A Kombi, como eu, estava nua. Era só a capa. Consegui dois colchões de solteiro velhos e joguei dentro, com dois lençois e um travesseiro. Da Doblô trouxemos os colchões infláveis – para desespero do Bardo – o fogão de camping e as barracas. Aquela era nossa casa dali em diante e ia ter que servir. Batemos o arranque, partimos. Engatei a primeira e pisei, engatei a segunda, pisei, engatei a terceira e pisei. E ela ficou presa na terceira. Não trocava de marcha mais, no melhor estilo Miss Sunshine. Paramos em um mecânico que entrou debaixo do carro, olhou, saiu e voltou com um martelo. Que carro que se conserta com um martelo? Pá, pá, pum. Pronto, sigam viagem! Não nos cobrou nada.
Seguimos para Curitiba, alcançando o terceiro estado da nossa turnê. No caminho eu já ia fazendo os contatos com pouca esperança: não espere que um curitibano vá te dar bom dia, muito menos te receber em casa ou ter amigos para chamar para uma festa. No meio da serra a roda dianteira esquerda começa a fazer um assovio e o freio fica duro. Paramos em um mecânico, esperando que voltasse com um martelo, mas não. Voltou com um rolamento e trocou. Trezentos reais. No meio da estrada, em um frio do cacete e sem opções, pagamos. Era muito dinheiro, quase tudo o que tinha no bolso.
Chegamos na gelada Curitiba. Na internet, muitos fãs, na vida real, não têm ninguém para nos receber. Fomos para o centro fazer algum dinheiro e encontramos a Boca Maldita, uma praça onde acontecem os protestos – parece que os curitibanos têm muito à protestar – e montamos nosso equipamento. Deu bom! Os curitibanos podem ser fechados e frios, mas são um bom público e foram generosos. Com algum dinheiro no bolso pegamos comida e fomos à procura de um camping. Só encontramos um e era na cidade vizinha.
Seguimos até lá, mas o endereço não existia. Era uma zona rural e apostamos em conseguir algum terreno para ficar aquela noite. Fomos entrando cada vez mais para o interior e paramos em uma bodega. Um lugar escuro, sujo, feio, com um atendente esquisito. Cara de início de filme de terror. Como um bom curitibano, nos atendeu perguntando o que queríamos ali. Não em um tom de o que desejam, mas em um tom agressivo, como se fosse uma ofensa entrar no bar dele.
Explicamos nossa situação e ele disse que deveríamos ir embora o mais rápido possível. Explicou que ali era uma pequena comunidade cristã e que se nos pegassem vagando por ali iam nos matar.
– Matar? – perguntei. Ele só me olhou de volta, grave.
Bardo me pegou pelo braço e entramos no carro.
– É só um cara maluco, um idiota, tentando nos assustar – ele disse.
– Ele conseguiu – respondi.
Seguimos adiante pela estrada e paramos em uma porteira. Era uma fazenda moderna, com um belo jardim. Tocamos um sino. Uma mulher veio correndo lá de dentro, com uma feição preocupada.
– O que querem aqui? – com aquele mesmo tom do maluco do bar.
Contei minha história, disse que procurava pelo camping e que já estava escuro para sair dali. Ela olhou ao redor, como que procurando por mais alguém, e disse que ia nos deixar acampar no pátio da igreja, mas que não podíamos sair de lá antes do sol nascer, que ela ia avisar a comunidade que estava tudo bem. Nos levou até a igreja, abriu o salão para usarmos a pia e reforçou que não devíamos fazer barulho, fogueira e nem sair dali em hipótese alguma.
Dormimos com um olho aberto. Obrigada, comunidade cristã, pela acolhida e, principalmente, por não nos matar.
Na manhã seguinte um casal da cidade vizinha nos disse que podia nos receber por um dia ou dois. Era bem fora de mão e não tinha onde tocar por perto, então voltamos para a Boca Maldita, apresentamos nosso espetáculo e seguimos para lá no final da tarde. Fomos muito bem recebidos, mas o casal deixou claro que não tinham nenhuma relação com putaria nenhuma, queriam apenas nos ajudar com a nossa música. Por mim, tudo bem.
No dia seguinte nos levaram para um bar de rock onde uma banda tocava para um público considerável de motociclistas. No final do show subimos no palco e tocamos algumas músicas. Desci com o chapéu na mão e fui arrecadar um dinheiro enquanto Bardo guardava o equipamento no carro. Quando terminei de passar o chapéu, o vocalista da banda veio e tomou ele da minha mão. Disse que aquele dinheiro era dele, que eles tinham tocado por mais tempo e mereciam mais. Jurei que era uma brincadeira e ri, mas o resto da banda estava me olhando sério. Não entendi se estavam apoiando ele. Bardo chegou no meio da situação. Expliquei para ele e ele riu, estendendo a mão para pegar o chapéu de volta.
Bardo tinha raspado a cabeça uns dias antes. Ele ficava realmente assustador com o figurino de couro, aquele óculos de espinhos e a cabeça raspada, parecendo um skinhead. O vocalista entregou a cartola e ficou resmungando baixinho. Ué, onde está o metaleiro valentão agora?
No dia seguinte voltamos para a Boca Maldita. O povo estava adorando nosso som e pagando bem. E estava frio, muito frio! Nosso plano era tocar mais uma vez e seguir para a próxima cidade quando uma moça, baiana, nos viu tocando e nos convidou para ficar no apartamento dela que ficava a uns poucos metros dali. Isso era perfeito! E ela é uma pessoa maravilhosa (que eu espero que leia esse livro!). Nos recebeu muito bem! O apartamento era pequenino, mas aquele coração e energia baianos perdido em Curitiba fazia tudo dar certo.
Colocamos a Elvira em um estacionamento pago do outro lado da rua e ficamos tocando por muito tempo na Boca Maldita, nas praças ao redor e na Feira do Largo da Ordem aos domingos. O público era bom, a grana era boa e Curitiba é uma cidade ordeira, limpa e organizada. Até hoje é minha capital favorita no Brasil. Com o tempo, fomos pegando o espírito do povo, que realmente é super fechado e tímido a ponto de parecer grosseiro – e às vezes é mesmo – mas que com o tempo vai se abrindo.
Era aniversário da nossa Baiana e queríamos fazer algo muito legal. Batendo papo descobrimos que ela tinha muita curiosidade de ir à uma casa de swing, mas tinha receio de ir sozinha. Com as más companhias certas, ela convidou um amigo – também baiano – e um outro casal e fomos juntos. A casa era meio esquisita. É normal que muitos casais iniciantes fiquem tímidos nas suas primeiras vezes, mas aquilo parecia um mausoléu. Casais agarrados uns aos outros, morrendo de medo de alguém chegar perto. Ao menos haviam algumas corajosas dançando no pole dance. Bebemos uma garrafa de tequila – entre lambidas de sal e beijos na boca com limão – e subi no pole dance com as esposas. Alta da tequila, me soltei e comecei a gritar e rir alto. As outras mulheres me olhavam estranho. Tentei agarrar e beijar elas, passar a mão, mas não deixavam. Na verdade elas estavam dançando bem desanimadas. Esquisito.
De repente, Bardo me puxa para fora da pista. O dono da casa tinha chamado ele e dito que eu estava humilhando as meninas da casa. As meninas da casa? Fui entender que eram prostitutas. Já tinha ouvido falar disso em algumas casas de swing, mas ainda não tinha visto. Aborrecida, deixei as meninas da casa em paz, peguei meus amigos e fomos para um quarto escuro. Como presente de aniversário, sentei na cara da nossa anfitriã e deixei ela se deleitar com a língua na minha buceta. Bardo ficou assistindo, já que ela não gostava de homens – pelo menos não na época – e segurando as dezenas de solteiros que pareciam baratas na porta, querendo participar.
Terminada a brincadeira fomos caminhar pela casa e ver se comíamos alguém, mas o cenário ainda era o mesmo. Nos perdemos dos nossos amigos pelos corredores e encontramos esse casal metendo em pé contra a parede. Empurrei o Bardo nos dois e vi uma cena muito divertida: Bardo chegou, devagarinho, e colocou a mão na bunda da mulher enquanto o marido fodia. O cara gozou na hora. Esse vai dar um ótimo corninho. Pena que isso acabou com a brincadeira e eles fugiram. Cansamos e resolvemos ir embora, mas não conseguimos encontrar o terceiro casal. De repente, um segurança chega nos agarrando e nos tirando da casa. O dono da casa disse que estávamos nos comportando mal e humilhando os clientes. Se seus clientes não transam nem na casa de swing, a culpa é minha?
Swing em Curitiba, nunca mais. Na verdade, a vida sexual em Curitiba estava complicada, muito mais do que em qualquer outro lugar. Bardo e eu resolvemos então tentar os aplicativos de namoro que estavam em alta no momento. Eu conheci um cara. Ele me levou ouvir jazz, beber vinho e jantar e depois fomos para o motel. Ele meteu muito, gozou três vezes. Eu, nenhuma. Voltei para casa compreendendo muito do vazio que as pessoas relatam sobre essa vida de app de namoro. Para o Bardo foi ainda pior. Saiu com três mulheres. Mesma coisa. Jantar, papo furado, motel e zero conexão. A cada trepada dava menos vontade de seguir em frente.
