Passamos pela região metropolitana de Belo Horizonte, mas não paramos. Não sou nada fã de capitais e cidades grandes coladas umas às outras. Penso que onde tem gente demais falta abundância. E onde tem escassez tem gente brigando. E onde tem muita gente brigando eu não quero estar.
Fomos direto para Ouro Preto e entrei em êxtase. É como estar caminhando dentro de uma das pinturas da bíblia que eu amo. Os prédios antigos, as ruas estreitas, os museus, as igrejas, a história no ar. Me senti em um sonho. A parte difícil foi andar com a Kombi naquelas ladeiras. Bardo estava nervoso, com medo da Elvira não subir ou de faltar freio na descida. Um fã da internet (mas não da putaria) veio nos encontrar e nos convidou para dormir perto da casa dele, no pátio de uma igreja. Tomamos um café juntos e fomos para o local. Ele só esqueceu de dizer que a igreja era cercada por um enorme cemitério! Não pude reclamar do barulho, ao menos, era um povo bem silencioso. Naquela noite, descansei em paz debaixo das obras de Aleijadinho!
No dia seguinte, cruzamos a praça Tiradentes e descemos para o centro, de lá, descemos a ladeira da escadinha. Sobrevivemos! Andamos pelos bairros e subimos de volta para o centro, estacionando bem em frente ao cinema.
Tinha uma padaria ali que ia servir de base. Banheiro, café, pão e tudo o mais. Logo ali ao lado encontramos uma ponte que tinha bastante movimento e começamos nosso espetáculo. Foi incrível! Dezenas de pessoas pararam para nos ouvir e ganhamos um dinheiro razoável. Do outro lado da rua tinha um restaurante muito fino, daqueles que tocam jazz e tem luzes amarelas. Olhei o cardápio. Parecia uma delícia, mas eu não podia. Disse para mim mesma: um dia vou pagar meu almoço aqui.
Um grupo de estudantes nos descobriu por ali e nos convidaram para tocar em uma república.
Era a famosa festa do doze. É como se fosse o aniversário de todas as repúblicas ao mesmo tempo e algumas delas estavam fazendo sessenta anos! Imagina só quantos estudantes passaram por ali. Tocamos na primeira república. Foi sensacional! Os alunos antigos, alguns bastante idosos, e os alunos novos todos curtindo nosso som. A cartola foi ótima!
A república do lado ouviu o barulho e foi lá ver do que se tratava. Logo, estávamos tocando na segunda, na terceira e na quarta delas. Os estudantes espalhavam a notícia e nós dávamos um jeito de aparecer em cada uma delas, nem que fosse só para uma palhinha. Acabamos ficando muito amigos de muitas pessoas, e especialmente de três repúblicas ali. Elas nos ofereceram banho e lugar para cozinhar, o que nos economizou um monte!
Acabamos ficando por lá durante as festas mesmo quando não estávamos tocando. Conto até hoje a história da “festa da cerveja infinita”: os bichos eram instruídos a não deixar nenhum convidado com o copo vazio, correndo o risco de tomarem um trote caso isso acontecesse. Então os pobres meninos, com a cabeça raspada e vestindo um terno ridículo, andavam com dois litros de cerveja na mão completando os copos de todos os convidados. O que acontecia é que eu bebia um gole e eles já enchiam o copo de novo, então nunca esvaziava! Tive que me esconder para terminar o copo e deixar ele em cima da pia, senão iam me colocar em coma!
Que coisa gostosa aquela festa! Que energia! Parecia que não tinha fim! Bardo e eu saímos à caça. Não era bem o ambiente que eu gosto para isso, todo mundo bêbado demais, mas era o que tinha e fazia tempo que eu não me divertia. Bardo conseguiu primeiro e fiquei até com inveja da garota, tomando um amasso gostoso no cantinho da lavanderia. Bardo puxou a saia dela para o lado e meteu ali mesmo, discretamente, mas eu percebi.
Já não tive tanta sorte. Os meninos tinham medo do Bardo então, por mais que eu deixasse claro que queria, eles não iam. Finalmente encontrei alguém disposto e levei para uma sala escura no andar de baixo. Ficamos de amasso, beijos, mão na bunda. Coisa de moleque adolescente. Eu precisava de bem mais que isso, infelizmente. Vi que ele não ia passar daquilo, ou se passasse, ia gozar nas minhas coxas. Empurrei ele e saí. Que merda.
Fizemos quatorze espetáculos em três dias. Foi de arrancar o couro! No último dia estávamos só o trapo quando uma república nos chamou para uma festa oficial que ia acontecer no hotel. Quase sem energia, fomos, e não nos arrependemos. A festa foi linda, muita comida e bebida e tiramos mais de mil reais na cartola! Pela primeira vez em meses de viagem conseguimos algum dinheiro para viver mais que o próximo dia.
Saímos de lá extasiados. Estávamos tão cansados que decidimos ficar uns dias na casa da Natália e usar o dinheiro para arrumar a lataria da Elvira que estava cheia de buracos. Ela nos recebeu com aquele sorriso e a mesa farta que a conhecemos. Descansamos, consertamos o carro e paramos para olhar o mapa. Tínhamos conhecido uma parte razoável do “país” Minas Gerais e queríamos seguir para o nordeste dali para a frente. Natália discordou. Nos falou muito mal de lá e disse que não ia dar certo. Óbvio que entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Eu venho do sul, da terra do preconceito, e não ia deixar mais nenhum tomar conta da minha vida. Nordeste, lá vou eu!
Seguimos pela zona da mata conhecendo mais algumas cidades. Já estávamos quase no Espírito Santo quando paramos para tocar em uma praça e, quando terminamos, percebemos uns mal encarados observando nossa cartola e o equipamento. Usando nosso treinamento de Krav Maga, fomos nos movimentando discretamente e observando. Eles iam nos seguir para o carro. Mudamos de direção e entramos em um posto policial. Os policiais, sem poder fazer nada uma vez que era apenas uma desconfiança nossa, nos escoltaram até a Kombi.
Entramos no Espírito Santo e começou a chover. Era nosso primeiro verão no sudeste e não sabíamos que essa é a época que mais chove por lá. Fomos indo de cidade em cidade tocando nos pequenos intervalos sem chuva ou até mesmo na garoa, mas o dinheiro estava ficando cada vez mais curto. Conseguimos uma parceria muito legal com um hotel de altíssimo nível em uma península. Tinha até uma praia particular. Nos deram as refeições e um quarto lindo. Mais uma vez nossos números nas redes sociais estavam nos proporcionando algum conforto e isso me chamava a atenção. Tinha uma novidade no Instagram chamada Stories que estava pegando todo mundo, comecei a usar também.
Mas nem tudo são flores. Alguns dias depois a família dona do lugar nos chamou para jantar com eles. E lá veio o discurso cristão mais uma vez. Sambamos, rebolamos, tentamos sair o melhor possível da situação, mas não teve jeito: na manhã seguinte nos pediram para ir embora. Nunca vai entrar na minha cabeça essa “bondade seletiva.”
Seguimos em frente pela chuva interminável. Conseguimos tocar um pouco em algumas cidades. Uma loja nos pediu para tocar na frente da vitrine, debaixo da marquise. Foi legal, nos levaram para jantar depois e experimentei a famosa moqueca. E a moqueca é capixaba, viu?
Alguns dias depois, outra família nos acolheu em uma outra cidade. Nos ofereceram uma casa vazia que eles tinham, com piscina e tudo. Conseguimos descansar e saíamos para tocar em um food park quando parava de chover. A rede de televisão local ficou sabendo da nossa história e foi lá para nos entrevistar, mas preferiu focar no fato das crianças não irem à escola. Bardo mostrou como ele dava aula para elas e todo mundo achou lindo. No dia seguinte a matéria foi ao ar e a família foi lá fazer um churrasco para comemorar. Papo vai, papo vem, religião. Qual o problema com vocês? Fomos embora no mesmo dia.
O sol resolveu dar as caras quando chegamos em Vila Velha. A praia estava lotada e começamos a tocar na calçada. Um saxofonista apareceu e fizemos uma jam, foi uma delícia! Ganhamos bem e nos acomodamos com a Elvira por ali mesmo, sem ter um lugar para tomar banho. Um senhor de idade se aproximou e perguntou com muita educação se estávamos precisando de alguma coisa. Contamos nossa história e ele nos levou para a casa dele.
A casa parecia pronta para uma mudança. Muitas caixas espalhadas cheias de objetos. Jantamos juntos e, durante o jantar, o senhor nos contou que seu filho tinha morrido em um acidente de carro nos Estados Unidos e sua esposa, quando soube, suicidou-se. Ele estava sozinho no mundo. Ele começou a encaixotar as coisas da esposa mas não teve força para continuar. Não nos deixou tocar em nada na cozinha. Tudo era dela e lembrava ela. Ficamos muito sentidos por ele e acabamos ficando por lá bastante tempo. Ele ia para a praia pela manhã e bebia até o fim do dia. Passamos todo o tempo que podíamos com ele, como se fosse da família. Mas precisávamos partir. Nunca mais tivemos contato com ele.
