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  • Capítulo 6 – Clube do Amor

    – Fica mais um dia –  ela dizia. Aos poucos começamos a buscar nossas roupas, os instrumentos musicais e os brinquedos das meninas. Quando vimos passou um mês. Eu acordava e olhava para o lado. Via o Bardo dormindo tranquilo. Virava a cabeça imaginando que aquilo tudo ia se desfazer diante dos meus olhos, mas ela ainda estava ali. Os seios subindo e descendo com a respiração.

    Passava meus dedos pelo corpo dela e via a pele arrepiando. Ela acordava e sorria. Eu enfiava meus dedos na buceta. Ela gemia. Bardo acordava e metia na minha bunda e isso se tornou um ritual matinal. Todas as manhãs, algumas tardes, todas as noites. Era um ménage permanente.

    Foi em uma dessas fodinhas matinais que eu fui ao banheiro e, quando voltei, Bardo estava pincelando a bucetinha dela no pelo. Ela estava encharcada e gemia alto. Fiquei olhando ela escorrer suco pelas coxas. Bardo só comia ela usando preservativo e aquilo estava deixando ela louca. Ele encaixou a cabecinha e começou a empurrar devagarinho, mas ela saiu e disse que ainda não era hora.

    Ela ficou obcecada com aquilo o dia todo. Falava comigo sem parar, como quem quer se certificar de que estava tudo bem para mim. Garanti para ela que ela podia curtir ele como quisesse, que não era da minha alçada me importar ou não. Ninguém entende isso. Enfim ela se convenceu e, quando a noite chegou, ela quis dar para ele no pelo.

    Saímos para um bar. Bebemos Tequila e dançamos. Bardo fazia sucesso entre os homens que chamavam ele e perguntavam se era algum tipo de milionário ou algo assim. Ele ria, se divertia dançando, beijando as duas e se exibindo para todo mundo. Eu dançava com os olhos fechados. Sentia o cheiro do perfume dela. Na minha cabeça eu via só uma imagem: a buceta dela escorrendo a porra do Bardo.

    Eu queria muito ver aquilo. Estava só curtindo o momento mesmo, tinha passado o dia todo me masturbando mentalmente pra tirar o máximo disso. Dançando, uma paz tomou conta de mim e, de repente, um fogo intenso. Eu não só queria ver ele explodir dentro dela, eu queria ver agora.

    Sem falar nada peguei os dois pela mão e joguei dentro do carro. Voamos para casa. Eu dirigindo e os dois já aos amassos no banco de trás. Ele arrancando a blusa dela e chupando aqueles seios deliciosos. Eu podia sentir o cheiro do pau dele, da buceta dela, dos dois um molhando o outro, tomando conta do carro todo. Pisava fundo, voava pelas ruas. Eu quero ele fodendo ela e eu quero já.

    Entramos em casa. Os dois seminus, se beijando e rindo. Senti uma gota de tesão escorrer na minha perna. Subimos as escadas para o quarto aos tropeços, eu enfiando dois dedos na buceta dela, preparando o caminho para ele. Chegamos na cama nus. A tequila ainda fazia efeito e tudo brilhava. Nos beijamos e nos amassamos e eu fui colocando ela deitada com as pernas bem abertas. Ele se posicionou, de joelhos, de frente pra ela. A buceta encharcada, o pau entumecido. Minhas mãos tremiam, minhas pernas tremiam, meus lábios tremiam. 

    O pau dele a poucos centímetros da buceta dela, pronto para enterrar até o talo no pelo e encher ela de leite. Lambi a buceta dela. Babei toda. Queria ela o mais encharcada possível para que ele escorregasse com delicadeza até a cabeça bater no útero. Chupei o pau dele. Babei todo. Queria ele duro, firme, pra socar ela sentindo o calor de dentro da buceta, sem camisinha para atrapalhar, pelo no pelo até explodir.

    Com os dois devidamente prontos peguei o pau dele e aproximei. A cabecinha tocou na buceta e os dois gemeram. Não saberia dizer qual dos três estava mais excitado com aquilo. Ele entrou. Deslizou para dentro. Cada centímetro que entrava, lentamente, me dava um pequeno orgasmo. Foi escorregando até que bateu no fundo. Ela gozou imediatamente, mas eu esperava por um outro momento.

    Quando ele puxou pra fora eu entrei em nirvana. Eu via o pau dele saindo da buceta dela puxando o suco dela pra fora. Com os dedos dela atolados na minha buceta, gozei. Ele ficou acariciando meus seios enquanto eu me contorcia na cama. Ele tirou o pau dela e ficou esperando. Estávamos nos torturando o dia todo e sabíamos disso. Não me aguentei em ver o caralho dele todo melado da buceta dela, o gosto dela lá dentro, lá no fundo, esperando para ser saboreado até as bolas.

    Chupei. Lambi ele todo. Ela gritava pedindo ele de volta lá dentro mas eu não conseguia tirar da boca. Que sabor era aquele? O gosto do pau dele com o gosto do útero dela. Eu nunca vou esquecer. Como um chiclete, sorvi até perder o sabor e enterrei dentro dela de novo. Mais uma vez ela gozou na primeira metida. 

    Mas agora era a vez dele e, sem dó, ele montou nela e começou a socar. Enfiei um dedo no cuzinho dela enquanto beijava ela na boca. Ela chorava, gemia e gozava uma atrás da outra. Olhei nos olhos do Bardo. Ele estava em transe. Metia e gritava. Acariciei o braço dele devagar para chamar a atenção sem tirar ele do sentimento. Quando ele finalmente fixou nos meus olhos eu falei: me avisa quando for gozar.

    Ele tremeu e eu percebi que girei uma chave. – Agora –  ele disse.

    Pulei para trás dele e coloquei as bolas dentro da minha boca. Ele gritou de prazer e começou a explodir dentro dela. Eu sentia cada pulsação dele na minha língua, como se a porra voasse da minha boca para a buceta dela. Ele tirou o pau de dentro e vi o leite escorrendo para fora. Senti alguma coisa muito animal, como uma relação de poder, como se ela fosse maior que eu por estar com a porra dele ali, dentro dela.

    Voei nele e montei em cima. Não parei até que ele me enchesse também. Cheia de porra e satisfeita, me deitei ao lado dela e fiquei brincando com a porra dele na buceta dela. Agora estamos quites.

    Na manhã seguinte a cabeça girava com a ressaca da Tequila. Bardo tinha saído para velejar com o Lu. Os dois andavam juntos o tempo todo, como uma dupla dinâmica, trocando profundas ideias filosóficas, fazendo churrasco e tocando violão. Eles fundaram uma confraria e se encontravam o tempo todo com outros músicos em uma bagunça gostosa. Aproveitava para cantar, já que não precisava mais trabalhar.

    Não pensava mais em dinheiro. Ela não me deixava pensar. Me levava no shopping e me enchia de roupas. Me fez escolher um carro novo. As meninas ganharam um quarto lindo, roupas e brinquedos. Bardo virou o monstro do porão: ganhou um estúdio de gravação, instrumentos musicais e uma geladeira de cerveja artesanal sendo reabastecida diariamente.

    Eu passava os dias com ela batendo papo. Ela me contava as histórias tristes dos vários casamentos anteriores e se arrependia de não ter nos conhecido antes, lamentava não saber que era possível viver assim. Às vezes, no meio da tarde, ela me levava passear e íamos para um motel, ficar na banheira de hidromassagem e transar só nós duas por horas.

    Fui a bons restaurantes, viajamos para a praia. Estava curtindo muito e me sentindo bem. Não era o meu trabalho que pagava por aquilo e sim minha coragem de viver, minha libido e meu enorme tesão por aquela mulher.

    Bardo e ela se aproximavam cada vez mais. No início ele passava o dia no estúdio e aparecia só para ser usado como nosso brinquedo. Com o tempo ele aparecia para os papos e os motéis do meio da tarde. A amizade deles cresceu e se entendiam muito bem. Achava aquilo ótimo. Nós três juntos era maravilhoso.

    Naquela noite já estávamos metendo por muitas horas, devia ser madrugada. Bardo foi para trás dela, de ladinho, e meteu. Ela deu um pulo. Ficou possuída. Parecia que ele tinha errado o buraco. Não tinha visto ela irritada ainda e não foi uma coisa legal. Ele foi dormir no sofá e ela e eu fomos dormir sem conversar sobre aquilo.

    Bardo se escondeu no porão o dia todo. Fui falando para ela que pode ser muito gostoso levar no cuzinho, que se o cara sabe fazer é bom. Ela me contava sobre como tinha doído quando tentou e como os caras tinham sido brutos com ela. E eu contava de todas as vezes que enchi meu rabo de porra e gozei deliciosamente. Aos poucos ela foi ficando interessada. Uma das coisas que amo no pau do Bardo é que ele é grande o suficiente pra buceta e pequeno o suficiente para o cuzinho.

    Saímos e fomos para a farmácia comprar lubrificante íntimo. Bardo, no porão, achava que estava de castigo e nem imaginava o que eu estava arrumando para ele. Quando a noite chegou ela já estava toda animada. Subimos as duas para a cama e chupei ela até ela gozar na minha boca. Devagarinho, ia passando a língua no cuzinho e soltando. Quando senti que o rabinho dela começou a pulsar, fui colocando o dedo e fazendo ela relaxar. Chupava a buceta e empurrava meu dedo empapado de lubrificante para dentro dela.

    Bardo entrou no quarto e paralisou: ela estava deitada com as pernas arregaçadas, a buceta escorria suco e meu dedo estava todo atolado no cuzinho dela. Dei uma risada solta. Ela viu que ele estava no quarto e quase arrancou meu dedo fora com a apertada que deu no cu. Bardo não perdeu tempo: foi arrancando a roupa e pulou em cima dela. Beijando e apertando os seios enquanto ela relaxava de novo e soltava meu dedo. Com os dois a masturbando, logo o cuzinho estava solto e comecei a socar o dedo de leve. Olhei nos olhos dela e perguntei se estava pronta. – Não sei – ela disse.

    Bardo virou ela de ladinho, dei uma chupada no pau dele e melei de lubrificante. Ele encostou a cabecinha e começou a empurrar. Nunca tinha visto um cuzinho ceder daquela maneira. Parecia outra buceta. O pau dele deslizou fácil até o fundo e quando atolou ela berrou de prazer, gozando e jorrando squirts na minha cara. Bardo comeu o cuzinho dela bem gostoso. Eu estava louca para ver ele gozando dentro dela, o pau pulsando e enchendo o rabinho de porra.

    Os dois deitaram na cama, rindo. Bardo suspirava e sorriu para mim enquanto eu pegava o lubrificante e passava no meu cu. Era minha vez.

    Ela andava comigo pelos cantos, sempre me beijando e me dedando, mas com o Bardo só transava junto comigo. Naquela tarde, Bardo me encontrou no corredor e disse que ela tinha chamado ele para o quarto, sozinho. Ela não tinha comentado nada comigo sobre isso e imaginei que finalmente tinha entendido que não éramos um casal e que podia ter feito isso há tempos.

    Ele subiu as escadas e eu fiquei numa boa tocando piano. De repente, senti um comichão. Me molhei imaginando ele comendo ela sozinho no quarto. Como será que ela ia dar para ele? Bem puta, de quatro, ou bem amorzinho em um papai e mamãe com beijos na boca? Tremi. Quando me dei por conta já estava na porta do quarto, doida para espiar.

    Bardo me conhece tão bem que deixou a porta só encostada. Empurrei bem de leve com o dedo e ela se abriu em uma fresta. Espiei. Ele fodia ela de quatro, bem cadela, gemendo e rebolando. Ele me viu e sorriu – já sabia que eu ia lá espiar. Enfiei a mão na calcinha e fiquei quietinha me masturbando assistindo os dois. Aquilo ia virar um esporte nos próximos dias. Pegava os dois o tempo todo: no banheiro, no chuveiro, na garagem e no porão. Às vezes só espiava até gozar e às vezes não me aguentava e ia para cima dos dois.

    Naquela tarde eles estavam no closet do quarto. Ela de pé escorada em um armário e ele metendo por trás. Fiquei atrás da porta ouvindo os gemidos e a batida da virilha dele na bunda dela. Então ela pediu no cu. De repente, fui tomada de uma luxúria incontrolável. Irrompi para dentro do closet, tirei o Bardo de dentro da buceta e enfiei a língua entre as nádegas. Lambi bem, babei tudo, e mandei ele atolar e socar o rabo dela. Eu gritava para ele socar ela no cu, para encher a puta de porra. Estava descontrolada. Não sei até hoje o que me deu, mas fiz ele levantar ela do chão, metendo forte e gozando nela.

    ***

    Completamos três meses juntos. Entrei no quarto e ela estava com uma cara muito triste, sentada na cama, sozinha. Perguntei o que estava acontecendo e ela disse que nenhuma relação dela ficava boa depois do terceiro mês, que a mãe dela tinha dito que nada dura mais que isso. Disse que ela estava sendo boba e que com a gente ia ser o paraíso para o resto da vida, desde que sempre fôssemos gentis e carinhosos uns com os outros e nunca deixássemos de transar todos os dias.

    Mas não adiantou muito. Ela começou a esfriar, a ficar mais distante de mim. Não mudou com o Bardo. Depois de mais algumas semanas começou a negar sexo para mim. Parecia que não ia muito longe. Começamos a nos desentender e ela deixou de ser gentil e carinhosa comigo. Os mimos ficavam todos para o Bardo e para as crianças. Ela dava a impressão de querer me excluir da equação.

    Por mim, tudo bem. Enquanto estivéssemos ali, seguros e alimentados, eu podia ficar numa boa com meus outros namorados e namoradas. Mas ela pegou no meu pé. Pediu para fecharmos a relação em só nós três. Bardo não viu mal nisso mas eu não estava bem atendida. Fui ficando bastante triste. O sexo com ela, quando acontecia, já não era mais tudo aquilo e depois de mais um tempo até o Bardo começou a sofrer.

    O que acontecia é que íamos para a cama, os três. Era comum metermos as duas e Bardo entrar só com o pau na hora certa. Isso mudou. Agora ela ia para cima dele e fazia questão que ele gozasse dentro dela. Eu ficava naquela sensação esquisita e fazia questão que ele gozasse dentro de mim também. Quando ele terminava de me comer ela já tinha se recuperado e queria mais. E quando ele terminava com ela eu queria mais também. Em algum momento, lá pelas três horas da manhã, Bardo pedia licença, descia as escadas se arrastando e cozinhava um prato de macarrão com bacon e queijo. 

    Nos dias seguintes ele subia a escada com seis latas de energético e algumas barras de cereal. Começou a perder peso, mas não reclamava e cumpria a missão todos os dias. Ela ainda queria o café da manhã e procurava ele no meio da tarde, mas não era mais divertido encontrar os dois fodendo pelos cantos. E eu procurava ele também. 

    Chegou uma hora que ele não aguentou mais e pediu para que abríssemos a relação de novo. Ele podia chamar alguns amigos para ajudar, era demais para ele. Ele já andava se escondendo pela casa durante o dia ou saía de manhã e voltava tarde da noite. E eu sabia para onde ele ia: para nossa casa. E ia lá atrás dele, transar no mato.

    A situação foi ficando insustentável. Ela e eu começamos a bater boca por bobagem quase todos os dias. Bardo, com seu livrinho de Comunicação Não Violenta debaixo do sovaco, tentava mediar mas já não tinha mais jeito. Ela não só não me queria mais, ela queria o Bardo só para ela.

    Quando completamos oito meses resolvi pegar minhas filhas e voltar para casa. Eu sabia que ia voltar para a vida dura de pobreza mas preferia estar assim do que viver brigando. E eu estava seca de vontade de transar com mais alguém. Liguei para o casal gay da festa das tribos e contei como se sentia. Eles deram uma pequena festa na cobertura deles e chamaram os amigos mais queridos.

    Aquele ar de traição da minha adolescência voltou, me senti cheia de tesão, mas nem queria transar mesmo, estava exausta de meter, só queria ver gente nua, beijar na boca, chupar um pau diferente um pouco. Chegamos lá e encontramos um grupo pequeno, cerca de vinte pessoas. Pequeno, sim, perto das centenas de pessoas que eles costumavam chamar para suas festas. Bardo logo se encontrou com uma índia que, até hoje, diz que foi a mulher mais gostosa da vida dele. Se jogaram em um colchão no chão e eu via os olhos dele virando enquanto ela chupava ele. Aquelas chupadas molhadas de meter o pau até a garganta e engasgar. Ele alisava ela, passava as mãos nos cabelos lisos e negros, a pele de índia, quente e gostosa.

    Logo me vi sentada em uma cadeira, nua, me masturbando e assistindo aquele prazer todo no corpo dos dois. Foi muito bom ver o Bardo comendo outra mulher para variar. Sem que eu percebesse, fui cercada pela festa e quando vi mais seis caras estavam batendo punheta ao meu redor enquanto eu me masturbava. Foi uma visão bonita, era o que eu estava precisando.

    Um deles se aproximou de mim e eu, sem perguntar nome ou qualquer cerimônia, coloquei o pau dele na minha boca. Foi como uma bala de caramelo derretendo. Não fazia ideia de como eu estava com saudades de chupar outro caralho. Mamei com vontade, punhetei, lambi as bolas e subi com a língua até a cabeça só pra engolir tudo de novo. Os outros caras ficaram excitados e logo outros paus estavam próximos da minha boca.

    Confesso. Eu tinha nojo de gang bang, achava aquelas mulheres sujas metendo com um monte de desconhecidos ao mesmo tempo. Mas naquele dia eu estava cansada da mesma coisa e com um pouco de raiva daquela mulher que estava me limitando.

    Foda-se.

    Puxei outro cara e comecei a mamar os dois. Logo estava mamando três e comecei a gostar da brincadeira. Fui puxando mais um, mais outro e quando dei por mim estava ajoelhada com seis caralhos na minha cara. Um na boca, um em cada mão e olhando pro próximo que eu queria chupar. Minha boca estava molhada e frenética e eu não sabia quem mamar mais. Bardo continuava fodendo a índia – o marido dela era um dos que eu mamava – e olhava para mim animado com a cena, logo eu, que sempre disse que nunca ia fazer isso.

    Alguém me pegou pela cintura e me colocou de quatro. Senti um pau entrar gostoso na minha buceta que já escorria suco pelas pernas e pingava pelo chão. Continuei mamando dois ou três e eles se revezavam na minha boca e na minha buceta. Vi a tarde ir embora enquanto eles metiam sem que eu olhasse para trás pra ver quem era.

    Dois me chamaram a atenção, apenas. Um foi um pau mais grosso que entrou e eu senti me preencher toda. Quando ele saiu e veio pra minha boca percebi que era um japonês. Não era pra ser pequeno? Outro foi um enfermeiro que tinha um pau delicioso de chupar e quando ele entrou no meu rabo eu gemi muito gostoso. Era noite quando eu saí do transe. Bardo, exausto, abraçado na índia e sentado em um sofá, assistia o espetáculo. Todos meteram minha bucetinha e gozaram gostoso e quando acabou eu senti que ainda tinha fogo.

    Dei uma volta, dei uma beijo no Bardo e na índia, tomei um banho de piscina. Todo mundo bebendo e dançando e minha buceta ainda pegando fogo. Bati o olho na pista e vi o enfermeiro. Peguei ele pela mão e levei de volta pra cama. Ele não acreditava que eu ainda tinha gás. Joguei ele lá e cavalguei, sentei com força naquele caralho gostoso, gemi e banhei ele de squirt. Agora sim, satisfeita, voltei para a pista para dançar e curtir. Me sentia mais leve, tranquila e mais eu mesma.

    Não sentia vontade de voltar para ela mais.

    ***

    Bardo deu uma surtada. Ele encontrou um documentário de quatorze horas que explicava cada aspecto da vida humana e como éramos escravizados por nossas ideias mais queridas. Achei meio teoria da conspiração quando ele me disse mas, assistindo, chorei muito. Nós dois sempre tivemos essa ideia de que algo estava muito errado e esse filme dissecava tudo o que sempre conversamos a respeito.

    Ele começou a se envolver com um pessoal da permacultura que acreditava poder viver uma vida alternativa e, por conta disso, precisava ficar uma semana no meio do mato e a nossa namorada, que ia bancar a loucura, resolveu que ia junto – mas eu não.

    Inicialmente fiquei irritada, mas logo vi uma oportunidade de dar um tempo dela e curtir um pouco uns dias longe. Não queria ficar longe do Bardo, isso nunca tinha acontecido antes, mas talvez fosse bom. Peguei minhas coisas, minhas filhas e voltei para minha casa, mesmo sem ter dinheiro para nada. As avós estavam com saudades das meninas e deixei elas passarem uns dias por lá. Queria pensar na vida, no que eu ia fazer. E claro que sozinha mesmo eu não ia ficar. Sem sexo? Nem pensar.

    Peguei minha lista de contatos e comecei a dar uma olhada. Liguei para meus amigos e marquei uma foda diferente por dia. Porém, uns dias antes, acabei fazendo um show e fiquei interessada no baixista da outra banda. Desmarquei minha primeira foda e chamei ele. Era um cara bonitão, mais velho, voz grave, do jeito que eu gosto. Não demoramos muito no papo e no vinho e fomos aos beijos.

    Sozinha em casa, aproveitei. Joguei um colchão no meio do jardim, deitei nua sob a luz da lua, abri bem minhas pernas e mandei ele mostrar tudo o que podia fazer com a língua. Ele começou me beijando devagar, o corpo dele pressionando o meu, e logo foi descendo pelo meu pescoço, me arrepiando toda. Se demorou nos meus seios e foi descendo pela minha barriga, me beijando.

    Começou a lamber e beijar minha virilha e minhas coxas, devagar e sempre me fazendo arrepiar. Quando ele finalmente chegou lá, minha buceta era só suco. Escorria com gosto e eu sentia cada gota quente descendo pelo meu cuzinho. Ele então foi lambendo ao redor, chupando e mordiscando de leve, explorando cada milímetro de mim com paciência. Eu estava amando aquilo, mas minha buceta já estava pulsando demais, pedindo pau.

    Mesmo assim, deixei ele demorar. Ele enfiava a língua lá dentro e então subia até meu clitóris fazendo movimentos circulares. Uma delícia. Eu gemia alto, sem me preocupar com aquela vizinha que gostava de espiar pela janela. Quando vi que era hora, comecei a alisar o pau dele. Estava um tijolo. E era de um bom tamanho. Não aguentava mais de tesão, queria ele dentro de mim, mas também me deu vontade de dar uma chupada.

    Pulei pra cima dele, arranquei a cueca e coloquei ele logo todo na boca, sem cerimônia. Muito gostoso, como eu tinha imaginado. Minha buceta não aguentava mais e tive que pedir pra ele colocar uma camisinha: era hora de me foder com vontade. Ele me obedeceu e eu voltei a me deitar e abrir as pernas, oferecendo minha buceta encharcada e iluminada pela lua pra ele meter.

    O pau dele escorregou macio e quentinho pra dentro de mim. Caralho, que tesão. Adoro uma chupada demorada e um pau bem duro logo depois. Agarrei ele contra mim e fiquei sentindo ele entrando e saindo da minha buceta. Ele gemia no meu ouvido, eu gemia no dele e ficamos ali, um corpo só, metendo gostoso. Óbvio que lembrei do Bardo, que devia estar comendo aquela idiota em algum lugar e pensando em mim também. Queria que ele estivesse me vendo ali.

    Depois de me comer gostoso por muito tempo naquele papai-e-mamãe ele me colocou de quatro, segurou minha cintura e aí sim começou a me socar. Eu não estava nem aí pra quem ia ouvir: gritava e gemia alto, bem gostoso. Mandava ele me socar, mandava ele foder minha buceta com tesão. O pau dele estava uma delícia dentro de mim dando estocadas no meu útero. Gozei muito. A cama ficou toda molhada de squirt.

    Amei aquela noite. Combinei com ele de repetir no dia seguinte, mas na outra manhã aconteceu uma coisa mágica. Lembra do meu primeiro namoradinho, o pauzudo que comeu meu cuzinho na frente do diretor? Encontrei ele no Facebook e, por acaso, ele estava vindo para Porto Alegre fazer um curso. Ofereci minha casa para ele se hospedar. Desmarquei com o baixista e com a minha foda do segundo dia. Hoje vai ser dia de relembrar.

    É óbvio que eu estava louca pra saber como ele estava, se ainda era aquele moleque que me comia gostoso e, claro, se eu ia aguentar dar meu cuzinho pra ele de novo. Fui buscar ele no aeroporto e levei ele para minha casa. Não conversamos nada de mais no Facebook, foi bem formal, mas eu sabia que ele estava pensando o mesmo que eu.

    Quando ele entrou na sala e largou a mala no sofá eu não esperei o papo começar: pulei nele e dei um beijo na boca. Ele ficou espantado, disse que não esperava por aquilo. Não quis saber: ajoelhei, abri o zíper da calça dele e puxei para fora. Que saudades. Atolei tudo o que eu pude na boca e mamei como quem não mamava a anos. Lambi, chupei e punhetei até ele gozar na minha boca.

    Aí sim, recebi ele e ofereci um café.

    Batemos um papo, contamos sobre nossas vidas, mas eu não estava muito interessada. Eu queria era logo ele comendo minha buceta e já pulei pra cima. Ele estava meio apavorado, meio defensivo, mas eu não liguei. Arranquei a roupa dele, joguei ele no colchão que eu tinha metido na noite anterior – ainda estava úmido de squirt – e subi em cima dele. Ele tentou me parar para colocar uma camisinha. Nem pensar. Uma vez que eu senti no pelo vou querer assim para sempre. Sentei nele quentinho e senti ele me preencher todo, bem gostoso, como eu me lembrava.

    Que delícia. Desmarquei minhas fodas da semana toda e o pobre rapaz não conseguiu fazer todas as aulas do curso. Eu só queria meter o dia todo, a noite toda, aquele pauzão me arrombando o dia todo. O tempo todo eu pensava no Bardo. Ligava pra ele todos os dias contando como estava sendo. Ele comendo ela lá no mato e eu dando pro ex em casa. Divertido! Ele pediu para eu filmar, caso o rapaz fosse embora antes dele voltar. Filmei.

    No quarto ou quinto dia eu estava toda assada. Minha buceta pulsava e eu queria mais. Fiquei olhando para o pau dele e pensando que, se tinha sido difícil dar o cuzinho quando eu estava soltinha, imagina agora depois das duas filhas, apertada como eu estava. Não ia dar conta.

    Então ele começou a enrolar um cigarro. Era maconha. Eu nunca tinha fumado e não tinha o menor interesse em fumar. Enquanto ele fumava eu puxei papo sobre o dia do diretor e rimos muito. Casualmente comentei que não ia conseguir dar o cuzinho para ele mais, que não ia caber. Ele estendeu o braço e, me oferecendo o cigarro, disse que, se eu relaxasse, ia.

    Eu sou a louca dos chás e, bem, é uma erva natural, certo? Qual é a diferença entre fumar e um chá? Sei que só estava dando desculpas esfarrapadas e a vontade de dar meu rabinho para ele era imensa. Só não queria sentir dor. Peguei o cigarro e fumei. Me engasguei e tossi. Ele riu. Tentei de novo e foi fazendo efeito. De repente, tudo estava lento e girava devagar. Ele me colocou na cama de ladinho, lambeu meu cuzinho bem demorado e conseguiu colocar o dedo. A sensação era esquisita, não gosto de não ter controle do meu corpo, mas estava relaxado mesmo.

    Então senti o corpo dele todo colar no meu e o pau dele abrir espaço entre minhas nádegas. Ele encostou a cabeça e começou a empurrar devagar. Como naquele dia no corredor, cada centímetro que entrava era uma vitória. Doía um pouco, mas não o suficiente para estragar a brincadeira. Finalmente senti a virilha dele na minha bunda. Estava tudo lá dentro. Comecei a rir. Viajando, queria que o Bardo visse aquilo. Queria ver a cara do diretor de novo, estarrecido com aquela rola grossa todinha dentro da minha bunda. Fui rebolando gostoso e demoramos ali. Ele encheu meu cuzinho de porra e dormi, sorrindo.

    Bardo já estava louco longe de mim e eu longe dele. Ele me contou que ela estava morrendo de ciúmes dos meus vídeos e estava brigando o tempo todo, então ele resolveu voltar mais cedo. Chegou no final da tarde e me encontrou nuazinha cozinhando para o meu ex, que fumava um e tocava violão na sala. Bardo não quis nem saber: entrou em casa com o pau na mão, me ajoelhou na cozinha e me colocou pra chupar, enquanto cumprimentava o rapaz assustado na sala.

    Mamei, aquela mamada com saudade e vontade. Lambi como se não visse aquele pau uma vida toda. Ele gemia e me dizia como tinha saudades. Logo fiz sinal para o ex e chamei ele pra chupar os dois ao mesmo tempo. Ele veio tímido e eu fiquei imaginando se o Bardo ia se melindrar com aquele pau que era quase o dobro do tamanho do dele. Ele nem ligou, ficou curtindo enquanto minha boca revezava em babar os dois.

    Logo ele me deixou chupando só o ex e empinou minha bucetinha pra cima. Ergui bem a bunda e ofereci. Apesar de estar toda fodida e ardida eu estava doida pra sentir ele dentro de mim de novo. Ele meteu gostoso. Ardeu um pouquinho mas nem liguei. Fiquei chupando e levando na buceta ao mesmo tempo –  eu acho que é uma das coisas mais gostosas do mundo.

    Bardo gozou, encheu minha buceta de porra, mas o ex não. Ele estava um pouco assustado com aquilo, eu acho. Jantamos, conversamos um pouquinho e subimos para o quarto. Fomos pra cama e começamos a brincar. Eu de quatro mamando o Bardo e o ex metendo o pauzão na minha buceta molhada. Não tinha contado para o Bardo ainda que ele tinha comido meu cu. Ele nem ia acreditar, ia querer ver, e fiquei com receio de não aguentar uma segunda vez. Mas fiquei com aquilo na cabeça enquanto os dois me fodiam de todo o jeito, a noite toda, e não me aguentei: sabendo o que ia acontecer, contei pra ele. 

    Bardo me olhou com maldade, olhou para o pau do ex e mandou o que eu já esperava: isso eu quero ver! Sem o cigarro, demorei para relaxar. Primeiro dei o cuzinho para o Bardo enquanto o ex chupava minha buceta, até ficar bem soltinha. Quando senti que dava, me levantei e escorei contra a parede. Contei para o Bardo a história do diretor enquanto o ex entrava bem devagar no meu cu soltinho. Dava pra ver o pau do Bardo pulsando enquanto eu contava a história e o pau entrava, centímetro por centímetro, alargando tudo o que meu cu aguentava.

    Finalmente ele conseguiu atolar e ficou metendo devagar. Colocava tudo, deixava um pouco lá dentro, puxava pra fora até a cabecinha e voltava a empurrar. Eu estava em êxtase. Bardo me pegou pelos cabelos e me beijava enquanto eu gemia. Eu rebolava devagar e aguentei firme até ele encher meu cu de porra. Bardo não deu um segundo: quando ele tirou nem deixou a porra sair, entrou logo atrás e gozou também, me deixando toda melada. Fiquei imaginando se ele sentia o mesmo que eu quando eu via ele gozar em outra.

    Fomos pra cama e fiquei alisando os dois. Estava extasiada e cheia de tesão, mas minha buceta e meu cuzinho já não aguentavam mais nada. Dormimos. Na manhã seguinte a casa estava cheia: convidei todas as minhas fodas que desmarquei na semana e fomos todos brincar juntos. Bom que as mulheres me ajudaram: eu mal conseguia andar de tanto meter.

    A ex estava possuída com o fato de eu ter transado a semana toda enquanto ela estava fora. Não gostou de eu ter ido embora da casa dela, mesmo que ela não me quisesse mais. Bardo revezava as duas casas, passando mais tempo comigo por conta das crianças. Então ela resolveu se mudar para a minha casa. Reformou o matadouro e fez o quarto dela lá. Voltou a pagar as minhas contas e tentou remendar a paz me chamando para dormir sozinha com ela algumas noites.

    Eu não queria mais saber mas Bardo me pediu que desse uma chance, afinal, não era fácil encontrar quem nos entendesse, quem se alinhasse mesmo com a gente. Dei uma chance mas o conflito escalou rápido. Acabamos saindo no tapa, ela e eu, sobre alguma discussão idiota. Aquilo foi o limite para mim. Jurei que depois de livrar do meu pai nunca mais ninguém ia ter o direito de ser agressivo comigo.

    Pedi que ela fosse embora e ela foi. Para comemorar, dei uma festa no matadouro. Chamei os amigos e amigas e fodemos dois dias inteiros para lavar a alma. Foi um dia especial, filmei tudo. Estavam lá o Jéferson (o amigo maratonista do La Luna) e sua esposa, o casal da enfermeira, o Lu e sua esposa, o baixista e outros amigos maravilhosos. Eu não fazia a menor ideia de como ia viver dali para a frente, mas estava feliz. 

    Bardo continuou vendo ela. Pensei que era pela grana mas ele realmente tinha visto algo nela que eu não vi. Ela estava sendo amada, mas queria briga. Ele sempre voltava muito triste de lá. Ela dizia que me queria, ficava com ciúmes dos meus amigos e do fato de eu estar namorando o baixista mas não me tratava bem quando me via. Nunca consegui entender onde ela queria chegar com isso.

    ***

    Bardo estava animado com a ideia da permacultura e das ecovilas e começamos a visitar esses lugares e a entender essa vida alternativa de plantar o que se come, de não gerar lixo e poluição e aproveitar tudo. Aprendi mais sobre compostagem e sobre as ervas medicinais que eu valorizo tanto (minha avó polonesa era benzedeira) e comecei a imaginar que talvez fosse a solução para fugir da insanidade pela qual o mundo caminhava. 

    Conheci um outro cara no grupo de relações livres e ele nos convidou para uma viagem com uma outra galera da permacultura. Topamos a viagem e fomos.

    No meio do mato, aprendendo, acabei me aproximando do cara. Vamos chamar ele de Lucas. Quando fomos dormir descobrimos que não tinha cama para todo mundo e Lucas acabou deitando comigo e com o Bardo em uma cama de casal no chão, no meio da galera, em um albergue coletivo. Bardo e eu ficamos excitados e loucos para aprontar. Quando as luzes apagaram me virei de costas para ele e ficamos metendo bem quietinhos, só para ver se alguém ia perceber. Lucas, grudado em mim, percebeu e perguntou no meu ouvido se estávamos transando. Respondi enfiando a mão na cueca dele e batendo uma punheta até ele melar a cueca de porra.

    No dia seguinte passei o dia todo batendo papo com ele. Não estava afim de nenhum relacionamento mais profundo, mas ele tinha uma cabeça que parecia muito boa, umas ideias muito legais. Parecia com o Bardo em algumas coisas. Acabamos nos beijando e, à noite, na cama de casal, bati a punheta para o Bardo.

    Voltamos para casa e Lucas começou a aparecer por lá todos os dias. Ficava mais na dele quando o Bardo estava em casa e, quando não estava, fazia questão de me comer no matadouro. Era gostoso transar com ele. Tinha o pau pequeno mas eficiente, me lembrava o empresário e era fácil dar o cuzinho para ele.

    Nessa época eu tive um problema sério. Um cisto no ovário. Fiquei muito assustada e claro que passou pelo fundo da minha consciência que deus me punia por ser a puta safada que eu sou. O pensamento foi como veio. Era uma merda como essa mitologia tinha ficado impressa na minha vida. Ainda bem que minhas filhas não iam passar por nada disso, esse é o meu legado para a felicidade delas.

    Por conta do cisto, fui obrigada a tomar um anticoncepcional por um curto espaço de tempo e, já que tinha que tomar, eu não ia deixar barato. Queria usar aquelas semanas com vontade. Bardo e eu estávamos no centro da cidade e acabamos passando pelo apartamento do Lucas. Ele nos recebeu, mas percebi que não gostou muito de ter ido acompanhada. Ele mostrou um vídeo game e me convidou para ir para o quarto. Eu ainda acho incrível como o Bardo fica sereno, curtindo o momento dele, mesmo que eu esteja fodendo de gritar no quarto ao lado. Eu mesma não tenho essa alma toda.

    Começamos a meter e eu disse que ele podia meter sem camisinha. Ele amou a ideia e entrou quentinho na minha buceta. Ficamos ali curtindo por um tempo, mas eu estava incomodada com o Bardo não estar ali comigo. Chamei ele para o quarto. O amigo não gostou muito. Bardo chegou e fiquei mamando ele enquanto o outro me comia de quatro. Quando ele começou a gemer mais alto eu disse que ele podia gozar dentro. Bardo me olhou animado e senti os jatos de porra me preenchendo. Nenhum outro homem além do Bardo tinha gozado na minha buceta até ali – e esse título ainda se mantém apenas para os dois. 

    Quando ele tirou o pau senti a porra escorrendo por um segundo. Bardo pulou em cima de mim e meteu o pau com vontade, empurrando toda a porra de volta para o meu útero e gozando em cima. Eu estava arrepiada com aquilo, era delicioso demais levar porra de dois, um sobre o outro. Fiquei em êxtase!

    Comecei a curtir os dois com frequência – mesmo que Lucas não se mostrasse à vontade com o Bardo. Não queria saber. Eu tinha perdido um pouco o respeito pelas pessoas depois da ex. Me preocupei tanto com ela, amei ela de coração e ela foi má comigo. Então estava mais interessada no meu prazer, por enquanto.

    Lucas vendeu o apartamento e foi morar no matadouro. O baixista não gostou nada daquilo e, no meio de uma festa, resolveu terminar comigo. Aquele dia foi um desastre total. Fiquei muito triste e chorei no colo do Bardo. Foi uma cena que ainda acho estranha, o Bardo me consolando no sofá porque terminaram comigo, Lucas no outro sofá me olhando chateado, mas de certa forma feliz porque eu tinha um namorado a menos. A ex no outro sofá aborrecida com a atenção que o Bardo me dava e meio que comemorando meu namorado a menos também.

    Mais tarde, uma amiga bebeu um bocado demais e, no ânimo, baixou a calça do Bardo no meio da turma e começou a mamar ele. A ex ficou puta, deu um tapa no rosto do Bardo e saiu porta afora para nunca mais voltar. Um pesadelo a menos, obrigada.

    Bardo e eu nos olhamos. Naquele segundo algo se transformou em nós dois. Ele chamou a amiga de volta para o boquete e eu comecei a beijar todo mundo. Para que comer um de cada vez se dá pra comer todo mundo ao mesmo tempo? Naquele dia, eu nem imaginava, nascia o Clube do Amor. Um grupo maravilhoso de amigos liberais que passou a se encontrar todas as semanas para curtir o melhor da vida.

    No início éramos seis, depois sete, depois alguém trouxe mais um casal e quando vimos estávamos fazendo festas para oitenta pessoas. As festas começavam “preto e branco.” Um churrasquinho, cerveja e rock n roll. Aos poucos os caretas iam percebendo uma pegação de leve e indo embora, até que alguém puxava um colchão para o meio do jardim e começava a putaria generalizada.

    Chegou um momento em que a coisa ficou pública mesmo. Bardo colocava eventos abertos no Facebook convidando quem quisesse chegar e era lindo, só vinha gente legal mesmo. Toda a semana tinha brincadeira, sempre com pessoas novas e alguma loucura. 

    Foi numa dessas que o Bardo inventou de dizer que um homem é capaz de transar infinitamente se tiver sempre uma mulher diferente, que se um homem acabou de gozar mas uma mulher diferente estimular ele volta e goza de novo. Duvidamos, claro, e fomos à prova: Bardo e seis mulheres. E ele provou seu ponto, fodendo as seis – eu incluída, claro.

    Na semana seguinte resolvemos aprontar para ele e trouxemos doze mulheres. E ele foi até a oitava. Sabemos, então, por prova científica, que o limite é oito. Quando viu que não ia dar conta chamou um amigo novo que estava por lá e que tinha trazido um chicote de camurça – e acabou distraindo todo mundo com a brincadeira.

    Bardo fazia uma brincadeira aludindo ao Clube da Luta: se é sua primeira vez aqui, você tem que transar! E acabou pegando o nome: Clube do Amor. Eu com certeza não vou me lembrar de todas as fodas e de todo mundo com quem eu transei nos detalhes, perdi a conta de quantos homens e mulheres comemos e nos comeram nesse tempo. 

    Essa época dava um livro de pura putaria por si só, mas eu tenho algumas histórias favoritas.

    Eu estava na cama, extasiada, assistindo a turma metendo na minha frente. Adorava me sentar e ficar bebendo um vinho e olhando aquela pintura grega que se apresentava ali. Bardo, sentado atrás de mim, massageava minhas costas e assistia também. Os dedos dele foram descendo e, cheios de óleo, começaram a acariciar meu cuzinho. Ele sabia que eu não ia dar, mas ficou ali massageando mesmo assim. Depois de um tempo, me deu tesão e uma ideia.

    Fui aconchegando minhas nádegas no pau dele, dando a entender que estava liberando o rabinho. Ele foi colocando devagar e ficamos ali uma meia hora só brincando de botar a cabecinha, até que finalmente relaxei e ele entrou todinho. Abri bem minhas pernas e chamei o Lucas. Eu estava nos últimos dias de anticoncepcional e queria aproveitar. Convidei ele para minha buceta e quando ele entrou eu explodi em um gozo muito intenso. Nunca tinha experimentado uma dupla penetração, um caralho no cu e um na buceta ao mesmo tempo e foi incrível. Ficamos ali metendo gostoso por muito tempo, bem relaxada, e os dois gozaram dentro de mim. Fiquei deitada na cama até o dia nascer, sentindo a porra dos dois escorrendo de dentro, cada um de um buraco, me deleitando.

    Tinha esse guitarrista que tocava com a gente nas casas de swing às vezes. Ele era bem novo e era um gatinho. Chegamos em casa de madrugada depois de um show e ele precisava dormir por lá. Bardo e eu, safados, arrumamos a cama dele do lado da nossa, nos jogamos e começamos a transar na frente dele. Ele ficou congelado, de pé na porta do quarto, assistindo.

    Bardo, safado, perguntava no meu ouvido se eu queria meter com ele. E eu queria. Chamei ele com o dedo. Ele demorou um pouco e veio em passos lentos e pesados. Abri o zíper da calça dele, tirei o pau para fora. Estava mole. Fiquei com pena. Enquanto o Bardo me socava a bunda gostoso eu comecei a mamar ele, na esperança de endurecer, mas nada. Eu normalmente desisto, mas naquele dia ele estava com muita sorte. Puxei ele para a cama, arranquei a roupa e me sentei no pau mole, esfregando minha buceta encharcada como tinha feito com o amigo na casa de swing.

    Deu certo. Aos poucos o pau dele foi endurecendo e, quando a cabecinha encaixou na buceta, coloquei ele todo para dentro. Lá dentro, quentinho e molhado, ele finalmente virou um tijolo. Duro mesmo, pau de moço novo. Olhei para o Bardo e disse que ia dar daquele jeito mesmo. Ele meteu gostoso e gozou nas minhas coxas. No ano seguinte esse moço foi um dos meus favoritos nas festas. Ele adorava filmar, mas os vídeos com ele eu perdi quando ele arrumou uma namorada e apagou todos, infelizmente.

