Sei que já tem muito o que duvidar sobre esse livro ser real até aqui, e nesse capítulo eu nem exijo que acredite. Se perguntar para o Bardo, ele vai negar tudo.
***
Entrei no apartamento dela. Ela era do tipo machinho e isso não me atraía em nada. Gosto de mulher feminina. Por curiosidade, me entreguei. É foda quando a pessoa já te ganha no beijo. Encaixou perfeito, como se já nos beijássemos por toda a vida.
As mãos dela sabiam passear pelo meu corpo. Foram apertando todos os botões certos e me dando arrepios intensos. Me molhei. Ela foi beijando meu pescoço e encontrando cada pontinho sensível do meu corpo. Minha roupa foi se perdendo pelo caminho.
Deitamos em um colchão no chão e ela continuou me explorando. Eu sempre fui a ativa, então estava me deleitando na brincadeira. Ela me cheirava, me beijava e depois me lambia. Me beijou os seios, a barriga, e foi descendo devagar. Abri minhas pernas. Ela olhou minha buceta com paixão. Deu um sorriso. Me olhou nos olhos e senti o hálito quente se aproximando da minha virilha. Demorou ali, cheirando, beijando e lambendo. Minha buceta já era puro suco e pulsava, implorando pela língua que dançava ao redor.
Ela agarrou minhas coxas com força e aproximou a boca. Respirou fundo e mergulhou. Derreti. A língua dela fazia movimentos que eu nunca tinha sentido antes. Com toda a minha experiência até aqui, era incrível ainda se maravilhar com algo novo. Subia, descia, cheirava de novo, voltava e me engolia. Bebia meu suco com gosto, em largos e sonoros goles, enquanto segurava minhas pernas que insistiam em tentar torcer.
Gozei. Gozei e dei um squirt na cara dela. Ela tirou o suco dos olhos, limpou o rosto e riu, lambendo os dedos. Olhou nos meus olhos e caiu de boca de novo. Perdemos o senso do tempo ali. Me fez gozar duas, três, quatro vezes e sequer tinha usado os dedos ainda.
Minhas pernas já tinham se amortecido quando ela aproximou as mãos. Estava em êxtase e imaginando o que poderia vir pela frente. Não sei se tenho palavras para descrever o que os dedos dela fizeram. Foi como se minha buceta fosse mármore e ela uma escultora do prazer, revelando cada nervo, cada pulsação, cada squirt com a maestria de uma artista.
Fazia um tempo que eu não chegava ao ponto de não aguentar mais gozar. Já não sentia minhas pernas de vez e meus lábios tremiam. Ela levantou para buscar água e aí que eu percebi que ela ainda estava vestida! Isso foram só as preliminares?
Quase entrei em desespero. Já não tinha mais forças. Respirei fundo e bebi a água que ela trouxe. Ela tinha me dado o paraíso e eu não ia deixar ela com menos do que isso. Invoquei todas as forças que tinha e fui para cima dela aos beijos. Ela resistiu um pouco. Estava acostumada a ser a ativa e assustei ela. Insisti e fui tirando a roupa, repetindo no corpo dela o ritual que tinha feito no meu.
Cheirava, beijava e lambia, passeando por ela toda. O corpo era pequeno e muito bonito, todo definido e, sem as roupas, ela já não parecia tão masculina. Gostei. Ela tentava me segurar e voltar a ativa. Entramos em um cabo de guerra e aquilo foi me dando mais tesão. Eu queria foder ela também. Com ela segurando meus braços, desci beijando os seios – pequenos e firmes – e pela barriga até chegar na menor bucetinha que eu já vi. Lambi as coxas e a virilha e respirei fundo: que cheiro delicioso.
Coloquei minha língua nela e ela tremeu. Gemeu alto e meio esquisito, como se há muito tempo ninguém tocasse ali. Recuei um pouco e fui mais devagar, sentindo ela soltar meus braços aos poucos e se entregar. Lambi com vontade, dei tudo de mim, mas ela não gozava. Me senti incompetente. Com a experiência toda que ela demonstrou ter, eu não devia saber de nada. Mesmo insegura, continuei dando tudo de mim. Passeei com minha língua toda aquela bucetinha, procurando os lugares certos através dos gemidos dela.
De repente, as pernas dela tremeram. Segurei as coxas com firmeza e empurrei minha língua no clitóris. Ela gemeu e tentou empurrar minha cabeça, torcendo as pernas. Insisti. Só mais um pouco. Lambi com a pontinha da língua e depois com ela toda. Senti o suco dela se avolumando e enchendo minha boca, seguido de um gemido alto e as mãos dela agarrando meus cabelos. Gozou!
Me senti vitoriosa e pronta para arrancar ainda mais dali. Era hora dos dedinhos entrarem em ação. Como estava habituada, fui com vontade para enfiar logo dois dedos até o fundo, mas não consegui entrar. Tentei com um. Tampouco tive sucesso. A buceta dela estava simplesmente lacrada. O que eu faço agora? Segui com os dedos brincando ao redor, fazendo as vezes com a língua. Mesmo sem penetrar, fiz ela gozar de novo, relaxando cada vez mais. Comecei a gostar da brincadeira. Ela apertava minha cabeça com as coxas, eu puxava as pernas dela e continuava cheirando, beijando, lambendo e chupando. Ela gozava de novo e de novo.