Já estávamos há muito tempo no apartamento da nossa baianinha e comecei a pedir por lugar para ficar no microfone. Uma pessoa que morava ali perto nos acolheu. Nos mudamos para a casa dele. Como viveu na cidade a vida toda, acabou nos mostrando outra Curitiba: conhecemos as feiras locais (tem feiras todos os dias) e várias praças bacanas. Deixamos a Boca Maldita e começamos a rodar tocando pela cidade toda.
Essa foi uma de muitas vezes até ali que passamos por uma certa situação: a pessoa nos recebe cantando vantagens, dizendo que tem dinheiro, que faz e acontece, mas estava sem comida na geladeira. Acabamos ficando por mais tempo porque dava dó de ir embora sabendo que uma pessoa nem tinha o que comer direito. Antes de ir, compramos comida e abastecemos a casa. Era nossa forma de gratidão. Ao mesmo tempo, era difícil ver a pessoa não fazendo nada por si mesma, passando o dia nas redes sociais fazendo discursos de “nós contra eles.”
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Francis, meu texano favorito, estava voltando de uma viagem na Colômbia e ia desembarcar no aeroporto de Curitiba. Oba! Nos encontramos e, depois de algum bom tempo, tive um sexo gostoso e pegado de novo. Teria sido perfeito se ele não tivesse trazido um extra da Colômbia (e não era o que você pensou): ele veio doente de H1N1, mas ainda não tinha os sintomas.
Foram os piores quinze dias da minha vida. Logo depois, Bardo e as kids também pegaram. Era abril, em Curitiba, frio e úmido até não poder mais e nós quatro tremendo de febre. Em alguns momentos pensei que ia morrer e cheguei a conversar com o Bardo sobre isso. Foi horrível, mas passou.
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Com a Elvira devidamente documentada (deu muito trabalho!), nos despedimos de Curitiba e olhamos para o horizonte: nenhuma outra cidade do Paraná podia nos receber, mesmo tendo milhares de fãs na internet. Acabamos rodando direto para São Paulo, capital, onde o pessoal do movimento Poliamor nos aguardava. A situação lá era a mesma: a turma que conhecemos em 2012 havia se dividido por questões de nós contra eles. Raça, classe, sexo e política. Eu não sou uma teorista da conspiração, mas estava claro que havia um plano para nos separar a todos, uma ideia de discórdia total que minava qualquer tipo de união possível. Ou era isso ou somos todos nós, você e eu, completos idiotas.
Sem muito o que fazer por lá no sentido de amar, fomos para os food parks da cidade. Estavam na moda esses pátios cheios de carros de comida pelo dobro do preço, lotados de gente, e nossa música era bem vinda. Fizemos uma boa grana. Durante o dia tocamos na Avenida Paulista, mas o povo não parava para ouvir, todo mundo na correria. Resolvemos então tocar em frente ao Teatro Municipal.
Chegamos perto do meio dia e montamos nosso equipamento. Uma loja nos emprestou a energia. Logo estávamos cercados por um público incomum: moradores de rua, prostitutas e alguns trabalhadores que tomaram a decisão corajosa de trocar os quinze minutos de almoço por música.
Começamos a ver uma movimentação diferente. Os moradores de rua pediam moedas aos trabalhadores e colocavam na nossa cartola. Segurei um choro. Cantei por muito mais tempo do que costumava cantar. Quando terminamos eles nos cercaram. Foram abraços, lágrimas e agradecimentos por trazermos para fora do teatro o que eles nunca iam poder pagar para entrar e ver. Foi um dos dias mais lindos da turnê!
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Em uma noite, fomos tocar em um enorme posto de gasolina no Ipiranga. Nos disseram que era um lugar frequentado por muitos motociclistas e que seríamos bem recebidos por lá. Chegamos com nosso som e o lugar estava mesmo lotado. Começamos a tocar e foi um sucesso!
De repente, começam a chegar dezenas de motos. Todo mundo abriu espaço para eles. Eram os Abutres. Algumas pessoas já tinham nos dito que eles eram perigosos e que devíamos tomar cuidado com eles na estrada. Ficamos preocupados, mas continuamos tocando.
Eles nos cercaram e curtiram o show. No final, dois homens se aproximaram. Pediram nosso contato e perguntaram sobre nossa música. Bardo começou a contar a história mas foi interrompido:
– Espera aí, o presidente precisa ouvir isso.
Logo chegou um outro homem. Bardo contou a história. Esse homem era o presidente nacional dos Abutres e ele disse que, onde quer que fosse no Brasil, se precisássemos de qualquer coisa na estrada poderíamos contar com eles. Disse que seríamos seus protegidos de quatro rodas.
Enfim, os abutres, um dos motoclubes mais legais que conhecemos na estrada e que virou família. Algumas pessoas podem ter histórias não tão boas sobre eles, mas nós temos!
Aliás, motoclubes no Brasil são incríveis, de forma geral. Eu não gosto de andar de moto, de forma alguma, mas a organização dos caras é muito legal. E eles fazem o bem por onde passam. Sempre tem eventos beneficentes e são, para os nômades, uma parte da família da estrada. Poderia citar aqui algumas dezenas de motoclubes que nos acolheram no caminho (acho que dava um livro só de histórias de motoclube!) Somos gratos por serem parte da nossa vida!
Que a chuva lave seus coletes!
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De São Paulo, onde o movimento Poliamor tinha morrido, só restava o Rio de Janeiro. Colocamos muita fé. Era a cidade do amor, da beleza, da nudez, do carnaval. Se alguma coisa ia acontecer, ia começar por lá mesmo. Ao mesmo tempo, a cada passo para longe do Rio Grande do Sul íamos vendo o nosso movimento virar poeira. Nosso Clube do Amor já não se encontrava mais. Eram desavenças infinitas do nós contra eles. Alguns amigos da estrada viajaram e se encontraram, o que ainda nos dava esperança. Nos sentíamos fracos para lutar contra aquilo tudo.
Descemos para a Praia Grande mas já era Maio e não encontramos público para tocar. Fomos seguindo pelo litoral paulista pegando chuva todos os dias. O dinheiro começou a minguar. Conseguimos tocar para um pequeno público em Caraguatatuba e recuperar para chegar em Paraty. Chegamos no meio de uma festa religiosa, lotada de público, e conseguimos tocar o final de semana todo. No domingo ao fim da tarde, um restaurante local nos pediu para tocar na rua ali perto deles e nos deu um dinheiro para chamar os turistas ao microfone. Não tinha feito isso ainda, mas parecia bom. Não foi. Os restaurantes ao redor não gostaram muito e chamaram a polícia.
Tivemos muitas interações com a polícia no caminho e elas sempre foram positivas. Sempre foram muito atenciosos ao ver que lidavam com uma família e sempre animados para conhecer a Elvira. Dessa vez foi diferente. Dois policiais truculentos chegaram, desligaram o som e sugeriram que pagássemos um cafezinho para continuar tocando ali. Não tínhamos como pagar nada, mesmo que quiséssemos, e fomos escoltados pela viatura para fora da cidade.
Seguimos. Paramos em Angra dos Reis e tocamos na praça central para um público muito animado! Nos receberam muito bem, nos deram um bom dinheiro e seguimos viagem. Chegamos ao Rio de Janeiro no final da tarde e avisamos o pessoal do movimento Poliamor que estávamos lá. Para nossa absolutamente nenhuma surpresa, ninguém respondeu. Eu ainda tinha outra carta na manga: o pessoal da Rede Globo que conhecemos nos outros programas que fizemos. Apenas uma resposta e, por essa, na boa, eu não esperava: uma produtora nos pediu quinhentos reais para acamparmos na sala da casa dela.
Fiquei injuriada. Era o fim da linha ali. Nossa missão de espalhar o amor não ia ter nenhum tipo de suporte. Me senti vivendo em um universo paralelo. Uma idiota querendo coisas boas para quem só queria brigar.
Por outro lado eu estava orgulhosa de ter ido até ali movida pela música. Mesmo que o dinheiro fosse apenas o suficiente para sobreviver, estava vivendo grandes aventuras, viajando, conhecendo lugares e pessoas e experimentando comidas e culturas diferentes.
Estávamos apontando a linha vermelha quando meu telefone tocou. Um fã, que não era da turma do amor livre, tinha conseguido um show naquela noite e uma garagem para dormirmos no Méier. Voltamos e seguimos para lá. Era um bar de rock, lotado de gente, e fizemos um espetáculo delicioso. Todo mundo se divertiu muito. De lá fomos dormir na garagem do prédio do fã. Na manhã seguinte a irmã do Bardo, que é comissária de vôo, disse que estava com um apartamento em Copacabana e que podia nos receber lá.
Estacionar foi um pesadelo. Quando os flanelinhas viram a placa de Curitiba chegaram como moscas. Dissemos que não podíamos pagar nada e eles nos ameaçaram de furar os pneus e arranhar o carro. Acabamos pagando uma fortuna para deixar a Elvira em um estacionamento fechado. Tentamos tocar na praia mas não nos deram espaço. Tocamos na calçada, mas ninguém parou para ouvir. A irmã do Bardo disse que ninguém iria arriscar puxar a carteira para colaborar ali. Uma lástima. Dormimos por lá e fomos embora na manhã seguinte. Na hora de sair do estacionamento, uma BMW nos fechou e arranhamos a Elvira contra um poste. Não adiantou muito pagar para estacionar.