Em algum lugar que nem me lembro, encontramos uma figura interessante. Ele nos deu um bom dinheiro e pediu para conversarmos. Era mais um solitário, mas a história dele era tenebrosa. Ele era um engenheiro de uma famosa empresa, e era o responsável técnico por um desastre ecológico que matou centenas de pessoas. Ele estava ali isolado pela empresa, como em um daqueles programas de proteção às testemunhas que vemos nos filmes. E ele precisava desabafar, contar a história dele para alguém, e escolheu a gente.
Ele nos contou que por diversas vezes avisou a empresa do que podia acontecer, escreveu memorandos e apelou para os colegas, mas eles não pararam. Então, nada de repente como se pensa, tudo explodiu e a natureza pagou caro por isso. Até hoje ninguém foi responsabilizado, então eu nem imagino o que pode ter acontecido com ele. E até hoje as pessoas ainda sofrem por isso. Mas não ia ser a última vez, não é?
Finalmente chegamos na última cidade do Espírito Santo. Com o sol a pino, conseguimos conhecer algumas das praias mais lindas do Brasil. Quer dizer, (tosse), as mais feias – pelo menos foi o que os capixabas me disseram para falar por aí. Já tinha gente demais indo para lá no verão e eles não queriam que eu fizesse propaganda. Então, bem, não foi de mim que ouviu que o Espírito Santo é um estado lindo de um povo gentil e amável. Não vá lá. Tocamos no centro da cidade e conhecemos um grupo de estudantes. Um menino muito educado nos convidou para almoçar na casa dele. Fomos até lá. A família era muito querida e ficamos torcendo para o assunto não desandar dessa vez. Deu tudo certo. Nos despedimos e prometemos voltar um dia.
Antes de seguir, Bardo resolveu instalar o inversor de voltagem que ganhamos do fanático maluco de Minas Gerais. Colocou uma segunda bateria, ligada na primeira e agora finalmente tínhamos uma tomada dentro do carro. Você pode ficar surpreso por termos ficado meses sem energia na Elvira, mas não existiam essas tecnologias todas que existem hoje, não se via painel solar em carro e, na verdade, nem sentíamos falta. Raramente usávamos o notebook, Bardo e as kids nem telefone tinham. Era libertador ir dormir com a lua e acordar com o sol, sem streaming até a madrugada e dormir com os olhos embotados de luz de tela.
Mesmo assim, ficamos tão felizes em ter a tomada que resolvemos ligar a caixa de som e atravessar para a Bahia com o som à todo volume! Faltando poucos quilômetros para a fronteira entre os dois estados, paramos para o costumeiro xixi e a Elvira resolveu não ligar mais. A bateria tinha morrido. Tivemos que empurrar ela, no melhor estilo Miss Sunshine, e entrar correndo no carro andando. Foi só o tempo de pular para dentro e o mundo desabou lá fora. Mônica achou aquilo o máximo e toda hora queria empurrar a Kombi.
Finalmente cruzamos para o Nordeste. Era oficial. Nossa terceira região do país a ser visitada! A primeira coisa que descobrimos é que o asfalto pode ser pior do que em Minas Gerais. Tinha mais buraco que estrada e era difícil andar. Além disso, cada curva era uma loteria: as pessoas ultrapassavam às cegas e não foram poucas vezes em que fomos parar no acostamento.
Vi essa cena: um enorme pé de manga, completamente carregado. Ao redor dele, no chão, centenas de frutas e, à sombra da árvore, um homem estava dormindo em uma cadeira. Ao lado da cadeira, uma placa dizia: vendo manga. Não tinha uma banca, nada. Só isso. Bardo e eu nos olhamos. Parecia um retrato do preconceito que se tem com os baianos. Entramos nesse papo e tudo o que queríamos era que o preconceito fosse só o que é: preconceito. Uma mentira idiota que se conta para fazer menos de um povo.
Rodamos até uma cidade onde um político de Minas Gerais tinha nos prometido nos receber na casa dele. Chegamos e ele não estava. Culpa minha, por acreditar na promessa do político. Ligamos para ele e nos disse para pegar a chave com a vizinha e ficar à vontade por lá. A casa era enorme e ficava na beira do mar. Descansamos e gravamos algumas coisas, já que a cidade era muito pequena e não tinha onde tocar.
Antes que o dinheiro começasse a mirrar, seguimos adiante. Bardo já conhecia Porto Seguro de uma viagem que fez com a ex e queria muito me mostrar tudo por lá. Chegamos e fomos direto para o centro da cidade tocar na praça. Começamos, mas poucas pessoas pararam para ouvir. De repente um homem se aproxima, joga uma bolinha de papel em mim e grita:
– Vão embora daqui, gringos branquelos!
Aquilo doeu muito. Não a bolinha de papel, mas o peso das palavras que vieram com ela. Recolhemos nossas coisas e paramos para observar. Tinha muita gente tentando ganhar dinheiro na rua. Gente vendendo de tudo, guias turísticos abordando as pessoas, parecia desesperador. Para sair daquele clima ruim, Bardo nos levou para ver as praias. Era realmente tudo lindo! Ele me mostrou o resort em que ficou com a ex. Coisa de luxo, que aquela vaca não quis compartilhar comigo. Quem está aqui agora?
A noite caiu e fomos procurar um lugar para dormir. Fomos de posto de gasolina em posto de gasolina, mas nenhum queria nos deixar ficar. Disseram que os pátios eram alugados por uma companhia de turismo para os carros deles e ninguém mais podia ficar ali. Acabamos encontrando um posto que estava em construção. O guarda quis nos mandar embora, mas encarnei a atriz: eu tenho duas filhas pequenas, e elas estão doentes! – e infelizmente não era atuação. Por alguma razão, as duas estavam com febre. Acabamos ficando longe de qualquer supermercado e o dinheiro que tinha não dava para o restaurante do outro lado da rua.
Pela primeira – e última – vez na viagem, Bardo teve que pedir comida. Os donos do restaurante eram gaúchos e concordaram em dar comida, mas só para as crianças! Fiquei imaginando se tinha um crucifixo em cima do caixa. Elas comeram, Bardo e eu fomos dormir com fome. Comecei a passar mal e não tinha banheiro ali. Foi um pesadelo.
Na manhã seguinte a Elvira não quis pegar. Mônica amou ter que empurrar ela de novo. Rodamos até um mecânico e descobrimos que o alternador não dava conta de carregar duas baterias e tinha queimado. Não tínhamos dinheiro para outro. O mecânico então resolveu nos dar um usado que ele tinha por lá. Enquanto instalava a peça, começou a tentar nos converter para a igreja dele. Saí de perto, deixei a bomba para o Bardo. Não sei como ele resolveu, mas conseguimos sair de lá.
Voltamos até a suicida BR 101. As cidades nos assustavam, não encontrávamos onde parar e muito menos onde tocar. Paramos para comprar comida em um supermercado. O lugar era sujo e escuro e as pessoas nos olhavam esquisito. Estávamos dando nosso máximo para deixar para lá e continuamos super simpáticos, mas nossa história não tinha impacto nenhum aqui, não como no sul e sudeste. Ninguém queria saber de artistas viajantes.
Olhamos no mapa e decidimos seguir para a maior cidade que tinha. Era Ilhéus. O mapa nos sacaneou e nos colocou em uma estrada de chão assustadora. Para piorar, começou uma tempestade. Bardo parou a Elvira no meio do barro, no meio do nada. Respiramos. Era ali que estávamos e íamos tirar o melhor da situação. Pegamos nossa câmera de ação e começamos a filmar o trajeto. Passamos por uma pequena aldeia, eram menos de dez casas e um bar no meio do absoluto nada, a dezenas de quilômetros de qualquer coisa. Depois de mais um tempo derrapando no barro, passamos por um boi morto na beira da estrada e chegamos em uma encruzilhada.
Sem o menor sinal de GPS ali, escolhemos na sorte. De repente, Bardo começou a rir. Ele contou para nós a história de Robert Johnson, um guitarrista que encontrou o capeta em uma encruzilhada, fez um pacto e se tornou um astro do blues. Resolvemos fazer nossa versão com o que tínhamos na mão. Uma tiara do Mickey virou chifres e com um pouco de maquiagem transformamos a Moniquinha na capirota. Gravamos as cenas ali e fizemos o clipe de Amorismo. Rimos muito e nos divertimos, sabendo, no fundo, que se pegássemos o lado errado e a gasolina acabasse podíamos muito bem morrer.
Depois de algumas horas o barro acabou e vimos o asfalto. Paramos em um bar para descansar. Um homem, bêbado e com um olho só, veio nos perguntar se tínhamos vindo daquela direção. Quando confirmamos ele colocou a mão na cabeça e disse que tivemos sorte por estar chovendo. Aparentemente tinha um quilombo por ali que fazia pedágios e uma família branquinha como a nossa teria desaparecido para sempre. Comecei a soluçar. Bardo olhou feio para o homem e tirou ele de perto de mim, me dizendo que era bobagem, que o idiota só queria nos assustar.