Agora sim, meu amor, estamos em pé de igualdade.
Dessa vez fui eu quem foi buscar água. Estava exausta e maravilhada. Minha buceta escorria suco pelas pernas e o suco dela escorria pelo meu pescoço, se unindo ao suor dos meus seios. Voltei para o quarto. Ela bebeu água e me olhou apaixonada. Não gostei muito daquele olhar. Estava ali só pela experiência e até ali estava tudo ótimo.
Ela voou em mim. Começou a me beijar e então nossos corpos se entrelaçaram de vez. As duas ganharam novo ânimo e nossas peles gritavam uma pela da outra. Meus seios esfregavam contra os seios dela, sentindo os bicos durinhos roçando e criando arrepios. Ela tentava me subjugar, ficar por cima de mim, mas eu também sou ativa e tentava fazer o mesmo com ela. Era algo entre o sexo e o jiujitsu e começamos a rir. Uma das duas ia foder, uma das duas seria fodida, e isso seria decidido no braço.
Foram horas de beijos e lambidas rolando pela cama. Hora eu dominava, hora ela vencia. Coloquei ela deitada, trancei minhas pernas nas dela e encaixei nossas bucetas em uma tesoura. Senti que ela se entregou um pouco – mesmo ainda agarrando meu braço e meu cabelo – e comecei um movimento cadenciado sentido a carne macia e molhada da buceta dela contra a minha.
De uma briga entramos em uma dança. Encontramos um tempo e um vai e vem onde nossos corpos se roçavam e arrancavam gemidos e suspiros uma da outra. Senti um orgasmo vindo do fundo da alma, bem devagar, e nossa respiração estava compassada. Conforme esse gozo se aproximava, senti ela tremer. Ela me olhava nos olhos com profundidade. Não aquela olhada safada a que estou habituada, mas um olhar incrédulo, como se algo imenso estivesse para acontecer.
E aconteceu. Gozamos exatamente ao mesmo tempo. Agarramos uma à outra com força, quase machucando, e gememos juntas – muito alto. Que delícia. Minha buceta explodiu em um squirt contra a dela, molhando o colchão e criando uma pequena poça no umbigo.
Relaxei. E foi meu erro. Ela esperou um segundo de fraqueza e me agarrou com força, me dominando. Foi quando a coisa ficou louca: ela me colocou de quatro. De quatro? – pensei – o que uma mulher faz com outra de quatro? Empinei minha bunda enquanto ela montava em mim com a destreza de um lutador de MMA.
Mais uma vez, podem me faltar palavras para o que aconteceu. Não sei dizer como, mas ela me fodeu de quatro. Sentia o corpo dela pesando sobre o meu e minha buceta explodia em gozadas e squirts seguidos e contínuos. Ela fazia algo com os dedos que não entendia o que era, mas que eu nunca tinha visto ou sentido antes. Me entreguei de vez e fui fodida até desmaiar.
***
Acordei. Já era dia quando desmaiei então não imaginava que horas poderiam ser. Senti cheiro de comida. Levantei meio zonza e caminhei até a cozinha. Ela estava lá, nua, cozinhando pra mim. Pela altura do sol, definitivamente não era o café da manhã. Ela virou-se e me olhou. Aquele olhar de novo. Senti vontade de ir embora, como quem fode e some. Caminhou na minha direção, pegou na minha mão e me beijou. Derreti de novo nos lábios dela. Ela me cheirou profundamente, sentindo que eu ainda tinha o aroma do sexo da noite toda impresso na minha pele. Molhei.
O almoço queimou no fogão.
Eram quatro horas da tarde quando nos levantamos da cama. Famintas. Bardo tinha me convidado para conhecer um café e convidei ela para irmos. Fomos, mas ele não estava por lá. Tomamos o café, batemos papo com a dona do lugar, comemos uns salgados. Ela alisava minha perna e só queríamos voltar para o quarto.
Nos despedimos e voltamos. No caminho, encontro o Bardo em um bar com quatro mulheres. Vendo que eu estava vindo da direção do café, me olhou contrariado. Ele estava ali me esperando para irmos juntos, mas eu fui por outro caminho. Ficou visivelmente chateado. Fui com ele para o hotel e ele estava bastante injuriado. Estava estranho.
Imaginei que ele só estava cansado. Joguei ele na cama e sentei em cima do pau dele sem cerimônia. Estava na hora de contar para ele cada detalhe do que tinha rolado na noite anterior. Ele ama ouvir. Rebolava devagar e ia narrando a trajetória da língua dela no meu corpo e quando vi comecei a dar squirts. Era uma energia nova, diferente, e eu queria mais.
Deixei ele gozar dentro. Ele se acalmou e dormiu. Saí de fininho e voltei para o apartamento dela. Fazia anos que eu não sentia tanta vontade de meter com alguém assim, como adolescente, de não conseguir tirar de dentro.
Entrei no quarto dela, coloquei ela de joelhos e mandei ela chupar. Não levou um minuto para que ela arrancasse um squirt. Me apavorei. O suco da buceta voou no rosto dela cheio de porra – tinha me esquecido desse detalhe. Pensei que ela ia ficar com nojo, mas acho que nem percebeu. Será que ela nem sabe como é o gosto? Ela passou a mão no rosto, limpou e lambeu os dedos. Gozei de novo, só de ver ela lambendo a porra do Bardo que ela tinha acabado de tirar de dentro de mim. Eu posso brincar disso a vida toda!
