo que complicada – e eu estava insatisfeita. Comecei a repensar tudo, a questionar por que eu estava ali na colônia fazendo aquilo e não de volta à São Paulo vivendo a vida que eu merecia.

Bardo ficava ouvindo minhas reclamações sem entender enquanto ele também vivia uma crise. Os amigos chamavam ele para as velhas festas, para os rolês, e dava para ver que ele balançava. A vida de solteiro era boa e ele se questionava por que tinha aberto mão daquilo. Eu via ele olhando para as mulheres com aquele olhar de diabrete –  e não fazendo nada.

Então ele recebia os amigos em casa para jogar vídeo game, RPG e fazer música. Os alunos foram se tornando um grande grupo de amigos também. Fazíamos almoços, jantares, festas e confraternizações.

***

A parreira começou a dar uvas lá fora e a minha barriga chegou ao seu limite. Era um sábado quando eu jogava videogame e senti uma pontada forte. Estava na hora. Bardo, sistemático e organizado, tinha tudo na mão. Fomos para o hospital e internei. A irmã do Bardo era uma das enfermeiras de plantão, o que me deixou muito mais tranquila.

Mas não foi fácil. Partos nunca o são e eu consegui superar. Lavínia tinha se virado na barriga e, teimosa como é, resolveu que ia nascer de bunda. Quando descobriram já era tarde demais para uma cesária e, sem anestesia nenhuma, o médico precisou cortar minha vagina para que ela conseguisse sair. Chegamos muito perto de morrer.

No dia 9 de Janeiro de 2005 a Lavínia chegou. Rosa. Ela era toda rosa. Os cabelos, a pele, parecia uma porquinha. A menina que nasceu com a bunda para a lua – que estava crescente – e ia dar mais trabalho do que eu podia imaginar.

Bardo escreveu uma música para ela. Voltamos para casa com nosso bebê para uma vida completamente nova. A parreira teve que ser podada: atraiu centenas de abelhas e eu sou alérgica.

O médico me disse que eu tinha que ficar em quarentena. Ainda não podia beber, tinha que evitar certos alimentos e ficar sem sexo. Sem sexo? Quarentena são quarenta dias, certo? NEM PENSAR. Eu estava toda arregaçada, desbeiçada, costurada e minha libido ainda estava nas alturas.

Enfim, a quarentena durou 12 dias. Lavínia mamou, dormiu e eu olhei para o Bardo – também muito estressado com a ideia – e perguntei: será que não dá pra botar só a cabecinha?

A foda foi ganhando um centímetro por dia até que voltamos a curtir plenamente de novo. Não tão plenamente, na verdade, porque não podia mais gozar dentro. A ideia de ter outro filho depois daquela experiência horrorosa era inconcebível.

Bardo voltou ao coito interruptus ou ao clássico: mete sem camisinha mas goza fora. Tomar anticoncepcionais continuava totalmente fora dos meus planos.

***

Fui ficando cada vez mais mal humorada. Tudo continuava lindo e perfeito. Nosso bebê crescia bem, nossa escola ficava famosa, ganhávamos dinheiro e tínhamos muitos amigos. E eu irritada. Brigava por tudo, reclamava de tudo. O pessoal da imobiliária não me aguentava mais.

Por alguma razão que até hoje não sei explicar, fechamos tudo e fomos embora daquela casa.

Mudamos para uma casa ainda maior em um bairro mais afastado. Sem poder chegar lá com facilidade, os alunos do projeto pararam de ir e aquilo acabou. Os amigos foram se afastando e aquela casa enorme parecia um mausoléu.

Bardo sempre tentava me animar ou inventar alguma coisa. Começou a promover os live actions de RPG por lá e a casa enchia uma vez por mês. Tentou abrir um bar no porão mas não deu muito certo. Mas o pior de tudo eram os fantasmas.

Bem nessa época Bardo já estava cansando da religião. Estava frequentando um centro espírita kardecista que a mãe dele ia e estudando muito. Para ele as contas não batiam. Como toda e qualquer outra religião que ele tinha estudado, tudo parecia mais do mesmo: o inferno virou o umbral, o capeta eram os espíritos obsessores e a vida parecia ainda pior com as explicações pseudo-científicas daqueles livro.

A casa colaborava para o terror. Barulhos, vozes, vultos que se amplificavam à luz daquelas ideias. Largamos as religiões de lado de uma vez por todas e os barulhos pararam de incomodar.

Bardo estava tentando compor mas eu achava ele muito ruim. Hoje gosto muito de algumas canções que ele fez na época. Elas falavam muito das nossas angústias. Nós pegamos a vida adulta com uma certa facilidade e aquilo parecia pequeno demais. Penso que minha insatisfação vinha daí. Era tudo muito idiota para mim.

Logo aquela casa também me irritou. O pai do Bardo estava com um escritório livre no centro da cidade e fomos dar aulas lá. Nos mudamos para um pequeno loft nos fundos do shopping.

Lavínia crescia muito bem, já ia na creche brincar com os amiguinhos. Ela começou a engordar muito e tive que tirar ela de lá: só davam bolacha com leite para as crianças todos os dias. Então fiquei dando aulas sozinha e Bardo ficou com ela em casa. Nessa época ele comprou uns livros de receita, virou fã da Ana Maria Braga e começou a cozinhar muito bem. Eu voltava animada para casa pensando no que ele poderia ter feito.

E eu estava inquieta, insatisfeita.

Alugamos uma sala gigantesca em frente ao shopping e colocamos nossa escola lá. Tinha um palco, fazíamos eventos, Bardo voltou a promover as live actions e jogos de RPG. Os amigos voltaram para perto, tinha gente o dia todo circulando.

E tinha esse rapaz que tocava com a gente desde o (maldito) grupo de flautistas. Foi uma das poucas pessoas que nunca saiu de perto. Eu vi ele crescer naqueles anos e se tornar um rapaz muito bonito. Começamos a frequentar a casa dele, fazer jantares com os amigos, jogatinas de vídeo game e fomos nos aproximando.

Naquela tarde fomos contratados para fazer um show na cidade vizinha e, na volta, ele vinha chorando no carro. Estava apaixonado por uma menina e ela só queria ser amiga dele. Estava nos contando que foi dormir na casa dela, todo animado, e ela trouxe um namorado. Ele teve que ouvir os dois transando no quarto ao lado.

Bardo mexeu no retrovisor e disse para ele que isso só acontecia porque ele era cabaço, virgem, que a hora que tivesse feito sexo o cheiro dele ia mudar e as meninas não iam mais fazer aquilo com ele. Virou pra mim e disse: 

– Fada, dá uma surra de buceta nesse rapaz pra ele virar homem.

Me assustei. Nossa vida sexual ia muito bem, mas realmente éramos só nós dois por alguns anos já. Nem ele nem eu estávamos nos envolvendo com mais ninguém. Achei a ideia boa. Todos rimos e ficou um silêncio esquisito. Chegamos em casa e descarregamos os instrumentos. Bardo pegou o carro e disse que tinha que fazer umas coisas e ia demorar pra voltar.

Entramos em casa. O flautista e eu. Ele fingiu que nada estava acontecendo. Eu imaginando por onde começar mas vendo que tinha perdido o jeito.

Sentei na cama e fui lentamente tirando a blusa na frente dele. Ele tremeu e se agarrou na mobília. Vai ter um treco, pensei. Continuei puxando a blusa e permiti que meus seios pulassem dela – eu nunca uso roupas íntimas – e o pobre menino quase desmaiou.

Acho que foi a primeira vez na vida que viu um par de seios.

– Quer pegar? – perguntei. Ele ficou só me olhando, mudo e travado. Levantei e fui até ele. Ele olhou pro chão, não conseguia olhar pra mim. Peguei a mão dele e coloquei no meu seio.