Adeus, Rio de Janeiro! Mas não sem antes viver um cartão postal: fomos parar no meio de um tiroteio entre policiais e bandidos. Bardo pensou rápido e nos enfiou entre dois ônibus (me desculpem, cariocas, pelo escudo humano) enquanto as crianças se jogavam no chão gritando, desesperadas. Em um instante que o fogo cessou, Bardo arrancou e passou pelos policiais, em uma rua na contramão, e nos tirou da situação. Nessas horas ele tem um sangue frio impressionante!
Engarrafados na linha vermelha, choramos. Não conseguíamos ver como levar nossa missão adiante. Sugeri que fôssemos para Petrópolis, que eu já conhecia, e que lá decidíssemos o que fazer. Eu tinha ido no verão e não fazia ideia de como podia ser frio na serra do Rio! Estacionamos na Rua do Príncipe (o único lugar na cidade sem os flanelinhas uniformizados) e fomos tocar na Praça Dom Pedro II. Eu amo Petrópolis, com suas casas antigas, museus e o seu ar de história.
Foi um sucesso. Nos chamaram para tocar na Rua 16 e em um restaurante fino. Quando a noite chegou o frio apertou de verdade e um pessoal do motoclube apareceu para ver se estávamos bem e trazendo cobertores. Isso sim é uma recepção calorosa!
Ficamos ali por uns dias. Bardo dando aula e treino para as meninas e conversando comigo sobre nossa missão. Realmente não tinha por onde ir. Nos demos conta de que a internet e o mundo real eram completamente desconectados, que as conversas online raramente rendiam ações reais e que estávamos vivendo uma ilusão. Pensamos que, ao menos, o nós contra eles também podia ser uma coisa do online também, que nunca ia chegar na vida real das pessoas, não mais do que já existia.
A Bauernfest, um equivalente da Oktoberfest em Petrópolis, seria dali duas semanas. Resolvi levar a família para conhecer Arraial do Cabo nesse meio tempo. Queria passar o dia dos namorados com o Bardo lá. Passamos para visitar uns amigos da família do Bardo em Araruama e seguimos, mas o câmbio da Elvira deu problema e acabei passando o dia dos namorados acampada em uma oficina mecânica e jantando miojo.
Chegamos em Arraial do Cabo com chuva. Estava em uma maré de azar naqueles dias. Acabamos ficando estacionados na beira da praia e arrumando as cortinas da Elvira. Alguns dias depois o sol abriu e pegamos um evento religioso na cidade, o que rendeu bem para a música de rua. Conseguimos curtir as praias. Na segunda-feira um casal muito querido, donos de um barco, nos ofereceu um passeio em troca de publicidade no Facebook. Nossa página tinha trinta mil seguidores e crescia todos os dias. Eu me senti mal em aceitar, sabendo que aqueles seguidores eram pessoas reais e ao mesmo tempo falsas, mas fui mesmo assim. Valeu a pena. Pilotei o barco, entrei na caverna das baleias, Bardo nadou em alto mar no meio das arraias e tubarões (maluco!). Foi um dia delicioso!
Aquela coisa de trocar audiência online por produtos e serviços me deixou com a orelha em pé. Eu estava começando a usar o Instagram na época e estava adorando. Ele me deixava postar minhas fotos nua e o público dessa rede parecia mais interessado em fotografia e não no nós contra eles que era o Facebook.
Voltamos para Petrópolis e trabalhamos como doidos por quinze dias de Bauernfest. Fazíamos pelo menos três espetáculos por dia. Bardo, que tinha sido confirmado luterano na adolescência, conseguiu lugar para tomar banho em uma igreja luterana na esquina. As meninas começaram a reclamar muito do treino do Bardo, que era puxado demais. Ele estava impressionado com o filme Capitão Fantástico e deve ter pensado que ia transformar as filhas dele nos super personagens do filme. Tive que pedir para ele pegar leve, o que deixou ele bastante contrariado. Ele aceitou, mas deixou claro que íamos pagar um preço alto por aquilo no futuro.
***
Estávamos fazendo o jantar na Elvira quando um moço que fazia estátua de rua passou por nós (você ainda encontra ele por lá, um anjo branco, Felipe – o Cara da Hipnose!). Parou, fez umas mágicas divertidas e ficamos de papo. Convidamos ele para jantar conosco e ele aceitou. Estávamos em uma conversa muito boa sobre nossa arte de rua quando olhamos para a esquina e vimos Dom Pedro II, em pessoa, vindo na nossa direção.
Bardo não se conteve. Chamou ele para conversar. Ele falava com um palavreado rebuscado e contava histórias como se fosse o próprio! Nos mostrou a casa do outro lado da rua e disse que ali morava José Bonifácio, seu professor, e que ele não dava moleza nos estudos. Bardo fez uma piada com o nome, dizendo que ele era um professor “bom e fácil.” Dom Pedro não riu e mudou de assunto, deixando um climão. Ele jantou conosco também e, na hora de ir embora, saiu na mesma direção que tinha vindo, como se estivesse mesmo vindo nos visitar.
Antes dele sair, Bardo pediu o contato, ao que Dom Pedro respondeu:
– Nosso contato acabou de acontecer aqui, amigo. Se for para nos vermos de novo, nos veremos.
Ficamos todos em silêncio com aquela fala enquanto ele sumia na esquina. Bardo pegou o telefone do bolso e jogou dentro do porta luvas.
– Ele tem toda a razão.
E daquele dia em diante Bardo não usou mais a internet.
***
Dentro da Bauernfest conhecemos um casal muito bacana de uma cervejaria. Quando tudo terminou eles nos convidaram para ficar no sítio deles em Lumiar, um lugar lindo na serra do Rio de Janeiro. Os pais do Bardo vieram nos visitar e pediram para levar as meninas para o sul por uns dias. Elas queriam ir e ia ser bom ficar só os dois por um tempo, dava para trabalhar ainda mais!
Chegamos na bela Lumiar com uma chuva torrencial. O casal nos recebeu na casa deles e nos deu um quarto. Deitamos e apagamos por três dias. Eles também estavam exaustos da feira e passamos só comendo e dormindo. Recuperados, fomos mexer na Elvira. Aproveitamos que o Rafa tinha uma esmerilhadeira e cortamos a divisória interna do carro (mesmo sob protestos de seguidores que diziam que ia danificar a estrutura, o que nunca aconteceu, né, especialistas da internet?). Com isso ganhamos bastante espaço para as meninas dormirem melhor. Elas cresciam rápido e estávamos tentando entender como íamos viver daquele jeito dali para a frente.
Tocamos na praça e na cervejaria e nos divertimos muito. O casal emprestou um livro intitulado Sapiens que deixou o Bardo impressionado. E ele era assim. Sempre que se impressionava com alguma coisa nossa vida virava de cabeça para baixo. Foi assim com O Clube da Luta, TROM, com O Capitão Fantástico e com esse livro. Fazia sentido para ele com tudo o que tínhamos vivido e passado e ele resolveu mudar o comportamento em muitas situações dali para frente.
Trocamos algumas ideias com o casal sobre amor livre, mas não era a vibração deles. Comecei a me sentir sozinha no mundo de novo, como era nos primeiros dias. Talvez o máximo que íamos encontrar era swing e sacanagem mesmo, não uma revolução do amor. Nos despedimos deles, que estavam indo embora para a Nova Zelândia e seguimos o nosso caminho.
Depois de todo o sul, de São Paulo e Rio de Janeiro, finalmente íamos entrar em Minas Gerais. Era um estado do qual não sabíamos absolutamente nada. O nosso amigo Fufu tinha nos dito que era um lugar incrível e que íamos amar conhecer. Inclusive tínhamos um encontro marcado com ele em Alfenas no mês de Setembro e pretendíamos estar lá.
Cruzamos uma ponte, mas vimos uma favela ao longe e decidimos não parar ali. Por mais que nossa música fosse para todos, o trauma do Rio de Janeiro ainda estava fresco e não sabíamos como seria a recepção. Decidimos seguir para a próxima cidade.
Quando chegamos, havia mais uma favela. Era uma entrada secundária da cidade, então seguimos para a principal. Mais uma favela. Talvez as entradas da cidade fossem assim, periferia mesmo. Entramos e seguimos para o que o mapa nos indicava como o centro. A favela não terminava. Chegamos no centro, em uma praça linda, florida, com água, banheiro e wi-fi, mas ainda no meio da favela.
Descemos do carro. Já era tarde e nosso pernoite ia ter que ser ali mesmo. As pessoas passavam olhando. Fiquei com medo e quis ir embora, mas foi Bardo quem se deu conta do que estava acontecendo: aquilo não era uma favela, era a arquitetura local. Hoje me envergonho de contar isso tudo, mas acho interessante mostrar como nossos olhos podem ser embotados pelo preconceito.
No dia seguinte acordei e olhei para tudo aquilo de novo. Realmente aquela praça era bonita e bem cuidada demais para ser um lugar ruim. As casas eram simples e as pessoas se vestiam de forma simples. Resolvemos tocar e paramos em frente à uma loja de açaí. Tocamos a primeira música e o pessoal da loja nos ofereceu uma tomada. Tocamos uma segunda música e o povo parou para aplaudir e colaborar na cartola. Tocamos mais uma e ganhamos o almoço. E assim foi.