O fato de sermos duas ativas era o mais gostoso. Uma queria foder mais a outra e nos revezamos nesse papel, sem nunca dar o braço a torcer e tomando a liderança sempre que se dava a chance. Era um sexo suado, forte, cansativo e extremamente delicioso.
Tentava colocar meus dedos dentro dela mas não entrava. Era tão pequena e tão apertada que me dava um misto de raiva e tesão, o que me fazia ir para cima dela com mais vontade ainda. Em algum momento, deixei ela me colocar de quatro de novo. Aquilo era surreal, algo que eu nunca tinha imaginado. Gozei litros e litros, criando poças ao redor dos meus joelhos.
Fodemos uma à outra até amanhecer novamente. Dessa vez, tive que ir embora. A esposa ia chegar a qualquer momento. Não era uma sensação boa. Já estava com vontade de novo. Queria mais.
***
Encontrei o Bardo no hotel. Estava ensaiando umas músicas novas e não me chamou para cantar com ele. Será que ele tinha ficado tão chateado assim com o café? As kids foram brincar na praça, onde fizeram amizade com toda a molecada da cidade.
Ao meio dia, tocamos na praça central e tivemos sucesso. Foi uma ótima grana. Estimulada pelo sucesso e pela nova putaria, disse para o Bardo que queria alugar uma casa ali. Ele não parecia tão animado. Começamos a procurar um lugar na cidade mas nenhuma casa disponível parecia boa. As casas por lá são úmidas, mofadas, mal cuidadas e frias. O valor do aluguel também não ajudava e era uma tentativa de golpe atrás da outra. Um dos “mestres espirituais” da cidade tentou nos alugar uma casa que não era dele! Desconfiamos porque ele ficou pedindo o dinheiro adiantado de forma nervosa e corremos. Fomos descobrir só uma semana depois.
Larissa nos sugeriu ir para “a roça” – que é como denominam qualquer lugar fora da já pequeníssima cidade. Começamos a procurar e encontramos uma casinha nos fundos de uma propriedade rural há 16 km da cidade. Longe pra caralho. Bardo foi reclamando o caminho todo. Quase uma hora de viagem por uma estrada horrível.
Quando chegamos, era um mimo! Uma daquelas casinhas antigas: dois quartos, sala, cozinha e banheiro, no topo de um morro de onde se via a cidade ao longe. Os vizinhos eram fazendeiros que não moravam ali e o mercado mais próximo era no Sobradinho, há 4 km.
O visual era surreal. No meio de todas as pedras, barro e poeira de São Thomé das Letras, era um paraíso verde, árvores frondosas e bichos por todo o lado.
Enquanto eu me encantava com os bois, os cavalos e o lugar, Bardo olhava tudo aquilo com um ar pesado, incomum para ele. Tinha alguma coisa errada mas ele estava em silêncio. Alugamos a casa por R$600 por mês por seis meses. Era um valor que poderíamos facilmente ganhar tocando na praça.
Estacionamos a Elvira na entrada e sentei em um sofá na varanda. Paz e silêncio. Era o que estávamos precisando. Quem sabe um pouco de rotina. Na primeira noite lá, choveu muito. As meninas começaram uma discussão idiota dentro do quarto e Bardo se irritou muito rápido. Começou a gritar, a nos chamar de ingratas e arremessou um tijolo contra a parede, que se espatifou e nos assustou muito. Ele nunca foi agressivo. O que estava acontecendo?
Chamei ele para o quarto e joguei-o na cama de novo. Quis contar sobre a porra dele na cara dela, mas ele não queria me ouvir. Me fodeu em silêncio, com estocadas fortes e lentas. Deixei ele ficar na vibração dele e aos poucos fui tocando com as pontas dos dedos, fazendo-o relaxar. Senti o gozo dele vindo e tirei de dentro. Era aquela energia densa, pesada, que eu tinha sentido no cara da cachoeira. Gozou e dormiu. Cada vez mais eu sentia que meu sexo era não só prazer: era cura.
Larissa passava lá todo o tempo que podia e eu estava amando. Ela era meio grudenta e apegada, mas o sexo maravilhoso compensava. Quando chegava a noite, eu passava no quarto, dava uma com o Bardo e ia para a barraca de teto foder com a moça dos dedos mágicos até desmaiar. Queria que o Bardo me visse metendo com ela, ou até participasse, mas ela não topou – infelizmente.
Mesmo assim, eu queria uma experiência com os dois. Enquanto metia com o Bardo, sugeri que ele fosse quietinho para dentro da Kombi – debaixo da barraca de teto – e ficasse ouvindo e sentindo o movimento nos amortecedores. Não era bem o que eu queria, mas tudo bem, já estava valendo pelo tesão. Só de saber que ele estava punhetando ali embaixo já me deixou arrepiada.
Enquanto ela me cheirava, me chupava e me dedava, eu gemia alto e fazia questão de me mexer bastante para que ele sentisse. Gozava uma atrás da outra com muito tesão. O fato dela não conhecer porra e ficar chupando a dele de dentro de mim também me arrepiava. Ela se lambia toda, bebia tudo, e eu gozava cada vez mais.