Era quase noite quando chegamos em Ilhéus. Estávamos exaustos mas precisávamos jantar. Fomos até o centro da cidade e conseguimos tocar em um bar. Ganhamos um dinheiro e o jantar. Nos trataram bem. Foi um alívio. Eu não queria aceitar que o nordeste não ia dar certo para nós, não queria aceitar o preconceito e não ia dar o braço a torcer. No dia seguinte tocamos ao lado da estátua de Jorge Amado, que eu li muito na biblioteca do interior de São Paulo. Em Capitães de Areia, quando ele diz “vou botar atrás pra você ficar donzela,” me identifiquei. Se tem no livro, quantas mulheres compartilham da minha história?
No dia seguinte voltamos lá, mas o pessoal da casa de cultura disse que não podíamos ficar ali. Sim, da casa de cultura, e não ia ser a última vez que isso ia acontecer. Fomos um pouco para baixo na rua e continuamos. O povo de Ilhéus é um amor, nos tratavam bem, nos davam almoço e dinheiro na cartola. E também foi a primeira vez que fomos roubados durante o espetáculo. Um moço passou caminhando, pegou uma nota de cinco reais e saiu como se não fosse nada. Todo mundo viu, ninguém se manifestou. Bardo olhou para mim com uma cara de deixa pra lá. À noite fomos tocar em um bar e o dono do lugar nos deixou ficar na casa dele. Lá tinha um pé de cacau e eu amei ficar chupando a semente. Ali eu descobri o verdadeiro sabor do chocolate!
E falando em chupar, a última coisa que dava tempo de pensar era em putaria. Estávamos sobrevivendo a cada hora e minha vida sexual se resumia ao Bardo, apenas. Minha última foda decente com outra pessoa tinha sido em Curitiba e ainda me deu um Influenza de presente. No dia seguinte, um casal nos convidou para ficar na casa deles. Fomos. Mesmo com tudo muito legal, eu estava me sentindo armada: a qualquer momento Jesus podia pular no meu pescoço de novo. Mas dessa vez o filho de deus me deixou em paz, quem me pegou foi o nós contra eles.
No meio do jantar o marido olha para nós e pergunta:
– E aí, Lula ou Bolsonaro? – e antes que pudéssemos dizer qualquer coisa ele emendou – se forem dizer que são Bolsonaro já podem sair da minha casa. – Essa me pegou de jeito, eu realmente não esperava. Não era o povo da esquerda que estava entupindo a internet dizendo que o pessoal da direita era boçal? Parece que tinha bastante espaço em ambos os lados para a estupidez. Mesmo não sendo partidária de lado nenhum, me preparei para levantar da mesa, mas Bardo foi mais rápido:
– Nós somos anarquistas.
Antigamente, se você quisesse se divertir muito por uma hora ou mais, era só pedir para o Bardo fazer um discurso anárquico. Ele realmente deixava todo mundo de queixo caído. Hoje em dia ele não fala mais no assunto, mas naquele dia deu certo. Mesmo assim, quando a janta terminou, decidimos ir dormir em um posto de gasolina.
Conseguimos recuperar nosso caixa em Ilhéus e resolvemos seguir para Itacaré, que todo mundo dizia que seria ótimo! Eu tinha restaurado minha fé na Bahia e no nordeste e estava animada para seguir.
Chegamos cedo e ficamos encantados com a rua principal. Uma bela estrutura, parecia um shopping à céu aberto. Fomos até a praia, com vários quiosques, mas não conseguimos onde tocar, nem mesmo propondo tocar de graça e passar o chapéu. A recepção não foi das melhores. Procuramos um lugar para tomar banho e encontramos um hostel de uma menina de Porto Alegre. Apesar de zero saudades de lá, foi gostoso ouvir o sotaque cantado e percebemos o quanto o nosso tinha mudado! Absorvemos bastante do mineirês!
O hostel não tinha chuveiro quente, para nosso desespero, mas tinha uma turma muito legal. Eram todos músicos, artistas performáticos e mambembes como nós. Perguntamos para eles como era a rua principal durante a noite e disseram que era bem movimentada. Assim que anoiteceu fomos para lá. Bardo encontrou um amigo, um músico famoso do Rio Grande do Sul que tinha largado tudo e ido tocar em bar por lá depois que, nas palavras dele, se amancebou com uma baiana. Fomos para a rua e começamos a tocar, e foi muito bom. Com a movimentação intensa de turistas, parecia um bom lugar para ficar uma temporada.
Seca de uma boa putaria, abri o aplicativo de encontros. Conheci um carioca que era dono de uma pousada por ali. Nos encontramos na praia e batemos um papo. Era bonitinho e simpático. Fomos para a pousada dele e não deixei ele enrolar, fomos logo para a ação. Ele tinha uma pegada boa, beijava bem e me levou para a cama. Tirou minha roupa devagar, me acariciando, beijou meu corpo todo e abriu minhas pernas. Caiu de boca com vontade. Chupou e chupou até me deixar latejando! Não aguentava mais, queria pau! Puxei ele mas ele não veio, continuou chupando. Já comecei a me frustrar. Continuei puxando ele, que ainda estava vestido. Arranquei a roupa e aí entendi. Ele tinha um micropênis e estava compensando na língua. Colocou uma camisinha meio bamba e veio, mas eu não senti nada. Ele empurrava, socava, e nada. Fiquei de quatro e mandei colocar no cu, aí senti alguma coisa. Me masturbei com ele comendo meu cuzinho e gozei mais com meus dedos do que com o pau dele. Me vesti e fui embora, possessa! Bardo quis ouvir o que aconteceu e eu não quis frustrar ele, então só contei que tinha dado o cuzinho. Ele me comeu gostoso ouvindo e finalmente gozei com um pau gostoso e duro dentro de mim.
Que ódio.

No dia seguinte fomos ao supermercado buscar comida. Outro lugar sujo, escuro, com gente mal encarada. Resolvemos pegar só produtos embalados. O pacote de macarrão tinha carunchos e a calabresa estava com o pacote aberto e fora da geladeira. Não ia dar. Saímos dali e Bardo sugeriu ir à feira orgânica, onde os produtores se preocupam mais com as coisas. Eu nunca vi tanto urubu na vida. Eles brigavam com os cachorros e mordiam a carne seca pendurada nos varais. Peguei um cacho de uva que estava fechado em uma embalagem de plástico e saí de lá.
Chegamos no hostel e o pessoal estava todo lá. Um rapaz fritava meia cebola e uma banana enorme em uma frigideira. Bardo ficou curioso e perguntou. Era a Banana da Terra. Nunca tinha visto. Ele pediu para experimentar e o pessoal todo olhou torto. Mesmo assim, o rapaz deu um pedacinho. Foi quando nos demos conta: aquela banana e meia cebola era o almoço de todos eles. Fui até a esquina e comprei um cacho inteiro das bananas e voltei lá. Dividimos com eles e isso foi nosso almoço.
Eles começaram a nos perguntar sobre como vivíamos e se dava certo tocar como fizemos ontem. Falamos a verdade, que era muito difícil e mal dava para sobreviver, mas era uma experiência rica de contato humano, de liberdade e de poder viajar. Quando a noite chegou e fomos para a avenida, todos eles estavam lá, um a cada cinco metros, tomando a avenida toda. Um batia um violão e gritava, outro batia um tambor com um flautista desafinado, um desespero total. Não conseguimos trabalhar. Bardo aproveitou para dar uma aula para as meninas sobre Saturação de Mercado e a Tragédia dos Comuns.
Na manhã seguinte era véspera de natal e o hostel estava hostil. Disseram que éramos mentirosos, que tentaram fazer e nem dava certo. Eu não sabia o que pensar. Fomos até a praia e tentamos de novo com os bares, sem sucesso. O pior é que não tinha onde comprar comida. Tudo o que conseguimos foi pão e mortadela, embalados, que tinham acabado de chegar no caminhão – o que não era garantia de muita coisa. E essa foi a nossa ceia de natal. Viu no que dá não ser cristão? Deus castiga!
Com o tempo fomos percebendo essa diferença de qualidade na alimentação. Muitas vezes a mesma marca de macarrão era boa em uma cidade, duvidosa em outra. Talvez fosse a fábrica? Um padrão ia se desenhando. Em cidades muito populosas ou pobres a comida é claramente inferior, o supermercado cheio de coisas duvidosas. Já nas cidades pequenas, onde as pessoas tinham acesso ao ovo caipira, leite fresco, hortaliças e frutas direto da terra, os mesmos produtos tinham mais qualidade. Vai entender.
Na manhã seguinte a mãe da dona do hostel apareceu por lá, furiosa. Tinha voado de Porto Alegre para resgatar a filha. Acontece que nenhum daqueles hóspedes lá estava pagando para se hospedar e tampouco estavam dando algo em troca. Eles tinham tomado o lugar como parasitas, se aproveitando da inocência da menina. A matriarca chegou jogando mochilas na rua, aos berros, mas quando deu de cara com a gente se acalmou. Ela nos chamou para almoçar e, quando contamos nossa história, ela desesperou-se. Disse que era para agradecermos ainda estarmos vivos e que devíamos voltar imediatamente para o sul.
