Capítulo 1 – Gênese

Como todo mundo eu cresci sem nenhuma educação sexual. Por um lado sou grata por ter tido uma jornada deliciosa de descoberta, por outro lado sou grata pela sorte de não ter sido abusada no processo e por outro lado (quantos lados isso pode ter?) eu condeno meus pais, o padre, meus professores, minha família e todo mundo que estava ao meu redor enquanto eu crescia.

Aos seis anos de idade tive que operar meu apêndice. Foi horrível. Tenho memórias do desespero no rosto da minha mãe, da ambulância, do hospital. Da enfermeira me pegando na janela porque eu pensei, por algum momento, que poderia sair voando dali.

Meu longo e belo cabelo ruivo teve que ser cortado curtinho e fiquei parecendo um menino. Recuperada, fui brincar com eles na rua soltando pipa. Correndo no sol, todos ficamos com calor. Os meninos tiraram a camiseta e continuaram a correr. Tirei também, bem mais fresquinho!

Minha mãe me viu correndo sem camisa com os meninos e veio correndo desesperada. Levei uma surra. Não fez o menor sentido pra mim. Estava calor, tirei a camiseta!

– Não pode, é menina.

No dia seguinte fui brincar de novo e, sem ela ver, tirei a camiseta. Entre as crianças, nada de especial. De cabelo curto e corpo de criança eu era só mais um moleque sem camisa correndo atrás da pipa. A maldade está nos olhos de quem vê.

Ali, muito jovem pra entender, já me veio um questionamento que me acompanharia para a vida: qual o problema com a nudez?

***

… Devolvi o livro ao seu lugar e fui jantar em silêncio. Ao invés de respostas tinha ainda mais perguntas e não podia perguntar aos meus pais. Quase não consegui dormir, atormentada pela coceira e pelos leões que iam devorar aquele homem.

Nos meses seguintes continuei lendo o livro todos os dias. Meus pais estavam orgulhosos e comentavam com o padre e as pessoas sobre meu grande interesse no livro de deus. Em algum momento eu desisti de ler e comecei a passar as tardes admirando as imagens. Me identificava com as mulheres que eram na sua maioria ruivas e tinham aquele desenho de ventre igual o meu.

Percebi que todos os homens tinham aquela coisa entre as pernas. E que nas pinturas as pessoas estavam o tempo todo tocando umas nas outras. Era diferente do que eu estava acostumada a ver ali naquela colônia alemã e italiana em que vivia. Pessoas sempre vestidas e que mal se abraçavam. Talvez por isso o padre precisava insistir tanto no domingo que as pessoas olhassem mais a bíblia.

***

Entre frases em italiano, alemão e polonês fui captando alguma coisa. Elas falavam muito sobre os homens e aquela coisa no meio das pernas deles. Parece que ela era mole e pequena, ou brocha, mas quando recebia algum tipo de carinho ficava dura e macia ao mesmo tempo. O tom de voz delas sempre mudava e elas falavam mais baixo, com aquele olhar, sobre isso.

Entendi que essa coisa dos homens encaixava bem no lugar da coceira e, aparentemente, era feita para coçar mesmo. Depois descobri que não era só onde iam meus dedos, pelo lado de fora, mas mais fundo. Me escondi no quarto e, coberta para o homem da cruz não anotar no caderninho, coloquei o dedo para dentro. Doeu, não quis mais tentar.

Elas chamavam a coisa do homem de pinto, apesar da completa falta de semelhança. Não tem penas, bico, patas, não faz barulho nenhum e não come milho. E uma delas disse que colocou o pinto de um homem na boca. Eca. Elas riram, parecia ser uma coisa boa.

***

Me escondendo do meu pai fomos para os fundos e nos beijamos. Esse já era um pouco melhor – ou será que eu estava aprendendo?

Em um lugar mais escondido e confortável, a mão dele foi escorregando do meio das minhas costas para a minha bunda. Arrepiei e me molhei toda. Também me assustei. Puxei a mão dele de volta pra cima. Mais uns beijos, mais uma tentativa de mão boba. Ficamos nesse vai e vem por um tempo até que me senti confortável e deixei. Ele segurou minha nádega firme, deu uma apertada. Soltei um gemido e ele riu.

Foi então que senti um volume na coxa dele contra a minha. Foi como se todas aquelas imagens da bíblia passassem na minha cabeça em um segundo. Empurrei ele e saí correndo pro carro. Sozinha e segura, me masturbei…

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