A mão dele estava completamente suada. Senti uma gota escorrer pelo meu seio para minha barriga, como uma carícia. Arrepiei. Puxei ele na minha direção e fui para a cama. Sentei e ele ficou de pé na minha frente. Hora do zíper! 

Levei minhas mãos até a calça dele. Dava pra sentir o jeans tremendo. Achei graça. Fui pegar no zíper, mas ele deu um pulo para trás.

– Não posso. Não consigo fazer isso com meu amigo! – ele disse e saiu correndo do apartamento. 

Liguei para o Bardo e contei que, infelizmente, ele podia voltar mais cedo pra casa. Nós transamos com muito fogo naquela noite. Mas eu estava inquieta e insatisfeita. Não sou uma mulher de quase. Essa parte ficou para trás há muito tempo!

Eu ia comer aquele cara de qualquer jeito. Comecei a provocar ele nos ensaios, nos shows, no camarim. Toda vez que ele ficava sozinho comigo tremia e tentava fugir. Eu agarrava ele e tentava beijar, pegava no pau dele, passava a mão na bunda.

Mas ele corria.

Bardo, gênio do crime, percebendo que eu queria muito, armou para mim. Em um domingo marcou um ensaio e saiu meia hora antes, dizendo que precisava resolver algo em outra cidade.

Era a minha deixa. Ao invés de ir pra cima, inventei que estava triste e que Bardo e eu não estávamos bem. Pedi colo e fiquei “desabafando” enquanto ele passava os dedos nos meus cabelos. Enquanto falava com ele e ele me dava conselhos juvenis eu enfiava os dedos na minha buceta, sem que ele percebesse.

Aos poucos, o aroma do meu suco foi tomando conta do quarto e senti que o carinho dele foi indo para minhas costas. Fingi um choro, abracei ele… e roubei um beijo. O menininho não sabia nem beijar direito. Isso não diminuiu meu fogo e fui logo arrancando a blusa dele.

Fomos tirando a roupa entre beijos e amassos e logo eu estava completamente nua e ele de cueca. Tentei puxar, mas ele segurou minha mão. Me jogou na cama e subiu em mim. Agora vai, gostosinho! Continuou me beijando. O peso do corpo dele sobre o meu e as mãos bobas e inexperientes tentando encontrar algo para agarrar.

Senti o volume do pau na cueca. Ele esfregava contra o meu clitóris, indo e vindo e eu curti, estava gostoso, quase uma siririca de rola. Abri bem as pernas e encaixei a cabeça do pau dele na minha buceta. Ele me beijava e empurrava pra dentro.

Entrava até onde a cueca permitia e saía todo molhado. Tentei puxar a cueca pro lado e ele não deixou.  Continuamos naquele arreto desgraçado até que eu gozei, aquilo estava me enlouquecendo. Fui pra cima dele e tentei arrancar a cueca de novo, mas perdi a briga. 

Ele me colocou de bruços e segurou meus braços. Coloquei a cabeça no travesseiro e gemi bem alto. Empinei a bunda pra ele, oferecendo bem minha buceta rosa encharcada. Ele encaixou o pau – ainda com a maldita cueca – e continuou empurrando. Mal passava da cabecinha e meu útero gritava por ele enterrado lá.

Não aguentei mais. Pulei nele de novo e tentei colocar o pau na boca.

Agarrei a cueca dele com as duas mãos e consegui revelar o pau. Abri a boca e fui com vontade, mas ele agarrou meus cabelos e não me deixou pegar. Lutei até cansar, mas não teve jeito. Me joguei na cama e fiquei me masturbando, tentando provocar. Ele ficou olhando com o pau na mão. Eu queria muito mentir pra você que essa história termina diferente, mas ele se levantou e repetiu:

– Não consigo fazer isso com você sendo casada com meu amigo.

Aquilo me deixou louca. Não louca no sentido de tesão, mas louca mesmo. Eu, mãe de uma menina com quase três anos, empresária, casada, saí para a rua com os amigos do rapaz. Ficava até altas horas da noite na praça, batendo papo e rodeando ele, queria que ele visse que eu era livre, que ter o Bardo ou não era indiferente.

Bardo ficou em casa, esperando. Cuidava da Lavínia, dava aulas, enquanto eu vivia essa loucura juvenil. Deve ter durado uns vinte dias, talvez um mês. Um dia cansei de ficar no beijinho, percebi que o moleque era um frouxo mesmo e fui para casa. Estava frio e ameaçava chover.

Entrei no apartamento e Bardo me esperava, pacientemente. Disse para ele que me sentia dividida, que precisava me divertir, que precisava de mais. Ele concordou, mas não havia muita perspectiva de futuro ali. A chuva desabou lá fora e ouvi meu nome entre os trovões. Olhei pela sacada e o rapaz estava lá fora, gritando e chorando.

Desci e conversamos. Ele disse que ia me comer se eu fosse namorada só dele. Ah, se eu soubesse que esse seria apenas o primeiro de muitos. Mandei à merda.

***

Estava desesperada por vida. Ser mãe e pagar boletos não era vida para mim. Precisava inventar alguma coisa e Bardo veio com a proposta perfeita: pediu para comer meu cuzinho.

Estava difícil. Eu realmente tinha uma ideia de que o parto ia me arregaçar toda, que ia ficar mais aberta. Mas não. Pelo contrário, minha buceta e meu cuzinho, já apertados, apertaram ainda mais. O pau do Bardo ficou mais parecido com os dos meu ex, dava aquela arrombadinha pra entrar.

Por trás então, era quase impossível.

Mas tinha mais uma coisa. Eu nunca tinha contado para o Bardo exatamente como o empresário tinha me comido. Pensei que seria um exercício interessante contar naquela noite. Queria ver como ele ia reagir e com certeza ele ia querer me pegar por trás.

Sentamos na cama e eu nem sabia por onde começar. Fui contando devagar, dando a entender para ver se ele sacava. Quando ele finalmente entendeu, me olhou apavorado. Primeiro ele ficou preocupado se eu estava bem, se aquilo era algum tipo de trauma. Não era. Eu me diverti muito. Perguntei o que ele pensava.

– Ora, bem, de certa forma eu morro de inveja. – Ele disse. Também quero brincar disso.

Substituímos o cuspe pelo KY. Bardo sempre foi muito carinhoso e na nossa posição favorita, de ladinho, ficava mais fácil. Ele encostava a cabecinha e meu cuzinho já travava. Fechava mesmo, lacrava. Aí ele ia passando o creme e empurrando bem devagar. Era uma questão de paciência… eu não via a hora de sentir as bolas dele nas minhas nádegas, mas o cuzinho tinha vida própria.

Depois de muito rebolar, a ponta da cabecinha entrava, bem quentinha. Ele empurrava devagar e eu empinava tudo o que podia. Aos poucos meu rabinho cedia mais um centímetro.

A cabecinha passava inteira e aí ficava gostoso. Ia escorregando bem devagar. Cada centímetro, uma vitória, até que finalmente ele vinha no meu ouvido e dizia: atolei tudo. E eu gozava. Um gozo gostoso que só tenho quando levo no cu. Minhas pernas amolecem e minha buceta escorre o suco devagarinho, sem jatos.

Gozava duas ou três vezes até que meu cuzinho começava a apertar de novo. Por mais que eu quisesse duas horas de foda no meu rabo, tinha que pedir pra ele gozar.

Se ele ainda não estava pronto eu contava mais alguma história gostosa e fazia ele encher meu cu de porra rapidinho. Ele tirava e eu sentia uma ardência gostosa.

Bardo voltava uns dias depois e me pedia para contar mais histórias. Fui contando tudo o que passei até ali. Foi estranho no início e depois algo que aprendi a valorizar e amar. Se eu falasse de outro cara para algum dos meus ex, era briga na certa.

