Capítulo 3 – Bardo

Derrotada.
De novo de volta à maldita colônia. Ver aqueles cabelos loiros e olhos azuis me irritavam profundamente. Aquele sotaque horroroso, um português ruim. O frio. Aquele vento minuano cortando meus ossos por dentro.


Não tinha a menor intenção de ficar ali.


Chamei meus pais para uma conversa. Se eles queriam ficar, que ficassem. Eu já tinha vivido sozinha lá mesmo e sabia me virar. Pedi as chaves da casa e o dinheiro para a passagem. Minhas malas estavam prontas em cima da cama.


Não havia mais casa, meu pai me disse. Parece que ele tinha gasto todo nosso dinheiro tentando nos colocar nos palcos e as gravadoras e advogados tomaram tudo dele. Ele pediu dinheiro emprestado ao meu tio e, sem conseguir pagar de volta, perdeu a casa. A verdade era que eu tinha trabalhado e lutado pelo meu sonho por 13 anos e meu pai tinha arruinado tudo. Talvez o empresário tivesse razão.

Entrei no quarto e fiquei encarando minhas malas. Eram como bigornas em cima da cama, tão pesadas quanto um sonho que virou pesadelo. Eu não conseguia nem chorar mais. Deitei no meio delas e fiquei ali olhando para o teto. Aquele cara com a coroa de espinhos me olhava da parede. Lembrei que deus tem um plano para mim e que deus escreve certo por linhas tortas. Bem tortas, bem tortas, viu? Dormi.

***

Nos dias seguintes eu me senti completamente atordoada. Não tinha mais a menor vontade de cantar. Meu pai começou a fazer seus shows nos bailinhos alemães de novo e eu me recusei a ir. Para que, afinal? Quem estava sustentando a casa era minha mãe com o mercadinho. 

Passava meus dias andando de um lado para o outro, limpando a casa, cuidando dos meus irmãos. Quando meu pai saía, as amigas da minha mãe apareciam e eu era o assunto principal. Elas não queriam saber como era São Paulo e o que eu tinha vivido lá. Elas queriam saber quando eu ia arrumar um marido e começar a fazer filhos. Meu pai trazia pretendentes. Um alemão mais feio que o outro. Era sempre um “homem bom.” – Tem um terreno ali na rua de cima, ele tem um carro bom, trabalha na fábrica. – Minha mãe me mandava para a igreja. Eu não tinha terminado a crisma e tinha que fazer aulas sobre a bíblia.

Parecia que era isso, enfim. Casar, ser mãe. Viver aquele mesmo ciclo sem fim daquelas italianas e alemãs ao meu redor. Não parecia nada bom e não parecia ter nada melhor para escolher além daquilo. Comecei a flertar com os meninos da igreja. Havia um que era bem bonitinho e quem sabe ao menos eu teria alguém para me ajudar a aliviar a tensão e a coceira.

Infelizmente eu já não sentia mais nada com o flerte bobo de menina. Minha inocência já tinha ido embora com os namorados de São Paulo. Eu queria maldade, sacanagem, putaria mesmo e isso era bem escasso por ali. Batia minha siririca imaginando meter com dois homens ao mesmo tempo. Não aqueles homens ali do bairro. Homens mesmo. Me pegando pelos cabelos, fodendo minha boca, metendo na minha buceta e no meu cu ao mesmo tempo. Eu queria ser feita de puta.

Pedi um trocado para minha mãe e fui para o centro da cidade. Precisava fazer alguma coisa antes que casasse com o alemão do fim da rua. A única experiência que eu tinha além de cantar era a biblioteca e fui direto para lá. Fiquei sabendo de um lugar onde aconteciam cursos de música e pensei que seria interessante conferir. Era um prédio imponente, todo verde e pessoas com diversos instrumentos musicais entravam e saíam dele. Talvez isso vá dar em alguma coisa.

Entrei e perguntei sobre os cursos. Me falaram sobre todos os instrumentos que eu podia aprender, com exceção do piano – estamos sem professor no momento. Mencionei que era uma pena pois era meu instrumento favorito. A conversa se desenrolou com a minha história e acabou em um convite para ser professora de piano. Eu, professora? Ri. Estava habituada com os músicos de São Paulo, com o povo do chorinho, músicos realmente muito bons. Eu sabia no máximo bater alguns acordes e dedilhar algumas melodias. Sentei ao piano e, rindo, mostrei o que podia fazer. Ficaram impressionados. Parecia que para aquele lugar eu era boa o suficiente.

E parecia que eu tinha um emprego.

Só não tinha nenhum aluno ainda. Comecei a passar meus dias na escola de música. Era muito melhor que estar em casa e o centro da cidade tinha um ar mais urbano, menos colônia. Me sentia melhor ali. Alguns dias depois chegou o Fabiano, meu primeiro aluno. Um menino de seus 13 anos de idade e logo na primeira aula eu senti que aquilo ia ser bom. Eu levava jeito.

Quando ele saiu me deu o dinheiro. Trinta e cinco reais. Eu peguei as notas na mão e olhei ao redor. Pela primeira vez na minha vida eu não estendi meu braço e dei o dinheiro para o meu pai. Era meu, todo meu, e eu ia decidir o que fazer com ele.

