Capítulo 1 – Gênese

Como todo mundo eu cresci sem nenhuma educação sexual. Por um lado sou grata por ter tido uma jornada deliciosa de descoberta, por outro lado sou grata pela sorte de não ter sido abusada no processo e por outro lado (quantos lados isso pode ter?) eu condeno meus pais, o padre, meus professores, minha família e todo mundo que estava ao meu redor enquanto eu crescia.

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Uma nota séria sobre sexo e crianças: não combina. Não preciso nem ir pro campo moral para discutir isso: a medicina nos prova que precisamos deixar o corpo humano se desenvolver até a maioridade para se reproduzir. Podemos sentir tesão antes disso? Claro que sim e isso deve ser acompanhado de uma jornada solitária de descoberta do próprio corpo, apoiada por informação suficiente e uma rede de proteção das pessoas ao redor.

Isso me leva a outra nota mais séria ainda: para mim, todo o tesão e todos os fetiches devem ser respeitados. O estado de espírito que entramos durante o tesão é uma coisa magnífica, da mais alta ordem física e espiritual e deve ser tratado com a devida honra e admiração. Fica aqui o limite que eu gostaria que todo mundo concordasse: que todo o tesão aconteça entre humanos com plenas falcudades mentais e idade biológica adequada.

Dito isso, sei que não posso evitar que esse capítulo desperte o tesão de adultos em uma adolescente e isso não deve me impedir de dividir essa parte da história com você. Meu maior desejo com isso é que esse relato possa ajudar outros e outras adolescentes sem educação sexual e adultos que estejam educando outras pessoas a ter um pouco mais de clareza e prazer na sua jornada, além de evitar qualquer abuso.

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Aos seis anos de idade tive que operar meu apêndice. Foi horrível. Tenho memórias do desespero no rosto da minha mãe, da ambulância, do hospital. Da enfermeira me pegando na janela porque eu pensei, por algum momento, que poderia sair voando dali.

Meu longo e belo cabelo ruivo teve que ser cortado curtinho e fiquei parecendo um menino. Recuperada, fui brincar com eles na rua soltando pipa. Correndo no sol, todos ficamos com calor. Os meninos tiraram a camiseta e continuaram a correr. Tirei também, bem mais fresquinho!

Minha mãe me viu correndo sem camisa com os meninos e veio correndo desesperada. Levei uma surra. Não fez o menor sentido pra mim. Estava calor, tirei a camiseta!

– Não pode, é menina.

No dia seguinte fui brincar de novo e, sem ela ver, tirei a camiseta. Entre as crianças, nada de especial. De cabelo curto e corpo de criança eu era só mais um moleque sem camisa correndo atrás da pipa. A maldade está nos olhos de quem vê.

Ali, muito jovem pra entender, já me veio um questionamento que me acompanharia para a vida: qual o problema com a nudez?

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Foi mais ou menos nessa época que meu pai chegou em casa de mais uma turnê. Ele passava tanto tempo fora que às vezes eu não reconhecia ele e chamava minha mãe pensando que algum vendedor de Barsa ou Testemunha de Jeová estava batendo no portão. Dessa vez ele tinha me deixado uma tarefa: que eu ouvisse algumas fitas K7 e tentasse cantar.

Um tesouro. As gargantas de ouro do Brasil todas ali comigo. Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Milionário e José Rico e por aí vai. Eu passava meus dias ouvindo as fitas, decorando as letras e tentando imitar as duas vozes dos cantores.

Quando ele voltou eu estava pronta. Parada na sala com uma colher de pau na mão como se fosse um microfone. Ele parou na porta. Estava abatido, cansado de uma maneira que eu só ia compreender anos depois. Abri a boca e comecei a cantar. Nas primeiras notas pude ver seus olhos opacos ganhando brilho, um sorriso abrindo caminho à força no seu rosto. Ele estava abismado com o que via e ouvia. Já o olhar da minha mãe tinha um ar de desespero, como se ela previsse o que vinha pela frente.

Uma semana depois eu me apresentava em cima de uma mesa de refeitório na Sadia de Chapecó. O olhar incrédulo do meu pai se espalhava para todos os rostos. Aquela coisinha ruiva de 6 anos abrindo a garganta como se fosse um pássaro e deixando todo mundo maravilhado. Dali, para cima de um caminhão e em um palco para milhares de pessoas.