Era uma nova vida, e era muito boa. Acordava no mato, na pura paz. Tomava meu café, fodia com o Bardo ou com a Larissa. Almoçava e ia para a cidade tocar. Cantava até desmaiar. À noite, transava com os dois.
***
Bardo não parecia bem. Os olhos fundos, perdendo peso, cansado e mal humorado o tempo todo. Reclamava das longas viagens, dos longos espetáculos, de qualquer outra coisa. Larissa, que não conhecia ele bem, sugeriu que ele pudesse estar com ciúmes.
– Ciúmes, o Bardo? – eu ria alto. Nunca. Bardo sempre quis me ver feliz, não importava como. Tinha algo diferente nele sim, mas a última coisa seria o ciúme. Disso, ao menos, eu tinha certeza absoluta. Para mim, era cansaço
Mas ele andava mesmo esquisito. Uma noite nos pegamos em uma discussão idiota, nem lembro mais sobre o que, ele e saiu desatinado pela porta para dentro da escuridão. Peguei uma lanterna e fui atrás. Estava tão escuro que a lanterna mal iluminava o chão. De repente, encontrei ele parado no meio da estrada, olhando para cima.
– Olha essa luz, que linda – ele disse.
Assustei. As kids começaram a chorar. Chamei pelo nome e não me respondia. Insisti. Ele virou-se com um olhar envidraçado, como quem está dormindo acordado e apontou para a escuridão. Pulei nele, peguei pela mão e puxei para dentro de casa com as crianças. Que merda foi aquela?
Comentei com a Larissa e ela começou a meter pilhas sobre os alienígenas de São Thomé das Letras. Falou sobre os reptilianos, os arcturianos e contou uma história bizarra sobre a cidade de Atlântida estar no subterrâneo da cidade, de onde as naves iam e vinham. Para mim, papo de ET é a mesma coisa que cristianismo: conversa para boi dormir. Não engoli, mas ela parecia mesmo preocupada com aquilo.
Comecei a prestar mais atenção nele e a conversar mais. Percebi que ele se sentia muito mal ao final da tarde, no pôr do sol. Perguntei o que era e ele me disse:
– É como se uma mão saísse da boca do meu estômago, subisse até meu peito e apertasse meu coração. Minha respiração não dobra e tenho pensamentos muito, muito ruins.
Comecei a ter medo que ele se matasse.
***
Depois de um tempo, meu amor com Larissa ia esquisito. Ela passava mais tempo comigo que com a esposa e, por mais que o sexo continuasse sensacional e eu quisesse cada vez mais, ela estava cada dia mais grudenta. Bardo sabia regular o tempo comigo, me deixar só quando eu queria, mas ela não.
Foi em uma tarde que ela chegou lá com um rosto grave. Imaginei más notícias, como a esposa dela ter descoberto ou algo assim, mas não. Ela veio terminar comigo, dizendo que não podia continuar assim, que não era justo. Tentei convencê-la de que era bobagem, que íamos meter por um bom tempo ainda e uma hora ia acabar mesmo, mas ela parecia resoluta. Aceitei, mas ela não ia embora. Ficou a tarde toda abraçada em mim, chorando. Achei meio dramático demais. Fiquei triste para caralho, claro, mas era óbvio que isso ia acontecer e eu aproveitei tudo o que eu pude.
Logo mais, à noite, ela voltou toda arrependida Bardo segurou ela no portão e deu um sabão, explicando que para nós aquele drama monogâmico não servia e que ela precisava entender como funcionava estar ali. Ela foi embora. Comportamento monogâmico padrão, criando treta para dar mais sabor ao sexo. Eu já tinha ouvido falar que as pessoas faziam isso e para mim o efeito era contrário. Não curti.
***
Os shows continuavam intensos. Públicos cada vez maiores conforme o final do ano de 2019 se aproximava. Mais público, mais dinheiro, mais trabalho e mais cansaço. Contratamos um baterista de baldes – um “baldequeiro” – para tocar conosco. Um uruguaio super bacana, Martin, que dava ainda mais vida ao nosso som. O público ia ao delírio. Estava musicalmente feliz como não estive por muito tempo!
Já o Bardo desandava.
No início, as crises eram no final da tarde. Depois duas ou três vezes ao dia e por fim passaram a ser o dia todo. Ele andava brabo com tudo, brigando por bobagem e começou a se desentender com a Larissa – que estava em um couro de pica, indo e voltando toda hora – prato cheio para me convencer de que eram mesmo ciúmes. Por mais que não entrasse na minha cabeça, parecia mesmo. Ele sempre ficava com as kids ou levava elas passear para eu ter meu tempo com a Larissa. E isso não parecia ser nada ciumento. Mas em outros momentos pegava no pé dela, dizia que ela era problemática e falsa, que estava tentando nos separar. E aí parecia que ela tinha razão.
Foi em outra noite que Bardo começou a agir muito estranho. Jantamos e fomos para a cama. Eu quis transar com ele e ele reclamou que estava com uma sensação ruim no estômago, como se algo estivesse se movendo lá dentro. Começou a ficar branco e suar frio e dizia que sentia que algo estava subindo por dentro dele. Correu para o jardim e tentou vomitar, em vão. Quando me aproximei dele e tentei acudir, ele virou para mim com os olhos brancos e falou em algum idioma bizarro! Fiquei com muito medo, peguei as crianças e corri para o quarto. Olhei o relógio e eram três horas da manhã. Não era possível que tivesse passado aquele tempo todo. Tentei mandar mensagem para a Larissa, mas não tinha sinal.