Tomei um sorvete. Três reais. Nesse passo meu dinheiro não ia muito longe.

Eu precisava me alimentar no centro da cidade e a escola de música oferecia uma cozinha. Fui até o mercado e olhei os preços das coisas. Me lembrei que não sabia cozinhar. Fui até a gôndola das massas e vi aquele pacotinho amarelo que eu tinha visto na televisão muitas vezes mas nunca tinha comido: miojo. Li as instruções. Parece que consigo desenrolar isso.

Custava menos de um real. Levei para a cozinha da escola, fervi uma panelinha de água e coloquei o macarrão. Contei os três minutos. Escorri e acrescentei o tempero. Sentei na mesa e encarei aquele prato fumegando. Enrolei no garfo e coloquei na boca. Fogos de artifício explodiram na minha cabeça. Que coisa gostosa! Comi tudo com vontade e fiz as contas: se eu tivesse mais um aluno eu poderia pagar as passagens de ônibus e o macarrão para vir todos os dias. Liberdade!

Comecei a puxar papo com todo mundo que passava ali e divulguei que as aulas de piano estavam de volta. Tinha essa menina muito diferente, bem baixinha, olhos grandes e atentos e o cabelo preto e encaracolado. Se chamava Simoní. Ficamos de papo por um bom tempo e ela me disse que um amigo tocava teclado em uma banda e talvez se interessasse em fazer algumas aulas. Passei o telefone da minha casa para ela.

Alguns dias depois ele me ligou. Falava alto e animado – italiano, com certeza – e me disse que tinha interesse nas aulas. Ficamos conversando por um bom tempo ao telefone. Me contou que tocava em uma banda cover de Marilyn Manson – nunca ouvi falar – e que precisava melhorar como músico. A conversa descambou para o lado pessoal e ficamos falando das nossas vidas um para o outro em uma energia muito boa. Minha mãe me olhou torto: tempo demais no telefone. Desliguei e esperei por ele.

Era uma quarta feira, final da tarde, quando ele chegou. Um Ford Ka branco estacionou na entrada e foi meio engraçado quando aquele homem enorme saiu daquele carro pequenino. Pegou um teclado no banco de trás e se aproximou. Só quando ele parou na minha frente eu me dei conta da altura dele. Devia ter mais de dois metros e, pasme, usava saia.

Os olhos estavam maquiados com lápis preto. O cabelo feminino, com um corte channel. A camisa preta colada no corpo super magro, marcando as costelas, com as mangas longas que se abriam no final. As unhas pintadas de preto. A enorme saia plissada de freira e coturnos do exército. Era uma versão trans da Mortícia Adams. Eu tinha visto alguns rockeiros em São Paulo. Meu pai nunca me deixava chegar perto deles – eles escutam Raul Seixas – me dizia. Eu não sabia quem era esse Raul e esse cara na minha frente era a coisa mais esquisita que eu já tinha visto na vida.

Ele abriu um sorriso enorme e uma voz de trovão me desejou boa noite. Olhei para o menino da secretaria com um ar de desespero, tentando me comunicar com os olhos avisando que eu não ia dar aula para aquele morcegão. Não teve jeito. Fomos para a sala de aula e comecei a explicar para ele sobre a clave de sol.

Em algum momento ele se vira para mim e diz: – você é muito bonita, professora. Enfureci. Ergui minha voz e deixei a polonesa sair. Sou sua professora, você é meu aluno e isso aqui é um ambiente de respeito! Saiba seu lugar! Ele baixou a cabeça e olhou para o piano por um tempo. Então se virou para mim e disse: 

– Ai, amiga, eu só estava te elogiando.

Me senti horrível. Eu devia ter desconfiado, certo? O cabelo, o lápis de olho, as unhas. Ele era gay. Mas espera aí, ele não disse que tinha uma namorada? Questionei e ele disse que era só de fachada para evitar brigas com a família. Bom, se a família dele não se importava com as roupas, com o que mais ia se importar?

Terminamos a aula e ele me deu o dinheiro. Estava feita! Agora podia sobreviver. Mais um aluno e podia começar a fazer planos. Eu ia para casa só para dormir. Os finais de semana eram um suplício onde eu tinha que escolher qual o lugar menos pior: a igreja ou o mercadinho. Meu pai estava completamente abatido e saía cada vez menos para trabalhar. Começou a querer ajudar minha mãe e só atrapalhava. Tinha ciúmes dos vendedores, dos clientes que falavam com ela. O ambiente estava cada dia mais insuportável.

Enquanto não tinha alunos eu andava de imobiliária em imobiliária procurando um lugar para morar no centro da cidade. Ninguém me dava conversa. Ninguém ia alugar um cantinho para uma menina sozinha e sem os papeis que pediam. Comprovante de renda, fiador, nunca tinha ouvido falar dessas coisas.

O morcegão me convidou para uma bebida depois da aula. Disse que me levava em casa depois. Aceitei – ia economizar uma passagem e ele não era má companhia. Sentamos em um restaurante e ele pediu um vinho. Me lembrei do empresário mas esqueci rapidinho: ele pediu um vinho doce e barato. Pensei em beber aquilo o mais rápido possível e aproveitar a carona, mas ele me surpreendeu com a conversa.