Quando percebi passei meus 7, 8, 9 anos de idade na estrada. Estudava em envelopes amarelos que minha mãe buscava e levava para a escola. Eram os incríveis anos 80 e se podia muito mais do que se pode hoje – nunca vou saber se para o bem ou para o mal. Eu cantei em bailes que viravam a noite com pessoas fumando e bebendo ao meu redor, cantei nas ruas em festas populares, cantei na igreja e na zona.

Aos 10 anos de idade já tinha estrada nas costas e nos anos seguintes voltava cada vez menos para casa, morando dentro de uma Caravan 82 com meu pai, de cidade em cidade alegrando as pessoas com a minha voz cada vez mais poderosa. Já sabia dirigir e atirar e tinha passado por muitas aventuras.

Em uma delas meu pai e eu procurávamos um lugar seguro para dormir depois de um show na madrugada. Eu estava escorada na janela, tentando me manter acordada e conversando para manter meu pai acordado. Da completa escuridão na nossa frente dois faróis redondos de acenderam, parados na estrada.

Um Opala. Meu pai conseguiu desviar, acelerou e começaram a nos perseguir. A Caravan voava na estrada e o Opala atrás, tentando alcançar. Ouvimos tiros. Chegamos a uma interseção e nela vários outros carros nos aguardavam. Não tivemos opção senão parar.

Vários homens desceram dos carros e o motorista do Opala parou do nosso lado. Arma em punho, pediu para meu pai descer. Deixa eu te contar sobre meu pai: um homem lindo, ruivo com os cabelos de juba e completamente maluco. Ele me olhou e disse: abaixa a cabeça.

Arrancando o carro nos jogou contra os carros estacionados, fazendo espaço e fugindo. Ouvi muitos tiros. Eles ainda tentaram perseguir mas nenhum dos carros deles fez vez à nossa Caravan. Só mais um dia nas estradas do sul.

***

Vários anos depois, arrepios pelo corpo todo. Não sabia o que aquilo significava e já tinha medo o suficiente dos adultos para saber que não era possível perguntar. Piorava: eu nem sabia quais eram as perguntas certas. Era gostoso e assustador ao mesmo tempo. Seria uma doença? Será que mais alguém sentia aquilo?

Como é da natureza humana fui direto cutucar na ferida. E dessa foi diferente de um arranhão, de um corte, de arrancar uma casquinha. Dessa vez colocar os dedos onde estava coçando foi uma experiência surreal.

Foi como ligar um botão que nunca mais se desligou. Se eu estava sozinha, sem nenhum adulto assustador por perto, meus dedos estavam lá. Não tinha a menor ideia do que estava fazendo, não entendia o que era aquele líquido que jorrava cada vez mais longe quando minhas pernas tremiam e meus olhos viravam. Eu não sabia que estava chegando ao orgasmo.

Eu sabia que tinha que me esconder. Quando os adultos ao meu redor conversavam eu percebia que as vezes ficavam diferentes. Eu via eles trocando olhares miúdos, ficando vermelhos, dando risadas envergonhadas e agindo de forma muito esquisita. Alguém me via prestando atenção e dava tapas nos outros para que mudassem de assunto. Pareciam diabretes conversando sobre um plano maligno.

As dúvidas e se esconder dos adultos eu estava tirando de letra. O verdadeiro problema começou em um domingo de manhã, na igreja. Minha família é católica, italiana e a missa era sagrada. Naquele dia o padre falava para as crianças e adolescentes que deus estava vendo tudo o que fazíamos. Ele sabia de tudo, estava em todos os lugares e não só estava vendo mas também estava anotando em um caderninho que seria lido no dia do juízo final.

Senti minha cabeça girar e perdi o chão. Eu já estava condenada. Comecei a me deprimir, não queria mais viajar nem cantar. Deitava na cama com aquela coceira chamando meus dedos e mordia as unhas. Um homem pregado em uma cruz na parede do meu quarto, a cabeça se esvaindo em sangue, me olhava de cima pra baixo só esperando eu ceder para fazer mais uma anotação no meu nome.

Corri para o único lugar que eu sabia que podia me salvar. Em cima de uma mesa reservada só para isso na casa, ao lado de um revólver sempre carregado, estava um livro. Grande, pesado, com a capa preta e as páginas em belas folhas de bordas douradas. Se tinha uma resposta para o que eu sentia, ela estava ali. Com esforço peguei o livro e corri pro meu quarto. Sentei na cama e abri.