Já tínhamos o suficiente para que o preconceito virasse conceito até ali e resolvemos ouvir, mas não tínhamos dinheiro para voltar até o Espírito Santo. Decidimos voltar para Ilhéus. Tocamos por mais um dia, enchemos o tanque e metemos o pé na estrada. Eram 600 quilômetros, não dava para fazer de uma vez só. Resolvemos então fazer uma parada em Arraial d’Ajuda.
O lugar é muito bonito e tem um calçadão de comércios. Paramos ali e tocamos, torcendo para não dar merda. Os comerciantes nos trataram bem e uma pousada nos ofereceu lugar para o banho. Quando a noite chegou, eles nos disseram que a rua ia encher de gringos. Era nossa chance de fazer um caixa. Começamos a tocar mas nos decepcionamos quando começamos a ver as camisetas do Grêmio e do Internacional passando por nós. Ah, esses gringos. Fui até o outro lado do país para tocar na Redenção de novo. Não ganhamos nada.
Exaustos, estacionamos em uma praça ali perto para dormir. Estávamos arrumando as coisas quando um bando de mal encarados começou a nos cercar de longe. Bardo, com movimentos largos, pegou a faca de dentro do carro, colocou na cintura e ficou parado encarando aquelas pessoas, em um tom de ameaça. Depois de um tempo eles foram embora.
Na manhã seguinte nos preparamos para ir embora, mas o dono de um restaurante na beira da praia nos pediu para tocar lá. Perfeito. Dinheiro para gasolina e o almoço. Tocamos e almoçamos e eu fui arrumar o carro para viajar enquanto Bardo guardava o equipamento de som. De repente o Rock sai de dentro do carro voando, todo arrepiado e dentes à mostra, de um jeito que eu nunca tinha visto. Ele latia para um homem perto de mim. Eu ia xingar o pobre cachorro quando olhei bem para o sujeito: com a cara derretida de drogas, ele segurava uma faca em cada mão e vinha na minha direção. Enquanto Rock atrasava o passo dele, peguei as crianças e corri para o Bardo. Chamamos o segurança do lugar, mas ele sequer levantou da cadeira. Tinha um homem com duas facas dentro do restaurante e ele não ia fazer nada. Bardo pegou um porrete e resolveu o problema.
Entramos no carro com raiva. Faltavam 400 quilômetros ainda e Bardo estava disposto a desmaiar dirigindo se preciso. Se você está achando isso pouco, nunca fez essa distância em uma kombi com motor a ar, em uma estrada esburacada com caminhões andando na contramão o tempo todo. Estávamos a quase uma hora rodando quando as meninas começaram a vomitar. Alguma coisa estava errada com o almoço do restaurante – e com todos os outros almoços antes desse – e elas estavam intoxicadas. Bardo disse que nem por decreto ia levar elas em um hospital na Bahia e rodamos com elas passando mal até São Mateus, no Espírito Santo, onde foram bem atendidas.
Sentamos e choramos. Comemoramos estar vivos. Eu realmente queria muito ter conhecido todo o nordeste e era muito frustrante ter vivido na pele tudo o que as pessoas diziam que acontecia por lá e que eu tinha como preconceito. Quem sabe tento de novo no futuro, com mais dinheiro, melhor equipada, sem depender tanto da boa vontade das pessoas?
Foram 22 dias e duas horas. Coentro, com certeza, nunca mais.
***
Ainda tinha todo o verão pela frente e fazia sol no Espírito Santo. Muito sol. Tão escaldante que era mais difícil de trabalhar do que na chuva. Mesmo assim, fomos. Uma família nos ofereceu uma casa que tinham na praia e dali visitamos toda a região, trabalhando muito. Conhecemos um diretor de cinema e ele queria filmar um videoclipe nosso. Fizemos o clipe de Empatia, que ficou assustador, com direito a armas de fogo e sangue falso.
Passamos nosso reveillon na casa de uma família que nos chamou para tocar. Estava no meio de Unchain my heart quando o pessoal começou a contagem regressiva. Olhei para o Bardo, naquela comunicação de olho, pedindo para que ele parasse. Ele não quis. Entrei o ano de 2018 cantando. Foi bom!
Fomos tocar em um aniversário. Era um churrasco, não tinha muita gente, mas foi bem divertido. Ainda ganhei um presente do aniversariante! Entramos em um papo gostoso sobre plantas e ele me deu uma bela flor do deserto. Bardo conversava animado com uma moça. Eu gosto de ler o corpo dele enquanto está flertando. O jeito que ele sorri, os toques carinhosos, o olhar fixo no dela. Apontei e perguntei para o aniversariante quem era ela. Era uma menina pela qual o filho dele era apaixonado há muito tempo, mas ela tratava ele como amigo e ele não conseguia passar disso. Uma pena para ele, porque pela expressão dela, o Bardo ia levar embora.
Ela pediu uma carona para nós na hora de ir. O filho do dono da casa nos acompanhou até o portão. Parecia cena de filme, ele vendo ela caminhar na direção do matadouro. O rapaz ainda segurou ela pelo braço e insistiu que ficasse, mas ela se soltou e entrou no carro. Assim que ela fechou a porta, ele nos olhou com raiva e bateu o portão na nossa cara. Sinto muito, garoto friendzone.
Ela não esperou virarmos a esquina. Me puxou pro banco de trás e me beijou, já arrancando minha roupa. Bardo dirigiu até a praia e estacionou na areia, juntando-se à festa. Era disso que eu estava precisando, alguém com pegada e vontade de meter. Ela beijava firme, quente, gostoso, e metia dois dedos na minha buceta me fazendo ter vertigens. Bardo socava a bunda dela enquanto ela me chupava, enfiando a língua fundo, bem quente, me fazendo gozar. Dei um squirt na cara dela e aí ela enlouqueceu de vez. Ficou me arrancando orgasmos até eu não ter mais água no corpo.
Deitei na cama, acabada, Bardo ainda comendo ela gostoso. Ela colocou ele sentado, ajoelhou e, não sei como ela ainda tinha boca, começou a engolir o pau dele até o talo. E foi aí que ela veio com um pedido divertido: disse que sempre quis chupar um cara com o dedo no cu dele. Bardo topou na hora. Ela molhou o dedo e atolou até o fim. Os olhos dela brilhavam. Ela mamava gemendo e metendo o dedo nele. Bardo explodiu na garganta dela. Os dois deitaram comigo, ela no meio, e apagamos. Acordei com o sol da praia no meu rosto e um gemido abafado dela. Bardo já estava comendo o café da manhã. Ela me puxou e me masturbou até eu gozar enquanto ele melava a bunda dela toda.
Que delícia de trepada. Eu estava precisando muito disso.
Seguimos pelo Espírito Santo tocando em cada uma das praias. O sol machucava mas valia a pena. Era praticamente como tocar em Minas Gerais, porque só tinha mineiro por lá (nem se fala de Guarapari!), mas com aquele visual incrível do litoral. Chegamos no final do estado e resolvemos continuar pelo litoral do Rio de Janeiro. Fomos bem recebidos em Macaé e Rio das Ostras, tocamos na praia e ganhamos bem. Fomos então para Búzios encontrar uma menina que estava viajando o Brasil de Kombi sozinha. Ela planejava subir o nordeste e eu achei de bom tom contar para ela como foi a nossa triste experiência por lá. Ela disse que cada experiência é única e seguiu viagem. Acabou sendo estuprada duas vezes e desistiu de viajar. Que merda.
Saímos para tocar na rua em Búzios. A cidade é realmente linda, mas tem aquele ar de arapuca de turista. Tocamos uma meia hora e os fiscais chegaram, muito educados, dizendo que a lei municipal não permitia amplificadores de som na rua. Desligamos o som e terminamos o espetáculo acapella. Todos ficaram impressionados e até os fiscais colocaram um dinheiro na cartola.
Dali seguimos para Cabo Frio, que já conhecíamos. Fomos recebidos por um casal de argentinos que, supostamente, eram nossos fãs porque tinham o relacionamento aberto. E era um casal lindo! Ficamos alguns dias com eles por lá, mas não rolou nada. Em uma noite ela saiu e pediu para levar as kids ao cinema. Deixamos e ficamos só com ele em casa. Talvez esse fosse o plano. Ficamos falando putaria e provocando, mas nada. Bardo resolveu sair de perto, talvez eu me desse bem. Nada também. Ela voltou e ouvimos os dois discutindo no quarto. O que tinha dado errado?