Conversa sempre foi um inferno para mim. As pessoas sempre falavam das mesmas coisas: seus empregos, o carro e a casa que queriam comprar ou tinham comprado, casar e ter filhos, mal dos outros ou alguma fofoca idiota sobre alguém da TV. O primeiro BBB estava no ar e todo mundo falava disso o tempo todo. Ele começou me contando sobre esse artista, o Marilyn Manson, e como sua vida tinha sido salva pela arte dele.

Me contou sobre a banda, a Estação das Brumas. A roupa esquisita era o figurino de palco – que ele usava no dia a dia por alguma razão. Me contou sobre os shows intensos, sobre um monte de gente que se vestia assim e gostava de música pesada, os góticos, e sobre uma coisa que me levantou a orelha: surubas.

Aparentemente essa turma não tinha muito pudor. Eles tinham namorados e namoradas e mesmo assim se juntavam de vez em quando e transavam todos juntos. Isso parecia muito interessante! Perguntei se ele não tinha ciúmes da namorada transando com outros caras e ele disse que não era um sentimento que fazia parte dele e que tinha assistido ela fodendo com outros e outras algumas vezes. Eu me tornava uma poça na cadeira. Era isso que eu queria com meus namorados em São Paulo! Eu só não imaginava a possibilidade.

Me contou também que não conseguia namorar com ninguém de verdade. Que não tinha certeza se era capaz de amar como as pessoas diziam que era certo. Todos os relacionamentos dele não duravam mais que três meses, pois ele sempre se apaixonava por outra pessoa e, sem poder ficar com as duas, tinha que seguir em frente.

Aquilo era mais que música para meus ouvidos. Ele me deixou em casa e comentou que já tinha comido minha vizinha em uma dessas festas. Mesmo? Uma dessas alemãs estava em uma suruba? Parecia que eu tinha um mundo para descobrir. Ele saiu dali para ir para a casa da namorada e eu senti uma pontinha de inveja dela. Bati minha siririca imaginando os dois transando.

Ele comentou comigo que ela era uma prostituta (com ele era de graça) e que tinha seios enormes de silicone. Ela tinha ensinado para ele tudo o que ele sabia na cama e, aparentemente, ele sabia muita coisa que eu não fazia ideia. Fiquei curiosa.

***

Começamos a nos ver com frequência, não só nas aulas. Ele era um universo de coisas que eu nunca tinha ouvido falar. Seu nome era Ricardo mas todos chamavam ele de Bardo, um apelido que ganhou jogando RPG, um jogo de interpretação de personagens que também era novidade para mim. Os bardos são artistas viajantes, caixeiros e diplomatas. Ele ganhou o apelido por ser músico e também ser conhecido por evitar brigas. Realmente era um homem calmo, tranquilo, sempre procurando fazer amizades por onde chegava comigo.

Me fazia muitas perguntas. Contei para ele toda minha história e ele sempre me respondia me apoiando. No final, me perguntou: o que te impede de ir embora daqui? Bem, como eu explico para ele que uma mulher de 19 anos de idade já está cansada da vida? Falei para ele que tinha que terminar a crisma, que meus pais queriam me casar. Ele torceu o nariz. Se tem duas coisas que eu não precisava era de deus e um casamento.

Conquistei mais alguns alunos mas uma notícia terrível chegou: a escola de música ia fechar. Algo sobre a prefeitura não ter mais como manter o prédio. Nenhuma novidade para mim, em São Paulo era assim o tempo todo. A cultura é sempre a primeira vítima dos cortes de orçamento. Sentei em uma cadeira e chorei. Uma das alunas, Dona Maria Otília, me viu naquele estado lamentável e me disse que tinha uma pequena sala comercial ali perto que estava fechada e que ela podia alugar se eu precisasse, sem comprovante de renda ou fiador.

O valor do aluguel era maior do que o que eu ganhava e eu aceitei mesmo assim. Fui até a sala, um pequeno espaço em uma galeria antiga. O elevador parecia que ia direto para o inferno se você apertasse o botão errado. Trouxe meu teclado de casa, consegui duas cadeiras e avisei meus quatro alunos da mudança de endereço. Eu tinha trinta dias para conseguir mais alunos e o dinheiro do aluguel, das passagens e do biscoito água e sal – sem a cozinha o macarrão não era mais uma opção.

Tomando mais um vinho comentei isso com o Bardo. Ele ficou empolgado. Disse que podia criar panfletos no computador e imprimir na empresa em que trabalhava sem custo algum. Ele tinha o hábito de colar cartazes dos shows pela cidade e disse que podíamos colar cartazes fazendo propaganda das aulas também. Aceitei a ajuda de bom grado e colocamos o plano em prática. Também subi o valor da mensalidade para cinquenta reais e meus alunos acharam justo.

No dia seguinte estávamos na casa do Bardo fazendo grude de polvilho em uma panela. A casa dele – do outro lado da cidade – era muito maior que a minha. Dois carros na garagem, piscina e os pais dele eram muito cultos e educados. A mãe dele, professora, falava com um português tão correto que quase me fez chorar. Me trataram muito bem e fiquei impressionada.