Na dúvida, leia a bíblia, o padre disse também. Eram muitas páginas, então resolvi começar do início. Era uma história sobre deus criando coisas e eu não estava entendendo muito bem. Precisei pegar um dicionário, não sabia o que a palavra firmamento significava. Depois vieram os peixes e as aves e deus disse a eles que fossem férteis. Parti de novo para o dicionário.

  1. Biologia. Capaz de reproduzir-se.
  2. que possui alta capacidade repodutiva, fecundo.

Como assim, reproduzir-se? Bíblia de lado, dicionário na mão, seguimos na descoberta.

  1. exibir, mostrar novamente.
  2. produzir de novo.

Não entendi nada. O dicionário não estava ajudando. Voltei para a bíblia, onde deus fez os outros animais e fez os homens para reinar sobre tudo o que ele fez, inclusive mandando o homem ser fértil e reproduzir também. Segundo o dicionário, deus queria que o homem exibisse tudo o que ele criou. Deve ser por isso que inventamos o zoológico.

Isso não respondia nada sobre minha coceira. Segui em frente. Horas se passaram. Da bíblia para o dicionário, do dicionário para a bíblia e finalmente encontrei alguma coisa interessante: uma ilustração. Era uma pintura linda, dessas da antiguidade, e algo imediatamente me chamou a atenção: as pessoas estavam nuas e tinha algo muito errado com os homens, uma coisa que saía deles bem ali na parte que me dava a coceira.

Deixei o dicionário de lado e segui folheando as páginas e admirando as ilustrações. Já estava apertando os olhos para enxergar na escuridão do fim da tarde quando me deparei com Daniel na cova dos leões. Aquele homem nu, prostrado, e os leões ao seu redor. Aquela imagem imprimiu na minha mente com tanta força que nunca mais me esqueci.

Devolvi o livro ao seu lugar e fui jantar em silêncio. Ao invés de respostas tinha ainda mais perguntas e não podia perguntar aos meus pais. Quase não consegui dormir, atormentada pela coceira e pelos leões que iam devorar aquele homem.

Nos meses seguintes continuei lendo o livro todos os dias. Meus pais estavam orgulhosos e comentavam com o padre e as pessoas sobre meu grande interesse no livro de deus. Em algum momento eu desisti de ler e comecei a passar as tardes admirando as imagens. Me identificava com as mulheres que eram na sua maioria ruivas e tinham aquele desenho de ventre igual o meu.

Percebi que todos os homens tinham aquela coisa entre as pernas. E que nas pinturas as pessoas estavam o tempo todo tocando umas nas outras. Era diferente do que eu estava acostumada a ver ali naquela colônia alemã e italiana em que vivia. Pessoas sempre vestidas e que mal se abraçavam. Talvez por isso o padre precisava insistir tanto no domingo que as pessoas olhassem mais a bíblia.

***

Meus pais brigavam muito. Levei um tempo para entender que minha mãe, agora com mais dois filhos, queria a família toda em casa. Meu pai argumentava que precisava ganhar dinheiro mas ela já tinha construído um pequeno mercado que pagava as contas. Brigaram ainda mais. No fim ele saiu para uma turnê e me deixou em casa.

Voltei a frequentar a escola onde me sentia um peixe completamente fora d’água. Eu já tinha visto tanto mundo, passado por tanta coisa que todo mundo ali parecia completamente retardado. Até mesmo as professoras me pareciam bobas e sem experiência de vida.

Ficava na minha, tirava 10 em tudo e apanhava todos os dias na saída. Eu era bonita demais, elas diziam. Já os meninos não tinham a mesma opinião. Me chamavam de barata branca, de tábua, de alemoa aguada. Minhas colegas tinham seios protuberantes e bundas enormes e eu toda pequenina e magrinha. Ninguém se interessava em mim.

Na hora do recreio eu passava bastante tempo sozinha olhando as meninas beijando os meninos pelos corredores. Aquilo não me despertava nada e eu não via graça nenhuma. Depois da aula, algumas delas iam para uma construção abandonada atrás da escola com os meninos. O que elas faziam lá eu não sabia, mas deus estava vendo.

Um dia uma menina se aproximou de mim. Mais tímida que eu, ficamos amigas. Pensando na bíblia, eu encostava nela o tempo todo. Fazia carinho, penteava o cabelo, maquiava e fazia as unhas. Logo mais uma amiga chegou e passávamos nosso tempo nessa atividade de cuidar umas das outras. As esquisitas.