    Ainda assim ele e o Bardo me deram outra experiência fantástica: em outra festa eu sentava gostoso no guitarrista quando o Bardo veio por trás de mim. Imaginei que ele ia meter no meu cu para eu curtir outra dupla penetração, mas de repente senti o pau dele escorregando para dentro da minha buceta. Os dois estavam ali dentro ao mesmo tempo. Era como se fosse um pau enorme mas se movimentando como dois. Uma delícia total, gozei como louca e fiquei ali até não aguentar mais.

    Era divertido fazer esses malabarismos sexuais. Não tão gostoso, mas divertido mesmo. Aproveitei muito essa época para experimentar todo tipo de novidade com meu corpo com homens e mulheres. Gozei muito mesmo e não tenho nenhum arrependimento. Depois de muito experimentar comecei a entender melhor do que eu gostava e o que me satisfazia. Estar na suruba é algo lindo, de uma energia deliciosa, e eu amo esse ambiente de prazer. Às vezes gosto só de pegar um vinho, me sentar em um sofá e ficar assistindo, ouvindo os gemidos, sentindo o cheiro, vendo os peitos arfando e as peles se misturando. Também amo o ménage, seja ele no formato que for. Transar a três é muito gostoso e estimulante!

    ***

    Nossa casa se tornou um ponto de encontro de feministas que se reuniam para discutir políticas, atividades como a Marcha das Vadias e muitas pautas nesse sentido. Eu nunca falava nada, só ouvia. Para mim a ideia de feminismo é a de colaboração entre homens e mulheres, respeitando diferenças e buscando o bem estar de todos. Como diz o ditado: se organizar direitinho, todo mundo transa! E tudo o que eu queria eram homens que me respeitassem antes, durante e depois do sexo, um batalhão de Bardos que me deixassem livre para ser e fazer o que eu quisesse. Para esses homens minhas pernas estarão sempre abertas! Mas essa era a minha ideia, e só minha, pelo jeito que a conversa andava. Com o passar do tempo o discurso foi ficando cada vez mais agressivo e complicado.

    Patriarcado, machismo, sororidade, era todo um novo dicionário a se decorar para entrar na roda de conversa e esclarecer as ideias de amor livre deu lugar a explicar termos cada vez mais complexos e bizarros. Não éramos mais homens e mulheres, éramos um oceano de verbetes que prendiam o comportamento à uma definição e não ajudavam em nada: cis, pan, demi – isso se você tivesse o famigerado lugar de fala, claro. As pautas feministas, de raça, de classe, não eram sobre colaborar como humanos e esquecer essas diferenças. Eram sobre vingança, cobrança de “dívidas históricas” e uma busca por vantagens injustas para o outro lado, como se fosse um “agora é a nossa vez.” Como diz o ditado: o escravo nunca sonha em ser livre, ele sonha em ter um escravo. 

    Bardo começou a se aborrecer com as meninas e as apelidou de feminazis. Aos poucos, os homens começaram a se afastar e o grupo de mulheres ficava cada vez mais assustador, a ponto de andarem com navalhas e escreverem “corto pica” nos muros da cidade. Um dos nossos amigos foi escravizado por um grupo delas em um apartamento e precisou da intervenção da turma para sair de lá. Não vou nem mencionar o absurdo que era ser corrigida por não falar em “termos neutros.”

    O pessoal do LGBT (eram só essas letras) também andava por lá e inocentemente imaginamos que seriam abertos à nossa ideia de amor livre. Que nada. Quem diria que logo eles seriam os mais tradicionais. Ciumentos e possessivos, nos excluíram dos seus espaços e, mesmo fazendo parte do B, não era mais bem vinda. Começamos a desconfiar que esses movimentos não estavam a favor do amor, mas de alguma outra agenda, e nos afastamos. 

    Ficamos felizes quando percebemos que muitas outras pessoas estavam vendo esses movimentos como pouco legítimos, mas nossa esperança também durou pouco. Nossas ideias de amor livre começaram a ser taxadas como, pasme: comunistas. Ficava me perguntando se estava no Brasil ou se tinha sido sugada para a guerra fria nos Estados Unidos. A ideia de acusar as pessoas de comunismo ao menor movimento contra as estruturas tradicionais também evitavam qualquer discussão que levasse ao progresso dos sentimentos e comportamentos. Estávamos presos entre duas filosofias horríveis, vendo nossos amigos divididos, todo mundo errado e ninguém transando. 

    Lucas mergulhou nessas ideias e vinha com conversas cada vez piores. Começou a se tornar ciumento e possessivo, tinha ciúmes e inveja do Bardo e começou a ter ataques violentos e a quebrar coisas dentro de casa. Bardo, que considerava ele um irmão, dedicou longas horas de conversa, mas não adiantou: em um ataque de fúria ele me pegou pelo pescoço e me prensou contra a parede. Mais um homem que me perdia para as ideias idiotas da época. Ele se foi.

    Eu andava muito preocupada com a internet. Cada dia mais as ideias ruins de cada um dos lados cresciam nas redes sociais. Nomes que nunca ouvimos falar se tornaram populares, cada um tentando ser o Adolf Hitler da sua época. Alguns prosperaram, como um deputado do Rio de Janeiro que crescia em cima de falas polêmicas sobre o outro lado e alguns sumiram do mapa, assassinados ou fugindo do país. O que esquecemos de aprender com nosso passado?

    Era um bombardeio. Com o app do facebook para telefone e a popularização da 4G as pessoas passaram a ficar com a cara enfiada naquilo o dia todo, absorvendo mentiras e idiotices. Não havia espaço para falar de amor no meio de tanto ódio. Aos poucos essas ideias ruins foram minando nossa turma. Imbecilidades como dizer que você leva o “karma” das pessoas que transam com você, desinformação sobre DSTs e novos “nós contra eles” todos os dias. Logo uma parte do grupo se dizia de direita e não transava mais com quem se dizia de esquerda. 

    Eu assistia a tudo, incrédula. Pareciam bonecos de marionete.

    Não podíamos ficar calados vendo as relações entre as pessoas se destruir daquela forma. Nós lutando por mais amor e as pessoas lutando por causas que não eram delas e desfazendo amores, amizades e até mesmo laços familiares. A quem serve essa distância? Bardo começou a falar com jornais, revistas e canais de TV e acertou em cheio: conseguimos uma participação no programa Superpop da RedeTV! Bardo fez questão de que fosse ao vivo, para que não pudessem editar nossas falas, e eles toparam.

    Pegamos um vôo para São Paulo e participamos do programa – você pode encontrá-lo na íntegra no Youtube – e conseguimos dar nosso recado. Foi muito bom! Enquanto aguardamos no camarim, Luciana Gimenez e sua colega foram conversar um pouco. Batemos um papo muito legal e elas disseram que estavam surpresas com nosso nível de esclarecimento, que tinham planejado um programa de polêmica e treta mas que iam nos deixar passar essa mensagem da nossa maneira. Fomos muito bem tratados por elas e pela produção. No dia seguinte, aproveitando nossa presença por lá, participamos de um documentário sobre Poliamor – outra palavra que estava nos irritando – e conseguimos contar mais um pouco do nosso estilo de vida.

    Nosso objetivo em publicar essas informações e ter a banda sempre foi só um: mostrar para outras pessoas que existe uma alternativa e que é possível viver fora da monogamia. Nunca tivemos a intenção de mudar a maneira como as pessoas escolhem pensar. Só queremos atrair aqueles e aquelas que já pensam parecido. Mesmo assim, o “nós contra eles” nos alcançava o tempo todo, dificultando a informação. Até mesmo entre o povo do amor livre se criou uma lista de nomes para como cada um via a liberdade: os hierárquicos, os pirâmides, os Ts, os Vs, os paralelos. A liberdade agora tinha que respeitar contratos e ninguém comia mais ninguém.

    Mesmo assim, a exposição foi positiva. Pessoas do Brasil todo entravam em contato pelas redes sociais querendo saber mais e querendo contato direto conosco – que é tudo o que queríamos. Bardo fechava mais datas para a turnê, cada vez mais longe, e estávamos animados.

    Com uma das nossas namoradas gravamos o primeiro episódio do documentário Amores Livres, do João Jardim, e foi incrível! O diretor foi delicado e entendeu nosso ponto de vista perfeitamente, fazendo uma belíssima edição da nossa entrevista. Também conseguimos algumas aparições locais na TV, rádios e uma entrevista na revista Marie Claire: essa foi um lixo completo. Era para ser um diário de quatro pessoas vivendo um amor livre mas foi recortado e distorcido para parecer uma grande e cansativa treta. Odiamos.

    Finalmente, conseguimos contato com a MTV. Eu queria muito estar lá onde ia poder falar de amor e mostrar minha música ao mesmo tempo. Fomos contratados para fazer um reality show chamado Adotada MTV com a Mareu. Ela é um amor de pessoa e mantemos algum contato até hoje, mas o programa não foi tudo o que queríamos. A namorada que gravou o Amores Livres, escolhida para gravar com a gente, arrumou treta a semana toda e isso foi o foco das gravações. O baterista não estava facilitando minha vida naqueles dias também.

    ***

    Nossas viagens pelas ecovilas e cursos de permacultura começaram a se tornar uma grande decepção. O ódio já tinha chegado lá também, assim como tudo tinha sido precificado e virado curso ou “imersões” cada vez mais caras e voltadas à um público de apartamento que só queria mesmo era fugir de um emprego e, ao dar de cara com um lote pra carpir, voltava correndo com o rabo entre as pernas para seu concurso público. 

    O ápice da decepção foi um grupo de 300 pessoas que resolveu se unir para comprar uma terra e começar uma vila do zero. A ideia era linda e ficamos todos muito empolgados. Começamos a conversar sobre como seria. De repente, alguém se levanta e diz:

    – Eu sou cristão e gostaria que houvesse um templo para o meu deus lá. – O pessoal do Hare Krishna concordou, desde que houvesse um templo Hindu também. Mas outros se opuseram alegando que a mitologia era uma das doenças humanas, ideias manipuladoras de opressão. Com isso, a turma se dividiu ao meio e voltamos a nos reunir com os 150 que não queriam religiões por lá. Alguém se levantou e disse: 

    – Eu sou vegano e não vou viver em um lugar onde se abatem animais. – A galera do churrasco foi à loucura e o povo se dividiu ao meio. Outras questões foram levantadas, como o uso de tecnologias, o acesso à internet, leis, governo e responsabilidades. No final ficamos Bardo, eu e mais um casal – que se separou semanas depois.

    Hoje em dia eu tenho maturidade para admirar os nossos governantes. Não é nada fácil organizar uma turma com tantos gostos diferentes em cidades tão grandes em uma democracia, por mais falha que possa ser. Impossível agradar uma pessoa completamente, imagina milhões. Comecei a focar em outra ideia que Bardo viu em um blog: algumas bandas nos EUA e Europa estavam fazendo turnês na casa dos fãs. Para nós a ideia era incrível – ainda mais se pudéssemos tirar uma casquinha desses fãs! Ele começou a lançar a ideia e a começar um financiamento coletivo, chamado Fã VIP Bardo e Fada. Logo os primeiros fãs se inscreveram e uma rota de viagem começou a se formar.

    Chamamos o guitarrista que gravou o Lovebox, o outro guitarrista que eu gostava de transar e um baterista e começamos a gravar um novo disco, o Sarcástica Fábrica de Fantasias. Escrevi a música título e também Amores Livres para abrir o disco. Uma fã enviou a letra de Avuá e adicionamos Petra Joy, do filme pornô e Prisão, do nosso disco de 2009. Bardo escreveu as outras canções.

    Com pouco recurso, gravando em casa e no meio de uma putaria sem fim, acabamos enrolando por um ano e meio a gravação que era para ter sido feita em semanas. Bardo estava namorando nove pessoas ao mesmo tempo e passava mais tempo metendo que tocando. Eu estava namorando a banda toda e alguns amigos e amigas. A verdade é que aquilo estava bom demais, a turma era muito gostosa e nem dava vontade de ir embora. Por outro lado, já não tinha mais dinheiro para nada, vivíamos de poucos shows, alguns eventos em casa e da grana que os namorados nos davam para ajudar a continuar gravando (ou para nos manter por lá infinitamente).

    ***

    A casa em que vivíamos, aliás, era uma boca de fumo. Deixa eu explicar essa história: a casa dava de frente para um beco. No final do beco era o início de uma favela. Onde os moços da entrega trabalhavam? Na porta da minha casa. Comecei a estranhar aquele movimento ali. Carros caros iam e vinham o tempo todo e os meninos entregavam coisas rapidamente e pegavam dinheiro. Um dia, Bardo voltando do supermercado encontrou os moços sentados na frente da porta fumando maconha. Ele fez uma cara de irritado e gritou:

    – Vocês são mesmo uns filhos da puta!

    O rapaz levantou e puxou uma pistola. – O que foi que você disse?

    – Que vocês são filhos da puta! Ficam aí fumando maconha na porta da minha casa e nem oferecem!

    O rapaz desarmou – tanto a pistola quanto o espírito – e caiu na gargalhada.

    – Poxa cara, a gente não sabia que tu fumava não! Pega aqui ó.

    Bardo não fuma, na verdade, mas a partir desse dia ficamos numa boa com os moços. Eles cuidavam da rua, dos carros estacionados durante as festas e de nós quando chegávamos de madrugada com o equipamento de som. Conversando com eles dava para ver o quanto estavam perdidos, sem nenhuma opção na vida, e eu me sentia muito parecida com eles – com exceção dos tênis e telefones deles que eram muito melhores que os meus.

    Os traficantes não se metiam na nossa vida. Eles nunca perguntaram nossos nomes nos três anos que vivemos lá. Mas eles ficavam observando todo aquele movimento de gente e os beijos na boca de chegada e despedida no portão. Foi em um dia que uma namorada nossa chegou para me emprestar o carro. Ela chegou no portão, deu um beijo na boca do Bardo, deu um beijo na minha boca e me deu a chave do carro. Fui embora e ela ficou. Os moços correram para o Bardo perguntar que loucura era aquela e se eu não ia matar ele por beijar outra mulher. Pacientemente ele explicou como funcionava e eles ficaram alucinados com a ideia.

    Alguns dias depois, Bardo voltava do supermercado e eu esperava no portão. O chefe dos traficantes pulou de dentro do beco gritando: – Ô gente boa! – (era como ele chamava o Bardo) – vem aqui para eu te perguntar uma coisa! – De repente, como um dragão rasgando o asfalto, a mulher do traficante sai atrás dele, aponta na cara do Bardo e grita:

    – Com esse aí tu não fala! Esse aí é má influência! – E levou o moço embora pelo colarinho da camiseta. 

    Eu só ia entender isso muitos anos depois em São Thomé, mas usar cocaína é muito mais aceito do que ser livre no amor.

    A violência crescia cada vez mais em Porto Alegre. Quando mudamos para lá era mais tranquilo. O carro da polícia passava pelo beco, coletava alguma coisa e todo mundo trabalhava em paz. Depois de um tempo os sons de tiro foram ficando cada vez mais comuns e cada vez mais próximos. Deitada na cama, escorada na parede, senti um baque nas minhas costas. No dia seguinte fui olhar pelo lado de fora e o tijolo tinha segurado uma bala perdida que podia ter me matado.

    Começamos a treinar Krav Maga com dois oficiais da polícia federal. Eram truculentos e tinham aquele olhar semi vazio de quem já tirou uma vida humana, ou várias. Eles nos contavam histórias sobre uma facção que estava tomando a cidade e que decapitavam os oponentes. Bardo achou que era historinha de terror, até encontrarem uma cabeça na esquina do beco.

    Treinar Krav Maga para mim é uma recomendação. Toda mulher deveria fazer. Aprendi a me defender sem força, com técnica, mas a melhor parte foi aprender a mentalidade que me permitiu nunca precisar usar a parte física: o Krav Maga me ensinou a prever uma situação de risco muito antes dela acontecer e evitar problemas ao invés de ter que sair deles. Hoje estou muito mais atenta e não dou mole para ninguém. Isso ia me ajudar muito nos próximos anos de estrada.

    *** 

    Foi em um domingo à noite, gravando Avuá, que vimos o tempo fechando ao longe sobre o Guaíba. Uma nuvem escura, relampejando, muito pior do que qualquer tempestade que tínhamos visto antes. De repente, a energia elétrica se foi. O vento batia a porta com força e eu, animada, gritei:

    – Piscina!

    A piscina era uma daquela de plástico, redondas, armada lá fora. Todo mundo saiu correndo e pulou na água –  menos eu. Fiquei olhando a banda e uma fã rindo e se divertindo. Um galho caiu da árvore perto deles e ficaram assustados, correndo para dentro de casa. Sem poder gravar, fomos todos para minha cama e ficamos nos chupando por lá. O baterista começou a dar sinais de ciúmes dos guitarristas e foi sentar em um canto fazendo cara de bunda. Não liguei e continuei me divertindo. Bardo começou a reclamar de febre. A fã e eu curamos ele na bucetada, já estava bem pela manhã.

    A tempestade foi horrível. Ficamos dias sem energia elétrica e o parque da cidade foi virado do avesso: árvores centenárias foram arrancadas pela raiz com a força do vento. Vendo aquele cenário caótico resolvemos gravar o clipe de Só Mais Blues e ficou incrível! Ele está disponível no Youtube. Fomos para o parque com outra fã e ela, sem experiência nenhuma, filmou as câmeras móveis. Enquanto fazíamos nosso trabalho, dezenas de homens com motosserras limpavam o lugar e cortavam as árvores. Quando saímos do parque um homem nos abordou, apavorado, perguntando se estávamos lá dentro aquele tempo todo. Explicamos que sim e falamos sobre o videoclipe. Então ele nos disse que aqueles homens com motosserras lá dentro eram presidiários trabalhando na limpeza. Podia ter sido um filme de terror, então, mas foi só engraçado.

    Terminamos de gravar e o guitarrista do Lovebox, ao invés de se juntar a nós na turnê, foi embora para o interior para cursar a universidade. Ele ficou responsável pelas mixagens e masterização e nós começamos a fazer os shows que eram ali por perto antes de pegar a estrada para valer. No primeiro show, uma surpresa: o outro guitarrista nos deixou para ficar com a minha ex. Que reviravolta. Bardo largou o baixo e assumiu o violão e o show que era para ser com duas guitarras ficou meio brocha. Mesmo assim fizemos. Não foi como queríamos. Era para ser na casa de uma fã, no aniversário dela, mas ela decidiu fazer em um bar. Tocamos para ela, os amigos dela e nossos amigos e depois do show, quando queríamos fazer uma suruba com a turma toda, o baterista deu um chilique e foi todo mundo para casa.

    Continuamos. O segundo show também era para ser na casa de uma fã, mas ela também resolveu fazer no bar. Fizemos o show para ela e os dois namorados dela e mais ninguém foi lá nos ver, nem nossa turma. Um desastre. O terceiro show foi na casa de uma fã – apenas para ela, os pais e a irmã. Não era bem o que estávamos imaginando para essa turnê. Sem os guitarristas por perto, o baterista pegava cada vez mais no meu pé como se eu fosse a namorada só dele. Estava me irritando.

    Conversando com os próximos fãs pela internet, Bardo se deu conta de um fato terrível: as pessoas não tinham amigos para convidar para o show nas casas delas. Aquela história de “nós contra eles” estava dividindo tanto as pessoas que já não haviam mais amizades para compartilhar.

    Para piorar, Porto Alegre entrou em caos. A polícia, sem receber seu salário, resolveu não sair do quartel e os traficantes resolveram que era hora de trocar os seus líderes. Foi em uma questão de dois dias que todos os moços que faziam as entregas na nossa porta foram assassinados e o chefe deles (aquele que a esposa odiava o Bardo), infelizmente, eu presenciei. Tocava piano na sala com a porta aberta quando quatro homens entraram no beco e descarregaram as armas nele. Fechei a porta horrorizada e morrendo de medo que tivessem percebido o que eu vi.

    Todos os dias ouvíamos explosões de dinamite nos bancos ao redor, helicópteros com atiradores de elite sobrevoavam nossa casa, tiros de metralhadora e fuzil eram sons comuns. Não dava para ficar ali mais. Bardo então marcou nosso primeiro show em uma cidade distante, o aniversário de um fã que era daquela turma dos 300 (que não eram nem os de Esparta e muito menos os que iam fundar uma vila).

    No dia 16 de novembro de 2016 colocamos o equipamento, as malas e as crianças na Doblô do baterista e pegamos a estrada. Vamos espalhar o amor!

  • Capítulo 7 – Horizonte Infinito

    Com minha carteira de motorista recém tirada – um sonho realizado – botei o pé no acelerador. Íamos fazer trezentos quilômetros até a cidade onde nosso guitarrista estudava e também onde nosso primeiro fã de longe morava. Estava empolgada. Tudo o que eu tinha estava no porta malas e as pessoas que me importavam estavam dentro do carro comigo.

    Os amigos ficaram para trás, mas não era para sempre: saímos com a missão de espalhar as ideias de amor livre, encontrar as pessoas que concordam com isso – e que provavelmente sofrem o que sofremos – e criar uma rede de amores pelo país todo. Era uma questão de tempo, alguns anos talvez, até essa turma ser forte e viajarmos pelo mundo todo em busca dos nossos afins.

    Não era uma questão de convencer ninguém. Isso já estava ficando irritante o suficiente na internet e ninguém mais precisava de mais um idiota dizendo que a sua ideia de vida é melhor que a dos outros. O que queríamos era apenas encontrar pessoas com a cabeça já feita para o amor sem as amarras de uma relação a dois.

    Saímos de Porto Alegre. Pegamos a Rodovia do Parque e seguimos, como dizem os catarinenses, reto toda a vida! Eu podia sentir o calor do asfalto no meu rosto, o cheiro da estrada e o melhor de tudo: não fazer ideia do que me esperava no horizonte.

    Claro que eu tinha expectativas. Era uma cidade conhecida, já tínhamos tocado algumas vezes por lá e tínhamos muitos fãs. Depois de algumas horas de uma viagem tranquila, chegamos na casa do nosso anfitrião. A esposa dele era uma gata, mas ele era da turma da permacultura e não da turma do amor livre, então não tinha certeza se ia poder dar umas mordidas nela. A casa era linda e fomos muito bem recebidos, acolhidos e instalados.

    Sentamos à mesa e batemos papo. Bardo e eu sempre tentando puxar a conversa para o amor, mas o baterista e o fã estavam mais interessados em discutir política e a ameaça iminente de um deputado desconhecido que queria ser presidente. Parece que dali não ia sair muita coisa e o baterista me soava cada vez mais como um fardo, alguém que ia atrapalhar muito a missão.

    O fã decidiu, para nossa imensa decepção, fazer o show no bar também. Parecia que as pessoas não estavam muito dispostas a abrir suas casas para estranhos, ainda mais correndo o risco de acontecer uma suruba logo depois. Uma pena. Eu fico honestamente chateada com tantas festas que fui na casa das pessoas onde estava tudo bem beber até vomitar o banheiro todo, cheirar em cima da mesa de centro da sala, ter DRs no meio de todo mundo e até sair no soco. Mas foder? Credo, imagina, que horror! Vai entender esse povo.

    Meio desanimados, fomos para o bar. Para nossa surpresa, centenas de pessoas na porta, esperando! Que loucura! Entramos no prédio e montamos o palco. Passamos o som e nos sentamos à mesa esperando a hora de começar. As portas abriram e ficamos olhando para ver o bar lotado de fãs animados. É hoje! Não era. Ninguém entrou. Parece que aquelas pessoas lá fora não queriam nos ver, ou não queriam pagar dez reais por isso. Nem a namorada do anfitrião foi. Fizemos o show para o fã e dois amigos do guitarrista. Fiquei imaginando a cena toda. Os primeiros shows vazios e, com o tempo, nosso público aumentando até chegarmos a um estádio lotado. Aquilo me animou e cantei como se estivesse naquele estádio. Foi um show foda! Os amigos do guitarrista me cumprimentaram no final dizendo que fazia muito tempo que não viam uma banda com tanta energia por ali.

    Na hora de ir embora o baterista estava tranquilo. Sem público, sem suruba, certo? Voltamos para a casa do fã, largamos o equipamento, peguei o Bardo e saímos. Não ia deixar barato. Não ia fazer um show sem uma putaria depois. Acabamos na casa de um casal que não foi ver nosso show, mas queria a festa.

    Estava em um misto de desejo e fúria. Estava com raiva deles porque não foram ouvir minha música, mas estava feliz porque queriam transar. Eu não imaginava ainda o quanto isso ia se repetir. Coloquei os dois de joelhos na minha frente e mandei ela chupar minha buceta e ele meu cuzinho. Fiquei ali, de pé, curtindo e olhando os dois se divertindo comigo. Bardo estava sentado na cama tomando uma cerveja e batendo uma punheta.

    Me chuparam até eu gozar. Arrastei os dois para a cama e joguei ela para o Bardo. O marido não me interessava muito, então deixei ele só me chupando a noite toda enquanto Bardo virava ela do avesso. Metemos até o sol nascer. Era assim que eu queria, era assim que ia ser.

    Voltamos para a casa do fã e tomamos café da manhã. Ele estava envergonhado pela falta de público no show e eu estava chateada porque nem conseguimos falar sobre as nossas ideias no meio de tanta conversa bosta sobre política. Enfim, não beijei aquela namorada linda dele.

    O baterista estava puto com a minha saída noturna e ficava me puxando para os cantos, onde o Bardo não via, e me aporrinhando. Guardamos tudo no carro e, na hora de fechar o porta malas, o mala conseguiu deixar o dedo para trás. Pronto. Agora eu tinha um baterista sem uma mão.

    Nos despedimos e seguimos para a próxima cidade, onde um casal de fãs do swing nos esperava. Eram amigos de longa data. Nos conhecemos em uma festa deliciosa no litoral, anos atrás, mas ela estava grávida na época e não rolou nada entre nós. Ainda assim, tenho um vídeo daquela festa. Bardo e eu fodendo uma carioca linda que apareceu por lá. Que mulher deliciosa!

    Chegamos e fomos muito bem recebidos e acomodados. Eu podia me acostumar com aquilo. Bardo brincava sobre uma teoria que ele leu uma vez. Ela dizia que se você é uma pessoa agradável e sabe ser discreto, seria um prazer para seus amigos receber você para almoçar uma vez ao ano, talvez ficar para jantar e, por que não, dormir por uma noite. E se você tivesse 365 amigos poderia fazer isso o ano todo sem incomodar ninguém. As pessoas iam até fazer questão que voltasse. Talvez fosse o que ia acontecer conosco dali para a frente.

    Essa cidade, por acaso, também era onde morava a lendária Mariana Cu de Beija-flor e Bardo não perdeu tempo: ligou para ela e foi lá se deliciar naquele cuzinho gostoso. O baterista aproveitou a oportunidade para ficar na minha orelha dizendo que aquela viagem não ia dar certo, que não íamos conseguir sustentar, que o Bardo era um idiota e que ia acabar nos matando. Aí que eu fui entender outra coisa que ia se repetir infinitamente: as pessoas tem uma mania muito ruim de pensar que eu faço o que faço porque o Bardo me convence a fazer. Isso está muito errado em todos os níveis possíveis. O Bardo só anda comigo porque me deixa em paz fazendo tudo o que eu quero fazer. Não só isso, ele ainda apoia qualquer ideia doida que eu tenha. Mas adianta explicar?

    Dessa vez a festa deu certo. Ou quase certo. O nosso anfitrião, sendo um músico, convidou todos os amigos, também músicos, para a casa dele. Logo umas quarenta pessoas estavam por lá. Teve churrasco, cerveja, animação, bem como imaginávamos. Eram quatro bandas e todas elas tocaram o dia todo. Bardo e Fada era a atração principal e ficamos para o final.

    Como ficamos sem os guitarristas e o baterista machucou a mão, tivemos que ser engenhosos. Pegamos as gravações do estúdio e criamos um playback, assim Bardo e eu pudemos tocar só os dois. Ficou bom, mas não era ao vivo. Quando os amigos do anfitrião viram como estávamos fazendo nossa música simplesmente se retiraram. Não ouviram nosso show. Não sei se foi por purismo ou puritanismo, mas foi o que aconteceu. Não fomos ouvidos.

    O mesmo aconteceu com nosso bate papo. Era só mencionar amor livre que os casais se agarravam como se fossem vinhas e saíam correndo. Um grupo de gays, amigos da Mariana, chegou a ser deselegante nos xingando e nos chamando de promíscuos. Os mais corajosos já vinham com a ladainha de DSTs e a famigerada “energia do outro que fica na alma.” Não era ali que encontraríamos algum afeto.

    A esposa do nosso anfitrião era professora na Universidade e nos disse que estava de férias forçadas. Aparentemente os alunos tinham ocupado a instituição em uma espécie de greve. Pensamos que seria interessante passar por lá. Gente revoltada adora uma ideia fora da caixa. Quem sabe encontramos alguém afim?

    Fomos até a Federal e encontramos um monte de alunos acampados por lá. Eles tinham algumas demandas que não estavam sendo atendidas e resolveram se rebelar. O governo parecia não se importar. Não tinha polícia. Sequer algum funcionário. Só os alunos gritando sozinhos uns para os outros. Pedimos aos organizadores se podíamos fazer um bate papo sobre amor livre e acharam o máximo. Bingo! Palestramos sobre nossa relação e sobre como era possível amar e permanecer livre. Fomos bem recebidos e aplaudidos. Não conhecemos ninguém interessado em nós, mas a semente foi plantada e sabe-se lá o que aconteceu com a vida daqueles jovens depois.

    Tentamos ter algum momento gostoso com nosso casal de amigos, mas o baterista empatava todas as oportunidades. Comecei a entender que ele não estava na mesma vibração, que só estava fazendo o que todos fizeram até ali: querendo me separar do Bardo e ficar só comigo. Pobre sonhador.

    Bardo se divertiu com a Mariana mas eu passei batido. Não peguei ninguém. Show lixo e sem suruba. Não desanimei. Próxima cidade, por favor?

    Era a última data marcada: Chapecó, em Santa Catarina, minha cidade natal. Depois disso era sorte. Finalmente íamos sair do Rio Grande do Sul e eu estava extasiada. Por mais que eu tenha feito minha vida ser interessante, aquele lugar para mim era uma âncora, era atrasado, nossas ideias nunca iam florescer lá.

    Partimos. No meio do caminho encontramos uma tirolesa de mais de um quilômetro, que atravessa o Rio Uruguai do Rio Grande do Sul para Santa Catarina. A maior tirolesa do Brasil, eles disseram – o que ia virar uma piada recorrente no futuro. Subimos uma montanha em um jipe e pude ver o outro estado lá de cima. Coloquei os equipamentos e voei! Que maneira maravilhosa de entrar para essa outra fase, para esse outro lugar!

    Fomos recebidos por um casal de amigos de longa data, um casal super rock n roll e liberal que conhecemos na cidadezinha do interior que vivemos anos atrás e que tinha se mudado para lá. Nos acomodamos. Era uma casa simples e muito animada. Eles tinham filhas e a molecada já saiu para se divertir juntas.

    O marido resolveu preparar o jantar. Sentei com o baterista maneta na cozinha e ficamos de papo. De repente, uma batida na parede. Tum. E outra. Tum, tum. E a cadência aumentava. Logo se seguiu um gemido. O marido, sem olhar para o lado, corou. Bardo fodia a mulher dele no banheiro. 

    Eu sentada na cadeira da mesa da cozinha, ele cortando legumes e aquele bumbo na parede, ela gemendo e um clima no ar. O baterista me olhava enfurecido. Ele achava uma falta de respeito do Bardo sair comendo as pessoas assim o tempo todo. Ainda mais a mulher do próximo quando o próximo está próximo. O marido não olhava para mim. Com medo? Com vergonha? Não sei. Só sei que aqueles gemidos estavam me deixando toda molhada e eu precisava fazer alguma coisa.

    Levantei de ímpeto e fui até o banheiro. A porta estava trancada. Será que bato à porta e corto o clima deles? Achei melhor voltar. Entrei na cozinha e ele finalmente olhou para mim. Percebi que estava com medo de me dizer qualquer coisa e se eu não tomasse a iniciativa ele ia morrer ali de pé.

    E eu, cada vez mais, odeio ter que tomar a iniciativa. Mas os gemidos não paravam e a batida na parede ia mudando de lugar. Na minha cabeça Bardo estava fodendo ela em todas as posições possíveis e imagináveis, provavelmente no pelo e ia encher a buceta dela de porra.

    Pedi ao baterista que pegasse uma coisa no carro para mim. Alguma coisa que não estava lá, para que ele demorasse procurando. Me levantei e fui até o marido. Virei ele na pia e lasquei um beijo. Ele veio meio mole, meio que sem vontade. Que merda. Meti um foda-se, me ajoelhei e abri o zíper dele, pensando que se tivesse um pau mole ali eu ia dar um soco no saco.

    Mas não, o pau estava duro, bem duro. Então era só medo de mim mesmo e isso eu cansei de ver nas casas de swing nos anos anteriores. Peguei com a mão, senti dar uma pulsada e ele soltou um gemidinho meio engraçado. Tentei olhar no olho dele mas não encontrei nada. Então meti na boca.

    Tinha dado umas três boas chupadas quando o baterista rompeu na cozinha me xingando de vagabunda, dizendo que Bardo e eu só pensávamos em putaria e que nunca íamos chegar a lugar nenhum assim. Com a gritaria, Bardo saiu do banheiro com a mulher. O cara continuava escorado na pia, zíper aberto e o pau – ainda duro – para fora. Assim que eu gosto, guerreiro.

    O bate boca foi longe, o pau acabou morrendo e a janta foi no maior climão. Bardo, como sempre, na maior parcimônia do mundo, acalmando a galera e colocando tudo no lugar. No dia seguinte os amigos dos nossos anfitriões vieram e fizemos um bom show. 

    Montamos nosso equipamento e dessa vez ninguém achou ruim usarmos o playback. Eles eram fãs de verdade e cantaram Chifres São Coisas da Tua Cabeça a plenos pulmões! Pularam, dançaram e curtiram. Era isso que queríamos ver! Me animei. Saí realizada do nosso palquinho e ficamos bebendo e batendo papo ao redor da fogueira entre umas 12 pessoas.

    Quando me dou conta, cadê o Bardo? A próxima pessoa que procurei foi a esposa. Sumiu também. Já sabia onde procurar. Fui até o banheiro e colei o ouvido na porta. Ela gemia abafado. Dessa vez não quis saber, já estava bêbada e com o tesão reprimido da noite anterior. Meti o pé na porta e peguei ela escorada com as mãos na parede, rabo empinado e Bardo socando sem dó.

    Pau no cu deles que não me chamaram. Fui me ajoelhando na frente dela e metendo a boca na buceta. Bardo, muito cordial, tirou o pau pra me deixar chupar a vontade e meteu no cu. Fiquei lambendo e chupando aquela buceta encharcada tomando bolada no queixo.

    Dei risada, alto. Era assim que eu tinha imaginado viver dali para a frente. Música, putaria, estrada, repete. Ela gozou na minha boca e Bardo gozou no cuzinho dela. Então finalmente chegou minha vez. Os dois me levaram dali para o sofá da sala – onde de vez em quando alguém passava para pegar alguma coisa – e se dedicaram a me arrancar vários orgasmos e squirts.

    Ah, agora sim. Era o que eu precisava para aliviar aquela tensão toda. Eles me dedaram, me chuparam, me foderam. Fiquei esperando que mais alguém passasse por ali e se metesse na confusão, mas não. Pelo menos algumas pessoas se dedicaram a sentar ao redor e assistir, inclusive o marido. Adoro ser observada transando. Gosto de olhar nos olhos do público e passar a mesma energia que passo quando estou cantando.

    Quem foi naquele dia viu dois shows.

    No dia seguinte era aquela ressaca e buceta ardida. Amo. Estava um calor infernal e ficamos bebendo, fazendo churrasco e batendo papo. Começou a chover e curtimos um banho de chuva nus – menos o baterista, que estava de mau humor e com a mão ainda zoada.

    Uma das fãs que estava nos assistindo transar na noite anterior nos convidou para dar uma volta de carro pela cidade. É minha cidade natal, mas fui embora muito criança e não conhecia nada de lá. Vi a estátua do pioneiro e as ruas da cidade, muito bonita!

    Então ela começou a dirigir para fora da cidade, disse que queria mostrar uma coisa. Ah amiga, nove de dez passeios assim eu já sei onde terminam e quando ela embocou no motel eu já estava me masturbando no banco de trás. Ela foi corajosa de nos levar até ali, então Bardo e eu agraciamos ela com a iniciativa: entramos no quarto, jogamos ela na cama e começamos a beijar e arrancar a roupa.

    Comemos ela de todo jeito e passamos muito tempo na nossa posição favorita: Bardo metendo ela de quatro, ela me chupando, eu agarrada nos cabelos dela olhando ele nos olhos. Não vimos o tempo passar. Era madrugada quando voltamos e o baterista estava subindo as paredes. Bardo tinha um dom com ele e logo ele estava calmo de novo, mas com a carinha de cu que ficou na minha memória para sempre.

    Mentira, nem lembro da cara dele.

    Ele foi dormir e o casal nos convidou pra “ver uma coisa” no quarto deles. Aí sim, finalmente, terminei o que tinha começado: chupei o pau do marido. Estávamos cansados de tanto meter com a mulher mas não queríamos decepcionar: Fomos até de manhã comendo os dois.

    No dia seguinte o anfitrião se ofereceu para me tatuar. Nunca tinha feito uma tatuagem antes, mas tinha muita vontade. Não precisei pensar muito no que queria: tatuei o logo da banda no meu pulso. A cartola do Bardo e as asas da Fada. O baterista, claro, não gostou nada. – E se você se separar dele? Como fica essa marca? – respondi que o que não está colado não se separa. Ele ficou injuriado.

    Não tínhamos mais datas marcadas e Bardo estava tentando desenrolar nossa próxima parada. Depois de dormir a manhã toda arrumamos o carro e foi só quando já estávamos rodando que Bardo disse: temos um destino. Uma cidade que nunca mais íamos esquecer.

    Chegamos para sermos recebidos pela Mariana. Não a do cuzinho de beija flor, outra Mariana que ia fazer mais parte da minha vida do que eu gostaria. Muito safada e animada, mas hetero e realmente não faz meu tipo, já chegou mamando o Bardo logo depois de nos acomodarmos.

    O baterista, ainda com a mão enfaixada, conseguiu quebrar o porta malas da Doblô. Achei ótimo porque ele passou dias procurando mecânico, peças e resolvendo esse perrengue. Alguns dias de descanso depois ela convidou os amigos para ver nosso show na casa dela. Parece que algumas pessoas ainda têm vida social!

    Montamos nosso som no canto da sala e tocamos. Foi delicioso. A galera sentada no chão ao nosso redor, bebendo, fumando e rindo. Algumas pessoas muito atraentes me chamaram a atenção. Depois do show estavam todos tão drogados que o bate papo nem rolou. Fiquei só vendo o Bardo tentando organizar a suruba sem sucesso algum.

    Me sentei no sofá. Cansada, suada. Ao meu lado uma mulher muito gostosa com uma tatuagem linda de mandala nas costas conversava com outra gostosa, loira, peitinhos pequenos e durinhos. Santa Catarina é o paraíso. Eu sou suspeita para falar, mas as mulheres mais lindas e fogosas que eu conheci eram todas de lá – incluindo eu mesma.

    Puxei papo com elas, mas elas foram meio escrotas. E eu, que já estava de saco cheio de tomar fora e de gente com medo de sexo mandei as duas a merda ali mesmo. Tudo bem que não gostem do que eu gosto, mas não precisa ser babaca. Me preparei para entrar em um bate boca.

    Mas não. Elas sentiram meu humor e baixaram a bola. Pediram desculpas e começamos a bater papo numa boa. Bardo rolava de um lado para o outro conversando com todo mundo, mas não tinha beijado ninguém ainda e isso era um péssimo sinal. Essa noite não ia longe. Era quase de manhã quando a galera foi embora. Sem suruba. Me contentei em me masturbar assistindo o Bardo fodendo a nossa anfitriã. É o que temos para hoje.

    No dia seguinte, mais um show. Dessa vez em um centro cultural com outras atrações além de nós. Foi muito bom também. Lugar lindo, elegante, lotado de gente bonita. As outras bandas eram muito boas. Terminado o show, sentamos na grama e ficamos batendo papo. Bardo, claro, rodando pelo lugar todo espalhando a palavra, como um pastor da suruba conglomerando fiéis.

    Quando me dou conta, a moça da tatuagem e a amiga loira sentam do meu lado. Conversa vai, conversa vem e eu nem tentando nada, bem desanimada. Queria ter essa vontade infinita do Bardo. Ele estava em uma mesa com umas oito mulheres. Falava e ria alto, chamava a atenção, todo mundo olhando para ele e rindo também.

    E eu ali com as duas, só naquele papo chato de mulherzinha. Fui olhando para o Bardo e me animando. Foda-se, preciso arriscar. Comecei a alisar a perna da loirinha. De início ela deixou, mas dava para ver ela se comunicando com a outra pelo olhar. Se levantou, foi ao banheiro. Fuja, covarde!

    Mas não percebi que na verdade ela estava dando espaço para a amiga. Ela começou a alisar minha coxa. Retribuí. – Vamos pra outro lugar? – ela disse. Caralho, finalmente, vamos! Fiz um sinal para o Bardo e ele tinha tudo sob controle. O baterista me olhou torto. Entrei no carro dela e, sem cerimônia, ela dirigiu direto para o motel.

    Que mulher linda. Quando ela tirou a roupa fiquei hipnotizada por alguns instantes. Eu só queria chupar ela todinha, da boca ao rabo. Ela veio para cima de mim (amo a iniciativa!) me jogou na cama e colou o corpo dela todo no meu. Deliciosa. Derreti toda enquanto ela me beijava, lambia meu pescoço, chupava meus seios, descia pela minha barriga.

    Pegou firme nas minhas coxas e abriu minhas pernas com força. Dei até aquela empinadinha na bunda para oferecer bem minha buceta. Que boca sensacional. Eu não queria sair de lá nunca mais. Não tenho palavras para dizer o quando ela era gostosa, o quanto a língua dela fazia evoluções no meu clitóris e me arrancava arrepios e gemidos profundos.

    Logo dois dedos estavam dentro de mim, a língua tesa contra meu clitóris e eu escorrendo suco pelas coxas, pelas nádegas, molhando o lençol. De repente, um squirt no olho dela! Ela se assustou e parou. – Ah, por favor, não – eu pensei. Mas ela riu e caiu de boca de novo, chupando meu clitóris pra arrancar ainda mais. Foi um festival de chuva. Eu colocava a mão no colchão e formava poças.

    Não tinha mais forças nas pernas, mas precisava experimentar aquela buceta linda. Pulei para cima dela e comecei a lamber ela todinha. Peitos bem firmes, pele macia e quente, toda deliciosa. Que mulher, caralho, que prêmio que eu ganhei. Ela entrelaçou as coxas atrás do meu pescoço e prendeu minha boca no clitóris dela. Ali eu me perdi.