Com o grude em um balde, um pincel e cartazes que pareciam uma propaganda de um filme de Bela Lugosi saímos pela cidade colando pelos postes. Ele me avisou que era proibido e que se a polícia nos pegasse tínhamos que largar tudo e correr. Emocionante! Colamos por todo o centro da cidade e, bem na esquina principal, a polícia se aproximou.

Eu estava concentrada no cartaz e não percebi. Senti ele pegar minha mão, arrancar o pincel, jogar no balde e me puxar pela calçada, caminhando rápido. Os policiais pararam no poste e viram o balde no chão. Começaram a olhar ao redor, procurando os meliantes. Vendo isso, Bardo me olhou e disse: vai na minha. Me encostou contra a parede, me pegou pela cintura e me beijou.

Derreti na boca dele. Que beijo gostoso, que pegada. Esse cara não pode ser gay, não é possível. Ele ficou me beijando enquanto os policiais passavam devagar com a viatura. O disfarce deu certo mas perdemos o balde. Ele seguiu caminhando como se nada tivesse acontecido. Fomos para o carro e me levou para casa. No dia seguinte eu tinha dois novos alunos.

Bardo começou a aparecer na salinha no meio da tarde, quando deveria estar no trabalho dele. Ele era TI em uma fábrica de máquinas e começou a inventar desculpas para sair no meio do expediente e me visitar. Sempre imprimia mais panfletos e trazia, até me ajudava a distribuí-los. Em algumas semanas eu tinha alunos o suficiente para pagar o aluguel, comer e o melhor de tudo: comprar um sofá cama para a sala. Agora eu podia dormir ali se quisesse.

***

O dia dos namorados chegou e Bardo me ligou (eu tinha conseguido comprar um telefone). Disse que não queria mais estar com a namorada e perguntou se eu aceitava jantar com ele. Eu não tinha um namorado então, por que não? Aceitei. Durante a tarde o tempo fechou feio e caiu uma tempestade. Ele me buscou na galeria com uma caminhonete da empresa. Quando entrei um buquê enorme de rosas me esperava.

E eu não esperava o buquê. Realmente o que eu estava vivendo com aquele cara era muito diferente de tudo o que eu tinha passado e eu estava me divertindo muito. Era gostoso, sem compromisso e ele me ouvia e me ajudava o tempo todo. E era tão gostoso ouvir ele contar as histórias dele. Cada vez que ele saía para um show ou um festival eu esperava por um novo pornô. Ele sempre pegava alguém ou acabava em um ménage ou suruba e adorava me dar os detalhes.

Jantamos e ele me convidou para ir para a casa dele. Aceitei. Quando chegamos lá ele me deu um presente: o CD da Alanis Morissette Acústico MTV. Nunca tinha ouvido falar. Tenho esse CD guardado comigo até hoje. Ele também tinha comprado um presente para ele mesmo. Me disse que foi comprar o meu e não resistiu quando viu que tinha saído o disco novo do Marilyn Manson. Ouvimos uma ou duas músicas da Alanis. Gostei muito! Depois fomos ouvir o Manson. Era pesado demais para mim, agressivo, nunca tinha ouvido nada daquele jeito antes.

Ouvindo música no quarto dele, a tempestade batendo na janela com força, os relâmpagos lá fora. Em um clima gostoso, ele se aproximou e me beijou. Tão gostoso quanto da primeira vez. Pegada de homem mesmo, tesão. Colei meu corpo no dele e senti o volume nas calças. Um homem daquele tamanho deveria ter alguma coisa enorme me esperando. Deitamos na cama e ele começou a me despir.

Confesso que fiquei com um pouco de vergonha. Ele me falava o tempo todo dos enormes seios de silicone da namorada e os meus eram tão pequeninos. Pedi para ele desligar a luz. Ele esticou o braço, pegou um saquinho com dados de RPG no chão e arremessou do outro lado do quarto acertando o interruptor em cheio. A luz se apagou e o quarto iluminou rapidamente com um relâmpago que explodiu lá fora. Minha buceta virou uma cachoeira de tesão.

Arrancamos a roupa um do outro. Estávamos nos beijando intensamente, quase mordendo um ao outro quando ele se lembrou que esqueceu de pegar preservativos e não tinha nenhum. Que assassinato de clima! Ele se levantou e foi pedir um para o pai dele. Achei aquilo muito bizarro! Se eu pedisse um preservativo para o meu pai era morte certa. Fiquei sentada na cama, a buceta encharcada, ouvindo aquela música esquisita e pensando como foi que eu tinha ido parar ali.

O quarto dele estava cheio de instrumentos musicais, livros e videogames. Era tudo muito diferente da minha realidade. Os CDs tinham nomes que nunca ouvi falar: Aerosmith, Ramones, Cannibal Corpse, Nirvana. Muitos livros com títulos em outros idiomas. Na parede um enorme cartaz com um homem monstruoso em uma versão podre e decadente de Jesus Cristo. As letras góticas diziam: Marilyn Manson.