Fiquei fechada lá dentro. Lá fora, silêncio total. Bardo não falava, não andava, não fazia sinal de querer algo conosco. Depois de um tempo, olhei o relógio de novo. Uma hora da manhã. Uma hora? Fiquei desnorteada. Eu tinha certeza que tinha olhado o relógio e visto que eram três horas! Tomei coragem e abri a porta. Bardo tinha dormido.
No dia seguinte, falei sobre o ocorrido com a Larissa e ela disse que tinha passado por uma situação semelhante. Bardo, com medo do filme de terror em que estávamos, resolveu postar no Facebook sobre a experiência. Ledo engano. Uma legião de malucos apareceu colocando todo o tipo de ideia insana nas nossas cabeças, nos convencendo de que estávamos sendo abduzidos por alienígenas.
Na noite seguinte fomos todos dormir na casa da Larissa. Ela e eu em um quarto, Bardo no quarto do lado – para que eu batesse a cama contra a parede – e estava curtindo mais um sexo maravilhoso com minha moça dos dedos mágicos.
De repente, senti um mal estar intenso. Paralisei na cama. Larissa falava comigo e eu não conseguia responder. Comecei a sentir um medo imenso, como um medo de morrer, e juntei todas as minhas forças para dizer apenas uma palavra: Bardo.
Ela correu apavorada e voltou com ele. E ele estava enfurecido. Esbravejava sobre finalmente ter conseguido dormir e eu acordá-lo com uma idiotice. Fiz sinal para que ele sentasse ao meu lado na cama e peguei a mão dele, colocando-a no meu peito. Já não estava ali. Estava em uma sala de cirurgia, com algumas pessoas. Larissa estava ali, Bardo também, com a mão no meu peito.
Um médico aproximou-se e começou a abrir meu peito, ignorando a mão do meu marido. Não senti dor. Eles conversavam em um idioma estranho entre eles e aparentavam a calma de uma equipe cirúrgica. Uma enfermeira aproximou-se e entregou uma pedra, um cristal, para o médico, que inseriu-a no meu peito, fechando o corte rapidamente com uma ferramenta estranha.
Eu narrava tudo isso para os dois no quarto comigo. Não conseguia me mover e Bardo começou a ficar todo branco, dizendo que não podia mover o braço. Larissa sentou em um canto, abraçando as pernas como uma criança amedrontada.
Quando terminou, olhei para o Bardo e disse:
– Sua missão aqui terminou. – ao que ele respondeu – Não via a hora desse dia chegar.
Não entendemos nossa própria conversa. Ele voltou dormir e fiquei ali deitada, acordada, até amanhecer.
Depois disso, Bardo passou a andar com malucos alienígenas de um lado pro outro. Gente que dizia ter sido abduzida também e que contavam histórias sobre ETs do bem e do mal, que poderiam ser uma história de iluminação espiritual ou um filme de terror de classe B.
E eu estava exausta. Não estava dando conta. Os shows cada dia mais longos e intensos, as crises do Bardo cada vez mais pesadas e a Larissa me pressionando para largar o ele e ficar com ela.
***
Era o aniversário de 15 anos da Lavínia. Resolvemos ir todos para uma cachoeira curtir o dia. Larissa resolveu dar uma garrafinha de Corote de presente para a aniversariante. Mônica ficou enfurecida, dizendo que era uma idiotice, uma má influência – como aprendeu conosco. Levei numa boa, mas Bardo entrou no coro com a Mônica, pegando no pé da minha namorada. Ela aproveitava cada momento desses para me pressionar.
As kids passaram brigando o dia todo. Em algum momento algo raro aconteceu: Lavínia bateu na Mônica. Violência física não é algo tolerável no meu lar. Bardo pulou para separar as duas e acabou dando uns tapas na Lavínia também. Que inferno, que aniversário miserável! Eu não podia mais com aquilo.
Voltamos para casa, apenas Bardo, as kids e eu. Chamei ele para conversar. Eu andava mesmo dividida entre a Larissa e ele. Ela estava me prometendo estabilidade, uma casa, contas pagas e aquele sexo maravilhoso. Ele estava instável e cada dia mais difícil de conviver. Disse a ele que ia me casar com a Larissa e que ia ser monogâmica.
Ele respirou fundo, me olhou com toda a calma do mundo e disse que estava tudo bem. Era o que eu esperava dele, na verdade, e mesmo assim me surpreendeu. Ele pegou minhas mãos, me olhou nos olhos, e disse que eu merecia aquilo tudo mesmo, e que seria padrinho do meu casamento. Que era natural que um dia eu me apaixonasse mais por outra pessoa do que por ele.
Então, não eram ciúmes?
Ele me deixou na casa da Larissa com as kids e foi dar uma volta. Senti um vazio. Eu ainda estava dividida. Queria muito ela e tudo o que estava proporcionando, mas pela primeira vez a ideia de não ter o Bardo realmente bateu. E eu não gostei nada daquilo.
***
Fomos convidados à tocar no aniversário de uma centenária. Ela disse que estava fazendo 70, mas seguramente estava fazendo uns 110. A casa era fora de contexto para a cidade: muito bonita, sem mofo e umidade. A coroa, vamos chamá-la de Dona Clotilde, comemorava com um ar de desespero: encheu a casa de jovens e circulava como se fosse uma debutante. O cachê era bom, a comida e a bebida também, então ficamos por lá.