Finalmente, em uma festa da escola, um menino me beijou. Foi a coisa mais nojenta. Ele babou em mim e batemos os dentes. Definitivamente aquilo não era pra mim. Minhas amigas não gostaram do que eu fiz, ficaram muito magoadas. Me mandaram uma cartinha, naqueles antigos papéis de carta ilustrados, me dizendo que não seriam mais minhas amigas.

***

Sem muito o que fazer, sem poder viajar e cantar, sem amigas e cansada do livro que não respondia nada, ficava sentada ouvindo minha mãe conversar com as amigas. Com meu pai fora de casa, não reconhecia minha mãe, era outra pessoa. Bebia e fumava com as amigas e falava sobre assuntos fora da minha compreensão.

Entre frases em italiano, alemão e polonês fui captando alguma coisa. Elas falavam muito sobre os homens e aquela coisa no meio das pernas deles. Parece que ela era mole e pequena, ou brocha, mas quando recebia algum tipo de carinho ficava dura e macia ao mesmo tempo. O tom de voz delas sempre mudava e elas falavam mais baixo, com aquele olhar, sobre isso.

Entendi que essa coisa dos homens encaixava bem no lugar da coceira e, aparentemente, era feita para coçar mesmo. Depois descobri que não era só onde iam meus dedos, pelo lado de fora, mas mais fundo. Me escondi no quarto e, coberta para o homem da cruz não anotar no caderninho, coloquei o dedo para dentro. Doeu, não quis mais tentar.

Elas chamavam a coisa do homem de pinto, apesar da completa falta de semelhança. Não tem penas, bico, patas, não faz barulho nenhum e não come milho. E uma delas disse que colocou o pinto de um homem na boca. Eca. Elas riram, parecia ser uma coisa boa.

O nome da coisa das mulheres era perereca. Nunca vi uma que fosse rosinha, mas de fato estava sempre molhada. Uma delas disse que um homem colocou a boca na perereca dela e que ela gostou muito. Eca de novo. Que gente esquisita.

Depois de um tempo meu pai voltou de viagem e minhas amigas resolveram fazer as pazes. Elas foram me visitar e quando meu pai viu como estávamos sendo carinhosas umas com as outras as expulsou de casa aos berros. Não entendi nada.

Minha mãe não recebeu mais as amigas.

Meu pai estava eufórico. Conseguiu uma entrevista em um canal da televisão local e quis me levar com ele. Quando cheguei na emissora parecia que estava em casa. Tinha brincado tanto de ser uma apresentadora de programa que dei a entrevista com naturalidade e cantei.

No dia seguinte trinta meninas me esperavam na escola. Fui espancada. Bonita demais e aparece na TV. Quando cheguei em casa meu pai arrumava as malas para outra turnê. Arrumei as minhas também. Nunca mais coloco meus pés nessa cidade.

O êxodo.

Colocamos o equipamento no carro e abracei minha mãe. Só pensava em levar ela e meus irmãos para qualquer lugar melhor que aquela colônia de gente ignorante. Peguei a estrada com sangue nos olhos e não deixei meu pai parar em nenhuma cidade que conhecíamos no caminho. Só paramos em um posto de gasolina distante na rodovia.

Eram mais de 1.100 km entre o lugar que eu estava e a grande capital que queria chegar. Enquanto minha ideia era encher o tanque e fazer tudo isso em um dia meu pai queria conhecer o caminho e ir trabalhando e ganhando dinheiro até lá.

Os caminhoneiros eram os nossos maiores fãs pois cantávamos o melhor do sertanejo raiz e algumas músicas mais atuais e famosas. Nosso modo de operação naquele momento era chegar em algum restaurante na beira da estrada e pedir para cantar em troca do almoço. Conseguindo isso era fácil vender fitas K7 e os primeiros CDs para esse público distinto.

Era a minha estratégia para nos mantermos na rodovia e não entrar nas colônias alemãs. Precisava mostrar para o meu pai que existia muito mais mundo que aquilo mesmo que nem eu soubesse se isso era mesmo verdade.

Eu precisava ver no mundo real o que eu via na televisão. São Paulo e suas enormes cidades com os grandes palcos onde se apresentavam os artistas que eu admirava. Eu queria conhecer a Sandy que tinha a minha idade e era muito famosa. Será que um dia eu poderia cantar com ela?