Com o Bardo era diferente. Ele tinha um prazer enorme no meu prazer, no meu orgasmo – ele disse que esse sentimento tem nome: compersão. E se você ama alguém, que diferença faz se o orgasmo dela foi com você ou não? Era um mundo novo se abrindo pra mim.

Isso foi nos unindo ainda mais. Comecei a repensar se eu queria que ele fosse embora depois de me dar os filhos.

Foi assim que começamos a curtir o prazer um do outro. Enquanto metíamos, gostoso, de ladinho por horas, ficamos fantasiando outras pessoas ou relembrando nossas outras fodas. Apesar de divertido, ainda era algo reservado. Eu tinha medo de falar de algumas fantasias para ele, ele tinha medo de falar para mim também. Não sabíamos até onde o outro aceitaria nossos prazeres. 

***

A porta da varanda estava aberta e a lua cheia banhava a cama. Lavinia, com 3 anos, dormia no berço no quarto ao lado.

Fazíamos um amorzinho gostoso, papai e mamãe. Uma lágrima correu do meu olho. Bardo ficou preocupado e quis saber o que aquilo significava. Eu disse que estava pronta para ter a Mônica. Ele me beijou, deixou o peso do corpo dele cair sobre o meu, empurrou o pau bem fundo e encheu meu útero de porra.

Ah! Que saudades do meu leite quente.

Queríamos que as meninas tivessem dois anos de diferença e entramos em plena produção. Nossa agenda de foder três vezes ao dia, gozando dentro, estava de volta para minha imensa alegria. E o que eram para ser algumas semanas de sexo se tornaram dois anos.

Não vou reclamar. Foram dois anos bem do jeitinho que eu gosto. Eu já nem tinha mais meu próprio cheiro. Respirava fundo e sentia o sêmen do Bardo subindo minhas narinas. Chegou um momento em que pensei que não ia mais engravidar. Peguei a chave de fenda e fui desmontar o berço em que a Lavínia já não cabia mais. Senti ânsia e vomitei. Já sabia o que era.

Dessa vez fiquei com o tesão mais à flor da pele ainda eu só queria meter o dia todo. Pobre do Bardo se escondia pelos cantos do apartamento, mas eu sempre dava um jeito. Acordava ele mamando e já dava uma sentada. Mal passava o café eu já queria mais.

E assim se foram os meses. Bardo todo ralado, pedindo água, e eu olhando pra ele batendo siririca, pedindo mais. Um dia até minha bucetinha cansou do meu tesão. Acordei com ela toda ardida e ralada. Não tinha como. O clitóris estava inchado e eu não conseguia nem pôr a mão. E meu tesão lá em cima. 

Não tem jeito, vai ter que ser no cuzinho.

Mas meu rabinho andava tão apertado, tão difícil. De qualquer maneira eu precisava meter e tinha que dar um jeito. Chamei o Bardo para a cama. Chegou com uma cara de sofrimento só, tadinho. Então expliquei a situação: minha buceta estava ardida então tinha que ser no cu.

Deu para ver o ânimo dele voltando a todo vapor! Ele foi pegando o KY e vindo para a cama já de pau duro. Ralado, mas duro. Fui ficando de ladinho, daquele nosso jeitinho gostoso, mas de repente me veio um ímpeto: Eu vou ficar de quatro.

Para mim é quase impossível dar o cu de quatro, fiz isso poucas vezes com sucesso, mas naquela hora eu sabia que ia ser assim. Bardo se assustou mas não fez perguntas. Se é de quatro e no cu, não devemos questionar, certo?

Ele encaixou a cabecinha no meu rabinho rosa. Minha buceta deu uma pulsada e uma ardida, mas nem liguei. Ele foi, todo com jeito, colocando a cabecinha pra dentro do meu cuzinho, esperando a resistência que já conhecia. Mas que nada. Sem cerimônia alguma meu cu puxou o pau dele todinho pra dentro em uma botada só!

Começamos a rir, os dois. Que loucura! Que delícia! Meu rabinho apertado todo soltinho e animado. Bardo não perdeu tempo: segurou minha cintura e começou a socar. Gozei na hora. Não conseguia acreditar que estava fácil daquele jeito! Eu mandava ele socar mais. Forte, fundo, rápido, parecia que naquele dia eu tinha duas bucetas.

Gozei uma atrás da outra. Minha bucetinha ardia e derramava na cama. Bardo começou a gemer.

– NÃO GOZA AINDA – eu gritei.

Mas ele não aguentou. Estava gostoso demais. Encheu meu cu de porra. Eu estava em êxtase. Ele tirou e eu melei a cama toda com o leitinho escorrendo das minhas nádegas. No dia seguinte acordei animada. Será que minha buceta já tinha parado de arder? Nem pensar. Ainda estava toda vermelha, pedindo socorro.

No cuzinho dois dias seguidos eu não vou conseguir. Não aguento. Mas por que não tentar? Fiquei de quatro de novo e tomei mais uma socada deliciosa. No dia seguinte, mais uma vez. Era incrível, podia fazer aquilo para sempre, estava gostoso demais. Bardo lembra com muita saudade do que ele chama, carinhosamente, da “semana do cu.”

Depois meu corpo voltou ao normal – ou o mais normal que uma grávida pode ser – e isso nunca mais se repetiu. Uma pena.

***

Abandonamos a escola de música e começamos a dar aulas no nosso apartamento mesmo. Menos contas para pagar. Bardo construiu um estúdio e o barulho não era um problema, já que no mesmo prédio viviam a síndica festeira, um guitarrista de heavy metal e um DJ que usava todo o equipamento que tinha para assistir TV. O que mais fazia barulho mesmo era a máquina de lavar da vizinha do lado que dava a impressão de estar no Cabo Canaveral cada vez que centrifugava.

Montamos algumas bandas com os alunos e era muito divertido. Tinha ensaio a semana toda e em alguns finais de semana íamos para o bar fazer festas Jam, onde várias bandas se revezavam tocando a noite toda. Foi uma época muito boa. Bardo montou uma banda com alguns amigos chamada Nórdicos Sulistas FM (FM era de Fucking Machine e ninguém sabia disso). A banda era muito ruim e eu me recusava a ir nos shows deles, mas eles se divertiam muito.

Foi uma gravidez de muita noitada. Cantei muitas madrugadas com a Moniquinha na barriga e ela chegou no dia 22 de Fevereiro de 2009 em um parto tão difícil quanto o primeiro, com direito a uma parada respiratória. Ela era linda, cabeluda, com o cabelo bem escuro. 

Fui para a casa da minha mãe por uns dias, estava muito fraca e com o estúdio em casa não teria descanso. Bardo e Lavínia ficaram em uma festa permanente: comidinha e bagunça sem a maníaca por limpeza em casa.

Eu estava quase dormindo quando o telefone tocou. Olha o Orkut! – dizia uma amiga minha. Abri a recente rede social e vi uma foto da Lavínia dormindo no sofá da balada cercada de latas de cerveja. Liguei para o Bardo apavorada. Onde estavam? Que maluquice era aquela? Foi apenas uma piada. Bardo foi com a Lavínia para a balada antes dela abrir. Dançaram e pularam até ela dormir, ele fez aquela foto e já estavam em casa.

Se fosse hoje em dia penso que ele ia preso! Ainda eram bons tempos onde a vigilância moral era bem menor.

Quando voltei para casa fiquei apavorada. Bardo estava em aula. Lavínia estava coberta de farinha. Tinha latas de cereal e caixas de leite abertas pelo apartamento todo. Todos os pratos e talheres estavam sujos em cima da pia ou ao redor dela. Cheguei de vassoura na mão colocando ordem em tudo. Estava furiosa. 

Bardo, daquele jeito manso dele, me disse que estava com muitas aulas e deixou a Lavínia com o leite e o cereal na mão caso sentisse fome. Ela deitou e rolou!