    Saí de lá cambaleando. Ela me deixou em casa, onde o baterista esperava com cara de cu e Bardo socava a anfitriã de quatro no quarto. Sentei em um pufe e fiquei ali assistindo os dois, hipnotizada. Depois de um tempo, Bardo percebeu e, com aquela cara de puto safado, me perguntou como tinha sido. Comecei a contar tudo em detalhes, vendo a menina tirar o pau dele da buceta e pincelar o próprio cuzinho até ele entrar.

    Bardo ficou fascinado e quis conhecer melhor a moça da tatuagem. No dia seguinte convidamos ela pra um café. Nos encontramos em uma padaria, batemos um papo que foi parar no naturismo. Ela comentou que havia um parque muito pouco frequentado ali perto onde ela costumava caminhar nua sozinha e se sentia muito segura. Fomos para lá no carro dela. Chegamos, tiramos a roupa e saímos para andar. O papo foi esquentando rápido. Ela contando das aventuras dela, nós das nossas e quando vimos o Bardo caminhava de bandeira hasteada. Ela não se fez de rogada: pegou no pau dele, ajoelhou e começou a mamar.

    Fiquei beijando o Bardo, ele acariciando meus seios e só curtindo o boquete delicioso. Ela se levantou e ficamos nos beijando a três, coisa que eu adoro. Como estávamos bem no meio da trilha fomos indo para o meio do mato. Chegando nas árvores, ela me empurrou contra uma delas e começou a me beijar com aqueles deliciosos lábios de mel. O gosto do pau do Bardo na boca.

    Bardo veio por trás dela e sem muita cerimônia atolou o pau na buceta. Ficamos os quatro ali, prensados: Bardo nela, ela em mim, eu na árvore. Ela enfiava dois dedos na minha buceta, encharcada, tirava e me fazia chupar. Eu ficava sentindo as empurradas no Bardo naquela bunda perfeita.

    Às vezes eu tenho o que o Freud chama de inveja do pênis: quantas vezes eu quis ser o Bardo só pra sentir o útero dessas gostosas na cabeça do pau. Olhei para o Bardo e disse: eu quero chupar a buceta dela. Ele tirou o pau e ficou atrás dela só acariciando enquanto eu enchia minha boca de novo.

    Eu me sentia bêbada com o suco dela. Queria parar o tempo ali, ficar ali com aquela buceta quente na minha boca para sempre. Bardo começou a pincelar a bunda dela, batendo uma punheta contra as nádegas. Molhei meus dedos e comecei a acariciar o cuzinho dela. Ela me olhou e riu, já tinha entendido meu plano.

    Peguei o pau dele e, sem tirar a buceta da boca, fui encaixando ele no cu dela. Quando ela cedeu para a cabecinha, os três deram um gemido ao mesmo tempo, tão gostoso que quase rimos depois. Bardo atolou no cuzinho e, com o saco indo e vindo no meu rosto, comeu ela gostoso.

    Cada vez que ele chegava no fundo ela soltava mais um pouquinho de suco e eu fui enchendo a boca e bebendo ela em goles sonoros, como tinha feito tantas vezes com porra na minha vida. Era tão surreal que gozei chupando ela. Ela gozou na minha boca e Bardo terminou enchendo o cuzinho dela de porra.

    Fomos embora flutuando. Agora ele entendia o que eu estava sentindo na noite anterior. Intenso! Chegamos na casa da nossa anfitriã e ela não parecia muito satisfeita. Ficou chateada que eu levei o brinquedo dela naquela tarde e o baterista não parecia interessado em brincar com ela.

    Bardo e eu fomos tomar um banho. Estávamos tão alucinados que parecíamos dois adolescentes recém namorados. Ficamos relembrando o que rolou em uma tentativa de dizer um para o outro que aquilo tinha sido verdade. Foi me dando tanto tesão que me virei contra a parede, empinei a bunda e pedi que ele fizesse comigo como fez com ela. Foi uma das vezes na minha vida que dei o cuzinho sem fazer força. Só entrou, meteu, me encheu de porra.

    Eu não tinha mais pernas. Bardo mal andava, coitado.

    Jantamos e sentamos no sofá batendo papo. A anfitriã insistia que tínhamos que contar pra ela o que aconteceu. Eu tinha medo de começar a falar e ficar morrendo de tesão de novo. Eu tinha tomado banho mas o cheiro dela não saía de mim, não tinha pasta de dente que tirasse o gosto dela da minha boca. Bardo começou a contar. Eu ouvia na voz dele um tremor quando falava de cada cena. Minha buceta foi molhando, o pau dele foi ficando duro, a menina começou a alisar ele.

    Logo eu estava me masturbando de novo e ele ganhando um boquete. Ele não parava de contar. Era como se desse para reviver aquilo de novo e de novo.  Mariana enfiava o pau dele na garganta com força, engasgando, como que para fazer ele parar de falar. Mas agora eu queria ouvir. O Bardo, o contador de histórias, me contando de novo – como se fosse um conto de fadas – o que eu tinha vivido.

    Então ele revelou que comeu o cuzinho dela. E acabou contando que comeu o meu no chuveiro depois. Aí a mulher pirou: – ah, vai comer o meu também. E foi nesse dia que o nosso sortudo comeu o cu de três mulheres no mesmo dia.

    Eu estava apaixonada. Já tinha transado com tanta gente na vida mas nunca tinha ficado em um fogo desses por ninguém antes. Que mulher gostosa. Achei que não ia conseguir dormir. E não ia mesmo. O Bardo ainda comia o último cuzinho do dia e eu olhando para o telefone. Será que eu ligo ou vou parecer uma doida? Mandei um emoji. Ela visualizou. Levou um minuto, para mim foi um dia.

    – Oi! – Caralho, falo o que? Levei um minuto, outro dia. Ela continuou.

    – Foi bom né? Não paro de pensar em vocês. – Que alívio. Não estava sozinha no sentimento!

    – Eu também.

    Bardo, ela está vindo me buscar, tudo bem? Tirando o pau do cuzinho depois de gozar gostoso dentro, ele só acena. – Divirta-se!

    Fui até o portão esperar por ela e o baterista veio atrás repetir sua ladainha. Eu não conseguia nem ouvir. Minhas mãos tremiam, eu só queria ver ela de novo. Por sorte não demorou muito para ela dobrar a esquina e, se eu pudesse, teria pulado para dentro do carro sem que ela sequer parasse.

    Tem essa coisa gostosa de transar muitas vezes seguidas com a mesma pessoa. A primeira é estranha, sempre, uma tateando o corpo da outra como que em busca do gemido perfeito. A segunda vez é pegada, arrancando o máximo prazer possível. A terceira já fica mais carinhosa, como ver um filme pela segunda vez. E foi assim. Vimos um filme juntas, comemos uma pizza, batemos papo, nos beijamos demoradamente e transamos com muito carinho.

    O leve roçar das pontas dos dedos procurando pequenos arrepios na pele. Me lembrava de tudo o que a puta da Augusta tinha feito comigo e tentava repetir. Ela arrepiava e suava a cada vez que eu acertava um nervo. Lambi o pescoço dela e desci pelos braços. Lambi a palma da mão e chupei os dedos. Depois ela me jogou na cama de bruços e desceu minhas costas dando leves mordiscadas e, chegando na minha bunda, atolou o rosto entre minhas nádegas fazendo malabarismos com a língua no meu cuzinho.

    Assim ficamos, uma descobrindo o corpo da outra, até o sol nascer.

    Não conseguia dormir, mesmo exausta. Olhava ela nua e suada na cama. O peito arfava, os mamilos subiam e desciam em câmera lenta. Que vontade de lamber. Ela me contava sobre como estava difícil para uma mulher como ela encontrar pessoas legais e compreensivas. Ela tinha uma boa profissão, se bancava, tinha dois trabalhos, carro próprio, uma casa e um sítio, amava foder como uma louca com homens e mulheres mas não encontrava quem a acompanhasse.

    Os homens se sentiam acuados pela iniciativa e pelo poder que ela tinha sobre si mesma. Era apenas sexo casual e, quando ele tentava tomar conta da vida dela ela simplesmente precisava seguir em frente. Me identifiquei. As mulheres antes de nós lutaram tanto por essa liberdade mas penso que nunca imaginaram a solidão que poderia vir com ela. Mesmo assim, vale mais a pena ser livre, com certeza! Com outras mulheres o problema ainda era a aceitação social, da família, o medo de perder o emprego. Ainda vivíamos isso em pleno 2017. 

    Ela foi trabalhar sem dormir e eu voltei para a casa da nossa anfitriã. Bardo estava chateado. Uma das namoradas dele estava puta por ele estar longe e sem previsão para voltar, então ele achou melhor se afastar. Para amar assim, é preciso saber viver as distâncias do espaço e do tempo – e por isso múltiplos amores convém!

    Outra coisa que preocupava é que as pessoas com quem falávamos todos os dias no ambiente online, nas redes sociais, estavam sumindo ao saber que estávamos mesmo indo vê-las. Estávamos sem um próximo destino. O baterista insistia que deixássemos aquela insanidade de lado, que eu voltasse para Porto Alegre com ele e deixasse o Bardo sozinho com suas loucuras. Não tinha o que convencesse ele de que não era o Bardo, era eu. Eu queria aquilo. Eu não pretendia voltar de forma alguma.

    Arrumamos as coisas para ir, mas nossa anfitriã pediu para ficarmos mais uma noite. Ela queria curtir o Bardo um pouco mais. Naquela noite fomos todos para um bar. Bardo sentou-se à mesa com Mariana e os amigos dela, fugindo para um eventual boquete no banheiro. Minha amada não pode vir, então sentei em outra mesa com o baterista e uma menina que queria nos conhecer. Ela era praticante de BDSM pesado. Mostrou algumas fotos dela pendurada em ganchos de açougue em casa, uma loucura! Seria possível sentir algum prazer daquela forma? Era inconcebível para mim, mas eu sei muito bem que cada pessoa é diferente nos seus prazeres e que alguns extremos são mesmo possíveis.

    O baterista tentava encantar ela com os papos ruins da internet. Parecia um mantra de alguns caras, que na época eram taxados de “esquerdomachos” ficar falando asneiras sobre como tratavam bem as mulheres e as deixavam livres, como se estivesse fazendo algum favor. Eu bem sabia que não era bem assim e que ele queria mesmo era uma só para ele. De repente, Bardo se aproximou da nossa mesa. Aquele sorrisão, o ar prazenteiro, e se apresentou para a moça. Acabou convidando ela para voltar para casa conosco e ela topou.

    Chegando lá, entrando na cozinha, Bardo percebeu que a língua da moça era bipartida e cheia de piercings. Ficou maravilhado e disse que estava muito curiosos sobre como era o beijo dela. A moça topou mostrar, sem cerimônia. Ele escorou ela contra a parede e ficou uns dez minutos amassando e beijando, as mãos correndo pelo corpo e a tensão escalando.

    O baterista surtou. Disse que Bardo forçou ela a beijar ele, que aquilo era um abuso, um estupro, e que não podíamos deixar isso assim. Mariana, a menina e eu tentamos explicar para ele que não era isso, mas ele estava resoluto. Bardo, mais uma vez, usou sua magia e acalmou ele. Aquilo quebrou o clima totalmente. A menina foi embora. Bardo dormiu com Mariana e eu com o baterista, sem nenhuma vontade de estar com ele mais.

    Na manhã seguinte arrumamos nossas coisas e saímos completamente sem destino. Paramos na cidade seguinte. Olhei para o Bardo e perguntei qual era o plano. – O plano é não olhar para trás – ele disse. Pegamos o equipamento de som, montamos em uma praça no centro da cidade e começamos a tocar. Só os dois, voz e violão, como nos domingos do  Parque da Redenção. Logo algumas moedas caíram na cartola. Depois algumas notas. Será que daria dinheiro para um hotel para cinco pessoas? Continuamos tocando. Bardo pegou o microfone, contou um resumo da nossa história e perguntou: – Alguém aqui pode nos receber para dormir?

    Insano. Imagina se alguém ia receber uns malucos mambembes dentro de casa! Pois me enganei: um casal se aproximou e disse que podia nos receber. Seguimos o carro deles até uma casa muito bonita, simples, em um bairro. Nos deram um quarto e nos amontoamos por lá. Eles eram pessoas maravilhosas. Ele era narrador de rodeio e ficava fazendo rimas alucinantes e tocando um berrante dentro de casa. Rimos muito. Ela era uma deusa catarinense, loira, olhos azuis, toda gostosa!

    O baterista puxou Bardo para um canto e avisou que não era para comer a mulher, que ia ser uma falta de respeito grande demais com estranhos que nos receberam assim, do nada. Bardo riu, mas concordou.

    Propomos à eles dar uma festa e chamar os amigos. Eles toparam! Acabamos ficando por alguns dias até chegar a sexta feira. Os dois trabalhavam o dia todo então ficávamos sozinhos em casa. Íamos tocar na praça, levantar o caixa. Naquela semana o ex-guitarrista finalmente mandou a masterização do disco. Ficou uma merda. Odiamos. Esse disco ficou guardado em um HD e chamamos ele de disco morto. Ficamos muito tristes pelo trabalho todo despendido por um resultado tão ruim. Teria que refazer tudo, só não sabíamos quando e como.

    A deusa loira chegava meia hora antes dele em casa e ficou muito interessada no nosso papo sobre amor livre. Disse que ia amar viver assim, mas que ele era possessivo demais, homem de tradição antiga, de boiadeiros, que inclusive queria que ela não fosse trabalhar mais. Ficamos em um clima estranho. Eu não queria entrar na casa das pessoas e destruir seus lares, não era essa a minha ideia. Mas parece que isso faria parte de encontrar as pessoas afins. Muitas delas estariam presas em relações infelizes.

    Ela perseguia o Bardo pelos corredores e ele estava louco por ela também, mas como não era uma concordância dos dois achou melhor não comer a mulher. Ele se arrepende disso até hoje, inclusive, mas manteve o respeito. Depois de muita insistência dela, Bardo concordou em mediar uma conversa dos dois para que ela pedisse para abrir a relação. A conversa foi boa, o marido levou com tranquilidade, mas não concordou.

    Na sexta feira fizemos o show para os amigos. Foi muito gostoso e divertido, com o público sentado no chão da sala, os móveis arredados e nosso palco no cantinho. Todo mundo bebeu, dançou, cantou e pulou ao som da nossa música. Fiquei feliz. Podia fazer isso o resto da minha vida. No dia seguinte, ainda sem destino, arrumamos nossas coisas e seguimos adiante para a próxima cidade. Tivemos sorte na primeira, será que teremos novamente?

    Algumas horas depois, na estrada, o marido mandou mensagem dizendo que estavam se separando e agradeceu ao Bardo por mediar a conversa. Terminaram numa boa e ficou tudo bem. Sabe-se lá como eles teriam seguido juntos e infelizes. Nunca mais nos falamos depois, mas soube pelas redes sociais que ela estava casada com um músico, que fazia swing e estava grávida e feliz. Que bom! Eu também não fazia ideia do quanto isso ia se repetir pela frente.

    Era meio dia quando chegamos na cidade seguinte. Fomos direto para o centro da cidade e montamos nosso equipamento na praça. O natal se aproximava e o comércio estava lotado. Começamos a tocar e paramos um público imenso! Ganhamos dinheiro no chapéu e fizemos a mesma estratégia: pedimos para o público presente por um lugar para dormir. Ninguém se ofereceu, mas uma moça nos indicou pedir abrigo em um sítio específico perto dali. Os donos eram pessoas muito legais e sempre faziam eventos por lá.

    Chegamos no final da tarde. O lugar era lindo. No pé da montanha e cheio de lagos. Tinha várias cabanas e estava acontecendo um evento de ciclismo. Os donos nos receberam muito bem e nos deram uma cabana para nos acomodarmos. Era uma cabana muito antiga, com aquelas decorações de nona, e as kids resolveram fazer um filme de terror durante a noite. Nos divertimos muito!

    Na manhã seguinte tocamos para os ciclistas e ganhamos mais algum dinheiro. Nesse passo não ficaríamos ricos, mas poderíamos nos manter. O baterista dizia que uma hora não ia dar certo mais e que íamos quebrar longe demais para voltar. Não queria saber. Era uma aventura incrível e eu estava amando cada dia!

    No final da tarde escuto um ronco alto. Era um motor de jipe e saí correndo para fora da cabana. Eu simplesmente amo jipes. Não sei por que. Nunca tive contato com esses carros, não fizeram parte da minha vida em nada, mas eu adoro o som do motor, a potência, a carroceria forte e, claro, poder atolar na lama. Parei na porta para ver ele passar. Não era um, eram dezenas deles, de todos os tipos! Um rapaz quase se jogou do carro quando me viu. Assobiou alto e acenou para mim. Minha calcinha molhou. Vou dar para esse cara hoje, pensei.

    O sítio era mesmo movimentado e o pessoal do ciclismo ainda desmontava seu acampamento quando o povo do jipe chegou. Atrás deles, patrolas e escavadeiras. Criaram uma pista de corrida com obstáculos artificiais. Um poço de lama, subidas que eram quase paredes e tudo o que podia fazer um jipe, ou o motorista dele, tremer na base.

    Bardo logo fez amizade com uma das equipes, a mais próxima da nossa cabana, e juntou-se à festa. Cheguei lá mais tarde e, para minha surpresa, era a equipe do moço bonito. Curtimos um churrasco com eles e, no momento certo, fiz um sinal para o Bardo e tirei o moço de lá.

    Fiz ele me levar passear no jipe. Era noite e a lua estava cheia, estava lindo. Rodamos pelas estradas de chão e paramos em uma porteira de fazenda. Eu estava adorando andar naquele carro e estava morrendo de tesão. Pulei em cima dele e me entreguei aos beijos. Ficamos em um arreto gostoso, ele tinha muita pegada. Aos poucos foi passando as mãos pelos meus seios, descendo para minha bunda e acariciando minha buceta. Baixei minha blusa e enfiei os seios na boca dele. Ele mamou gostoso e demorado e meu vestido estava todo molhado.

    Descemos do carro. Me ajoelhei, abri o zíper da calça dele e vi aquele caralho enorme pular todo teso no meu rosto. Dei uma mamada com muita vontade, lambendo ele todinho e fazendo o moço gemer alto e gostoso. Minha buceta pulsava! Queria meter gostoso em cima do capô quente do carro. Perguntei se ele tinha uma camisinha. Ele não tinha. Eu também não. Não queria arriscar. Entramos no carro e voltamos. Entrei correndo na cabana, abri minha mochila e peguei um preservativo antes que o baterista conseguisse me perguntar o que eu estava fazendo. Pulei de volta no jipe e voamos de volta para a porteira.

    Arrastando o rapaz pela camisa, me deitei no capô, ergui o vestido e abri as pernas. Ele não pensou um segundo sequer e caiu de boca na minha buceta, chupando quente, molhado e gostoso. Que sorte que eu dei! Pedi para ele subir no capô comigo e me foder com gosto. Ele colocou o preservativo e entrou até o talo, quente e forte, e me fodeu ali no que parecia uma cena de filme. A lua cheia nos iluminando, o calor do capô do carro e ele socando forte com aquele pau enorme. Relaxei e curti, gozei muito gostoso.

    Na volta, batendo papo, ele me contou que era casado mas que sempre vivia aventuras como aquela. Ele perguntou se o Bardo era meu marido e se não ia ficar puto com ele. Contei sobre nossa relação e ele achou o máximo, mas disse que para ele não ia servir: era casado há muitos anos com uma advogada e tinha filhos. Ela era careta demais e separar dela ia ser um inferno. Preferia ficar assim mesmo.

    Quando voltamos para o acampamento, todo mundo tinha sumido. Onde estariam? Era quase manhã quando os carros começaram a chegar, trazendo o Bardo com eles. Acontece que os homens ficaram apavorados quando saí com o moço e acharam que o Bardo ia matar o amigo deles quando voltasse. Conversaram com ele tentando amenizar a situação, mas ele falou sobre o amor livre e acabou deixando os caras morrendo de tesão. Antes que aquele acampamento virasse a festa da salsicha, foram todos para a zona e meteram com as putas a noite toda. Que festa!

    O baterista era uma bomba relógio. Na manhã seguinte Bardo acalmou ele de novo, mas ninguém mais estava afim daquela situação. Nem tocando ele estava, não participava das festas, não pegava na suruba e só perturbava. Finalmente ele pediu para voltar para casa. Disse que podíamos ficar com o carro por um tempo até conseguirmos comprar um para nós. Seguimos de volta para Porto Alegre.

    Descemos por uma estrada do interior e paramos em uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, Vacaria. Tentamos tocar na praça, mas sem sucesso. Seguimos até Caxias do Sul, onde supostamente tínhamos muitos fãs, mas não encontramos ninguém e tocar na praça também não deu em nada. Exaustos, seguimos para Porto Alegre.

    Bardo ficou na nossa casa e o baterista e eu seguimos para a colônia naturista. Em dois dias, toda a nossa mobília e tudo o que tinha algum valor foi vendido a preço de banana e arrecadamos quatro mil reais para continuar a viajar. O baterista, com a mão um pouco melhor, começou a arrumar shows ao redor, com alguma esperança de ficarmos. Eu olhava para ele com pena. Queria ter tido uma relação melhor, mas um amor que antagoniza o outro não é amor. Bardo gostava dele como se fosse um irmão, mas ele realmente estava em outra vibração.

    Ainda assim, cumprimos dois shows. Um na colônia naturista e outro na casa de alguns fãs em uma cidade próxima. Os shows na colônia eram divertidos, mas tínhamos que ser muito cuidadosos com nossas conversas por lá porque o povo do naturismo não gosta de passar uma impressão sexual das coisas. E é justo. Naturismo não tem nada a ver com sexo. É a liberdade da nudez, o contato com a natureza, o despudor de estar em convívio social sem malícia. Claro que tinha gente que gostava de amar livre lá e muita gente do swing também, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.

    Já na casa dos fãs fomos com vontade. Já estava com vontade de mais uma putaria. Bardo, pobre, mal conseguia andar. Resolveu se despedir de todas as namoradas naquela semana e estava todo ralado. Fizemos um show delicioso com o baterista de volta ao seu posto, mas a festa descambou para a bebedeira e o sexo ficou para lá. Tampouco queriam ouvir nossas ideias. Fiquei chateada. Para completar, o baterista ficou na minha cabeça a noite toda tentando me convencer a ficar. Ele insistia que o Bardo não era uma pessoa boa e que eu ainda ia me dar muito mal. Penso que se ele não falasse mal do Bardo e me apresentasse outros argumentos eu talvez tivesse ficado, mas não foi assim. Ele acabou bebendo demais, apagou e transei com o Bardo no chuveiro.

    Na manhã seguinte voltamos para a colônia, colocamos tudo no carro e nos despedimos. Ele disse que ia me ver assim que eu estivesse em uma cidade com aeroporto, mas eu sabia que nunca mais ia ver ele de novo. Dei um beijo com gosto de adeus e de alívio. Agora eu tinha mais uma missão: precisava comprar um carro o mais rápido possível e sair daquela situação com ele. Entrei na Doblô e meti o pé na tábua. Queria sair do Rio Grande do Sul no mesmo dia e seguir por Santa Catarina. Voei. No final da tarde estava em Torres, faltando um dia para o natal.

    Tocamos na rua mas não conseguimos lugar para dormir. Fomos para um camping. Armamos nossas barracas e descobri que os colchões infláveis que o baterista e eu compramos eram, na verdade, infantis. Bardo ficou puto. Ele não é um cara fácil de tirar do sério, mas pequenos detalhes como o sono deixam ele bastante irritado. E ele odeia colchão inflável com todas as forças. Infantil, para um homem de um metro e noventa e seis de altura, pior ainda.

    Fizemos uma janta na nossa única panela. Uma wok. Seleta de legumes e carne. Deitamos para dormir, finalmente só os quatro e o nosso cachorro Rock. Não era bem o que queríamos, mas estávamos em paz. Na manhã seguinte seguimos para o outro lado da ponte o quanto antes. O Rio Grande do Sul precisava ficar para trás. Nossa ideia não funcionava por lá.

    Era véspera de Natal e as kids queriam saber o que íamos fazer de especial. Eu olhei para elas e disse: – Nós vamos dormir em uma mansão hoje! – Elas pularam de alegria. Bardo me olhou confuso. Peguei o carro e entrei em um bairro nobre. Famílias reunidas preparando suas ceias. Uma das casas era enorme e a família estava reunida no gramado. Muita gente. Parei o carro, dei o ukulele para o Bardo e pedi que apenas me seguissem no que eu fizesse. Paramos no portão e batemos palmas. Quando um funcionário veio nos atender, pedi que Bardo tocasse a música do Rei Leão (que não é do Rei Leão, mas todo mundo diz que é) e começamos: auimauê auimauê! As kids entraram no coro. A família se aproximou e pude contar a nossa história – omitindo a parte do amor livre.

    Eles nos convidaram para passar o natal com eles. Bardo me olhou com aquele olhar que ele me dá quando está orgulhoso de mim. A casa era gigantesca e a família dona de algum frigorífico no Mato Grosso ou algo assim. Um funcionário que morava na casa disse que a família só vinha para a ceia de natal, todos os anos, e que no resto do tempo ele vivia ali com a família dele fazendo a manutenção. Que vida!

    A ceia foi farta! Tinha todo o tipo de carnes, saladas, frutas, legumes e uma mesa só de sobremesas. A família nos pediu para cantar. Pegamos nosso som e mandamos nosso rock n roll em uma das salas. Todo mundo adorou, ficaram muito animados, pulavam e dançavam. Conforme nosso repertório repetia coisas sobre um certo assunto, porém, o chefe da família foi ficando incomodado e nos pediu para parar. Depois nos chamou em um canto e disse que a família tinha vivido muitas coisas e havia recém se convertido à uma religião evangélica.

    Claro que fui trocar uma ideia com as pessoas. Fiquei curiosa com o que “vivido muitas coisas” significava. Se você quer se divertir um pouco, sente-se com um convertido e peça para que ele lhe conte suas histórias anteriores à igreja. O divertido não são as histórias, que geralmente se resumem à drogas, violência e escapadas gays, mas o brilho no olhar enquanto eles contam sobre isso, o tremor na voz e a animação, seguidos por justificativas e a salvação, claro. Entre um segredo e outro soube que a turma ali gostava demais de uma farinha. Às vezes, só Jesus na causa mesmo. Mas curti os comentários maldosos sobre terem entendido o recado das nossas canções. Não sei se aquela conversão deu muito certo! 

    Nos colocaram para dormir, pasme, na sala de cinema da casa. Era uma sala enorme, com uma tela de cinema de verdade e sofás gigantes. O ar condicionado estava tão gelado que dormimos de cobertor como se fosse o pico do inverno. Descansamos bem. Na manhã seguinte tomamos café da manhã com a família. Nos deram uma boa quantia em dinheiro e seguimos viagem.

    Era verão e a ideia era seguir pelo litoral de Santa Catarina, tocando pelas praias até levantar dinheiro suficiente para um carro. Comecei a procurar por Kombi nos apps de vendas, mas Bardo torceu o nariz. Disse que se era o que eu queria, tudo bem, mas que ele preferia uma camionete mais nova, como uma S10. O patamar de preço era bem outro e eu não fazia ideia se íamos conseguir.

    Passamos por Sombrio e me senti mal. Dia de Natal, a cidade está completamente vazia. Fomos para um posto de saúde e fui muito bem atendida. Chamamos por nossos fãs online mas ninguém respondeu. Sem ter onde tocar e nem onde dormir, teríamos que gastar com camping novamente. Bardo tremeu à possibilidade de dormir em um colchão inflável novamente. Seguimos em frente e chegamos em Araranguá. O nosso fã do primeiro show longe de casa, o da namorada gata, disse que tinha uma casa lá e que estava à nossa disposição. Topamos de bom grado, pegamos a chave e fomos para lá.

    Seguros por um tempo, andamos pelas praias ao redor em busca de trabalho. Acabamos fazendo música pelo dinheiro do chapéu mesmo em Arroio do Silva e no Morro dos Conventos. Chovia bastante e não deu muita coisa mas, sem precisar pagar para dormir, a conta fechava. Faltando pouco para o ano novo decidimos seguir em frente. Agradecemos ao nosso anfitrião e deixamos a casa limpa e organizada como encontramos, mas sem querer, distraída, levei a chave embora. Ele não se chateou e disse que estava tudo bem, que tinha outras cópias. Me senti uma ingrata.

    Seguimos um pouco até Tubarão e não vimos nenhum por lá. Chovia e nem dava para tentar a praça. Seguimos adiante esperando passar pela chuva e conseguimos chegar em Laguna. Mesmo com o tempo emburrado a praia estava lotada. Pegamos o ukulele e fomos para a areia mesmo. Paramos de guarda sol em guarda sol e cantávamos uma música ou duas, pedindo uma colaboração. Para as pessoas que gostavam mais pedíamos um lugar para dormir. Ganhamos um bom dinheiro e finalmente uma moça disse que podíamos ir para o apartamento dela.

    Era perto dali. Chegamos bem na hora que uma chuva muito forte caiu. Ela ligou para uma amiga e disse que estava conosco lá. A amiga veio na hora, com o marido, mais para ver quem a maluca tinha trazido para casa. Nos chamou em um canto e contou que o marido da moça tinha morrido há pouco tempo e que ela estava se sentindo muito sozinha. Que tinha um rapaz rondando ela mas que ninguém queria ele por perto. Treta. Resolvemos não ficar muito tempo. Fizemos um show particular, só para ela, a amiga e o marido, com o ukulele. Foi gostoso retribuir assim.

    Era o último dia do ano e resolvemos seguir. Bardo conhecia um povo da permacultura na Barra de Ibiraquera e resolveu chegar sem avisar para ver no que dava. Deu certo. Fomos muito bem recebidos, mas com a casa cheia eles não tinham um quarto para nos oferecer. Passamos a ceia com eles. Foi simples, gostoso e divertido, apesar de sexualmente nulo. O casal dono da casa era lindo, mas achamos prudente não puxar o assunto. Eles sabiam muito bem quem éramos. Se quisessem algo, sabiam que era só chegar.

    Fomos dormir em um galpão do lado de fora da casa. Era fechado e seguro, guardava algumas ferramentas. Acordei de madrugada com algo caminhando no meu braço. Chamei o Bardo, que pulou e ligou a luz. Estávamos cobertos de pequenos besouros. Rimos muito daquilo e voltamos a dormir. Ainda bem que não era nenhuma barata, escorpião ou aranha!

    ***

    Olhei para o novo ano que vinha: 2017. Eu nunca me senti tão insegura e tão livre ao mesmo tempo. Depois de tudo o que eu tive e tudo o que eu fiz, batalhar por um lugar para dormir diariamente era um desafio que me animava. Até ali tudo tinha ido bem e estávamos com um pouquinho mais de dinheiro do que quando saímos de casa. Que aventura gostosa!

    Seguimos dali para a famosa Praia do Rosa. Tocamos na praia, fizemos uma grana, mas conseguimos levar uma multa por estacionar na contramão em uma ruazinha de areia. Bardo ficou injuriado mas não tinha com quem discutir, só estava o papel por lá. No microfone, pedi por um lugar para dormirmos e uma família muito animada se ofereceu. Fomos parar em uma bela casa com piscina na montanha. Que sorte!

    Contamos nossa história e eles disseram que podíamos ficar por lá o tempo que quiséssemos. Aproveitamos para viajar para todas as praias ao redor, tocar e voltar para dormir lá. Alguns dias depois eles chamaram os amigos para ver nosso show. Antes de começar a tocar ficamos de papo, contando nossas histórias. Uma mulher nos contou que o marido dela tinha viajado o mundo todo de mochila e que um dia cansou, construiu uma casa ali perto e nunca mais falou com ninguém. Nem quis nos ouvir tocar. Fiquei muito curiosa com o que levou ele a fazer isso, mas nem ela sabia.

    Começamos nosso show e, aos poucos, o público foi entendendo do que se tratava. Os homens fecharam a cara e as mulheres ficaram muito animadas. Depois do show me puxaram para um canto e me fizeram dezenas de perguntas. A anfitriã era a mais curiosa. Alguns dias de convívio com a família me fizeram perceber que o nosso anfitrião estava longe de ser um poço de candura. Bardo me observava da mesa dos homens onde se falava sobre qualquer outra coisa, mas com os ouvidos em pé nas risadas safadas das esposas.

    No dia seguinte decidimos ir embora. Nosso anfitrião tinha saído para comprar algumas coisas e resolvemos esperar. Ele chegou irritado e nos confrontando. Perguntou por que não contamos logo o que estávamos fazendo na nossa viagem. Parece que um amigo dele tinha ligado dizendo quem éramos e que todo mundo na cidade dele estava dizendo que eles faziam swing por estarem conosco. A esposa, uma loira linda, cheia de vida, ficou sentada com os ombros baixos em um canto ouvindo ele vociferar. Fiquei com vontade de tirar ela de lá, mas estava além da minha alçada.

    Seguimos para Garopaba. A praia estava lotada, sensacional! Resolvemos levar o equipamento todo para a areia. Bardo foi engenhoso e criou um carrinho para carregarmos tudo. O equipamento era um Roland Cube – um cubo feito para música de rua – a guitarra com a caixa, meu microfone e os cabos. Compramos pilhas e nos lançamos. A estratégia era parar a cada cem metros de praia, fazer um espetáculo de 15 minutos e passar o chapéu. Deu certo! No final do dia conseguimos comprar um aspirador de pó porque o carro estava parecendo um caminhão de areia. Seguimos para a Praia do Siriú. Chegando lá recebi um telefonema do baterista. Ele estava transtornado. Tinha muita esperança de que eu fosse quebrar a cara logo, deixar o Bardo e voltar para ele, mas continuava assistindo as coisas dando certo pelas redes sociais. Foi muito grosseiro, falou horrores do Bardo e ameaçou ir na polícia e dizer que tínhamos roubado o carro. Naquele momento ele terminou de perder qualquer respeito que Bardo e eu tivéssemos por ele.

    Fiquei devastada. Não consegui tocar mais naquele dia e não tínhamos conseguido um lugar para dormir. Sem saber o que fazer, liguei para nossa anfitriã anterior, mesmo com a confusão daquela manhã, e perguntei se era possível dormir lá mais uma noite. Ela disse que não havia problema algum. Chegamos lá tarde da noite, morrendo de fome e completamente exaustos e tristes. O marido nos esperava no portão. Ele esperou que as kids e eu entrássemos na casa e parou o Bardo por lá.

    Nessas horas eu percebo o herói que tenho comigo. Bardo exausto, puto da vida e com fome ouviu pacientemente o homem falar merda e ameaçar ele por meia hora. Ainda foi educado e cordial, acalmando os ânimos. Apagamos. Na madrugada acordamos com uma pancadaria. Bardo correu e se escorou na porta, imaginando que alguém poderia estar invadindo a casa. Era o filho mais velho da família que tinha chegado drogado e carregando um bulldog. Ele e o filho mais novo se estranharam e saíram no soco. Foi um inferno. Gritos e vidro quebrando. Ficamos em silêncio no quarto. Assim que o sol nasceu, saímos discretamente, sem despedir. Fiquei na vontade de tirar aquela mulher de lá.

    Sem nenhum conhecido à frente, seguimos. Tocamos em Garopaba de novo e fizemos mais uma boa grana. À noite, ainda sem ter onde dormir, tocamos em um restaurante no Siriú, o Siriú Norte. O dono e sua família são pessoas maravilhosas e nos ofereceram um lugar para dormir. Passamos muito bem à noite e tocamos no restaurante novamente ao meio dia. Dali tocamos na Gamboa a tarde e seguimos para a Guarda do Embaú, mas não conseguimos tocar. Já havia um músico de rua ocupando o único lugar possível.

    Seguimos estrada. Paramos na Praia do Sonho, mas não havia ninguém lá. Sem mais nada em vista, abri uma live no Facebook e dei um grito: – Alguém em Floripa para nos receber agora mesmo? Recebemos várias mensagens positivas e seguimos até lá. Cruzamos a ponte e chegamos na Ilha. Bardo dirigia e eu conversava com algumas pessoas para descobrir onde íamos dormir. O aniversário da Lavínia era no dia seguinte e eu queria muito ter a sorte de estar em um lugar legal.

    Chegamos no centro da cidade e estacionamos. Um por um, os contatos iam desistindo de nós e começou a me dar um aperto no coração. Finalmente um trisal que fazia conteúdo adulto disse que nos receberia. Fomos parar em uma praia no norte da ilha, na casa da mãe de uma das moças. Não era exatamente uma casa, e sim um galpão de chão batido e cheio de moscas. Que azar. Foi difícil dormir com as moscas pousando na gente o tempo todo. Como aquelas pessoas podiam viver assim?

    No dia seguinte saímos com o trisal. Eles eram bonitos e animamos com a possibilidade de rolar uma putaria gostosa, mas nada. Sexo, para eles, era uma coisa profissional. A relação ali era bastante estranha também. O casal tinha uma diferença de uns dez anos para a outra menina. As duas eram viradas em cirurgia plástica: peito, bunda, boca, nariz, a coisa toda. Ele tinha uma relação dominadora com elas e a mais velha com a mais nova, era uma hierarquia. Nem todo arranjo que não é um casal necessariamente é livre. Achei melhor não andar com eles.

    Seguimos para a praia dos Ingleses e tocamos por lá. Pedimos por um lugar para ficar e foi um rapaz que nos atendeu. Mais uma sorte. Fomos parar em uma mansão em Ratones onde ele vivia sozinho. Era algum tipo de empresário, mas não fizemos muitas perguntas. Chamou um grupo de amigos e fizemos o nosso espetáculo por lá. Adoraram. O bate papo também fluiu bem. Verão, praia, calor, álcool e todo mundo fica mais soltinho para esse tipo de assunto. Me interessei pelo anfitrião mas ele estava apaixonado por uma menina que estava lá e parecia um idiota tentando agradá-la sem sucesso algum.

    No dia seguinte um dos amigos dele nos convidou para um show particular na casa dele. Outra mansão, outro grupo de amigos. Muita sorte. Podia ficar nessa vida por um tempo! O show foi divertido e o bate papo super legal, mas o povo bebeu demais – entre outras substâncias – e as coisas desandaram um pouco. A menina da outra noite estava cansada da conversa ruim do nosso primeiro anfitrião e pediu para o Bardo levar ela embora dali. Aproveitei a oportunidade e, sem os dois por perto, dei uns amassos com ele no banheiro. Infelizmente ele já estava bêbado demais para mais que isso e eu odeio transar com gente bêbada e drogada.

    O amigo dele, vendo os dois saindo do banheiro, veio falar comigo. Ele era bonito mas também já estava entorpecido demais e perdeu qualquer oportunidade ali. Fui para o quarto dormir e esperar o Bardo voltar, imaginando porque ele demorava tanto. Logo ele chegou e, vendo que a festa tinha descambado na farinha, foi dormir comigo. Fiquei esperando ele me contar que comeu a menina, mas nada aconteceu com ele dessa vez. Só deixou a menina em casa mesmo.

    No dia seguinte já queríamos sair de perto daquela turma. Segui conversando com os contatos no Facebook mas foi o Bardo que conseguiu um lugar em uma rede de swing. Saímos da Ilha e fomos parar em um apartamento em São José. O anfitrião era o Zé: era um cara desses estilo surfista, praiano, com uma puta cara de safado. Adorei. Ele nos fez um jantar e me deu uma massagem no pé. A massagem foi subindo as coxas e acabamos indo para o quarto dele. Bardo me deu aquela vantagem de ir primeiro, só pela sacanagem, e quando ele entrou no quarto um tempo depois a massagem já era com a língua no meu clitóris.

    O cara era mesmo muito gostoso e eu estava precisando daquilo depois de tanto stress. Quis dar pra ele a noite toda, mas ele só tinha um preservativo e era tarde da noite para sair e buscar um. Dei pra ele de quatro enquanto mamava o Bardo, gozei gostoso e ele explodiu dentro de mim. Tesão! Depois invertemos. Bardo me fodendo sentada no pau dele e eu mamando o Zé. Em algum momento eu estava de joelhos, pau na boca e levando na buceta quando ele puxou o Bardo pelos cabelos e deu o pau para chupar. Bardo olhou para mim, deu uma risada e caiu de boca. Ficamos os dois ali chupando o cara juntos. Foi delicioso. Eu lambia as bolas enquanto ele engolia o pau até o talo. Bardo me encheu de porra de tanto tesão.

    Na hora de dormir ele jogou um colchão de casal no chão ao lado da cama dele. Bardo foi se ajeitando para deitar, mas eu ainda estava molhada. Avisei que ia dormir na cama com o Zé. Bardo me alertou de que ele usou a única camisinha que tinha. Garanti que não ia rolar nada e ele só me olhou com uma puta cara de safado, dizendo que já esteve no lugar do Zé algumas vezes e que com ele nunca teve perdão.

    Zé voltou do banho e me encontrou na cama dele. Nua, claro. Deitou nu também. Bardo, do chão, ainda me deu uma última olhada e uma risada safada antes de dormir. Apagamos a luz e fechamos os olhos. Virei de bunda para o Zé e tentei dormir, morrendo de tesão, mas não demorou para sentir o pau duro dele roçando nas minhas coxas. Empinei a bunda um pouco. Ele começou a roçar a cabecinha e sentiu que eu estava encharcada. Peguei o pau dele e fiquei roçando, na esperança de gozar só com essa brincadeira. Ficamos assim por um bom tempo, estava quentinho e gostoso. 

    Meu tesão só aumentava e nada do orgasmo aparecer. Fui bolinando meu clitóris com a outra mão e punhetando a cabecinha dele na entrada da buceta. Ele agarrava minhas coxas e não empurrava, respeitando a brincadeira. Sem conseguir gozar, fui perdendo as estribeiras. Pensei em colocar no cuzinho, mas não ia entrar, não era nem o que eu queria. Não aguentava mais. Resolvi colocar só a cabecinha dentro e ficar rebolando. Ficou ainda mais gostoso e quentinho. Os dedos dele já estavam enterrados na minha bunda, quase em desespero. Sabe qual é a maior mentira do mundo, não é? Só a cabecinha! Não consegui mais me segurar e empurrei minha bunda com força contra ele. Sem esperar por aquilo, soltou um gemido alto. Certeza que Bardo ouviu. Virei meu rosto para ele e mandei ele gozar fora, rebolando com vontade e me masturbando. Gozei muito rápido. Senti ele pulsando forte dentro de mim e puxei a bunda para a frente, só a tempo dele melar minhas coxas. Que delícia. Coloquei minha mão para fora da cama, no peito do Bardo, e dormi como um anjo.

    Acordei de manhã com ele roçando o pau duro nas minhas coxas meladas. Tesão instantâneo. Bardo ainda dormia. De repente o colega de apartamento começa a bater na porta com força. – Zé, caralho, roubaram teu carro! – O Zé tinha feito a gentileza de dar a vaga na garagem do prédio para nossa Doblô e deixou o carro dele na rua. Que merda. Bardo levou ele na delegacia para fazer o boletim de ocorrência e acabou ficando de táxi para as coisas que ele tinha que fazer durante o dia. No final da tarde um casal que morava ali perto viu o post que eu tinha feito no Facebook uma semana atrás e nos chamou para o apartamento deles. 