Cantamos no restaurante. Estava lotado. As pessoas chegavam, comiam, nos ouviam cantar, compravam uma k7 e iam embora. Chegava mais gente. Quando me dei por conta já estava cantando por mais de quatro horas seguidas. Meu pai sorria de orelha a orelha vendo a caixa de fitas e CDs se esvaziando e o bolso cheio de dinheiro.

De vez em quando eu fazia um intervalo e passava de mesa em mesa vendendo. Todo mundo elogiava minha voz e minha beleza. Eu fazia questão de dizer que estava tentando chegar em São Paulo e as pessoas compravam alguma coisa ou simplesmente me davam dinheiro para me ajudar a realizar meu sonho.

Um homem me chamou para perto dele e, no meu ouvido, disse: vamos lá no meu caminhão fazer um sexo que eu te dou bastante dinheiro. Eu tremi. Me deu um arrepio na espinha e minha calcinha molhou toda. Ele segurava meu braço com aquele olhar de diabrete. Logo um alerta acendeu na minha cabeça, aquilo ali estava muito errado. Me soltei e corri de volta para o palco.

Peguei o microfone e falei: aquele moço ali me ofereceu dinheiro para eu ir ao caminhão dele. Um por um os caminhoneiros foram se levantando e indo na direção do homem. Ele foi expulso do restaurante e do posto de gasolina.

Eu não iria com ele para o caminhão, nem naquele dia e nem hoje, só não vou mentir que não fiquei molhada com a proposta dele. Foi a primeira vez que um homem, não um menino, olhou para mim com aquele olhar de diabrete e eu me vi desejada. Alguma coisa mudou em mim naquele exato momento. Olhando para o público, podia ver os olhares de desejo para mim, agora uma quase mulher.

Quase desmaiei de tanto cantar. O almoço e a janta tornaram-se um evento só. Exausta, comi e fui para a Caravan dormir em uma cama improvisada. Meu pai ficou guardando o equipamento e, enquanto ele não vinha, me masturbei pensando naqueles desejos. Dormi. Um sono difícil, conturbado, cheio de pesadelos. Não é fácil dormir no carro.

Na manhã seguinte acordei toda molhada. Um cheiro muito forte. Meu pai já tinha saído então coloquei a mão na calcinha. Estava ensopada. Quando tirei a mão e fui ver era sangue.

Me sentei rápido, segurando um grito. O que era aquilo? Me lembrei de duas coisas na hora e nenhuma delas era um pensamento bom: primeiro o padre me dizendo que deus estava vendo tudo e depois minha mãe falando com as amigas sobre câncer.

As duas ideias se juntaram em uma. Me masturbei, deus me deu câncer e eu vou morrer. Entrei em completo desespero. Não conseguia respirar. Eu ia sangrar e ia pro inferno onde ia queimar no mármore porque não conseguia segurar meus dedos e a minha coceira. Aquele homem no restaurante era o diabo e eu caí em tentação. Estava condenada.

Saí tropeçando. Meu pai conversava com o frentista do posto. Me escondi dele e fui me esgueirando pelas paredes me segurando para não desmaiar. Eu não queria morrer ali daquele jeito. Entrei no banheiro, tirei minha roupa e fui pro chuveiro. Tomei um banho vendo o sangue escorrer sem parar de dentro de mim. Minhas mãos tremiam, minhas pernas também. Me escorei na parede e chorei.

Uma mulher entrou no banheiro e me ouviu. Bateu na porta. Me assustei e tentei segurar o choro. Ela perguntou se estava tudo bem e eu não me aguentei, comecei a chorar e soluçar ainda mais. A moça espiou por debaixo da porta, eu ali escorada na parede, a água batendo e as pernas sangrando.

– Quer ajuda, mocinha? – Ela disse.

Fiquei só chorando e soluçando. Não queria que ela chamasse meu pai. Ele ia me bater e eu ia pro inferno de vez. Desistindo, ela deixou uma pequena embalagem debaixo da porta e saiu.

Depois de um tempo parei de sangrar. Desliguei o chuveiro, um pouco mais calma, e peguei o pacote. Eu já tinha visto aquilo no mercadinho da minha mãe mas nunca soube o que era e nunca tive curiosidade de perguntar. Agora estava curiosa. Abri e um pano em um formato parecido com uma calcinha apareceu. Li: absorvente higiênico.