Fomos tocar na Feira de Artesanato à noite. Lotada de pessoas. Escolhemos uma esquina, conseguimos uma tomada e começamos. Logo tínhamos uma multidão. Um fiscal passou olhando de longe, mas não disse nada. Algum tempo depois, voltou com outro e nos abordaram, grosseiros, mandando desligar tudo pois era proibido. O povo vaiou. Bardo se recusou. Demandou que o fiscal apresentasse a lei que impedia a sua livre expressão. O fiscal não soube o que dizer e foi embora. O povo aplaudiu e continuamos tocando. De repente, dobram a esquina nada menos que vinte fiscais uniformizados e chegam pegando nossas coisas. O povo foi para cima deles e virou uma confusão. Pancadaria. As pessoas conseguiram tomar nosso equipamento de volta e nos escoltaram para fora dali.
No dia seguinte fomos até a delegacia de polícia prestar queixa. Fizeram um boletim nas coxas e nunca mais ouvimos falar. Bardo estava estressado, eu estava cansada daquilo. Saímos de casa para espalhar amor, música e orgasmos e encontramos violência, fome e desespero. Talvez o mundo precisasse muito mais de nós do que imaginamos.
Passamos o aniversário do Bardo em Arraial do Cabo. Tudo o que ele queria de presente era nada em alto mar e foi isso que ele fez. Foi um dia agradável, sem trabalhar, e curtimos muito. Quando fomos entrar no carro, um flanelinha veio cobrar vinte reais por estacionar ali, na rua. Bardo se recusou a pagar e ali eu percebi que ele tinha perdido um parafuso: ameaçou esfaquear o flanelinha. Achei melhor ir embora logo. Sugeri que voltássemos para o sul de Minas Gerais, onde era tudo mais leve.
Algumas horas depois estávamos em Leopoldina. Bardo foi até a padaria e pediu pão e presunto. O atendente, um senhor de idade, ofereceu três marcas de presunto e perguntou:
– Qual você quer?
– Qual é a mais gostosa? – Bardo rebateu.
– Uai, o gosto é seu! – o senhor pegou uma fatia de cada marca, enrolou e deu para ele experimentar.
Bardo explodiu chorando. Era oficial, os mineiros tinham nos mimado e agora não tínhamos mais culhão para o resto do planeta. Dali seguimos de volta para a casa da Natália, só para ouvir um enorme – eu avisei vocês! Descansamos por um tempo e seguimos pelo sul de Minas Gerais, às vezes voltando para onde já conhecia, às vezes visitando cidades novas. E assim ficamos por muitos meses, no meio do amor, do café e do pão de queijo.
Criamos uma quase rotina. Acordava no posto de gasolina entre uma cidade e outra, ia até o centro da cidade, tocava, pegava uma grana e, se não conhecesse ninguém interessante, seguia para o próximo posto de gasolina. Juntava dinheiro para muita comida e se enfiava em alguma cachoeira para viver igual índio por duas semanas ou mais. Era uma vida quase perfeita. Por outro lado tinha a infinita guerra contra os carrapatos estrela e a completa ausência de vida sexual além do Bardo.
***
Tocamos em uma cidade grande e seguimos para encontrar um posto para dormir. Um carro preto começou a nos seguir e ficamos preocupados. De repente, uma foto da Elvira, tirada ali naquele momento, chega na DM do Instagram. Paramos o carro para conhecer esse casal maluco que seriam nossos amigos para o resto da vida. Carlos e Nicole. Eles também eram adeptos da putaria e nos levaram para a casa deles. Nos divertimos muito. Passou a ser visita obrigatória toda vez que passávamos por alguma cidade perto. Algum tempo depois fiquei bastante doente e foram eles que nos acolheram por um mês inteiro enquanto eu fazia exames médicos.
Carlos é um gostoso. Bonito, elegante e ótima companhia. E é louco pelo meu corpo. Adorava ficar andando pela casa de camisola só pra acompanhar os olhares dele. Estar com eles é divertido demais. Bardo e Nicole se provocando o tempo todo, e eu deixando Carlos louquinho. Ele acordava cedo para trabalhar e ela gostava de dormir até mais tarde, então ele sempre me encontrava já passando meu cafezinho na cozinha. Nua. Imagina o desespero do homem, assim, cedo. Acabava que o banho dele sempre demorava uns vinte minutos mais. Ele me comia gostoso contra a pia ou no chuveiro e ia trabalhar leve. E eu ficava mandando nudes meus na cama dele ou vídeos do Bardo comendo a Nicole no meio da tarde enquanto ele trabalhava, só para ele saber o que esperava em casa. Essas são as amizades que queremos!
Com os nervos pacificados, resolvemos aumentar nosso território e entramos no interior de São Paulo. Parecia outro país. A infraestrutura é muito melhor que a de Minas Gerais, asfalto liso (e com pedágios) e mais dinheiro na cartola. Por outro lado, fiscais perturbando o tempo todo e conversas infinitas sobre dinheiro. Todo mundo que conhecíamos era primo do tio do parente de algum famoso e estava investindo milhões em algum novo grande negócio milionário. Papo chato.
Foi em uma cidadezinha que esse rapaz nos abordou. Disse que era produtor de um canal grande de televisão e que queria nos levar em um desses shows de domingo e nos dar uma van toda estilizada de presente, mas que para isso teríamos que atuar uma história triste, chorar, dizer que somos uma família pobre que vive na Kombi porque não tem onde morar. E por mais que isso, de um certo ponto de vista, fosse verdade, não era a imagem que eu queria ter por aí. Recusamos e o produtor ficou muito ofendido.
Eu amo carro, amo estrada e amo motor. Mas me pergunte sobre marcas e modelos de carro e vai ter uma conversa vazia comigo. Fale de preço de carro e nem terá uma conversa. Eu realmente não me ligo nisso. Eu gosto do que o carro proporciona, não de ficar esfregando ele na cara do vizinho. Eu quero o vento no rosto, a estrada e as paisagens passando, eu quero ir daqui até ali, e é só. Aprendi a amar a Kombi porque ela andava devagar, quebrava pouco e tinha peças baratas. Em São Paulo ela era desprezada – o carro de verdureiro – eles diziam, enquanto comiam lasanha congelada.
A Kombi tem esse charme. É o carro conectado com tudo que tem de bom. É o carro que anda devagar e não causa acidente. É o carro da verdura, da fruta, do ovo, da comida boa. É a nave que junta os amigos e carrega toda a turma para o passeio. E até quando ela quebra e todo mundo tem que empurrar é uma festa! Eu ainda sonho com o engenheiro que vai fazer a Kombi elétrica, um carro que nunca deveria sair de linha.
***
Resolvemos voltar para Minas Gerais. Na internet o povo reclamava que não saíamos mais de lá, mas era só chegar na cidade deles que sumiam. No início pensamos que era a questão do poliamor que fazia com que se escondessem, mas havia sim uma enorme desconexão do online com o mundo real. Na rede o nós contra eles escalava conforme as eleições se aproximavam, mas na rua pouco se falava disso, ao menos onde estávamos circulando.
Fizemos alguns shows em comitês políticos. Sempre pagavam bem. Por sermos artistas, todo mundo pensava que éramos de esquerda. Então quando o ambiente era de esquerda, era só sorrir e acenar. Quando o ambiente era de direita, Bardo dava um breve discurso anarquista e tudo ficava bem. O importante nem era ser aliado, bastava não ser o inimigo.
Em um desses comícios, a esposa de um deputado federal começou a alisar o Bardo na frente das amigas enquanto o corno dava um discurso. Ela ficava dando a entender que estava dando pra ele, e as amigas olhando pra mim buscando confirmação. Levamos numa boa por um tempo, até que o deputado começou a perceber a atitude dela. Bardo cortou ela na hora. Não queria treta com corno, ainda mais um deputado federal. Ela ficou tão puta que nunca mais conseguimos tocar nos dois bares que tocávamos na cidade.
Achamos melhor não nos envolvermos mais com essa gente.
Fazia um tempo que queríamos conhecer Juiz de Fora e fomos para lá. Que arrependimento de não ter ido antes! A Rua Halfeld, um calçadão no centro da cidade, era uma mina de ouro. Parávamos centenas de pessoas para ouvir nosso show e ganhamos muito mais do que em qualquer outro lugar. Era tão bom que valia a pena sair da cidade para dormir no posto e voltar.
Depois de quase uma semana por lá, já tínhamos feito alguns amigos. O Marcelo, acupunturista, a dona Zilda que nos ouvia do apartamento dela e o César, um cara gente boa demais que morava ali perto. Naquele dia, um casal nos convidou para jantar e dormir na casa deles. Era mais longe do que o posto de gasolina, mas fomos. Naqueles dias o Instagram ainda me deixava postar fotos seminua e alguns dias antes eu postei uma foto linda, com o rabão para cima, e estava fazendo sucesso.
Jantamos e ouvimos o papo cristão. Já tinha virado rotina as pessoas tentarem trocar uma boa ação por nossa conversão e eu nem levava mais para o coração. Eu só não entendia o que eles ganhavam com isso. A boa ação foi feita, você ajudou uma família “carente” e vai pro céu. Precisa mesmo me levar junto?