    Por mais que eu quisesse meter mais uma noite toda com o Zé, gostoso para um caralho, resolvi ir para lá. O apartamento era maior e o casal era muito bonito. Eles tinham uma filha pequena que ficou brincando com as nossas. Fumaram maconha o dia todo e eu não curti muito isso. É um saco conversar com esse povo de pensamento lento. À noite, com todo mundo acomodado, começamos um swing na sala. Ele e eu, Bardo e ela. Quando a coisa pegou fogo mesmo e a esposa estava sentando forte no colo do Bardo ele começou a se perder. Já tinha passado mil vezes por aquilo e sugeri que fôssemos para outro quarto. Lá ele se soltou, me colocou de quatro e me fodeu gostoso. Em algum momento ele veio no meu ouvido e começou a dizer como eu era mais gostosa que a mulher dele. Isso era novidade e era ridículo. Perdi o tesão. Dei um jeito de fazer ele gozar logo e fui para a sala, onde Bardo, estranhamente, também já tinha encerrado. Eles nos convidaram para fumar um e ver um filme, mas achamos melhor ir dormir.

    No dia seguinte começamos a procurar como voltar para a Ilha. A Praia dos Ingleses deu um bom dinheiro mas seria muito ruim ir até lá e voltar. O trânsito da ilha é um inferno, ainda mais a ponte. Não conseguimos nada e resolvemos ficar mais um dia ali. Zé nos ligou com uma boa notícia: encontraram o carro dele e ele ia reaver. Ainda bem! Batendo papo com ele fiquei com tesão e pedi para o Bardo me deixar lá naquela noite. Ele ficou com o casal.

    Zé me esperava animado. Estava feliz com o carro de volta e mais feliz ainda com minha visita. Tomamos uma cerveja – estava terrivelmente quente – jantamos e fomos para o quarto. Já entramos aos beijos e amassos, arrancando a roupa. Foi uma daquelas metidas fortes, intensas, beijando o tempo todo e em todas as posições possíveis e imagináveis. E foi no pelo. Eu odeio isso em mim mas, uma vez que eu meto no pelo com alguém, não consigo mais usar camisinha. Ficava com aquela consciência ruim e ao mesmo tempo curtindo demais ele todo duro e quentinho. Ele terminou me comendo em pé contra a parede e melou minhas coxas.

    Acordei com ele já dentro de mim de novo, aquela fodinha gostosa de ladinho que eu adoro. Demoramos ali até a hora do almoço e levei mais uma melada na bunda. Puta tesão. Tomamos um café e Bardo veio me buscar. Eu já estava começando uma lista mental de pessoas que queria juntar em uma suruba. Fiquei imaginando meter com ele e a moça da tatuagem ao mesmo tempo. Imagino que ia ser uma viagem lisérgica!

    Bardo conseguiu hospedagem na casa de um casal de fãs bem na Praia dos Ingleses! Voamos para lá, precisávamos manter o equilíbrio financeiro. Fomos muito bem recebidos, mas o anfitrião chegou se despedindo, dizendo que precisava ir viajar por dois dias e deixou claro para o Bardo que podia tratar bem a esposa dele. Ela era uma negra linda, muito nova, e logo os dois estavam suando no quarto. Fomos para a praia e continuamos nossa estratégia. Tocamos o dia todo pela praia e ganhamos um bom dinheiro. Tudo ia bem e cada vez que o baterista via isso era uma nova mensagem de ódio. Bardo foi mudando com ele, foi deixando de querer amenizar e começou a responder no mesmo tom.

    À noite, Bardo e eu transamos muito gostoso. De ladinho, daquele nosso jeito. Eu contando da trepada com o Zé e ele contando da trepada com a esposa. Explodimos gostoso, juntos, e fiz questão que ele gozasse dentro, imaginando o que eu não podia fazer na minha brincadeira. Já estava apagando quando ouvi uma batidinha de leve na porta. Bardo me deu um beijo e foi. Logo estava ouvindo, de leve, as batidas da cama na parede do outro quarto. Ele amanheceu fodendo ela e veio dormir quando eu já tomava café.

    Voltamos para a praia e nos demos bem de novo. Aquilo estava realmente maravilhoso. Eu estava pegando bastante sol e estava magra e musculosa. Era um exercício muito intenso! Quando voltamos para a casa, o marido tinha voltado mais cedo. Talvez morrendo de tesão com a esposa, metendo a noite toda com outro. Não bateu química entre ele e eu e acabaram indo os três para o quarto. Depois de algumas horas não me aguentei e colei o ouvido na porta, só para ouvir as batidas da pele dele na dela e o maridinho falando aquelas frases gostosas de quem tá amando ver a esposa levando ferro: – Tá gostando, sua puta? Leva pau gostoso nessa bucetinha, vai! Fode ela, comedor! – uma delícia!

    O aniversário do Bardo estava chegando, estávamos fazendo um bom dinheiro na praia dos Ingleses e estávamos felizes. Perguntei para ele o que ele queria ganhar, mas ele sempre pensa em nós dois nessas horas. Me pediu para viajarmos de volta para o interior, para a moça da tatuagem. Era ela o presente. Claro que topei na hora e encaramos trezentos quilômetros até lá.

    O baterista continuava perturbando diariamente, em atitudes cada vez mais desesperadas para me ter de volta. Ele não queria o carro ou qualquer outra coisa, era só mais um imbecil pensando que podia ser meu dono. Sinto muito por ele e todos e todas as outras miseráveis que pensaram assim um dia. Bardo já tinha bloqueado ele e cortado relações e ficava aborrecido quando eu ficava triste com as investidas. Resolveu pregar uma peça. Mariana, nossa anfitriã, estava de aniversário dois dias depois dele. Então ele abriu uma live e disse que estava pegando a estrada e estava indo encontrar uma pessoa. Mas falou em um tom que não dava para saber se era uma coisa boa ou uma ameaça. Quando chegamos no interior ele desceu do carro, no escuro, abriu o porta malas e mostrou uma chave de roda. Dizendo que tinha chegado e estava vendo a pessoa que procurava, em um tom meio sinistro, saiu correndo com a câmera na mão. A ideia era o baterista pensar que ele estava indo acertar as contas, mas ele pegou Mariana de surpresa no bar e deu um beijo nela. Espero mesmo que ele tenha achado que era para ele e se borrado todo. Nunca vou saber.

    Mariana ficou muito feliz com a visita surpresa, mas não gostou muito de saber que queríamos a moça da tatuagem. Bardo levou ela para o quarto para acabar com o descontentamento. Ouvi risadas, eles conversando alto e imaginei se estariam transando. Quando vi, estavam ao vivo no Facebook. E estavam transando! As redes sociais ainda não tinham tantos filtros na época e eles estavam se mostrando só da cintura para cima. Bardo deitado, falando sobre amor livre e ela sentando nele. Hilário! Imagina uma coisa dessas hoje em dia, nas nossas queridas redes “family friendly.”

    Com nossa anfitriã devidamente pacificada e pingando porra, fomos atrás da nossa moça da tatuagem. Ela ficou muito feliz ao nos ver e voamos direto para o motel, sem cerimônias. A saudade já era imensa e Bardo ganhou seu presente de aniversário como merecia. Eu amei! Por mais presentes assim para meu melhor amigo!

    Entramos no motel aos beijos, os três se agarrando como se quisessem se tornar um corpo só. Eu arrancando a roupa dela, ela arrancando as roupas dos dois. Dessa vez Bardo tinha a preferência, então jogamos ele na cama e deliciamos ele com um boquete das duas, bem molhado e demorado, lambendo bem as bolas, o cuzinho, revezando as duas bocas na mamada até ele ter vertigens. Beijei a boca dela, com aquele gosto de pau de quem ficou meia hora mamando. Ela montou no Bardo e começou a sentar com vontade. Fiquei de pé e encaixei minha buceta na boca dela, que bebia meus squirts em sonoros goles, gemendo abafado.

    Dali fomos a todas as posições possíveis e imagináveis. Bardo fez um pedido especial. Queria gozar em todos os buracos dela. Voltamos a mamar juntas e logo ele explodiu na boca dela, que fez questão de engolir tudo e me dar um beijo bem gostoso na boca. Sem perder a compostura, Bardo já colocou ela de quatro e, enquanto ela me chupava de arrancar suco, gozou gostoso e encheu a buceta. Pulei nela e fiquei lambendo a porra da virilha enquanto ele foi tomar um banho.

    Ficamos as duas ali trocando carícias. Já era quase de manhã e imaginei que ele não ia conseguir dar uma terceira, mas ele voltou do chuveiro já de pau duro e subiu na cama faminto sobre nós duas. Nos beijamos e acariciamos e ele virou ela de ladinho, de costas para ele. Fui para a frente dela e fiquei beijando ela na boca, com muito carinho, enquanto ele colocava no cuzinho. Ela gemia baixinho e me agarrava com força. Ele demorou um pouco até que ouvi o gemido e vi a mão dele agarrando a cintura dela com força. Pronto. Todos os buracos preenchidos com porra. Presente especial concedido.

    Ficamos mais um dia para o aniversário da Mariana mas, quando vimos ela preparando a festa, achamos melhor ir. Era uma turma esquisita e a lista de drogas ia além do que já tínhamos presenciado. Cada uma que se divirta como convém, esse tipo de festa não me serve. Fomos até a casa da moça da tatuagem e nos despedimos, com um ar de final de filme. Falamos em nos ver de novo, contei para ela sobre o Zé e que queria transar com os dois ao mesmo tempo. Ela ficou interessada. Nos beijamos demoradamente e pegamos a estrada de volta para Floripa.

    No meio do caminho Bardo recebeu uma mensagem. Em uma cidade ao norte um grupo de pessoas queriam nos ouvir falar sobre o amor livre! Mudamos nossa rota e voamos para lá. Fomos recebidos por um casal muito peculiar. Eles eram – segundo o que nos contaram – alguns dos fundadores da Marcha da Maconha no Brasil e queriam promover todo o tipo de ideia ligada à liberdade. Nos hospedaram no apartamento deles e organizaram uma palestra no museu. Chegamos lá e vimos um grupo considerável de pessoas ávidas por ouvir nossas experiências. Foi lindo. Fizeram muitas perguntas e trocamos contato com todo mundo.

    O casal que nos recebeu tinha uma namoradinha muito mais jovem que eles e ela ficou o tempo todo atrás do Bardo no apartamento enchendo ele de perguntas. Infelizmente as pessoas ainda levam muita coisa ruim para seus relacionamentos e o problema deles era a velha e péssima hierarquia. Essa é a principal razão pela qual muita gente não namora com casais que estão há muito tempo juntos e já tem uma mecânica de um mandar na vida do outro. A menina estava descontente com isso e conversando com o Bardo acabou decidindo por não ficar mais com o casal. Eles ficaram enfurecidos e nos pediram para ir embora.

    Era final da tarde e não tínhamos para onde ir, mas tínhamos o contato de todo mundo na cidade. Fomos tocar em um evento de rua que estava acontecendo, fizemos um bom dinheiro e encontramos a turma toda lá. Entre eles estava o Francis, um texano radicado no Brasil, com um português muito torto, que fez questão de nos levar para a casa dele. Era um sobrado de madeira no meio do mato, perto de várias cachoeiras deliciosas! E ele era um gostosão! Eu tenho – como muitas mulheres – esse tesão em cowboy de cinema e aquele sotaque dele me deixava toda molhada.

    Fomos convidados para tocar em um bar naquela noite e aceitamos. O bar estava lotado, muita gente bonita, e fizemos um espetáculo de arrasar. Terminado o show fomos guardar os equipamentos no carro e uma mulher se aproximou, perguntando se éramos o casal que tinha falado de amor livre na TV. Confirmamos e ela disse que morria de tesão em nós dois. Bardo puxou ela e a beijou. Beijei também. Gostosa! Convidamos ela para ir para um motel. Ela topou na hora. Quem me dera minha vida fosse assim todos os dias!

    Bardo dirigindo e ela e eu no banco de trás aos beijos e amassos. Ela arrancou minha blusa e chupou meus seios suados. Chegamos no motel já nuas e fomos direto para o chuveiro. Bardo colocou ela de pé contra a parede e meteu na buceta sem dó enquanto eu, ajoelhada, chupava o clitóris. Ela gritava e ficava repetindo que não acreditava no que estava acontecendo ali. Fomos para a cama e ela me chupou gostoso enquanto Bardo fodia ela de quatro, forte e rápido. Gozei na boca delas algumas vezes.

    Voltamos para o bar. A moça se despediu, zonza, ainda sem acreditar na foda gostosa que tinha acabado de levar. Nossos novos amigos nos perguntavam onde tínhamos ido e eu só respondia com um sorriso. Francis ficou ao meu redor, batendo papo e competindo com os outros rapazes e Bardo estava conversando com uma moça linda. De repente ele dá uma olhada para o outro lado do bar. Aquele olhar era raro. Ele viu alguma coisa que tomou totalmente a atenção dele e saiu em uma linha reta, passando quase por cima do povo que estava por ali. Continuei no meu papo por ali, sem ver para onde ele foi, e recebi uma mensagem mais tarde: – não me espere.

    Fui embora com o Francis. Estava ainda quente da brincadeira do motel e bem afim de meter com ele. Fomos para a cabana e nos pegamos. Ele era muito forte, definido, todo durinho. Na verdade nem faz muito meu tipo, mas aquele sotaque gringo estava me matando. E que energia! Metemos a noite todinha, pegada forte, sem parar. Ele gozou três vezes e eu perdi a conta dos meus orgasmos. Que delícia!

    No dia seguinte, estávamos organizados para gravar o clipe de Chifres São Coisas da Tua Cabeça. Íamos aproveitar um encontro LGBT que estava acontecendo no museu e promover um beijaço. Levamos conosco um maluco, pintor, que ia nos fazer uma pintura corporal durante o clipe. Uma outra parte seria filmada depois, em uma cachoeira. Todos os nossos novos amigos estavam lá. Bardo chegou de mãos dadas com uma mulher gorda. Foi ela que ele viu na noite anterior? Ele flutuava, parece que a noite foi boa!

    Colocamos uma lona na grama e, com os amigos ao redor, fomos pintados. Depois chamamos os amigos para brincarem com as tintas também. Chamamos a atenção de todos ao redor e convidamos para o beijaço. Ninguém quis vir. LGBT hoje, para mim, significa a liberdade de ter as mesmas relações ruins – com pessoas do mesmo sexo. Talvez o B – meu caso – se salve dessa equação por gostar de ambos os sexos. Nossa turma foi o suficiente e os beijos rolaram mesmo assim, sob olhares julgadores de casais gays.

    Etapa concluída, fomos todos para a cachoeira perto da casa do Francis para lavar a tinta. Foi uma festa! Bardo e a moça gorda aos beijos, mas ele já estava interessado em outra moça, uma vegana, com quem tinha bebido uma cerveja no outro dia e tinha uma bunda sensacional. De lá fomos para a cabana. Francis e eu fomos para o chuveiro e ficamos nos chupando por lá. Sem trancar a porta, fomos surpreendidos por uma das mulheres, que já quis entrar na brincadeira e logo éramos uma turma no quarto. Com apenas um colchão de solteiro no chão, ficamos todos embolados, todo mundo se chupando, uma delícia. Francis me colocou com as pernas abertas e me socava forte, o som da pele na pele ressoando pelo quarto. Bardo ganhava um boquete de duas e me olhava, sorrindo. Era isso que viemos buscar e, se tudo desse certo, íamos conectar essas pessoas com as do interior, com as de Porto Alegre, com as do país inteiro. Amor livre, leve, solto, orgasmos sem fim. Algo muito maior do que ele, do que eu, do que tudo.

    Bardo saiu de lá com quatro mulheres no carro, indo deixar elas em casa e ia passar a noite na casa da vegana. A gordinha estava super tranquila, era uma mulher muito gentil, adorei ela. Fiquei lá com o Francis. Nem nos vestimos para jantar. Comemos alguma coisa rápida e seguimos na nossa maratona metendo a noite toda. Ele era incansável e eu amei!

    Cada movimentação nossa no Facebook chamava a ira do nosso ex-baterista. Ele ligou dizendo que queria a imediata devolução do carro e que se não acontecesse ia fazer uma ocorrência de roubo. Olhei minha conta no banco. Tinha mais ou menos cinco mil reais. Fui para o aplicativo de compra e venda e encontrei uma Kombi 95 por esse valor. Voamos para outra cidade para ver. Era uma Kombi marrom, toda machucada, que entregava empadas na praia. O dono disse que ela era muito boa e que só estava se desfazendo porque a mulher dele, grávida, não gostava do carro e queria outro. Contamos nossa situação e tentamos negociar o preço, mas ele não podia baixar. E eu não podia ficar sem dinheiro. Então ele aceitou pagarmos quatro mil e mais duzentos e cinquenta por semana a partir dali. Fechamos o negócio e saímos de lá com ela.

    Agora tínhamos uma dívida e precisávamos levantar esse dinheiro sem falta alguma. Voltamos para a cidade dos nossos amigos e lá tocamos em todos os bares e calçadas possíveis até pagarmos tudo. A doblô deixamos em um estacionamento pago – escolhi a diária mais cara possível – para que o baterista viesse buscar. Finalmente estava desligada dele e agora conhecia todos os sinais de uma pessoa incapaz de amar livre.

    Eu sei o quanto pode ser difícil para as pessoas desamarrar o amor da relação de poder. Crescemos em famílias hierárquicas, escolas hierárquicas, religiões hierárquicas. Sempre tem o bonzão, o manda-chuva, o sabe tudo, o que todo mundo confia e do outro lado os fracos, os covardes, os que preferem deixar as soluções na mão de alguma autoridade. Nada mais natural do que levar isso também para as relações de amor e amizade. Infelizmente isso dá espaço para que as pessoas tomem conta da vida das outras, medindo e pesando seus atos e transformando o tempo, a atenção e o carinho em valores negociáveis, moeda de troca.

    Conheci muitos casais onde a esposa conseguia o que queria do marido fazendo greve de sexo. Ou o marido conseguia da esposa cortando o cartão de crédito. Outros eram mais sutis, manipulando de uma forma ou outra. Não existia nenhuma relação de respeito livre, mas de poder e hierarquia. Isso pode servir à muita gente, mas não me serve de forma alguma e qualquer pessoa que tente algo parecido comigo só vai ganhar distância.

    Passamos um mês maravilhoso. Eu hospedada na cabana e Bardo indo e vindo entre a cabana, o apartamento da moça gorda e a casa da vegana. Ele estava apaixonado pelas duas e feliz por elas estarem numa boa com o triângulo. Entre um show e outro eu saía com o Francis para pedalar pelas estradas de chão e tomar banho nua nos rios e cachoeiras ao redor. Sempre encontrávamos um cantinho para dar uma chupada ou uma metida gostosa no meio do mato. E eu adorava quando o Bardo estava por lá. Voltava do passeio, passava os dedos na buceta fodida e passava no nariz dele, só de sacanagem. Ele me olhava com aquela cara de safado e me arrastava para algum canto para me dar uma comida rápida. Às vezes Francis nos pegava nessa brincadeira e acabava participando. Tenho um video disso, aliás.

    A Kombi finalmente estava paga e podíamos seguir nosso caminho em busca de novos amores para os nossos amores. Era hora de batizar nossa nova casa: ela vai se chamar Elvira – inspirada no filme dos anos 80 sobre uma mulher livre e incrível! Estou livre e pronta para espalhar o amor pelo mundo todo!

  • Capítulo 8 – Decepção amorosa

    A Kombi, como eu, estava nua. Era só a capa. Consegui dois colchões de solteiro velhos e joguei dentro, com dois lençois e um travesseiro. Da Doblô trouxemos os colchões infláveis – para desespero do Bardo – o fogão de camping e as barracas. Aquela era nossa casa dali em diante e ia ter que servir. Batemos o arranque, partimos. Engatei a primeira e pisei, engatei a segunda, pisei, engatei a terceira e pisei. E ela ficou presa na terceira. Não trocava de marcha mais, no melhor estilo Miss Sunshine. Paramos em um mecânico que entrou debaixo do carro, olhou, saiu e voltou com um martelo. Que carro que se conserta com um martelo? Pá, pá, pum. Pronto, sigam viagem! Não nos cobrou nada.

    Seguimos para Curitiba, alcançando o terceiro estado da nossa turnê. No caminho eu já ia fazendo os contatos com pouca esperança: não espere que um curitibano vá te dar bom dia, muito menos te receber em casa ou ter amigos para chamar para uma festa. No meio da serra a roda dianteira esquerda começa a fazer um assovio e o freio fica duro. Paramos em um mecânico, esperando que voltasse com um martelo, mas não. Voltou com um rolamento e trocou. Trezentos reais. No meio da estrada, em um frio do cacete e sem opções, pagamos. Era muito dinheiro, quase tudo o que tinha no bolso.

    Chegamos na gelada Curitiba. Na internet, muitos fãs, na vida real, não têm ninguém para nos receber. Fomos para o centro fazer algum dinheiro e encontramos a Boca Maldita, uma praça onde acontecem os protestos – parece que os curitibanos têm muito à protestar – e montamos nosso equipamento. Deu bom! Os curitibanos podem ser fechados e frios, mas são um bom público e foram generosos. Com algum dinheiro no bolso pegamos comida e fomos à procura de um camping. Só encontramos um e era na cidade vizinha.

    Seguimos até lá, mas o endereço não existia. Era uma zona rural e apostamos em conseguir algum terreno para ficar aquela noite. Fomos entrando cada vez mais para o interior e paramos em uma bodega. Um lugar escuro, sujo, feio, com um atendente esquisito. Cara de início de filme de terror. Como um bom curitibano, nos atendeu perguntando o que queríamos ali. Não em um tom de o que desejam, mas em um tom agressivo, como se fosse uma ofensa entrar no bar dele.

    Explicamos nossa situação e ele disse que deveríamos ir embora o mais rápido possível. Explicou que ali era uma pequena comunidade cristã e que se nos pegassem vagando por ali iam nos matar. 

    – Matar? – perguntei. Ele só me olhou de volta, grave. 

    Bardo me pegou pelo braço e entramos no carro. 

    – É só um cara maluco, um idiota, tentando nos assustar – ele disse.

    – Ele conseguiu – respondi.

    Seguimos adiante pela estrada e paramos em uma porteira. Era uma fazenda moderna, com um belo jardim. Tocamos um sino. Uma mulher veio correndo lá de dentro, com uma feição preocupada.

    – O que querem aqui? – com aquele mesmo tom do maluco do bar.

    Contei minha história, disse que procurava pelo camping e que já estava escuro para sair dali. Ela olhou ao redor, como que procurando por mais alguém, e disse que ia nos deixar acampar no pátio da igreja, mas que não podíamos sair de lá antes do sol nascer, que ela ia avisar a comunidade que estava tudo bem. Nos levou até a igreja, abriu o salão para usarmos a pia e reforçou que não devíamos fazer barulho, fogueira e nem sair dali em hipótese alguma.

    Dormimos com um olho aberto. Obrigada, comunidade cristã, pela acolhida e, principalmente, por não nos matar.

    Na manhã seguinte um casal da cidade vizinha nos disse que podia nos receber por um dia ou dois. Era bem fora de mão e não tinha onde tocar por perto, então voltamos para a Boca Maldita, apresentamos nosso espetáculo e seguimos para lá no final da tarde. Fomos muito bem recebidos, mas o casal deixou claro que não tinham nenhuma relação com putaria nenhuma, queriam apenas nos ajudar com a nossa música. Por mim, tudo bem. 

    No dia seguinte nos levaram para um bar de rock onde uma banda tocava para um público considerável de motociclistas. No final do show subimos no palco e tocamos algumas músicas. Desci com o chapéu na mão e fui arrecadar um dinheiro enquanto Bardo guardava o equipamento no carro. Quando terminei de passar o chapéu, o vocalista da banda veio e tomou ele da minha mão. Disse que aquele dinheiro era dele, que eles tinham tocado por mais tempo e mereciam mais. Jurei que era uma brincadeira e ri, mas o resto da banda estava me olhando sério. Não entendi se estavam apoiando ele. Bardo chegou no meio da situação. Expliquei para ele e ele riu, estendendo a mão para pegar o chapéu de volta.

    Bardo tinha raspado a cabeça uns dias antes. Ele ficava realmente assustador com o figurino de couro, aquele óculos de espinhos e a cabeça raspada, parecendo um skinhead. O vocalista entregou a cartola e ficou resmungando baixinho. Ué, onde está o metaleiro valentão agora?

    No dia seguinte voltamos para a Boca Maldita. O povo estava adorando nosso som e pagando bem. E estava frio, muito frio! Nosso plano era tocar mais uma vez e seguir para a próxima cidade quando uma moça, baiana, nos viu tocando e nos convidou para ficar no apartamento dela que ficava a uns poucos metros dali. Isso era perfeito! E ela é uma pessoa maravilhosa (que eu espero que leia esse livro!). Nos recebeu muito bem! O apartamento era pequenino, mas aquele coração e energia baianos perdido em Curitiba fazia tudo dar certo.

    Colocamos a Elvira em um estacionamento pago do outro lado da rua e ficamos tocando por muito tempo na Boca Maldita, nas praças ao redor e na Feira do Largo da Ordem aos domingos. O público era bom, a grana era boa e Curitiba é uma cidade ordeira, limpa e organizada. Até hoje é minha capital favorita no Brasil. Com o tempo, fomos pegando o espírito do povo, que realmente é super fechado e tímido a ponto de parecer grosseiro – e às vezes é mesmo – mas que com o tempo vai se abrindo.

    Era aniversário da nossa Baiana e queríamos fazer algo muito legal. Batendo papo descobrimos que ela tinha muita curiosidade de ir à uma casa de swing, mas tinha receio de ir sozinha. Com as más companhias certas, ela convidou um amigo – também baiano – e um outro casal e fomos juntos. A casa era meio esquisita. É normal que muitos casais iniciantes fiquem tímidos nas suas primeiras vezes, mas aquilo parecia um mausoléu. Casais agarrados uns aos outros, morrendo de medo de alguém chegar perto. Ao menos haviam algumas corajosas dançando no pole dance. Bebemos uma garrafa de tequila – entre lambidas de sal e beijos na boca com limão – e subi no pole dance com as esposas. Alta da tequila, me soltei e comecei a gritar e rir alto. As outras mulheres me olhavam estranho. Tentei agarrar e beijar elas, passar a mão, mas não deixavam. Na verdade elas estavam dançando bem desanimadas. Esquisito.

    De repente, Bardo me puxa para fora da pista. O dono da casa tinha chamado ele e dito que eu estava humilhando as meninas da casa. As meninas da casa? Fui entender que eram prostitutas. Já tinha ouvido falar disso em algumas casas de swing, mas ainda não tinha visto. Aborrecida, deixei as meninas da casa em paz, peguei meus amigos e fomos para um quarto escuro. Como presente de aniversário, sentei na cara da nossa anfitriã e deixei ela se deleitar com a língua na minha buceta. Bardo ficou assistindo, já que ela não gostava de homens – pelo menos não na época – e segurando as dezenas de solteiros que pareciam baratas na porta, querendo participar.

    Terminada a brincadeira fomos caminhar pela casa e ver se comíamos alguém, mas o cenário ainda era o mesmo. Nos perdemos dos nossos amigos pelos corredores e encontramos esse casal metendo em pé contra a parede. Empurrei o Bardo nos dois e vi uma cena muito divertida: Bardo chegou, devagarinho, e colocou a mão na bunda da mulher enquanto o marido fodia. O cara gozou na hora. Esse vai dar um ótimo corninho. Pena que isso acabou com a brincadeira e eles fugiram. Cansamos e resolvemos ir embora, mas não conseguimos encontrar o terceiro casal. De repente, um segurança chega nos agarrando e nos tirando da casa. O dono da casa disse que estávamos nos comportando mal e humilhando os clientes. Se seus clientes não transam nem na casa de swing, a culpa é minha?

    Swing em Curitiba, nunca mais. Na verdade, a vida sexual em Curitiba estava complicada, muito mais do que em qualquer outro lugar. Bardo e eu resolvemos então tentar os aplicativos de namoro que estavam em alta no momento. Eu conheci um cara. Ele me levou ouvir jazz, beber vinho e jantar e depois fomos para o motel. Ele meteu muito, gozou três vezes. Eu, nenhuma. Voltei para casa compreendendo muito do vazio que as pessoas relatam sobre essa vida de app de namoro. Para o Bardo foi ainda pior. Saiu com três mulheres. Mesma coisa. Jantar, papo furado, motel e zero conexão. A cada trepada dava menos vontade de seguir em frente.

    Já estávamos há muito tempo no apartamento da nossa baianinha e comecei a pedir por lugar para ficar no microfone. Uma pessoa que morava ali perto nos acolheu. Nos mudamos para a casa dele. Como viveu na cidade a vida toda, acabou nos mostrando outra Curitiba: conhecemos as feiras locais (tem feiras todos os dias) e várias praças bacanas. Deixamos a Boca Maldita e começamos a rodar tocando pela cidade toda. 

    Essa foi uma de muitas vezes até ali que passamos por uma certa situação: a pessoa nos recebe cantando vantagens, dizendo que tem dinheiro, que faz e acontece, mas estava sem comida na geladeira. Acabamos ficando por mais tempo porque dava dó de ir embora sabendo que uma pessoa nem tinha o que comer direito. Antes de ir, compramos comida e abastecemos a casa. Era nossa forma de gratidão. Ao mesmo tempo, era difícil ver a pessoa não fazendo nada por si mesma, passando o dia nas redes sociais fazendo discursos de “nós contra eles.” 

    ***

    Francis, meu texano favorito, estava voltando de uma viagem na Colômbia e ia desembarcar no aeroporto de Curitiba. Oba! Nos encontramos e, depois de algum bom tempo, tive um sexo gostoso e pegado de novo. Teria sido perfeito se ele não tivesse trazido um extra da Colômbia (e não era o que você pensou): ele veio doente de H1N1, mas ainda não tinha os sintomas.

    Foram os piores quinze dias da minha vida. Logo depois, Bardo e as kids também pegaram. Era abril, em Curitiba, frio e úmido até não poder mais e nós quatro tremendo de febre. Em alguns momentos pensei que ia morrer e cheguei a conversar com o Bardo sobre isso. Foi horrível, mas passou.

    ***

    Com a Elvira devidamente documentada (deu muito trabalho!), nos despedimos de Curitiba e olhamos para o horizonte: nenhuma outra cidade do Paraná podia nos receber, mesmo tendo milhares de fãs na internet. Acabamos rodando direto para São Paulo, capital, onde o pessoal do movimento Poliamor nos aguardava. A situação lá era a mesma: a turma que conhecemos em 2012 havia se dividido por questões de nós contra eles. Raça, classe, sexo e política. Eu não sou uma teorista da conspiração, mas estava claro que havia um plano para nos separar a todos, uma ideia de discórdia total que minava qualquer tipo de união possível. Ou era isso ou somos todos nós, você e eu, completos idiotas.

    Sem muito o que fazer por lá no sentido de amar, fomos para os food parks da cidade. Estavam na moda esses pátios cheios de carros de comida pelo dobro do preço, lotados de gente, e nossa música era bem vinda. Fizemos uma boa grana. Durante o dia tocamos na Avenida Paulista, mas o povo não parava para ouvir, todo mundo na correria. Resolvemos então tocar em frente ao Teatro Municipal. 

    Chegamos perto do meio dia e montamos nosso equipamento. Uma loja nos emprestou a energia. Logo estávamos cercados por um público incomum: moradores de rua, prostitutas e alguns trabalhadores que tomaram a decisão corajosa de trocar os quinze minutos de almoço por música. 

    Começamos a ver uma movimentação diferente. Os moradores de rua pediam moedas aos trabalhadores e colocavam na nossa cartola. Segurei um choro. Cantei por muito mais tempo do que costumava cantar. Quando terminamos eles nos cercaram. Foram abraços, lágrimas e agradecimentos por trazermos para fora do teatro o que eles nunca iam poder pagar para entrar e ver. Foi um dos dias mais lindos da turnê!

    ***

    Em uma noite, fomos tocar em um enorme posto de gasolina no Ipiranga. Nos disseram que era um lugar frequentado por muitos motociclistas e que seríamos bem recebidos por lá. Chegamos com nosso som e o lugar estava mesmo lotado. Começamos a tocar e foi um sucesso!

    De repente, começam a chegar dezenas de motos. Todo mundo abriu espaço para eles. Eram os Abutres. Algumas pessoas já tinham nos dito que eles eram perigosos e que devíamos tomar cuidado com eles na estrada. Ficamos preocupados, mas continuamos tocando.

    Eles nos cercaram e curtiram o show. No final, dois homens se aproximaram. Pediram nosso contato e perguntaram sobre nossa música. Bardo começou a contar a história mas foi interrompido:

    – Espera aí, o presidente precisa ouvir isso.

    Logo chegou um outro homem. Bardo contou a história. Esse homem era o presidente nacional dos Abutres e ele disse que, onde quer que fosse no Brasil, se precisássemos de qualquer coisa na estrada poderíamos contar com eles. Disse que seríamos seus protegidos de quatro rodas.

    Enfim, os abutres, um dos motoclubes mais legais que conhecemos na estrada e que virou família. Algumas pessoas podem ter histórias não tão boas sobre eles, mas nós temos!

    Aliás, motoclubes no Brasil são incríveis, de forma geral. Eu não gosto de andar de moto, de forma alguma, mas a organização dos caras é muito legal. E eles fazem o bem por onde passam. Sempre tem eventos beneficentes e são, para os nômades, uma parte da família da estrada. Poderia citar aqui algumas dezenas de motoclubes que nos acolheram no caminho (acho que dava um livro só de histórias de motoclube!) Somos gratos por serem parte da nossa vida!

    Que a chuva lave seus coletes!

    ***

    De São Paulo, onde o movimento Poliamor tinha morrido, só restava o Rio de Janeiro. Colocamos muita fé. Era a cidade do amor, da beleza, da nudez, do carnaval. Se alguma coisa ia acontecer, ia começar por lá mesmo. Ao mesmo tempo, a cada passo para longe do Rio Grande do Sul íamos vendo o nosso movimento virar poeira. Nosso Clube do Amor já não se encontrava mais. Eram desavenças infinitas do nós contra eles. Alguns amigos da estrada viajaram e se encontraram, o que ainda nos dava esperança. Nos sentíamos fracos para lutar contra aquilo tudo.

    Descemos para a Praia Grande mas já era Maio e não encontramos público para tocar. Fomos seguindo pelo litoral paulista pegando chuva todos os dias. O dinheiro começou a minguar. Conseguimos tocar para um pequeno público em Caraguatatuba e recuperar para chegar em Paraty. Chegamos no meio de uma festa religiosa, lotada de público, e conseguimos tocar o final de semana todo. No domingo ao fim da tarde, um restaurante local nos pediu para tocar na rua ali perto deles e nos deu um dinheiro para chamar os turistas ao microfone. Não tinha feito isso ainda, mas parecia bom. Não foi. Os restaurantes ao redor não gostaram muito e chamaram a polícia.

    Tivemos muitas interações com a polícia no caminho e elas sempre foram positivas. Sempre foram muito atenciosos ao ver que lidavam com uma família e sempre animados para conhecer a Elvira. Dessa vez foi diferente. Dois policiais truculentos chegaram, desligaram o som e sugeriram que pagássemos um cafezinho para continuar tocando ali. Não tínhamos como pagar nada, mesmo que quiséssemos, e fomos escoltados pela viatura para fora da cidade. 

    Seguimos. Paramos em Angra dos Reis e tocamos na praça central para um público muito animado! Nos receberam muito bem, nos deram um bom dinheiro e seguimos viagem. Chegamos ao Rio de Janeiro no final da tarde e avisamos o pessoal do movimento Poliamor que estávamos lá. Para nossa absolutamente nenhuma surpresa, ninguém respondeu. Eu ainda tinha outra carta na manga: o pessoal da Rede Globo que conhecemos nos outros programas que fizemos. Apenas uma resposta e, por essa, na boa, eu não esperava: uma produtora nos pediu quinhentos reais para acamparmos na sala da casa dela.

    Fiquei injuriada. Era o fim da linha ali. Nossa missão de espalhar o amor não ia ter nenhum tipo de suporte. Me senti vivendo em um universo paralelo. Uma idiota querendo coisas boas para quem só queria brigar.

    Por outro lado eu estava orgulhosa de ter ido até ali movida pela música. Mesmo que o dinheiro fosse apenas o suficiente para sobreviver, estava vivendo grandes aventuras, viajando, conhecendo lugares e pessoas e experimentando comidas e culturas diferentes.

    Estávamos apontando a linha vermelha quando meu telefone tocou. Um fã, que não era da turma do amor livre, tinha conseguido um show naquela noite e uma garagem para dormirmos no Méier. Voltamos e seguimos para lá. Era um bar de rock, lotado de gente, e fizemos um espetáculo delicioso. Todo mundo se divertiu muito. De lá fomos dormir na garagem do prédio do fã. Na manhã seguinte a irmã do Bardo, que é comissária de vôo, disse que estava com um apartamento em Copacabana e que podia nos receber lá. 

    Estacionar foi um pesadelo. Quando os flanelinhas viram a placa de Curitiba chegaram como moscas. Dissemos que não podíamos pagar nada e eles nos ameaçaram de furar os pneus e arranhar o carro. Acabamos pagando uma fortuna para deixar a Elvira em um estacionamento fechado. Tentamos tocar na praia mas não nos deram espaço. Tocamos na calçada, mas ninguém parou para ouvir. A irmã do Bardo disse que ninguém iria arriscar puxar a carteira para colaborar ali. Uma lástima. Dormimos por lá e fomos embora na manhã seguinte. Na hora de sair do estacionamento, uma BMW nos fechou e arranhamos a Elvira contra um poste. Não adiantou muito pagar para estacionar.

    Adeus, Rio de Janeiro! Mas não sem antes viver um cartão postal: fomos parar no meio de um tiroteio entre policiais e bandidos. Bardo pensou rápido e nos enfiou entre dois ônibus (me desculpem, cariocas, pelo escudo humano) enquanto as crianças se jogavam no chão gritando, desesperadas. Em um instante que o fogo cessou, Bardo arrancou e passou pelos policiais, em uma rua na contramão, e nos tirou da situação. Nessas horas ele tem um sangue frio impressionante!

    Engarrafados na linha vermelha, choramos. Não conseguíamos ver como levar nossa missão adiante. Sugeri que fôssemos para Petrópolis, que eu já conhecia, e que lá decidíssemos o que fazer. Eu tinha ido no verão e não fazia ideia de como podia ser frio na serra do Rio! Estacionamos na Rua do Príncipe (o único lugar na cidade sem os flanelinhas uniformizados) e fomos tocar na Praça Dom Pedro II. Eu amo Petrópolis, com suas casas antigas, museus e o seu ar de história.

    Foi um sucesso. Nos chamaram para tocar na Rua 16 e em um restaurante fino. Quando a noite chegou o frio apertou de verdade e um pessoal do motoclube apareceu para ver se estávamos bem e trazendo cobertores. Isso sim é uma recepção calorosa!

    Ficamos ali por uns dias. Bardo dando aula e treino para as meninas e conversando comigo sobre nossa missão. Realmente não tinha por onde ir. Nos demos conta de que a internet e o mundo real eram completamente desconectados, que as conversas online raramente rendiam ações reais e que estávamos vivendo uma ilusão. Pensamos que, ao menos, o nós contra eles também podia ser uma coisa do online também, que nunca ia chegar na vida real das pessoas, não mais do que já existia.

    A Bauernfest, um equivalente da Oktoberfest em Petrópolis, seria dali duas semanas. Resolvi levar a família para conhecer Arraial do Cabo nesse meio tempo. Queria passar o dia dos namorados com o Bardo lá. Passamos para visitar uns amigos da família do Bardo em Araruama e seguimos, mas o câmbio da Elvira deu problema e acabei passando o dia dos namorados acampada em uma oficina mecânica e jantando miojo.

    Chegamos em Arraial do Cabo com chuva. Estava em uma maré de azar naqueles dias. Acabamos ficando estacionados na beira da praia e arrumando as cortinas da Elvira. Alguns dias depois o sol abriu e pegamos um evento religioso na cidade, o que rendeu bem para a música de rua. Conseguimos curtir as praias. Na segunda-feira um casal muito querido, donos de um barco, nos ofereceu um passeio em troca de publicidade no Facebook. Nossa página tinha trinta mil seguidores e crescia todos os dias. Eu me senti mal em aceitar, sabendo que aqueles seguidores eram pessoas reais e ao mesmo tempo falsas, mas fui mesmo assim. Valeu a pena. Pilotei o barco, entrei na caverna das baleias, Bardo nadou em alto mar no meio das arraias e tubarões (maluco!). Foi um dia delicioso!

    Aquela coisa de trocar audiência online por produtos e serviços me deixou com a orelha em pé. Eu estava começando a usar o Instagram na época e estava adorando. Ele me deixava postar minhas fotos nua e o público dessa rede parecia mais interessado em fotografia e não no nós contra eles que era o Facebook.

    Voltamos para Petrópolis e trabalhamos como doidos por quinze dias de Bauernfest. Fazíamos pelo menos três espetáculos por dia. Bardo, que tinha sido confirmado luterano na adolescência, conseguiu lugar para tomar banho em uma igreja luterana na esquina. As meninas começaram a reclamar muito do treino do Bardo, que era puxado demais. Ele estava impressionado com o filme Capitão Fantástico e deve ter pensado que ia transformar as filhas dele nos super personagens do filme. Tive que pedir para ele pegar leve, o que deixou ele bastante contrariado. Ele aceitou, mas deixou claro que íamos pagar um preço alto por aquilo no futuro.

    ***

    Estávamos fazendo o jantar na Elvira quando um moço que fazia estátua de rua passou por nós (você ainda encontra ele por lá, um anjo branco, Felipe – o Cara da Hipnose!). Parou, fez umas mágicas divertidas e ficamos de papo. Convidamos ele para jantar conosco e ele aceitou. Estávamos em uma conversa muito boa sobre nossa arte de rua quando olhamos para a esquina e vimos Dom Pedro II, em pessoa, vindo na nossa direção.

    Bardo não se conteve. Chamou ele para conversar. Ele falava com um palavreado rebuscado e contava histórias como se fosse o próprio! Nos mostrou a casa do outro lado da rua e disse que ali morava José Bonifácio, seu professor, e que ele não dava moleza nos estudos. Bardo fez uma piada com o nome, dizendo que ele era um professor “bom e fácil.” Dom Pedro não riu e mudou de assunto, deixando um climão. Ele jantou conosco também e, na hora de ir embora, saiu na mesma direção que tinha vindo, como se estivesse mesmo vindo nos visitar.