No final do show tínhamos uma entrevista na rádio local, açaí de graça à vontade, o almoço e alguns contatos para tocar. Ficamos impressionados com o povo daquela cidade e achamos muito fofo o jeito que eles falavam com a gente, um sotaque macio, comendo metade das palavras (às vezes incompreensíveis).
Ficamos tocando ali por alguns dias e foi muito bom! Desconhecidos paravam para conversar e ficavam ali por horas, como se não tivessem mais nada para fazer. No final da tarde, uma moça ruiva chegou por lá para bater papo. Ela disse que ia rolar um rock no final de semana e que podíamos tocar lá. Topamos. Lá pelas dez horas da noite um rapaz enorme, vestindo um sobretudo preto, chegou em uma moto. Disse que era o organizador do evento e que podíamos ir dormir no sítio da mãe dele naquela noite. Agradecemos, já estávamos bem acomodados ali, mas ele insistiu. E os mineiros insistem como ninguém.
Acabamos nos enfiando em uma estrada de chão, no meio da noite, indo para um sítio desconhecido atrás de um motociclista. No caminho, ainda com as experiências de quem viveu muito tempo no sul frescas, fomos desconfiando. Tinha alguma coisa errada.
Chegamos no sítio. Uma pequena casinha de roça, muito humilde. O rapaz acordou a mãe dele dizendo que tinha visita e que era para acender o fogão à lenha. Imagina! Se eu acordasse minha mãe dizendo isso eu levaria uma vassourada na moleira! A mulher levantou-se sonolenta, nos cumprimentou e acendeu mesmo o fogão. Uma hora depois tínhamos um banquete: arroz, feijão, angu, frango com quiabo, salada e uma rapadura de sobremesa. Insano.
Mesmo assim estávamos com um olho aberto. Aquilo não era normal. Era gentileza demais e esmola demais, o santo desconfia, certo? Nos deram um quarto muito confortável, com uma cama de casal. Tenho vergonha de contar isso também, mas colocamos uma cadeira escorando a porta, receosos de que fossem nos pegar de madrugada.
Acordamos com o cantar do galo. Tomamos banho e fomos até a cozinha. O cheiro de café tomava o lugar. Na mesa tinha café coado no pano, pão de queijo, broa de milho, pão de sal, manteiga e doce de leite. Segurei um choro (e segurei outro agora, escrevendo isso). Que gente é essa? Sim, fomos muito bem tratados em muitos outros lugares do Brasil, mas ali tinha um carinho diferente. É uma abundância incomum, uma riqueza misturada com humildade. Isso eu nunca tinha visto. Comecei, aos poucos, a entender a “favela” que eu tinha visto.
Alimentados, seguimos para outro sítio, na cidade vizinha, onde ia rolar o rock. Chegamos lá e estacionamos nossa Elvira ao lado do palco (uma decisão não muito sábia quando tentamos dormir). A moça ruiva estava por lá e ficou andando com a gente o tempo todo. Acabou que papo vai, papo vem (Bardo não perde uma!) Acabamos os três no banheiro do sítio no meio da festa.
Foi rápido, intenso e muito gostoso. Nos beijamos e nem nos despimos. Foi saia para um lado, calcinha pro outro, línguas, dedos e um boquete duplo que deixou o Bardo alucinando. Por fim ele escorou ela na pia, de pé, e deu uma enrabada gostosa. Gozamos e voltamos para a festa.
De repente, começou a chover. Todo mundo correndo para baixo dos telhados, o rock arruinado. A banda seguiu tocando no palco. Corri para a Elvira com a moça e perdemos o Bardo. Aproveitei! Já que o show já era, vamos gozar mais? Dessa vez as roupas se foram completamente e me esbaldei na bucetinha dela. Molhada e gostosa. Ela me agarrava pelos cabelos com força enquanto eu chupava o suco enfiando dois dedos lá no fundo. Ela gozou muito. Depois foi minha vez e ela me lambeu todinha com vontade, me fazendo dar squirts pelo carro todo.
Ficamos deitadas vendo a chuva lá fora até que terminou. A moça se foi e Bardo chegou. Eu estava louca para contar para ele, mas ele parecia mais empolgado que eu. Me contou que estava no meio da turma quando um rapaz abordou ele, perguntando onde estava a ruiva que andava conosco. Ele respondeu que não fazia ideia e o moço ficou apertando ele para saber se tinham transado. Bardo desconversou e mudou de assunto, eventualmente descobrindo que o rapaz era nada mais, nada menos, que o marido da moça.
Comer quietinho que diz, né mineirada?

O rock continuava no dia seguinte e a chuva deu uma trégua durante o dia. A cerveja não parava de chegar e, pelas nossas contas, a Bauernfest já estava ficando para trás. Eram caminhões e caminhões de latas chegando e não parecia ter tanta gente assim para beber aquilo tudo.
A noite caiu e fizemos nosso espetáculo. Foi lindo, uma das nossas poucas apresentações em cima de um palco. O povo pulou, curtiu, dançou e se emocionou. Foram à loucura quando cantamos The Lion Sleeps Tonight: auimauê, auimauê, todos cantavam juntos e riam!
Descemos do palco encharcados de suor e fomos para o chuveiro. A ruivinha nos seguiu e se enfiou no banheiro! Bardo perguntou, delicadamente, sobre o marido. Ela desconversou e transamos os três no chuveiro. Foi delicioso, mas eu estava com a pulga atrás da orelha. Eu quero o sexo, amo, adoro. Mas eu não quero fazer parte de traição, de mentira, de enganação. Era exatamente o que eu estava lutando contra. Enfim, aproveitei, mas com um pezinho atrás.
Foi o tempo de sair do banheiro e a chuva caiu. Ainda mais intensa que na noite anterior, e com ela levou a energia elétrica. Agora sim a festa estava arruinada. O povo se enfiou todo debaixo dos toldos espalhados pelo gramado, mas não parou de beber. Ali, na escuridão total, ficamos batendo papo com um monte de gente que não víamos.
E ali tinha essa mulher muito prazenteira que me encantou, vamos chamar ela de Natália. Ela era jipeira e encontramos muitos gostos em comum. Os amigos dela também eram muito divertidos. Ela nos convidou para passar na casa dela no dia seguinte e tomar um café. Trocamos contato e ela me enviou o endereço.
No dia seguinte o organizador da festa estava aborrecido. Com a chuva – que é rara nessa época em Minas Gerais – ele não tinha atingido o objetivo financeiro dele. Eu olhava para a pilha surreal de latas de cerveja vazias e, pra mim, a conta dele não fechava. Saímos dali e fomos conhecer a cidade. Uma cidade histórica, cheia de prédios antigos, e meus olhos começaram a trocar o “favela” por barroco.
Fomos ao museu e andamos pelos trilhos do trem. Aliás, tudo ali era trem e levamos um tempo para entender que isso significava simplesmente qualquer coisa. Me alcança o trem ali? É só usar o trem que dá certo. Deixa esses trem aí, menino! Bardo fez graça com uma placa que dizia: Cuidado: trem. Cuidado com o que? Você pode ser atingido por um meteoro ou uma colher de sopa!
No final do dia encontramos o organizador da festa, a namorada dela e uns amigos. Entre eles um rapaz muito bonitinho. Nos levaram para um bar. Quando chegamos, Bardo se interessou por uns pedaços de carne no balcão.
– O que é isso? – ele perguntou aos rapazes.
– Você não conhece panceta? – eles responderam, embasbacados.
– Não!
– Nossa, é hoje! – eles disseram, com um sorriso faceiro no rosto, lambendo os beiços e esfregando as mãos.
Sentamos à mesa e eles trouxeram a panceta. É uma espécie de bacon, uma receita italiana. Uma tira da barriga do porco que, ao contrário do bacon, é curada e temperada, o que lhe rende um sabor diferente. Frita, é um crime, e implora um copo gelado de cerveja.
Esse foi o primeiro tombo (de muitos) do Bardo. Sentou-se à mesa e começou a beber com os mineiros. Depois de três cervejas (praticamente o limite dele), um copinho de cachaça. Mais cerveja, mais panceta, mais um copinho de cachaça. Uma coisa levava a outra em um ciclo sem fim. Até que ele foi longe. Saiu da mesa de quatro direto para dentro da Kombi e os mineiros não estavam sequer tontos.
Fiquei de papinho com o cara bonitinho, mas ele era bem inocente. Não entendeu minhas indiretas e acabou ficando sem nada – e eu também. Meio cabreira, fiquei olhando para a mão dele para ver se tinha uma aliança. Não tinha. Quem sabe em outra oportunidade?
No dia seguinte Bardo estava um trapo. Limão com bicarbonato e óculos escuros. Fiquei vagando pela cidade, me acostumando com aquele filtro sépia, natural do lugar. No meio da tarde, já melhores, decidimos seguir viagem rumo ao completo desconhecido. Estávamos quase saindo da cidade quando me lembrei do convite da Natália. Falei com Bardo, mas eu mesma argumentei que a mulher estava bêbada, que provavelmente o convite foi da boca para fora. Decidimos não ir. Rodamos mais um pouco e comecei a me sentir mal. E se ela estivesse mesmo esperando? Pedi para voltarmos lá.