Na manhã seguinte, a esposa nos pediu para irmos embora às pressas. Resolvi perguntar por que. Ela me mostrou minha foto no Instagram e disse que o marido estava vindo “tirar a limpo” aquilo. Maluco. Fomos embora. No caminho, vimos todos os postos de gasolina com filas enormes. Olhamos o preço, parecia o mesmo. Não era nenhuma promoção. O que estava acontecendo? Seguimos para o centro da cidade. Todo mundo correndo de um lado para outro como loucos. Poucos pararam para nos ouvir.
Recolhemos nossas coisas e começamos a ouvir o rumor do povo. Parecia que uma greve nacional dos caminhoneiros tinha começado e as coisas iam ficar apocalípticas. Não ia dar para ficar saindo e voltando da cidade sem gasolina, mas o pior era a ameaça de ficar sem comida no mercado.
Conseguimos dormir uma noite no estacionamento de um edifício no centro, mas no dia seguinte o síndico nos tirou de lá. Foi o César que nos salvou, dizendo que podíamos ficar no apartamento dele pelo tempo que precisasse. Ele tinha dois quartos vagos lá e com o filho estudando em outra cidade estava mesmo muito sozinho. Ser a família presente das pessoas já era nossa especialidade e topamos na hora.
Os primeiros dias foram mais tensos mas, conforme o abastecimento de comida se provou efetivo, as pessoas se acalmaram e voltamos a tocar na rua. Mônica teve uma de suas crises alérgicas e nenhum táxi tinha gasolina para levar ela ao hospital. Conseguimos um uber que estava rodando no resto do gás e ficou tudo bem. Dez dias depois, tudo voltou ao normal. Abastecemos, agradecemos ao César pela acolhida e maravilhosa companhia e saímos de lá com mais um amigo para a vida toda.
Seguimos de volta para Ouro Preto. A Copa do Mundo estava chegando e pensamos que ia ser incrível passar essa festa com as repúblicas. Dito e feito. Chegamos lá e fomos recebidos calorosamente. Uma das repúblicas nos ofereceu dois quartos e convidaram para ficar por lá a Copa inteira. Claro que topamos. Então eles disseram:
– Nós fazemos churrasco em todos os jogos da copa!
– O que tem de mais nisso? – perguntei – todo mundo faz churrasco em todos os jogos!
– TODOS os jogos. – Eles disseram, de forma enfática – daqui a pouco começa Rússia e Arábia Saudita!
Vamos nessa!
Curtindo o dia todo e trabalhando pouco, resolvemos pegar o app de relacionamento de novo. Bardo conheceu essa mulher e a levou para a república. Que fogo no rabo! Metemos gostoso por horas e ela fez questão de dar o cuzinho. Adoro quando o Bardo fica metendo no rabo enquanto eu chupo a buceta. Sinto as estocadas dele na minha boca enquanto vou bebendo o suco.
Alguns dias depois, pegamos um dos estudantes da república. Ele quis beber antes, mas não deixei. Vai na cara e na coragem! Ele estava assustado com a presença do Bardo, nunca tinha feito um ménage, mas depois de um bom boquete ficou com o pau bem duro e me comeu gostoso, de quatro, enquanto eu mamava. Gozei gostoso. Fazia tempo que não gozava em outro pau.
No dia seguinte fizeram outra festa e umas meninas vieram. Elas eram bem desajeitadas, mas era o que tinha, e Bardo e eu começamos a meter pilha em todo mundo para rolar uma suruba. De repente, o mesmo cara que tinha me comido na noite anterior chega com pó. Ficamos chateados. Sério mesmo que preferem cheirar essa merda do que uma suruba? Qual o problema com essa molecada? Preferiram cheirar. Bardo e eu nos retiramos.
O Festival de Inverno de Ouro Preto estava acontecendo e, sabendo que estávamos lá, nos colocaram na programação. Tocamos no palco da festa, foi lindo, uma energia altíssima, e no dia seguinte tocamos na rua, no nosso estilo. Nesse dia, pedi para as kids filmar nosso espetáculo. Tinha muita gente, a rua estava fechada para carros e misturada à festa da Copa do Mundo. Estava incrível!
No dia seguinte peguei uma infecção no ouvido e, de cama, sem nada para fazer, resolvi editar o vídeo cantando The Lion Sleeps Tonight e postei na página do Facebook. Fui dormir. Quando acordei, tinha mais de mil mensagens na caixa de entrada. Olhei para o vídeo: cem mil visualizações. Algumas horas depois eram duzentos e logo quinhentos. No dia seguinte já estava na casa dos três milhões. Pulei de alegria e chamei o Bardo que só torceu o nariz.
– Grande coisa. Isso aí não dá em nada.
Ele estava, com toda a razão, desacreditado do online, mas eu tinha outras ideias. Aquela vida de mambembe era perfeita mas não ia durar para sempre. As meninas iam crescer, nós íamos envelhecer e não ia dar mais para seguir assim, sem saber o dia seguinte. Talvez ali fosse o início de uma nova fase.
Mas ele estava certo. Além dos elogios e das críticas, não recebemos mais do que um monte de convites para ir tocar de graça. Nenhum contrato, nenhuma proposta séria. Agora tínhamos trezentos mil seguidores com trezentas mil opiniões diferentes sobre a gente entupindo nossa caixa de entrada diariamente. Muita gente criticando a falta de escola das kids, nos chamando de irresponsáveis e nos xingando.
Ao menos nosso canal do Youtube cresceu e agora ganhávamos incríveis quatrocentos reais por mês de streaming.
Quinze dias em Ouro Preto! Era carne, pele de frango frita, cerveja e pinga. Entramos em coma. Não dava mais e até que fomos longe demais. Para a tristeza dos nossos amigos estudantes, resolvemos ir para a casa de um casal de amigos em Barbacena para assistir Brasil e México. Eles não bebiam e eram veganos, a companhia perfeita. Um casal de swingers da cidade soube que estávamos por lá e nos convidou para ir ao apartamento deles. Ele era um baixinho sem sal e ela um robocop de silicone, e acabou que ficamos só no papo.
Eles nos convidaram para tocar em uma festa de swing que estavam organizando em uma cidade turística ali perto. Topamos. Alguns meses depois, chegamos lá. Pedi a eles que pudessem nos hospedar em algum lugar bem seguro e escondido, e expliquei por quê.
A internet estava pegando fogo com as eleições e nossos novos fãs nos demandavam tomar posição. Direita ou esquerda? Não o fizemos. Então nos disseram que se você não está conosco, está com eles. Preferi ser inimiga de todo mundo. Que assim seja, afinal, vocês não pagam minhas contas. Foi quando começaram as primeiras ameaças. Nos disseram que se Bolsonaro fosse eleito nós seríamos pegos por algum grupo de extermínio, seja por ser poliamor, por sermos bissexuais, por sermos nômades ou por qualquer motivo que quisessem. Que merda.
As kids ficaram seguras no porão de uma casa antiga. Escondemos a Elvira e fomos para a festa de swing. Fazia tempo que não ia a uma festa boa assim! Tocamos, animamos todo mundo e caímos na meteção. Estava com tanta saudades que dei uma de Bardo e transei com um monte de gente. Gostei mesmo foi de um gordinho do pau grosso que tinha uma pele gostosa. Sentei ele no sofá, sentei no colo e fiquei ali cavalgando devagarinho enquanto Bardo comia duas ou três mulheres ao meu lado.
Na manhã seguinte sentamos todos juntos para o café da manhã. O pessoal todo se arrumando rápido para voltar às suas cidades e votar. De repente, me veio a ideia. Em quem esse povo do swing vota? Comecei a perguntar e, pasme ou não, todo mundo ali ia votar no Bolsonaro.
Me senti uma idiota. Mas é claro! O povo do swing é o cidadão comum, o padre, o policial, o médico, o tabelião e o juiz. E se eles fazem swing, seriam coniventes com o extermínio de outras classes liberais? Meu palpite era que não. E isso dava um peso imenso para o discurso anarquista do Bardo: Brasileiro não precisa de governo, nós fingimos ter um, fingimos obedecer às leis e fazemos o que bem entendemos. Nós nos viramos muito bem sem eles, talvez até melhor. Somos pessoas do bem e olhamos uns para os outros com amor e carinho – basta não haver escassez.
Essa ideia idiota de esquerda e direita que compramos dos Estados Unidos não funciona aqui. Assim como nunca ia funcionar um Partido Comunista ou um Ditador Fascista. O brasileiro simplesmente não ia obedecer. Sabemos muito bem o que queremos e não precisamos que ninguém nos diga o que fazer!
Voltamos para o porão e acompanhamos a contagem dos votos. Deu Bolsonaro. Passou um dia e tudo parecia normal lá fora. Dois dias, três dias e nenhuma notícia de gays pegando fogo. Saímos. O mundo não tinha mudado uma vírgula, assim como não tinha mudado da Dilma para o Temer.
Eu sei que você pode revirar os olhos agora e dizer que muda sim. Mas eu me refiro à um único ponto de vista: ao da pessoa comum, que está vivendo sua vidinha pacata, totalmente desligada das grandes decisões econômicas. O preço do café sobe, do arroz cai, e é isso. Para essa pessoa o mundo é mundo desde sempre e as grandes políticas nunca vão mudar nada para elas. Essa sou eu e provavelmente você quando parar de ler as notícias.