    Antes dele sair, Bardo pediu o contato, ao que Dom Pedro respondeu:

    – Nosso contato acabou de acontecer aqui, amigo. Se for para nos vermos de novo, nos veremos.

    Ficamos todos em silêncio com aquela fala enquanto ele sumia na esquina. Bardo pegou o telefone do bolso e jogou dentro do porta luvas.

    – Ele tem toda a razão.

    E daquele dia em diante Bardo não usou mais a internet.

    ***

    Dentro da Bauernfest conhecemos um casal muito bacana de uma cervejaria. Quando tudo terminou eles nos convidaram para ficar no sítio deles em Lumiar, um lugar lindo na serra do Rio de Janeiro. Os pais do Bardo vieram nos visitar e pediram para levar as meninas para o sul por uns dias. Elas queriam ir e ia ser bom ficar só os dois por um tempo, dava para trabalhar ainda mais!

    Chegamos na bela Lumiar com uma chuva torrencial. O casal nos recebeu na casa deles e nos deu um quarto. Deitamos e apagamos por três dias. Eles também estavam exaustos da feira e passamos só comendo e dormindo. Recuperados, fomos mexer na Elvira. Aproveitamos que o Rafa tinha uma esmerilhadeira e cortamos a divisória interna do carro (mesmo sob protestos de seguidores que diziam que ia danificar a estrutura, o que nunca aconteceu, né, especialistas da internet?). Com isso ganhamos bastante espaço para as meninas dormirem melhor. Elas cresciam rápido e estávamos tentando entender como íamos viver daquele jeito dali para a frente.

    Tocamos na praça e na cervejaria e nos divertimos muito. O casal emprestou um livro intitulado Sapiens que deixou o Bardo impressionado. E ele era assim. Sempre que se impressionava com alguma coisa nossa vida virava de cabeça para baixo. Foi assim com O Clube da Luta, TROM, com O Capitão Fantástico e com esse livro. Fazia sentido para ele com tudo o que tínhamos vivido e passado e ele resolveu mudar o comportamento em muitas situações dali para frente.

    Trocamos algumas ideias com o casal sobre amor livre, mas não era a vibração deles. Comecei a me sentir sozinha no mundo de novo, como era nos primeiros dias. Talvez o máximo que íamos encontrar era swing e sacanagem mesmo, não uma revolução do amor. Nos despedimos deles, que estavam indo embora para a Nova Zelândia e seguimos o nosso caminho.

    Depois de todo o sul, de São Paulo e Rio de Janeiro, finalmente íamos entrar em Minas Gerais. Era um estado do qual não sabíamos absolutamente nada. O nosso amigo Fufu tinha nos dito que era um lugar incrível e que íamos amar conhecer. Inclusive tínhamos um encontro marcado com ele em Alfenas no mês de Setembro e pretendíamos estar lá.

    Cruzamos uma ponte, mas vimos uma favela ao longe e decidimos não parar ali. Por mais que nossa música fosse para todos, o trauma do Rio de Janeiro ainda estava fresco e não sabíamos como seria a recepção. Decidimos seguir para a próxima cidade.

    Quando chegamos, havia mais uma favela. Era uma entrada secundária da cidade, então seguimos para a principal. Mais uma favela. Talvez as entradas da cidade fossem assim, periferia mesmo. Entramos e seguimos para o que o mapa nos indicava como o centro. A favela não terminava. Chegamos no centro, em uma praça linda, florida, com água, banheiro e wi-fi, mas ainda no meio da favela.

    Descemos do carro. Já era tarde e nosso pernoite ia ter que ser ali mesmo. As pessoas passavam olhando. Fiquei com medo e quis ir embora, mas foi Bardo quem se deu conta do que estava acontecendo: aquilo não era uma favela, era a arquitetura local. Hoje me envergonho de contar isso tudo, mas acho interessante mostrar como nossos olhos podem ser embotados pelo preconceito.

    No dia seguinte acordei e olhei para tudo aquilo de novo. Realmente aquela praça era bonita e bem cuidada demais para ser um lugar ruim. As casas eram simples e as pessoas se vestiam de forma simples. Resolvemos tocar e paramos em frente à uma loja de açaí. Tocamos a primeira música e o pessoal da loja nos ofereceu uma tomada. Tocamos uma segunda música e o povo parou para aplaudir e colaborar na cartola. Tocamos mais uma e ganhamos o almoço. E assim foi.

    No final do show tínhamos uma entrevista na rádio local, açaí de graça à vontade, o almoço e alguns contatos para tocar. Ficamos impressionados com o povo daquela cidade e achamos muito fofo o jeito que eles falavam com a gente, um sotaque macio, comendo metade das palavras (às vezes incompreensíveis).

    Ficamos tocando ali por alguns dias e foi muito bom! Desconhecidos paravam para conversar e ficavam ali por horas, como se não tivessem mais nada para fazer. No final da tarde, uma moça ruiva chegou por lá para bater papo. Ela disse que ia rolar um rock no final de semana e que podíamos tocar lá. Topamos. Lá pelas dez horas da noite um rapaz enorme, vestindo um sobretudo preto, chegou em uma moto. Disse que era o organizador do evento e que podíamos ir dormir no sítio da mãe dele naquela noite. Agradecemos, já estávamos bem acomodados ali, mas ele insistiu. E os mineiros insistem como ninguém.

    Acabamos nos enfiando em uma estrada de chão, no meio da noite, indo para um sítio desconhecido atrás de um motociclista. No caminho, ainda com as experiências de quem viveu muito tempo no sul frescas, fomos desconfiando. Tinha alguma coisa errada.

    Chegamos no sítio. Uma pequena casinha de roça, muito humilde. O rapaz acordou a mãe dele dizendo que tinha visita e que era para acender o fogão à lenha. Imagina! Se eu acordasse minha mãe dizendo isso eu levaria uma vassourada na moleira! A mulher levantou-se sonolenta, nos cumprimentou e acendeu mesmo o fogão. Uma hora depois tínhamos um banquete: arroz, feijão, angu, frango com quiabo, salada e uma rapadura de sobremesa. Insano.

    Mesmo assim estávamos com um olho aberto. Aquilo não era normal. Era gentileza demais e esmola demais, o santo desconfia, certo? Nos deram um quarto muito confortável, com uma cama de casal. Tenho vergonha de contar isso também, mas colocamos uma cadeira escorando a porta, receosos de que fossem nos pegar de madrugada.

    Acordamos com o cantar do galo. Tomamos banho e fomos até a cozinha. O cheiro de café tomava o lugar. Na mesa tinha café coado no pano, pão de queijo, broa de milho, pão de sal, manteiga e doce de leite. Segurei um choro (e segurei outro agora, escrevendo isso). Que gente é essa? Sim, fomos muito bem tratados em muitos outros lugares do Brasil, mas ali tinha um carinho diferente. É uma abundância incomum, uma riqueza misturada com humildade. Isso eu nunca tinha visto. Comecei, aos poucos, a entender a “favela” que eu tinha visto.

    Alimentados, seguimos para outro sítio, na cidade vizinha, onde ia rolar o rock. Chegamos lá e estacionamos nossa Elvira ao lado do palco (uma decisão não muito sábia quando tentamos dormir). A moça ruiva estava por lá e ficou andando com a gente o tempo todo. Acabou que papo vai, papo vem (Bardo não perde uma!) Acabamos os três no banheiro do sítio no meio da festa.

    Foi rápido, intenso e muito gostoso. Nos beijamos e nem nos despimos. Foi saia para um lado, calcinha pro outro, línguas, dedos e um boquete duplo que deixou o Bardo alucinando. Por fim ele escorou ela na pia, de pé, e deu uma enrabada gostosa. Gozamos e voltamos para a festa.

    De repente, começou a chover. Todo mundo correndo para baixo dos telhados, o rock arruinado. A banda seguiu tocando no palco. Corri para a Elvira com a moça e perdemos o Bardo. Aproveitei! Já que o show já era, vamos gozar mais? Dessa vez as roupas se foram completamente e me esbaldei na bucetinha dela. Molhada e gostosa. Ela me agarrava pelos cabelos com força enquanto eu chupava o suco enfiando dois dedos lá no fundo. Ela gozou muito. Depois foi minha vez e ela me lambeu todinha com vontade, me fazendo dar squirts pelo carro todo.

    Ficamos deitadas vendo a chuva lá fora até que terminou. A moça se foi e Bardo chegou. Eu estava louca para contar para ele, mas ele parecia mais empolgado que eu. Me contou que estava no meio da turma quando um rapaz abordou ele, perguntando onde estava a ruiva que andava conosco. Ele respondeu que não fazia ideia e o moço ficou apertando ele para saber se tinham transado. Bardo desconversou e mudou de assunto, eventualmente descobrindo que o rapaz era nada mais, nada menos, que o marido da moça.

    Comer quietinho que diz, né mineirada?

    O rock continuava no dia seguinte e a chuva deu uma trégua durante o dia. A cerveja não parava de chegar e, pelas nossas contas, a Bauernfest já estava ficando para trás. Eram caminhões e caminhões de latas chegando e não parecia ter tanta gente assim para beber aquilo tudo.

    A noite caiu e fizemos nosso espetáculo. Foi lindo, uma das nossas poucas apresentações em cima de um palco. O povo pulou, curtiu, dançou e se emocionou. Foram à loucura quando cantamos The Lion Sleeps Tonight: auimauê, auimauê, todos cantavam juntos e riam!

    Descemos do palco encharcados de suor e fomos para o chuveiro. A ruivinha nos seguiu e se enfiou no banheiro! Bardo perguntou, delicadamente, sobre o marido. Ela desconversou e transamos os três no chuveiro. Foi delicioso, mas eu estava com a pulga atrás da orelha. Eu quero o sexo, amo, adoro. Mas eu não quero fazer parte de traição, de mentira, de enganação. Era exatamente o que eu estava lutando contra. Enfim, aproveitei, mas com um pezinho atrás.

    Foi o tempo de sair do banheiro e a chuva caiu. Ainda mais intensa que na noite anterior, e com ela levou a energia elétrica. Agora sim a festa estava arruinada. O povo se enfiou todo debaixo dos toldos espalhados pelo gramado, mas não parou de beber. Ali, na escuridão total, ficamos batendo papo com um monte de gente que não víamos.

    E ali tinha essa mulher muito prazenteira que me encantou, vamos chamar ela de Natália. Ela era jipeira e encontramos muitos gostos em comum. Os amigos dela também eram muito divertidos. Ela nos convidou para passar na casa dela no dia seguinte e tomar um café. Trocamos contato e ela me enviou o endereço.

    No dia seguinte o organizador da festa estava aborrecido. Com a chuva – que é rara nessa época em Minas Gerais – ele não tinha atingido o objetivo financeiro dele. Eu olhava para a pilha surreal de latas de cerveja vazias e, pra mim, a conta dele não fechava. Saímos dali e fomos conhecer a cidade. Uma cidade histórica, cheia de prédios antigos, e meus olhos começaram a trocar o “favela” por barroco.

    Fomos ao museu e andamos pelos trilhos do trem. Aliás, tudo ali era trem e levamos um tempo para entender que isso significava simplesmente qualquer coisa. Me alcança o trem ali? É só usar o trem que dá certo. Deixa esses trem aí, menino! Bardo fez graça com uma placa que dizia: Cuidado: trem. Cuidado com o que? Você pode ser atingido por um meteoro ou uma colher de sopa!

    No final do dia encontramos o organizador da festa, a namorada dela e uns amigos. Entre eles um rapaz muito bonitinho. Nos levaram para um bar. Quando chegamos, Bardo se interessou por uns pedaços de carne no balcão.

    – O que é isso? – ele perguntou aos rapazes.

    – Você não conhece panceta? – eles responderam, embasbacados.

    – Não!

    – Nossa, é hoje! – eles disseram, com um sorriso faceiro no rosto, lambendo os beiços e esfregando as mãos.

    Sentamos à mesa e eles trouxeram a panceta. É uma espécie de bacon, uma receita italiana. Uma tira da barriga do porco que, ao contrário do bacon, é curada e temperada, o que lhe rende um sabor diferente. Frita, é um crime, e implora um copo gelado de cerveja.

    Esse foi o primeiro tombo (de muitos) do Bardo. Sentou-se à mesa e começou a beber com os mineiros. Depois de três cervejas (praticamente o limite dele), um copinho de cachaça. Mais cerveja, mais panceta, mais um copinho de cachaça. Uma coisa levava a outra em um ciclo sem fim. Até que ele foi longe. Saiu da mesa de quatro direto para dentro da Kombi e os mineiros não estavam sequer tontos.

    Fiquei de papinho com o cara bonitinho, mas ele era bem inocente. Não entendeu minhas indiretas e acabou ficando sem nada – e eu também. Meio cabreira, fiquei olhando para a mão dele para ver se tinha uma aliança. Não tinha. Quem sabe em outra oportunidade?

    No dia seguinte Bardo estava um trapo. Limão com bicarbonato e óculos escuros. Fiquei vagando pela cidade, me acostumando com aquele filtro sépia, natural do lugar. No meio da tarde, já melhores, decidimos seguir viagem rumo ao completo desconhecido. Estávamos quase saindo da cidade quando me lembrei do convite da Natália. Falei com Bardo, mas eu mesma argumentei que a mulher estava bêbada, que provavelmente o convite foi da boca para fora. Decidimos não ir. Rodamos mais um pouco e comecei a me sentir mal. E se ela estivesse mesmo esperando? Pedi para voltarmos lá.

    Chegamos na casa dela no final da tarde. E ela estava nos esperando. A mesa estava posta com tudo o que Minas Gerais pode oferecer: queijo, goiabada, pão de queijo, pão sovado, manteiga, geléia, nata, requeijão, broa, biscoito e café, muito café. Era comida para umas dez pessoas, e éramos só três. Imaginei se ela esperava mais gente. 

    Ela vivia sozinha em um pequeno sítio dentro da cidade. Uma casa enorme com um jardim lindo. Comemos e batemos um papo delicioso. Quando deu a noite, nos despedimos e fomos seguindo nosso caminho. Ela fez um ar de quem ia se ofender. Disse que tinha preparado uma canjica para o jantar. Eu nunca tinha comido canjica de porco, mas tinha comido tanto a tarde toda que não aguentava mais. Acabamos ficando.

    Jantamos – empurrando – e estava uma delícia! Agradecemos o jantar e nos dirigimos para a Elvira. Ela, de novo, fez aquele ar de ofendida e nos convidou para dormir ali. Não queríamos abusar e ficamos naquele papo até que a insistência mineira venceu a xucrice gaúcha. Ela nos ofereceu um quarto enorme, com uma cama de casal. Nos trouxe roupas de cama e toalhas de banho. Aceitamos de bom grado e dormimos ali.

    Na manhã seguinte acordamos e não encontramos ela. Já tinha ido trabalhar e nos deixou – dois completos estranhos – dentro da casa dela! A mesa do café estava posta com tudo aquilo de novo. Comemos moderadamente (ainda estávamos pesados da noite anterior) e liguei para ela agradecendo muito e avisando que íamos seguir nosso caminho. Ela disse que não podíamos ir – tinha arrumado um show para nós dois dias depois – e seria ofensivo se não ficássemos.

    Assim, Natália foi nos levando. Fica mais um dia, fica mais um dia (Déjà vu?). A companhia dela realmente era ótima, ficamos muito amigas. Contei para ela sobre minhas aventuras e a nossa missão, mas não era a vibração dela. Ela gostava de nós ali, da música e da conversa. Fomos ao supermercado e compramos mantimentos para repor. Não queríamos abusar da nossa anfitriã.

    Começamos a tocar no calçadão central. Mesma receptividade da cidade anterior. Dinheiro na cartola, almoços, jantares e entrevistas no rádio e no jornal local. Minas Gerais nos surpreendia de uma maneira que não imaginávamos.

    O moço bonito entrou em contato. Disse que tinha um passeio sensacional para fazermos: um biciclotrem! Devia ser uma bicicleta misturada com alguma coisa, imaginei. Qualquer coisa. No fim, era com um trem mesmo! Fomos até os trilhos, conhecemos os trens antigos e andamos nessa bicicleta que andava pelos trilhos. Fui batendo papo com o rapazinho e, mais no tempo dele, dando a entender o que eu queria com ele. Acho que a fiação mineira na cabeça dele estava com dificuldade de me ouvir falar daquele jeito bem na frente do meu marido, mas em algum momento ele finalmente entendeu.

    Fomos para casa e Bardo reclamou que o pé dele estava coçando. Pensou que era uma frieira, passou um remédio e foi dormir. Quando acordou, na manhã seguinte, estava com as pernas todas, até a altura da cintura, cheia de feridas. Era horrendo. Corremos para um médico e ele disse que era sarna. Pobre Bardinho se retorcia de coceira. Compramos os remédios e um sabonete Matacura e ele ficou de cama.

    No dia seguinte liguei para o moço bonito. Ele topou sair para dar um passeio. Veio me buscar no final da tarde – de moto. Eu não ando de moto. Odeio, tenho horror. Andei uma única vez com o Bardo e me senti um parachoque. Não sei como as pessoas tem coragem de subir numa coisa dessas! Fiquei em um impasse. Eu estava com a bucetinha pulsando. Já eram meses desde minha última aventura com outro homem. Não teve jeito: subi na moto e fui. 

    Animada, esperava ir direto para o motel, mas não. Ele me levou para a praça central, onde eu tocava. Caminhamos, conversamos e comemos pipoca. Sentamos em um banco e ele pegou na minha mão. Ali me dei conta: eu estava em um encontro adolescente! Oh, não! Fui levando a conversa para a putaria o mais rápido que pude, mas ele resistia. Se ele não fosse tão bonitinho eu tinha ido embora na hora. Continuei insistindo até que ele pediu para irmos para outro lugar. Agora sim, finalmente o motel!

    Ele pegou uma rua estreita e começou a subir um morro íngreme. Entrei em desespero quando chegamos no pé do Cristo Redentor (quase todas as cidades de Minas Gerais tem uma versão menor dele). Ele falava de família, de casamento e de filhos e eu falava de suruba, putaria e orgasmos. Quando vi que ele não ia ter iniciativa, agarrei ele, joguei contra o calcanhar do Senhor e comecei a beijar.

    Ele beijava bem, era gostoso. Tentei enfiar a mão nas calças dele mas ele não deixou. Estava muito desconfortável ali. Seria a estátua? Acho que o seu deus vê em qualquer outro lugar do mesmo jeito, não é? Subimos na moto. Ele estava ofegante. Agora vai, agora é motel! Não foi. Comecei a ter vertigens quando percebi que me levava de volta para casa. Me lembrei do flautista frouxo. Minha buceta já doía de tesão e nem o Bardo ia poder me salvar hoje, cheio de sarna em casa!

    Chegamos no portão e voei nele. Esse filho da puta ia me fazer gozar ali mesmo. Agarrei-o e encostei em um canto escuro, debaixo das plantas. Passava a mão nele todo e ele foi se encorajando. Pegou na minha bunda. Ah, finalmente! Ficamos naquele agarra adolescente por um tempo. Meu clitóris pulsava, gritando como um alarme de bombas atômicas. Convidei ele para entrar e conhecer a Elvira, mas ele decidiu ir embora. Fiquei furiosa. Ainda teve a audácia de me convidar para jantar com a mãe dele no dia seguinte.

    Entrei em casa me arrastando. Bardo estava na cama, jogando videogame no notebook. Ele olhou para minha feição e arregalou os olhos. Perguntou o que tinha acontecido, se eu tinha sido abusada ou algo assim. Contei para ele como foi e ele ficou muito triste por mim. Até hoje ele diz que nunca tinha visto aquele ar de decepção no meu rosto – nem com o flautista. Sem que ele pudesse me comer, deitei do lado dele e arranquei litros de suco do meu clitóris. Gozei até não poder mais, mas não fiquei satisfeita. Que ódio desse rapaz!

    No dia seguinte, Bardo me chama na cozinha. 

    – O que é isso? –  ele pergunta, tirando uma estrelinha marrom da barriga. Eu nunca tinha visto aquilo. Fizemos uma foto e mandamos para a Natália. Era um carrapato estrela. Começamos a procurar pelo corpo dele e encontramos mais alguns. Não era sarna! Ele estava sendo consumido pelos parasitas aqueles dias todos! Que médico imbecil!

    Removidos os bichos, ele começou a melhorar e alguns dias depois conseguiu voltar a tocar. Eu estava subindo as paredes com aquela castidade forçada. Ele também. Assim que foi possível, transamos uma tarde inteira. Era preciso tirar o atraso! Nem imaginávamos o quanto esses carrapatos seriam nosso pesadelo dali para a frente.

    ***

    Fica mais um dia! E assim as meninas já estavam de volta do passeio dos avós. Eles iam nos retornar elas no aeroporto do Rio de Janeiro, que não era tão longe dali, então Bardo e Natália foram no carro dela – ela aproveitou para visitar os filhos que moravam por lá. Fiquei sozinha em Minas. Em um papo com nossos contatos da estrada, Zé – meu comedor de Floripa – me disse que estaria a trabalho na cidade vizinha. Quais as chances? Eu ia me esbaldar naquela rola gostosa!

    A expectativa cresceu e a decepção foi imensa quando ele disse que tinham realocado ele de cidade, que não íamos nos ver. Eu precisava meter com alguém, mas não conhecia mais ninguém que tivesse me chamado a atenção ali. Liguei para o bonitinho, em um ato de desespero. Ele estava magoado porque eu não quis conhecer a mãe dele. Chamei ele para conhecer a Elvira e ele aceitou. É hoje.

    Não dei tempo para ele entrar no papinho de bom moço. Empurrei ele para dentro da Kombi e já fui arrancando as roupas. Ele lutava. Beijava gostoso, colava o corpo no meu, mas os braços me empurravam e seguravam as calças no lugar. Que filho da puta, desgraçado. Lutei com a força de uma leoa faminta. Eu já estava toda nua, ele ainda de cueca. Esfregava minha buceta na cueca dele, o pau duro como um tijolo, todo molhado, e ele não tirava. Eu não podia passar por aquilo de novo!

    Ele me tocava com delicadeza, sem nenhuma pegada, e eu agarrava ele com força, alisava o pau, tentava tirar a cueca. Ele me beijava e tentava ficar só no arreto. Tentei descer e chupar, ele não deixou. Fiquei de quatro, de costas para ele, rebolando a bucetinha e chamando. Não tinha como resistir a isso. Ele ajoelhou atrás de mim, ainda de cueca, e ficou roçando o pau duro na minha bunda. Eu estava em desespero completo. Mete esse pau, pelo amor do teu deus, seu brocha! Ele não meteu.

    Deitei do lado dele e me masturbei. Ele não ia me fazer gozar? Tudo bem, mas ia me ver gozando. Gemi alto e dei squirts nas pernas dele. Ele se vestiu e foi embora. Idiota! Estava desesperada. Liguei para a ruivinha, mas ela não atendeu. Então liguei para o organizador da festa. Ele não me interessava e tinha namorada, mas tinha um jeito de safado e alguém precisava me comer. Não deixei claro o que eu queria e ele foi com a namorada. Tomamos café juntos e conversamos. Quase propus aos dois um ménage, mas fiquei receosa de como ela ia reagir. Acabei sem nada.

    Anos depois fui saber dela, quando nem estava com ele mais, que ela teria topado. Que azar! Não se deve ter medo de tentar!

    O que leva as pessoas a tratarem sexo, uma coisa tão simples e básica, um prazer tão fácil de dar e receber, com tanta dificuldade? É tanta coisa complicada colocada ao redor! Namoro, casamento, “energias cósmicas” e tudo o mais. Gente, é só tirar a roupa e curtir, nada mais que isso! 

    E não precisa ser vazio. É simples. Basta que as duas (ou mais) pessoas envolvidas realmente queiram o prazer do outro. É o ápice da beleza do dar e receber ao mesmo tempo.

    Por algum motivo, em algum momento, inserimos sentimentos que não pertencem a esse lugar. Complicamos o que era simples e nos transformamos em seres que negam sua natureza. Somos todos extremamente carentes de carinho e, em algum momento, isso virou motivo de vergonha. Sexo não é vergonha nenhuma, é simplesmente a coisa mais linda que existe, é o amor em sua essência física e carnal e não devia ser atrelado a mais nada a não ser a prazer e respeito entre as pessoas.

    Mas não é assim que funciona, não é?

    ***

    Bardo voltou com as kids. Que saudades das minhas meninas! Resolvemos ir embora – sob protestos da Natália e com a promessa de voltarmos logo – já estávamos ali por trinta dias!

    Dali para frente era o absoluto desconhecido. Aquele tom sépia contrastando com as montanhas verdes (eu sempre imaginava encontrar os TeleTubbies correndo por ali) e o pior asfalto que eu já tinha visto. Seguimos de cidadezinha em cidadezinha, acostumando cada vez mais com as casinhas simples, a comida abundante, o povo prazenteiro e bom de copo e o jeitinho mineiro de dar uma puladinha de cerca. 

    Um anjo antes de casar, um demônio depois que casa. 

    Naquela manhã chegamos em mais uma cidadezinha. A igreja no centro, a praça florida, as casinhas ao redor. Já tinha virado um padrão. Tocamos na praça em frente à uma escola, na hora da saída. Foi uma delícia de espetáculo. Um fazendeiro que passava ali nos pagou um almoço no restaurante. Conversando, ele nos convidou para dormir na fazenda dele. Já estávamos bem mais acostumados e perdemos o medo desses convites para ficar no meio do nada.

    Andamos por quase uma hora no meio do mato até chegar lá. Já era noite, não tinha nenhum sinal de telefone. Ele nos convidou para jantar. Era só o anfitrião e a esposa em uma casa de fazenda gigantesca, daquelas de filme de época. O jantar, como sempre, foi maravilhoso. Abrimos um vinho, outro e depois outro. Bardo já estava mais esperto agora e não tentava acompanhar o pique. Em algum momento o homem faz uma voz grave e manda a fatídica pergunta:

    – Qual a religião de vocês?

    Bardo pula com a resposta ensaiada: – preferimos não falar sobre isso.

    O homem ignora a resposta dele e diz: – Nós somos cristãos. E eu acho que todo o mundo deveria aceitar Jesus. Tenho tanta certeza disso que se tiver que derramar sangue, farei!

    Ouvimos aquilo como uma ameaça. Bardo, com suas palavras mágicas, foi desarmando a situação. Não tínhamos como sair dali sem alarde e nem tínhamos mapa para encontrar o caminho. Depois de um tempo, conseguimos mudar de assunto. Não aceitamos dormir dentro de casa – mesmo com a insistência mineira – e dormimos na Elvira, com um olho aberto.

    Tomamos café com eles. O homem parecia diferente, mais tranquilo. Nos deu um inversor de voltagem de presente para que pudéssemos carregar os telefones e o notebook na bateria da Elvira. Agradecemos por tudo e seguimos viagem. No caminho, Bardo foi ensinando uma oração cristã para as meninas. Ele explicou que podia ser útil se fosse necessário mentir que éramos cristãos em alguma situação mais complicada.

    Algumas horas depois, chegamos em Tiradentes. 

    Se você já se perguntou por que uma cidade tão pequena precisa de tantas igrejas, sabe do que estou falando. Um guia turístico local me contou a história, que eu conto para você em poucas, mas perplexas, palavras:

    A Vila de São João Del Rey era colonizada por cristãos, mas não havia uma presença da hierarquia católica lá. Não existiam padres, bispos e essas coisas. Quem cuidava da religiosidade eram irmandades. E essas irmandades – pasmem, irmãos e irmãs – eram segregadas. Eles usavam as igrejas para separar os ricos dos pobres, os brancos dos negros e até mesmo os mestiços – que nem os brancos, nem os negros, queriam por perto. Parece que o nós contra eles é muito mais antigo que a internet.

    Então, somos todos filhos de deus, todos iguais, criados à sua imagem e semelhança, mas cada um no seu quadrado, tá bom? E a cidade mostra como era a pujança econômica da Era do Ouro: Construíam-se igrejas para ver quem tinha o pipi maior que o outro.

    Cristianismo e seus absurdos de lado, fomos tocar na praça. Era o Festival de Jazz e a cidade estava lotada de pessoas de bom gosto (na minha igreja só ia entrar quem gosta de Jazz). Foi realmente incrível, ganhamos uma boa grana e o público amou o espetáculo. Conseguimos um lugar para dormir no campo de futebol da cidade, onde haviam chuveiros quentes. Ainda bem, porque fazia muito frio!

    No dia seguinte tocamos na praça central e percebemos alguns fiscais nos rodeando e cochichando entre eles. Fui ficando nervosa, cutuquei o Bardo. Não demorou para vir o bote. Aparentemente nossa presença ali não era bem quista pela prefeitura ou, como aprendemos em Parati, pelos comerciantes locais que pagavam músicos para manter as pessoas nos seus bares.

    Mas dessa vez não foi fácil para os fiscais. Um enorme grupo de motociclistas estavam assistindo o show e, quando perceberam a intenção dos fiscais, foram para cima deles. Bardo teve que defender o fiscal no microfone para impedir que levasse uma surra. Vai ter show, sim!

    Um restaurante local nos adotou pelo resto do dia. Nos deram as refeições e tocamos por lá pelo dinheiro do chapéu. Os músicos locais nos olhavam tortos, acho que porque ganhamos mais na cartola em quarenta minutos do que eles de cachê em quatro horas. É a vida.

    Festival encerrado, seguimos para as cidades em frente, rumo a Alfenas. Mais café, mais pão de queijo, mais música e estrada. Conhecemos muitas cachoeiras e lugares bonitos, mas não chovia a semanas e os carrapatos estavam nos deixando malucos!

    Chegamos em Três Corações. Cidade do Pelé. Fomos até o centro e tocamos em frente à uma pastelaria. Ganhamos o almoço e um dinheiro e fomos abordados por um pessoal da televisão que queria fazer uma matéria. Legal! Ficamos por ali. Na hora de filmar tinha um hippie tocando flauta – muito mal – bem no nosso ponto. Pedimos a ele se podia nos dar licença por um minuto e ele perguntou se podíamos dar carona para ele até São Thomé das Letras.

    Ah, essa cidade! Desde o sul que todo mundo dizia:

    – Vocês precisam conhecer São Thomé das Letras, é a cara de vocês! – Natália também falou muito de lá, dos festivais de música e do quanto ela ficou extremamente bêbada todas as vezes.

    Topamos dar a carona e ele nos deu licença. Filmamos para o jornal da televisão.

    Quando entramos no carro para ir embora com o hippie um policial se aproximou e pediu para falar com o Bardo em particular. Ele recomendou que não fôssemos para São Thomé, que era um lugar perigoso, cheio de armadilhas e drogas, tomado pelo PCC, que não era lugar para uma família bonita como a nossa.

    Às vezes acho que devia ter ouvido ele. Minha relação com São Thomé é de amor e ódio.

    Dirigimos até lá. Era longe. Muito longe. Subimos a montanha com a Elvira esbaforida. Chegamos em uma cidade toda de pedra. Estava extremamente quente. Entramos em um beco esquisito, o carro mal passava. Deixamos o hippie em uma casa sem portas e sem janelas, apenas cortinas. Pedi um copo d ‘água. Uma moça, claramente drogada, pegou um copo e serviu água da torneira – quente! Agradeci. 

    Saímos do beco e estacionamos perto de uma igreja de pedra. Subimos até a rua principal. Todo o comércio estava fechado. Fomos olhando as vitrines: gnomos, fadas, bruxas, pedras, incensos, roupas indianas e muitos bonequinhos de extraterrestres. 

    – Isso aqui é uma arapuca para turista bobo – Bardo constatou.

    Sem mais nada para ver, fomos embora quarenta minutos depois de chegar. A minha cara? Sério? Escolhi me sentir ofendida por isso dali em diante!

    A cidade seguinte era a famosa Varginha, o lugar que tinha recebido a visita de um extraterrestre uns anos atrás, ou assim se dizia por ali. Era tudo temático: paradas de ônibus com desenhos alienígenas, caixas d’água em forma de OVNI e até um enorme restaurante em forma de nave espacial. 

    Foi a primeira cidade polo que chegamos em Minas e foi incrível. Era muita gente! Tocamos no centro da cidade e arrecadamos muito mais do que o habitual. Deu para dar cortinas novas para a Elvira, roupas de cama e travesseiros novos para a família toda.

    Dormimos em um posto de gasolina dentro da cidade, o que era incomum. Eles foram muito atenciosos e nos deram a chave do banheiro com chuveiro. Cuidei de deixar tudo limpo e organizado, era o mínimo que podia fazer em retorno.

    Alguns dias depois, fomos abordados no posto por um músico local. Ele disse que era nosso seguidor há anos e que ele e a esposa faziam swing. Ele não era atraente mas eu estava precisando de um ar de putaria, nem que fosse um bate papo com alguém menos cristão. Fomos até a casa dele e conhecemos a esposa: baixinha, gordinha e tetuda. Bardo animou e eles se engraçaram um no outro.

    Ficamos de papo enquanto eles enxugavam uma cerveja atrás da outra. Cada vez mais bêbada, a mulher alisava as coxas do Bardo e ele respondia. O cara me olhava, para ver se eu ia animar também, mas eu não bati a energia com a dele, não ia ter jeito. Ela enfiou a mão nas calças do Bardo e começou a punhetar. Vendo que ia só emprestar a esposa, o marido encerrou a brincadeira e nos mandou embora.

    Esse povo do swing.

    Seguimos a estrada. Meu aniversário era no dia seguinte e o único presente que eu queria era estar em uma cachoeira. Chegamos em mais uma cidadezinha e fomos até o centro da cidade. Essa era diferente, não havia uma praça central, não havia um lugar de confluxo de pessoas e, portanto, não havia onde tocar. Paramos em frente à uma lanchonete e tocamos ali mesmo, na esperança de fazer algum dinheiro para o dia (ou ganhar o jantar).

    Não havia quase ninguém na rua, mas começamos mesmo assim. Depois de algumas músicas, uma moça de cabelos loiros, encaracolados, e um senhor de idade entraram na lanchonete e ficaram nos ouvindo. Mônica foi puxar papo com eles e, sem eu saber, contou que eu estava de aniversário e que estávamos em busca de uma cachoeira.

    Quando terminamos de tocar, a moça nos deu vinte e cinco reais (que foi todo o cachê do dia) e disse, em um mineirês carregado, que na rocinha dela tinha um “córguin” e que tinha uma árvore enorme onde podíamos estacionar. Depois de me certificar de que ela não era uma extremista cristã (aprendi a fazer as perguntas certas), seguimos ela pelas estradas de chão por vários quilômetros até a “rocinha” dela. Era uma fazenda de criação de cavalos, daquelas que você não vê o final. Realmente havia uma árvore enorme ali, com muita sombra. Bardo olhou o mato seco e os cavalos e só disse uma palavra:

    – Carrapatos.

    Merda. O lugar era mesmo lindo.

    Ela nos convidou para entrar na casa da fazenda. Uma cozinha gigante com um carro de boi como mesa e liteiras como cadeiras. Um enorme fogão à lenha, desses de restaurante. Incrível. Sentados em cadeiras estavam três bonecos em tamanho humano real, uma coisa meio assustadora. A moça, vamos chamar ela de Rita, nos convidou para jantar. Aqui já estávamos mais vividos com a insistência mineira e nem discutimos. Ficamos.

    Mais tarde o marido dela chegou. Um senhor de idade, muito mais velho que ela, com um ar grave de barão de fazenda. Ele se sentou em silêncio e ficou nos ouvindo conversar. Ela fez um maravilhoso arroz de carreteiro no arado. Comemos de lamber os beiços. Quando chegou a hora de dormir, já estávamos decididos a ir embora – e não ia ter insistência. Nem pensar que íamos dormir com os carrapatos. Ela insistiu, mas pediu que dormíssemos nos quartos da fazenda. Nesse caso, tudo bem!

    Ficamos e no dia seguinte Rita nos levou para ver o “córguin.” Andamos por mais de uma hora pelas estradas da fazenda e entramos em um cafezal.

    – Essa é a parte do meu pai – ela disse.

    Depois de mais alguns quilômetros de pés de café, finalmente chegamos à uma pequena vila. Todas as casas eram da família dela. Eram vários irmãos e irmãs, primos, primas e agregados, todos ali vivendo em torno da fazenda. Fomos conhecer o coronel. Esperava alguém ainda mais grave que o marido dela, mas encontrei um senhor muito gentil. Nos afeiçoamos na hora e ficamos horas tomando café e batendo papo sobre plantas. Ele caminhou comigo pelo jardim, me mostrando as mudas e me explicando sobre chás e curas.

    Ele também me falou sobre a Dona Bárbara, uma bruxa que vivia lá dentro do mato (mais dentro do mato que isso aqui?), na beira de uma cachoeira, e que sabia tudo. Fiquei extremamente curiosa. Eu sempre fui a louca das plantas. Minha avó era uma curandeira famosa nas terras dela e eu cultivava esse dom também.

    ***

    Bardo quase sempre foi cético. Estava sempre estudando alguma religião e, depois da fantasmagórica temporada com o espiritismo, tinha se tornado uma pessoa extremamente científica. Mas nem ele podia explicar as coisas que eu fazia.

    É comum eu explodir vidros. Quando a energia ao meu redor “pesa” sempre tem alguma coisa que se quebra. E não é quebrar de levar uma pancada, quebra sozinha mesmo. Bardo adora assustar as pessoas contando sobre todas as vezes em que viu espelhos, copos, a porta da cristaleira e até a tampa do fogão explodirem sem nenhuma intervenção física.

    Não é uma coisa que eu provoco, mas se eu quiser provocar, sei como: basta pegar um ramo de arruda, um pouco de água e dizer as palavras certas enquanto passo a planta pelas paredes do lugar. Às vezes levam algumas horas, mas eventualmente alguma coisa acaba explodindo ou alguém esbarra em um vaso.

    Eu carrego comigo alguns livros de plantas e benzeduras para referência, mas tenho eles inteiros guardados na minha cabeça. Mesmo cético, Bardo sempre lembra dos meus feitiços quando precisa: eu tiro enxaqueca com a mão, e isso é um poder muito útil quando você ficou oito horas jogando vídeo game e não percebeu que o tempo passou!

    ***

    A tarde estava quase no fim quando fomos até o córrego, mas ele tinha pouca água. Mesmo assim, o dia valeu muito a pena. Voltamos para a fazenda e, quando chegamos lá, tinha uma festa de aniversário surpresa organizada para mim. Mônica e Rita organizaram tudo e nem o Bardo ficou sabendo.

    Tinha doces, salgados e bolo. Um monte de gente que eu não conhecia – os funcionários da fazenda – estavam lá cantando parabéns. Que loucura! Que pessoas são essas? Por que elas fariam uma festa de aniversário surpresa para quem nem conhecem? Essas últimas semanas em Minas Gerais estavam me fazendo rever meu conceito sobre humildade, bondade e verdadeira amizade.

    Bardo ficou muito amigo do marido da Rita, o Adão, e estavam batendo papo sobre cavalos, café e a vida na fazenda. Sem perder a oportunidade de ser professor das meninas, ele aproveitava a conversa para que elas fizessem perguntas – era algo que tinha virado rotina toda vez que encontrávamos alguém que era profissional em alguma área. As kids queriam saber de tudo e Adão estava muito feliz com a curiosidade delas, contando histórias e dividindo suas experiências de fazendeiro.

    Acabamos ficando por lá mais de uma semana. Eles não nos deixavam ir embora. Nos levaram para tocar na cooperativa e nos apresentaram os amigos. Adoravam quando tocamos Juvenar (vem tirar o leite, são seis horas da manhã!) e, claro, o Auimauê, auimauê. Um pouco antes de irmos eles nos confidenciaram que Adão lutava contra um câncer há muitos anos e que o quadro dele estava piorando cada dia mais.

    Finalmente seguimos para Alfenas para encontrar o Fufu. Chegamos em um evento que parecia ter sido feito para quinhentas pessoas, mas eram cinquenta. A quantidade de cerveja era surreal. Era o encontro de trinta anos de formatura de uma turma de dentistas. Sem ter certeza de que iríamos mesmo estar lá, eles contrataram uma banda de rock para tocar os dois dias inteiros. Ainda bem, porque eu não ia tocar dois dias inteiros! 

    Colocamos nossa cartola na frente do palco, no chão, e fizemos nosso som. Colocaram mais ou menos trezentos reais ali. Foi ótimo. Dormimos no estacionamento, comemos e bebemos na festa. Bardo se absteve do álcool, como andava fazendo, pois o fígado dele não dava mais conta da mineirada.

    No dia seguinte, tocamos de novo, dessa vez o chapéu foi mais minguado, mas tudo bem. Estávamos seguros e alimentados ali. De repente, alguém grita que a cerveja acabou. A banda para de tocar e Fufu pega o microfone:

    – Vaquinha para a cerveja!

    Em instantes eles arrecadaram nada mais, nada menos, que quatro mil reais. Logo um caminhão chegava e descia uma carga. Não durou até o final do dia. E eles não pareciam nem tontos. Eu tenho para mim que os mineiros são feitos de algum outro material, ou tem dois fígados, quatro rins e duas bexigas.

    Confesso que fiquei um pouco sentida quando rodei a conta na minha cabeça. Até ali, nós vínhamos tocando por cartolas que raramente passavam de duzentos reais – a média era de setenta reais – e enquanto o som rolava eles gastavam fortunas em álcool. Podiam valorizar um pouquinho mais, né?

    Bardo aproveitou a festa para uma oportunidade única: ali estavam trinta pessoas que tinham se formado na mesma época, com as mesmas oportunidades, e que, trinta anos depois, estavam em situações completamente diferentes. Um deles, que ficou muito nosso amigo, tinha uma mansão e um jato particular. Um outro, que passou a festa toda perturbando as pessoas insistindo que o planeta era plano (uma das maluquices da internet na época), mal tinha o que comer. Alguns tiveram muito sucesso e outros nem mesmo trabalhavam na área mais. As kids entupiram todo mundo de perguntas e aprenderam muito sobre carreira e principalmente sobre sorte, naquele final de semana.

    A cerveja acabou de novo e todo mundo foi embora. Um dos convidados nos ofereceu um sítio ali perto para passarmos a noite. Aceitamos e, novamente, depois de conferir o nível de cristianismo, lá estávamos nós rodando quilômetros de estrada de chão até outra roça. O homem chegou lá, nos deu a chave da fazenda e foi embora. Bardo olhou ao redor. Tudo seco, a casa fechada e suja, e disse só uma palavra:

    – Carrapatos.

    Deixamos a chave debaixo do tapete e fomos embora.

    Continuamos nossa saga, de cidade em cidade, que dali em diante pareciam a cópia da cópia. Uma praça central, uma igreja, um povo carinhoso, café e pão de queijo. Já tínhamos uma rotina. Acordava em um posto de gasolina na rodovia, dirigia até a próxima cidade, encontrava a praça central e fazia música. O povo animava. Auimauê, auimauê. Pegávamos nosso pouco dinheiro e nossos brindes e seguíamos em frente. Não me preocupava muito em postar nada na internet. Estávamos totalmente desiludidos com ela, era um universo paralelo com lugar apenas para tretas e mentiras.