Chegamos na casa dela no final da tarde. E ela estava nos esperando. A mesa estava posta com tudo o que Minas Gerais pode oferecer: queijo, goiabada, pão de queijo, pão sovado, manteiga, geléia, nata, requeijão, broa, biscoito e café, muito café. Era comida para umas dez pessoas, e éramos só três. Imaginei se ela esperava mais gente.
Ela vivia sozinha em um pequeno sítio dentro da cidade. Uma casa enorme com um jardim lindo. Comemos e batemos um papo delicioso. Quando deu a noite, nos despedimos e fomos seguindo nosso caminho. Ela fez um ar de quem ia se ofender. Disse que tinha preparado uma canjica para o jantar. Eu nunca tinha comido canjica de porco, mas tinha comido tanto a tarde toda que não aguentava mais. Acabamos ficando.
Jantamos – empurrando – e estava uma delícia! Agradecemos o jantar e nos dirigimos para a Elvira. Ela, de novo, fez aquele ar de ofendida e nos convidou para dormir ali. Não queríamos abusar e ficamos naquele papo até que a insistência mineira venceu a xucrice gaúcha. Ela nos ofereceu um quarto enorme, com uma cama de casal. Nos trouxe roupas de cama e toalhas de banho. Aceitamos de bom grado e dormimos ali.
Na manhã seguinte acordamos e não encontramos ela. Já tinha ido trabalhar e nos deixou – dois completos estranhos – dentro da casa dela! A mesa do café estava posta com tudo aquilo de novo. Comemos moderadamente (ainda estávamos pesados da noite anterior) e liguei para ela agradecendo muito e avisando que íamos seguir nosso caminho. Ela disse que não podíamos ir – tinha arrumado um show para nós dois dias depois – e seria ofensivo se não ficássemos.
Assim, Natália foi nos levando. Fica mais um dia, fica mais um dia (Déjà vu?). A companhia dela realmente era ótima, ficamos muito amigas. Contei para ela sobre minhas aventuras e a nossa missão, mas não era a vibração dela. Ela gostava de nós ali, da música e da conversa. Fomos ao supermercado e compramos mantimentos para repor. Não queríamos abusar da nossa anfitriã.
Começamos a tocar no calçadão central. Mesma receptividade da cidade anterior. Dinheiro na cartola, almoços, jantares e entrevistas no rádio e no jornal local. Minas Gerais nos surpreendia de uma maneira que não imaginávamos.
O moço bonito entrou em contato. Disse que tinha um passeio sensacional para fazermos: um biciclotrem! Devia ser uma bicicleta misturada com alguma coisa, imaginei. Qualquer coisa. No fim, era com um trem mesmo! Fomos até os trilhos, conhecemos os trens antigos e andamos nessa bicicleta que andava pelos trilhos. Fui batendo papo com o rapazinho e, mais no tempo dele, dando a entender o que eu queria com ele. Acho que a fiação mineira na cabeça dele estava com dificuldade de me ouvir falar daquele jeito bem na frente do meu marido, mas em algum momento ele finalmente entendeu.
Fomos para casa e Bardo reclamou que o pé dele estava coçando. Pensou que era uma frieira, passou um remédio e foi dormir. Quando acordou, na manhã seguinte, estava com as pernas todas, até a altura da cintura, cheia de feridas. Era horrendo. Corremos para um médico e ele disse que era sarna. Pobre Bardinho se retorcia de coceira. Compramos os remédios e um sabonete Matacura e ele ficou de cama.
No dia seguinte liguei para o moço bonito. Ele topou sair para dar um passeio. Veio me buscar no final da tarde – de moto. Eu não ando de moto. Odeio, tenho horror. Andei uma única vez com o Bardo e me senti um parachoque. Não sei como as pessoas tem coragem de subir numa coisa dessas! Fiquei em um impasse. Eu estava com a bucetinha pulsando. Já eram meses desde minha última aventura com outro homem. Não teve jeito: subi na moto e fui.
Animada, esperava ir direto para o motel, mas não. Ele me levou para a praça central, onde eu tocava. Caminhamos, conversamos e comemos pipoca. Sentamos em um banco e ele pegou na minha mão. Ali me dei conta: eu estava em um encontro adolescente! Oh, não! Fui levando a conversa para a putaria o mais rápido que pude, mas ele resistia. Se ele não fosse tão bonitinho eu tinha ido embora na hora. Continuei insistindo até que ele pediu para irmos para outro lugar. Agora sim, finalmente o motel!
Ele pegou uma rua estreita e começou a subir um morro íngreme. Entrei em desespero quando chegamos no pé do Cristo Redentor (quase todas as cidades de Minas Gerais tem uma versão menor dele). Ele falava de família, de casamento e de filhos e eu falava de suruba, putaria e orgasmos. Quando vi que ele não ia ter iniciativa, agarrei ele, joguei contra o calcanhar do Senhor e comecei a beijar.
Ele beijava bem, era gostoso. Tentei enfiar a mão nas calças dele mas ele não deixou. Estava muito desconfortável ali. Seria a estátua? Acho que o seu deus vê em qualquer outro lugar do mesmo jeito, não é? Subimos na moto. Ele estava ofegante. Agora vai, agora é motel! Não foi. Comecei a ter vertigens quando percebi que me levava de volta para casa. Me lembrei do flautista frouxo. Minha buceta já doía de tesão e nem o Bardo ia poder me salvar hoje, cheio de sarna em casa!
Chegamos no portão e voei nele. Esse filho da puta ia me fazer gozar ali mesmo. Agarrei-o e encostei em um canto escuro, debaixo das plantas. Passava a mão nele todo e ele foi se encorajando. Pegou na minha bunda. Ah, finalmente! Ficamos naquele agarra adolescente por um tempo. Meu clitóris pulsava, gritando como um alarme de bombas atômicas. Convidei ele para entrar e conhecer a Elvira, mas ele decidiu ir embora. Fiquei furiosa. Ainda teve a audácia de me convidar para jantar com a mãe dele no dia seguinte.
Entrei em casa me arrastando. Bardo estava na cama, jogando videogame no notebook. Ele olhou para minha feição e arregalou os olhos. Perguntou o que tinha acontecido, se eu tinha sido abusada ou algo assim. Contei para ele como foi e ele ficou muito triste por mim. Até hoje ele diz que nunca tinha visto aquele ar de decepção no meu rosto – nem com o flautista. Sem que ele pudesse me comer, deitei do lado dele e arranquei litros de suco do meu clitóris. Gozei até não poder mais, mas não fiquei satisfeita. Que ódio desse rapaz!
No dia seguinte, Bardo me chama na cozinha.
– O que é isso? – ele pergunta, tirando uma estrelinha marrom da barriga. Eu nunca tinha visto aquilo. Fizemos uma foto e mandamos para a Natália. Era um carrapato estrela. Começamos a procurar pelo corpo dele e encontramos mais alguns. Não era sarna! Ele estava sendo consumido pelos parasitas aqueles dias todos! Que médico imbecil!
Removidos os bichos, ele começou a melhorar e alguns dias depois conseguiu voltar a tocar. Eu estava subindo as paredes com aquela castidade forçada. Ele também. Assim que foi possível, transamos uma tarde inteira. Era preciso tirar o atraso! Nem imaginávamos o quanto esses carrapatos seriam nosso pesadelo dali para a frente.
***
Fica mais um dia! E assim as meninas já estavam de volta do passeio dos avós. Eles iam nos retornar elas no aeroporto do Rio de Janeiro, que não era tão longe dali, então Bardo e Natália foram no carro dela – ela aproveitou para visitar os filhos que moravam por lá. Fiquei sozinha em Minas. Em um papo com nossos contatos da estrada, Zé – meu comedor de Floripa – me disse que estaria a trabalho na cidade vizinha. Quais as chances? Eu ia me esbaldar naquela rola gostosa!
A expectativa cresceu e a decepção foi imensa quando ele disse que tinham realocado ele de cidade, que não íamos nos ver. Eu precisava meter com alguém, mas não conhecia mais ninguém que tivesse me chamado a atenção ali. Liguei para o bonitinho, em um ato de desespero. Ele estava magoado porque eu não quis conhecer a mãe dele. Chamei ele para conhecer a Elvira e ele aceitou. É hoje.
Não dei tempo para ele entrar no papinho de bom moço. Empurrei ele para dentro da Kombi e já fui arrancando as roupas. Ele lutava. Beijava gostoso, colava o corpo no meu, mas os braços me empurravam e seguravam as calças no lugar. Que filho da puta, desgraçado. Lutei com a força de uma leoa faminta. Eu já estava toda nua, ele ainda de cueca. Esfregava minha buceta na cueca dele, o pau duro como um tijolo, todo molhado, e ele não tirava. Eu não podia passar por aquilo de novo!
Ele me tocava com delicadeza, sem nenhuma pegada, e eu agarrava ele com força, alisava o pau, tentava tirar a cueca. Ele me beijava e tentava ficar só no arreto. Tentei descer e chupar, ele não deixou. Fiquei de quatro, de costas para ele, rebolando a bucetinha e chamando. Não tinha como resistir a isso. Ele ajoelhou atrás de mim, ainda de cueca, e ficou roçando o pau duro na minha bunda. Eu estava em desespero completo. Mete esse pau, pelo amor do teu deus, seu brocha! Ele não meteu.