Com o fantasma político destruído e tudo em paz, seguimos nosso caminho levando amor e música por aí. Fizemos amigos, celebramos, curtimos a natureza e comemos menos gente do que gostaríamos, sempre.
***
Foi em Lavras Novas, distrito de Ouro Preto, que essa mulher se aproximou. Uma senhora muito elegante, dizendo que tinha um amigo em uma grande gravadora, que enviou um vídeo nosso e que ele ficou muito interessado. Sem fé alguma, passamos nosso contato. Depois de alguns dias o sujeito nos ligou. Disse que um certo cantor brasileiro, desses famosos, queria relançar uma música dele na nossa voz.
Legal. Montamos nosso estúdio no sítio de um amigo e gravamos a música. Aproveitamos para gravar todas as que queríamos gravar e mandamos fazer um CD para vendermos e ver se dava um pouco mais na cartola. Mandamos fazer mil cópias e vendemos muito mais rápido do que esperávamos. Enquanto isso o cara da gravadora dava notícias uma vez por mês, dizendo que estavam fazendo isso e aquilo e nós acreditando em nada.
Resolvemos voltar ao estado de São Paulo e tentar de novo. Estávamos mais experientes, mais tranquilos e com mais grana. As meninas estavam maiores e eu estava planejando comprar uma daquelas barracas de teto para termos dois quartos na Elvira e, além do conforto, Bardo e eu podermos transar em algum lugar mais discreto que em pé atrás de uma árvore – não que isso não fosse divertido.
Os pais do Bardo estavam insistindo muito em ver as kids. Nos encontramos no aeroporto de Guarulhos e eles quiseram levar elas. Elas quiseram ir e achei uma boa ideia, mesmo sabendo que ia levar alguns meses para reeducar elas na volta. Assim, Bardo e eu tínhamos mais liberdade de movimento e orçamento para levantar a grana da barraca.
Seguimos pelo interior de São Paulo. Sorocaba, Itapetininga, Capão Bonito, Ribeirão Grande. Fomos visitar o Parque Intervales. Haviam várias trilhas mas apenas uma podia ser feita sem o guia – e não tinha nenhum por lá. Entramos no mato e andamos por alguns quilômetros vendo as mais belas paisagens. De repente, vi uma caverna enorme em uma pedra. Bardo me alertou que a única regra da trilha era não sair da trilha, mas eu não ouvi. Fui até a entrada da caverna e olhei para dentro. Ouvi um rugido forte, grave, e disparei. Passei voando as tranças pelo Bardo e sussurrei: corre. Ele ficou me olhando correr na frente dele e começou a correr devagar, sem me passar. Afinal, se fosse uma onça, ia pegar ele primeiro.
No final da trilha fomos olhar no catálogo e o único animal que havia ali eram antas. Mas na outra parte do parque tinham onças. Bardo riu de mim e eu rebati dizendo que a onça não lia o catálogo, então podia muito bem ser uma! Mesmo assim ele não me deu moleza e ficou rindo de ter corrido de uma anta. Que anta! Voltamos para Ribeirão Grande, tocamos, comemos o famoso rojão e levamos um monte de linguiça no carro, para desespero do Rock.
De lá seguimos para Itapeva, onde fomos escoltados pela polícia, mas desta vez para ficar acomodados no quartel. Tocamos na festa da cidade e fomos muito bem tratados! Depois Itaberá e Itararé, onde descobrimos mais sobre a história do Brasil. Não foi só o Rio Grande do Sul que bateu de frente com o império. Minas Gerais, São Paulo, Bahia, todos enfrentaram a coroa e tiveram suas batalhas. Fomos conhecer as trincheiras e ficamos felizes de ver um lugar que já foi palco de violência tornar-se um lugar tão lindo. Chegamos em uma festa enorme e, para nossa imensa alegria, estavam assando dezenas de costelas no chão. Que saudades! Tocamos lá e comemos até não poder mais. Conhecemos um povo muito divertido de uma galeteria e prometemos voltar logo.
Resolvemos ir buscar as kids com a Elvira. Cruzamos o Paraná de uma vez só, de novo. Eu realmente não sei explicar por que nunca paramos por lá. Talvez seja uma missão para o futuro? Paramos em Curitiba para visitar os amigos e seguimos para Joinville, onde eu não via a hora de encontrar meu texano favorito. Sem gripe, dessa vez.
A primeira coisa que fizemos quando chegamos foi correr para o supermercado. Eu queria cuca, chimia e nata! Estava morrendo de saudades das comidas da minha infância. Mas o que mais me impactou foram as fachadas. Não foi à toa que vi Minas Gerais como uma favela. Cada casa aqui era bem pintada, os jardins floridos e bem cuidados, as ruas bem varridas e tudo cuidado com o mínimo detalhe. Olhei para minhas roupas e me senti diminuída, suja, indesejada. Que contraste!
Chegamos na casa do Francis no final da tarde e minha buceta estava latejando. Bardo foi visitar a namorada gordinha dele e eu entrei na casa mais braba que a Anta de Ribeirão Grande! Cheguei arrancando a roupa dele e enfiando a cara dele entre minhas pernas. Transamos com força, com vontade e com saudades. Eu de pé com as mãos na parede ouvindo o baque seco da virilha dele batendo com força na minha bunda, a cabeça do pau estocando meu útero. Que saudades de uma comida bem dada daquelas!
No dia seguinte eu só queria mais, mas ele me jogou uma bomba: estava de saída para os Estados Unidos para ver uma namorada lá. Fiquei possessa! Ele sabia que eu estava indo lá. Para amenizar, me deu um colar com uma pedrinha preciosa, a chave da casa e do carro dele para que eu usasse pelo tempo que quisesse. Ah, eu vou usar, seu filho da puta!
Assim que ele se foi, abri o aplicativo de namoro. Em Santa Catarina ele funciona um pouco melhor pra mim, o povo parece mais animado. Transei com uns quatro caras (não ao mesmo tempo, infelizmente) na cama dele. Bardo trouxe algumas namoradas e também fizemos dois ménages. Enquanto isso, tocávamos nas cervejarias da cidade para levantar a grana da barraca de teto e acabei dando sorte: um casal que tinha planejado sair em uma Kombi lendo a bíblia tinha desistido da viagem e estava vendendo a barraca de teto pela metade do preço – e essa grana eu já tinha! Corremos lá e pegamos a barraca. Obrigado por essa, Jesus!
Alguns dias depois conhecemos um alemão que se ofereceu para fazer um acabamento em madeira na Elvira. Não tinha como pagar, mas ele disse que podíamos ir pagando como fosse possível. Estava indo tudo bem, então decidimos fazer. Ficamos com o carro do Francis para os shows enquanto ele embelezava nossa casinha e fomos viajando as cidades ao redor. O calor estava insuportável naquela região e teve um dia que quase desmaiei. Bardo me jogou no carro e correu para a montanha, me jogando dentro de uma cachoeira. Ficou brincando que eu era a sereia do rio e estava morrendo longe de casa. E era mesmo!
Com a Elvira pronta, agora com armários de madeira, uma pia e a barraca de teto, seguimos para o Rio Grande do Sul. Fomos visitando todas as praias no caminho. Passamos o Natal na Praia da Armação, tocando em um camping. Nos convidaram para a ceia de Natal coletiva, mas bem na hora da janta sentimos um cheiro podre, horrível! Era o Rock que, por algum motivo, tinha achado interessante rolar sobre um peixe podre na areia. Nos retiramos, pedimos desculpas e passamos a noite esfregando o cachorro, que parecia sem salvação.
Dali seguimos para a famosa praia naturista do Pinho para o réveillon. Parecia uma ótima ideia passar o final do ano com um monte de gente pelada. Chegamos lá e trocamos nossa estadia por um show, já que eles não tinham nenhuma programação. Ficamos lá por uns dias junto com um pessoal que tinha um blog pago de fotos de naturistas. Bardo achava aquilo meio suspeito e ficou imaginando o que os assinantes faziam enquanto olhavam as fotos, mas quando nos convidaram para fazer algumas fotos para o blog, nós topamos.
No final da tarde fizemos nosso show. Cantando nua para um público nu, me senti em casa! Foi gostoso e todo mundo curtiu e se divertiu!
A noite foi meio esquisita. Durante o dia, alguns casais nos convidaram para fazer um swing na madrugada e achamos que era uma ótima ideia. Na hora da virada, todo mundo se vestiu de branco. Não entendi. Preferi ficar nua. Os casais que tinham nos convidado simplesmente nos ignoraram e saíram de perto. Será que eu quebrei o “dress code” ou algo assim? Enquanto uma turma ficou no meio da praia, outra turma foi para um canto escuro e começou uma pegação geral. Bardo animou mas eu não quis ir, não sabia quem estava lá e o que podia acontecer, não me senti segura.