Ele entrou no quarto animado me mostrando um preservativo. Apagou a luz e voltamos aos beijos e amassos. Eu não deixava ele tocar meus seios, mesmo que a pegada dele, com uma mão enorme, fosse quente e deliciosa. Ele me deitou na cama e foi descendo e beijando meu corpo. Me arrepiei quando ele beijou minha virilha e entrei em transe quando ele colocou a boca na minha buceta.

Nenhum namorado tinha me chupado ainda.

Foi uma das coisas mais gostosas que experimentei até aquele ponto. Era extremamente quente e molhado. Ele tinha a boca macia e a língua fazia evoluções e explorava cada milímetro da minha buceta. Eu torcia minhas pernas e ele segurava minhas coxas com força. Gemi alto. Fiquei com medo que alguém na casa ouvisse mas ele não pareceu se importar.

Depois de um tempo que pareceu infinito eu senti ele encaixar a boca na minha buceta toda e a ponta da língua entrou bem no ponto da coceira – que agora eu sabia que se chamava clitóris. Explodi na boca dele. Ele lambia e chupava meu ponto G e arrancava jatos de suco. Gozei tantas vezes que perdi a conta.

Ele subiu meu corpo de volta me lambendo e chupando. Entreguei meus seios e ele chupou os bicos com vontade, elogiando como eram bonitos e gostosos. Subiu pelo meu pescoço e beijou minha boca. Fui tomada por um sabor delicioso: O gosto do meu próprio suco. Eu não fazia ideia que buceta podia ter um gosto tão bom!

Ele puxou o preservativo e veio para cima de mim. Eu não deixei. Coloquei ele deitado na cama e, no melhor estilo Daenerys Targaryen, fiquei por cima. Estava escuro e eu ainda não tinha visto ou tocado no pau dele. Estava muito curiosa. Será que ia entrar em mim? Já faziam meses que eu não via um caralho e devia estar muito apertada. Peguei na mão e me surpreendi: era menor do que os dos meus antigos namorados (e definitivamente muito maior do que o do empresário).

Me encaixei em cima dele e sentei. O pau deslizou gostoso para dentro e tocou meu útero. Sabe quando você diz que uma pessoa é seu número? Foi o que senti na hora. Era o tamanho perfeito. Não me deu aquele desconforto, aquela arrombada que os outros me davam. Foi só prazer, foi delicioso e não vou mentir: podia ter durado mais. Ele gozou muito rápido. Na hora não me importei, foi até gostoso ver que ele amou tanto a minha buceta porque ele ia ter que visitar ela com frequência.

Um tempo depois ele me contou uma coisa e eu vim a ouvir isso de muitas outras pessoas: que minha buceta é muito mais gostosa do que tudo o que ele já tinha experimentado (e vindo do Bardo, acredite, ele experimentou muita, muita coisa mesmo). Disse que é carnuda, quente, sempre encharcada e tem um sabor único. Bom saber…

***

Fiquei com receio de que depois de me comer ele ia vir com alguma chatice mas não. Sem conversa ruim, sem nomes para o relacionamento. Nós fodíamos e era isso. E como fodíamos. Passou a ser todos os dias, duas ou três vezes por dia. Ele estava quase perdendo o emprego e eu perdia uma ou outra aula. Quantas vezes os alunos chegavam e batiam na porta e eu não podia atender porque estava no sofá-cama com a bunda empinada!

No final de semana eu ia para o quarto do Bardo e saíamos de lá só para comer. Os pais dele estavam enfurecidos e começaram a não me tratar tão bem assim. O quarto cheirava a sexo o tempo todo. O domingo à noite era desesperador, quando eu tinha que ir embora. Muitas vezes eu ia chupando ele no carro até minha casa.

***

Em uma daquelas conversas com as amigas da minha mãe eu reclamei da camisinha. Disse que não gostava, que me deixava ardida e que perdia a graça. É muito mais gostoso no pêlo e todo mundo sabe disso. Uma delas me disse que já que eu não queria tomar o contraceptivo (todas elas tomavam e eram gordas) eu podia contornar isso de vez em quando. Segundo ela era impossível engravidar durante a menstruação e que eu estava liberada para levar porra dentro à vontade durante o fluxo. (Nota: Essa informação está incorreta).

Comecei a contar os dias para a minha próxima lua. Eu tinha dado umas 10 vezes sem camisinha para os antigos namorados mas nunca deixei gozar dentro e ia ser o Bardo que ia me dar esse prazer pela primeira vez. Deve ter sido a única vez na vida que senti cólica e fiquei feliz – estava vindo!

Não comentei nada com ele. Não sabia como ele ia se sentir. Entramos no quarto e avisei: estou menstruada. Ele me fuzilou com o olhar, como quem pergunta o que eu tinha ido fazer lá. Perguntei se ele se importava de meter mesmo assim. Ele disse que nunca tinham proposto isso para ele e que não se importava em tentar. Honestamente eu também nunca tinha metido menstruada e ia ser novidade para mim. 

Começamos os amassos, chupei ele bem gostoso (já que dessa vez ele não ia me chupar, né, vampiro doidão?) e fui sentando em cima dele. Ele alcançou a gaveta das camisinhas e eu segurei a mão dele. Não precisa. Expliquei para ele que não tinha risco de engravidar menstruada. Ele me olhou com uma cara esquisita de quem não estava comprando muito a ideia. Insisti um pouco e ele topou.