Deitei do lado dele e me masturbei. Ele não ia me fazer gozar? Tudo bem, mas ia me ver gozando. Gemi alto e dei squirts nas pernas dele. Ele se vestiu e foi embora. Idiota! Estava desesperada. Liguei para a ruivinha, mas ela não atendeu. Então liguei para o organizador da festa. Ele não me interessava e tinha namorada, mas tinha um jeito de safado e alguém precisava me comer. Não deixei claro o que eu queria e ele foi com a namorada. Tomamos café juntos e conversamos. Quase propus aos dois um ménage, mas fiquei receosa de como ela ia reagir. Acabei sem nada.
Anos depois fui saber dela, quando nem estava com ele mais, que ela teria topado. Que azar! Não se deve ter medo de tentar!
O que leva as pessoas a tratarem sexo, uma coisa tão simples e básica, um prazer tão fácil de dar e receber, com tanta dificuldade? É tanta coisa complicada colocada ao redor! Namoro, casamento, “energias cósmicas” e tudo o mais. Gente, é só tirar a roupa e curtir, nada mais que isso!
E não precisa ser vazio. É simples. Basta que as duas (ou mais) pessoas envolvidas realmente queiram o prazer do outro. É o ápice da beleza do dar e receber ao mesmo tempo.
Por algum motivo, em algum momento, inserimos sentimentos que não pertencem a esse lugar. Complicamos o que era simples e nos transformamos em seres que negam sua natureza. Somos todos extremamente carentes de carinho e, em algum momento, isso virou motivo de vergonha. Sexo não é vergonha nenhuma, é simplesmente a coisa mais linda que existe, é o amor em sua essência física e carnal e não devia ser atrelado a mais nada a não ser a prazer e respeito entre as pessoas.
Mas não é assim que funciona, não é?
***
Bardo voltou com as kids. Que saudades das minhas meninas! Resolvemos ir embora – sob protestos da Natália e com a promessa de voltarmos logo – já estávamos ali por trinta dias!
Dali para frente era o absoluto desconhecido. Aquele tom sépia contrastando com as montanhas verdes (eu sempre imaginava encontrar os TeleTubbies correndo por ali) e o pior asfalto que eu já tinha visto. Seguimos de cidadezinha em cidadezinha, acostumando cada vez mais com as casinhas simples, a comida abundante, o povo prazenteiro e bom de copo e o jeitinho mineiro de dar uma puladinha de cerca.
Um anjo antes de casar, um demônio depois que casa.
Naquela manhã chegamos em mais uma cidadezinha. A igreja no centro, a praça florida, as casinhas ao redor. Já tinha virado um padrão. Tocamos na praça em frente à uma escola, na hora da saída. Foi uma delícia de espetáculo. Um fazendeiro que passava ali nos pagou um almoço no restaurante. Conversando, ele nos convidou para dormir na fazenda dele. Já estávamos bem mais acostumados e perdemos o medo desses convites para ficar no meio do nada.
Andamos por quase uma hora no meio do mato até chegar lá. Já era noite, não tinha nenhum sinal de telefone. Ele nos convidou para jantar. Era só o anfitrião e a esposa em uma casa de fazenda gigantesca, daquelas de filme de época. O jantar, como sempre, foi maravilhoso. Abrimos um vinho, outro e depois outro. Bardo já estava mais esperto agora e não tentava acompanhar o pique. Em algum momento o homem faz uma voz grave e manda a fatídica pergunta:
– Qual a religião de vocês?
Bardo pula com a resposta ensaiada: – preferimos não falar sobre isso.
O homem ignora a resposta dele e diz: – Nós somos cristãos. E eu acho que todo o mundo deveria aceitar Jesus. Tenho tanta certeza disso que se tiver que derramar sangue, farei!
Ouvimos aquilo como uma ameaça. Bardo, com suas palavras mágicas, foi desarmando a situação. Não tínhamos como sair dali sem alarde e nem tínhamos mapa para encontrar o caminho. Depois de um tempo, conseguimos mudar de assunto. Não aceitamos dormir dentro de casa – mesmo com a insistência mineira – e dormimos na Elvira, com um olho aberto.
Tomamos café com eles. O homem parecia diferente, mais tranquilo. Nos deu um inversor de voltagem de presente para que pudéssemos carregar os telefones e o notebook na bateria da Elvira. Agradecemos por tudo e seguimos viagem. No caminho, Bardo foi ensinando uma oração cristã para as meninas. Ele explicou que podia ser útil se fosse necessário mentir que éramos cristãos em alguma situação mais complicada.
Algumas horas depois, chegamos em Tiradentes.
Se você já se perguntou por que uma cidade tão pequena precisa de tantas igrejas, sabe do que estou falando. Um guia turístico local me contou a história, que eu conto para você em poucas, mas perplexas, palavras:
A Vila de São João Del Rey era colonizada por cristãos, mas não havia uma presença da hierarquia católica lá. Não existiam padres, bispos e essas coisas. Quem cuidava da religiosidade eram irmandades. E essas irmandades – pasmem, irmãos e irmãs – eram segregadas. Eles usavam as igrejas para separar os ricos dos pobres, os brancos dos negros e até mesmo os mestiços – que nem os brancos, nem os negros, queriam por perto. Parece que o nós contra eles é muito mais antigo que a internet.
Então, somos todos filhos de deus, todos iguais, criados à sua imagem e semelhança, mas cada um no seu quadrado, tá bom? E a cidade mostra como era a pujança econômica da Era do Ouro: Construíam-se igrejas para ver quem tinha o pipi maior que o outro.
Cristianismo e seus absurdos de lado, fomos tocar na praça. Era o Festival de Jazz e a cidade estava lotada de pessoas de bom gosto (na minha igreja só ia entrar quem gosta de Jazz). Foi realmente incrível, ganhamos uma boa grana e o público amou o espetáculo. Conseguimos um lugar para dormir no campo de futebol da cidade, onde haviam chuveiros quentes. Ainda bem, porque fazia muito frio!
No dia seguinte tocamos na praça central e percebemos alguns fiscais nos rodeando e cochichando entre eles. Fui ficando nervosa, cutuquei o Bardo. Não demorou para vir o bote. Aparentemente nossa presença ali não era bem quista pela prefeitura ou, como aprendemos em Parati, pelos comerciantes locais que pagavam músicos para manter as pessoas nos seus bares.
Mas dessa vez não foi fácil para os fiscais. Um enorme grupo de motociclistas estavam assistindo o show e, quando perceberam a intenção dos fiscais, foram para cima deles. Bardo teve que defender o fiscal no microfone para impedir que levasse uma surra. Vai ter show, sim!
Um restaurante local nos adotou pelo resto do dia. Nos deram as refeições e tocamos por lá pelo dinheiro do chapéu. Os músicos locais nos olhavam tortos, acho que porque ganhamos mais na cartola em quarenta minutos do que eles de cachê em quatro horas. É a vida.
Festival encerrado, seguimos para as cidades em frente, rumo a Alfenas. Mais café, mais pão de queijo, mais música e estrada. Conhecemos muitas cachoeiras e lugares bonitos, mas não chovia a semanas e os carrapatos estavam nos deixando malucos!
Chegamos em Três Corações. Cidade do Pelé. Fomos até o centro e tocamos em frente à uma pastelaria. Ganhamos o almoço e um dinheiro e fomos abordados por um pessoal da televisão que queria fazer uma matéria. Legal! Ficamos por ali. Na hora de filmar tinha um hippie tocando flauta – muito mal – bem no nosso ponto. Pedimos a ele se podia nos dar licença por um minuto e ele perguntou se podíamos dar carona para ele até São Thomé das Letras.
Ah, essa cidade! Desde o sul que todo mundo dizia:
– Vocês precisam conhecer São Thomé das Letras, é a cara de vocês! – Natália também falou muito de lá, dos festivais de música e do quanto ela ficou extremamente bêbada todas as vezes.
Topamos dar a carona e ele nos deu licença. Filmamos para o jornal da televisão.
Quando entramos no carro para ir embora com o hippie um policial se aproximou e pediu para falar com o Bardo em particular. Ele recomendou que não fôssemos para São Thomé, que era um lugar perigoso, cheio de armadilhas e drogas, tomado pelo PCC, que não era lugar para uma família bonita como a nossa.
Às vezes acho que devia ter ouvido ele. Minha relação com São Thomé é de amor e ódio.
Dirigimos até lá. Era longe. Muito longe. Subimos a montanha com a Elvira esbaforida. Chegamos em uma cidade toda de pedra. Estava extremamente quente. Entramos em um beco esquisito, o carro mal passava. Deixamos o hippie em uma casa sem portas e sem janelas, apenas cortinas. Pedi um copo d ‘água. Uma moça, claramente drogada, pegou um copo e serviu água da torneira – quente! Agradeci.
Saímos do beco e estacionamos perto de uma igreja de pedra. Subimos até a rua principal. Todo o comércio estava fechado. Fomos olhando as vitrines: gnomos, fadas, bruxas, pedras, incensos, roupas indianas e muitos bonequinhos de extraterrestres.