Fomos então para o outro lado da praia onde um pequeno grupo tocava violão ao redor da fogueira. Eram quatro rapazes e uma moça, que pagava um boquete para um deles. Nos sentamos ali. A moça foi chegando pro lado do Bardo e começou a chupar ele também. Os rapazes começaram a me cercar, mas eu não estava mesmo à vontade. Fiquei na minha. A moça estava animada e Bardo comeu o cuzinho dela, de quatro, ali na areia mesmo. Comecei a me animar, mas um dos rapazes veio com a mão cheia de areia e tocou na minha buceta. Me deu raiva. Pedi pro Bardo para sair dali e fomos dormir. Achei frustrante.
Dali resolvemos seguir direto para Tramandaí encontrar nosso amigo Lu, que não víamos a muito tempo. Foi uma delícia reencontrar com ele, ganhar aquele abração de urso e colocar o papo em dia. Tínhamos tanto para contar um para o outro!
Finalmente nos encaminhamos para a colônia alemã. Bardo e eu íamos conversando no caminho. E se nós fôssemos o problema? Se tudo o que tinha dado errado para nós no sul foi porque nós éramos juvenis e inexperientes? Será que agora, viajados e vividos, íamos encarar tudo de outra forma? Era uma premissa a ser testada!
Chegamos na casa dos pais do Bardo. As meninas pulavam e choravam de alegria. Foram quarenta dias separados e elas não aguentavam mais de saudades. Nos abraçamos, beijamos, cheiramos e curtimos o tempo juntos. Dali fui para a casa dos meus pais. Juro que eu tentei dar um olhar fresco para aquilo tudo, mas só conseguia ver aquela velha e sem graça colônia alemã de sempre. Não suportei ficar um dia inteiro com meus pais e seus pensamentos atrasados. Pegamos as meninas e seguimos em frente.
Podíamos ter ido logo embora, mas resolvemos subir a serra e ver o que acontecia. Encontramos um casal que era dono de um bar em Nova Petrópolis uns anos atrás e que agora tinha uma pousada por lá. Nos convidaram para ficar. Aproveitamos para tocar no Natal Luz, pelo menos até os fiscais nos expulsarem de lá. Pega mal esses pedintes no meio desse glamour todo, né, arapuca de turista?
Inclusive sempre recomendei a todo mundo que me perguntava sobre Gramado conhecer tudo ao redor menos lá. A serra gaúcha tem uma gastronomia riquíssima e belas paisagens e tudo o que você encontra em Gramado tem na cidade vizinha por metade do preço. Vai por mim. Nova Petrópolis é uma gema! Se um dia você for ao sul, essa é a lista gastronômica obrigatória em qualquer cidade da serra:
Churrascaria. Apesar de conseguir encontrar algumas boas pelo país todo, não tem comparação. Carne, carne, carne! Macia, suculenta e em uma quantidade de te botar de quatro.
Galeteria. Nunca encontrei uma fora do sul. É um buffet de comida italiana: massas, calzones, polenta (que não é angu), saladas e um frango assado com um sabor que só existe lá (mas eu sei fazer em casa).
Café Colonial. Esse é pra comer rezando, mesmo que não seja cristão. É um banquete de comida alemã com tudo o que se possa imaginar e um monte de coisas que não se encontra em outro lugar do país, como a cuca. E nem vem com esses arremedos que tentam fazer em outros lugares, a cuca alemã é do sul como a moqueca é capixaba! Só tem lá. E a morcela, ou morcilha, que é uma parente do chouriço mas completamente diferente e eu também não encontrei nada parecido em outro lugar do país. Uma das coisas que eu adoro no café colonial é que eles não param de repor a mesa. Se você comeu um pão, eles trazem outro. E quando você já está abrindo o cinto, tentando respirar fundo e rebolando na cadeira para ver se cabe mais um risole a mesa ainda está intacta, como se você tivesse acabado de chegar. Já disse que amo abundância?
Por fim, o Xis. É o podrão do sul. Um hambúrguer prensado que não tem igual. E nem em Santa Catarina você encontra. Tentamos fazer ele em diversas ocasiões pelo sudeste e nunca conseguimos chegar perto do sabor. Qual será o segredo?
Voltando de Gramado, chateados, a Kombi decide travar o câmbio. Poxa, Elvira, logo aqui no sul? Perdemos todo o dinheiro que tínhamos guardado com o guincho e o conserto. Era hora de meter o pé. Tentamos voltar tocando de cidade em cidade, mas era exatamente como nos lembramos: ninguém queria dar dinheiro para músico vagabundo, pedinte, morador de rua.
Para piorar, a estrutura em madeira que o alemão tinha feito estava se desmanchando. Foi tudo muito mal feito, com material reaproveitado. Os pregos caindo. Quem usa prego em um móvel que vai tremer o tempo todo? As meninas se machucavam nas pontas de madeira soltas e ele usou um suporte que não aguentava o peso da barraca de teto, que começou a se soltar toda no caminho.
Como ainda não estava pago, decidimos voltar lá, mas não sem antes visitar de novo todo o litoral de Santa Catarina, como fizemos dois anos atrás. Não reconhecemos os lugares. A Argentina estava em crise econômica e as praias estavam vazias de turistas. Ninguém nos dava dinheiro, não tinha onde trabalhar. Os amigos que achamos que fizemos não queriam nos receber. Um teve a cara de nos mentir que tinha mudado de cidade. Também fizemos novos amigos, como um casal de mineiros que estava morando na capital das capitais.
Toda a cidade de Santa Catarina é a capital nacional de alguma coisa. Mas essa cidade não tinha comércio, indústria, agricultura, nem nada de que pudessem se orgulhar. Nem mesmo de ter sido capital do país por um dia porque Dom Pedro dormiu lá uma noite. Então o prefeito pegou as bandeiras de todas as cidades ao redor, colocou na avenida principal e a cidade se tornou a capital das capitais. É ego que chama?
Estávamos na casa desse casal no dia do aniversário do Bardo. Nós não assistimos nenhum tipo de notícia, mas na casa dos outros não se escolhe o que passa na TV. E lá estava Brumadinho debaixo da lama. De novo, gente? Qual o problema com essas empresas? Bardo chorava sentado no sofá. Tremia. Queria sair dali e dirigir direto para lá, ajudar no que pudesse. Aquele povo amado não merecia uma merda dessas. Demorei para acalmar ele e convencer de que não íamos ajudar em nada. Que era melhor usar nossas redes sociais para pedir ajuda e foi o que fizemos.
Com o pouco que fazíamos, seguimos em frente. Chegamos na casa do alemão e ele estava abatido. Estava sem energia elétrica em casa, não tinha pago a conta. Reclamamos da obra e pedimos que ele consertasse. Ele pediu que comprássemos um novo rack porque ele não tinha dinheiro pra isso. Fomos para Joinville, fizemos alguns shows e voltamos com o rack. Quando chegamos, ele tinha sequestrado nossa barraca de teto e disse que só devolvia quando recebesse pelo trabalho. Bardo tentou sua magia, mas não teve jeito: o alemão estava desesperado por dinheiro, e por pouco dinheiro, nesse caso.
Acabamos voltando lá com a polícia e pegando nossas coisas de volta. Foi um dia muito triste. A escassez fazendo seu trabalho e criando inimizades por pouca coisa. Eu realmente lamento muito.
Ainda tinha a casa do Francis para usar em Joinville então fomos para lá. Eu amo essa cidade que sempre nos tratou com muito amor e carinho. E cheia de gente gostosa! Tocamos nas choperias, nos bares e nas ruas, sempre com sucesso. Levantamos nosso caixa e seguimos viagem, voltando para Curitiba. Lá fomos recebidos pelo nosso amigo artista novamente e tocamos nos food parks que tinham virado febre na cidade. Mais uma cidade pela qual tenho muito carinho.
Mais uma vez, cruzamos o Paraná em uma tarde (perdão!) e voltamos para Itararé. A diferença de tratamento era gritante. O problema do sul não éramos nós, eram eles mesmo. Era a pobreza de alma, a casa bem pintada com um belo jardim, o carro do ano e a mesa vazia de amigos. O contraste total das “favelas” que me apavoraram em Minas Gerais e a riqueza da mesa cheia de amigos, da comida simples e abundante, do carinho, do café e do pão de queijo.
Sentamos, Bardo, eu e as kids, no gramado das trincheiras de Itararé. Choramos. Será que essas pessoas percebem a desgraça em que vivem? Puxei um papel, um lápis, e escrevi:
Onde estão seus amigos, Catarina?
Já se foram outra vez
A parede bem pintada, o jardim belo e florido
Perceberam outra vez
Onde está sua luz, Juliana?
Apagaram outra vez
Tua roupa bem cortada, a pele bem hidratada
Perceberam outra vez
Abre a porta e deixa o sol entrar
Deixa o mofo morrer
Quem quiser pode ver
Que a mesa tá vazia
Que deseja companhia
Que tem mais a oferecer
Deixa o calor entrar
Deixa eu te dar um beijo
O cheiro do amor
É de café e de pão de queijo
De volta ao sudeste, respirei fundo. Aqui eu sou bem vinda.