    Sempre que encontrava uma cachoeira, ia até o supermercado mais próximo, pegava alguns não perecíveis (macarrão, sardinha, bacon e calabresa, basicamente) e ficava lá por alguns dias, vivendo como nativa. Eram os melhores dias. Fogueira, comidinha, natureza. A maior parte do tempo não tinha ninguém por perto então eu passava meus dias nua. Quem me dera viver assim para sempre.

    Bardo sempre encontrava frutas e raízes por perto e dava um jeito de estender nossa estadia quando a comida acabava. Às vezes ele encontrava alguma coisa que nunca tinha visto e eu ficava preocupada porque ele colocava tudo o que via na boca para saber se era possível comer, mas até ali tudo tinha dado certo.

    Com nosso último compromisso atendido em Alfenas finalmente éramos bichos completamente livres. Ninguém sabia onde estávamos, não existiam postagens, não tínhamos agenda e não respondíamos a ninguém. Era incrível acordar pela manhã e olhar para o mapa do Brasil colado no teto da Elvira, pensando:

    – Eu não devo nada para ninguém, não tenho trinta dias, não tenho contas para pagar. Sou completamente livre.

    Se eu tivesse o que comer naquele dia, nem precisava ir trabalhar. Era o ápice. Não lembro de termos mais do que trezentos reais no bolso em momento algum nessa época. Tocava, ganhava para a gasolina e comida, uma ou outra corda de guitarra e seguia em frente. A Elvira não tinha nenhum equipamento. Eram dois colchões, um fogareiro, as cortinas e os móveis de madeira que o Rafa fez para nós em Lumiar. 

    Eu estava em forma. Magra, esbelta, bronzeada. Tinha pique e energia o tempo todo. E estava quase feliz. O fato da nossa missão não ter tido sucesso e de já fazer algumas semanas que não conhecia ninguém novo para uma putaria me incomodavam. Bardo também. Ainda assim, era um mundo mágico.

    Passamos por Capitólio, famosa por suas águas, e não encontramos água nenhuma. Já eram cento e vinte dias seguidos sem uma única gota de chuva. Bom para o nosso trabalho, péssimo para todo o resto. Vimos os paredões de barro seco e, sem turistas por lá, seguimos embora.

    Chegamos em uma outra cidade e fomos acolhidos por um motoclube em sua sede. Eles tinham uma chapa de lanchonete e Bardo se esbaldou cozinhando todos os dias, o dia todo, nela. Era como se tivesse um restaurante: o povo motociclista chegava com cerveja (muita cerveja) e ficava ali batendo papo e comendo os petiscos.

    Um dos motociclistas nos chamou em um canto. Ele percebeu o quanto Bardo e eu éramos carinhosos e safados um com o outro o tempo todo e, contando pela idade das nossas filhas, quis saber qual era nosso segredo. Não tinha um segredo para contar. Só somos safados mesmo, penso que é só o que basta.

    Ele nos levou até a casa dele. Uma casa imensa, linda. Dois carros importados na garagem, uma moto incrível. Piscina. Entramos na casa, toda com ar condicionado. A mulher dele, uma gostosa, assistia TV na sala como um zumbi. Ele tentou nos apresentar, mas ela nos ignorou. Entendi a frustração dele: trabalhava como um robô para dar aquilo tudo para ela, mas não tinha a safadeza que nós, mendigos da estrada, tínhamos. É mesmo injusto, eu concordo.

    É mais uma daquelas mentiras que abraçamos e que, apesar de todo mundo saber muito bem que é mentira, seguimos contando e acreditando: casamento não é garantia de sexo e, com certeza, é a morte da safadeza e da putaria. Senti muito por ele, um cara bonito, simpático e bem de vida. 

    Depois de rodar algumas dezenas de cidades fomos parar na mansão do nosso amigo dentista. Vamos chamar ele de Cláudio. A casa era surreal. Um Jaguar e uma moto enorme na garagem. A piscina era gigante e podia ser vista de baixo para cima em um bar no subterrâneo. Ficamos hospedados em quartos luxuosos e Bardo se esbaldou em uma sala de videogame ao lado do bar.

    Ele quase não parava em casa. Nós íamos para o centro da cidade fazer nosso som e voltávamos para a mansão. Cláudio chegava tarde da noite, exausto, comia alguma coisa rápida e ia dormir. Tivemos pouco tempo para conversar. E ele era sozinho, só tinha um cachorro. Quando finalmente pôde sentar conosco, com muitas latas de cerveja, nos contou que vinha de uma família muito pobre e lutou muito para construir aquele lugar, mas nunca encontrou com quem dividir.

    Essa era uma de duas coisas que vivemos dezenas de vezes. Ficamos por mais tempo do que precisávamos nos lugares porque as pessoas tinham muito e eram muito sozinhas e também ficamos em muitos lugares porque as pessoas não tinham nem o que comer e acabamos ficando para ajudar com o quase nada que tínhamos. Eu espero, de coração, que nossa presença tenha sido sempre uma coisa boa por onde passamos.

    Cláudio era um homem bonitão e eu pensei que poderíamos fazer um pelo outro. Bardo convidou ele para sair em um bar e eles foram. Fiquei em casa, planejando pegar os dois quando voltassem. Quando voltaram, eu esperava no quarto dele (um quarto maior que muitas casas em que estive), mas broxei quando vi o Bardo arrastando ele, nocauteado pela cerveja, até a cama.

    Alguns dias depois ele nos convidou para voar no jatinho dele. Bardo não estava bem do estômago e preferiu não ir. Fomos as kids e eu. O jatinho tinha só dois lugares e ele decolou e pousou com cada uma de nós. Eu nunca tinha voado em um avião tão pequeno, e claro que fiquei com medo, mas Cláudio nos passou muita segurança e não fez nada assustador.

    Depois dos vôos, fomos beber uma cerveja (eu bebi uma, ele, várias) e fui dando a entender que podíamos ter alguma coisa a mais. Naquele dia eu comecei a pegar um verdadeiro ranço do jeitinho mineiro de amar. Eu tentando explicar para ele que para o Bardo estava tudo bem se transássemos, ele querendo apresentar a mãe. Eu não ia passar por aquilo de novo, nem pensar!

    Senti muito por ele, era um cara realmente legal (quando estava sóbrio) e podíamos ter namorado. Infelizmente essa chave liga e desliga, esse pensamento binário de casado e solteiro não me serve.

    Resolvemos seguir nosso caminho para a próxima cidade, mas Cláudio nos disse que havia uma oportunidade imperdível se andássemos um pouco mais: em uma cidade chamada Ouro Preto acontecia a Festa do Doze.

    Não era tão longe, valia a pena tentar.

    Ouro Preto, nos aguarde!

  • Capítulo 9 – Mimada

    Passamos pela região metropolitana de Belo Horizonte, mas não paramos. Não sou nada fã de capitais e cidades grandes coladas umas às outras. Penso que onde tem gente demais falta abundância. E onde tem escassez tem gente brigando. E onde tem muita gente brigando eu não quero estar.

    Fomos direto para Ouro Preto e entrei em êxtase. É como estar caminhando dentro de uma das pinturas da bíblia que eu amo. Os prédios antigos, as ruas estreitas, os museus, as igrejas, a história no ar. Me senti em um sonho. A parte difícil foi andar com a Kombi naquelas ladeiras. Bardo estava nervoso, com medo da Elvira não subir ou de faltar freio na descida. Um fã da internet (mas não da putaria) veio nos encontrar e nos convidou para dormir perto da casa dele, no pátio de uma igreja. Tomamos um café juntos e fomos para o local. Ele só esqueceu de dizer que a igreja era cercada por um enorme cemitério! Não pude reclamar do barulho, ao menos, era um povo bem silencioso. Naquela noite, descansei em paz debaixo das obras de Aleijadinho!

    No dia seguinte, cruzamos a praça Tiradentes e descemos para o centro, de lá, descemos a ladeira da escadinha. Sobrevivemos! Andamos pelos bairros e subimos de volta para o centro, estacionando bem em frente ao cinema.

    Tinha uma padaria ali que ia servir de base. Banheiro, café, pão e tudo o mais. Logo ali ao lado encontramos uma ponte que tinha bastante movimento e começamos nosso espetáculo. Foi incrível! Dezenas de pessoas pararam para nos ouvir e ganhamos um dinheiro razoável. Do outro lado da rua tinha um restaurante muito fino, daqueles que tocam jazz e tem luzes amarelas. Olhei o cardápio. Parecia uma delícia, mas eu não podia. Disse para mim mesma: um dia vou pagar meu almoço aqui. 

    Um grupo de estudantes nos descobriu por ali e nos convidaram para tocar em uma república.

    Era a famosa festa do doze. É como se fosse o aniversário de todas as repúblicas ao mesmo tempo e algumas delas estavam fazendo sessenta anos! Imagina só quantos estudantes passaram por ali. Tocamos na primeira república. Foi sensacional! Os alunos antigos, alguns bastante idosos, e os alunos novos todos curtindo nosso som. A cartola foi ótima! 

    A república do lado ouviu o barulho e foi lá ver do que se tratava. Logo, estávamos tocando na segunda, na terceira e na quarta delas. Os estudantes espalhavam a notícia e nós dávamos um jeito de aparecer em cada uma delas, nem que fosse só para uma palhinha. Acabamos ficando muito amigos de muitas pessoas, e especialmente de três repúblicas ali. Elas nos ofereceram banho e lugar para cozinhar, o que nos economizou um monte!

    Acabamos ficando por lá durante as festas mesmo quando não estávamos tocando. Conto até hoje a história da “festa da cerveja infinita”: os bichos eram instruídos a não deixar nenhum convidado com o copo vazio, correndo o risco de tomarem um trote caso isso acontecesse. Então os pobres meninos, com a cabeça raspada e vestindo um terno ridículo, andavam com dois litros de cerveja na mão completando os copos de todos os convidados. O que acontecia é que eu bebia um gole e eles já enchiam o copo de novo, então nunca esvaziava! Tive que me esconder para terminar o copo e deixar ele em cima da pia, senão iam me colocar em coma!

    Que coisa gostosa aquela festa! Que energia! Parecia que não tinha fim! Bardo e eu saímos à caça. Não era bem o ambiente que eu gosto para isso, todo mundo bêbado demais, mas era o que tinha e fazia tempo que eu não me divertia. Bardo conseguiu primeiro e fiquei até com inveja da garota, tomando um amasso gostoso no cantinho da lavanderia. Bardo puxou a saia dela para o lado e meteu ali mesmo, discretamente, mas eu percebi.

    Já não tive tanta sorte. Os meninos tinham medo do Bardo então, por mais que eu deixasse claro que queria, eles não iam. Finalmente encontrei alguém disposto e levei para uma sala escura no andar de baixo. Ficamos de amasso, beijos, mão na bunda. Coisa de moleque adolescente. Eu precisava de bem mais que isso, infelizmente. Vi que ele não ia passar daquilo, ou se passasse, ia gozar nas minhas coxas. Empurrei ele e saí. Que merda.

    Fizemos quatorze espetáculos em três dias. Foi de arrancar o couro! No último dia estávamos só o trapo quando uma república nos chamou para uma festa oficial que ia acontecer no hotel. Quase sem energia, fomos, e não nos arrependemos. A festa foi linda, muita comida e bebida e tiramos mais de mil reais na cartola! Pela primeira vez em meses de viagem conseguimos algum dinheiro para viver mais que o próximo dia.

    Saímos de lá extasiados. Estávamos tão cansados que decidimos ficar uns dias na casa da Natália e usar o dinheiro para arrumar a lataria da Elvira que estava cheia de buracos. Ela nos recebeu com aquele sorriso e a mesa farta que a conhecemos. Descansamos, consertamos o carro e paramos para olhar o mapa. Tínhamos conhecido uma parte razoável do “país” Minas Gerais e queríamos seguir para o nordeste dali para a frente. Natália discordou. Nos falou muito mal de lá e disse que não ia dar certo. Óbvio que entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Eu venho do sul, da terra do preconceito, e não ia deixar mais nenhum tomar conta da minha vida. Nordeste, lá vou eu!

    Seguimos pela zona da mata conhecendo mais algumas cidades. Já estávamos quase no Espírito Santo quando paramos para tocar em uma praça e, quando terminamos, percebemos uns mal encarados observando nossa cartola e o equipamento. Usando nosso treinamento de Krav Maga, fomos nos movimentando discretamente e observando. Eles iam nos seguir para o carro. Mudamos de direção e entramos em um posto policial. Os policiais, sem poder fazer nada uma vez que era apenas uma desconfiança nossa, nos escoltaram até a Kombi.

    Entramos no Espírito Santo e começou a chover. Era nosso primeiro verão no sudeste e não sabíamos que essa é a época que mais chove por lá. Fomos indo de cidade em cidade tocando nos pequenos intervalos sem chuva ou até mesmo na garoa, mas o dinheiro estava ficando cada vez mais curto. Conseguimos uma parceria muito legal com um hotel de altíssimo nível em uma península. Tinha até uma praia particular. Nos deram as refeições e um quarto lindo. Mais uma vez nossos números nas redes sociais estavam nos proporcionando algum conforto e isso me chamava a atenção. Tinha uma novidade no Instagram chamada Stories que estava pegando todo mundo, comecei a usar também.

    Mas nem tudo são flores. Alguns dias depois a família dona do lugar nos chamou para jantar com eles. E lá veio o discurso cristão mais uma vez. Sambamos, rebolamos, tentamos sair o melhor possível da situação, mas não teve jeito: na manhã seguinte nos pediram para ir embora. Nunca vai entrar na minha cabeça essa “bondade seletiva.”

    Seguimos em frente pela chuva interminável. Conseguimos tocar um pouco em algumas cidades. Uma loja nos pediu para tocar na frente da vitrine, debaixo da marquise. Foi legal, nos levaram para jantar depois e experimentei a famosa moqueca. E a moqueca é capixaba, viu?

    Alguns dias depois, outra família nos acolheu em uma outra cidade. Nos ofereceram uma casa vazia que eles tinham, com piscina e tudo. Conseguimos descansar e saíamos para tocar em um food park quando parava de chover. A rede de televisão local ficou sabendo da nossa história e foi lá para nos entrevistar, mas preferiu focar no fato das crianças não irem à escola. Bardo mostrou como ele dava aula para elas e todo mundo achou lindo. No dia seguinte a matéria foi ao ar e a família foi lá fazer um churrasco para comemorar. Papo vai, papo vem, religião. Qual o problema com vocês? Fomos embora no mesmo dia.

    O sol resolveu dar as caras quando chegamos em Vila Velha. A praia estava lotada e começamos a tocar na calçada. Um saxofonista apareceu e fizemos uma jam, foi uma delícia! Ganhamos bem e nos acomodamos com a Elvira por ali mesmo, sem ter um lugar para tomar banho. Um senhor de idade se aproximou e perguntou com muita educação se estávamos precisando de alguma coisa. Contamos nossa história e ele nos levou para a casa dele.

    A casa parecia pronta para uma mudança. Muitas caixas espalhadas cheias de objetos. Jantamos juntos e, durante o jantar, o senhor nos contou que seu filho tinha morrido em um acidente de carro nos Estados Unidos e sua esposa, quando soube, suicidou-se. Ele estava sozinho no mundo. Ele começou a encaixotar as coisas da esposa mas não teve força para continuar. Não nos deixou tocar em nada na cozinha. Tudo era dela e lembrava ela. Ficamos muito sentidos por ele e acabamos ficando por lá bastante tempo. Ele ia para a praia pela manhã e bebia até o fim do dia. Passamos todo o tempo que podíamos com ele, como se fosse da família. Mas precisávamos partir. Nunca mais tivemos contato com ele.

    Em algum lugar que nem me lembro, encontramos uma figura interessante. Ele nos deu um bom dinheiro e pediu para conversarmos. Era mais um solitário, mas a história dele era tenebrosa. Ele era um engenheiro de uma famosa empresa, e era o responsável técnico por um desastre ecológico que matou centenas de pessoas. Ele estava ali isolado pela empresa, como em um daqueles programas de proteção às testemunhas que vemos nos filmes. E ele precisava desabafar, contar a história dele para alguém, e escolheu a gente.

    Ele nos contou que por diversas vezes avisou a empresa do que podia acontecer, escreveu memorandos e apelou para os colegas, mas eles não pararam. Então, nada de repente como se pensa, tudo explodiu e a natureza pagou caro por isso. Até hoje ninguém foi responsabilizado, então eu nem imagino o que pode ter acontecido com ele. E até hoje as pessoas ainda sofrem por isso. Mas não ia ser a última vez, não é?

     
    Finalmente chegamos na última cidade do Espírito Santo. Com o sol a pino, conseguimos conhecer algumas das praias mais lindas do Brasil. Quer dizer, (tosse), as mais feias – pelo menos foi o que os capixabas me disseram para falar por aí. Já tinha gente demais indo para lá no verão e eles não queriam que eu fizesse propaganda. Então, bem, não foi de mim que ouviu que o Espírito Santo é um estado lindo de um povo gentil e amável. Não vá lá. Tocamos no centro da cidade e conhecemos um grupo de estudantes. Um menino muito educado nos convidou para almoçar na casa dele. Fomos até lá. A família era muito querida e ficamos torcendo para o assunto não desandar dessa vez. Deu tudo certo. Nos despedimos e prometemos voltar um dia.

    Antes de seguir, Bardo resolveu instalar o inversor de voltagem que ganhamos do fanático maluco de Minas Gerais. Colocou uma segunda bateria, ligada na primeira e agora finalmente tínhamos uma tomada dentro do carro. Você pode ficar surpreso por termos ficado meses sem energia na Elvira, mas não existiam essas tecnologias todas que existem hoje, não se via painel solar em carro e, na verdade, nem sentíamos falta. Raramente usávamos o notebook, Bardo e as kids nem telefone tinham. Era libertador ir dormir com a lua e acordar com o sol, sem streaming até a madrugada e dormir com os olhos embotados de luz de tela.

    Mesmo assim, ficamos tão felizes em ter a tomada que resolvemos ligar a caixa de som e atravessar para a Bahia com o som à todo volume! Faltando poucos quilômetros para a fronteira entre os dois estados, paramos para o costumeiro xixi e a Elvira resolveu não ligar mais. A bateria tinha morrido. Tivemos que empurrar ela, no melhor estilo Miss Sunshine, e entrar correndo no carro andando. Foi só o tempo de pular para dentro e o mundo desabou lá fora. Mônica achou aquilo o máximo e toda hora queria empurrar a Kombi.

    Finalmente cruzamos para o Nordeste. Era oficial. Nossa terceira região do país a ser visitada! A primeira coisa que descobrimos é que o asfalto pode ser pior do que em Minas Gerais. Tinha mais buraco que estrada e era difícil andar. Além disso, cada curva era uma loteria: as pessoas ultrapassavam às cegas e não foram poucas vezes em que fomos parar no acostamento.

    Vi essa cena: um enorme pé de manga, completamente carregado. Ao redor dele, no chão, centenas de frutas e, à sombra da árvore, um homem estava dormindo em uma cadeira. Ao lado da cadeira, uma placa dizia: vendo manga. Não tinha uma banca, nada. Só isso. Bardo e eu nos olhamos. Parecia um retrato do preconceito que se tem com os baianos. Entramos nesse papo e tudo o que queríamos era que o preconceito fosse só o que é: preconceito. Uma mentira idiota que se conta para fazer menos de um povo.

    Rodamos até uma cidade onde um político de Minas Gerais tinha nos prometido nos receber na casa dele. Chegamos e ele não estava. Culpa minha, por acreditar na promessa do político. Ligamos para ele e nos disse para pegar a chave com a vizinha e ficar à vontade por lá. A casa era enorme e ficava na beira do mar. Descansamos e gravamos algumas coisas, já que a cidade era muito pequena e não tinha onde tocar.

    Antes que o dinheiro começasse a mirrar, seguimos adiante. Bardo já conhecia Porto Seguro de uma viagem que fez com a ex e queria muito me mostrar tudo por lá. Chegamos e fomos direto para o centro da cidade tocar na praça. Começamos, mas poucas pessoas pararam para ouvir. De repente um homem se aproxima, joga uma bolinha de papel em mim e grita:

    – Vão embora daqui, gringos branquelos!

    Aquilo doeu muito. Não a bolinha de papel, mas o peso das palavras que vieram com ela. Recolhemos nossas coisas e paramos para observar. Tinha muita gente tentando ganhar dinheiro na rua. Gente vendendo de tudo, guias turísticos abordando as pessoas, parecia desesperador. Para sair daquele clima ruim, Bardo nos levou para ver as praias. Era realmente tudo lindo! Ele me mostrou o resort em que ficou com a ex. Coisa de luxo, que aquela vaca não quis compartilhar comigo. Quem está aqui agora?

    A noite caiu e fomos procurar um lugar para dormir. Fomos de posto de gasolina em posto de gasolina, mas nenhum queria nos deixar ficar. Disseram que os pátios eram alugados por uma companhia de turismo para os carros deles e ninguém mais podia ficar ali. Acabamos encontrando um posto que estava em construção. O guarda quis nos mandar embora, mas encarnei a atriz: eu tenho duas filhas pequenas, e elas estão doentes! – e infelizmente não era atuação. Por alguma razão, as duas estavam com febre. Acabamos ficando longe de qualquer supermercado e o dinheiro que tinha não dava para o restaurante do outro lado da rua.

    Pela primeira – e última – vez na viagem, Bardo teve que pedir comida. Os donos do restaurante eram gaúchos e concordaram em dar comida, mas só para as crianças! Fiquei imaginando se tinha um crucifixo em cima do caixa. Elas comeram, Bardo e eu fomos dormir com fome. Comecei a passar mal e não tinha banheiro ali. Foi um pesadelo.

    Na manhã seguinte a Elvira não quis pegar. Mônica amou ter que empurrar ela de novo. Rodamos até um mecânico e descobrimos que o alternador não dava conta de carregar duas baterias e tinha queimado. Não tínhamos dinheiro para outro. O mecânico então resolveu nos dar um usado que ele tinha por lá. Enquanto instalava a peça, começou a tentar nos converter para a igreja dele. Saí de perto, deixei a bomba para o Bardo. Não sei como ele resolveu, mas conseguimos sair de lá.

    Voltamos até a suicida BR 101. As cidades nos assustavam, não encontrávamos onde parar e muito menos onde tocar. Paramos para comprar comida em um supermercado. O lugar era sujo e escuro e as pessoas nos olhavam esquisito. Estávamos dando nosso máximo para deixar para lá e continuamos super simpáticos, mas nossa história não tinha impacto nenhum aqui, não como no sul e sudeste. Ninguém queria saber de artistas viajantes.

    Olhamos no mapa e decidimos seguir para a maior cidade que tinha. Era Ilhéus. O mapa nos sacaneou e nos colocou em uma estrada de chão assustadora. Para piorar, começou uma tempestade. Bardo parou a Elvira no meio do barro, no meio do nada. Respiramos. Era ali que estávamos e íamos tirar o melhor da situação. Pegamos nossa câmera de ação e começamos a filmar o trajeto. Passamos por uma pequena aldeia, eram menos de dez casas e um bar no meio do absoluto nada, a dezenas de quilômetros de qualquer coisa. Depois de mais um tempo derrapando no barro, passamos por um boi morto na beira da estrada e chegamos em uma encruzilhada.

    Sem o menor sinal de GPS ali, escolhemos na sorte. De repente, Bardo começou a rir. Ele contou para nós a história de Robert Johnson, um guitarrista que encontrou o capeta em uma encruzilhada, fez um pacto e se tornou um astro do blues. Resolvemos fazer nossa versão com o que tínhamos na mão. Uma tiara do Mickey virou chifres e com um pouco de maquiagem transformamos a Moniquinha na capirota. Gravamos as cenas ali e fizemos o clipe de Amorismo. Rimos muito e nos divertimos, sabendo, no fundo, que se pegássemos o lado errado e a gasolina acabasse podíamos muito bem morrer.

    Depois de algumas horas o barro acabou e vimos o asfalto. Paramos em um bar para descansar. Um homem, bêbado e com um olho só, veio nos perguntar se tínhamos vindo daquela direção. Quando confirmamos ele colocou a mão na cabeça e disse que tivemos sorte por estar chovendo. Aparentemente tinha um quilombo por ali que fazia pedágios e uma família branquinha como a nossa teria desaparecido para sempre. Comecei a soluçar. Bardo olhou feio para o homem e tirou ele de perto de mim, me dizendo que era bobagem, que o idiota só queria nos assustar.

    Era quase noite quando chegamos em Ilhéus. Estávamos exaustos mas precisávamos jantar. Fomos até o centro da cidade e conseguimos tocar em um bar. Ganhamos um dinheiro e o jantar. Nos trataram bem. Foi um alívio. Eu não queria aceitar que o nordeste não ia dar certo para nós, não queria aceitar o preconceito e não ia dar o braço a torcer. No dia seguinte tocamos ao lado da estátua de Jorge Amado, que eu li muito na biblioteca do interior de São Paulo. Em Capitães de Areia, quando ele diz “vou botar atrás pra você ficar donzela,” me identifiquei. Se tem no livro, quantas mulheres compartilham da minha história?

    No dia seguinte voltamos lá, mas o pessoal da casa de cultura disse que não podíamos ficar ali. Sim, da casa de cultura, e não ia ser a última vez que isso ia acontecer. Fomos um pouco para baixo na rua e continuamos. O povo de Ilhéus é um amor, nos tratavam bem, nos davam almoço e dinheiro na cartola. E também foi a primeira vez que fomos roubados durante o espetáculo. Um moço passou caminhando, pegou uma nota de cinco reais e saiu como se não fosse nada. Todo mundo viu, ninguém se manifestou. Bardo olhou para mim com uma cara de deixa pra lá. À noite fomos tocar em um bar e o dono do lugar nos deixou ficar na casa dele. Lá tinha um pé de cacau e eu amei ficar chupando a semente. Ali eu descobri o verdadeiro sabor do chocolate!

    E falando em chupar, a última coisa que dava tempo de pensar era em putaria. Estávamos sobrevivendo a cada hora e minha vida sexual se resumia ao Bardo, apenas. Minha última foda decente com outra pessoa tinha sido em Curitiba e ainda me deu um Influenza de presente. No dia seguinte, um casal nos convidou para ficar na casa deles. Fomos. Mesmo com tudo muito legal, eu estava me sentindo armada: a qualquer momento Jesus podia pular no meu pescoço de novo. Mas dessa vez o filho de deus me deixou em paz, quem me pegou foi o nós contra eles. 

    No meio do jantar o marido olha para nós e pergunta:

    – E aí, Lula ou Bolsonaro? – e antes que pudéssemos dizer qualquer coisa ele emendou – se forem dizer que são Bolsonaro já podem sair da minha casa. – Essa me pegou de jeito, eu realmente não esperava. Não era o povo da esquerda que estava entupindo a internet dizendo que o pessoal da direita era boçal? Parece que tinha bastante espaço em ambos os lados para a estupidez. Mesmo não sendo partidária de lado nenhum, me preparei para levantar da mesa, mas Bardo foi mais rápido:

    – Nós somos anarquistas.

    Antigamente, se você quisesse se divertir muito por uma hora ou mais, era só pedir para o Bardo fazer um discurso anárquico. Ele realmente deixava todo mundo de queixo caído. Hoje em dia ele não fala mais no assunto, mas naquele dia deu certo. Mesmo assim, quando a janta terminou, decidimos ir dormir em um posto de gasolina.

    Conseguimos recuperar nosso caixa em Ilhéus e resolvemos seguir para Itacaré, que todo mundo dizia que seria ótimo! Eu tinha restaurado minha fé na Bahia e no nordeste e estava animada para seguir.

    Chegamos cedo e ficamos encantados com a rua principal. Uma bela estrutura, parecia um shopping à céu aberto. Fomos até a praia, com vários quiosques, mas não conseguimos onde tocar, nem mesmo propondo tocar de graça e passar o chapéu. A recepção não foi das melhores. Procuramos um lugar para tomar banho e encontramos um hostel de uma menina de Porto Alegre. Apesar de zero saudades de lá, foi gostoso ouvir o sotaque cantado e percebemos o quanto o nosso tinha mudado! Absorvemos bastante do mineirês!

    O hostel não tinha chuveiro quente, para nosso desespero, mas tinha uma turma muito legal. Eram todos músicos, artistas performáticos e mambembes como nós. Perguntamos para eles como era a rua principal durante a noite e disseram que era bem movimentada. Assim que anoiteceu fomos para lá. Bardo encontrou um amigo, um músico famoso do Rio Grande do Sul que tinha largado tudo e ido tocar em bar por lá depois que, nas palavras dele, se amancebou com uma baiana. Fomos para a rua e começamos a tocar, e foi muito bom. Com a movimentação intensa de turistas, parecia um bom lugar para ficar uma temporada.

    Seca de uma boa putaria, abri o aplicativo de encontros. Conheci um carioca que era dono de uma pousada por ali. Nos encontramos na praia e batemos um papo. Era bonitinho e simpático. Fomos para a pousada dele e não deixei ele enrolar, fomos logo para a ação. Ele tinha uma pegada boa, beijava bem e me levou para a cama. Tirou minha roupa devagar, me acariciando, beijou meu corpo todo e abriu minhas pernas. Caiu de boca com vontade. Chupou e chupou até me deixar latejando! Não aguentava mais, queria pau! Puxei ele mas ele não veio, continuou chupando. Já comecei a me frustrar. Continuei puxando ele, que ainda estava vestido. Arranquei a roupa e aí entendi. Ele tinha um micropênis e estava compensando na língua. Colocou uma camisinha meio bamba e veio, mas eu não senti nada. Ele empurrava, socava, e nada. Fiquei de quatro e mandei colocar no cu, aí senti alguma coisa. Me masturbei com ele comendo meu cuzinho e gozei mais com meus dedos do que com o pau dele. Me vesti e fui embora, possessa! Bardo quis ouvir o que aconteceu e eu não quis frustrar ele, então só contei que tinha dado o cuzinho. Ele me comeu gostoso ouvindo e finalmente gozei com um pau gostoso e duro dentro de mim.

    Que ódio.

    No dia seguinte fomos ao supermercado buscar comida. Outro lugar sujo, escuro, com gente mal encarada. Resolvemos pegar só produtos embalados. O pacote de macarrão tinha carunchos e a calabresa estava com o pacote aberto e fora da geladeira. Não ia dar. Saímos dali e Bardo sugeriu ir à feira orgânica, onde os produtores se preocupam mais com as coisas. Eu nunca vi tanto urubu na vida. Eles brigavam com os cachorros e mordiam a carne seca pendurada nos varais. Peguei um cacho de uva que estava fechado em uma embalagem de plástico e saí de lá.

    Chegamos no hostel e o pessoal estava todo lá. Um rapaz fritava meia cebola e uma banana enorme em uma frigideira. Bardo ficou curioso e perguntou. Era a Banana da Terra. Nunca tinha visto. Ele pediu para experimentar e o pessoal todo olhou torto. Mesmo assim, o rapaz deu um pedacinho. Foi quando nos demos conta: aquela banana e meia cebola era o almoço de todos eles. Fui até a esquina e comprei um cacho inteiro das bananas e voltei lá. Dividimos com eles e isso foi nosso almoço.

    Eles começaram a nos perguntar sobre como vivíamos e se dava certo tocar como fizemos ontem. Falamos a verdade, que era muito difícil e mal dava para sobreviver, mas era uma experiência rica de contato humano, de liberdade e de poder viajar. Quando a noite chegou e fomos para a avenida, todos eles estavam lá, um a cada cinco metros, tomando a avenida toda. Um batia um violão e gritava, outro batia um tambor com um flautista desafinado, um desespero total. Não conseguimos trabalhar. Bardo aproveitou para dar uma aula para as meninas sobre Saturação de Mercado e a Tragédia dos Comuns.

    Na manhã seguinte era véspera de natal e o hostel estava hostil. Disseram que éramos mentirosos, que tentaram fazer e nem dava certo. Eu não sabia o que pensar. Fomos até a praia e tentamos de novo com os bares, sem sucesso. O pior é que não tinha onde comprar comida. Tudo o que conseguimos foi pão e mortadela, embalados, que tinham acabado de chegar no caminhão – o que não era garantia de muita coisa. E essa foi a nossa ceia de natal. Viu no que dá não ser cristão? Deus castiga!

    Com o tempo fomos percebendo essa diferença de qualidade na alimentação. Muitas vezes a mesma marca de macarrão era boa em uma cidade, duvidosa em outra. Talvez fosse a fábrica? Um padrão ia se desenhando. Em cidades muito populosas ou pobres a comida é claramente inferior, o supermercado cheio de coisas duvidosas. Já nas cidades pequenas, onde as pessoas tinham acesso ao ovo caipira, leite fresco, hortaliças e frutas direto da terra, os mesmos produtos tinham mais qualidade. Vai entender.

    Na manhã seguinte a mãe da dona do hostel apareceu por lá, furiosa. Tinha voado de Porto Alegre para resgatar a filha. Acontece que nenhum daqueles hóspedes lá estava pagando para se hospedar e tampouco estavam dando algo em troca. Eles tinham tomado o lugar como parasitas, se aproveitando da inocência da menina. A matriarca chegou jogando mochilas na rua, aos berros, mas quando deu de cara com a gente se acalmou. Ela nos chamou para almoçar e, quando contamos nossa história, ela desesperou-se. Disse que era para agradecermos ainda estarmos vivos e que devíamos voltar imediatamente para o sul.

    Já tínhamos o suficiente para que o preconceito virasse conceito até ali e resolvemos ouvir, mas não tínhamos dinheiro para voltar até o Espírito Santo. Decidimos voltar para Ilhéus. Tocamos por mais um dia, enchemos o tanque e metemos o pé na estrada. Eram 600 quilômetros, não dava para fazer de uma vez só. Resolvemos então fazer uma parada em Arraial d’Ajuda.

    O lugar é muito bonito e tem um calçadão de comércios. Paramos ali e tocamos, torcendo para não dar merda. Os comerciantes nos trataram bem e uma pousada nos ofereceu lugar para o banho. Quando a noite chegou, eles nos disseram que a rua ia encher de gringos. Era nossa chance de fazer um caixa. Começamos a tocar mas nos decepcionamos quando começamos a ver as camisetas do Grêmio e do Internacional passando por nós. Ah, esses gringos. Fui até o outro lado do país para tocar na Redenção de novo. Não ganhamos nada.

    Exaustos, estacionamos em uma praça ali perto para dormir. Estávamos arrumando as coisas quando um bando de mal encarados começou a nos cercar de longe. Bardo, com movimentos largos, pegou a faca de dentro do carro, colocou na cintura e ficou parado encarando aquelas pessoas, em um tom de ameaça. Depois de um tempo eles foram embora.

    Na manhã seguinte nos preparamos para ir embora, mas o dono de um restaurante na beira da praia nos pediu para tocar lá. Perfeito. Dinheiro para gasolina e o almoço. Tocamos e almoçamos e eu fui arrumar o carro para viajar enquanto Bardo guardava o equipamento de som. De repente o Rock sai de dentro do carro voando, todo arrepiado e dentes à mostra, de um jeito que eu nunca tinha visto. Ele latia para um homem perto de mim. Eu ia xingar o pobre cachorro quando olhei bem para o sujeito: com a cara derretida de drogas, ele segurava uma faca em cada mão e vinha na minha direção. Enquanto Rock atrasava o passo dele, peguei as crianças e corri para o Bardo. Chamamos o segurança do lugar, mas ele sequer levantou da cadeira. Tinha um homem com duas facas dentro do restaurante e ele não ia fazer nada. Bardo pegou um porrete e resolveu o problema.

    Entramos no carro com raiva. Faltavam 400 quilômetros ainda e Bardo estava disposto a desmaiar dirigindo se preciso. Se você está achando isso pouco, nunca fez essa distância em uma kombi com motor a ar, em uma estrada esburacada com caminhões andando na contramão o tempo todo. Estávamos a quase uma hora rodando quando as meninas começaram a vomitar. Alguma coisa estava errada com o almoço do restaurante – e com todos os outros almoços antes desse – e elas estavam intoxicadas. Bardo disse que nem por decreto ia levar elas em um hospital na Bahia e rodamos com elas passando mal até São Mateus, no Espírito Santo, onde foram bem atendidas.

    Sentamos e choramos. Comemoramos estar vivos. Eu realmente queria muito ter conhecido todo o nordeste e era muito frustrante ter vivido na pele tudo o que as pessoas diziam que acontecia por lá e que eu tinha como preconceito. Quem sabe tento de novo no futuro, com mais dinheiro, melhor equipada, sem depender tanto da boa vontade das pessoas?

    Foram 22 dias e duas horas. Coentro, com certeza, nunca mais.

    ***

    Ainda tinha todo o verão pela frente e fazia sol no Espírito Santo. Muito sol. Tão escaldante que era mais difícil de trabalhar do que na chuva. Mesmo assim, fomos. Uma família nos ofereceu uma casa que tinham na praia e dali visitamos toda a região, trabalhando muito. Conhecemos um diretor de cinema e ele queria filmar um videoclipe nosso. Fizemos o clipe de Empatia, que ficou assustador, com direito a armas de fogo e sangue falso. 

    Passamos nosso reveillon na casa de uma família que nos chamou para tocar. Estava no meio de Unchain my heart quando o pessoal começou a contagem regressiva. Olhei para o Bardo, naquela comunicação de olho, pedindo para que ele parasse. Ele não quis. Entrei o ano de 2018 cantando. Foi bom!

    Fomos tocar em um aniversário. Era um churrasco, não tinha muita gente, mas foi bem divertido. Ainda ganhei um presente do aniversariante! Entramos em um papo gostoso sobre plantas e ele me deu uma bela flor do deserto. Bardo conversava animado com uma moça. Eu gosto de ler o corpo dele enquanto está flertando. O jeito que ele sorri, os toques carinhosos, o olhar fixo no dela. Apontei e perguntei para o aniversariante quem era ela. Era uma menina pela qual o filho dele era apaixonado há muito tempo, mas ela tratava ele como amigo e ele não conseguia passar disso. Uma pena para ele, porque pela expressão dela, o Bardo ia levar embora.

    Ela pediu uma carona para nós na hora de ir. O filho do dono da casa nos acompanhou até o portão. Parecia cena de filme, ele vendo ela caminhar na direção do matadouro. O rapaz ainda segurou ela pelo braço e insistiu que ficasse, mas ela se soltou e entrou no carro. Assim que ela fechou a porta, ele nos olhou com raiva e bateu o portão na nossa cara. Sinto muito, garoto friendzone.

    Ela não esperou virarmos a esquina. Me puxou pro banco de trás e me beijou, já arrancando minha roupa. Bardo dirigiu até a praia e estacionou na areia, juntando-se à festa. Era disso que eu estava precisando, alguém com pegada e vontade de meter. Ela beijava firme, quente, gostoso, e metia dois dedos na minha buceta me fazendo ter vertigens. Bardo socava a bunda dela enquanto ela me chupava, enfiando a língua fundo, bem quente, me fazendo gozar. Dei um squirt na cara dela e aí ela enlouqueceu de vez. Ficou me arrancando orgasmos até eu não ter mais água no corpo. 

    Deitei na cama, acabada, Bardo ainda comendo ela gostoso. Ela colocou ele sentado, ajoelhou e, não sei como ela ainda tinha boca, começou a engolir o pau dele até o talo. E foi aí que ela veio com um pedido divertido: disse que sempre quis chupar um cara com o dedo no cu dele. Bardo topou na hora. Ela molhou o dedo e atolou até o fim. Os olhos dela brilhavam. Ela mamava gemendo e metendo o dedo nele. Bardo explodiu na garganta dela. Os dois deitaram comigo, ela no meio, e apagamos. Acordei com o sol da praia no meu rosto e um gemido abafado dela. Bardo já estava comendo o café da manhã. Ela me puxou e me masturbou até eu gozar enquanto ele melava a bunda dela toda. 

    Que delícia de trepada. Eu estava precisando muito disso.

    Seguimos pelo Espírito Santo tocando em cada uma das praias. O sol machucava mas valia a pena. Era praticamente como tocar em Minas Gerais, porque só tinha mineiro por lá (nem se fala de Guarapari!), mas com aquele visual incrível do litoral. Chegamos no final do estado e resolvemos continuar pelo litoral do Rio de Janeiro. Fomos bem recebidos em Macaé e Rio das Ostras, tocamos na praia e ganhamos bem. Fomos então para Búzios encontrar uma menina que estava viajando o Brasil de Kombi sozinha. Ela planejava subir o nordeste e eu achei de bom tom contar para ela como foi a nossa triste experiência por lá. Ela disse que cada experiência é única e seguiu viagem. Acabou sendo estuprada duas vezes e desistiu de viajar. Que merda.

    Saímos para tocar na rua em Búzios. A cidade é realmente linda, mas tem aquele ar de arapuca de turista. Tocamos uma meia hora e os fiscais chegaram, muito educados, dizendo que a lei municipal não permitia amplificadores de som na rua. Desligamos o som e terminamos o espetáculo acapella. Todos ficaram impressionados e até os fiscais colocaram um dinheiro na cartola.

    Dali seguimos para Cabo Frio, que já conhecíamos. Fomos recebidos por um casal de argentinos que, supostamente, eram nossos fãs porque tinham o relacionamento aberto. E era um casal lindo! Ficamos alguns dias com eles por lá, mas não rolou nada. Em uma noite ela saiu e pediu para levar as kids ao cinema. Deixamos e ficamos só com ele em casa. Talvez esse fosse o plano. Ficamos falando putaria e provocando, mas nada. Bardo resolveu sair de perto, talvez eu me desse bem. Nada também. Ela voltou e ouvimos os dois discutindo no quarto. O que tinha dado errado?

    Fomos tocar na Feira de Artesanato à noite. Lotada de pessoas. Escolhemos uma esquina, conseguimos uma tomada e começamos. Logo tínhamos uma multidão. Um fiscal passou olhando de longe, mas não disse nada. Algum tempo depois, voltou com outro e nos abordaram, grosseiros, mandando desligar tudo pois era proibido. O povo vaiou. Bardo se recusou. Demandou que o fiscal apresentasse a lei que impedia a sua livre expressão. O fiscal não soube o que dizer e foi embora. O povo aplaudiu e continuamos tocando. De repente, dobram a esquina nada menos que vinte fiscais uniformizados e chegam pegando nossas coisas. O povo foi para cima deles e virou uma confusão. Pancadaria. As pessoas conseguiram tomar nosso equipamento de volta e nos escoltaram para fora dali. 

    No dia seguinte fomos até a delegacia de polícia prestar queixa. Fizeram um boletim nas coxas e nunca mais ouvimos falar. Bardo estava estressado, eu estava cansada daquilo. Saímos de casa para espalhar amor, música e orgasmos e encontramos violência, fome e desespero. Talvez o mundo precisasse muito mais de nós do que imaginamos.

    Passamos o aniversário do Bardo em Arraial do Cabo. Tudo o que ele queria de presente era nada em alto mar e foi isso que ele fez. Foi um dia agradável, sem trabalhar, e curtimos muito. Quando fomos entrar no carro, um flanelinha veio cobrar vinte reais por estacionar ali, na rua. Bardo se recusou a pagar e ali eu percebi que ele tinha perdido um parafuso: ameaçou esfaquear o flanelinha. Achei melhor ir embora logo. Sugeri que voltássemos para o sul de Minas Gerais, onde era tudo mais leve.