Tinha uma cola e eu imaginei que pudesse ser uma espécie de band-aid para colocar na perereca com câncer. Colei na minha pele e me vesti de novo. No espelho meu rosto parecia uma batata vermelha e eu ainda soluçava um pouco.

Entrei no carro e esperei meu pai. Ele entrou e me ofereceu uma coxinha, sem perceber meu rosto inchado. Pegamos a estrada e fui comendo. Coxinha é o pão do viajante, e eu amo. Tem até uma piada.

A menina chega para a mãe e pergunta:
– Mãe, por que o nome da minha prima é Rosa?
– Porque a sua tia gosta muito de rosas. – responde a mãe.
– E o meu nome é por que?
– Você faz muitas perguntas, Coxiane de Catupirelen!

Existe uma outra versão da piada em que o nome da menina é Roliane.

Escorei o rosto no vidro. Não existe coisa mais gostosa no mundo do que ficar vendo a paisagem passar. Fiquei pensando por muito tempo e finalmente encontrei uma pergunta que podia fazer para o meu pai.

– Quanto tempo leva para morrer de câncer?

Ele me olhou assustado. Que pergunta para se fazer assim, do nada! Então começou a me contar um monte de histórias de parentes, vizinhos, e conhecidos. Alguns tinham vivido poucas semanas, outros tinham vivido por 15 anos. Eles definhavam na cama e alguns tentavam tratar e perdiam todo o cabelo e acabavam morrendo mesmo assim. Eram metade dos anos 90 e os tratamentos de câncer ainda eram muito precários.

A cada história que ele contava eu engolia um choro. Não sei como consegui. Que arrependimento de ter perguntado. Quando chegamos no próximo restaurante eu tinha uma bolha na garganta e estava prestes a explodir. Ele desceu do carro, pegou o violão e entrou no restaurante. Me sentei na calçada e chorei. Eu ia sangrar por algumas semanas, talvez 15 anos, perder todo meu cabelo e depois ia morrer. E tudo isso por causa de uma coceira na perereca.

Falando nisso, aquela cola estava me incomodando, puxando meus pentelhos. Estava muito desconfortável mas eu não podia mexer para o sangue não escapar e meu pai ver que tenho câncer. Eu nem sabia se ele ia ficar triste ou se ele ia saber que eu mexi na perereca e me matar ele mesmo. Tive uma ideia.

Peguei a embalagem e saí caminhando pelo posto. Encontrei uma mulher e perguntei se ela tinha um desses para me dar, já que não tinha mercadinho ali. Consegui na primeira. Depois fui entender que existe um pacto silencioso entre todas as mulheres do mundo: nunca se nega um absorvente para ninguém. Até hoje eu carrego um extra na bolsa, mesmo quando não estou nos dias.

Agradeci quase chorando e guardei comigo. Ela só fez um sinal com a cabeça como alguém que não fez mais que sua obrigação. Meu pai já havia voltado e estava pegando o equipamento. Respirei fundo e me preparei para mais algumas horas de música.

Logo estava no palco. Restaurante lotado e aquela mesma rotina: cantar, fazer um intervalo, vender as fitas, pegar o dinheiro. Quem canta seus males espanta, diz o ditado, e logo eu tinha esquecido do sangue, do câncer e do band-aid arrancando meus pentelhos. Minha atenção já tinha se voltado aos olhares de desejo de novo. Senti me molhar.

O olhar dos homens me assustava. Era uma energia que eu sentia não estar pronta para lidar. Foi um garçom, rapaz novo, que acabou captando meu olhar. Ele passava por mim me olhando não com aquele olhar de diabrete, mas um olhar encantado e apaixonado.

Depois de longas horas de trabalho finalmente pude comer e sair dali de volta para o carro. O rapaz saiu para a porta do restaurante e eu fiquei olhando para ele. Ele olhava de volta para mim. Eu mexia no cabelo, ele fazia de conta que não estava me olhando. Ficamos assim, como dois idiotas, por muito tempo. Honestamente eu não fazia a menor ideia do que fazer se ele chegasse perto e pelo jeito ele também não. Finalmente ele pegou uma carona e foi embora.