Dona Clotilde alisava as pessoas, bebia e ria. Parecia um fantasma. Eu tinha a impressão que todo mundo estava pago para estar lá porque trocavam sorrisos estranhos quando ela passava. Ela se aproximou do Bardo e ficou passando a mão nele, que me fazia sinais de nojo quando ela não olhava.
Fizemos nosso espetáculo em um píer que dava para um belíssimo pôr do sol. No meio do show, um drone sobe e invade a festa. A coroa ficou injuriada, achando que era um dos vizinhos com quem ela tinha brigado, mas eu conhecia a nave: era Larissa. Ela tinha terminado comigo naquela tarde e estava em outro ato de desespero tentando me ganhar de volta para mais uma transa de saudades.
Bardo ficou irritado com aquilo e não quis mais falar comigo o resto da festa. Tem limite – ele disse. Em algum momento, meio bêbada, bati a cabeça na escada e fui me sentar na Elvira. Larissa estava lá, me esperando. Fodemos, mas aquilo já estava me dando nos nervos.
***
Alguns dias depois, outra bizarrice. Bardo estava lá fora em um raro momento de sinal de internet falando com uma namorada dele. De repente ele entra correndo, fecha as portas e as janelas todas e se tranca no quarto. Fui ver com ele o que estava acontecendo. Ele não queria falar nada. Insisti. Me disse que tinha visto uma luz do outro lado da estrada, algo em formato humanoide, se aproximando dele. Ficamos quietos, fechados ali até amanhecer. Nada aconteceu.
Na semana seguinte a namorada do Bardo chegou. Era a Mariana, que tinha vindo “cuidar” dele. Não gostei. Foi um corte no meu coração, como se o Bardo estivesse cada dia mais longe de mim. Ele começou a falar sobre carreira solo. Insisti que a dupla não precisava terminar por conta do relacionamento, mas ele disse que eu estava tentando colocar ele “na prateleira” mantendo-o por perto enquanto vivia uma monogamia. Ele continuou ensaiando sem mim, criando repertório e uma nova imagem para si.
Comecei a passar cada vez menos tempo com ele. Mesmo com a namorada por lá, ele piorava. Cada dia mais tomava aquele semblante de São Thomé das Letras: barbudo, acabado e descuidado. Quando nos encontrávamos eu dava sempre um jeito de dar pra ele, e sempre acabávamos brigando. Ele estava aborrecido porque dizia que eu não estava ligando pra doença dele e me pediu para deixá-lo em paz. Que me decidisse de vez e parasse de torturá-lo.
Eu não sabia o que fazer.
Larissa terminou comigo de novo, em um drama que já estava ficando repetitivo. Ela não se decidia se terminava com a esposa de vez e ficava comigo, mesmo eu já tendo me decidido ficar com ela. Voltei para casa com o Bardo. Ele não gostou nada, Mariana menos ainda. Ela decidiu ficar uns dias fora e insistiu que ele resolvesse a situação. Conversamos muito, mas Bardo começava a ter crises no meio da conversa e escalava para uma discussão.
Foi em uma noite que, depois do sexo, comecei o assunto de novo. A coisa escalou de tal maneira e Bardo começou a levantar a voz, implorando que eu simplesmente fosse embora de vez e deixasse-o viver sua vida. Senti que era um término, de vez, e me desesperei. Falei que não ia embora, que não queria terminar com ele mas que também não ia terminar com a Larissa – em termos, queria que ele fosse meu amante.
Ele achou aquilo um absurdo completo, algo totalmente oposto ao que ele acreditava como saudável para um relacionamento. Começou a fazer a mala. Quem ia embora era ele. Enquanto ele colocava as roupas dentro da mochila, eu ia tirando. Ele foi se irritando ainda mais e começou a sair só com a roupa do corpo. Chovia forte lá fora. Segurei ele com força. Gritava para que não fosse. As kids se assustaram e começaram a chorar. Bardo gritava para que eu o soltasse, então bati a porta do quarto e o chaveei lá dentro. A porta acertou o rosto dele, que ficou me bestemando.
Tentou sair pela janela. Quando percebi, corri lá e fechei, cortando a calça dele com o metal. Aquilo estava indo longe demais, eu estava desesperada e não sabia mais o que fazer. Deixei ele trancado lá até amanhecer.
Entrei no quarto com café. Ele nem me olhou no rosto. Não falei nada. Entreguei o café, sentei na cama e fiquei ali. Me deu um tesão. Talvez a Larissa estivesse certa: brigar dá tesão mesmo. Ou talvez fosse só minha boa e velha vontade de dar para ele de sempre.
Pulei nele. Ele não tentou me impedir. Comecei a chupar o pau com gosto e muita, mas muita vontade. Ele me olhou e disse, com maldade:
– Mama com vontade mesmo. É teu último boquete nesse pau.
Aquilo me rasgou no meio. Fechei os olhos e continuei chupando. Ele gozou e engoli tudo. Sem esperar um segundo, sentei. Não conseguia olhar para ele. Sentava e rebolava com força, enquanto ele socava de baixo para cima. Gozei rápido e logo gozei de novo. Era uma sensação estranha, um desespero, quase um luto.