    Algumas horas depois estávamos em Leopoldina. Bardo foi até a padaria e pediu pão e presunto. O atendente, um senhor de idade, ofereceu três marcas de presunto e perguntou:
    – Qual você quer?

    – Qual é a mais gostosa?  – Bardo rebateu.
    – Uai, o gosto é seu! – o senhor pegou uma fatia de cada marca, enrolou e deu para ele experimentar. 

    Bardo explodiu chorando. Era oficial, os mineiros tinham nos mimado e agora não tínhamos mais culhão para o resto do planeta. Dali seguimos de volta para a casa da Natália, só para ouvir um enorme – eu avisei vocês! Descansamos por um tempo e seguimos pelo sul de Minas Gerais, às vezes voltando para onde já conhecia, às vezes visitando cidades novas. E assim ficamos por muitos meses, no meio do amor, do café e do pão de queijo.

    Criamos uma quase rotina. Acordava no posto de gasolina entre uma cidade e outra, ia até o centro da cidade, tocava, pegava uma grana e, se não conhecesse ninguém interessante, seguia para o próximo posto de gasolina. Juntava dinheiro para muita comida e se enfiava em alguma cachoeira para viver igual índio por duas semanas ou mais. Era uma vida quase perfeita. Por outro lado tinha a infinita guerra contra os carrapatos estrela e a completa ausência de vida sexual além do Bardo.

    ***

    Tocamos em uma cidade grande e seguimos para encontrar um posto para dormir. Um carro preto começou a nos seguir e ficamos preocupados. De repente, uma foto da Elvira, tirada ali naquele momento, chega na DM do Instagram. Paramos o carro para conhecer esse casal maluco que seriam nossos amigos para o resto da vida. Carlos e Nicole. Eles também eram adeptos da putaria e nos levaram para a casa deles. Nos divertimos muito. Passou a ser visita obrigatória toda vez que passávamos por alguma cidade perto. Algum tempo depois fiquei bastante doente e foram eles que nos acolheram por um mês inteiro enquanto eu fazia exames médicos.

    Carlos é um gostoso. Bonito, elegante e ótima companhia. E é louco pelo meu corpo. Adorava ficar andando pela casa de camisola só pra acompanhar os olhares dele. Estar com eles é divertido demais. Bardo e Nicole se provocando o tempo todo, e eu deixando Carlos louquinho. Ele acordava cedo para trabalhar e ela gostava de dormir até mais tarde, então ele sempre me encontrava já passando meu cafezinho na cozinha. Nua. Imagina o desespero do homem, assim, cedo. Acabava que o banho dele sempre demorava uns vinte minutos mais. Ele me comia gostoso contra a pia ou no chuveiro e ia trabalhar leve. E eu ficava mandando nudes meus na cama dele ou vídeos do Bardo comendo a Nicole no meio da tarde enquanto ele trabalhava, só para ele saber o que esperava em casa. Essas são as amizades que queremos!

    Com os nervos pacificados, resolvemos aumentar nosso território e entramos no interior de São Paulo. Parecia outro país. A infraestrutura é muito melhor que a de Minas Gerais, asfalto liso (e com pedágios) e mais dinheiro na cartola. Por outro lado, fiscais perturbando o tempo todo e conversas infinitas sobre dinheiro. Todo mundo que conhecíamos era primo do tio do parente de algum famoso e estava investindo milhões em algum novo grande negócio milionário. Papo chato.

    Foi em uma cidadezinha que esse rapaz nos abordou. Disse que era produtor de um canal grande de televisão e que queria nos levar em um desses shows de domingo e nos dar uma van toda estilizada de presente, mas que para isso teríamos que atuar uma história triste, chorar, dizer que somos uma família pobre que vive na Kombi porque não tem onde morar. E por mais que isso, de um certo ponto de vista, fosse verdade, não era a imagem que eu queria ter por aí. Recusamos e o produtor ficou muito ofendido.

    Eu amo carro, amo estrada e amo motor. Mas me pergunte sobre marcas e modelos de carro e vai ter uma conversa vazia comigo. Fale de preço de carro e nem terá uma conversa. Eu realmente não me ligo nisso. Eu gosto do que o carro proporciona, não de ficar esfregando ele na cara do vizinho. Eu quero o vento no rosto, a estrada e as paisagens passando, eu quero ir daqui até ali, e é só. Aprendi a amar a Kombi porque ela andava devagar, quebrava pouco e tinha peças baratas. Em São Paulo ela era desprezada – o carro de verdureiro – eles diziam, enquanto comiam lasanha congelada.

    A Kombi tem esse charme. É o carro conectado com tudo que tem de bom. É o carro que anda devagar e não causa acidente. É o carro da verdura, da fruta, do ovo, da comida boa. É a nave que junta os amigos e carrega toda a turma para o passeio. E até quando ela quebra e todo mundo tem que empurrar é uma festa! Eu ainda sonho com o engenheiro que vai fazer a Kombi elétrica, um carro que nunca deveria sair de linha.

    ***

    Resolvemos voltar para Minas Gerais. Na internet o povo reclamava que não saíamos mais de lá, mas era só chegar na cidade deles que sumiam. No início pensamos que era a questão do poliamor que fazia com que se escondessem, mas havia sim uma enorme desconexão do online com o mundo real. Na rede o nós contra eles escalava conforme as eleições se aproximavam, mas na rua pouco se falava disso, ao menos onde estávamos circulando. 

    Fizemos alguns shows em comitês políticos. Sempre pagavam bem. Por sermos artistas, todo mundo pensava que éramos de esquerda. Então quando o ambiente era de esquerda, era só sorrir e acenar. Quando o ambiente era de direita, Bardo dava um breve discurso anarquista e tudo ficava bem. O importante nem era ser aliado, bastava não ser o inimigo.

    Em um desses comícios, a esposa de um deputado federal começou a alisar o Bardo na frente das amigas enquanto o corno dava um discurso. Ela ficava dando a entender que estava dando pra ele, e as amigas olhando pra mim buscando confirmação. Levamos numa boa por um tempo, até que o deputado começou a perceber a atitude dela. Bardo cortou ela na hora. Não queria treta com corno, ainda mais um deputado federal. Ela ficou tão puta que nunca mais conseguimos tocar nos dois bares que tocávamos na cidade.

    Achamos melhor não nos envolvermos mais com essa gente. 

    Fazia um tempo que queríamos conhecer Juiz de Fora e fomos para lá. Que arrependimento de não ter ido antes! A Rua Halfeld, um calçadão no centro da cidade, era uma mina de ouro. Parávamos centenas de pessoas para ouvir nosso show e ganhamos muito mais do que em qualquer outro lugar. Era tão bom que valia a pena sair da cidade para dormir no posto e voltar. 

    Depois de quase uma semana por lá, já tínhamos feito alguns amigos. O Marcelo, acupunturista, a dona Zilda que nos ouvia do apartamento dela e o César, um cara gente boa demais que morava ali perto. Naquele dia, um casal nos convidou para jantar e dormir na casa deles. Era mais longe do que o posto de gasolina, mas fomos. Naqueles dias o Instagram ainda me deixava postar fotos seminua e alguns dias antes eu postei uma foto linda, com o rabão para cima, e estava fazendo sucesso.

    Jantamos e ouvimos o papo cristão. Já tinha virado rotina as pessoas tentarem trocar uma boa ação por nossa conversão e eu nem levava mais para o coração. Eu só não entendia o que eles ganhavam com isso. A boa ação foi feita, você ajudou uma família “carente” e vai pro céu. Precisa mesmo me levar junto?

    Na manhã seguinte, a esposa nos pediu para irmos embora às pressas. Resolvi perguntar por que. Ela me mostrou minha foto no Instagram e disse que o marido estava vindo “tirar a limpo” aquilo. Maluco. Fomos embora. No caminho, vimos todos os postos de gasolina com filas enormes. Olhamos o preço, parecia o mesmo. Não era nenhuma promoção. O que estava acontecendo? Seguimos para o centro da cidade. Todo mundo correndo de um lado para outro como loucos. Poucos pararam para nos ouvir.

    Recolhemos nossas coisas e começamos a ouvir o rumor do povo. Parecia que uma greve nacional dos caminhoneiros tinha começado e as coisas iam ficar apocalípticas. Não ia dar para ficar saindo e voltando da cidade sem gasolina, mas o pior era a ameaça de ficar sem comida no mercado.

    Conseguimos dormir uma noite no estacionamento de um edifício no centro, mas no dia seguinte o síndico nos tirou de lá. Foi o César que nos salvou, dizendo que podíamos ficar no apartamento dele pelo tempo que precisasse. Ele tinha dois quartos vagos lá e com o filho estudando em outra cidade estava mesmo muito sozinho. Ser a família presente das pessoas já era nossa especialidade e topamos na hora.

    Os primeiros dias foram mais tensos mas, conforme o abastecimento de comida se provou efetivo, as pessoas se acalmaram e voltamos a tocar na rua. Mônica teve uma de suas crises alérgicas e nenhum táxi tinha gasolina para levar ela ao hospital. Conseguimos um uber que estava rodando no resto do gás e ficou tudo bem. Dez dias depois, tudo voltou ao normal. Abastecemos, agradecemos ao César pela acolhida e maravilhosa companhia e saímos de lá com mais um amigo para a vida toda.

    Seguimos de volta para Ouro Preto. A Copa do Mundo estava chegando e pensamos que ia ser incrível passar essa festa com as repúblicas. Dito e feito. Chegamos lá e fomos recebidos calorosamente. Uma das repúblicas nos ofereceu dois quartos e convidaram para ficar por lá a Copa inteira. Claro que topamos. Então eles disseram:

    – Nós fazemos churrasco em todos os jogos da copa!

    – O que tem de mais nisso? – perguntei – todo mundo faz churrasco em todos os jogos!

    – TODOS os jogos. – Eles disseram, de forma enfática – daqui a pouco começa Rússia e Arábia Saudita!

    Vamos nessa!

    Curtindo o dia todo e trabalhando pouco, resolvemos pegar o app de relacionamento de novo. Bardo conheceu essa mulher e a levou para a república. Que fogo no rabo! Metemos gostoso por horas e ela fez questão de dar o cuzinho. Adoro quando o Bardo fica metendo no rabo enquanto eu chupo a buceta. Sinto as estocadas dele na minha boca enquanto vou bebendo o suco. 

    Alguns dias depois, pegamos um dos estudantes da república. Ele quis beber antes, mas não deixei. Vai na cara e na coragem! Ele estava assustado com a presença do Bardo, nunca tinha feito um ménage, mas depois de um bom boquete ficou com o pau bem duro e me comeu gostoso, de quatro, enquanto eu mamava. Gozei gostoso. Fazia tempo que não gozava em outro pau.

    No dia seguinte fizeram outra festa e umas meninas vieram. Elas eram bem desajeitadas, mas era o que tinha, e Bardo e eu começamos a meter pilha em todo mundo para rolar uma suruba. De repente, o mesmo cara que tinha me comido na noite anterior chega com pó. Ficamos chateados. Sério mesmo que preferem cheirar essa merda do que uma suruba? Qual o problema com essa molecada? Preferiram cheirar. Bardo e eu nos retiramos.

    O Festival de Inverno de Ouro Preto estava acontecendo e, sabendo que estávamos lá, nos colocaram na programação. Tocamos no palco da festa, foi lindo, uma energia altíssima, e no dia seguinte tocamos na rua, no nosso estilo. Nesse dia, pedi para as kids filmar nosso espetáculo. Tinha muita gente, a rua estava fechada para carros e misturada à festa da Copa do Mundo. Estava incrível!

    No dia seguinte peguei uma infecção no ouvido e, de cama, sem nada para fazer, resolvi editar o vídeo cantando The Lion Sleeps Tonight e postei na página do Facebook. Fui dormir. Quando acordei, tinha mais de mil mensagens na caixa de entrada. Olhei para o vídeo: cem mil visualizações. Algumas horas depois eram duzentos e logo quinhentos. No dia seguinte já estava na casa dos três milhões. Pulei de alegria e chamei o Bardo que só torceu o nariz.

    – Grande coisa. Isso aí não dá em nada.

    Ele estava, com toda a razão, desacreditado do online, mas eu tinha outras ideias. Aquela vida de mambembe era perfeita mas não ia durar para sempre. As meninas iam crescer, nós íamos envelhecer e não ia dar mais para seguir assim, sem saber o dia seguinte. Talvez ali fosse o início de uma nova fase.

    Mas ele estava certo. Além dos elogios e das críticas, não recebemos mais do que um monte de convites para ir tocar de graça. Nenhum contrato, nenhuma proposta séria. Agora tínhamos trezentos mil seguidores com trezentas mil opiniões diferentes sobre a gente entupindo nossa caixa de entrada diariamente. Muita gente criticando a falta de escola das kids, nos chamando de irresponsáveis e nos xingando.

    Ao menos nosso canal do Youtube cresceu e agora ganhávamos incríveis quatrocentos reais por mês de streaming. 

    Quinze dias em Ouro Preto! Era carne, pele de frango frita, cerveja e pinga. Entramos em coma. Não dava mais e até que fomos longe demais. Para a tristeza dos nossos amigos estudantes, resolvemos ir para a casa de um casal de amigos em Barbacena para assistir Brasil e México. Eles não bebiam e eram veganos, a companhia perfeita. Um casal de swingers da cidade soube que estávamos por lá e nos convidou para ir ao apartamento deles. Ele era um baixinho sem sal e ela um robocop de silicone, e acabou que ficamos só no papo. 

    Eles nos convidaram para tocar em uma festa de swing que estavam organizando em uma cidade turística ali perto. Topamos. Alguns meses depois, chegamos lá. Pedi a eles que pudessem nos hospedar em algum lugar bem seguro e escondido, e expliquei por quê.

    A internet estava pegando fogo com as eleições e nossos novos fãs nos demandavam tomar posição. Direita ou esquerda? Não o fizemos. Então nos disseram que se você não está conosco, está com eles. Preferi ser inimiga de todo mundo. Que assim seja, afinal, vocês não pagam minhas contas. Foi quando começaram as primeiras ameaças. Nos disseram que se Bolsonaro fosse eleito nós seríamos pegos por algum grupo de extermínio, seja por ser poliamor, por sermos bissexuais, por sermos nômades ou por qualquer motivo que quisessem. Que merda.

    As kids ficaram seguras no porão de uma casa antiga. Escondemos a Elvira e fomos para a festa de swing. Fazia tempo que não ia a uma festa boa assim! Tocamos, animamos todo mundo e caímos na meteção. Estava com tanta saudades que dei uma de Bardo e transei com um monte de gente. Gostei mesmo foi de um gordinho do pau grosso que tinha uma pele gostosa. Sentei ele no sofá, sentei no colo e fiquei ali cavalgando devagarinho enquanto Bardo comia duas ou três mulheres ao meu lado.

    Na manhã seguinte sentamos todos juntos para o café da manhã. O pessoal todo se arrumando rápido para voltar às suas cidades e votar. De repente, me veio a ideia. Em quem esse povo do swing vota? Comecei a perguntar e, pasme ou não, todo mundo ali ia votar no Bolsonaro.

    Me senti uma idiota. Mas é claro! O povo do swing é o cidadão comum, o padre, o policial, o médico, o tabelião e o juiz. E se eles fazem swing, seriam coniventes com o extermínio de outras classes liberais? Meu palpite era que não. E isso dava um peso imenso para o discurso anarquista do Bardo: Brasileiro não precisa de governo, nós fingimos ter um, fingimos obedecer às leis e fazemos o que bem entendemos. Nós nos viramos muito bem sem eles, talvez até melhor. Somos pessoas do bem e olhamos uns para os outros com amor e carinho – basta não haver escassez.

    Essa ideia idiota de esquerda e direita que compramos dos Estados Unidos não funciona aqui. Assim como nunca ia funcionar um Partido Comunista ou um Ditador Fascista. O brasileiro simplesmente não ia obedecer. Sabemos muito bem o que queremos e não precisamos que ninguém nos diga o que fazer! 

    Voltamos para o porão e acompanhamos a contagem dos votos. Deu Bolsonaro. Passou um dia e tudo parecia normal lá fora. Dois dias, três dias e nenhuma notícia de gays pegando fogo. Saímos. O mundo não tinha mudado uma vírgula, assim como não tinha mudado da Dilma para o Temer.

    Eu sei que você pode revirar os olhos agora e dizer que muda sim. Mas eu me refiro à um único ponto de vista: ao da pessoa comum, que está vivendo sua vidinha pacata, totalmente desligada das grandes decisões econômicas. O preço do café sobe, do arroz cai, e é isso. Para essa pessoa o mundo é mundo desde sempre e as grandes políticas nunca vão mudar nada para elas. Essa sou eu e provavelmente você quando parar de ler as notícias.

    Com o fantasma político destruído e tudo em paz, seguimos nosso caminho levando amor e música por aí. Fizemos amigos, celebramos, curtimos a natureza e comemos menos gente do que gostaríamos, sempre.

    ***

    Foi em Lavras Novas, distrito de Ouro Preto, que essa mulher se aproximou. Uma senhora muito elegante, dizendo que tinha um amigo em uma grande gravadora, que enviou um vídeo nosso e que ele ficou muito interessado. Sem fé alguma, passamos nosso contato. Depois de alguns dias o sujeito nos ligou. Disse que um certo cantor brasileiro, desses famosos, queria relançar uma música dele na nossa voz.

    Legal. Montamos nosso estúdio no sítio de um amigo e gravamos a música. Aproveitamos para gravar todas as que queríamos gravar e mandamos fazer um CD para vendermos e ver se dava um pouco mais na cartola. Mandamos fazer mil cópias e vendemos muito mais rápido do que esperávamos. Enquanto isso o cara da gravadora dava notícias uma vez por mês, dizendo que estavam fazendo isso e aquilo e nós acreditando em nada.

    Resolvemos voltar ao estado de São Paulo e tentar de novo. Estávamos mais experientes, mais tranquilos e com mais grana. As meninas estavam maiores e eu estava planejando comprar uma daquelas barracas de teto para termos dois quartos na Elvira e, além do conforto, Bardo e eu podermos transar em algum lugar mais discreto que em pé atrás de uma árvore – não que isso não fosse divertido.

    Os pais do Bardo estavam insistindo muito em ver as kids. Nos encontramos no aeroporto de Guarulhos e eles quiseram levar elas. Elas quiseram ir e achei uma boa ideia, mesmo sabendo que ia levar alguns meses para reeducar elas na volta. Assim, Bardo e eu tínhamos mais liberdade de movimento e orçamento para levantar a grana da barraca.

    Seguimos pelo interior de São Paulo. Sorocaba, Itapetininga, Capão Bonito, Ribeirão Grande. Fomos visitar o Parque Intervales. Haviam várias trilhas mas apenas uma podia ser feita sem o guia – e não tinha nenhum por lá. Entramos no mato e andamos por alguns quilômetros vendo as mais belas paisagens. De repente, vi uma caverna enorme em uma pedra. Bardo me alertou que a única regra da trilha era não sair da trilha, mas eu não ouvi. Fui até a entrada da caverna e olhei para dentro. Ouvi um rugido forte, grave, e disparei. Passei voando as tranças pelo Bardo e sussurrei: corre. Ele ficou me olhando correr na frente dele e começou a correr devagar, sem me passar. Afinal, se fosse uma onça, ia pegar ele primeiro.

    No final da trilha fomos olhar no catálogo e o único animal que havia ali eram antas. Mas na outra parte do parque tinham onças. Bardo riu de mim e eu rebati dizendo que a onça não lia o catálogo, então podia muito bem ser uma! Mesmo assim ele não me deu moleza e ficou rindo de ter corrido de uma anta. Que anta! Voltamos para Ribeirão Grande, tocamos, comemos o famoso rojão e levamos um monte de linguiça no carro, para desespero do Rock.

    De lá seguimos para Itapeva, onde fomos escoltados pela polícia, mas desta vez para ficar acomodados no quartel. Tocamos na festa da cidade e fomos muito bem tratados! Depois Itaberá e Itararé, onde descobrimos mais sobre a história do Brasil. Não foi só o Rio Grande do Sul que bateu de frente com o império. Minas Gerais, São Paulo, Bahia, todos enfrentaram a coroa e tiveram suas batalhas. Fomos conhecer as trincheiras e ficamos felizes de ver um lugar que já foi palco de violência tornar-se um lugar tão lindo. Chegamos em uma festa enorme e, para nossa imensa alegria, estavam assando dezenas de costelas no chão. Que saudades! Tocamos lá e comemos até não poder mais. Conhecemos um povo muito divertido de uma galeteria e prometemos voltar logo.

    Resolvemos ir buscar as kids com a Elvira. Cruzamos o Paraná de uma vez só, de novo. Eu realmente não sei explicar por que nunca paramos por lá. Talvez seja uma missão para o futuro? Paramos em Curitiba para visitar os amigos e seguimos para Joinville, onde eu não via a hora de encontrar meu texano favorito. Sem gripe, dessa vez.

    A primeira coisa que fizemos quando chegamos foi correr para o supermercado. Eu queria cuca, chimia e nata! Estava morrendo de saudades das comidas da minha infância. Mas o que mais me impactou foram as fachadas. Não foi à toa que vi Minas Gerais como uma favela. Cada casa aqui era bem pintada, os jardins floridos e bem cuidados, as ruas bem varridas e tudo cuidado com o mínimo detalhe. Olhei para minhas roupas e me senti diminuída, suja, indesejada. Que contraste!

    Chegamos na casa do Francis no final da tarde e minha buceta estava latejando. Bardo foi visitar a namorada gordinha dele e eu entrei na casa mais braba que a Anta de Ribeirão Grande! Cheguei arrancando a roupa dele e enfiando a cara dele entre minhas pernas. Transamos com força, com vontade e com saudades. Eu de pé com as mãos na parede ouvindo o baque seco da virilha dele batendo com força na minha bunda, a cabeça do pau estocando meu útero. Que saudades de uma comida bem dada daquelas! 

    No dia seguinte eu só queria mais, mas ele me jogou uma bomba: estava de saída para os Estados Unidos para ver uma namorada lá. Fiquei possessa! Ele sabia que eu estava indo lá. Para amenizar, me deu um colar com uma pedrinha preciosa, a chave da casa e do carro dele para que eu usasse pelo tempo que quisesse. Ah, eu vou usar, seu filho da puta!

    Assim que ele se foi, abri o aplicativo de namoro. Em Santa Catarina ele funciona um pouco melhor pra mim, o povo parece mais animado. Transei com uns quatro caras (não ao mesmo tempo, infelizmente) na cama dele. Bardo trouxe algumas namoradas e também fizemos dois ménages. Enquanto isso, tocávamos nas cervejarias da cidade para levantar a grana da barraca de teto e acabei dando sorte: um casal que tinha planejado sair em uma Kombi lendo a bíblia tinha desistido da viagem e estava vendendo a barraca de teto pela metade do preço – e essa grana eu já tinha! Corremos lá e pegamos a barraca. Obrigado por essa, Jesus!

    Alguns dias depois conhecemos um alemão que se ofereceu para fazer um acabamento em madeira na Elvira. Não tinha como pagar, mas ele disse que podíamos ir pagando como fosse possível. Estava indo tudo bem, então decidimos fazer. Ficamos com o carro do Francis para os shows enquanto ele embelezava nossa casinha e fomos viajando as cidades ao redor. O calor estava insuportável naquela região e teve um dia que quase desmaiei. Bardo me jogou no carro e correu para a montanha, me jogando dentro de uma cachoeira. Ficou brincando que eu era a sereia do rio e estava morrendo longe de casa. E era mesmo!

    Com a Elvira pronta, agora com armários de madeira, uma pia e a barraca de teto, seguimos para o Rio Grande do Sul. Fomos visitando todas as praias no caminho. Passamos o Natal na Praia da Armação, tocando em um camping. Nos convidaram para a ceia de Natal coletiva, mas bem na hora da janta sentimos um cheiro podre, horrível! Era o Rock que, por algum motivo, tinha achado interessante rolar sobre um peixe podre na areia. Nos retiramos, pedimos desculpas e passamos a noite esfregando o cachorro, que parecia sem salvação.

    Dali seguimos para a famosa praia naturista do Pinho para o réveillon. Parecia uma ótima ideia passar o final do ano com um monte de gente pelada. Chegamos lá e trocamos nossa estadia por um show, já que eles não tinham nenhuma programação. Ficamos lá por uns dias junto com um pessoal que tinha um blog pago de fotos de naturistas. Bardo achava aquilo meio suspeito e ficou imaginando o que os assinantes faziam enquanto olhavam as fotos, mas quando nos convidaram para fazer algumas fotos para o blog, nós topamos.

    No final da tarde fizemos nosso show. Cantando nua para um público nu, me senti em casa! Foi gostoso e todo mundo curtiu e se divertiu!

    A noite foi meio esquisita. Durante o dia, alguns casais nos convidaram para fazer um swing na madrugada e achamos que era uma ótima ideia. Na hora da virada, todo mundo se vestiu de branco. Não entendi. Preferi ficar nua. Os casais que tinham nos convidado simplesmente nos ignoraram e saíram de perto. Será que eu quebrei o “dress code” ou algo assim? Enquanto uma turma ficou no meio da praia, outra turma foi para um canto escuro e começou uma pegação geral. Bardo animou mas eu não quis ir, não sabia quem estava lá e o que podia acontecer, não me senti segura.


    Fomos então para o outro lado da praia onde um pequeno grupo tocava violão ao redor da fogueira. Eram quatro rapazes e uma moça, que pagava um boquete para um deles. Nos sentamos ali. A moça foi chegando pro lado do Bardo e começou a chupar ele também. Os rapazes começaram a me cercar, mas eu não estava mesmo à vontade. Fiquei na minha. A moça estava animada e Bardo comeu o cuzinho dela, de quatro, ali na areia mesmo. Comecei a me animar, mas um dos rapazes veio com a mão cheia de areia e tocou na minha buceta. Me deu raiva. Pedi pro Bardo para sair dali e fomos dormir. Achei frustrante.

    Dali resolvemos seguir direto para Tramandaí encontrar nosso amigo Lu, que não víamos a muito tempo. Foi uma delícia reencontrar com ele, ganhar aquele abração de urso e colocar o papo em dia. Tínhamos tanto para contar um para o outro!

    Finalmente nos encaminhamos para a colônia alemã. Bardo e eu íamos conversando no caminho. E se nós fôssemos o problema? Se tudo o que tinha dado errado para nós no sul foi porque nós éramos juvenis e inexperientes? Será que agora, viajados e vividos, íamos encarar tudo de outra forma? Era uma premissa a ser testada!

    Chegamos na casa dos pais do Bardo. As meninas pulavam e choravam de alegria. Foram quarenta dias separados e elas não aguentavam mais de saudades. Nos abraçamos, beijamos, cheiramos e curtimos o tempo juntos. Dali fui para a casa dos meus pais. Juro que eu tentei dar um olhar fresco para aquilo tudo, mas só conseguia ver aquela velha e sem graça colônia alemã de sempre. Não suportei ficar um dia inteiro com meus pais e seus pensamentos atrasados. Pegamos as meninas e seguimos em frente.

    Podíamos ter ido logo embora, mas resolvemos subir a serra e ver o que acontecia. Encontramos um casal que era dono de um bar em Nova Petrópolis uns anos atrás e que agora tinha uma pousada por lá. Nos convidaram para ficar. Aproveitamos para tocar no Natal Luz, pelo menos até os fiscais nos expulsarem de lá. Pega mal esses pedintes no meio desse glamour todo, né, arapuca de turista?

    Inclusive sempre recomendei a todo mundo que me perguntava sobre Gramado conhecer tudo ao redor menos lá. A serra gaúcha tem uma gastronomia riquíssima e belas paisagens e tudo o que você encontra em Gramado tem na cidade vizinha por metade do preço. Vai por mim. Nova Petrópolis é uma gema! Se um dia você for ao sul, essa é a lista gastronômica obrigatória em qualquer cidade da serra:

    Churrascaria. Apesar de conseguir encontrar algumas boas pelo país todo, não tem comparação. Carne, carne, carne! Macia, suculenta e em uma quantidade de te botar de quatro.

    Galeteria. Nunca encontrei uma fora do sul. É um buffet de comida italiana: massas, calzones, polenta (que não é angu), saladas e um frango assado com um sabor que só existe lá (mas eu sei fazer em casa).

    Café Colonial. Esse é pra comer rezando, mesmo que não seja cristão. É um banquete de comida alemã com tudo o que se possa imaginar e um monte de coisas que não se encontra em outro lugar do país, como a cuca. E nem vem com esses arremedos que tentam fazer em outros lugares, a cuca alemã é do sul como a moqueca é capixaba! Só tem lá. E a morcela, ou morcilha, que é uma parente do chouriço mas completamente diferente e eu também não encontrei nada parecido em outro lugar do país. Uma das coisas que eu adoro no café colonial é que eles não param de repor a mesa. Se você comeu um pão, eles trazem outro. E quando você já está abrindo o cinto, tentando respirar fundo e rebolando na cadeira para ver se cabe mais um risole a mesa ainda está intacta, como se você tivesse acabado de chegar. Já disse que amo abundância?

    Por fim, o Xis. É o podrão do sul. Um hambúrguer prensado que não tem igual. E nem em Santa Catarina você encontra. Tentamos fazer ele em diversas ocasiões pelo sudeste e nunca conseguimos chegar perto do sabor. Qual será o segredo?

    Voltando de Gramado, chateados, a Kombi decide travar o câmbio. Poxa, Elvira, logo aqui no sul? Perdemos todo o dinheiro que tínhamos guardado com o guincho e o conserto. Era hora de meter o pé. Tentamos voltar tocando de cidade em cidade, mas era exatamente como nos lembramos: ninguém queria dar dinheiro para músico vagabundo, pedinte, morador de rua.

    Para piorar, a estrutura em madeira que o alemão tinha feito estava se desmanchando. Foi tudo muito mal feito, com material reaproveitado. Os pregos caindo. Quem usa prego em um móvel que vai tremer o tempo todo? As meninas se machucavam nas pontas de madeira soltas e ele usou um suporte que não aguentava o peso da barraca de teto, que começou a se soltar toda no caminho.

    Como ainda não estava pago, decidimos voltar lá, mas não sem antes visitar de novo todo o litoral de Santa Catarina, como fizemos dois anos atrás. Não reconhecemos os lugares. A Argentina estava em crise econômica e as praias estavam vazias de turistas. Ninguém nos dava dinheiro, não tinha onde trabalhar. Os amigos que achamos que fizemos não queriam nos receber. Um teve a cara de nos mentir que tinha mudado de cidade. Também fizemos novos amigos, como um casal de mineiros que estava morando na capital das capitais.

    Toda a cidade de Santa Catarina é a capital nacional de alguma coisa. Mas essa cidade não tinha comércio, indústria, agricultura, nem nada de que pudessem se orgulhar. Nem mesmo de ter sido capital do país por um dia porque Dom Pedro dormiu lá uma noite. Então o prefeito pegou as bandeiras de todas as cidades ao redor, colocou na avenida principal e a cidade se tornou a capital das capitais. É ego que chama?

    Estávamos na casa desse casal no dia do aniversário do Bardo. Nós não assistimos nenhum tipo de notícia, mas na casa dos outros não se escolhe o que passa na TV. E lá estava Brumadinho debaixo da lama. De novo, gente? Qual o problema com essas empresas? Bardo chorava sentado no sofá. Tremia. Queria sair dali e dirigir direto para lá, ajudar no que pudesse. Aquele povo amado não merecia uma merda dessas. Demorei para acalmar ele e convencer de que não íamos ajudar em nada. Que era melhor usar nossas redes sociais para pedir ajuda e foi o que fizemos. 

    Com o pouco que fazíamos, seguimos em frente. Chegamos na casa do alemão e ele estava abatido. Estava sem energia elétrica em casa, não tinha pago a conta. Reclamamos da obra e pedimos que ele consertasse. Ele pediu que comprássemos um novo rack porque ele não tinha dinheiro pra isso. Fomos para Joinville, fizemos alguns shows e voltamos com o rack. Quando chegamos, ele tinha sequestrado nossa barraca de teto e disse que só devolvia quando recebesse pelo trabalho. Bardo tentou sua magia, mas não teve jeito: o alemão estava desesperado por dinheiro, e por pouco dinheiro, nesse caso.

    Acabamos voltando lá com a polícia e pegando nossas coisas de volta. Foi um dia muito triste. A escassez fazendo seu trabalho e criando inimizades por pouca coisa. Eu realmente lamento muito.

    Ainda tinha a casa do Francis para usar em Joinville então fomos para lá. Eu amo essa cidade que sempre nos tratou com muito amor e carinho. E cheia de gente gostosa! Tocamos nas choperias, nos bares e nas ruas, sempre com sucesso. Levantamos nosso caixa e seguimos viagem, voltando para Curitiba. Lá fomos recebidos pelo nosso amigo artista novamente e tocamos nos food parks que tinham virado febre na cidade. Mais uma cidade pela qual tenho muito carinho. 

    Mais uma vez, cruzamos o Paraná em uma tarde (perdão!) e voltamos para Itararé. A diferença de tratamento era gritante. O problema do sul não éramos nós, eram eles mesmo. Era a pobreza de alma, a casa bem pintada com um belo jardim, o carro do ano e a mesa vazia de amigos. O contraste total das “favelas” que me apavoraram em Minas Gerais e a riqueza da mesa cheia de amigos, da comida simples e abundante, do carinho, do café e do pão de queijo.

    Sentamos, Bardo, eu e as kids, no gramado das trincheiras de Itararé. Choramos. Será que essas pessoas percebem a desgraça em que vivem? Puxei um papel, um lápis, e escrevi:

    Onde estão seus amigos, Catarina?
    Já se foram outra vez
    A parede bem pintada, o jardim belo e florido
    Perceberam outra vez

    Onde está sua luz, Juliana?
    Apagaram outra vez
    Tua roupa bem cortada, a pele bem hidratada
    Perceberam outra vez

    Abre a porta e deixa o sol entrar

    Deixa o mofo morrer

    Quem quiser pode ver

    Que a mesa tá vazia

    Que deseja companhia

    Que tem mais a oferecer


    Deixa o calor entrar

    Deixa eu te dar um beijo

    O cheiro do amor

    É de café e de pão de queijo


    De volta ao sudeste, respirei fundo. Aqui eu sou bem vinda.

  • Capítulo 10 – Bruxa

    O cara da gravadora continuava enrolando. Toda semana ele ligava e inventava alguma coisa. Agora ele queria uma gravação com uma qualidade melhor do que a do nosso notebook. Seguimos então para Socorro, São Paulo, encontrar com o Vitor da Caixa Rolante. É um projeto que grava bandas em espaços abertos, muito bacana! Fazia tempo que nos comunicamos online e ele tinha um estúdio por lá. Queríamos muito gravar Pão de Queijo, Um Ano Sem Amor e, se sobrasse tempo, a música que a gravadora queria.

    Ficamos hospedados em um hotel em troca de um show. Montamos nosso estúdio no quarto porque Bardo gostava de ir para o estúdio com um arranjo pré-gravado. Ficamos ali dentro do quarto do hotel viajando nos sons. Achamos que Pão de Queijo ia ficar linda com uma viola caipira e, estando no interior de São Paulo, não devia ser difícil encontrar. Foi fácil mesmo e logo nossa música tinha um toque especial, uma viola no meio do rock n roll. Realmente ficou lindo.

    Com os arranjos prontos fomos para o estúdio e captamos tudo em uma tarde só. Em alguns dias já enviamos a nossa versão para a gravadora. Eles gostaram e vieram de novo com aquela conversa ruim. Turnê insana de três, cinco shows por semana. Não. Sentei com o Bardo e decidimos que ia ser a última vez que íamos conversar com uma gravadora. Não tem, e nunca vai ter, dinheiro que pague eu não estar com as minhas filhas. São Paulo, 2012, me ensinou a lição.

    Quando eu paro e olho para trás e penso nos momentos em que me senti feliz eu raramente me lembro de um momento em cima do palco. Mesmo os shows grandes, mesmo os com muito público, mesmo os bem pagos. O que eu me lembro é de fogueira, de mato, de chuva, de estar vadia na floresta, em uma trilha rumo à cachoeira e, claro, com as pessoas que eu amo. Cada momento com o Bardo, com as minhas filhas, com os meus amores. É isso que me faz feliz de fato, que me deixa contente. E isso eu já tenho, ninguém compra.

    Foi assim que saímos de Socorro rumo ao infinito. Sem data, sem hora, sem local. Fazia o som na rua ou onde me convidassem só pela grana da comida e da gasolina. Se pegasse um dinheiro bom mesmo, como uns trezentos reais, pegava comida para uma semana e me escondia na cachoeira.

    Foi assim que conhecemos a Dona Zilda.

    Estávamos na casa de um dos nossos amigos milionários. Ele era amigo do dono da maior casa de shows do estado e conseguiu um espaço para tocarmos lá por um cachê razoável. Fomos à tarde conhecer o lugar e fechar com eles. Era um inferno, uma daquelas casas escuras e labirínticas. Ele nos mostrou o palco e disse que íamos tocar depois de uma banda famosa, que nosso show seria às duas horas da manhã.

    – Duas horas da manhã eu quero estar dormindo por pelo menos seis horas. – eu disse. O homem riu nervoso, sem saber se eu fazia piada. Eu não fazia.

    Ele nos mostrou o camarim e a área VIP. Disse que era parte do contrato que estivéssemos nessa área depois das dez horas da noite. Fiquei imaginando o que ele queria que eu ficasse fazendo ali por tantas horas antes do meu show. Eu nem gostava da banda de abertura. Ele então disse que era para levar as minhas filhas. Fingi que não ouvi. Que tipo de imbecil convida crianças para uma balada na madrugada?

    Chegamos na hora combinada e fomos para a área das Very Important Persons – quem quer que fossem. Foi o inferno. Era um monte de gente metida à besta por ter algum dinheiro usando drogas e falando merda. Nos davam copos e mais copos de bebida – vindas sei lá de onde. Bardo fez amizade com o cara do bar e discretamente trocávamos os copos por água com gelo.

    As mãos bobas não se seguravam. Pegavam na minha mão, no meu pulso, na minha cintura. Era como um filme de apocalipse zumbi. Gente nojenta, com seus sorrisos falsos e os olhos vazios, tentando tirar um pedaço de nós. Tentamos sair, mas a moça da porta disse que o nosso pagamento seria feito apenas antes do show, depois da presença na área VIP. Seguramos a onda, dando tapas nas mãos como mosquitos.

    Sério mesmo que era para trazer crianças aqui?

    Finalmente fomos pagos e subimos no palco. O público parecia um monte de carcaças vazias, balançando com a música. Já tinha tanta droga ali que não sei se alguém lembra do nosso show. Por sorte, algum funcionário veio e disse que estava o suficiente antes do tempo combinado. 

    Ali eu entendi que não era o show que tinha sido contratado. Ele pensou que íamos transformar a área VIP em uma casa de swing. Se tivesse me contratado para isso, quem sabe? Mas essa galera com dinheiro entre as orelhas pensa que sabe mais.

    Bardo começou a arrumar as coisas para sairmos dali, mas foi o tempo dele virar de costas e um segurança me pegou pelo braço com força e começou a me puxar. Tentei gritar mas foi inútil.

    Ele me arrastou para uma escada e entramos em um labirinto. Eu pedia que ele me soltasse mas era muito mais forte que eu e não respondia nada. Abriu uma porta e me mandou para dentro. Lá estava o dono da casa de show e a banda famosa. Respirei aliviada, mas ainda não era hora para isso.

    Eles estavam muito alterados, bebendo e cheirando, e o dono da casa começou a fazer sugestões de que eu poderia ser o brinquedo deles naquela noite. Eles começaram a me cercar. Eu sentada no sofá, exausta, sem a menor chance de defesa. Que merda. O vocalista sentou do meu lado, tentou mexer no meu cabelo. Dei um tapa na mão dele. Ele riu alto e tentou de novo. Por dentro, eu morria. Tentava tirar a minha alma dali, preparando meu corpo para fazer algo que eu não queria.

    De repente, a porta abre e o segurança entra à empurrões. Bardo entra na sala e me puxa pela mão. O dono da casa começa a gritar com o segurança, perguntando o que meu marido estava fazendo ali. 

    – Vim buscar o que é meu – Bardo respondeu, me tirando daquele inferno.

    Se essa era a maior casa de shows do estado, então esse é o tipo de ambiente que eu teria que trabalhar se fechasse com a gravadora? Três vezes por semana disso? Melhor me largar na zona da beira da estrada de uma vez!

    Pegamos nosso equipamento, fomos para a casa do nosso “amigo”, pegamos as kids e saímos sem rumo. Paramos na primeira placa que dizia: cachoeira.

    Era uma queda pequena, rasa, muito gostosa. Uma estrada de chão acompanhava a margem e, do outro lado dela, um daqueles botecos antigos que sempre me perguntava como se mantinha em pé em um lugar perdido como aquele. Era domingo e algumas pessoas bebiam cerveja, cedo da manhã.

    Paramos e pedimos por café. O dono do lugar, um mineiro velho com poucos dentes, sorriu e nos apontou os fundos. Entramos e encontramos um fogão à lenha à todo vapor. Uma senhora cuidava de uma série de panelas. Era a Dona Zilda. Pedimos café e ela nos serviu. Perguntou se queríamos pão de queijo. Aceitamos. Ela pegou um tacho, encheu de polvilho e queijo e começou a preparar ali, na nossa frente. Eu nunca tinha visto pão de queijo sendo feito do zero e assistimos como um espetáculo.

    Ficamos de papo com ela. Muito faceira, ela nos contava sobre a cachoeira e como o lugar era movimentado aos finais de semana. Nos convidou para almoçar. Nos deliciarmos em um legítimo almoço: arroz, feijão, galinha caipira no quiabo. Quando pedimos a conta, Dona Zilda se espantou. Não tinha conta nenhuma, era um convite. Segurei um choro. Ter saído tão rápido daquele ambiente hostil de gente asquerosa e supostamente rica para esse lugar de verdadeira riqueza e abundância foi um baque.

    Passamos a tarde na cachoeira. Um tempo atrás ganhamos um daqueles sofás infláveis e Bardo fez dele um bote para as meninas brincarem na corredeira. Foi maravilhoso! No final da tarde, Dona Zilda chamou para o café. Ela comentou que ficava muito triste no domingo à noite porque tinha que voltar para a casa dela na cidade e esperar o próximo final de semana. Bardo e eu nos olhamos, contamos o dinheiro no bolso (ao menos aqueles filhos da puta nos pagaram) e perguntamos:

    – Dona Zilda, quanto ia custar para a senhora ficar conosco nesta semana, cozinhando?

    Ela fez alguma conta doida na cabeça e deu o preço: Duzentos reais. Olhamos incrédulos. Seriam quatorze refeições para quatro pessoas. Não tinha como dar esse preço. Pedimos para ela conferir a conta. Ela sorriu e disse que era isso mesmo e já perguntou o que queríamos para jantar. 