Foi meu primeiro flerte e eu estava toda molhada. Senti a coceira e meus dedos tremeram. Foi quando a realidade me deu um soco no estômago. O câncer! Tentei correr para o banheiro mas no primeiro pulo o absorvente arrancou meus pentelhos. Segurei um grito de dor e me agachei. Pior que bater com o dedinho na quina. Me recuperei e saí me arrastando.

Entrei na cabine de banho, tirei a saia, a calcinha e tentei puxar o band-aid. Colado. Terrivelmente colado. Comecei a chorar de novo. Depois de um tempo, tive uma ideia. Me lembrei que quando usava curativo no machucado e molhava ele saía sozinho. Liguei o chuveiro e coloquei a perereca debaixo d’água. Levou um bom tempo e a água quente finalmente começou a soltar a cola. Ainda com muito esforço e perdendo muitos pentelhos no processo, saiu.

Conferi o sangue. Ainda estava lá. Peguei o outro absorvente e olhei para a cola. Minha virilha estava toda vermelha, com metade dos pentelhos. E se eu colar na calcinha, será que funciona?

Tentei dormir, mas não consegui. O choro veio de novo mas não podia acordar meu pai. Pensei que devia engolir o choro de vez e aceitar que eu tinha errado, que tinha pecado e que meu destino de condenada era certo. Peguei o terço que carregava no porta luvas e comecei a rezar Ave Marias. Rezei até adormecer.

Nos dias seguintes tentei me concentrar melhor e parar de pensar na coceira, mesmo que ela não me deixasse dormir. Quando estava livre, rezava sem parar mas enquanto cantava sentia aquele fogo dentro de mim. Chegava no carro e rezava até dormir. Alguns dias depois parei de sangrar.

Mais um dia, mais um posto, outro restaurante e a mesma rotina. Tivemos que encomendar mais fitas e CDs – foram 18 mil cópias no total, todas vendidas de mão em mão. Em cada restaurante uma paquera. Os moços não tinham coragem de falar comigo e eu não tinha coragem de falar com eles e assim foi por algumas semanas.

Eu estava sentada em cima do carro quando esse moço chegou perto. O olhar dele era menos bobo que os dos outros. Puxou assunto, nem lembro o que, e em alguns minutos estava na sombra de uma árvore, onde meu pai não podia ver, beijando. O beijo dele não era muito bom, só era definitivamente melhor que aquele da escola. Menos saliva e sem dentes batendo.

Esse eu considero meu primeiro beijo para valer. Apertava o corpo dele contra o meu. As mãos dele no meio das minhas costas, bem comportadas. Me molhei toda. Um pensamento intrusivo tentava me dominar dizendo que aquilo era muito errado, eu não conseguia concordar. Estava muito gostoso.

Meu pai voltou e eu saí correndo. Fui pro carro e fiquei olhando para o teto com borboletas no estômago. Como é gostoso beijar alguém e a sensação de ser querida. Com menos culpa no coração puxei o terço e dormi com as repetições de Ave Maria. Mais uma noite de sono conturbada.

Na manhã seguinte, sangue. Já estava tão triste que não tinha mais espaço para desespero. Ninguém escapa da ira divina. Me levantei sem que meu pai percebesse, me arrastei pro banheiro e tomei um banho demorado. Além do sangue dessa vez sentia uma dor lancinante. Na minha cabeça diabretes espetavam minha barriga com pequenos tridentes.

Talvez eu não vá durar muito.

Sentei na pia só de calcinha e esperei alguma mulher entrar. A infeliz que abriu a porta parecia pior que eu, pálida, se arrastando. Ela me olhou, esboçou um sorriso e foi lavar o rosto. Abriu a bolsa e começou a tirar tudo de dentro, desesperada. Vi batom, alicate de unha, carteira e, finalmente, absorvente higiênico! O que ela procurava veio logo depois: uma cartela de comprimidos. Ela tirou um com as mãos tremendo e engoliu bebendo água da torneira com as mãos.

Ela se olhou no espelho e respirou fundo. Virou para mim e disse:

– Cólica é foda, né?
– Você também tá com câncer? – Respondi.

A boca dela se tornou uma linha e ela travou o olhar em mim. Me olhou de cima abaixo. Eu quis agarrar aquele segundo de atenção dela com todas as minhas forças, mas um choro veio lá do fundo e eu explodi. Devo ter dito algo mais ou menos assim:

– Eu cocei a minha (fungada) perereca e deus (soluço) me deu câncer e (tosse) agora tá saindo sangue (outra fungada) e tá doendo e eu ainda quero (outra tosse) coçar minha perereca e (outro soluço) eu vou pro inferno e (choro).