– Isso aqui é uma arapuca para turista bobo – Bardo constatou.
Sem mais nada para ver, fomos embora quarenta minutos depois de chegar. A minha cara? Sério? Escolhi me sentir ofendida por isso dali em diante!
A cidade seguinte era a famosa Varginha, o lugar que tinha recebido a visita de um extraterrestre uns anos atrás, ou assim se dizia por ali. Era tudo temático: paradas de ônibus com desenhos alienígenas, caixas d’água em forma de OVNI e até um enorme restaurante em forma de nave espacial.
Foi a primeira cidade polo que chegamos em Minas e foi incrível. Era muita gente! Tocamos no centro da cidade e arrecadamos muito mais do que o habitual. Deu para dar cortinas novas para a Elvira, roupas de cama e travesseiros novos para a família toda.
Dormimos em um posto de gasolina dentro da cidade, o que era incomum. Eles foram muito atenciosos e nos deram a chave do banheiro com chuveiro. Cuidei de deixar tudo limpo e organizado, era o mínimo que podia fazer em retorno.
Alguns dias depois, fomos abordados no posto por um músico local. Ele disse que era nosso seguidor há anos e que ele e a esposa faziam swing. Ele não era atraente mas eu estava precisando de um ar de putaria, nem que fosse um bate papo com alguém menos cristão. Fomos até a casa dele e conhecemos a esposa: baixinha, gordinha e tetuda. Bardo animou e eles se engraçaram um no outro.
Ficamos de papo enquanto eles enxugavam uma cerveja atrás da outra. Cada vez mais bêbada, a mulher alisava as coxas do Bardo e ele respondia. O cara me olhava, para ver se eu ia animar também, mas eu não bati a energia com a dele, não ia ter jeito. Ela enfiou a mão nas calças do Bardo e começou a punhetar. Vendo que ia só emprestar a esposa, o marido encerrou a brincadeira e nos mandou embora.
Esse povo do swing.
Seguimos a estrada. Meu aniversário era no dia seguinte e o único presente que eu queria era estar em uma cachoeira. Chegamos em mais uma cidadezinha e fomos até o centro da cidade. Essa era diferente, não havia uma praça central, não havia um lugar de confluxo de pessoas e, portanto, não havia onde tocar. Paramos em frente à uma lanchonete e tocamos ali mesmo, na esperança de fazer algum dinheiro para o dia (ou ganhar o jantar).
Não havia quase ninguém na rua, mas começamos mesmo assim. Depois de algumas músicas, uma moça de cabelos loiros, encaracolados, e um senhor de idade entraram na lanchonete e ficaram nos ouvindo. Mônica foi puxar papo com eles e, sem eu saber, contou que eu estava de aniversário e que estávamos em busca de uma cachoeira.
Quando terminamos de tocar, a moça nos deu vinte e cinco reais (que foi todo o cachê do dia) e disse, em um mineirês carregado, que na rocinha dela tinha um “córguin” e que tinha uma árvore enorme onde podíamos estacionar. Depois de me certificar de que ela não era uma extremista cristã (aprendi a fazer as perguntas certas), seguimos ela pelas estradas de chão por vários quilômetros até a “rocinha” dela. Era uma fazenda de criação de cavalos, daquelas que você não vê o final. Realmente havia uma árvore enorme ali, com muita sombra. Bardo olhou o mato seco e os cavalos e só disse uma palavra:
– Carrapatos.
Merda. O lugar era mesmo lindo.
Ela nos convidou para entrar na casa da fazenda. Uma cozinha gigante com um carro de boi como mesa e liteiras como cadeiras. Um enorme fogão à lenha, desses de restaurante. Incrível. Sentados em cadeiras estavam três bonecos em tamanho humano real, uma coisa meio assustadora. A moça, vamos chamar ela de Rita, nos convidou para jantar. Aqui já estávamos mais vividos com a insistência mineira e nem discutimos. Ficamos.
Mais tarde o marido dela chegou. Um senhor de idade, muito mais velho que ela, com um ar grave de barão de fazenda. Ele se sentou em silêncio e ficou nos ouvindo conversar. Ela fez um maravilhoso arroz de carreteiro no arado. Comemos de lamber os beiços. Quando chegou a hora de dormir, já estávamos decididos a ir embora – e não ia ter insistência. Nem pensar que íamos dormir com os carrapatos. Ela insistiu, mas pediu que dormíssemos nos quartos da fazenda. Nesse caso, tudo bem!
Ficamos e no dia seguinte Rita nos levou para ver o “córguin.” Andamos por mais de uma hora pelas estradas da fazenda e entramos em um cafezal.
– Essa é a parte do meu pai – ela disse.
Depois de mais alguns quilômetros de pés de café, finalmente chegamos à uma pequena vila. Todas as casas eram da família dela. Eram vários irmãos e irmãs, primos, primas e agregados, todos ali vivendo em torno da fazenda. Fomos conhecer o coronel. Esperava alguém ainda mais grave que o marido dela, mas encontrei um senhor muito gentil. Nos afeiçoamos na hora e ficamos horas tomando café e batendo papo sobre plantas. Ele caminhou comigo pelo jardim, me mostrando as mudas e me explicando sobre chás e curas.
Ele também me falou sobre a Dona Bárbara, uma bruxa que vivia lá dentro do mato (mais dentro do mato que isso aqui?), na beira de uma cachoeira, e que sabia tudo. Fiquei extremamente curiosa. Eu sempre fui a louca das plantas. Minha avó era uma curandeira famosa nas terras dela e eu cultivava esse dom também.
***
Bardo quase sempre foi cético. Estava sempre estudando alguma religião e, depois da fantasmagórica temporada com o espiritismo, tinha se tornado uma pessoa extremamente científica. Mas nem ele podia explicar as coisas que eu fazia.
É comum eu explodir vidros. Quando a energia ao meu redor “pesa” sempre tem alguma coisa que se quebra. E não é quebrar de levar uma pancada, quebra sozinha mesmo. Bardo adora assustar as pessoas contando sobre todas as vezes em que viu espelhos, copos, a porta da cristaleira e até a tampa do fogão explodirem sem nenhuma intervenção física.
Não é uma coisa que eu provoco, mas se eu quiser provocar, sei como: basta pegar um ramo de arruda, um pouco de água e dizer as palavras certas enquanto passo a planta pelas paredes do lugar. Às vezes levam algumas horas, mas eventualmente alguma coisa acaba explodindo ou alguém esbarra em um vaso.
Eu carrego comigo alguns livros de plantas e benzeduras para referência, mas tenho eles inteiros guardados na minha cabeça. Mesmo cético, Bardo sempre lembra dos meus feitiços quando precisa: eu tiro enxaqueca com a mão, e isso é um poder muito útil quando você ficou oito horas jogando vídeo game e não percebeu que o tempo passou!
***
A tarde estava quase no fim quando fomos até o córrego, mas ele tinha pouca água. Mesmo assim, o dia valeu muito a pena. Voltamos para a fazenda e, quando chegamos lá, tinha uma festa de aniversário surpresa organizada para mim. Mônica e Rita organizaram tudo e nem o Bardo ficou sabendo.
Tinha doces, salgados e bolo. Um monte de gente que eu não conhecia – os funcionários da fazenda – estavam lá cantando parabéns. Que loucura! Que pessoas são essas? Por que elas fariam uma festa de aniversário surpresa para quem nem conhecem? Essas últimas semanas em Minas Gerais estavam me fazendo rever meu conceito sobre humildade, bondade e verdadeira amizade.
Bardo ficou muito amigo do marido da Rita, o Adão, e estavam batendo papo sobre cavalos, café e a vida na fazenda. Sem perder a oportunidade de ser professor das meninas, ele aproveitava a conversa para que elas fizessem perguntas – era algo que tinha virado rotina toda vez que encontrávamos alguém que era profissional em alguma área. As kids queriam saber de tudo e Adão estava muito feliz com a curiosidade delas, contando histórias e dividindo suas experiências de fazendeiro.
Acabamos ficando por lá mais de uma semana. Eles não nos deixavam ir embora. Nos levaram para tocar na cooperativa e nos apresentaram os amigos. Adoravam quando tocamos Juvenar (vem tirar o leite, são seis horas da manhã!) e, claro, o Auimauê, auimauê. Um pouco antes de irmos eles nos confidenciaram que Adão lutava contra um câncer há muitos anos e que o quadro dele estava piorando cada dia mais.
Finalmente seguimos para Alfenas para encontrar o Fufu. Chegamos em um evento que parecia ter sido feito para quinhentas pessoas, mas eram cinquenta. A quantidade de cerveja era surreal. Era o encontro de trinta anos de formatura de uma turma de dentistas. Sem ter certeza de que iríamos mesmo estar lá, eles contrataram uma banda de rock para tocar os dois dias inteiros. Ainda bem, porque eu não ia tocar dois dias inteiros!
Colocamos nossa cartola na frente do palco, no chão, e fizemos nosso som. Colocaram mais ou menos trezentos reais ali. Foi ótimo. Dormimos no estacionamento, comemos e bebemos na festa. Bardo se absteve do álcool, como andava fazendo, pois o fígado dele não dava mais conta da mineirada.