Que delícia quando o pau dele escorregou quentinho para dentro de mim. E realmente transar menstruada é uma sensação um pouco diferente. Tudo muito mais molhado. Metemos gostoso e ele não aguentou muito tempo, não estava acostumado a meter no pêlo. Senti ele começar a pulsar, a gemer, e deixei meu peso todo sobre ele. Esperei e recebi: um jato, dois jatos, três jatos… quatro jatos? Ele não parava de gozar. Me senti toda quentinha e preenchida por dentro e a porra já saía pelos lados da buceta antes mesmo dele tirar de dentro. Quando ele tirou fiquei olhando aquela poça de porra e sangue enorme na barriga dele. Peguei uma camiseta e limpei.

Que sensação maravilhosa. Até hoje eu não experimentei sensação melhor na vida do que levar uma gozada farta dentro do útero. É o ápice do prazer físico. Gozando ao mesmo tempo então, é surreal. Eu quero mais disso.

Metemos sem camisinha por dias a fio. Nos dias seguintes eu sentia o cheiro da porra subindo da minha buceta para o meu nariz e cada vez que sentia me molhava toda de novo. Eu estava puro instinto. E uma coisa tinha me deixado curiosa: meus outros namorados gozavam muito menos leite. Eu precisava conferir isso.

Naquela tarde ele resolveu dar uma passada rápida pela salinha. Puxei ele para o sofá, abri as calças dele e tirei aquele pau gostoso para fora. Não era só gostoso, aliás, era bonito. Hoje posso falar, já vi pau o suficiente na vida, que tem pau feio e pau bonito e o pau do Bardo é lindo. Outras pessoas vieram comentar isso também. E com esse belo pau no meu rosto era hora do teste. Eu ainda não tinha chupado ele até tomar tudo e queria saber.

Mamei gostoso. Ele agarrado nos meus cabelos e eu dando meu melhor. Lambendo a cabecinha, descendo com a língua até as bolas e subindo de volta. Colocando fundo na boca e chupando rápido e forte. Segurava as bolas dele esperando que elas pulsassem. Logo elas pareciam um coração na minha mão, ele gemeu gostoso e explodiu. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Não consegui segurar a porra na boca, ela vazava pelos cantos e tive que engolir um pouco. Eu estava em êxtase. Era muito leite, muito mais do que qualquer namorado que eu tive antes. Que delícia.

A surpresa não terminou aí. Ele me levantou, me puxou para perto dele e beijou minha boca. Isso foi realmente incrível. Jamais nenhum namorado meu faria isso e honestamente encontrei poucos homens depois que fariam o mesmo. Ele beijou minha boca cheia de porra. Derreti e gozei com o beijo. Minha buceta virou uma poça e tive que dar uma metida gostosa de pé contra a parede. Ele meteu sem camisinha e gozou nas minhas coxas. Muita porra de novo, escorrendo pelas minhas pernas. Caralho de homem gostoso!

***

Ele não parava de me surpreender. Por um lado, ele tinha um mundo para me mostrar. Eu nunca tinha mexido em um computador antes, então ele me deu um. Me ensinou a usar o editor de texto e de imagens e a criar meus próprios panfletos. Logo eu tinha uma impressora e podia dar aos meus alunos uma experiência melhor com partituras e cifras personalizadas. Tinha até meu próprio papel timbrado!

Me apresentava filmes, livros e músicas. Conheci Quentin Tarantino, Tim Burton, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e também um monte de cultura pop. Eu realmente cresci em um universo paralelo com meu pai me proibindo de ver e ouvir coisas. Conheci Júlio Verne e Edgar Allan Poe. Ouvi Ozzy Osbourne e me apaixonei completamente (pela fase pós Sabbath). Joguei Playstation. Realmente o mundo tinha muito mais coisas do que a bíblia podia oferecer.

Assistimos juntos a um filme chamado Assassinos por Natureza. Era sobre um casal que viajava em um conversível matando pessoas. Gostamos tanto desse filme que assistimos ele de novo e de novo. Mickey e Mallory Knox. Nos víamos neles. Não na parte de matar pessoas, mas na parte de se libertar daquela chatice toda e sair viajando por aí, quem sabe morando em um motorhome. Brincamos que nossa casa ia se chamar Borboleta de Metal, como um ser errático que anda por aí lambendo as flores sem destino.

E ele me surpreendia na cama também. As bolas dele eram enormes. Quando ele me socava com as pernas abertas o saco ficava batendo no meu cu e era uma sensação nova e deliciosa. A ex-namorada dele ensinou tanta coisa que ele parecia uma enciclopédia de posições sexuais. E foi em um desses malabarismos que, em um meia-nove ele enfiou a língua no meu cuzinho. Tremi por inteiro, me arrepiei toda. Ele lambia e chupava e minhas pernas derretiam. Comentei que amei aquilo e ele disse que eu podia fazer o mesmo nele. 