Ela foi se desmanchando enquanto eu falava. Pegou a embalagem de absorventes e chegou perto de mim, vendo minha calcinha forrada de papel higiênico. Sem falar nada, me ajudou a colocar o absorvente (a cola realmente fica no tecido e não na pele) e me deu um dos comprimidos dela. Quando eu finalmente parei de soluçar, ela me disse:

– Você não está com câncer. Você está menstruada. É a primeira vez? – respondi que não. Ela perguntou se minha mãe estava por perto e comecei a chorar de novo. Deu vontade de voltar pra casa. Ela me disse para sempre carregar os absorventes e os comprimidos comigo e me deixou os que estavam com ela. Me deu um abraço e saiu, ainda se arrastando de dor.

Devidamente equipada, voltei para o carro. Meu pai me esperava com café e coxinha. Partimos para o próximo lugar. Comi minha coxinha, tomei meu café, abri a janela e coloquei meu rosto no vento. Eu não tenho câncer!

***

Eu sou uma exibicionista. Amo ser vista. No palco, na rua e na sua tela. E ao mesmo tempo eu sou tímida. Não tinha coragem de chegar perto dos moços, das minhas paqueras. Segui de restaurante em restaurante com meus flertes bobos, com os olhares inocentes.

Foram só algumas menstruações depois que outro rapaz finalmente teve coragem de chegar perto e conversar. Eu já tinha até esquecido de como tinha sido da última vez. Me escondendo do meu pai fomos para os fundos e nos beijamos. Esse já era um pouco melhor – ou será que eu estava aprendendo?

Em um lugar mais escondido e confortável, a mão dele foi escorregando do meio das minhas costas para a minha bunda. Arrepiei e me molhei toda. Também me assustei. Puxei a mão dele de volta pra cima. Mais uns beijos, mais uma tentativa de mão boba. Ficamos nesse vai e vem por um tempo até que me senti confortável e deixei. Ele segurou minha nádega firme, deu uma apertada. Soltei um gemido e ele riu.

Foi então que senti um volume na coxa dele contra a minha. Foi como se todas aquelas imagens da bíblia passassem na minha cabeça em um segundo. Empurrei ele e saí correndo pro carro. Sozinha e segura, me masturbei.

***

A viagem estava muito devagar. Era como se São Paulo fosse no fim do mundo ou como se não existisse. Uma terra mágica da televisão, Oz, Nárnia, A Terra Média. Já fazia quase um ano que íamos de cidade em cidade, de restaurante em restaurante.

Eu tentava ser feliz ali, no durante. Mais uma cidade, mais uma paquera. Aos poucos fui me acostumando com a mão na bunda, com o volume deles na minha virilha. Esses eram os moços, os meninos bobos. Eu sabia que os homens faziam muito mais que isso e minha curiosidade só crescia.

Ainda assim eles me assustavam. Naquele dia eu cantava com muito ânimo. Um homem me olhava da mesa mais perto do palco. Ele era bonito e eu olhava de volta. Os olhos de diabrete criando imaginações na cabeça dele e na minha.

No intervalo fui ao banheiro. Quando lavava minhas mãos ele entrou e veio na minha direção. Os olhos faiscavam e ele abria a calça. Fiquei paralizada. Ele chegou em mim e levou a mão na minha cintura, mas antes que pudesse me pegar ouvi o engatilhar do revólver. Meu pai estava na porta, arma em punho, perguntando se o homem estava precisando de alguma coisa.

Ele foi embora e eu fiquei com medo de verdade. Também percebi que meu pai observava bem mais do que eu imaginava. Eu definitivamente não estava pronta para um homem.

***

Faltava muito pouco. Mais alguns restaurantes e eu poderia ver as grandes luzes de uma cidade de verdade, bem longe das colônias alemãs.

Foi em um desses postos de gasolina no caminho que encontramos um empresário. Ele ficou apaixonado pela nossa voz e nosso talento e se ofereceu para nos ajudar. Chegar em São Paulo sem conhecer nada nem ninguém poderia ser muito perigoso para dois colonos (colono, no sul, é o equivalente ao jeca do sudeste). Seria muito melhor chegar com alguém que já sabia o caminho e ia abrir todas as portas.

São Paulo, aqui vou eu!

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