    – Quais as opções? – perguntei.

    – O que você vê ao redor que dá para comer, temos. – ela disse, sorrindo.

    Olhei. Tinha galinha, uma horta com muitas saladas e temperos, alguns pés de mandioca. 

    – Frango com mandioca? – falei meio em tom de pergunta, um pouco incrédula. E foi assim que me tornei cúmplice no pronto assassinato de uma galinha que passava por ali. Ela tirou um pé de mandioca direto da terra, descascou e colocou na panela. As kids assistiam aquilo sem acreditar, nós com os olhos lacrimejando. Ali estava uma pessoa que conhecia o verdadeiro valor da vida.

    Passamos uma semana ali com aquela senhora incrível. Ela nos acordava batendo na janela da Elvira, com o cheiro de café e pão de queijo, exatamente como a música que escrevemos. Encontramos o paraíso, a melhor coisa que a vida poderia oferecer: amor, comida, cachoeira, boa companhia, cachaça (aquela pura da roça) e violão.

    Nada que é bom é pra sempre, então seguimos nosso caminho. Nunca mais soube da Dona Zilda, ela ignorava a internet, mas sei que ela ainda é feliz.

    E só para pontuar: ela era evangélica, muito devota, e não nos perturbou com a religião dela por um minuto sequer. Prova de que você pode guardar a sua para você e ser uma pessoa amável de verdade. Se o paraíso cristão existir mesmo, ela será uma das poucas pessoas por lá.

    ***

    Alguns dias, ou meses, ou quilômetros depois, não sei, subimos uma montanha e fomos parar no portão de um antigo hotel abandonado que uma família maluca tinha comprado para transformar em um centro holístico.

    O lugar tinha uma energia surreal e diversas cachoeiras. Era tão isolado que eu andava nua e despreocupada por lá o dia todo. Ajudamos na colheita do feijão e da mandioca. Bardo estava nas nuvens com a culinária. O marido era um mestre na Tikka Masala – um tempero indiano – e curtimos um cardápio vegano por uns dias. Também tinha muito pinhão e um pomar lotado de goiabas, onde Bardo desaparecia por horas.

    Tudo parecia muito bom e belo por lá, mas esses lugares isolados sempre tem uma maluquice ou outra. A mãe da família era meio que uma líder de seita, bastante militar e colocava ordem em tudo. Fomos indo na onda dela até onde foi possível, mas já estava dando no saco. Quando ela disse que ia ficar fora por três dias para dar um curso de alguma balela espiritual ficamos aliviados.

    Mas foi só o tempo dela virar a esquina e a família correu pedindo socorro. Parecia que a coisa era bem mais seita do que imaginamos e eles queriam só um alívio daquilo enquanto ela estava fora. O marido nos confidenciou que não transava há muito tempo. Que ela tinha até cortado a cebola do cardápio porque, segundo alguma liderança cósmica, a cebola estimulava a libido e sexo era uma coisa suja, baixa e carnal. Ela só queria saber de chá de cogumelo, fumar maconha e meditar.

    E lá estavam elas de novo, as drogas, sendo mais importantes que sexo. Isso me irritou profundamente. Que merda de superioridade é essa que esse povo chapado pensa que tem sobre quem encontra sua iluminação no sexo? Eu não tinha a menor intenção de transar com o cara, mas também precisava de uma desforra. 

    Convidei ele para caminhar nu comigo na cachoeira. O coitado tremia. Ele não era um cara de se jogar fora, de forma alguma, só não tinha batido a química. Ele sentou em uma pedra e eu fiquei me banhando na cachoeira, batendo papo. Primeiro queria ver se ele seria respeitoso, ainda mais subindo as paredes como estava. Ele foi. Nem de pau duro ficou. Devia estar se concentrando muito, pensando em cebolas, talvez. Não, espera, cebolas aumentam a libido!

    Quando percebi que ele estava de acordo com meu espaço, me aproximei e fiz um carinho nas costas dele. O homem desabou. Estava travado, tenso, tudo nele era duro com exceção do pau. Disse no ouvido dele que podia relaxar, que estava tudo bem, e o caralho subiu na hora, extremamente teso. Dava aquelas pulsadas para cima. Ele estava nervoso. 

    Lembrei de mim mesma, anos atrás: Alguma coisa dentro dele devia gritar em desespero, as ideias espirituais da mulher maluca contra as necessidades mais básicas do corpo humano. E isso é algo que eu não desejo para ninguém, apesar de saber que é muito comum.

    Fiz uma massagem nos ombros e fui descendo com os dedos pelo peito dele. Cheguei na barriga e ele deu um gemido esquisito. Olhou para o céu e fechou os olhos, respirando fundo. Desci pela virilha e passei as unhas levemente nas bolas. Estavam extremamente duras.

    E ele gozou.

    Eu já tinha feito muita gente gozar rápido na vida, ainda mais os moleques de vinte e poucos, mas nunca tinha visto um homem daquele tamanho explodir daquele jeito. Segurei o pau dele enquanto jorrava porra pra cima. Litros. Aquela energia toda presa ali, matando ele por dentro.

    Ele mordeu os lábios de uma forma que parecia segurar um choro. E o pau continuou completamente duro na minha mão. Comecei a punhetar devagar, falando no ouvido dele para esquecer todas as merdas espirituais e se concentrar no relaxamento, no prazer, no que ele sentia de verdade. Lambia meu dedos, molhava, passava os dedos devagar na base da cabecinha. Não demorou muito. Mais um minuto ou dois de punheta lenta e ele começou a cuspir porra na água corrente.

    Foi uma experiência interessante. Eu me sentia mais uma bruxa médica do que uma mulher fazendo um ato sexual. Dava pra ver as veias dele pulsando no corpo todo e os ombros relaxando devagar. Não soltei ele. Esperei por alguns minutos e, vendo que a respiração dele acalmou e o pau continuava intenso, comecei de novo.

    Dessa vez ele durou mais. Colocou as mãos para trás, relaxou mesmo e ficou curtindo. Parei de falar. Ficamos ouvindo os pássaros, a água caindo da cachoeira e os gemidos que ele deixava escapar. Eu me sentia bem. Já tinha esquecido que tinha começado aquilo por raiva da bobagem espiritual dela e estava no meu próprio ritual. Era como se eu estivesse de posse das chaves dos grilhões que o seguravam.

    Depois de cinco minutos, percebi que ele podia com um pouco mais, então coloquei na boca. Ele não se aguentou. Soltou um gemido muito alto, quase um grito, como quem sente aquela dor de muito tempo sem prazer. E aí foi rápido. Não deu tempo de dar aquela mamada especial. Senti pulsar forte e tirei da boca. Deixei o leite voar alto e cair na água, aquela energia travada, encruada, indo embora.

    Ele não me tocou. Respeitou meu espaço a cada momento. Me agradeceu e saiu, me deixando ali. Tomei mais um banho de cachoeira, sorrindo sozinha. Senti que tinha feito algo muito bom para alguém, um ato de amor verdadeiro.

    Quando voltei, as kids me contaram que as crianças estavam passando fome. Que tinham que comer carne escondidas na escola porque a mãe não deixava. Que porcaria de religião é essa? Bardo conversou com o marido e ele também sentia falta da proteína animal. Decidimos então matar uma galinha e comer com mandioca. O marido pediu ao Bardo que fizesse o abate fora da cerca da propriedade e que quando ela descobrisse – e ela ia descobrir – que ele assumisse a culpa, já que íamos embora mesmo.

    Assim foi feito. Bardo e eu levamos o bicho para fora da cerca e fomos responsáveis por mais um galo indo para o além. Obrigado por morrer por nós. Depenar foi uma festa. As crianças com a água fervendo, tirando as penas e brincando com elas. Colhemos um pé de mandioca e acendemos o fogão a lenha. Era uma família completamente diferente. Sem regras, sem ordens, sem orações e drogas bizarras. Só curtindo o bom da vida, de verdade: comida, alegria e música.

    O marido me olhava com um olhar que eu via pela primeira vez e não sabia que ia ver muito dali para a frente: um olhar de gratidão. Ele andava leve, cozinhava assobiando, ria com as crianças. Me divertia vendo aquilo e no fundo me perguntava como foi que o sexo virou uma coisa tão difícil na vida das pessoas. É apenas uma necessidade básica como comer ou dormir!

    O cheiro do frango tomou conta do ar. Todos salivavam. Servimos à mesa: mandioca cozida com molho de frango. Um banquete! Caímos de garfo com força e vontade. Bardo e o marido combinavam as próximas refeições, já que ela ia levar dois dias para voltar, mas qual foi nossa surpresa quando ouvimos a voz dela entrando na cozinha como um leão.

    – O que está acontecendo aqui?

    Todo mundo travou. Bardo lembrou do combinado e foi indo na direção dela, assumindo a culpa por ter corrompido a família. Ela xingou de tudo o que podia e disse que ele ia ficar com o karma do galo que tinha assassinado para todo o sempre.

    Karma do galo? O galo devia ser um terrível pecador, eu penso.

    Fomos expulsos e seguimos nossa viagem.

    ***

    Talvez você tenha ficado frustrado por eu não ter tomado toda a porra do marido. Alguma coisa aconteceu comigo, muito aos poucos, depois que o Bardo fez a vasectomia. Saber que eu não ia mais engravidar foi me desinteressando de sêmen. Eu ainda tinha todo o meu tesão e adorava brincar no final, mas não era mais aquela coisa maluca, inexplicável, aquela vontade de me encher de porra o tempo todo.

    Conversando com o Bardo, imaginamos que era uma resposta biológica. Saber que já tinha cumprido meu papel como reprodutora tinha acalmado meus ânimos e agora eu realmente via aquele leitinho mais como uma energia que fluía daqui para ali. E aquela porra, especialmente, era uma energia presa, pesada, carregada, que eu não queria dentro de mim. Essa era minha nova pira espiritual, eu penso.

    E era interessante ver as mulheres que o Bardo transava implorando por leite dentro. Eu podia ver nelas a vontade de ver a barriga crescer, nossa intensa e incrível natureza de reprodução. Uma pena que elas não sabiam que dele não saía mais filhos – e ele aproveitava e curtia.

    ***

    Subimos outra montanha e fomos parar em um antigo quilombo. Fomos muito bem recebidos, fizemos nossa música e nos ofereceram um lugar para estacionar a Elvira na beira de uma cachoeira. Dali, à dez minutos de caminhada, mais outras duas quedas d’água maravilhosas. Era um paraíso! Gastamos tudo o que tínhamos em comida não perecível e encostamos lá, onde perdemos a noção do tempo. 

    A rotina era: acordar com a luz do sol, esperar um pouco para a cachoeira aquecer e tomar o banho da manhã. Deitar na pedra para aquecer o corpo. Fazer uma fogueira e preparar o almoço. Comer e dormir um pouco. Uma trilha e mais um longo banho de cachoeira. Voltar, reacender a brasa e fazer a janta.

    Milho cozido que colhemos pelo mato, tilápia assada que pegamos no rio, feijão que cozinhava lentamente o dia todo. O manual de PANCs – as plantas alimentícias não convencionais – veio a calhar para as saladas. Tinha muita coisa interessante por ali – sempre com o cuidado de não se envenenar! Era só perguntar para o povo se era a planta certa.

    Nos tornamos índios. Aos poucos esquecemos de olhar a hora no relógio e via ela pelo sol. Então esquecemos que dia da semana era, e que dia do mês. Se a comida não tivesse acabado, teríamos esquecido o mês também e ficado ali para sempre, contemplando. Eram horas e horas olhando para a cachoeira. A água correndo. Os pássaros pegando palha para os ninhos e as flores que abriam e fechavam no mesmo dia. Não tinha compromisso, não tinha data e hora marcada, não tinha uma única conta me esperando em trinta dias.

    Os mosquitos, borrachudos e carrapatos foram se tornando parte integrante e já nem incomodavam tanto assim.

    Bardo e eu andávamos pelo mato e, quando o tesão batia, eu empurrava ele contra uma árvore ou pedra e consumava ele ali mesmo. Meu tesão era animal e ele adorava aquilo. Beijava ele com intensidade, esfregava o meu corpo quente de sol no dele. Ajoelhava e chupava com vontade e gosto, ou me deitava em uma pedra, abria as pernas e mandava ele arrancar meu suco com a língua. Fodemos em todas as cachoeiras, em cada cantinho que pude encontrar. Me sentia uma adolescente de novo.

    Apenas uma noite me assustou. Acordei com a bexiga explodindo. Que vontade de fazer xixi! Abri a barraca e, quando fui descer a escada, senti minha pele arrepiar toda. Uma sensação de estar sendo observada. Olhei ao redor e não vi nada, mas a sensação ficou. Minha bexiga esqueceu o que queria fazer e pulei de volta para dentro da barraca. Acordei o Bardo e disse que tinha uma onça lá fora. Ele riu.

    No dia seguinte fui para o povoado e perguntei por lá. Sim, tinha onça parda por ali. Eu sabia!

    Sem comida e sem dinheiro, tivemos que seguir viagem.

    ***

    Fomos convidados por uma universidade para tocar em um evento em uma cidade muito pequena. Depois do show, a moça que nos contratou revelou que o contrato tinha uma segunda intenção: ela era a única poliamor daquele lugar esquecido e queria ao menos conversar com alguém que concordasse com ela.

    Ela nos levou para uma casa muito boa. Jantamos e ficamos batendo papo. Ela contava as enormes dificuldades que tinha para explicar para aqueles brucutus cristãos sobre a possibilidade de se amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Mesmo que eles vivessem pulando a cerca, chifrando, traindo e enganando, para eles isso era impossível.

    Foi uma conversa muito triste e totalmente de acordo com o que vínhamos vivendo até ali. Por mais que Minas Gerais fosse um estado de amor, carinho e receptividade, estavam longe de ser o tipo de amor que estávamos buscando. Todo o sexo vinha com uma proposta de traição, de mentira, ou algum tipo de treta envolvido. Não entrava na minha cabeça o que fazia ser tão complicado.

    Papo vai, papo vem, resolvemos transar para dar uma relaxada daquela conversa deprimente. Começamos aos beijos, tirando a roupa, nos lambendo e nos chupando. Ela era gordinha e tinha os seios fartos e firmes, de um jeito que eu gosto. Fiquei ali mamando ela enquanto o Bardo chupava a bucetinha.

    Bardo colocou ela de quatro, mas o pau não entrou. Eu lambi, cuspi, mas não tinha jeito. Ela simplesmente não cedia. Relaxamos e voltamos a conversar, e ela nos contou das experiências horríveis que tinha tido com os homens dali e que não transava há muitos anos. Eu nunca tinha visto uma buceta encruada daquele jeito. Estava lacrada como uma ostra, nem meu dedo entrava.

    Decidimos, os três, que aquela buceta ia abrir naquela noite. Ficamos nos lambendo, chupando e acariciando. Ela mamava minha buceta e o pau do Bardo com muito gosto e vontade, me fazendo dar squirts fortes e longos. Eu enfiava minha língua na buceta dela, ganhando cada milímetro como uma vitória.

    Já era quase de manhã quando Bardo conseguiu colocar a cabecinha inteira. E ela gozou. Foi uma coisa incrível e assustadora ao mesmo tempo. Ela gozava e chorava, a buceta escorrendo e o rosto dela mudando completamente. A energia encruada saindo e a alegria retornando como um brilho maravilhoso nos olhos.

    Comecei a chupar o clitóris enquanto o Bardo empurrava e tirava a cabecinha com muito carinho. Ela me agarrava pelos cabelos e chorava copiosamente. O sol ia subindo pela janela do quarto e eu ali, olhando bem de pertinho, enquanto cada centímetro do pau do Bardo entrava. Foi muito engraçado como comemoramos quando entrou até o talo!

    Depois de ter perdido a conta dos orgasmos ela finalmente conseguiu sentar e cavalgar. A buceta rosinha dele engolia o pau do Bardo com tanto gosto que eu fui fazer um café e sentei em uma poltrona para assistir. Pediu para ele gozar dentro e ele encheu ela de porra, gemendo gostoso. Ela deitou e desmaiou. Dormiu, roncando alto, o dia todo.

    Mais uma vez, a bruxa médica em ação!

    Fui ter notícias dela novamente anos depois. Tinha tentado casar com uma mulher, deu errado, e casou com um dos brucutus da cidade dela. Acabou nos bloqueando. Espero que esteja feliz.

    ***

    Fomos convidados para tocar em uma festa de swing. Não estávamos animados, nem um pouco. Swing é aquela chatice cheia de regras e fomos mais pelo cachê do que pela diversão. A festa era em uma cidade turística do interior de Minas Gerais e, quando chegamos lá, todo o povo da festa era do Rio de Janeiro e São Paulo.

    Fizemos nosso show, animamos a festa e fomos tentar a sorte na pista. Tinha esse solteiro, um cara lindo. Loiro, olhos azuis, totalmente fora do padrão marido barrigudinho com esposa siliconada que eu estava habituada. E estava sozinho, ninguém queria brincar com ele. Fui indo na direção dele quando a dona da festa me puxou pelo braço e confidenciou: o cara é um cavalo, tem o pau gigante!

    Explicado. Cansei de ver o cara com vinte e cinco centímetros ou mais sobrar na festa. E era o caso dele. Falei para o Bardo e nos aproximamos, mesmo assim. Ele não era só bonito como muito gentil e respeitoso. Subimos para um mezanino onde o povo estava fazendo trocas de casal e comecei a brincar com ele. O volume na calça realmente assustava. Tirei a roupa dele e peguei o monstro na mão. As outras mulheres olhavam com os olhos arregalados para ver o que eu ia fazer, os maridos pareciam derrotados.

    Enquanto Bardo se divertia com as outras esposas, eu virei o centro das atenções. Chupando e lambendo aquele cacete gigante. Estava me divertindo mais com a atenção do que com aquela jeba enorme. Batia ela na minha cara (coisa que eu não costumo fazer) e lambia das bolas até a cabecinha. Quase dava tempo de secar a língua de uma ponta a outra.

    Mandei ele sentar no sofá e colocar uma camisinha. Dava dó. O preservativo extra grande apertava ele todo, parecia um salame. Virei de costas e comecei a sentar. Nesse ponto até o Bardo parou o que estava fazendo para ver. Todo mundo na expectativa se aquilo tudo ia entrar em mim –  e eu também. Fui sentando devagar e senti o cabeção tomar conta da minha buceta toda, empurrando ela para os lados e abrindo espaço. Fui descendo devagar, cuspindo na mão e molhando meu caminho.

    Quando entrou metade, a festa já tinha parado. Umas trinta pessoas estavam sentadas no chão, ao redor, torcendo para cada centímetro que atolava. A largura era o maior problema. Realmente eu sentia aquele cacete quente abrindo o caminho dentro de mim. Eu já não tinha audiência, tinha uma torcida. Conforme ele ia encontrando espaço e entrando cada vez mais, algumas mulheres faziam cara de dor, outras de tesão, outras de admiração. Os homens olhavam, incrédulos: onde tudo aquilo estava indo parar em uma mulher pequena dessas?

    Depois de algumas cuspidas e reboladas, sentei completamente no colo dele. A sala explodiu em um grito como se fosse gol da seleção brasileira. Mas o show não tinha nem começado ainda. Acho que por conta do tesão que aquela turma me deixou eu relaxei completamente. Subi de volta até o cabeção e sentei de novo – de uma vez. Mais um grito. Uma mulher se abanava do meu lado, achei que ela ia desmaiar. Comecei a subir e descer tudo, sentando com vontade. 

    Para ser honesta, a penetração nem estava gostosa. Estava um pouco sofrida e dolorida. Mas valeu o show. Não gozei, mas ele comeu umas quatro mulheres depois de mim. Todo mundo queria andar no brinquedo!

    Mais tarde, já na Elvira, Bardo me comia me contando o ponto de vista dele. Me diverti muito. E ele disse que eu estava mais apertada do que nunca. Que bucetinha forte, essa minha, viu?

    ***

    Meses depois fomos chamados para a mesma festa. Dessa vez fomos animados! Que diversão estaria nos esperando? Que frustração! Os donos da festa descobriram que o povo gastava mais em bebida quando não transava e encheu a festa de pequenos eventos que distraíam todo mundo.

    Droga sobre sexo, de novo.

    Fizemos nosso show, animamos a festa, começamos a bagunça, mas toda hora eles chamavam todo mundo no microfone e empatavam a foda da galera, que nem percebia o que estava acontecendo.

    Não curti ninguém, Bardo comeu uma esposa em uma rapidinha e fomos embora.

    Alguns meses depois nos chamaram de novo. Fomos pelo dinheiro do show. O público da festa tinha mudado completamente. Eram apenas homens idosos com garotas siliconadas (provavelmente de programa) e os velhos sentavam nas cadeiras da pista de dança para disputar quem tinha investido mais silicone na mulher. 

    Fiquei horrorizada. Uma das mulheres se engraçou no Bardo e o velho quis ver ele comendo ela. Enquanto ela mamava o pau dele com a bunda empinada eu cheguei atrás dela e meti a cara na buceta, dando uma chupada gostosa. A bunda dela era de uma consistência estranha, era gelada, mas era o que tinha para aquela noite. 

    De repente, o velho se levanta e vem por trás de mim, com uma lata de cerveja na mão. A barriga chegou primeiro que o pinto. Ele vestiu um preservativo no pau meia bomba e enfiou ele entre minhas nádegas. E brochou ali. Me deu um asco. Ele estava com o pau mole nas minhas coxas e não saía dali. Fiz um sinal para o Bardo e desistimos da brincadeira.

    Estávamos saindo da festa quando ouvimos os anfitriões anunciarem o início de um bingo. Bingo! Sério mesmo? Era o que restava para aquele povo. 

    Nunca mais aceitamos os convites deles.

    ***

    Algumas histórias eu realmente tenho receio de contar. São tão surreais que parecem mentira. E essa aconteceu não só uma, mas três vezes: uma pessoa muito solitária e sem família quis deixar tudo o que tinha para a minha família. 


    Seria incrível e eu seria multimilionária hoje se tivesse aceitado, mas todas elas vinham com um preço que eu não estava disposta a pagar: Bardo e eu casar com a pessoa. Uma delas era uma fazendeira solteira – das muitas que conhecemos – filha única que tinha herdado tudo. 

    E é incrível como Bardo e eu, apesar do amor que temos pelo sexo, não temos maldade. Naquela tarde ela nos convidou para dar um passeio na propriedade. Saímos caminhando pela estrada de chão por quilômetros. Ela nos mostrando o galpão disso e daquilo, o curral, a plantação. 

    Chegamos em uma casa abandonada, cheia de mato. Ela nos disse que aquela casa tinha servido de alguma coisa mas não servia mais. Nos convidou para ver lá dentro. Eu, morrendo de medo que tivessem cobras, escorpiões e outros tipos de peçonhas, me recusei a entrar. Bardo foi até a porta. Ela entrou e ficou insistindo que fôssemos lá ver. Não fui.

    De repente, ela sai correndo. Eu estava certa. Ela encontrou um ninho de marimbondos e eles picaram ela toda. Mesmo assim, ela parecia disposta a levar o plano dela – qualquer que fosse – até o fim. Arrancou toda a roupa e ficou nua, nos mostrando as picadas.

    Penso que aí que mora uma diferença muito grande na nossa maneira de pensar. Não foram poucas as pessoas que criaram situações onde poderíamos abusar delas. Perdemos a conta de quantas vezes as pessoas se jogaram em nós bêbadas ou criaram esse tipo de constrangimento. Quem ama sexo de verdade, não abusa de ninguém. Nós trocamos uma energia justa, é amor de verdade, mesmo que seja uma vez só.

    Ela derreteu quando o Bardo juntou as roupas dela do chão e pediu que ela se vestisse. Podíamos cuidar das picadas em casa. Voltamos quase em silêncio.

    À noite, ela chamou o Bardo no quarto dela. Talvez tenha pensado que homens são mais fracos. Convidou ele para deitar na cama com ela e assistir uma série que ela tinha comentado mais cedo. Ele deitou. Deitou e assistiu a série. De repente, ela levantou da cama, saiu do quarto e bateu a porta. Nem precisei ir lá para ver o que era, os pés dela pesavam em frustração.

    Moça, se você estiver lendo esse livro, saiba que bastava ter pedido. Bardo jamais ia abusar de você.

    Em uma última tentativa, ela entrou no nosso quarto pela manhã e se jogou na cama. Nós dois nus, cheirando a sexo, e ela conversando fiado fazendo de conta que não se importava. Bardo só me deu aquela olhada. Não precisou mais nada. Pegamos nossas coisas e nunca mais voltamos lá.

    Podia ter comido ela? Podia. Mas eu nunca vou entrar em uma relação onde de cara percebo que a pessoa não vai se responsabilizar pela energia dela. Sei que tem gente que ama essa relação de poder, de se sentir uma vítima das próprias vontades. Sei que isso dá muita letra de música. Para mim não serve.

    ***

    Poderia preencher esse capítulo com esse tipo de histórias, mas você já pegou a ideia aqui. Cada dia mais, Bardo e eu percebemos que nossa vida sexual aberta estar empacada era culpa nossa. Nós tínhamos nossa própria versão do “nós contra eles”.

    Se a pessoa não vier no mesmo nível de intenção que eu, não vou. Se ela não se responsabilizar pela própria necessidade, não vou. Se ela precisa de drogas para abrir sua sexualidade, não vou. Se ela inventa desculpas espirituais para fazer sexo ou não (né, povo do tantra), eu não vou. Se ela é casada e tem um acordo monogâmico com alguém, não vou. Se ela aparenta não se cuidar fisicamente, não vou.

    Fora o que nem era escolha minha, como simplesmente não bater a química, o que acontece.

    E assim eu ia eliminando cada pessoa que passava pelo meu caminho antes mesmo que ela tivesse uma chance comigo. Eu podia sentir o cheiro de qualquer uma dessas coisas de longe, e toda a vez que eu tentava superar e quebrar uma dessas regras, me arrependia.

    ***

    Ficamos apenas Bardo e eu por um bom tempo. A vida leve e solta estava simplesmente perfeita e a abertura sexual era uma pequena frustração, só para dizer que eu não era completamente feliz. Continuamos nossa rotina: tocar na rua, pegar dinheiro, sumir no mato. As kids estavam completamente felizes com isso. Eu mesma me pegava com inveja da infância delas: conhecendo o país, aprendendo história e geografia, economia e estatística, português e inglês, vendo o funcionamento da política e da sociedade em primeira mão. Um privilégio que muito playboy nunca sonharia em ter.

    Bardo levou as meninas para o meio do campo. Era uma noite sem lua e sem estrelas e não se podia ver um palmo à frente do nariz. Ele acendeu uma lanterna e colocou sobre a cabeça, apontando para o chão.

    – Essa parte iluminada, meninas, é o que vocês sabem. Esse círculo ao redor é o que vocês não sabem. E tudo o que está além desse círculo é o que vocês não sabem que não sabem. 

    Elas deram um pulo com a informação, surpresas. Como assim não sei que não sei? Ele aumentou o foco da lanterna, diminuindo o círculo.

    – Quando vocês sabem pouco, o círculo do que você não sabe diminui e aí vocês pensam que tem pouca coisa que não sabem. Isso é perigoso. Mas – ele ia diminuindo o foco e aumentando o raio de luz – quanto mais você sabe, mais vai descobrindo que não sabe. Isso é maravilhoso, porque te torna cada dia mais humilde.

    Elas acenavam com a cabeça, mostrando que entenderam.

    – Mas o maior perigo está lá – ele aponta para a escuridão total – em tudo o que você não sabe que não sabe. Quando você sabe que não sabe, tem a escolha de estudar e saber. Mas quando não sabe que não sabe, você só pode ser uma vítima da ignorância.

    Eu confesso que achava essas conversas pesadas demais para duas cabecinhas com menos de quinze anos de idade. Às vezes eu pensava que elas só concordavam para se livrar logo do professor. Eu ainda não tinha visto o poder que aquele conhecimento ia ter no futuro.

    Essas horas eram tão douradas quanto os momentos em que falávamos merda o tempo todo. Dávamos risada, inventávamos jogos bobos, fazíamos fogueira e tocávamos violão.

    Um dos nossos jogos favoritos chama-se “Se eu sou, tu és,” e pode levar horas. Começa com uma pessoa dizendo: – Se eu sou uma vaca, tu és o leite. A outra passa a bola dizendo para a próxima pessoa: – Se eu sou o leite, tu és o chocolate. A ideia é sempre usar uma referência à palavra anterior. Como as palavras podem ter duplo sentido, o jogo vira de assunto o tempo todo e rende risadas e trocadilhos infinitos.  

    ***

    A cada dia eu me isolava mais, e a cada dia eu me tornava mais crítica da vida cotidiana. Ter passado tanto tempo dentro da casa dos fãs me fez questionar ainda mais as coisas.

    Eu já não aceitava mais convites para dormir dentro da casa deles. Preferia a Elvira. Me irritava cada vez mais as pessoas viverem em casas desconfortáveis. Você trabalha o dia todo em um emprego que – provavelmente – não gosta e chega em casa para relaxar com um chuveiro que não tem pressão, que não esquenta, que está entupido e joga um fio de água para cada lado.

    Bardo pegou a mania de chegar na casa das pessoas, desrosquear o chuveiro e limpar com uma agulha. Depois pegava o óleo desengripante e passava nas dobradiças cantantes. Nesse meio tempo eu pegava uma vassoura, um pano e limpava o chão. É surreal como as pessoas conseguem viver em casas sujas, com aquele cheiro de cozinha azeda, quarto de bunda suada ou de esgoto voltando dos ralos.

    E não estou falando de casas pobres, apenas. Vi mansão que era uma porcaria também.

    Fogão que não esquenta. Você não consegue cozinhar um macarrão. Sofá com uma madeira cutucando seu cu enquanto tenta ver uma série em uma internet travando. Cama quebrada, com colchão afundado, sem falar nos erros crassos de engenharia e construção em casas extremamente quentes no verão e frias no inverno.

    E a vizinhança? Nunca vai entrar na minha cabeça ser obrigada a ouvir a música que o vizinho quer ouvir, ou as suas discussões e brigas, ou o cheiro horrível da comida que fazem. Qual o sentido de viver colado em outra família, com um mundo desse tamanho? São milhões de quilômetros sem uma alma viva e um monte de gente empilhada no mesmo lugar.

    Eu entendo as pessoas viver no “nove às cinco” e entendo pagar contas mensais para ter energia elétrica, água potável, esgoto, gás e acesso à internet. Eu não entendo ter uma versão porcaria disso. 

    Mesmo quando não tínhamos quase nada, nossas casas tinham uma boa mobília: sofá, cama, fogão, geladeira, chuveiro, máquina de lavar. Não é uma questão de ostentação, é uma questão de saúde! É desgastante não poder descansar de forma confortável para voltar ao trabalho e isso vai te matar a longo prazo. E é incrível ter mais recursos em uma Kombi do que as pessoas tinham em casa.

    Claro que eu nunca mencionava isso para as pessoas. Pode ser humilhante. Mas nossa intervenção nas casas delas era o suficiente. Algumas pessoas perceberam e nos agradeceram, mas muitas ficaram extremamente ofendidas e nunca mais falaram conosco. 

    – Obrigado, eu não ia voltar para esse chiqueiro que você chama de casa!

    Eu nunca disse isso para ninguém. Nem diria. Eu estaria errada na maioria das vezes.

    Para mim isso acabava sendo mais um “nós contra eles”. Somos pessoas tão diferentes, com gostos e necessidades diferentes, todas empurradas na mesma direção para conquistar as mesmas coisas. Algumas pessoas simplesmente passam batido pela vida. Elas não sabem que não sabem que poderiam ter mais conforto, ou que existem lugares diferentes para se viver.  Elas se habituam ao conflito sem saber que poderiam viver sem ele. Era um privilégio meu saber.

    ***

    Perdemos completamente a noção do tempo. Dois mil e dezenove passou assim, um ano que durou cinco, ou seis meses, não sei. Por mim, tanto fazia, podia ficar para sempre desse jeito livre e descompromissado.

    Mas não existem felizes para sempre, não é? E aos poucos, mesmo livres como éramos, alguma pressão social foi entrando pelas rachaduras. As meninas cresciam, adolesciam, e era inevitável a pressão dos amiguinhos que faziam em cada cidade. Era inevitável a pressão da internet sobre elas. Ter isso e aquilo, participar da moda, ter a blusa da banda do momento. Tudo isso precisava de mais dinheiro e nós não tínhamos a menor intenção de trabalhar por ele.

    Ao mesmo tempo, nós mesmos íamos caindo nas pressões adultas. Aos poucos as perguntas das pessoas iam encontrando espaço e virando preocupações. E se? Sempre tinha um e se. E se eu ficasse doente? E se acidentasse a Elvira? Será que conseguiríamos manter esse estilo de vida quando ficássemos velhos? Não era melhor ter uma reserva de emergência?

    Nos víamos cada dia mais conversando sobre essas coisas e quando percebemos já estávamos trabalhando o dobro. Guardamos dinheiro. Pronto, resolvido. Mas e se precisasse de mais que aquilo? Então trabalhamos mais e guardamos mais. Mas e se outra coisa? Era um ciclo sem fim, uma corrida dos ratos e nos pegamos vivendo o dia de São Nunca muito mais que o hoje.

    Foi em uma tarde, depois de um show em Itaipava, que o Bardo me disse que temos apenas um certo valor guardado. Não era o suficiente. Mas quanto era? Me dei conta que estávamos surtando da mesma maneira que as pessoas que conhecemos e julgamos como surtadas.

    Quanto é o suficiente para se sentir seguro? Dez mil? Cem mil? Um milhão? Será que esse valor existe? Lembro da história do avô de um conhecido: ele juntou dinheiro a vida toda. Já idoso, gastou tudo no hospital, morreu mesmo assim e deixou a família com quase nada. Imprevistos acontecem com qualquer um, e é loteria, não tem como saber quanto vai custar.

    Nossos imprevistos se limitavam à Elvira, um ou outro dentista e ginecologista – que eu pagava particular. Quando você não tem nada, não tem manutenção e quase nenhum susto.

    ***

    Então era isso: as meninas estavam demandando mais coisas e Bardo e eu estávamos reféns da preocupação com o futuro – o que até aqui eu achei inútil.

    Resolvemos então parar em algum lugar por um tempo, quem sabe alugar uma casa. Abri o mapa e tracei uma rota entre todas as cidades que mais fazíamos dinheiro – que apelidamos de caixas eletrônicos – e descobri que o centro do nosso universo financeiro era a cidade de Caxambu, em Minas Gerais. A cidade em si não dava muita coisa, mas em trezentos quilômetros ao redor podíamos fazer uma boa grana em qualquer dia.

    Antes, subimos para Juiz de Fora pegar um dinheiro. Agora havia fiscais na Rua Halfeld e nossa música estava proibida. Um caixa a menos. Já que estávamos ali, decidimos ir até a casa da Natália e trocar uma ideia. Quando chegamos lá ela tinha arrumado um homem super babaca que não nos deixou ficar por lá. Seguimos para Caxambu.

    No caminho vimos uma bruxa na beira da estrada. Uma mulher horrenda, grande, toda de preto, com o vestido rasgado. Ela estava no meio do nada e era tão surreal que perguntei para o Bardo se ele tinha visto ela também. Ele viu. Ainda bem!

    Chegamos ao nosso destino perto do meio dia. Fomos até uma imobiliária ver o preço do aluguel de casinhas na zona rural. Caxambu é uma cidade pequena mas muito legal. Tem uma praça central bonita, muitos bares, um bom supermercado – que tinha nata, e eu não comia faz tempo! – Também tinha um cinema, o que contou bastante!

    Os alugueis ficavam entre seiscentos e oitocentos reais, um valor que era possível para nós, mesmo que eu preferisse gastar isso em comida e me enfiar no mato. Começamos então a procurar algo direto com o dono, já que não tínhamos nada do que uma imobiliária pedia.

    Estávamos conversando com algumas pessoas na rua quando chegou essa fã com a esposa dela. Era um casal de lésbicas. Contamos para ela que íamos morar ali e ela sugeriu que fôssemos até São Thomé das Letras, pois ela estava mudando para lá. Falou bem da cidade, dizendo que não tinha violência e as crianças podiam brincar na praça sem supervisão.

    São Thomé das Letras não era aquela cidade suja, de pedra quente, cheia de gente esquisita que visitamos um tempo atrás? Nem pensar. Ela insistiu. Pediu que ao menos fôssemos passar uns dias na casa dela para conhecer melhor, que tínhamos a impressão errada. Bardo deu de ombros. Por que não? 

    Subimos por Cruzília, pela estrada de chão. De repente, o céu desaba em chuva e a estrada vai se tornando um lamaçal. Derrapando de poça em poça, levamos bastante tempo para chegar lá. Que fim de mundo!

    Chegamos quase à noite. Lembro que uma construção bem esquisita me chamou a atenção logo na chegada. Uma casa de barro cheio de gnomos esculpidos. A placa dizia: Castelo de Eros. Eros é uma coisa boa, talvez eu encontre minha turma por aqui!

    A cidade estava bastante movimentada. Estava acontecendo um congresso de Ufologia. Um monte de gente veio para observar os OVNIs e discutir teorias malucas sobre vidas extraterrestres, mas foram frustrados por dois motivos: a chuva e o exército, que resolveu fechar a montanha para um exercício militar.

    Nossa anfitriã nos dizia que os ufólogos estavam ali porque existia uma espécie de profecia de um falecido velho maluco dizendo que naquele dia uma entidade ia chegar na cidade. Fiquei ouvindo e fazendo de conta que concordava. A única entidade que eu vi chegando fui eu, e não pretendia ficar ali por muito tempo.

    A cidade ainda mantinha a mesma impressão para mim: um monte de pedras, sujeira, calor e lojinhas idênticas vendendo bibelôs para turistas alucinados. A chuva parou e resolvemos ir até a praça tentar umas moedas. Foi bom. Tinha muita gente e ganhamos bem. Quem sabe dá certo?

    Ficamos por alguns dias e fomos embora, prometendo voltar. Tínhamos um show marcado em Socorro, íamos comemorar nossos três anos na estrada e alguns aniversários todos juntos. Uma maluca de São Thomé, que estava indo na mesma direção, pediu carona. Levamos ela.

    No caminho, paramos para visitar nosso amigo Wilson. Ele era gerente de uma pousada que ficamos por um tempo, era gay e adorava o Bardo. Também era vizinho de uma massagista maravilhosa que ficou muito amiga nossa. Quando comentei com ela que ia morar em São Thomé, ela ficou horrorizada, insistindo muito que eu não fosse.

    Percebendo que eu estava decidida, ela me contou que tinha sido escravizada por uma seita na cidade há anos atrás, que teve dois abortos e nunca conseguiu provar para a justiça. O lugar ainda funcionava. Que se eu ia para lá mesmo devia ficar atenta porque a cidade é cheia de perigos. Achei meio exagerado, mas ouvi.

    Quando voltei para a casa, procurei o Bardo para contar a maluquice e encontrei ele ganhando um boquete da maluca. Talvez São Thomé não fosse tão ruim assim. Eros, boquetes aleatórios, estava promissor. À noite, Bardo saiu de fininho do quarto para comer o Wilson e ela pulou para a minha cama. Ficamos nos beijando e nos pegando, de leve e bem gostoso, mas eu percebi que ela não era chegada em mulher. Estava só fazendo charme e esperando o Bardo voltar. Quando ele voltou, ela deu para ele do meu lado. Foi gostoso.

    No dia seguinte seguimos viagem e chegamos em Socorro. O lugar em que costumávamos ficar estava cheio de kombis e Bardo não gostou muito. Ele estava precisando muito dormir e o pessoal era bem barulhento.

    Encostamos ali, mas deixamos a Elvira pronta para sair se não desse certo com o pessoal. Essa turma, por sua vez, manobrou as kombis e trancou nossa saída. Foi de propósito, para ficarmos ali. E eles eram realmente muito legais: um povo de Indaiatuba que gostava de viajar juntos.

    A noite chegou e uma chuva muito forte caiu. A maluca, que ia dormir em uma rede lá fora, teve que dormir na Kombi comigo e o Bardo. Claro que ele não perdoou e comeu ela de novo, dessa vez até o cuzinho rolou.

    Coitado, estava exausto. Duas noites sem dormir direito. Quando tudo ficou em silêncio, chegou um doido lá fora e começou a gritar com todo mundo, dar tapas na kombis e não deixou ninguém dormir. Todo mundo gritava – Cala a boca, Xandão!

    Bardo estava enfurecido. Disse que ia pegar aquele Xandão pela manhã e encher ele de porrada. Ele não é assim, e fiquei preocupada. Fazia um tempo que andava meio nervoso, estressado, xingando. Na manhã seguinte, ele acordou, pulou da Kombi e saiu no meio da galera perguntando quem era o maldito do Xandão.

    De repente aparece esse cara. Peruca rosa, olhos azuis, com um prato cheio de mistos de presunto e ovo na mão. Com um sorriso de orelha a orelha, oferece um misto para o Bardo. 

    – Eu sou o Xandão!

    E nesse dia eles se tornaram amigos.

    A festa foi muito divertida. Tinha esse cara, o Paçoca, que um dia mentiu que era aniversário dele para ganhar uma festa. A turma descobriu e, como punição, decidiram que dali para a frente todos os dias seriam aniversário do Paçoca. Cantavam parabéns para ele de meia em meia hora. Era um sarro. 

    Xandão, com sua peruca rosa, se transformava em Maravilha, uma bichona louca, e perturbava todo mundo ao redor com suas estripulias. Chamava as mulheres de feias e nojentas e ficava mexendo com os homens. Era hilário. Bardo andava com ele de um lado pro outro zoando todo mundo.

    A noite chegou e fizemos um show delicioso para a galera, com direito à nada menos que três Parabéns Pra Você para o Paçoca.

    De repente, meu telefone toca. Era a fã lésbica de São Thomé. Ela começou com um papo estranho de que estava morrendo de tesão em mim e que ia me comer quando eu voltasse. Caralho! Digo, buceta! Lésbica e casada, duas coisas que não eram para mim, com certeza. Entrei na kombi, onde o Bardo macetava a maluca mais uma vez, e contei para ele da ligação. Ele sugeriu que eu experimentasse, já que nunca tinha pego uma lésbica, dessas masculinizadas, na vida. Seria mais uma história para contar. 

    Nos próximos dias ela me ligava repetidamente. Me dizia o que ia fazer comigo quando eu chegasse lá e minha curiosidade foi crescendo. Pediu para eu avisar quando ia chegar para ela mandar a mulher e as crianças para a casa da mãe dela em Cruzília. Não curti a ideia de enganar a esposa dela, mas também era uma garantia que ela não ia se apaixonar por mim e pegar no meu pé depois. Pelo menos foi o que eu pensei.

    Deixamos a maluca no caminho e voltamos para São Thomé das Letras. A fã tinha arrumado um quarto na melhor pousada da cidade para o Bardo e as meninas. Bardo me deixou na casa dela e foi embora me olhando com aquela cara de safado. 

    – Amanhã você me conta como foi.