Nessas horas eu ficava bem confusa. Ainda não tinha certeza se ele era gay. Ele me contava sempre sobre as mulheres que tinha comido aqui e ali e nunca contava sobre os homens. E confesso que foi a coisa mais esquisita que alguém me pediu para fazer, mas fiz. Chupando o pau dele fui fazendo aquela minha escalada gostosa, descendo para as bolas e dali entrei em um novo território. Ergui o saco, lambi por baixo e senti ele arrepiar. Segui em frente com a língua bem molhada e cheguei no cu dele. Que gemida! Com certeza ele sente prazer por aqui! Lambi e chupei com gosto vendo ele trançar as pernas e gemer.

– Enfia o dedo! – ele disse. Aí eu travei. Como assim? Você quer que eu coma o seu cu? Era isso mesmo. E era bizarro. Olhei aquele cuzinho peludo, molhado e piscando e babei meu dedo indicador. Aqui vamos nós. Entrou fácil até o talo e ele agarrava os cabelos gemendo. Gay, totalmente gay. Ele curtiu por um tempo e de repente tirou meu dedo, me colocou de quatro e me fodeu com uma vontade que ainda não tinha visto. Parece que descobri algum botão mágico.

***

Minha menstruação não veio. Bardo tinha comentado que aquela ideia de gozar dentro não parecia boa, mas não tinha Google na época e ninguém mais para conferir. Não falei nada para ele, não era problema dele. Corri para o laboratório e pedi para fazer um exame de gravidez. Levava dois dias para ficar pronto e eu devo ter tido os dois dias mais longos da minha vida.

Na minha cabeça ficava imaginando a merda que ia ser. Sem lugar para morar, mal ganhando para sobreviver e com um filho sem pai. Minha família, se não me matasse, ia tentar me casar o mais rápido possível com algum alemão para meter um golpe. Também fiquei tentando pensar em coisas boas. O que seria bom em ser mãe? Eu com certeza faria tudo diferente da minha: minha filha saberia o lado certo do absorvente.

O exame chegou e eu estava tão nervosa que não consegui abrir. Minha mão tremia. Liguei para o Bardo desesperada. Ele veio correndo. Sentamos juntos no sofá-cama e abrimos o papel. Negativo. Senti alívio por nós dois e, ao mesmo tempo, um pouco de frustração. A ideia que a igreja, minha mãe e as amigas dela colocavam todos os dias na minha cabeça parecia estar ganhando espaço.

Bardo disse que não ia mais gozar dentro e isso também foi extremamente frustrante.

***

Minha mãe insistia que eu precisava me crismar. Eu já nem ia na missa aos domingos, mas para não dar ainda mais desgosto aceitei. Bardo foi comigo na cerimônia e ficou do lado de fora, ouvindo música satânica no carro em sinal de deboche. O padre falava para os jovens (eu estava atrasada ali) dando lições de vida que eu tinha vontade de explodir rindo. Pobres almas perdidas.

Voltamos falando mal da igreja no carro com minha madrinha no banco de trás horrorizada. Bardo almoçou na minha casa. Comparado com a família dele, a minha era muito grosseira, inculta e ignorante. Tive que pedir que usasse um figurino mais discreto, o que não impediu os meus pais de agirem como idiotas. Meu pai e meu tio ficaram tentando aterrorizar ele e minha mãe agia como um bicho, pegando as comidas com a mão e colocando no prato dele. Para piorar eu, nervosa, ainda dei um garfo para ele tomar sopa. Bardo, na sua tranquilidade costumeira, já esperava tudo isso e tirou de letra. Ele sempre dizia que família é algo que se escolhe durante a vida, não essa turma com quem nascemos.

Minha casa era um lugar que eu quase não frequentava mais. Meus pais pareciam não se importar muito tendo meus irmãos para cuidar, meu pai parando de fazer shows e minha mãe desesperada porque ele ficava em casa o dia todo infernizando a existência dela. Dormia algumas noites no sofá-cama. Bardo instalou um chuveiro no banheiro social e eu já tomava banho por lá. Depois consegui comprar um fogareiro e fiz uma mini cozinha onde pude voltar a comer macarrão instantâneo e o “arroz ai”.

“Arroz ai” foi o nome que demos para essa delícia gastronômica que criamos, Bardo e eu. Nenhum dos dois sabia cozinhar e comer só miojo estava ficando enjoativo. Na época deviam ter uns dois ou três sabores e o meu favorito até hoje é galinha caipira. Nós estávamos descobrindo os animes japoneses e estávamos assistindo um chamado Video Girl Ai. Ai, em japonês, significa amor.

A receita era simples e efetiva para encher a barriga: arroz com sazon (minha outra descoberta magnífica, parecia o tempero do miojo), uma lata de milho e uma lata de ervilha em conserva. Pronto. Fazia em uma panela grande e comia até dizer chega assistindo anime no computador. Mais tarde descobrimos que o coração de frango era barato (algo em torno de R$ 4 o kilo) e fizemos um upgrade no prato.

Bardo começou a passar muito tempo comigo mesmo. Mal ia trabalhar. Conversávamos o dia todo enquanto eu não estava em aula. Falávamos sobre como tudo aquilo ao nosso redor parecia tão pequeno e idiota e como não queríamos viver as vidas dos nossos pais. Os amigos dele estavam se afastando, todos tomados por empregos, família, filhos e compromissos chatos que nenhum deles queria cumprir. Os dias de diversão estavam se acabando para todos nós.