***

Tudo ia muito bem. Não tínhamos mais horários para dar aula, as bandas estavam super legais, dinheiro no bolso, duas filhas lindas e saudáveis. E eu, angustiada de novo. Bardo também andava inquieto, jogando muito vídeogame. Com a internet melhorando ele começou a jogar partidas online que se estendiam noite adentro e eu peguei no sono algumas vezes esperando ele vir me dar aquela fodinha sagrada antes de dormir.

Comecei a reunir algumas amigas em casa para bater papo, comer pipoca e tomar chimarrão como minha mãe costumava fazer. Naquela noite uma delas resolveu ficar até mais tarde e quando me dei conta era quase meia noite. Ela se foi e fui chamar o Bardo para dormir. Quando abri a porta ele estava com o pau na mão e na tela do computador passava um filme pornô.

Fiquei enfurecida. Quem tem uma mulher como eu e bate punheta vendo filme? Bati a porta e fui para o quarto. Ele não foi atrás de mim. Parecia que as coisas estavam desandando. Na manhã seguinte ele disse que ficou envergonhado, mas que era como ele estava se virando com não estar comendo outras pessoas. À noite, depois de colocar os bebês para dormir, ele me chamou na sala. Queria me mostrar alguns filmes. No início achei aquilo tudo muito idiota. Mulheres entupidas de silicone fingindo que sentiam prazer e gemendo de um jeito esquisito.

Aos poucos ele foi me mostrando várias categorias e comecei a gostar mais de algumas. Quando chegou no sexo lésbico ficamos um bom tempo nos masturbando e vendo as mulheres se pegando. 

Aquilo mexia comigo de um jeito esquisito.

Assim como meu pai, Bardo odiava minhas amigas. Achava elas fofoqueiras e muito metidas na nossa vida. Tinha uma em especial que ele tinha um asco. Ela costumava chegar depois do almoço e pegou o hábito de ficar até meia noite. Ele ficava dando indiretas para que ela fosse, mas ela sempre ficava um pouco mais.

Foi em uma noite que Bardo colocou as meninas para dormir e foi para nossa cama. Coloquei uma camisola para dar de entender a ela que ia dormir mas ela, ao invés de se mancar e ir para casa, sentou na minha cama e continuou batendo papo. Bardo me olhou com um olhar estranho e virou pra ela.

– Se está na minha cama é meu. E eu vou comer.

Ela deu uma risada e ele olhou firme para ela. Pulou e puxou ela pelo braço, jogando na cama. Ela não resistiu. Filha da puta –  eu pensei. Era isso que ela queria esse tempo todo e eu nem percebi. Ele arrancou a roupa dela, abriu as pernas e, sem cerimônia ou camisinha, enterrou o pau todo na buceta dela.

Ela nem me olhava. Fiquei sentada na cama ao lado dos dois vendo ele socando ela e ela gemendo. Bardo não foi delicado como é comigo. Ele meteu forte mesmo. A virilha dele batia na virilha dela com um som seco. Fiquei imaginando se ele ia gozar dentro. Ela começou a gritar e cobri a boca dela com a mão. Nessa hora ela me olhou e eu senti um arrepio correr meu corpo.

Me molhei toda. Fiquei com um tesão diferente, esquisito. Me deu vontade de arrancar o Bardo dali e chupar a buceta dela. Não tive coragem. Sentia a vontade mas ao mesmo tempo uma grande culpa, como se aquilo fosse errado. Bardo gemeu alto, tirou o pau de dentro dela e deu aquela leitada farta na barriga e nos seios. Eu olhava para os dois tentando entender o que estava acontecendo comigo. Me sentia estranha.

Ela foi embora e depois daquele dia não voltou muitas vezes. Bardo evitava ela e nem cumprimentava. Foi uma coisa meio bicho, ficou um clima esquisito. Eu fiquei com aquele sentimento estranho. Cada vez mais queria ver pornô de lésbicas com o Bardo. Precisava entender o que estava acontecendo comigo.

Meu corpo parecia tão diferente depois da maternidade. Parecia que minhas necessidades eram outras. Me percebi andando pela rua e olhando bundas e peitos com o Bardo. Antes eu pensava que era coisa de mulher, de ficar notando outras mulheres, mas aos poucos eu percebi que – talvez – eu gostasse delas tanto quanto ele.

Foi em um sábado de manhã que eu estava tomando chimarrão com uma amiga – casada – e minha aluna chegou. Bardo jogava videogame no quarto. Deixei minha amiga na cozinha terminando um mate antes de ir embora e fui para a sala de aula.

No meio da aula escuto uma batida na parede no andar debaixo – meu quarto. Imaginei que o Bardo estivesse movendo alguma coisa por lá. Depois, mais algumas batidas em sequência. Um gemido feminino. Minha aluna me olhou com uma cara esquisita.

Bem, podia ser no andar de cima ou no apartamento do lado. De vez em quando mais algumas batidas seguidas, mais algum gemido abafado. Terminei minha aula e desci para a cozinha. O chimarrão estava frio sobre a mesa. A porta do quarto fechada. Senti um arrepio de tesão. Será? Às vezes me passam coisas pela cabeça mas raramente elas acontecem de fato. Desci a escada pé por pé, quietinha. Encostei a orelha na porta – à prova de som. Ainda assim, consegui ouvir uma respiração ofegante. 

Bardo deve estar vendo pornô sozinho de novo. Abri a porta devagar e meu coração quase saiu pela boca. Minha buceta encharcou na hora. Ele comia minha amiga. Ela ajoelhada com o corpo contra a parede e ele socando a bunda dela em movimentos fortes e lentos. Abri a porta toda e fiquei olhando. Ela se assustou, ficou esperando minha reação. Ele continuou metendo. 

Quando viu que não ia dar ruim, ela sorriu pra mim e soltou um gemido alto. Que puta tesão. Fiquei olhando o corpo dela suado. Os seios subindo e descendo com os bicos bem pontudos. Bardo dava tapas na bunda dela e quando percebeu que podia fazer barulho começou a socar rápido e forte.

Eu não conseguia tirar os olhos dela. Toda linda. Tomei coragem e cheguei perto. Com minhas mãos tremendo feito adolescente, toquei nos seios dela. Que macio gostoso. Diferente da pele de um homem. 

De repente uma buzina de carro encheu o quarto vindo lá da rua.

– Caralho, meu marido veio me buscar!

Ela tentou sair, mas Bardo segurou ela pela cintura. 

– Daqui você só sai cheia de leite.

Deu mais umas socadas fortes e rápidas e gozou. Sem camisinha, encheu ela toda de porra. Foi hilário ver ela se vestindo rápido e pingando porra nas coxas e no vestido. E eu fiquei morrendo de vontade.

***

Trevas. Eu sou um monstro e vou direto pro inferno. Aquela mulher fogosa se apagou. Eu desejava pessoas do mesmo sexo que eu e isso ia contra tudo o que aprendi como certo.

Andava pelos cantos, com medo, esperando o minuto em que deus ia me partir ao meio com um raio. Minha buceta pulsava e molhava à menor lembrança das minhas amigas nuas metendo com o Bardo. Como eu queria ter chupado elas inteiras.

Parecia que todo aquele catolicismo tinha voltado com força total. Eu olhava para mim mesma com nojo. Andava na rua com a cabeça baixa enquanto cada peito e bunda que passava por mim gritava como que ansiando pelo meu toque. Cada gripe que as crianças pegavam, cada coisinha que dava errado, eu via como karma pelos meus desejos.

Entrei em uma espiral negativa de pensamentos que estavam me matando. E ainda sentia a pele macia do seio da minha amiga na minha mão. Não aguentava mais aquilo. Eu sabia que tudo ia terminar mal. E eu não conseguia falar com o Bardo sobre isso. Eu imaginava que ele ia terminar comigo, que ia ter nojo de mim.