No dia seguinte, tocamos de novo, dessa vez o chapéu foi mais minguado, mas tudo bem. Estávamos seguros e alimentados ali. De repente, alguém grita que a cerveja acabou. A banda para de tocar e Fufu pega o microfone:
– Vaquinha para a cerveja!
Em instantes eles arrecadaram nada mais, nada menos, que quatro mil reais. Logo um caminhão chegava e descia uma carga. Não durou até o final do dia. E eles não pareciam nem tontos. Eu tenho para mim que os mineiros são feitos de algum outro material, ou tem dois fígados, quatro rins e duas bexigas.
Confesso que fiquei um pouco sentida quando rodei a conta na minha cabeça. Até ali, nós vínhamos tocando por cartolas que raramente passavam de duzentos reais – a média era de setenta reais – e enquanto o som rolava eles gastavam fortunas em álcool. Podiam valorizar um pouquinho mais, né?
Bardo aproveitou a festa para uma oportunidade única: ali estavam trinta pessoas que tinham se formado na mesma época, com as mesmas oportunidades, e que, trinta anos depois, estavam em situações completamente diferentes. Um deles, que ficou muito nosso amigo, tinha uma mansão e um jato particular. Um outro, que passou a festa toda perturbando as pessoas insistindo que o planeta era plano (uma das maluquices da internet na época), mal tinha o que comer. Alguns tiveram muito sucesso e outros nem mesmo trabalhavam na área mais. As kids entupiram todo mundo de perguntas e aprenderam muito sobre carreira e principalmente sobre sorte, naquele final de semana.
A cerveja acabou de novo e todo mundo foi embora. Um dos convidados nos ofereceu um sítio ali perto para passarmos a noite. Aceitamos e, novamente, depois de conferir o nível de cristianismo, lá estávamos nós rodando quilômetros de estrada de chão até outra roça. O homem chegou lá, nos deu a chave da fazenda e foi embora. Bardo olhou ao redor. Tudo seco, a casa fechada e suja, e disse só uma palavra:
– Carrapatos.
Deixamos a chave debaixo do tapete e fomos embora.
Continuamos nossa saga, de cidade em cidade, que dali em diante pareciam a cópia da cópia. Uma praça central, uma igreja, um povo carinhoso, café e pão de queijo. Já tínhamos uma rotina. Acordava em um posto de gasolina na rodovia, dirigia até a próxima cidade, encontrava a praça central e fazia música. O povo animava. Auimauê, auimauê. Pegávamos nosso pouco dinheiro e nossos brindes e seguíamos em frente. Não me preocupava muito em postar nada na internet. Estávamos totalmente desiludidos com ela, era um universo paralelo com lugar apenas para tretas e mentiras.
Sempre que encontrava uma cachoeira, ia até o supermercado mais próximo, pegava alguns não perecíveis (macarrão, sardinha, bacon e calabresa, basicamente) e ficava lá por alguns dias, vivendo como nativa. Eram os melhores dias. Fogueira, comidinha, natureza. A maior parte do tempo não tinha ninguém por perto então eu passava meus dias nua. Quem me dera viver assim para sempre.
Bardo sempre encontrava frutas e raízes por perto e dava um jeito de estender nossa estadia quando a comida acabava. Às vezes ele encontrava alguma coisa que nunca tinha visto e eu ficava preocupada porque ele colocava tudo o que via na boca para saber se era possível comer, mas até ali tudo tinha dado certo.
Com nosso último compromisso atendido em Alfenas finalmente éramos bichos completamente livres. Ninguém sabia onde estávamos, não existiam postagens, não tínhamos agenda e não respondíamos a ninguém. Era incrível acordar pela manhã e olhar para o mapa do Brasil colado no teto da Elvira, pensando:
– Eu não devo nada para ninguém, não tenho trinta dias, não tenho contas para pagar. Sou completamente livre.
Se eu tivesse o que comer naquele dia, nem precisava ir trabalhar. Era o ápice. Não lembro de termos mais do que trezentos reais no bolso em momento algum nessa época. Tocava, ganhava para a gasolina e comida, uma ou outra corda de guitarra e seguia em frente. A Elvira não tinha nenhum equipamento. Eram dois colchões, um fogareiro, as cortinas e os móveis de madeira que o Rafa fez para nós em Lumiar.
Eu estava em forma. Magra, esbelta, bronzeada. Tinha pique e energia o tempo todo. E estava quase feliz. O fato da nossa missão não ter tido sucesso e de já fazer algumas semanas que não conhecia ninguém novo para uma putaria me incomodavam. Bardo também. Ainda assim, era um mundo mágico.
Passamos por Capitólio, famosa por suas águas, e não encontramos água nenhuma. Já eram cento e vinte dias seguidos sem uma única gota de chuva. Bom para o nosso trabalho, péssimo para todo o resto. Vimos os paredões de barro seco e, sem turistas por lá, seguimos embora.
Chegamos em uma outra cidade e fomos acolhidos por um motoclube em sua sede. Eles tinham uma chapa de lanchonete e Bardo se esbaldou cozinhando todos os dias, o dia todo, nela. Era como se tivesse um restaurante: o povo motociclista chegava com cerveja (muita cerveja) e ficava ali batendo papo e comendo os petiscos.
Um dos motociclistas nos chamou em um canto. Ele percebeu o quanto Bardo e eu éramos carinhosos e safados um com o outro o tempo todo e, contando pela idade das nossas filhas, quis saber qual era nosso segredo. Não tinha um segredo para contar. Só somos safados mesmo, penso que é só o que basta.
Ele nos levou até a casa dele. Uma casa imensa, linda. Dois carros importados na garagem, uma moto incrível. Piscina. Entramos na casa, toda com ar condicionado. A mulher dele, uma gostosa, assistia TV na sala como um zumbi. Ele tentou nos apresentar, mas ela nos ignorou. Entendi a frustração dele: trabalhava como um robô para dar aquilo tudo para ela, mas não tinha a safadeza que nós, mendigos da estrada, tínhamos. É mesmo injusto, eu concordo.
É mais uma daquelas mentiras que abraçamos e que, apesar de todo mundo saber muito bem que é mentira, seguimos contando e acreditando: casamento não é garantia de sexo e, com certeza, é a morte da safadeza e da putaria. Senti muito por ele, um cara bonito, simpático e bem de vida.
Depois de rodar algumas dezenas de cidades fomos parar na mansão do nosso amigo dentista. Vamos chamar ele de Cláudio. A casa era surreal. Um Jaguar e uma moto enorme na garagem. A piscina era gigante e podia ser vista de baixo para cima em um bar no subterrâneo. Ficamos hospedados em quartos luxuosos e Bardo se esbaldou em uma sala de videogame ao lado do bar.
Ele quase não parava em casa. Nós íamos para o centro da cidade fazer nosso som e voltávamos para a mansão. Cláudio chegava tarde da noite, exausto, comia alguma coisa rápida e ia dormir. Tivemos pouco tempo para conversar. E ele era sozinho, só tinha um cachorro. Quando finalmente pôde sentar conosco, com muitas latas de cerveja, nos contou que vinha de uma família muito pobre e lutou muito para construir aquele lugar, mas nunca encontrou com quem dividir.
Essa era uma de duas coisas que vivemos dezenas de vezes. Ficamos por mais tempo do que precisávamos nos lugares porque as pessoas tinham muito e eram muito sozinhas e também ficamos em muitos lugares porque as pessoas não tinham nem o que comer e acabamos ficando para ajudar com o quase nada que tínhamos. Eu espero, de coração, que nossa presença tenha sido sempre uma coisa boa por onde passamos.
Cláudio era um homem bonitão e eu pensei que poderíamos fazer um pelo outro. Bardo convidou ele para sair em um bar e eles foram. Fiquei em casa, planejando pegar os dois quando voltassem. Quando voltaram, eu esperava no quarto dele (um quarto maior que muitas casas em que estive), mas broxei quando vi o Bardo arrastando ele, nocauteado pela cerveja, até a cama.
Alguns dias depois ele nos convidou para voar no jatinho dele. Bardo não estava bem do estômago e preferiu não ir. Fomos as kids e eu. O jatinho tinha só dois lugares e ele decolou e pousou com cada uma de nós. Eu nunca tinha voado em um avião tão pequeno, e claro que fiquei com medo, mas Cláudio nos passou muita segurança e não fez nada assustador.
Depois dos vôos, fomos beber uma cerveja (eu bebi uma, ele, várias) e fui dando a entender que podíamos ter alguma coisa a mais. Naquele dia eu comecei a pegar um verdadeiro ranço do jeitinho mineiro de amar. Eu tentando explicar para ele que para o Bardo estava tudo bem se transássemos, ele querendo apresentar a mãe. Eu não ia passar por aquilo de novo, nem pensar!
Senti muito por ele, era um cara realmente legal (quando estava sóbrio) e podíamos ter namorado. Infelizmente essa chave liga e desliga, esse pensamento binário de casado e solteiro não me serve.
Resolvemos seguir nosso caminho para a próxima cidade, mas Cláudio nos disse que havia uma oportunidade imperdível se andássemos um pouco mais: em uma cidade chamada Ouro Preto acontecia a Festa do Doze.
Não era tão longe, valia a pena tentar.
Ouro Preto, nos aguarde!