Comecei a dizer para ele que precisava que ele fosse meu amante. Que ela só ia aceitar a monogamia e que eu não ia conseguir. Ele insistiu que eu desistisse daquilo, mas a energia dela estava toda em mim, gritando para chupar aquela buceta. Depois que ela comeu meu cu de quatro, então, era irreversível.
Ele negava e eu insistia fantasiando cenários malucos dele me comendo em todas as ocasiões possíveis. Disse que daria meu cu pra ele vestida de noiva no dia do casamento, que ia casar escorrendo porra, e senti ele tremer, me enchendo.
Em uma rápida recuperação, ele se vira e diz:
– Esse cu apertado aí? Você nem me dá mais.
– Vai vendo, filho da puta.
Levantei a bunda um pouco, cuspi nos dedos e molhei meu cuzinho. Sentei, mas não entrava, eu estava apertada demais. Ele riu, sentindo meu desespero e entendendo o que eu estava tentando fazer: queria levar tudo dele que eu pudesse, em todos os buracos.
Fui rebolando e relaxando, dizendo para ele me imaginar vestida de noiva. Devo ter levado mais de quinze minutos para colocar tudo para dentro, mas consegui. Estava apertado demais, estava doendo, mas continuei. Sabia que a Mariana dava o cuzinho para ele toda hora, com facilidade, e aquele pensamento me deixava mais nervosa ainda. Mas dei e fiz ele gozar dentro.
Deitei ao lado dele. A porra em todos os meus buracos me acalmaram e me deram uma sensação de paz, mesmo que temporária. Eu amava demais aquele homem e a simples ideia de nunca mais dar para ele era horrível. Ainda assim, o sexo com a Larissa era surreal demais para abrir mão.
Que merda.
Ficar pensando naquilo me deixou com tesão de novo. Subi nele. Ele me segurou. Meu tempo tinha acabado. Implorei e ele me deixou sentar no pau de novo. Fui sentando forte, querendo segurar aquele minuto na eternidade, mas minha bexiga começou a brigar comigo. Precisava mijar.
– Caralho, Bardo, preciso ir mijar.
– Mija em mim – ele disse.
Me espantei. Nunca tinha tido esse fetiche, ele também não, mas estava tão bom ali que surtamos. Levantei e comecei a mijar no pau dele. Molhei o cobertor, o colhão, enchi o umbigo dele. Ele gozou no ar, melando minhas coxas. Que nojo. Que delícia.
Puta que o pariu. O que foi isso?
Bardo sorriu e foi tomar um banho. Encontrei ele na varanda, olhando a cidade ao longe. De repente ele arregalou os olhos e ficou olhando fixamente para o céu por um minuto.
– O que foi? – perguntei sem querer saber a resposta.
– Nada. Nada não. Chega dessa merda.
Arrumou a mochila e foi embora.
Que cena deliciosa, não é? Uma pena que nem sempre tem alguém filmando! Sem problema, eu filmei outras! Vem ver no OnlyFans, na Privacy ou no Telegram!
***
Larissa terminou com a esposa e queria me levar para morar com ela de uma vez por todas. Estava comprando uma casa na montanha em Aiuruoca. Me levou lá para ver e o lugar era mesmo surreal. Ela me prometeu um piano e a mais bela vista, com o mais belo pôr do sol, até o fim dos tempos.
O lugar era meio isolado, de difícil acesso, e eu fiquei com uma impressão de cárcere. Aos poucos, as coisas que o Bardo tinha me dito sobre ela foram acontecendo uma a uma.
Fui entrar em um bar e ela me segurou na rua.
– Não vai entrar nesse bar cheio de homens – ela disse.
Pasmei. Isso era novo pra mim. Que eu ia ou não ia fazer alguma coisa.
Sob a ótica dos ciúmes, tudo o que ele falava sobre ela parecia ilegítimo. Por outro lado, Bardo sempre teve essa visão além do alcance sobre o comportamento das pessoas. Continuava dividida. Queria a companhia dela, o sexo dela, mas não queria abrir mão da minha liberdade.
Comecei a imaginar que nunca mais ia dar para ninguém. E se o sexo com ela esfriasse um dia? Nunca esfriou com o Bardo, mas será que não era por conta da variedade? E se fosse a própria liberdade a fonte do meu tesão infinito?
Fomos a uma cachoeira, ela e eu. Cada dia mais ela pirava nas histórias de alienígenas e ficou me dizendo que naquela cachoeira haviam cavernas subterrâneas, que pessoas desapareciam por ali. Fiquei aborrecida com aquela conversa e quis ir embora. Me levantei e dei de cara com uma criança do outro lado do rio. Ela me fez um sinal para que me aproximasse. Gelei. Larissa me perguntava o que estava acontecendo, o que me deixou com ainda mais medo: ela não estava vendo.
Queria gritar, mas minha voz sumiu. Queria correr, mas minhas pernas travaram. Senti um peso enorme nas minhas mãos. Em um ímpeto desesperado, arranquei os anéis dos meus dedos e joguei-os na água. Isso me libertou do transe e corri na direção da trilha. Larissa corria atrás de mim perguntando o que estava havendo, mas eu não estava disposta à parar e explicar o inexplicável. De repente, uma fumaça negra densa apareceu na estrada, atravessando meu corpo e indo na direção dela. Dessa vez ela viu, percebi que ela tentou esquivar, mas em vão. Ela ficou parada ali, travada, me olhando com os olhos vidrados. Peguei ela pela mão e fugimos.