Me preparei. Organizei as coisas para o divórcio e me organizei para ser uma mãe solteira dali para a frente. Se eu quisesse comer uma mulher teria que abrir mão de tudo. Talvez da minha vida e da redenção da minha alma.

A carne é tão mais forte que eu.

Bardo jogava videogame. Eu estava sentada na mesa da cozinha tomando um chá para me acalmar. As meninas brincando no tapete. Estava prestes a arruinar minha vida. E não é assim? Talvez eu fosse viver uma grande aventura solo dali para frente. Acho que me acostumei mal com o Bardo me dando suporte pra tudo. Acho que é hora de ele ir. Levantei, tomei fôlego e caminhei na direção dele.

– Bardo. Precisamos conversar.

-Uhm… – ele disse, sem tirar os olhos do jogo.

Me sentei ao lado dele. Eu suava frio. Tremia. Não estava pronta pra seguir sem ele.

– Eu gosto de mulheres. Tenho tesão nelas. Quero transar com elas.

Ele não mudou a feição do rosto. Não tirou os olhos do jogo.

– Uhm.

– Como vamos fazer? – Perguntei. – Você quer separar de mim?

Ainda sem tirar os olhos da tela ele esboçou um leve sorriso e respondeu:

– Por que raios eu iria me separar de você?

Me pegou de jeito. Depois do que vivemos até ali eu deveria saber que ele ia responder isso mas eram tantos fantasmas dentro de mim! A educação católica romana, a família, a escola, a igreja, a comunidade e tudo o que nos ensinam que é certo mas que, no fundo, ninguém faz.

– Porque eu quero transar com mulheres agora.

– Não vai mais transar comigo, então.

– Não. Quero dizer. Eu vou sim.

– Então vai transar com a mulher que quiser. Estarei aqui quando voltar. Se voltar.
– Mesmo? 

– Mesmo. – ele sorriu. Eu estava sendo boba e ingênua, nem percebi que ele estava fazendo as contas, não imaginei quantas mulheres eu ia jogar na cama dele dali pra frente.

Levantei e deixei ele jogando. Sentei de volta na mesa e tomei um chá. Certo. Pelo menos com ele estava certo. Mas deus ainda ia me dar aquele câncer ou algo assim e eu tinha que acertar essa conta depois. Por enquanto eu não tinha feito nada ainda. E pensar não é tão pecado assim se parar pra pensar.

Agora a questão era outra. Minhas amigas não queriam nada comigo. Elas só queriam dar para o Bardo e conseguiram o que queriam. Com quem eu ia ter minha primeira experiência? Comecei a pensar em tudo o que isso ia implicar na minha vida e, como o Bardo já estava de boas, pensei que talvez a melhor coisa a fazer fosse casar com mais uma mulher.

Tipo um casal de três. 

Escolhi uma mulher. Ela era linda, perfeita e solteira. Eu só não sabia se ela gostava de mulher também. Eu podia jogar a carta do Bardo e, enquanto ele comia, eu podia ir entrando aos poucos.

Mas aí eu faço o que? Não tinha pensado exatamente nisso! Como se come uma mulher? Como se chupa uma buceta? Não. Eu precisava ter alguma experiência antes de ir atrás dela.

***

Entre “quem come de tudo está sempre mastigando” e “meu corpo é um parque de diversões e eu quero andar em todos os brinquedos” não sei qual é a célebre frase do Bardo que mais define a perfeição em ser bissexual.

Sim, nós temos acesso a tudo. Nós podemos brincar de todas as formas e posições e com cada milímetro do nosso corpo sem medo e sem preocupação. A outra pessoa tem um caralho? Ótimo! Uma buceta, bom também! Tem seios enormes e um caralho? Estamos dentro!

Mas o caminho até aqui foi, bem, foda. No sentido de difícil mesmo. Aceitar os próprios prazeres neste mundo de falsas moralidades não é fácil. Até que a primeira oportunidade surgiu tudo foram trevas. Tentamos conversar com nossos amigos e amigas sobre o assunto, mas era o mesmo que perguntar se a pessoa queria ir direto para o inferno.

Aos poucos, de forma velada, todo mundo se afastou de nós. Amigos, parentes, conhecidos, todos queriam distância desse casal “doente.” Perdemos amigos de infância e até as amigas que davam para o Bardo acabaram saindo de perto também.

Só queríamos dividir nosso prazer e as pessoas nos viam como leprosos.

A oportunidade acabou vindo (ou indo) de muito longe: um convite para um simpósio de música na capital de São Paulo. Saímos do fim do mundo, pegamos um avião e fomos conhecer outros artistas. Quem sabe, talvez por lá, alguém com a mente mais aberta? Engano nosso. Cada vez que começávamos o assunto com alguém já percebíamos os olhares de desdém e os namoradinhos saindo de perto.

Seríamos os únicos no mundo?

Na terceira noite o simpósio terminou em um show na Rua Augusta. O show estava uma chatice e resolvemos sair de lá e dar uma volta. Caminhamos pelos bares, vimos as pessoas, mas não tínhamos mais nem vontade de chegar em ninguém.

Estamos falando de 2012. Não parece muito tempo atrás, mas termos como poliamor, relacionamento aberto, trisal ou swing não eram nada populares. Foi aí que encontramos esse simpático moço (que é nosso amigo até hoje) e ele nos disse:

 – Boa noite, casal! Conhecer a casa, tomar uma cervejinha? Bucetada na cara sem dó nem piedade. Mais de vinte mulheres na casa, duas virgens! As demais são de libra, aquário e sagitário, mas câncer não! Câncer é doença! Aqui é o Maison, o puteiro maiúsculo da Augusta!

A piada interna do câncer foi ótima, feita sob medida para mim, mas minha mente focou mesmo na bucetada na cara. Era exatamente o que eu estava procurando e nunca imaginava que estaria assim, anunciado no meio da rua. Entramos. A entrada era sete reais com direito a uma cerveja e uma porção. Onde eu assino?

As meninas dançavam em um pole dance à meia luz. Minha buceta encharcou na hora. Ia ser ali. Bardo e eu pegamos nossa cerveja e um picadinho (muito suspeito) de presunto e nos sentamos em um sofá. Logo elas nos cercaram e começaram a nos tocar e rebolar no colo. Era o paraíso. Se uma porta para o inferno se abrisse ali mesmo eu não estaria nem aí. Passei a mão na bunda, nos seios, beijei na boca. Quando vi o Bardo ele estava com uma mulher muito pequena no colo. Magrinha, cinturinha fina e uma bunda perfeita. 

Era ela. Não tive dúvidas.

Me livrei das outras putas e me joguei com ela. Bardo estava em êxtase. Peguei ela pelo pescoço e beijei. Lábios de mel, língua de veludo. Meu suco escorria pelas coxas. Pedi pra ela nos levar para um quarto. Queria que o Bardo me visse, que participasse de tudo. Acertamos um preço e entramos em um corredor escuro até um quartinho bem pequeno.

Ela jogou o Bardo na cama e me agarrou com força. Na ponta dos pés, puxou minha nuca e me beijou com vontade. Sua mão passeava pelo meu corpo inteiro como quem sabe que tem pouco tempo pra aproveitar tudo.

Em meio aos beijos fomos arrancando as roupas uma da outra. Bardo já estava nu na cama. Ela me deitou ao lado dele e começou a beijar meu pescoço. Era muito bom, me dava arrepios.

Foi descendo pelos meus seios, lambendo e dando leves mordiscadas nos bicos. Eu estava tesa, encharcada, amando tudo aquilo. Ela demorou na brincadeira. Me fazia tremer toda, me apertava e ia com a boca nervosa, mas delicada, de um seio a outro. Bardo foi chegando e começou a chupar um deles enquanto ela chupava o outro.