Ele ainda tinha a banda e esses amigos da putaria. Se eu tivesse alguns amigos como esses eu nunca ia precisar casar. Teria sexo à vontade e não via a hora dele me levar para a suruba. Mas a colônia tinha plantado uma ideia na minha cabeça que parecia não querer sair: agora eu queria ser mãe.

Conversei com o Bardo sobre isso. Ele não queria ter filhos. Convidei ele então para me engravidar e me deixar criar os filhos sozinha. Eu não sei onde estava com a cabeça, era uma ideia extremamente idiota e ainda é, mas eu queria. Ele disse que podia fazer e que não ia me deixar desamparada, que ia ajudar financeiramente numa boa. Então começamos ali mesmo.

Hoje, quando eu olho para trás, fico pensando que uma grande parte dessa ideia de ser mãe era só eu querendo levar porra dentro da buceta mesmo. É tão gostoso, ainda amo do mesmo jeito. Me lembro nitidamente dele me colocando de pé escorada contra o sofá, eu empinando a bunda, ele batendo com o pau duro na minha nádega como sempre faz antes de meter. Entrou quente e macio e só a ideia de que ele ia gozar dentro já me fez gozar na hora. Escorri squirt pelas coxas. Ele comeu gostoso e o tempo entrou em slow-motion quando ele começou a gemer. Explode, vai… uma, duas, três, quatro, cinco… senti o leite branco preencher o meu útero com calor e depois escorrer pelas pernas, manchando o carpete.

Se alguém pudesse fazer um filho definitivamente era esse cara.

Metemos todos os dias duas ou três vezes. Meu corpo tinha um cheiro permanente de porra. Minha buceta estava sempre colada na calcinha. Eu me sentia bem, cheia de energia, dava aulas com gosto e sentia que estava fazendo a coisa certa, algo muito bom.

***

Alguns dias depois, na sexta-feira 13 de fevereiro de 2003, Bardo apareceu na sala. Com um ar diferente e sem as roupas espalhafatosas, me chamou. Caminhamos até a igreja central que estava vazia. Ele me levou até o altar e tirou um par de alianças de prata. 

– Em meu nome, que sou deus da minha vida, eu nos caso.

Quando colocamos as alianças ouvimos muitos aplausos. Um grupo de turistas idosas tinha entrado sem percebermos e presenciado a cena. Nos abraçaram e parabenizaram – algo que nossa família não teria feito. Meu pai queria o Bardo morto e a mãe dele me queria pelo menos longe.

Naquela noite ele fez o último show com a banda e se despediu dos amigos. Algo nele havia mudado severamente. E eu perdi a oportunidade de conhecer a turma da suruba. Logo depois fiquei sabendo que aquela turma tinha se desfeito também, todos absorvidos pela vida adulta.

Por que ele tinha feito aquilo? Acontece que o Bardo é mesmo uma raridade. Antes de mais nada ele é um safado. Um cafajeste. Ama sexo acima de tudo e passa o rodo mesmo. Odeia trabalhar. Faz de tudo para não precisar correr atrás da máquina. Por outro lado é uma pessoa de imensa responsabilidade afetiva, que se importa com as pessoas ao seu redor e vai contra tudo o que acredita para garantir o bem estar das pessoas que ama. E ele queria garantir que eu me sentisse segura no meu projeto mãe.

Ele conseguiu ser demitido e ganhar uma grana além do seguro desemprego e usou esse dinheiro para investir nas minhas aulas. Foi aí que descobri outra coisa incrível nele: quando ele quer aprender alguma coisa, não tem nada que o impeça. Em alguns meses ele absorveu toda a teoria musical, treinou no piano e estava dando aulas também. Panfletava o dia todo e colocou anúncios no jornal. Logo nenhum dos dois tinha agenda livre e nossas fodas começaram a ficar para a noite.

Sem perceber a sutileza da vida, seguíamos exatamente o caminho do nosso desprezo. O dia a dia, a pressão da nossa família, a distância dos amigos, as contas para pagar, a pressão sobre ter um carro, uma casa e uma família foram tomando conta dos nossos dias e nossas horas e nos transformando nos adultos chatos que não queríamos ser.

Bardo fazia muita força para se manter acordado. Todos os dias ele me lembrava que não era isso que queríamos, que em algum momento teríamos que fazer um desvio. Ele não abria mão de suas longas horas de videogame e em uma sexta a noite depois que o último aluno se foi eu sentei com ele para conhecer um jogo chamado The Sims.

Nesse jogo você controla um ou mais personagens em uma vida comum: ter um emprego, ganhar dinheiro, construir e mobiliar uma casa e trabalhar até ficar velho e morrer. Não sei porque alguém pensa que isso pode ser divertido, mas esse jogo ficou muito famoso. Jogamos parando só para comer e transar até o domingo à noite, quando nossos personagens finalmente morreram de velhos.

Saímos para jantar com a irmã do Bardo e o namorado dela e ficamos conversando sobre isso. A vida ia ser só isso? Comprar uma casa e mobiliar, ter filhos e um cachorro e trabalhar até morrer? Parecia tão chato e desinteressante. Estávamos em uma séria crise juvenil olhando para um caminho aterrorizante pela frente.

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