Na mesma noite, Lavínia foi a um bar na montanha e me contou que uma cigana tomou todos os aneis das mãos dela, convencendo-a de que eram amaldiçoados.
Resolvi voltar para a roça. A Elvira estava dando problemas e precisava ir ao mecânico. Me sentei no sofá da varanda e fiquei olhando São Thomé das Letras ao longe. A vida me oferecia uma encruzilhada difícil. Uma escolha que implicava abrir mão de algo que eu gostava muito e eu precisava me decidir de vez. Para piorar, Lavínia estava doente e precisava muito de mim.
Bardo me ligou. Tinha acabado de terminar um espetáculo e estava tendo uma crise de nervos. Sua voz tinha um tom de desespero e temia que ele fosse fazer algo ruim. Mesmo assim, não tive forças para ajudar. Disse a ele que não podia fazer nada. Ele então criou um grupo no whatsapp com algumas pessoas que ele pensava se importarem com ele e me adicionou. Foi uma merda, porque as pessoas lá ficaram me cobrando e ninguém realmente ajudou-o em nada.
Um deles foi o Lu. Foi uma conversa cheia de mágoa. Eu não queria o Bardo longe de mim e acabei falando umas merdas. Disse que ele nunca iria arrumar outra mulher sem mim, que não ia mais conseguir fazer música sem mim. Lu, na crocodilagem, mandou os meus áudios para o Bardo. Mui amigo.
Para piorar, Larissa apareceu por lá. Odiei vê-la. Eu precisava de tempo, de espaço, e ela era péssima em me dar isso. Pedi a ela que fosse embora. Ela ia, mas não sem me comer primeiro. Não tinha como resistir. Olhar para ela me molhava, o cheiro dela me molhava, pensar nela me molhava. Foda. Acabei dando. Me lembrou o sexo com a ex de Porto Alegre, cheio de tesão e uma raiva que era quase um asco. Como pode tudo isso acontecer ao mesmo tempo? Ela socava o dedo na minha buceta e eu gozava chorando. Queria ela pra sempre dentro de mim mas não aguentava mais ouvir a sua voz. Enfim, ela se foi e eu me senti grata.
Finalmente, algum tempo só para mim.
***
Dormi muito mal por dias seguidos. Eu via o vulto de um homem andando pela casa, ouvia assovios lá fora. As kids reclamavam sobre estarem inquietas também. O pessoal da fazenda nos garantia que não havia mais ninguém ali. Comecei a sentir um aperto forte no peito, as meninas reclamaram da mesma coisa. Ouvi a voz do Bardo na minha cabeça:
– “É como se uma mão saísse da boca do meu estômago, subisse até meu peito e apertasse meu coração. Minha respiração não dobra e tenho pensamentos muito, muito ruins.”
Sim, era exatamente isso que eu sentia e as kids também. Comecei a compreender o que ele estava passando e, acredite, não era nada bom. Eu precisava sair daquele lugar e tinha que ser já.
***
Larissa insistia que eu fosse embora com ela enquanto Bardo seguia sua vida.
Em uma semana, ele reinventou-se. Largou a Mariana e arrumou outra namorada, uma veterinária metaleira com uma Harley Davidson – bem a cara dele. Estava tocando na rua e já tinha fechado um mês de agenda solo na região. Mais tarde ele me contou que os áudios que o Lu enviou pelas minhas costas fizeram diferença, porque deram a ele um pouco de raiva de mim. Então, acho que, obrigado Lu? Mas os clientes insistiam que eu estivesse junto e ele tinha que explicar que não tinha mais Fada – era só Bardo dali pra frente.
Um dos clientes, um restaurante na beira de uma represa, insistiu muito. Bardo então me ligou. Perguntou se eu topava fazer um show com ele no sábado ao meio dia. Era pertinho, na cidade vizinha, bate e volta. O cachê era bom.
Era a oportunidade que eu precisava. Algo me dizia para não ir com a Larissa dessa vez, mesmo que eu fosse casar com ela. Topei. Peguei as kids, a Elvira e parti, mas a kombinha não estava muito interessada em sair da Caverna do Dragão e quebrou na subida da serra. Liguei pro Bardo e ele veio me resgatar com o carro da namorada.
Aquele cara que foi embora de São Thomé das Letras era barbudo, cabeludo, magricelo e com os olhos fundos. O que desceu daquele carro estava de cabelo cortado, barba feita, bem vestido e corado. Me senti mal por ter abandonado ele mal daquele jeito e feliz por ele ter forças para se erguer sozinho, mesmo que a força fosse raiva de mim.
Entrei no carro e fui. A namorada dirigindo e ele alisando a perna dela. Não gostei. Aquele carinho costumava ser pra mim e mexia muito não ter ele mais. Uma parte de mim queria explodir em um choro, aquela mão cadavérica apertando meu coração e minha cabeça imaginando um mundo sem o Bardo. Outra parte tinha certeza de que aquele homem me comeria para sempre. Olhava para trás, para a montanha que demorava sumir no horizonte. Senti um alívio. Era como um final de filme de terror onde a família sobrevive.
Eu só não fazia ideia de que a parte dois era pior. O dia era 12 de Março de 2020.
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