Foi aí que a energia bateu, que a lâmpada bi ligou de vez: a energia masculina e feminina no meu corpo ao mesmo tempo. Essa era a melhor sensação que eu ia sentir na vida e ainda é. É um ápice inigualável.

Enquanto a boca dela se deleitava nos meus seios, entre um beijo na boca do Bardo e outra, seus dedos delicadamente procuravam o prazer pelo meu corpo. Ela me explorou como um bandeirante, subindo e descendo os vales e curvas das minhas coxas. Ela acariciava a parte interna dos meus cotovelos, atrás dos joelhos, meus pés, meu pescoço e quando eu fiquei completamente acesa qualquer lugar que ela tocasse em mim era um quase orgasmo.

Foi assim que ela foi chegando na minha virilha e quando ela colocou a língua lá eu vi estrelas. Gritava e agarrava os cabelos dela, puxando a boca dela contra a minha buceta, mas ela não vinha. Foi me judiando mesmo, me fazendo escorrer o suco pelas pernas e molhar o colchão.

Quando eu já estava alucinando ela veio subindo minhas coxas com a língua, fazendo um balé de prazer, lambeu minha virilha, e começou a chupar ao redor, lambendo o suco e me olhando nos olhos. Eu já não sabia mais quem eu era nesse momento.

Quando ela colocou a língua dentro da minha buceta eu explodi. Só me lembro que tudo brilhava, meu corpo tremia e eu arrepiava como quem tem febre. Vi o Bardo indo para trás dela, toda pequenininha, e batendo com o pau na bundinha.

– Quer colocar no cu? – Ela perguntou. Ele só sorriu.

Entramos em um trenzinho delicioso. Ele empurrava o cuzinho dela e eu sentia cada empurrada na língua dela. Cada vez que ela lambia eu gozava. Dava squirts no rosto dela, que ria e continuava me chupando e me arrancando um prazer que eu nunca tinha imaginado que existia.

Eu pensei que ia desmaiar. E quase desmaiei mesmo quando ela enfiou o dedo na minha buceta, encharcou no meu suco, veio descendo bem devagar e colocou ele no meu cuzinho. Você sabe como ele é apertado, mas aquele dedinho pequeno e encharcado deslizou para dentro de uma vez só. Vi estrelas mais uma vez e gozei alucinando.

Bardo ria alto olhando nos meus olhos e me vendo gozar enquanto socava o cuzinho dela sem dó. Era lindo ver aquele homem enorme comendo aquela mulher pequeninha de quatro. E ele gozou bem gostoso. Quis chupar ela mas ela não deixou. Mesmo assim saí de lá com a certeza de que amo mulher. 

Agora eu sabia ser comida por uma mulher. Parece que ia ter que descobrir como comer uma por conta própria. Eu me sentia pronta. Forte, confiante e com cada vez menos medo, menos vergonha e menos culpa. Voltamos para o sul e combinamos de encontrar com a mulher que eu tinha nos meus planos.

Era uma amiga de muito tempo atrás. Nós trocamos uns beijos quando adolescentes mas tudo muito bobo, nem sabíamos o que estávamos fazendo. Ela tinha ficado impressa na minha pele. Por pouco e inocente que tenha sido eu lembrava do toque da pele e do cheiro dela.

E ela era muito parecida comigo, o que o Bardo achou muito bom.

Pegamos o carro e viajamos até ela, no interior do interior do Rio Grande do Sul. Levou um tempo até conseguirmos tirar ela de casa para dar uma volta conosco. Não sei se ela estava se fazendo de boba mas fomos levando a conversa até ficar picante e fui fazendo a proposta para ela.

Nesse meio tempo, Bardo dirigia na direção de um motel.

Eu estava com medo que ela ficasse irritada e que acabasse contando pra família toda – o que a essa altura já não seria um problema tão grande – e pior: que não aceitasse casar com a gente. Ela foi levando a proposta numa boa e quando o Bardo entrou com o carro no motel ela só sorriu.

Logo estávamos nos beijando e arrancando as roupas e eu estava doida para tocar nela.

Pulei pra cima e fui logo enfiando dois dedos inteiros na buceta enquanto o Bardo já agarrava ela pelos cabelos e fodia a boca, que engasgava e babava todo o pau dele. Foi tudo forte e violento, como um sexo cheio de saudades. Eu fui no instinto, fazendo nela tudo o que a puta tinha feito comigo e tendo novas ideias no caminho.

Sentei por cima e encaixei minha buceta na dela em uma tesoura, como tinha visto no filme pornô. Que sensação é essa? Uma pena que não tenha palavras para descrever e você – se for homem – nunca poderá saber. Quando a carne macia, quente e rosa da minha buceta molhada encaixou na carne macia, quente e rosa da buceta dela eu gozei na hora.

Molhei ela toda de squirt, o que lubrificou tudo e deixou o movimento muito gostoso. Nossas coxas roçavam uma na outra e as duas bucetas pareciam uma coisa só. Perdi a noção do tempo ali, gozando junto com ela uma atrás da outra e molhando a cama toda. Bardo foi até o frigobar, abriu um vinho e sentou para assistir o espetáculo. Ela realmente tinha o corpo muito parecido com o meu. Era linda e muito gostosa.

Fodemos até perder a força das pernas. Quando caímos na cama, Bardo não deixou barato: colocou ela de quatro e começou a socar com vontade. Ela ia ser dele agora e ele tinha todo o direito de encher aquela buceta de porra. Ela me puxou e colocou a boca na minha buceta. Essa ia se tornar a nossa posição à três favorita (inclusive com homens). Ele metendo gostoso na bunda dela e ela enfiando a língua na minha buceta molhada. Bardo gritou e encheu a buceta dela de porra. Ela gozou, eu gozei, os três em um corpo só sentindo prazer.

Deitamos os três na cama, suados. Era aquilo que queríamos para o resto da vida. 

Foi o Bardo que “arruinou” tudo. Ele tem essa mania chata – mas muito útil –  de ver as coisas à longo prazo. É nessas que ele se vira para ela e pergunta: 

– Você pretende ser mãe?

Quando ela respondeu que sim meu corpo se contorceu. Alguma coisa muito primitiva gritou em mim e eu não aceitei aquilo. Eu não queria o filho de outra mulher perto de mim, muito menos que ele fosse do Bardo. Não ia servir, não ia dar. Até hoje não sei explicar por que me senti assim, mas continuo pensando dessa forma.

Saímos de lá sem nossa mulher. 

***

Acabou.

A crise econômica da bolha imobiliária dos Estados Unidos chegou na nossa porta. Tínhamos acabado de reformar todo o apartamento e, do dia para a noite, quase todos os nossos alunos cancelaram as aulas. Nossa lista de espera sumiu.

Sentamos e ficamos olhando as meninas. Mônica, bebê ainda, rolava na cama. Definitivamente deus estava nos punindo pela nossa luxúria. Quis dizer isso para o Bardo mas não tive coragem. Eu sabia o que ele ia responder. E era mesmo bobagem da minha cabeça.

Recebemos um aviso do condomínio avisando que haveria uma manutenção severa das caixas de água e que podíamos ficar até dois dias sem abastecimento. No mesmo dia, uma explosão lá embaixo: de todas as caixas de energia do prédio, apenas a nossa queimou e ficamos sem luz.

Sem água, sem luz, sem internet, sem dinheiro. Estávamos em uma caverna moderna. A luz do poste que ficava bem na altura do apartamento iluminava a cama em amarelo. Bardo dedilhava uma canção sobre aquilo no violão.

– Vamos morar no mato. Criar galinhas – disse o Bardo – Minha vó tem um pequeno sítio na fronteira com a Argentina. Podemos começar tudo de novo.

Me enfiar ainda mais longe no fim do mundo não parecia ser a melhor ideia que existe, mas eu também não tinha uma melhor. Contra a vontade da família arrumamos nossas coisas, nos despedimos de quem restava e partimos dali.

***

Nesses anos todos morando juntos, Bardo e eu nos aproximamos de muitas formas. Com o VHS nos seus últimos dias de vida, as locadoras de vídeo faziam promoções insanas e passamos anos alugando “sete filmes por sete dias.” Assistimos quase todos os filmes dos anos 80 e 90 naquela época e fomos desenvolvendo um gosto comum.

Nos primeiros dias ouvíamos música de fone de ouvido. Eu com minha Laura Pausini, Bardo com seu Marilyn Manson. Aos poucos fomos crescendo no gosto do outro. Mais para o lado do Bardo do que para o meu. Ele me apresentou o Blues, as divas do Jazz, a bossa nova, Elis Regina. Amei aquilo tudo.

Uns dois anos depois comecei a cantar em uma banda que ele tinha com os amigos. Músicos iam e vinham – o que ia ser uma constante na nossa vida – mas ficávamos nós dois. A Sétimo Céu foi nossa primeira banda, com as músicas que o Bardo escrevia. Era uma banda de piano rock: piano, baixo, bateria e vozes. Tivemos o flautista por um tempo e um saxofonista muito bom uma vez. Até o baixista do Hermeto Paschoal e o dos Replicantes tocaram conosco por um tempo.

Gravamos algumas músicas em casa mesmo e fizemos nosso primeiro álbum, o Utópico Realista. Muito ruim em termos de gravação e até mesmo musicalmente, mas era um início. Nem temos mais cópias disso.

***

Bardo foi na frente e descobriu que seu avô, muito querido, estava com uma doença definhante que o levaria aos poucos. Ele queria ficar por perto. A avó não quis que ele ficasse no sítio e ele conseguiu a casa de uma tia no mesmo bairro. Fui para lá e Bardo voltou buscar nossa mudança.

No dia que ele chegou uma tempestade caiu, soltou um fio de energia e Bardo chegou com o caminhão arrancando esse fio e deixando a rua toda sem luz. Descarregamos o caminhão na chuva e no escuro. Um começo irônico.

Eu me vi no último bairro da cidade. Depois de nós, apenas cinco casas, um cemitério e o fim do mundo. Uma cidade quente, abafada, com um povo esquisito. Bardo me pediu para ficar em casa e descansar enquanto ele dava conta de tudo.

Rapidamente ele colocou o projeto das escolas em pé e estávamos bem de dinheiro. Aproveitou o sobrenome da família na cidade e conheceu muita gente, abriu portas. Ele também tinha alguns amigos da adolescência, das férias no sítio da vó, e eles nos ajudaram a ficar bem.

A cidade tinha muitos músicos. Parte por ter um festival de música notório, parte por ter muitas bandas de baile alemão. Tentamos montar nossa banda com essas pessoas mas elas não entendiam nossa musicalidade. Nosso “piano rock” não ia ter espaço ali.

Foi uma amiga do Bardo que nos apresentou um músico de Porto Alegre que tinha mudado para lá a pouco tempo também. Com ele gravamos o Anjo de Prata, nosso segundo álbum, ainda bem ruim em termos de qualidade de gravação mas muito bom em composições. Fizemos alguns shows na região mas vimos que por ali aquela música não ia para frente de forma alguma. Nossos fãs (tinham um fã clube) eram os alunos do projeto.

Chegou o verão e, sem as escolas funcionando, ficamos sem renda. Tivemos que pedir dinheiro para a família do Bardo, o que foi uma merda completa. O avô dele definhava e ele se desentendia com a avó, que na opinião dele estava tratando o velhinho muito mal.

As aulas voltaram e eu não aguentava mais ficar naquele fim de mundo com as meninas. Estava brigando com o Bardo o tempo todo. Passamos o natal e o réveillon mal. Chegamos a conversar algumas vezes sobre separar de vez.

Bardo tinha contratado uma secretária que andava colada com ele de cima para baixo. Achava um absurdo ele pagar ela sendo que eu podia fazer aquelas tarefas. Eu estava sem fazer nada e aquilo estava me enlouquecendo. Comecei a andar com eles, as crianças à tiracolo, e queria trabalhar também.

Acabou que mais atrapalhei que ajudei e, com a prefeitura cortando o espaço das aulas, tudo acabou. A banda também não vendia nada e dispensamos o músico. A secretária foi embora e estávamos de novo na estaca zero. Bardo conversou com o pessoal da prefeitura e com alguma influência de amigos ele foi contratado para dar aulas em uma escola e no centro de cultura e eu fui contratada para ser regente do coral infantil.

Agora estávamos no ápice do nosso desprezo pela vida comum: funcionários públicos. Para amenizar, Bardo aceitou o convite de um pequeno restaurante da cidade para tocar nos sábados ao meio dia. Pagava um cachê e o almoço para mim e as meninas. O povo gostou das músicas esquisitas dele e o restaurante começou a abrir às sextas à noite. Montamos uma banda com baterista, dois guitarristas, Bardo no baixo e eu cantando só para tocar lá. Depois de um tempo a cidade vizinha nos descobriu e nos chamou para tocar lá também. 

Animamos, mas não sabemos brincar, eu tenho consciência disso. De repente a menina sonhadora com São Paulo quis que a banda crescesse. Arrumamos um carro e Bardo começou a viajar para outras cidades ao redor e fechar mais shows. Um desastre atrás do outro. Não sei o que tínhamos na cabeça de levar rock para cidades de colônia alemã e italiana, onde a maior distorção que existe é um trompete.

Mesmo assim continuamos. Era aquilo ou enlouquecer de vez dando aulas com um salário fixo que atrasava todo mês. Começamos a nos organizar para gravar um álbum e um videoclipe.

***

Nesse meio tempo buscamos nossos pares. Aprendemos a ser mais discretos nas nossas conversas e íamos fazendo brincadeiras para ver se as pessoas mordiam o assunto. Queríamos pessoas que entendessem a natureza da nossa relação e que pudéssemos curtir um sexo numa boa. Quem sabe a nossa namorada estaria por ali? Aquela cidade tinha mulheres realmente bonitas.

Mas nada. Começamos a passar, com frequência, pela história do flautista: se quiser transar comigo tem que largar ele. Não julgo. Eu mesma sofri demais com as coisas que eu aprendi a acreditar e a monogamia é tão lei quanto a gravidade na cabeça das pessoas. Se não fosse assim, que ao menos fosse traição então. Traição é uma coisa boa e funcional na cabeça do monogâmico.

Assim entramos na onda mais bizarra da nossa vida. Na boca miúda a cidade começou a conversar sobre esse casal esquisito com desejos estranhos e os convites começaram a aparecer. Nunca eram para os dois. Sempre para um ou para outro, e sempre na alta sociedade. Grupos de mulheres me chamavam para festas só com mulheres e queriam saber mais, queriam que eu contasse minhas experiências e queriam, claro, experimentar.

É assim que é, todo mundo sabe disso e só hoje eu entendo que a hipocrisia sempre será necessária para o bom funcionamento social. Aquela líder social que promove os eventos da igreja? Chupei ela. A mãe de família exemplar com o marido influente na indústria? Derramou suco nos meus dedos. Mulheres reprimidas que encontraram em mim uma pequena fuga da dura realidade. Tudo bem, já que o marido – um político promissor no estado, estava chupando o pau do Bardo. Eu era a Nicole Kidman em uma mistura de Dogville e de Olhos bem fechados.

Por mais que o escondido tenha sua dose de prazer, não era o que eu queria. Eu gosto do simples, honesto, do verdadeiro, do prazer solto de amarras e independente de pressão e ambiente. O puro prazer nervoso do toque da pele na pele. Não me interessa mentir, enganar, cumprimentar um homem no jantar do Rotary sem ele saber que a mão que ele aperta arrancou orgamos da esposa dele.

Na época eu julgava muito, hoje entendo melhor. A vida não é um morango. Ela vai, aos pouquinhos, no melhor estilo tortura da gota d’água, nos levando por caminhos que nos colocam em situações que não gostaríamos de estar e não temos como sair. Ou em lugares onde o ruim fica confortável o suficiente para temermos pelo pior ainda.

Para essas pessoas criadas em uma cidade pequena, tradicional, onde todo mundo é de alguma família que precisa manter uma imagem (você é gente de quem?) fica cada dia mais complicado viver o que bem deseja, fica difícil experimentar coisas novas e diferentes sem correr o risco de perder o pouco que tem.

Essa era nossa dor e Bardo começou a escrever sobre isso. Nosso álbum, Lovebox (esse tem nos serviços de streaming) é recheado de canções sobre nosso sonho de relacionamento ideal com as pessoas. Ele abre com Viver a 3, uma canção sobre como seria perfeito ter um relacionamento ímpar. Ode ao Ciúme fala por si só e Chifres São Coisas da Tua Cabeça é sobre um casal que conhecemos que se traía, os dois sabiam, mas tinham um acordo velado de nunca falar a respeito.

Também escrevi Momento Único, uma canção de amor. O álbum termina com Calibre 12, uma música sobre zumbis. Sempre tivemos um lado lúdico e adoramos músicas bobas, como as canções de Monty Python.

***

A banda não estava nos acompanhando nos sonhos. Era preciso mais trabalho, mais dedicação, e eles preferiam a segurança dos seus empregos e dos seus relacionamentos. Dispensamos a banda e chamamos outros músicos. Um baterista veio do interior de São Paulo para gravar conosco e o guitarrista era um dos alunos do projeto.

Começamos a fazer ainda mais shows, ajudamos a criar um festival de rock na cidade e fizemos algumas festas muito boas. Usávamos os bares da cidade e o centro de cultura para promover nossas festas jam e fizemos um bom movimento. Começamos a trazer bandas de cada vez mais longe na esperança de que elas nos levassem para suas cidades também – o que nunca aconteceu.

Uma das bandas que trouxemos era realmente muito legal. E eram bonitinhos! No final do show as mulheres estavam em alvoroço querendo os meninos. Quando percebi, peguei uma ruivinha que estava de olho há um tempo, mais umas três meninas e convidei todos para continuarmos a festa em um motel. Para meu espanto, aceitaram!

Fomos em três carros. Nossa banda, a deles, e as mulheres. Para garantir que elas não iam amarelar no caminho, espalhei elas pelos carros. Pegamos um quarto enorme no motel local e fomos todos para a cama. Queria contar uma história melhor aqui, mas só rolaram amassos a noite toda. Bardo e eu beijamos e chupamos os seios da ruivinha e eu dei uns pegas no baterista, mas estavam todos com vergonha e sexo mesmo não rolou. O pior foram os meninos da nossa banda que sentaram em um sofá e sequer participaram.

Nas semanas seguintes, tentei trazer a ruiva para nossa casa de todo jeito, mas ela correu. Ela era linda e podia ter sido nossa namoradinha. Uma pena mesmo.

Histórias como essa aconteciam o tempo todo, essa foda meia bomba, essa oportunidade de estar lá e travar, não aproveitar tudo o que podia. Eu fico pensando se hoje essas pessoas amadureceram e se arrependem até os fios do cabelo de não terem aproveitado mais a oportunidade – e se sequer tiveram outra assim depois.

***

O avô do Bardo finalmente definhou até falecer. Aquelas mortes que vem com mais alívio que dor. Eu não suportava mais ver o Bardo sofrendo cada vez que ia visitar o velhinho. Fomos morar com a avó por um tempo e a relação deles se deteriorou ainda mais. Fomos embora e Bardo nunca mais falou com ela.

Ela se mudou para um bairro e, como dizem muitas mulheres idosas, começou a viver. Se arrumava, ia nos bailes, se juntava com as amigas como minha mãe fazia. No fim, não sei qual foi a história dela com o avô e o que levou ela a segurar tão mal os últimos dois anos de vida ao lado dele. Era um casal antigo, casado nos anos 50, e nunca vou ter ideia do que ela passou ao lado dele tendo sete filhos em uma vida de pobreza na roça. Mesmo que o Bardo tenha razão em querer que o avô fosse melhor tratado, ela nunca me falou uma palavra sobre os motivos dela.

Para mim, só mais uma razão para ter certeza que o casamento é uma instituição de merda.

***

Chegou mais um final de ano e estávamos em alta. Eventos todo final de semana, convites para festas e jantares e Fada se apresentando com o coral infantil. A prefeitura fez um evento lindo de natal e as crianças cantaram nas janelas. Naquele dia, ganhamos a chave da cidade por nossa colaboração artística na cidade.

E claro que eu estava inquieta. Se eu concorresse e virasse prefeita daquela cidade eu ainda estaria. Era tudo pequeno demais. As conversas eram pequenas, as ideias eram chatas e parecia haver um campo de força que impedia aquelas pessoas de ir além, de realmente curtir a vida como eu desejava.

Não aguentava mais churrascos, jantares, bebidas, bares e uma vida social repetitiva e limitada. Não vou cuspir tanto no prato e direi que apreciei algumas coisas: aprendi a beber vinhos finos, champagnes e cervejas artesanais e tive algumas conversas interessantes – pelo menos até alguém colocar o pó na mesa – momento em que eu sempre me retirava.

Houve uma pessoa que realmente foi muito legal de conhecer e que temos saudades. Um músico de festas italianas com quem viajamos por um tempo tocando pela região. Era uma pessoa pura, de coração bom, dessas realmente raras de encontrar pelo mundo. Além de ótima companhia era um piadista de primeira e ríamos por horas viajando para os shows. Infelizmente ele se foi.

Gravamos o Lovebox e resolvemos fazer o clipe com a música Se eu não olhar pra você. O clipe foi feito na catedral da cidade e ilustra um casamento inusitado: a noiva, arrastando uma corrente com os pés, tenta chegar ao altar enquanto um ex-namorado, uma ex-namorada, os amigos e a família tentam impedi-la. Na reta final um morto carregando uma coroa de flores a acompanha – pois o casamento é a morte do sexo. Chegando ao altar ela é liberta das correntes e precisa fugir de todo mundo.

A igreja católica não viu o vídeo com bons olhos. Uma cena específica em que a noiva quase beija a ex-namorada acabou virando polêmica e foi parar em todos os canais de notícia. Sem querer, vivíamos o modelo Marilyn Manson: a igreja católica nos promoveu de graça. Nunca teríamos recursos para toda aquela mídia.

Depois que visitamos todas as rádios e jornais da região e promovemos o lançamento do clipe, acredito que eles se deram conta do que fizeram. Recebemos uma ameaça de morte. Um membro da igreja nos procurou e nos avisou que estavam preparando uma emboscada para matar minha família.

A prefeitura encerrou nossos contratos. Os convites para as festas sumiram.

No mesmo dia, Bardo colocou as meninas e eu em um ônibus de volta para a colônia alemã. Vendeu todas as nossas coisas e veio logo atrás. Se tem uma estaca antes do zero, é exatamente onde estávamos: não só de volta à colônia, mas de volta à casa dos nossos pais.

Não íamos ficar ali, não tinha como. Nosso baterista voltou para o interior de São Paulo e nos disse que podíamos ir para lá, ele tinha como nos receber por um tempo. Nessa hora fiz a coisa de que mais me arrependo na minha vida: deixei as minhas filhas com as avós e fui em busca de algo maior.

E era São Paulo, de novo. Aqui vou eu.